Histria, dcimo Segundo ano
Emlia Salvado Borges


                   Autores
            Emlia Salvado Borges
Transformaes da mentalidade e da cultura desde . comeo at meados
do sculo xx
        Benedicta Maria Duque Viira
Tenses polticas e equilbrios geo-estr.tgico, da 2' guerra mundial
aos nossos dia,
(Centro de Estudos de Hi,tria Conte.p.rnca Portuguesa/ISCTE)

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                    Capa
               Carlos de Moura

                 Ilustraes
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                APRESENTA O

     O bom acolhimento dispensado aos manuais de Flistria pua os 1 
Of e 1 1 f anos ---
Histria 10 e Histria 11, justifica a apresentao dos novos volumes 
destinados ao 12.'
ano, encerrando assim o conjunto dos livros postos  disposio dos 
alunos do Ensino
Secundrio.

     No 12f ano sero leccionados os quatro ltimos grandes temas do 
Programa (Temas
9 a KY que cobrem os sculos mx e xV clesde a revoluo industrial 
at aos grandes
problemas do mundo actual.

          Este novo manual obedece  mesma concepo e estrutura dos 
anteriores.

     Prope um amplo conjunto de instrumentos de trabalho, cujos 
textos escritos apa-
recem em itlico, que vo desde as fontes (documentos escritos e 
iconogrficos, iden-
tificados com o smbolo db. 1 at aos textos historiogrficos, mapas, 
grficos e
quadros, identificados co

     Sem perder de vista a exequibilidade do programa, pretendeu 
dar-se a alunos e pro-
fessores a possibilidade de seleccionarem, de entre os materiais 
propostos, aqueles que
melhor se adequem ao ritmo de trabalho, reservando outros para 
tarefas posteriores de
consolidao de conhecimentos.
     Continua este manual a dar grande nfase ao texto integrador, 
que aparece a duas
colunas, em tipo redondo, onde as ideias essenciais so destacadas a 
negro. Este texto,
em discurso que se pretende simples, no abdica, contudo, do rigor 
cientfico e da pro-
fundidade que se julga indispensvel em obras destinadas a alunos 
pr-universitrios.
     , pois, o texto base que vai permitir aos alunos no s a 
sistematizao dos conhe-
cimentos como tambm um trabalho individual de reflexo e 
consolidao das matrias
abordadas na aula.
     Tal como os anteriores, este manual inclui um lxico que 
permitir ao aluno encon-
trar a rpida explicao de termos ou conceitos (assinalados no texto 
com *) e uma
bibliografia geral e especfica de obras exclusivamente em lngua 
portuguesa.
     Este vasto conjunto de materiais permite ao aluno empreender 
urna abordagem da
Flistria de uam modo pessoal e cada vez mais autnomo.
     No fim de cada captulo, os alunos encantam diversificados 
propostas de trabalho,
que vo dos simples exerccios de reviso at  elaborao de um 
trabalho escrito, pas-
sando pela anlise de documentos de ndole diversa, acompanhados 
sempre de suges-
tes de metodologia a adoptar.
     Estas tarefas, indispensveis para a auto-avaliao dos 
estudantes, podem tambm
servir ao professor na avaliao formativa dos seus alunos.
     Os conceitos e noes, considerados bsicos para a compreenso 
do programa de
lAsOda do Ensino Secundrio, assim como as linhas metodolgicas 
relativas ao tra-
balho de projecto foram j explicitados nos volumes anteriores.



                                             Emlia Salvado Borges

                                        Benedicta M. Duque Vieira

                                             -,o      moo
                                   e m,

          TRANSFORMAOES DA
MENTALIDADE E DA CULTURA DESDE

O COMEO AT MEADOS DO
SCULO XX: A CRISE DOS VALORES
TRADICIONAIS; RUPTURAS
NO PENSAMENTO E NA ARTE;
A IRRADIAO DA CULTURA DE MASSAS








                     vem




          Amadeu de Sousa Cardoso, Urou de serrure... (1 Y 16)

1873      Maxwell: teoria electromagntica da luz.
1874      Telgrafo mltiplo Baudot.
1875      Processo S. G. Thomas para os minrios de ferro fosforosos. 
O balo Le Znith atinge 10 000 m.
1876      Graham Bell: o telefone.
          Viagem do Frigorifique de Ruo a Buenos Aires.
          Primeira bicicleta (H. J. Lawson).
1877      Edison: fongrafo.
1878
1879      D. E. Hughes: cria o microfone.
          Primeira rede telefnica (Londres).
          Primeira locomotiva elctrica do alemo Siemens.
1880      Laveran descobre o hernatozorio do paludismo.
1881      Pasteur: vacina contra o carbnculo.
          Edison inventa a lmpada elctrica de filamentos.
1882      O alemo Koch descobre o bacilo da tuberculose.
1884      O balo dirigvel La France percorre 7,5 km em circuito 
fechado. Turbina a vapor de Parsons. Georg Gaffky
          descobre o agente da febre tifide.
1885      Vacina anti-rbica de Pasteur.
1886      A espingarda de tiro rpido e de plvora sem fumo (Lebel).
1887      Experincias de Ilertz (de 1885 a 1889f
1888      Inaugurao do Instituto Pasteur.
1889      J. B. Durilop adapta um pneumtico a uma bicicleta. A seda 
*artificial+.
1890
1891      Ader: primeiro voo mecnico. Branly: o seu radiocondutor. 
Renan: o Avenir de la Science.
          Lippmann: a fotografia a cores. Dubois descobre em Java o 
pimcancopo.
1892      Motor de combusto interna de Diesel.
1893      O Gustave Zd, primeiro submarino militar. Central 
elctrica do Nigara.
1894      Soro do Dr. Roux contra a difteria. Yersin descobre o 
micrbio da peste.
1895      Morte de Pasteur. Roentgen: os raios X. A cinematografia 
dos irmos Lumire.

1896      Primeiras expedncias sobre a radioactividade. Primeira 
patente Marconi.
1897      Descoberta por Ross do agente vector da malria.
1898
1900      Pierre e Marie Curie descobrem o rdio.
          W. Reed prova que a febre-amarela  transmitida pelo 
mosquito Stegomyiafasciata.
1901      Primeira mensagem transocenica sem fios: Marconi 
(Dezembro).
1902      Starling descobre as hormonas.
1903      Primeiros voos dos irmos Wrigth (Dezembro).
1905      Primeira exposio por A. Einstein da sua teoria da 
relatividade.
1906      Primeiros trabalhos de Haber sobre a sntese industrial do 
amonaco. Primeiro Grande Prmio do Automvel
          Clube de Frana. Santos-Dumont voa 221 m.
1908      Wilbur Wrigth aguenta-se no ar durante 2 h 20 m 23 s. (Pau, 
31 de Dezembro).
1909
1910      Travessia area da Mancha por Blriot (25 de Julho). O 
americano Pear y atinge o Plo Norte (6 de Abril).
          Madame Cue e A. Debieme produzem rdio puro. Henri Fabre 
constri o primeiro hidroavio. C. Funck
          descobre as vitaminas.
1911      O noruegus Amundsen atinge o Plo Sul (14 de Dezembro).
          *Exposio Livre+.
          Museu da Arte Contempornea.
1912      1 Exposio dos Hurnoristas. Amadeo Sousa Cardoso, *XX 
Dessins+.
1913      Travessia area do Mediterrneo por Garros. Primeiro 
looping (Pgoud).
          11 Exposio dos Hurnoristas.
          1 Exposio de Almada Negreiros.
          Amadeo, cubista e abstracto.
1914      Amadeo expressionista.
          Amadeo, Santa-Rita, Pacheio, Basto, Diogo regressam de 
Paris.
          Columbano, director do Museu da Arte Corntenpornia.
1915      1 Exposio de Humoristas e Modernistas no Porto.
          Os Delaunay em Portugal.
          Congresso de Artistas e Escritores Modernistas.
          Nmeros 1 e 2 de Orfeu.
1916      11 Exposio dos Modernistas e Exposio dos Fantasistas no 
Porto.


       CR6NOLOMA                           po q?
 ---                                                                
                                                    k

       ~sies de Arnadeo no Pwto e em LAN,
1917   Sesso futurista (Abril).
       Portugal Futurista (Novembro).
       Fernando Pessoa-Alvaro de Campos, Mandado de Despejo aos 
Mandarins da Europa.
1918   Publicao do Manifesto Dada por Tristan Tzara. Marcel Proust: 
A Pombre desjeunesfilles enfleur

       (Prmio Goncourt, 1919).
       Ballets de Almada, que parte para Paris.
1919   Andr Gide: La Symphonie Pastorale. Desintegrao do tomo por 
Rutherford. Georges Claude realiza a sn-
       tese do amonaco por hiperpresses. Inveno da borracha 
sinttica. Thomas Hunt Morgan enuncia a teoria
       cromossmica da hereditariedade.
       111 Exposio dos Modernistas no Porto.
1920   Henri Bergson publica L'Energie spirituelle. Jacques Maritain: 
Art et scolastique. Oswald Spengler:
       O Declinio do Ocidente. Charlie Chaplin realiza e desempenha 
The Kid. Charles Despiau esculpe Antoinette.
       111 Exposio dos Modernistas no Porto.
       Almada regressa de Paris. A. B. C. (at 1932).
1921   -    Luigi Pirandelo: Seis Personagens  Procura de um Autor. 
John dos Passos: Trs Soldados. Arthur van den
       Bruck: O Terceiro Reich. Processo Belin da telefotografia. 
Realizao pelo alemo Bergius da sntese
       industrial dos carburantes.
       Comcio modernista no Chiado Terrasse.
1922   -    Paul Valry: Charmes. Luigi Pirandello: Henrique IV. 
Roger Martin du Gard: o primeiro volume dos
       Thibault (1 922-1940). Exposio internacional Dada. Fundao 
da companhia United Artists por Charlie
       Chaplin.
       Contempornia (at 1926).
1923   -    Benedetto Croce: Poesia e no poesia. Rainer Marie Ri1ke: 
Os Sonetos a Orfeu. Primeiras emisses regu-
       lares de TS17.
       Exposio dos Cinco Independentes.
1924   -    Thomas Mann: A Montanha Mgica. Sergei Eisenstein realiza 
o filme O Couraado de Potenkine. Enunciado
       dos princpios da mecnica ondulatria por Louis de Breoglie. 
O Cruzeiro Negro de Citrort na Africa.
       IV Exposio dos Humoristas.
       Athena (at 1925).
1925   Andr Gide: Os Moedeiros Falsos. Publicao do Processo, de 
Kafka. Charlie Chaplin realiza e interpreta
       A Quimera do Ouro. Experimentao do autogiro, antepassado do 
helicptero.
       I Salo de Outono.
       Quadros de A Brasileira.
       Exposio pstuma de Amadeu em Paris.
1926   Franois de Mauriac: Teresa Desqueyroux. Erwin Schrdinger 
concilia as mecnicas ondulatria e quntica.
       11 Salo de Outono.
       IV Exposio de Modernistas no Porto.
       Decoraes do Bristol Club.
       Manta, Dordio, Diogo e Franco regressam de Paris.
       Cristino da Silva, projecto do Capitlio (inaugurado em 193 
1).
       Ilustrao (at 1935).
1927   Martin Heidegger: Ser e Tempo. Andr Gide: Viagem ao Congo. 
Publicao de Castelo, de Kafka. Advento
       do cinema falado: The Jazz Singer. Werner Heisenberg 
estabelece o princpio da incerteza. Exposio da teoria da
       expanso do universo pelo abade Lemaitre. Primeiro voo 
transatlntico oeste-leste conseguido por Lindberg.

       Almada parte para Madrid.
       Carlos Ramos, projecto do Pavilho do Rdio (inaugurado em 
1933).
       Presena (at 1940).
1928   Andr Breton: Nadja. Andr Malraux: Les Conqurants. Federico 
Garcia Lorca: Romancero Gitano.
       Maurice Ravel compe Bolero. Lus Bufluel realiza Um Co 
Andaluz. Walt Disney realiza o primeiro dese-
       nho animado: Mickey Mouse. Albert Einstein formula a teoria do 
campo unitrio. Inveno do beto arma-
       do pelo francs Eugne Freysinet. Registo dos sons em banda 
magntica.
       Homenagem nacional a Malhoa.
1929   Martin Heidegger: Da Natureza do Fundamento. Paul Claudel: O 
Sapato de Cetim. Ernest Herningway: O
       Adeus s Armas. Erich-Maria Remarque: A Oeste Nada de Novo. 
Publicao do Segundo Manifesto do
       Surrealismo. Alexandre Fleming descobre a penicilina.

8


      CR0"I@

               Exposio do grupo Mais alm no Porto.
               Morte de Colunibano.
1930        -  John dos Passos: O Paralelo 42. Charlie Chaplin 
realiza Luzes da Cidade. Primeiro voo transatlntico oeste-
               ~leste por Costes e Bellonte.
               1 Salo dos Independentes.
               Cassiano Branco, projecto do Eden (inaugurado em 
1937).
1931        -  Paul Valry: Regards sur le Monde Actuel. Antoine de 
Saint-Exupry: Vol de Nuit.
               11 Salo dos Independentes.
               Concurso para edifcios dos liceus.
1932        -  Henry Bergson: Deux Sources de Ia Morale et de Ia 
Rligion.
               Marinetti em Lisboa.
               Almada regressa de Paris e Eloy de Berlim.
               1 Salo de Inverno.
1933        -  Andr Malraux: La Condition Humaine (Prmio Goncourt). 
Federico Garcia Lorca: Npcias de Sangue.
               Henri Matisse pinta A Dana.
               Morte de Malhoa.
1934        -  Aristide Maillol comea a esculpir As Trs Graas (I 
934-1937).
               Jorge Segurado, projecto da Casa da Moeda (inaugurada 
em 1936).
               Pardal Monteiro, projecto da Igreja de N.' S.' de 
Ftima (inaugurada em 1938).

1935      - Enrico Fermi realiza a fisso do tomo.
               1 Exposio de Arte Moderna do S. P. N.
               Antnio Pedro em Paris participa no *Dimensionismo+.
1936      -   Margaret Mitchell: E Tudo o Vento Levou. Andr Gide: 
Retour d'U.R.S.S.. Federico Garcia Lorca: A Casa

               de Bernarda Alba. Jeari-Paul Sartre: L'Imagination. 
Charlie Chaplin realiza e desempenha Os Tempos
               Modernos.
               II Exposio de Arte Moderna do S. P. N.
               Exposio dos Artistas Modernos Independentes.
               Exposio do Ano X da Revoluo Nacional.
               Exposio de Arte Popular no S. P. N.
1937      -   Jean Anouilh: Le Voyageur sans bagages. John Steinbeck: 
Ratos e Homens. Pablo Picasso pinta Guernica.
               Jean Renoir realiza A Grande Iluso. Exposio 
Internacional Artes e Tcnicas na Vida Moderna em Paris.
               Keil do Amaral, pavilho portugus na Exposio 
Universal de Paris.
1938      -   Andr Malraux: L'Espoir. Jean-Paul Sartre: La Nause. 
Serghei Eisenstein realiza o filme Alexandre Newski.
               Marcel Carn realiza Cais das Brumas.
               Cristino da Silva, projecto da Praa do Areeiro.
1939      -   Andr Gide: Journal. Jean Girardoux: Ondine. Antoine de 
Saint-Exupry: Terres des Homnies. John
               Steiribeck: As Vinhas da Ira.
               Conferncias antimodernistas de Arnaldo Ressano.
1940      -   Ernest Hemingway: Por Quem os Sinos Dobram. Roger 
Martin du Gard: publica o ltimo volume dos Thibault.
               Exposio do Mundo Portugus.
               Exposio de Antnio Pedro e Antnio Dacosta.
               Almada Negreiros, frescos do Dirio de Notcias.
               Viana regressa da Blgica.
1941      -   Bertolt Breclit: criao de Me Coragem e Seus Filhos 
em Zurique. Max Errist executa A Europa depois da
1942      -   Albert Camus: O Estrangeiro e O Mito de Ssifo. 
1942-1944, Serghei Eisenstein realiza o filme Ivan o Terrvel.
1943      -   Jean-Paul Sartre: O Ser e o Nada e, em Junho, As 
Moscas. Saint-Exupry: O Principezinho.
1944      -   Jean Anouilh: Antigona. Sorrimerset Maugham: O Fio da 
Navalha.
1945      -   Lon Blum: A Lchelle Humaine. Jean Girardoux: La Folle 
de Chaillot. Albert Catrius: Caligula. Carlo
               Levi: Cristo Parou em Eboli. Roberto Rossellini 
realiza o filme Roma, Cidade Aberta.


               Nota: Os itens assinalados com * referem-se a 
acontecimentos portugueses.

               Cronologia baseada em dados colhidos em: Pierre 
Thibault, O Perodo das Ditaduras, 1918-1947,
               Lisboa, D. Quixote, 198 1, pp. 306-401; Jos Augusto 
Frana, O Modernismo na Arte Portuguesa, Lisboa,
               1983, pp. 109-1 1 1.

                                                                 9

==Mim


        ATITUDES E PADRES CULTURAIS
            DA SOCIEDADE BURGUESA
             NO LIMIAR DO SCULO








Pierre Bonnard (1867-1947), A Tarde Burguesa (1900)

                      i
                      i

               ---------------

O PRESTGIO DA CIENCIA E A CREN NO PROGRESSO CIVILIZACIONAL.
                   A MENTALIDADE RACIONALISTA


     1.   O CIENTISMO

     2.   O POSITIVISMO








                    VIA,








Almada Negreiros, O Qumico, painel gravado na Faculdade de Letras de 
Lisboa

                    11k1TUDES E PADRES 4JURAIS D

          1.   O CIENTISMO

               Durante todo o sculo xix e at mesmo 
          Primeira Guerra Mundial, a Europa viveu um pero-
          do de euforia criadora e a vida intelectual foi domi-
          nada pelo progresso cientfico. Numerosos inventos
          e descobertas (ef. cronologia) faziam acreditar
          que o progresso estava intimamente ligado ao
          desenvolvimento cientfico (doe. 1). Os sbios

          adquiriram estatuto profissional prprio, tornaram-se
          verdadeiros especialistas respeitados pelos seus
          trabalhos e pela sua autoridade moral. Esse res-
          peito raiava, nalguns casos, a idolatria.
     As dncias exactas conheceram grandes avan-
os. A matemtica tornou-se um precioso ins-
trumento de niedida para outras cincias que
necessitavam de todo o rigor nas suas verifica-
es e experincias e conheceu grande desenvcA-
vimento com os trabalhos do noruegus Abel,
com a sua teoria das equaeb do russo
Lobatchevsky e do hngaro Bolyai com as geo-
metrias no-euclidianas.

             A fsica desenvolveu-se devido aos trabalhos
de Ampre, Olim, Faraday e Maxwell no domnio
da electricidade. Em 1889, Hertz demonstrou que
tanto a luz como as oscilaes elctricas se deslo-
cavam atravs de ondas (ondas hertzianas) e, em
189@ Lorenz descobriu os eleMes. Em 1895, o
demo Roentgen isolou os raios X (doe. 2) e, no
ano seguinte, Becquerel descobriu a radioactivi-
dade. Dois anos mais tarde, Pedro e Marie Cude
demo"oamm o carcter atmico da radioactivi-
dade (doe. 3). O neozelands Rutherford estudou,
etitre 1902 e 1919, a estrutura do tomo, desco-
bando que este em formado por um ncleo rodea-
do de electiVes. E, em 190, Albert Einstein publi-
cou a sua teoria da relatividade.
     O sculo xix foi tambm o sculo do nasci-
mento da biologia. Em 1809, Lamarck, naturalis-
ta francs, levantou a hiptese de que as espcies
se tinham modificado pouco a pouco devido 
influncia do meio e que tinham transmitido essas
modificaes hereditariamente. Darwin, em 1859,
avanou ainda mais e ps em causa a tradio
bblica sobre a criao (doe. 4), ao publicar A
Origem das Espcies, onde exps a sua teoria
evolucionista (doe. 5).
     A pesquisa cientfica tocou tambm a fisiologia
e a medicina, onde pontuaram cientistas como
Claude Bernard, Louis Pasteur e Koch.

1 4

                      o

     O interesse pela cincia era tal que se multipli-
cavam as revistas e os congressos cientficos.
     Desenvolveu-se assim uma corrente de pensa-
mento - o cientismo -, segundo a qual a res-
posta a todas as questes colocadas pelo homem se
encontrava na cincia (doe. 6).


2.   O POSITIVISMO

     Quase a rondar os meados do sculo xix,

Augusto Comte, com a sua obra Discurso sobre o
Esplto Positivo (1844), lanou as bases de uma
doutrina filosfica - o positivismo, que viria a
constituir a legitimaro da viso cientfica do
Mundo.
     Corate fundamenta as suas teorias na Lei dos
Trs Estados: a humanidade e o pensamento
humano teriam passado por trs fases, desde a igno-
rncia at  cincia. Inicialmente, por fases menos
elaboradas, ou seja, pelos estdios de infncia e
de adolescncia, que correspondem ao pensamento
meolgic~ e *metafsico+ e, por fim, teriam atin-
gido o estdio adulto ou *positivo+ (doe. 7).
     Na primeira fase, a humanidade era incapaz
de explicar os fenmenos pelas suas verdadeiras
causas, atribuindo a explicao desses Anme-
nos a seres divinos e atingiu o estdio teolgico,
Na segunda fase, no estdio metafsico ou filos-
fico, a realidade era explicado atravs de conceitos
e ideias, ou entidades abstractas. Apenas na ter-
ceira fase a humanidade atingiu a maturidade, ao
conhecer a realidade pelas explicaes positivas
da cincia experimental, mediante a observao e
a verificao.
     O estdio positivo  o mais elevado que o esp-
rito humano pode alcanar. Contudo, o esprito
no progride em todo o lado ao mesmo ritmo e
estagna, por vezes, em qualquer dos estdios ante-
riores, durante mais ou menos tempo.
     A cada fase corresponde uma forma de socie-
dade: ao estdio teolgico corresponde uma socie-
dade clerical e feudal; ao metafsico, uma socie-
dade revolucionria, e ao positivo, uma sociedade
cientfica e industrial.
     Esta corrente de pensamento, foi a expresso
filosfica do extraordinrio desenvolvimento das
cincias no sculo xix, da industrializao e de
uma civilizao cujos progressos tcnicos faziam
acreditar num futuro melhor. Ela impregnou as

TIGIO DA CIENCIA E A CREN@@ _Q

concepes da sociedade, de educao, da poltica,
etc. Todas as actividades humanas se deveriam
reger por princpios cientficos.

     O positivismo influenciou pensadores dos mais
diferentes domnios, da filosofia  cincia, da lite-
ratura s artes. Entre os franceses Taine, filosofo,
o fillogo Littr, o fisiologista Claude Bernard, o
qumico Berthelot e o gegrafo Vidal de Ia Blache;





DOCUMENTOS


os alemes Errist Laas, Dhring, Durkhein,
Petschel e Ratzel; os italianos Pasquale Villari e
Nicola Marselli, entre outros. Em Portugal foram
influenciados pelo positivismo pensadores e
homens de letras como Tefilo Braga, Antero de
(Quental (numa fase da sua vida, depois criticar o
positivismo) (doc. 8), Ea de Queiroz, na fnedici-
na e psicologia Miguel Bombarda, etc.







0 PROGRESSO CIENTFICO E TCNI1CO

     A uropa conservava o seu sangue@0!o porque acreditava, apesar de 
tudo, no pro-
gresso: a palavra suscita ento um verdadeiro culto prestado  
cincia nos seus templos, os
laboratrios. O cientismo cr que o progresso material trar consigo 
o progresso moral e que,               A

como disse mile de Girardin, *quanto mais se avanar no futuro, mais 
as ideias pacficas pro-
grediro+.  um postulado, um refgio tambm, mas realmente 
tranquilizados. [...              l

     [... 1 A originalidade do ltimo tero do sculo xix encontra-se 
principalmente na multipli-
cidade e na precipitada sucesso das invenes, que impressionaram os 
contemporneos a
ponto de os embriagar um pouco. Contentemo-nos com um exemplo Tirado 
da histria dos
transportes; tinham decorrido, entre a patente de Watt e a primeira 
locomotiva aceitvel, a
Rocket, sessenta anos (1 769-1829). Porm, as patentes do motor de 
exploso depositadas por
Otto, Forest, Dainiler de 1876 a 1887 encontram a sua utilizao no 2 
cv de Panhard e
Levassor logo em 1891: quinze anos bastaram para criar o automvel,j 
munido de todos os
rgos que hoje o definem.

Albert Jourein, Prlogo ao Nosso Sculo (1871-1918), Lisboa, D. 
Quixote, 1981.






   A APLICAO PRATICA
DAS NOVAS DESCOBERTAS
            CIENTFICAS







     Uma contrabandista,
presa em flagrante, foi
submetida aos raios X,
tendo-se comprovado que
tmnsponava ouro (1897)



15

UMA DESCOBERTA FUNDAMENTAL

     A nossa ateno foi atrada por um fenmeno curioso descoberto 
em 1846 por Henri
Becquerel. A descoberta dos raios X por Roentgen excitava por essa 
altura as imaginaes, e
vrios fsicos investigavam se raios semelhantes no eram emitidos 
pelos corpos josforescentes,
sob a aco da luz. Henri Becquerel estudava sob este ponto de vista 
os sais de urnio e assim
encontrou um fenmeno diferente do que ele procurava: a emisso 
espontnea pelos sais de
urnio de raios de uma natureza particular Foi a descoberta da 
radioactividade
     Dava lugar a perguntar-se donde provinha a energia, mnima  
certo, libertada constante-
mente pelos compomos de urnio sob a frma de radiaes. [-.]
     O mtodo que empregamos  um novo mtodo de pesquisa qumica 
baseada na radioactivi-
dade. Consiste em efectuar separaes pelos meios ordinrios da 
anlise qumica, e a medir, nas
condies convenientes, a radioactividade de todos os produtos 
separados. [...   1 Temos podido
reconhecer que a radioactividade se concentrava principalmente em 
duas fraces qumicas
diferentes, e fomos levados a caracterizar na pecheblenda a presena 
de, pelo menos, dois
radio-elementos novos: o polonium e o radium.








A EVOLUO SEGUNDO
LAMARCK E DARWIN




                    wmw--








LAMARCK           DARWIN

     Pekr Ku=mann e outros,
Atlas de Ia Philosophie, Paris, 1993.

1 6

Wie Curie, Pterre CuA4 Pay~ 1924.







A LUTA PELA VIDA,
CHAVE DA EVOLUO

     Cada espcie tende, devido  razo
geomtrica elevada da sua reproduo,
a aumentar em nmero de modo des-
mesurado, e os descendentes modifi-
cados de cada uma podem multiplicar-
-se tanto mais quanto mais apresenta-
rem conformaes e hbitos diferen-
tes. Estaro assim em melhores condi-
es de tomar um maior nmero de
posies diferentes na economia da
natureza, e a seleco natural tender
constantemente a conservar os descen-
dentes mais divergentes de uma dada
espcie

     Por isso, no curso continuado de
modificaes, as ligeiras diferenas
que caracterizam as variedades da
mesma espcie tendero a crescer, at
atingirem o nvel das mais importantes
que caracterizam as espcies de um
mesmo gnero. As novas variedades
melhoradas acabaro por substituir e

inevitavelmente exterminar as variedades inais antigas, 
interniedirias e inenos perfeitas, e as
espcies tornar-seWo assim objectos distintos e bem definidos.
     As espcies dominantes, que fazem parte dos grupos principais de 
cada classe, tendem a dar
origem a formas novas e dominantes. Cada novo grupo tende assim a 
crescer sempre mais, e ao
mesmo tempo, a apresentar caracteres mais divergentes.
     Mas, todos os grupos no podem conseguir aumentar de nmero, 
pois a Terra no podia

cont-los. So os maisfortes que destroem os que o so menos. Esta 
tendncia que tm os gru-
pos j grandes de aumentar sempre e de divergir pelas suas 
caractersticas, juntamente com a
circunstncia quase inevitvel de uma extino considervel, d conta 
da arrumao de todas
asformas vivas, em grupos subordinados entre si, e todos 
compreendidos num pequeno nme-
ro de grandes classes, as quais tm sido sempre preponderantes. Este 
grandefeito do agrupa-
mento de todos os seres organizados sob aquilo a que se chamou o 
Sistema Natural  absolu-
tamente inexplicvel na teoria da criao.

                                   Darwin, A Origem das Espcies, 
1859.








A HOMENAGEM DE UM GRANDE MATEMATICO AO CIENTISMO
                                   DE MARCELLIN BERTHELOT

     Em todas as esferas em que se manifestava a sua actividade, ele 
aparecia como o repre-
sentante da razo cient~ desta poderosa e serena faculdade do 
esprito humano que con-
templa a natureza com lucidez, constri com os factos, no com as 
palavras, e no deixa
impor nemfreio aos seus esforos, nem barreira s suas pesquisas. 
[...        1
     Qualfoi, nas concepesfilosficas de Berthelot, a ideia defundo 
suficientemente poderosa
para sustentar e inspirar todas as suas pesquisas cient07cas? Foi a 
crena na unidade do uni-
verso, dos seusfenmenos e das suas leis. Entre o mundo mineral e o 
mundo da vida, no h
nenhum abismo. As combinaes qumicas que a natureza realiza no 
solo, nas razes de uma
planta, no estmago de um animal, o sbio pode reproduzi-las nos seus 
cadinhos e nas suas
retortas. Mais ainda, uma vez deslindadas as secretas afinidades dos 
corpos, ele  capaz de
criar combinaes novas que a natureza no nos oferece. Foi desta 
concepo que saiu a sn-
tese qumica [...  1. Desde 1854, com apenas vinte e sete anos, que 
ele tenta as suas mais auda-
ciosas snteses. Porfim, a que domina todas as outras, a sntese do 
acetileno, a mais surpreen-
dente, a mais inesperada, a mais simples: o carvo e o hidrognio, em 
presena do arco elc-
trico, unem-se para produzir este corpo cuja sntese prepara a 
sntese puramente qumica de

todos os hidrocarbunetos, dos alcois, dos corpos gordos, numa 
palavra de todos os produtos
naturais.
     Terminou a antiga diferena entre substncias minerais e 
substncias orgnicas: terminou
a ilusria fico dafora vital. Conquista filosfica de um valor 
inestimvel! Os seres vivos,
do ponto de vista qumico, no deveriam ser mais olhados *seno como 
uma espcie de labo-
ratrios onde os princpios materiais se assimilam, se eliminam, se 
transformam sem cessar+,
segundo as leis invariveis da natureza inorgnica. Berthelot estava 
pois no direito de concluir
com um legtimo orgulho: *O domnio em que a sntese qumica exerce o 
seu poder criador 
maior que o da natureza actualmente realizadas.

                              Paul Painlev, Paroles et crits, 
Reider, 1936.

                                                                 1 7

O POSITIVISMO

               Para explicar convenientemente a verdadeira natureza e 
o carcter prprio da filosofia posi-
          tiva,  indispensvel lanar primeiro uma vista de olhos em 
geral sobre a marcha progressiva
          do esprito humano, encarada no seu conjunto: pois uma 
concepo, seja ela qual for, s
          pode ser bem conhecida atravs da sua histria.
               Assim ao estudar o desenvolvimento total da 
inteligncia humana nas suas diversas esferas
          de actividade, desde a sua manifestao mais simples at 
aos nossos dias, julgo ter descober-
          to uma grande leifundamental,  qual aquele desenvolvimento 
est submetido [...                  1.
               Esta lei consiste em que cada uma das nossas 
concepes principais, cada ramo dos nossos
          conhecimentos, passa sucessivamente por trs estados 
tericos diferentes: o estado teolgico,
          ou fictcio; o estado metafsico, ou abstracto; o estado 
cientfico, ou positivo. [...          1
               No estado teolgico, o esprito humano, dirigindo 
essencialmente as suas investigaes para
          a natureza intima dos seres, para as causas primeiras 
efinais de todos os efeitos que o atingem,
          numa palavra, para os conhecimentos absolutos representa-se 
os fenmenos como sendo
          produzidos pela aco directa e contnua de agentes 
sobrenaturais mais ou menos numerosos,
          cuja interveno arbitrria explica todas as anomalias 
aparentes do universo.
               No estado metafsico, que no  nofundo seno uma 
simples modificao geral do primei-
          ro, os agentes sobrenaturais so substitumos por foras 
abstractas, verdadeiras entidades

          (abstraces personificadas) inerentes aos diversos seres 
do mundo, e concebidas como sendo
          capazes de engendrar por si prprias todos os fenmenos 
observados, consistindo a explicao
          em assinalarpara cada um destes a entidade correspondente.
               Enfim, no estado positivo, o esprito humano 
reconhecendo a impossibilidade de obter
          noes absolutas, renuncia a buscar a origem e o destino do 
universo, e a conhecer as causas
          intimas tlosfnnmenos, para se dedicar unicamente a 
descobrir, atravs do uso do bem com-
          binado do raciocinio e da observao, as suas leis 
efectivas, quer dizer as suas relaes inva-
          riveis de sucesso e de semelhana A explicao dosfctos, 
reduzida ento aos seus termos
          reais, no  doravante seno a ligao estabelecido entre 
os diversosfenmenos particulares
          e alguns factos gerais cujo nmero tende a ser cada vez 
mais diminutos pelos progressos da
          cincia.

               Augusto WUe, ~osoph Pw~ Pis, 1 P@ in L NL Barbosa, 
M.' J.V. Pinto, A. Marques e Leonel R. dos

                         Santos, Nova Filosofia 3, Lisboa, Editorial 
O Livro, 1990.




UMA SOCIEDADE FUNDADA SOBRE A CI NCIA

          Ao                                Numa tal sociedade, como 
a que imaginamos (fundada toda sobre a cincia) uma rigorosa
                    adaptao  realidade, uma determinada fixidez de 
ideias e de classificaes, um equilbrio sen-

          sato entre os desejos e as possibilidades de realizao, um 
predomnio, para tudo dizer, de pru-
          dncia e de razo, definindo cada vez mais os fenmenos do 
mundo e os sentimentos do
          homem, h-de ir proporcionalmente estreitando dia a dia o 
crculo de aco da fantasia, os
          domnios do vago e do imprevisto, no deixando ao capricho 
da imaginao, ao sonho, s intuies
          mais do que um lugar secundrio e insignificante - Os 
sentimentos, ainda os mais livres e
          espontneos, esses mesmos iro tomando um repouso e uma 
gravidade em harmonia com as
          outrasformas do esprito. A paixo ser razovel; o 
entusiasmo medido: e ainda nos mais vio-
          lentos 6jctos se deixar ver o ritmo sereno de uma alma 
ordinariamentefirme e consciente -
          Resolvidos os problemas, cuja incerteza mais nos angustia, 
uma confiana maior e uma cren-
          a descansada nas leis do universo tomaro naturalmente o 
lugar desta nsia angustiosa, desta

o llgmllllll$!41% E A                     PROOESSI, 1VILIZACIONAL

                                                            .... 
......

dolorosa instabilidade, que tanto oprime o sentimento contemporneo. 
Postos os espritos no
estado de equilbrio moral que se chama crena, e, por outro lado, 
assente a sociedade nas
bases da justia e da verdade, deixaro de pungir os coraes os dois 
mais agudos espinhos, o
cepticismo e a desigualdade, nos dois lados mais sensveis e doridos, 
o sentimento religioso e
o sentimento da justiw Isto no  outra coisa mais do que a paz com 
o cu e com a terra: a
ordem nas coisas divinas e nas humanas - Como consequncia de todas 
estas condies de
harmonia efixidez ver-se- a alegria e a serenidade consolar o mundo 
da palidez destes nossos
tempos de melancolia e de dvida. Chorar-se- menos; j pelo 
desaparecimento de muitos moti-
vos de desgosto; j pela disposio interior dos homens, mais ligados 
com a realidade e
menos inclinados  paixo e ao desespero.

     Eis, em traos gerais, a provvel fisionomia do esprito humano 
numa sociedade fundada
sobre a cincia.

     Antero de Quental, *O Futuro da Msica+, O Instituto. Jornal 
Scientifico e Litterario, 13.' vol., n.' 10, 1866.








                    TRAB


     A.   CnieMrie de texto


                    Ofim da IM,ha positiva  de talforma 
surpreendente na sua aco sobre o pro-
               gmmofuturo da humanidade, que, no tendo existido at 
ao nosso sculo uma verdadeira
               Filos(@fia geral e completa, ainda assim, se pode 
*firmar que [...                1 quanto o homem tem
               avanado se deve somente ao impulso de algumas ideias 
que tiraram a.fora da sua ver-
               dade da verificao cientfica.  No dia em que as 
sociedades modernas receberem o
               ensino das cincias                      ento as 
sociedades realizaro o maior progresso possvel

     ANo Bragv Traos Gerais da Filosofia Positiva, comprovados 
pelas descobertas
                                        cientficas Poderias, Lisboa, 
1877.


     1. Comente o documento 1, pondo em destaque a relao entre 
cincia e progresso.



     B@


     E Indique de que modo explica o positivismo o progresso da 
humanidadEL

     2.   Explique a atitude perante a cincia da sociedade burguesa 
do incio do sculo XX.

     CONFIANA NOS VALORES MORAIS BURGUESES



1.   O IMPRIO DA FAMLIA: RESPEITO PELAS CONVENES RELIGIOSAS
     E SOCIAIS








                     x








               7---

                    Edgar Degas, Retrato de Famlia (1867)

                     AI

1.   O IMPRIO DA FAMLIA; RESPEITO
     PELAS CONVENES RELIGIOSAS
     E SOCIAIS

     No incio do sculo xx, os severos princpios
burgueses da autoridade, gosto pela poupana,
culto do trabalho, respeito pelo dinheiro, vigilncia
rgida das relaes mundanas, preparao cuidada

das filhas para o casamento e a exaltaro da vida
em famlia, continuavam a ser os valores pr-
prios da sociedade, no s da grande burguesia
mas tambm das classes mdias que a esses valo-
res tinham aderido.
     O imprio da famlia era indiscutvel (doc. 1)
e a imporncia do papel do pai, e da autoridade
corno chefe da farclia, continuava inalterado,
assim como a limitao do papel da mulher.
     A mulher estava reservado um papel no inte-
rior da casa e no seio da famlia, enquanto aos
homens se destinavam todos os assuntos que
tivessem que ser resolvidos no exterior e, como
tendncia, o prover ao sustento do lar.
     Mesmo nos casos em que a mulher tinha um
efectivo poder dentro de casa e urna palavra a
dizer sobre questes familiares importantes, con-
tinuava a parecer essencial que, pelo menos apa-
rentemente, o papel de chefe no fosse retirado
ao marido, no s perante os filhos mas tambm
perante os vizinhos. O respeito pelas convenes
sociais era extremamente importante, mesmo
que no passassem de manifestaes externas.
     Nesta sociedade onde os valores domsticos
tinham tanta importncia, cada indivduo valia
pelo que conseguira com o seu prprio esforo
mas tambm, em grande parte, pela sua famlia e
pela contribuio desta para o seu xito. Da o
controle que era exercido pela famlia sobre a
sociabilidade e a sexualidade dos seus mem-
bros, sobretudo das mulheres, e sobre o casa-
mento dos descendentes. Nas famlias com patri-
mnio e estatuto social a preserva4 as estrat-
gias de alianas familiares eram extremamente
importantes.
     Fundar um lar no devia tanto ligar-se a padres
emocionais ou estticos rnas antes deviam ser tidos
em conta outros factores como a profisso, a situa-
o econmica e as qualidades morais dos nuben-
tes. Mais do que as questes puramente afectavas,
o casamento era um contrato atravs do qual se
formava uma equipa destinada ao sucesso e capaz

                     22

de perpetuar os valores morais da sua classe. Nas
classes mais baixas estas preocupaes eram quase
inexistentes.
     A moral crist reforava tambm a ideia de
que  mulher estava reservado um importante
papel como esposa e me (doc. 2), tarefa que
devia realizar com submisso e abnegao. A
mulher perfeita deveria ser capaz de dosear as pr-
ticas devocionais e as virtudes domsticas, nomea-
damente no tocante  gesto do oramento doms-
tico, tal como ao marido se reservava a gesto do
patrimnio familiar.
      possvel detectar, contudo, uma atenuao

progressiva da subordinao da mulher ao
homem ao longo do sculo xix e incio do sculo
xx, apesar de muito tmidas.
     A emancipao feminina foi, todavia, mais fcil
nos pases protestantes, de direito germnico e for-
temente urbanizados, que nos pases catlicos, de
direito romano e ainda fortemente rurais (doc. 3).
     Entre essas tmidas conquistas femininas conta-
-se, por exemplo, a possibilidade que as mulheres
tiveram de pedir o divrcio. Isto s foi possvel
em perodos em que houve uma forte laicizao
da vida pblica, como, por exemplo, em Frana,
aps a separao da Igreja do Estado, a partir de
1905 ou, em Portugal, durante a Primeira Repblica.
     Alguns pases vieram tambm a permitir que as
mulheres pudessem controlar em parte os seus
bens: em Frana, a partir de 1907, a mulher pde
dispor livremente do seu salrio e, na Alemanha, a
partir de 1900, pode opor-se, em justia, ao mau
uso que o marido fizesse dos bens do casal.
     Parte dessas conquistas foram conseguidos pela
presso exercida pelos movimentos feministas
que se tinham multiplicado na Europa e nos
Estados Unidos, desde finais do sculo xviii. As
mulheres faziam ouvir a sua voz no s em manK
fesoes de rua como atravs da imprensa femi-
nina ou de inmeras associaes, algumas delas
ligadas a partidos democrticos.
     Reivindicavam o fim da dependncia conju-
gal, do direito de o marido dispor dos bens da
esposa e de administrar os bens do casal, bem
como de usufruir exclusivamente do direito pater-
nal sobre os filhos. Reivindicavam ainda o acesso
a estudos superiores, o direito de voto e o direito a
salrio igual para trabalho igual.
     O direito de voto tornou-se, de facto, uma das
principais exigncias do movimento feminista do

                                             NEM

incio do sculo xx. Os movimentos de emancipa-
o feminina reivindicavam ainda o diredo da
mulher ao seu corpo e  prtica anticonceptiva,
enquanto reabilitavam a maternidade celibatria.
Alguns grupos ligara=e ainda a aces filan-
trpicas de trabalho social, numa clara manifes-
tao da importncia cvica do papel feminino na
sociedade.
     A par deste tipo de reivindicaes surgiram
tambm as vozes, femininas e masculinas, que
reclamavam a melhoria da educao para as clas-
ses populares.
     A burguesia e as classes mdias tiveram unia
importncia decisiva na transmisso dos valores
burgueses e na sua transformao em ideologia
dominante. Foram esses grupos que fizeram pres-
so junto dos Estados para renovar o ensino
secundrio e superior, reservado aos seus filhos,

mas tambm para a generalizao do ensino pri-
mrio obrigatrio, que se tornou numa das preo-
cupaes dos Estados liberais.
      inegvel que uma certa filantropia esteve na
base desta preocupao pela elevao do nvel
cultural do povo, mas no deixa de ser tambm
verdadeiro que a isso se aliou a ideia de que as mas-
sas laboriosas eram mais facilmente controlveis se
tivessem alguma educao, o que no deixava, con-




DocumENTOS

tudo, de ser uma faca de dois gumes (docs. 4 e 5).
   As escolas populares (doc. 6) tornaram-se
assim num veculo privilegiado de transmisso
dos valores conservadores e da moral laica e bur-
guesa que o povo incorporou tambm como seus.
     Este modelo de educao laica nem por isso
veio alterar a distino entre direitos e deveres
diferenciados para os homens e para as mulhe-
res. Numerosas escolas continuavam a ter curr-
culos prprios para rapazes e para raparigas, a
quem estava reservada a aprendizagem de disci-
plinas de ndole domstica, necessrias  manu-
teno do papel feminino tradicional (doc. 7).
     Apesar de terem tido acesso a escolas secun-
drias e mesmo ao ensino superior, numerosas
carreiras continuavam vedadas s mulheres,
que, apesar de ms instrudas, deveriam ocupar o
lugar que a sociedade lhes reservara ou dedicar-se
a tarefas profissionais que fossem a continuao
das tarefas domsticas, por exemplo a de profes-
sora ou de enfermeira.
     Consideradas como seres intelectualmente infe-
riores, as mulheres continuavam a ter muita dificul-
dade em impor-se nos meios intelectuais, como escri-
toras ou cientistas, at porque se lhes exigia que con-
ciliassem essas ocupaes intelectuais com as tarefas
que a famlia e a sociedade lhes destinavam.




O TRIUNFO DA FAMLIA

     Atomo da sociedade civil, afamlia  gestora dos *interesses 
privados+ cujo bom andamento
 essencial  fora dos Estados e ao progresso da humanidade. Um 
grande nmero de funes
lhe  atribudo. Pedra angular da produo, ela assegura 
ofuncionamento econmico e a trans~
misso dos patrimnios. Clula da reproduo, ela fornece as 
crianas, s quais dispensa uma
primeira sociabilizao. Garantia da raa, vela pela sua pureza e 
sade. Cadinho da conscincia

nacional, transmite os valores simblicos e a memriafundadora.  
criadora tanto da cidadania
como da civilidade. A *boafamlia+  afundamento do Estado e, 
especialmente para os repu-
blicanos [...  1, existe uma continuidade entre o amor da famlia e o 
da ptria, maternidades con-
fundidas, e o sentimento da humanidade. Da o interesse crescente que 
o Estado vota fmilia:
antes de mais s famlias pobres, ponto fraco do sistema, e depois a 
todas as outras.
     Mas durante a maior parte do sculo xix a famlia age 
livremente, com muitas variantes liga-
das s tradies religiosas e polticas, ao meio social, e mais ainda 
ao meio local, to diversa
 a Frana de ento, sob o verniz centralizados

          Michelle Perrot, *Funes da Famlia+, Histria da Vida 
Privada 4, Lisboa, Edies Afrontamento, 199 1.

23

ATITUDES E PADRES CULTURAIS DA SOCIEDADE BURG @ E @O LIMIAR DO Y  C 
H h 3
                     A,


Ao            ~RUX~M-- am.C








          Mary Cassat (1 891-1922),
   O Banho, Instituto de Arte de Chicago.

                              A EDUCAO NO SEIO DA FAMLIA

     As relaes filhos-pais mudaram
Muito desde os anos 20. Mesmo nas
jmlias ricas --- digamos, abastadas ---
evitava-se *estragar+        1 os filhos. O
brinquedo era raro e oferecido em datas
fixas. A disciplina era estrita. Era neces-
srio *instruir+, *Jormar os caracteres+.
Mterdio de se queixar Proscrio do
lamento. *No estamos na terra para
nos divertirmos; h quem seja muito
mais infeliz do que tu; durante a guerra
o teu pai passou das boas+, etc. O senti-
mento de culpabilidade era inculcado
desde muito cedo. Fazer chichi na cama
era pecar Quanto ao coc, era o infer-
no. O valor do trabalho, tanto para os
rapazes como para as raparigas, es va
fora de discusso. Detenhamo-nos ape-

nas no exemplo da pequena camponesa
de que nos fala Y Verdier As raparigas
devem ter sempre as mos ocupadas:
*Quando a minha av nos via senifazer
nada, depressa dizia: Toma, minhafilha,
a tens um pano de cozinha para orlar+.
*De guarda s vacas+, as rapariguinhas
no paravam de tricotar, de p e
enquanto caminhavam vigiando os ani-
mais, a partir dos doze anos, elas *mar-
cam+, isto , bordam o nome em ponto
de cruz e com linha vermelha sobre
pequenos quadrados de tela, destinados
ao seu enxoval. *Marcar+, em francs
antigo, designa o aparecimento das pri-
meiras regras, idade de passagem que,
por conseguinte, no pertence ao segre-
do. A partir de ento a rapariga, quase
mulher, entrega-se a outras actividades: *Eu mugia as vacas, dava de 
comer s galinhas, aos coelhos e,
de manh, havia que arrumar minimamente a casa. [...              1 
No Vero, nunca eu me levantei j com dia;
entre o meio-dia e as duas horas amos para os campos sachar as 
cenouras e as beterrabas. Aos doze
anosfazia todo este trabalho+. Tal era a ocupao do tempo de uma 
mocita dos anos 20. Quanto  vir-
gindade das raparigas, estava sob alta vigilncia. *Pela minha parte, 
garanto-vos que os rapazes
no podiam chegar-se ao p de mim. Primeiro, o meu pai no os deixava 
aproximar Quando amos a um
baile, em 1925, ele estava sempre presente; e depoim quando ele 
chamava por mim, eu no podia demo-
rar-me: se estava no meio de uma dana largava o rapaz e escapava-me, 
pois entretanto ele, o meu pai,
j tinha partido+.

Grard Vincent, *Uma histria do segredo?+, Histria da Vida Privada 
5, Lisboa, Edies Afrontamento, 1991.


24

                                   EDUCAO E DEMOCRACIA
               O valor da educao cvica nas modernas democracias

     As duas palavras escolhidas para ttulo deste pequeno volume 
representam ideias que se
completam e aspiraes inteiramente solidrias. A organizao 
democrtica das sociedades
modernas impem, com efeito, um mnimo de educao a todos os 
indivduos que a elas per-
tencem, e que, chamados a intervir na vida social e no governo dos 
respectivos pases por moti-
vo dessa mesma organizao, nunca o podero fazer conscientemente e 
proficuamente sem a
conscincia cvica resultante da educao a que tm direito. E, por 
outro lado, o mnimo de edu-

cao que o indivduo pode e deve reclamar dos poderes pblicos e dos 
dirigentes dum pas, sem
o qual nunca lhe ser permitido exercer convenientemente a sua funo 
cvica, s nas socie-
dades democraticamente organizadas lhe  fornecido, s nas sociedades 
democraticamente
organizadas - qualquer que se& a Amma do Governo -- de o encontra, 
sob a forma poltica
de um dever do Estado para com os cidados.
      bvio, no entanto, que esse dever que o Estado se impe - e ao 
Estado se exige - da edu-
cao para todos, nasceu da prpria existncia das democracias. Desde 
que estas se baseiam e
aliceram no sufrgio popular e na opinio pblica - como lhes no 
h-de interessar que o
povo esteja habilitado a avaliar as suas prprias convenincias, as 
suas prprias ambies, e,
mais ainda, os seus prprios ideais? Um indivduo que, por exemplo, 
vota sem conscincia e
assim d a outro, inconscientemente, o direito de ser seu defensor e 
seu representante em qual-
quer assemblia, pratica um acto de possveis consequncias 
absolutamente prejudiciais aos
seus interesses, e aos interesses do seu pas, e ainda aos interesses 
da civilizao a que pertence.
Uma opinio pblica que tambm no sabe ser a vigilante fiel dos 
defensores desses interesses,
, do mesmo modo, perigosa ou intil. E estas verdades so de tal 
maneira axiomticas, de tal
maneira evidentes, que em nenhum pas do mundo civilizado se poder 
encontrar hoje quem
delas duvide e at quem as no defenda. Enquanto predominaram as 
castas, enquanto as
naes viviam sob regimes aristocrticos - para nada importava que o 
povo fosse ou no fosse
educado, soubesse ou no avaliar o que desolava para seu bem e para 
bem da sociedade e do
pas que eram'os seus. Hoje, porm, assim no acontece: - no h 
seno regimes democrticos.
E nenhum deles deixa de compreender o valor da palavra educao, o 
admirvel alcance do
acto de educar Pode afirmar-se, sem receio de desmentido, que um 
regime democrtico  tanto
mais perfeito e completo quanto mais perfeitas e completas forem nele 
as instituies educativas.
A Sua  o exemplo maisflagrante e comprovativo dessa afirmao. 
Modelo das democraci . as,
 tambm, modelo de educao - de educao cvica, moral e 
intelectual. E os desequilbrios,
as impeoWi* as hesitaes e os erros que tojustamente se atribuem 
a vrias democracias
da Europa e da Amrica, so na sua essncia inteiramente atribuveis 
 falta de orientao
pedaggica dos seus governos e dos seus povos. Seria fcil 
demonstr-lo, se fosse preciso. Mas
quer-me parecer que esta proposio  to clara, que a sua 
demonstrao redundaria num ple-

onasmo. Assentemos, pois, que a existncia das sociedades 
democraticamente organizadas trou-
xe, como indispensvel corolrio, a necessidade de educao, no mais 
vasto sentido do termo.
E que, por sua vez, a educao, tal como hoje a entendemos e queremos 
- isto , como um fac-
tor de desenvolvimento e de apedIoamento moral, intelectual e 
cvico -  o grandefactor que
mantm, sustenta e faz progredir as sociedades modernas.

       Saber ler, escrever e contar...

     Convm agora fixar o mbito da palavra educao e dizer o que 
essencialmente deve
entender-se por educar, emAwe do cNtNo exposto mais acima. No me 
parece difcilfaz-lo.
     Na realidade, sob o ponto de vista social, educar formar o 
cidado. Mas como sejornia um
cidado? Dando-lhe a conscincia dos seus direitos e deveres. E como 
pode ter ele essa cons-

                                                                 25

                                                        . ....... .. 
. ...
                              A-ULTURAIS DA      SOCEDADESURG

          cincia? Aprendendo de cor um certo nmero de regras ou 
normas?                    1 Qual o veculo que mal . s
          facilmente as trar ao crebro do educando, ou, pelo menos, 
qual o instrumento que melhor as
          fixar? A instruo, desde o singelo saber ler e escrever 
at ao estudo mais completo e vasto.
               O primeiro elemento para uma boa educao cvica - 
primeiro, no porque seja o mais
          importante, mas porque traz e arrasta consigo muitos outros 
-  a instruo. Sem ela - no h
          homem que se possa considerar completo. E no h, por 
conseguinte, o homem completo do
          mundo moderno - isto , o cidado! [...               1
                         Joo de Barros, Educao e Democracia, C. 
1917-1920.



OS PRS E OS CONTRAS DA INSTRUO POPULAR

     Por outras palavras, o ensino para ser um instrumento de 
prosperidade da Repblica e da
nao no deve limitar-se a beneficiar as classes minoritrias, alis 
preponderantemente
A           afectas  monarquia, mas deve chegar s maiorias, onde 
interessa *desenvolver , espalhar o
ideal republicano+.

               Tgdaviti, para que se possam desenvolver , espalhar 
os referidos ideais, torna-se necess-

          rio que a populao seja alfabetizada. Assim, o que 
sobretudo importa, de um ponto de vista
          revolucionrio,  instruir na leitura e na escrita, fazendo 
propaganda nacionalista e partidria,
          as massas populares.
               O primeiro argumento dos *anti-alfabetizadores+  o 
argumento de Canbe de que a alfa-
          betizao no constitui uma instruo propriamente dita, 
mas o instrumento da instruo
          futura e que, portanto, sem ela no possui utilidade 
alguma.
               O segundo argumento dos *anti-alfabetizadores+ 
contesta que a alfabetizao contribua
          para o mais adequadofuncionamento das instituies 
democrticas - virtude que lhe  tradicio-
          nalmente atribuda -, na medida em que d a todos os 
cidados a possibilidade de se informarem
          sobre os seus direitos, os seus deveres e a marcha dos 
negcios pblicos e, dessa maneira, os habi-
          lita a actuarem dentro da lei no sentido dos seus 
interesses. Pelo contrrio, sublinham, a alfa-
          betizao torna as massas permeveis  propaganda sectria 
dos partidos polticos, transforma-
          -as num *corpo de manobra+ dos respectivos dirigentes e , 
por isso, finalmente unifactor de ins-
          tabilidade, quefaz inviveis a longo prazo as instituies 
democrticas, em vez de asfortalecer
          A estes motivos, Joo de Barros ope o seguinte: o 
argumento aduzido no passa de um argumento
          sofistico. Na verdade, diz ele,  evidente que a soluo 
parti as massas no serem corrompidas por
          uma literatura *detestvel, desorientadora, deseducadora+ 
no reside em deix-las sem saber ler,
          nem escrever, mas emfornecer-lhes uma literatura louvvel, 
orientadora e educadora. Por ela e
          s por ela, o povo poder *Jorjar com as suas prprias mos 
as armas que o ho-de salvar e
          defenderas e criar *com o seu esforo uma conscincia 
esclarecido e viril+. Ou se a, participar
          lucidamente na vida poltica, conferindo, assim, um 
contedo real ao sistema representativo.
               O terceiro argumento dos *anti-aoVibetizadores+  o de 
que a alfabetizao *contamina+ a
          populao com *o vaio do bachareNsmo^ suscitando-lhe 
expectativas que a sociedade no se
          acha apta a realizar e lanando os alfabetos, insatisfeitos 
com a existncia nas comunidades
          rurais, para as cidades, onde constituem um elemento de 
agitao e procuram obter empregos
          pblicos, em prejuzo do trabalho agrcola abandonado. Joo 
de Barros reconhece que h, na rea-
          lidade, *uma tendnciaforte, da parte das pessoas que em 
Portugal aprenderam o alfabeto, para
          ambicionarem com grandssima gula qualquer empregozito 
pblico+. No entanto, segundo pensa,
          ofacto nada prova ou *prova apenas que o saber ler  (em 
Portugal) uma superioridade manti-

          da  custa dos ignorantes+. Nessas circunstncias, o 
remdio para o *vcio do bacharelismo+ con-
          siste, no em conservar o maior nmero de pessoas na 
inferioridade do analfabetismo, mas em
          fAzer *(ksaparecer+ ti superioridade dos alfabetos, *dando 
a todos [ ... ]facilidade em alcan-la+.

                    Vasco Pulido Valente, Uma Educao Burguesa, 
Lisboa, 1974.


26

          CONMANA NOS VALORES MORAIS BURGUESES








Geqyley van Jean, Uma Aula (finais do sculo xix)






     Lia;








Juan Ruiz de Luna, Uma Lio de Costura (1910)

                                                                 27

                      A

                TRABALIROS PR

1      X Comentro de textos

                    Homens e cidados, dissemos mais de uma vez no 
nosso orgulho: o sculo xviii pro-
               clamou os direitos do homem, o sculo xix proclamar 
os direitos da mulher; mas... no
               temos muita pressa.
                    Victor Hugo, Sur le tombe de Louise Julien, 26 de 
Julho de 1863.

Norma - Aquifui a tua mulher-boneca, como em casa do papcfui a 
suafilha-boneca.

               Fala da personagem Norma da pea de Ibsen, Casa de 
Boneca (1 879)@


                    Sob as luvas, mais de um indicador delicado 
poderia testemunhar com as suas imper-
               ceptveis picadas, que, antes da pena, a agulha tinha 
travado os combates domsticoS.

Excerto do artigo da jornalista Svrine sobre as participantes ao 
Congresso dos Direitos da Mulher,
                         para o jornal La Chevauche, n.' 2, 15 de 
Outubro de 1900.

                    Mas, por exemplo, no vo pensar que a sua 
cincia faa dela uma pedante. A
               minhafilha no desdenha auxiliar-me nos trabalhos da 
casa e todas as manhs pode ser
               vista afazer compras no bairro. E  to afectuosa!

     Entrevista com a me de Teresa Robert, que preparava a sua 
agregao em Cincias,
                    publicado na revista La Franaise, n.o 3, 
Novembro de 1906.

                    .Aos teus olhos uma mulher deveria ser uma 
extenso de ti mesmo ou, pior ainda, a tua
               costela de Ado desprovida da menor autonomia. No 
consegues compreender que eu
               seja um ser com vida prpria.

                                   D.   H. Laurence, New Eve and Old 
Adam, 191 1.


     1.   Tendo em conta os documentos 1 a 5 caracterize o papa da 
mulher na sociedade bur-
          guesa do incio do sculo xx.

     B@ TrabaW,,,@ de snIeAs@@

     1    Propomos-lhe alguns temas para trabalhos de sntese:

           N condio feminina em Portugal nas vsperas da Primeira 
Guerra Mundial.

          - A famlia na legislao da Primeira Repblica em 
Portugal.

           s movimentos feministas na Europa no incio do sculo xx.

     2.   Reveja a metodologia adequada a esS tipo de trabalho 
(Histria 1 1, 1.9 vol., pp. 166,
          18W 200 e 21 W22p.

     C.  ckwas acu                  s sugeridas gmio Oogra~

     1.   Leitura e, se possvel, encenao de excertos ou do texto 
integral da pea de lbsen,
          Casa de Boneca, seguida de um debate em torno do problema 
da emancipao da
          mulher.


28

     A CRISE DOS VALORES
E AS GRANDES RUPTURAS
NO PENSAMENTO E NA ARTE








 Lissitsky (1890-1941), Proun 4B (1911-1920)

O ROMPIMENTO DOS EQUIUBRIOS E DOS VALORES TRADICIONAIS



     1.   O CHOQUE DA GUERRA E A CRISE, DE CONSCINCIA DA CIVILIZAAO
          OCIDENTAL

     2.   A MASSIFICAO DA VIDA URBANA: DESAGREGAO DAS
          SOLIDARIEDADES E DESENRAIZAMENTO INDIVIDUAL. A ALIENAO
          DO TRABALHO INDUSTRIAL E BUROCF-1,ATICO. A ANOMIA SOCIAL

     3.   A EMANCIPAO DA MULHER E AS ALTERAES DA ESTRUTURA
          FAMILIAR

          Novos comportamentos demogrficos e sexuais

          A queda de influncia da famlia e da Igreja como agentes 
de regularo
          social

     4.   INQUIETAO E INSTABILIDADE NOS COMPORTAMENTOS SOCIAIS:
          A ACELERAO DA MOBILIDADE ESPACIAL E DO RITMO DE VIDA

          A busca do prazer e da evaso; a intensificao da vida
          nocturna







                     RUI








                     45



49   5     40



051

Wil        DM
        ?








                         Cartaz dofilme A Rapariga da C&xa 11927

. ..... ... ....... . 
....................................................... . .... ..... 
...... ............ .................................. .. ... 
................. . . . . .. ..... ............... .. . .
     '@7A CAGUE DA GUERRA E A CRISE DE
     CONSCIENCIA DA CIVILIZAO
     OCIDENTAL

     A partir dos ltimos anos do sculo xix, as con-
dies de vida e de pensamento sofreram grandes
transformaes. Anteriormente, postulados como
o do lugar privilegiado que o homem ocupava no
universo, a crena na sua liberdade e responsabili-
dade, o sentimento da superioridade da razo e da
vontade que impeliam o hornem a opor residncia
s foras da Natureza, bem como o alcance uni-
versal da moral, eram aceites como inarnovveis.
     No rim do sculo muitos destes valores come-
aram a ser ameaados at pelo prprio desen-
volvimento das cincias: a Histria, tal como
outras cincias humanas, trouxera  luz civiliza-
es com outros sistemas de valores diferentes
dos da poca. Perante o confronto e a pluralidade
de ticas, os valores da civilizao ocidental e bur-

guesa perderam o seu sentido absoluto. A socio-
logia, a psicologia e depois a psicanlise revelaram
que o homem era comandado no s pela razo
mas tambm por foras naturais e instintivas, algu-
mas delas consideradas imorais, como as ligadas 
sexualidade, chamando a ateno para o facto de
no dever ser negado ao homem tosse seu lado
natural. O prprio inconsciente pareceu ganhar
mais importncia que a prpria conscincia.
     A biologia e as cincias fsicas demonstraram,
por sua vez, que o homem era um ser natural como os
outros e que as suas aces eram regidas pela natu-
reza, ideia que colidia com a ideia de liberdade e de
responsabilidade defendida pela moral tradicional.
     O prprio determinismo cientfico comeava
a ser posto em causa.
     Perante tal derrocada dos valores tradicionais,
alguns experimentaram um sentimento de liber-
tao. Os novos valores da cincia revelaram
caminhos novos e insuspeitados e o homem, liber-
to, pde aceitar-se como realmente era, mesmo
naquela parte de si que o cristianismo e o raciona-
lismo tinham desvalorizado. Os antigos valores
foram olhados como sendo tabus, preconceitos e
convenes de uma sociedade hipcrita, isto ,
como pseudovalores, que apenas tinham servido
para mutilar, empobrecer e impedir a aco huma-
na. A nova tica era a da liberdade individual e
da plena realizao do homem (doc. 1).
     A guerra veio interromper este optimismo e

32

revelar o que havia de transitrio na civilizao do
incio do sculo xx (doc. 2). Segundo alguns pen-
sadores, o homem estava em crise porque os valo-
res tradicionais tinham rudo, sobretudo os
valores religiosos. Mas, segundo outros, no resi-
dia s a a explicao para a crise de conscincia
da civilizao ocidental, j que o afastamento de
Deus se dera ainda em pleno sculo xix e, mesmo
assim, o homem vivera um perodo de grande opti-
mismo. Assim, para outros pensadores, essa fase
de optimismo s fora possvel porque os valores
tradicionais tinham sido substitudos por outras
crenas: os mitos do Progresso social e histrico
e a divinizao da Cincia.
     Teria sido a agonia destes novos mitos que
produziu a crise do ps-guerra, agudizada
sobretudo nos anos 30. Acreditava-se na raciona-
lidade da Histria que deveria conduzir a humani-
dade nos caminhos da paz, da justia social, da
dignidade, da liberdade individual e da promoo
dos melhores. A experincia da guerra, a violncia
e a emergncia dos totalitarismos onde o indivduo
no tinha lugar pareciam vir provar o contrrio. A
crena depositada na cincia para o domnio da
natureza e criao de melhores condies de vida

que permissem ao hornem ter maior disponibili-
dade pua a vida interior, se por um lado se reali-
zara, por outro permitira criar armas terrveis .que
no s tinham posto em perigo a prpria sobmvU
vncia da humanidade corno ameaavam a pr-
pria vida interior do homem, criando uma ima-
gem cada vez mais desumanizada do universo.
     Foi abalada a confiana nas obras histricas
da humanidade e no esforo de dar sentido racional
 Histria, instituindo a paz internacional e a jus-
tia sociaL O sentimento desse malogro histrico
foi outra das causas da crise. Surgiram ento as
reflexes pessimistas sobre a sociedade e a cultura
da poca e as previses no menos pessimistas
relativamente ao futuro (doc. 3).
     O choque da guerra ps, pois, em causa tudo
aquilo em que se apoiara a sociedade da *belle
poque+: prosperidade, valores familiares e reli-
giosos, crena no progresso, ideias filosficas,
concepes artsticas, etc. (doc. 4).
     Mas, por outro lado, a certeza da transitoriedade
c vida deu aos que sobreviveram uma certa fria
de viver e o gosto por fruir e gozar a vida, bem
como uma acelerao do prprio ritmo do quoti-
diano. A mudana deu-se tambm ao nvel moral.

     ...................................

     Ao optimismo sucederam, sobretudo entre as
elites intelectuais, a inquietude e a dvida siste-
mtica, at mesmo a amargura.
     Por outro lado, o mundo das mulheres sofreu
profundas mudanas: da moda aos comporta-
mentos, a mulher adquiriu no s outra imagem,
outro estatuto mas tambm outras responsabilida-
des (doc. 5).

2.   A MASSIFICAO D4VIDA URBANA:
     DESAGREGAO DAS SOLIDARIEDADES
     E DESENRAIZAMENTO INDIVIDUAL.
     A ALIENAO DO TRABALHO
     INDUSTRIAL E BUROCRATICO.
     A ANOMIA SOCIAL

     Mais nos Estados Unidos do que na Europa, a
prosperidade do ps-guerra trouxe consigo a mas-
sificao. A produo em larga escala destinava-
-se a um consumo de massas que crescia pro-
gressivamente, devido s facilidades de crdito. A
todos parecia possvel ter tudo o que desejassem.
Nascera a sociedade de consumo. A publici-
dade encauegava-se de alimentar essas iluses,
ao criar necessidades em relao a objectos de
consumo relativamente acessveis, porque pro-
duzidos em grandes quantidades e em modelo
estandardizado.
     Alis, tambm as pessoas e os comportamentos
pareciam tender a tornar-se todos iguais: a nova

moda feminina criara um modelo standard de
mulher, com comportamentos tambm estandar-
dizados.
     As cidades tinham-se tornado grandes centros
industriais e comerciais ao atrarem multides
de novos habitantes, quer estrangeiros quer oriun-
dos dos meios rurais. A construo civil conheceu
grande desenvolvimento e tornam-se comuns os
grandes arranha-cus. Nos EUA, as classes
mdias, porm, preferiram instalar-se nas moradias
dos arredores e deslocar-se diariamente de auto-
mvel para o trabalho, enquanto os negros, os emi-
grantes e os camponeses endividados fadam o
movimento inverso e se instalavam nos bairros
pobres das grandes cidades (doc. 6). Mas tanto
uns como os outros habitavam bairros de modelo
padro. As cidades assemelhavam-se urnas s
outras, com os seus edifcios de muitos andares
todos iguais, as suas zonas residenciais de mora-
dias do mesmo tipo, com carros dos mesmos

modelos, com letreiros luminosos de modelo stan-
dard, em lojas onde se vendiam produtos normali-
zados (docs. 7 e 8).
     Nestas cidades, aumentou assustadoramente o
nmero dos desenraizados, isto , todos aqueles
que abandonaram o seu universo de relaes e de
vizinhana e vieram instalar-se na grande cidade
desconhecida. Para mais, as condies do traba-
lho industrial em cadeia, tanto na Amrica como
na Europa, alienavam as pessoas e a rapidez exi-
gida dos gestos impedia qualquer esboo de rela-
cionarnento ou de solidariedade entre colegas de
trabalho, at porque viviam em permanente com-
petio com a mquina, com os colegas e consigo
prprios (doc. 9).
     Esta condio de desenraizamento e de aliena-
o acaba por desembocar na anomia, isto , na
ausncia de regras e de princpios ou de valores
morais de referncia, na ausncia de lei e mesmo
na ilegalidade (doc. 10).
     A nova sociedade criara nos indivduos
expectativas que, na maior parte dos casos, saam
frustradas. Se para uns a tomada de conscincia
de que havia objectivos impossveis de atingir os
fazia moderar as suas aspiraes, outros no
aguentavam ti presso e procuravam uma sada a
qualquer preo, mesmo que para isso fosse
necessrio passar por cima de qualquer tipo de
obstculo.
     Esta mudana radical de mentalidades e de
costumes numa sociedade que, como a america-
na, assentava sobre valores como o trabalho, a
frugalidade e a poupana, assustou os tradicio-
nalistas.
     J vimos que foi nesta poca que se manifestou
a reaco conservadora contra aqueles que a
Amrica considerava culpados de to grandes

mudanas: os *vermelhos+, os negros, os judeus,
os catlicos, os modernistas e, de um modo geral,
os estrangeiros. Para alm da restrio  emigrao
asitica e europeia e  perseguio aos considera-
dos comunistas (cf. vol. 1, p. 403 ), os naciona-
listas pretenderam a todo o custo preservar o
elemento nacional branco e protestante arneri~
cano das contaminaes perigosas.
     Entre as medidas tomadas contra o desregra-
mento de costumes que assustava a Amrica pro-
funda conta-se a 18. Emenda  Constituio,
bem como outras leis complementares que, em
1919, probem o fabrico, venda e consumo de

33

Mario


bebidas que contivessem ma& de W5% de lcool.
A medida inspirada e genericamente cumprida
pela populao rural e dos pequenos centros urba-
nos, no foi, contudo, respeitada nas grandes
metrpoles urbanas onde se usaram todos os sub-
terfgios para fugir  lei. A proibio deu origem
ao apareniento de numerosas destiladas claw
desunas e  proliferao de bandos de gangs-
ters, entre eles o do famoso AI Capone, que enri-
queceram com o commio ilegal de bebidas
alcolicas.
     Em simultneo, assistiu-se ao ressurgimento
de um certo "fundamentalismo" religioso entre
os protestantes no sentido de preservar a sua cren-
a de contaminaes e interpretaes catlicas da
Palavra de Deus. O caso mais paradigmtico deste
Uadicionahsrno exacerbado foi o processo ins-
taurado contra um jovem professor do Tennessee
que, em 1925, ousou falar aos seus alunos da teo-
da da evoluo das espcies de Darwin, diferente
da explicao sobre a criao do hornem, descrita
na Bblia.
     A sociedade americana dos anos 20  uma
sociedade radicalizada, revelando uma profunda
crise moral: de um lado, os puritanos, os mora-
listas, os tradicionalistas e nacionalistas, que
desejam o regresso aos valores conservadores
tradicionais; do outro, a grande massa dos que
vivem sofregamente a nova vida, que adoptam
os comportamentos transmitidos pelo cinema,
que esto dispostos a prevaricar pontualmente se
isso significar mais fcil subida social ou maior
fahdade de acesso aos bens de consumo e, por
fim, os grupos de criminosos poderosamente
organizados, actuando totalmente  margem da lei
e que impem a sua prpria lei pela fora das
armas (doe. 11).

3.   A EMANCIPAO DA MULHER E AS

     AITERAES DA ESTRUTURA FAMILIAR.

     J desde finais do sculo xix os neomalthusia-
nos tentavam fazer passar a sua mensagem pro-
clamando o controle dos nascimentos como um
dos meios de emancipao da mulher.
     Aps a Primeira Guerra Mundial, obras como
Married Love (I 918), da autoria da mdica Marie
Stopes, fazendo depender a felidade humana de
uma maternidade desejada, juntamente com teorias
como as do economista Keynes, que apresentava

34

como uni dos factores do desemprego crescente a
superabundncia de populao, conduzem a uma
chamada de ateno para o problema do controle
dos nascimentos.
     Esss teorias encontraram exo sobretudo no
mundo femirtino, que adquirira um novo estatuto
aps a guerra. As mulheres tinham adquirido
ou adquiriram no perodo entre as duas guer-
ras, na maior parte dos pases, o direito de voto
(doe. 12), tinham visto abrir-se a porta de acesso
a profisses de nvel superior, tradicional-
mente masculinas (doe. 13 e cf. doe. 5), e eram
em cada vez maior nmero no mundo do
comrcio e nos servios pblicos (doe. 14).
Estas novas actividades no se coadunavam
com a antiga imagem de uma mulher carre-
gada de filhos.
     Desde o princpio do sculo que a moda se
tornara mais simples (doe. 15). Contudo, aps a
guerra, a mulher libertou-se de vez das saias com-
pdas e do espartilho. A nova moda destinada a
mulheres de silhueta adelgaada (doe. 16), de
linhas direitas, saias curtas e cabelos  garonne
estava de acordo no s com as novas tarefas,
mas tambm com os novos ritmos que se dana-
vam (doe. 17).
     Claro que os caprichos da moda ditaram, ao
longo dos anos 30 e 40, novos modelos e os tama-
nhos das saias variaram conforme o gosto dos
costureiras, mas a moda feminina nunca mais
deixou de estar de acordo com as necessidades de
mulheres que, no querendo deixar de ser femi-
ninas, eram simultaneamente trabalhadoras (does.
18 e 19).
     A par da moda evoluram os costumes. As
mulheres passaram a fumar, a beber, adoptando
comportamentos at a considerados tipicamente
masculinos, como, por exemplo, a liberdade sexual.
Para muitos observadores a mulher perdeu a sua
feminilidade e no ganhou de facto a sua emanci-
pao (doe. 2OY Por outro lado, o aumento do
nmero de divrcios no deixou de ter implicaes
ao nvel da estrutura familiar.
     A moda e os novos hbitos sociais davam, con-

tudo, apenas uma iluso de liberdade, j que juri-
dicamente a mulher continuava em plano
secundrio relativamente ao homem. Da que se
tenham multiplicado os movimentos pela eman-
cipao da mulher, tanto na Amrica como na
Europa (doe. 21).

                              MEN '@`:#0S.E,0U 8
                                 TO

Novos comportamentos demogrficos
e sexuais

     Os novos costumes e uma certa emancipao
feminina tiveram inevitavelmente repercusses
demogrficas.
      certo que a guerra interrompeu o cresci-
mento demogrfico da Europa e interferiu ainda
no nmero de casamentos, que baixaram sensi-
velmente durante o conflito. Estes, contudo, re-
cuperaram no ps-guerra, o que no se traduziu
num sensvel acrscimo da natalidade. Antes
pelo contrrio, a natalidade tendeu a regredir.
Podem encontrar-se vrias causas para esta desna-
talidade. A morte na guerra de homens em idade
de procriar pode considerar-se responsvel pela
baixa sensvel dos nascimentos. Mas foi sobretu-
do a contracepo que se expandiu considera-
velmente, mesmo em meios anteriormente no
sensveis  possibilidade de controlar o nmero
de filhos por casal. Isso deveu-se, por uni lado, 
descristianizao da sociedade e ao recuo da
influncia das Igrejas, mas tambm ao alarga-
mento do perodo escolar, que impedia os filhos
de comearem cedo a contribuir para as despesas
familiares, levando os pais a diminuir a sua prole.
A tudo isto se junta o medo do futuro.
     O recuo da mortalidade infantil e o aumento da
esperana de vida bem como a baixa da mortali-
dade geral no impediram que, por exemplo em
Frana, entre 1934 e 1936 o excedente de bitos
sobre os nascimentos tenha sido de 40 000 tendo
sido o pas onde a natalidade mais diminuiu (docs.
22 e 23Y
     E a diminuio da natalidade conduziu ao
envelhecimento da populao europeia (doc.
24), de que Portugal  tambm exemplo, apesar
de bastante atrasado em relao aos pases envol-
vidos na guerra (doc. 25). Todavia, os Estados
autoritrios, como vimos, lanam campanhas
natalistas que acabam por ter consequncias posi-
Avas no crescimento da sua populao. Na
Alemanha nazi, a taxa de natalidade passou de
14,7 em 1933, para 20,4 em 1939. Quase todos os
pases adoptaram polticas populacionistas (docs.
26 e 27), sem, contudo, atingirem os excessos
alemes de defesa da raa, e c 'os resultados j
ui

so visveis na dcada de 40.
     Os anos do ps-guerra marcam o aparecimento
de comportamentos demogrficos novos, isto ,

            ZQS VA@01RES TRADICK
131109: E

casamento mais precoce mas diminuio da
natalidade, contrariamente ao que acontecera
antes (Cf. Histria 11, Tema 7). A anlise do
nmero ~o de filhos por casal, segundo a poca
do casamento, demonstra claramente que as
mulheres tiveram filhos enquanto jovens e deli-
beradamente evitaram-nos a partir de determi-
nada idade, recorrendo a mtodos contraceptivos.
     Claro que este esquema simplista no se apli-
cava genericamente a todos os meios. Os meios
rurais, e as classes abastadas tambm continua-
vam, apesar de tudo, a ser mais fecundos que os
meios urbanos, onde as mulheres trabalhavam
fora de casa e, muitas vezes, quer por razes pes-
soais quer por razes profissionais, permaneciam
celibatAas (doc. 29).

     A queda de influncia da famlia e da Igreja
     como agentes de regularo social

     Os novos comportamentos demogrficos e
sexuais prendem-se no s com as novas condi-
es da vida laboral das mulheres mas tambm
com o alargamento do seu tempo de estudos.
Outro factor importante  a influncia exercida
pela Igreja. Estudos comparativos revelaram que
eram os casais catlicos que tinham mais filhos,
devido ao facto de a sua Igreja condenar os
mtodos contraceptivos. A progressiva laiciza-
o da sociedade ter, pois, libertado desses
constrangimentos religiosos numerosos casais,
que lanaram mo dos meios de planeamento
familiar disponveis.

4.   INGUIETAO E INSTABILIDADE NOS
     COMPORTAMENTOS SOCIAIS: A
     ACELERAAO DA MOBILIDADE
     ESPACIAL E DO RITMO DE VIDA

     O desenvolvimento de novas tcnicas, a par
com a mudana dos hbitos e dos comportamentos,
modifica as condies de vida dos homens.
     O quotidiano acelera-se devido tambm ao
desenvolvimento dos transportes terrestres. O
comboio, seguro e rpido, torna-se o meio de
transporte indispensvel (doc. 29). O nmero de
quiImetros de caminho-de-ferro no pra de cres-
cer (doc. 30) e as locomotivas a vapor, nas grandes
linhas, passam a ser substitudas por locomotivas
elctricas.  o meio de transporte mais utilizado


                                        35

pelos camponeses que deixam as suas terras em
busca de trabalho nas grandes cidades, j que a
rede de caminhos-de-ferro chega tambm s zonas
rurais.
     O automvel (docs. 31 e 32) conhece um gran-
de desenvolvimento, no s tcnico corno em
nmero de utilizadores (doe 33 e cf. doc. 3OY A
produo em srie torna-o mais barato, sobretudo
a partir dos anos 30.
     Para alm do automvel propriamente dito
tambm crescem em nmero os camies e auto-
carros.
     A electricidade parente aMda o aparecimento
dos elctricos destinados ao transporte urbano de
passageiros (U. doc. 30).
     Os transportes martimos so os nicos pos-
sveis para a deslocaro entre continentes. Os
grandes paquetes transportam milhares de pas-
sageiros, proporcionando-lhes grande conforto
(doc. 34).
     Quanto ao avio, encontra-se ainda numa fase
experimental entre 1919 e 1939, apesar de se mul-
tiplicarem as competies areas (dow 13). A par-
tir de 1925, o avio  utilizado sobretudo no trans-
pode de correio, mas em Frana existe j uma car-
reira regular de ~sageiros entre Toidouse-
-Casablanca-Dakan Com a Segunda                    uerra
Mundial, os aparelhos so aperfeioados e nume-
rosas companhias areas so criadas por todo o
Mundo. Contudo, os voos so em pequeno nmero
e as passagens extremamente caras s ao alcance
dos mais ricos (doc. 36).
     As necessidades de transporte individual bara-
to para o local de trabalho, mas tambm o apro-
veitamento dos tempos livres, levam muita gente
das classes inzs baixas -a recorrer  bicicleta e 
motocicleta (doc. 37 e & doe 3OY
     O desenvolvimento dos transportes quebra o
isolamento de muitas regies, que so postas em








36

contacto umas com as outras num tempo relativa-
mente rpido, no s atravs dos meios de trans-
porte mas tambm atravs do prprio telefone (CL
doc. 30). Os trabalhadores, a quem os acordos
laborais comeam a conceder dias de descanso
obrigatrio e frias pagas, habituam-se a deslo-
cause para fora da sua zona. de, residncia em

busca de descanso e de prazer.
     Viajar torna-se moda (doc. 38). Os menos
abonados contentam-se com uma ida  praia mais
prxima ou a um piquenique no campo, enquanto
os mais abastados se desOcam entre connentes,
seja de paquete, seja de comboio (doc. 39).
     Por outro lado, a velocidade embriaga as pes-
soas e multiplicam-se os ralhes, onde os recordes
de veloc;idade so sucessivamente batidos, sem-
pre muito aplaudidos por multides entusiasmadas
(doc. 40).
     Para alm dos meios de transporte, tambm os
jornais e a rdio contribuem para tornar mais pr-
ximos acontecimentos e lugares.

     A    busca do prazer e da evaso;
         intensificao da vida'nocturna

     A emancipao feminina, a pressa de viver das
geraes tocadas pela guerra, a facilidade das des-
locaes e das comunicaes, o desenvolvimento e
a multiplicao de jornais e de receptores de rdio
fazem as pessoas aderir entusiasticamente aos
novos ritmos musicais como ojazz (doc. 41) e o
charleston (doc. 42). Os night-clubs (doc. 43)
tornam-se moda e enchem-se todas as noites de
gente animada que dana e bebe a nova bebida, o
cocktail (doc. 44).
     Tornam-se moda tambm os espectculos musi-
cs de variedades ou music-hall (doc. 45), de
teatro, de cinema, bem como os casinos e os clubes
(doc. 46).

DOCUMENTOS

Mandamentos de Deus, magoastes a minha alma.
Mandamentos de Deus, sois dez ou vinte?
At onde os vossos limites?
Ensinareis vs que h sempre mais coisas proibidas?

NATANIEL, EU TE ENSINAREI O ARDOR





     Novos castigos prometidos  sede de tudo quanto achei de belo na 
terra?
     Mandamentos de Deus, tornastes a minha alma doente.
     EnvoNestes de muros as nicas guas que me dessedentavam...

     _ Fbi por certo tenebrosa minhajuventude;
     Disso me arrependo.
     No provei o sal da terra.
     Nem o do grande mar salgado.
     Julgava que era eu o sal da terra.
     E    tinha medo de perder o meu sabor

     O sal do mar no perde o seu sabor; mas os meus lbios esto 
velhos para o saborear Ah.
porque no respirei eu o ar marinho quando tinha na alma a avidez 
desse ar?
     Que vinho conseguir agora embriagar-me?
     Ah! Nataniel, entrega-te  alegria enquanto ela sorri  tua alma 
- e satisfaz o desejo de
amar enquanto os teus lbios esto belos ainda para beijar e o teu 
abrao jubiloso.
          Porque tu pensars, tu dirs:
     - Os frutos ali estavam; o seu peso j curvava, fatigava os 
ramos; - a minha boca ali esta-
va e plena de desqio; --- mas continuou fechada, e as minhas mos no 
puderam estender-se
porque estavam unidas em orao; - e a minha alma e a minha 
carneficaram desesperada-
mente sequiosas. - Desesperadamente a hora passou.

          Andr Gide, Les Nourritures terrestres, Mercure de France, 
1897, Panorama das Ideias Contemporneas,
                                   Lisboa, Editorial Estdios Cor, 
1968.


NS, CIVILIZAES, SABEMOS AGORA QUE SOMOS MORTAIS...

     Ns, civilizqes, ns sabemos agora que somos mortais; 
ouvramosfalar de mundos intei-
ramente desaparecidos, de imprios desmoronados com todos os seus 
homens e todos os seus
engenhos; enterrados nofundo inexplorvel dos sculos, com seus 
deuses e suas leis, suas aca-
demias e seus dicionrios, seus clssicos, seus romnticos e seus 
simbolistas, suas crticas e os
crticos dos seus crticos...
     Bem sabamos que toda a terra aparente feta de cinzas, que a 
cinza significa alguma
coisa; descortinvamos, atravs da espessura da Histria, os 
fantasmas de navios imensos,
outrora carregados de riquezas e de esprito; no podamos cont-los.
     Mas, afinal de contas, esses naufrgios no nos diziam respeito; 
Nnive, Babilnia eram
belos nomes vagos, e a runa total desses mundos tinha to pouca 
significao para ns como
a sua prpria existncia.
     Agora vemos que o abismo da Histria  suficientemente grande 
para todos. Sentimos que
uma civilizao tem a mesmafiragilidade que uma vida. As 
circunstncias que levassem as obras
de Keats e as de Baudelaire a encontrar-se com as de Menandro no so 
de maneira nenhuma
inconcebveis: esto nosjornais.
     E no  tudo. A lio escaldante  ainda mais completa; no 
bastou  nossa gerao
aprender por experincia prpria como as coisas mais belas e as mais 
antigas, as maisformi-


37

          dveis e as mais bem ordenadas so perecNeis por acidente: 
viu na ordem do pensamento, do
          senso comum e do sentimento, produzirem-sefenmenos 
extraordinrios, bruscas realizaes
          de paradoxos, decepes brutais da evidncia.
               Por esta maneira, a Perspolis espiritual no fica 
menos destroado que a Susa material.
          Nem tudo se perdeu, mas tudo se sentiu perecer Um 
extraordinrio calafrio percorreu a espi-
          nha da Europa, e ela sentiu atravs de todos os seus 
ncleos pensantes que j no se reconhe-
          cia, que deixara de se assemelhar a si mesma, que ia perder 
a conscincia, uma conscincia
          adquirida em sculos de desventuras tolerveis, por 
milhares de homens de superior quilate, por
          inmeros acasos geogrficos, tnicos, histricos. Ento, 
como por uma desesperada defesa do
          seu ser e do seu haverfisiolgico, toda a memria lhe 
voltou confusamente. Os seus grandes
          homens e os seus grandes livros voltaram ao de cima, em 
turbamulta. Nunca se leu tanto
          nem to apaixonadamente como durante a guerra: perguntai-o 
aos livreiros... Nunca se rezou
          tanto, nem to profundamente: perguntai-o aos sacerdotes.
               Evocaram-se todos os salvadores, os mrtires, os 
fundadores, os heris, os protectores, os
          pais das ptrias, as santas heronas, os poetas nacionais; 
e, na mesma desordem mental, ao
          apelo da mesma angstia, a Europa culta experimentou a 
revivescncia rpida de seus inu-
          merveis pensamentos: dogmas, filosofias, ideais 
heterogneos; as cem maneiras de explicar o
          mundo; os mil e um matizes do cristianismo, as duas dzias 
de positivismos; todo o espectro da
          luz intelectual irradiou suas cores incompatveis, 
iluminando dum estranho e contraditrio cla-
          ro a agonia da alma europeia. Enquanto os inventores 
procuravanifebrilmente nas imagens
          e nos anais das guerras de outrora os meios para se 
livrarem dos arames farpados, despeda-
          arem submarinos, ou paralisarem o voo de avies, a alma 
invocava, ao mesmo tempo, todos os
          sortilgios que sabia, considerava seriamente as profecias 
mais bizarras.
               Procurava refgios, indcios, consolo no registo 
inteiro das lembranas, dos actos anteriores,
          das atitudes ancestrais.
               So esses os resultados conhecidos da ansiedade, os 
empreendimentos desordenados do cre-
          bro que corre do real ao pesadelo e regressa do pesadelo ao 
real, desvairado como o rato que
          caiu na ratoeira.
                    A crise militar acabou talvez; divisa-se a crise 
econmica em toda a sua pujana.

               Mas a crise intelectual, mais subtil, e que, pela sua 
prpria natureza, reveste as mais
          enganadoras aparncias (pois se passa no prprio reino da 
dissimulao), essa crise dificil-
          mente deixa discernir o seu verdadeiro momento, a sua fase.
               Ningum poder dizer o que estar amanh vivo ou morto 
em literatura, em filosofia, em
          esttica; ningum sabe ainda que ideias e que modos de 
expresso ho-de inscrever-se na lista
          das perdas, que novidades sero proclamadas.
               A esperana, sem dvida, continua, mas a esperana no 
 mais do que a desconfiana do
          ser em relao a previses precisas do seu esprito. 
Insinua que toda a concluso desfavorvel
          ao ser deve ser um erro de esprito. Osfactos no entanto 
so claros e impiedosos: h milhares
          de jovens escritores e de jovens artistas que morreram, h 
a perdida iluso duma cultura
          europeia e a evidncia da incapacidade do conhecimento para 
salvar o que quer que seja; h
          a cincia mortalmente atingida nas suas aspiraes morais, 
e como que desonrada pela cruel-
          dade das suas aplicaes; h o idealismo dificilmente 
triunfante, profundamente mortificado,
          responsvel pelos seus sonhos; o realismo desiludido, 
batido, esmagado por erros e por crimes;
          a avidez e a renncia igualmente ridicularizadas, as 
crenas confundidas no tempo, cruz con-
          tra cruz, crescente contra crescente; e os prprios 
ckpticos desconcertados por acontecimen-
          tos to sbitos, to violentos e emocionantes e que brincam 
com os nossos pensamentos como
          o gato com o rato: os cpticos perdem as suas dvidas, 
reencontram-nas, tornam a perd-las e
          j no sabem servir-se dos movimentos do seu esprito. A 
oscilao do naviofoi toJorte que
          mesmo as luzes maisfirmemente seguras acabanifinalmente por 
dar consigo em terra.

                                             Paul Valry, 1919, 
ibidem.

38

                         O HOMEM-MASSA E O ESPECIALISTA

     Quem exerce hoje o poder social? Quem impe a estrutura do seu 
esprito  poca? A bur-
guesia, sem dvida nenhuma. Mas qual o grupo que, no seio desta 
burguesia,  considerado a
aristocracia do presente? Indubitavelmente o tcnico: engenheiro, 
mdico, financeiro, professor,
etc., etc. Quem, dentro do grupo tcnico, o represente com mais 
elevao e pureza? Sem dvida
o homem de cincia. Se uma personagem astral visitasse a Europa e, na 
inteno de a julgar, lhe
perguntasse por que tipo de homem, entre os que a habitam, ela 
preferiria ser avaliada, no h

dvida de que a Europa, certa de uma sentenafavorvel, indicaria os 
seus homens de cincia.
 claro que a astral personagem no perguntaria por indivduos 
excepcionais, mas procuraria
a regra, o tipo genrico do *homem de cincia+ - vrtice da 
humanidade europeia.
     Pois bem: acontece que o homem de cincia actual  o prottipo 
do homem-massa. E no por
acaso, nem por imperfeio pessoal de cada homem de cincia, mas 
to-s porque a prpria
cincia - raiz da civilizao - o converte automaticamente em 
homem-massa; quer dizer, faz
dele um primitivo, um brbaro moderno...
     ... Seria de grande interesse, e de maior utilidade do que  
primeira vista parece, escrever uma
histria das cinciasfsicas e biolgicas, evidenciando o processo de 
crescente especializao no
trabalho dos investigadores. Isto mostraria como, gerao aps 
gerao, o homem de cincia tem
vindo a restringir~se, recolhendo-se a uni campo de ocupao 
intelectual cada vez mais estreito.
Todavia, o mais importante que esta histria nos ensinasse no seria 
isto, mas antes o inverso:
como em cada gerao o cientista, por ter de reduzir a rbita do seu 
trabalho, ia perdendo pro-
gressivamente contacto com as demais partes da cincia, com uma 
interpretao integral do uni-
verso, a nica coisa merecedora dos nomes de cincia, cultura, 
civilizao europeia.
     A especializao comea, precisamente, numa poca que chama 
homem civilizado ao homem
*enciclopdico+. O sculo xix inicia o seu destino sob a direco de 
criaturas que vivem enci-
clopedicamente, se bem que a sua produo tenha j um carcter de 
especializao. Na gerao
seguinte, a equao deslocou-se, e a especialidade comea a 
desalojar, em cada homem de cin-
cia, a cultura geral. Quando em 1890 uma terceira gerao toma a 
direco intelectual da
Europa, encontramo-nos com um tipo de cientista sem exemplo na 
histria.  um homem que, de
tudo o que se deve saber para ser uma pessoa cultivada, apenas 
conhece uma cincia determi-
nada, e mesmo dessa s conhece bem a pequena poro em que  activo 
investigador Chega a
proclamar como virtude o no inteirar-se de quanto fique de fora da 
limitada paisagem que espe-
cialmente cultiva, e chama *diletantismo+  curiosidade pelo conjunto 
do saber
     O caso  que, recolhido na estreiteza do seu campo visual, 
consegue, com efeito, descobrir novos
factos efazer avanar a cincia que ele apenas conhece, e com ela a 
enciclopdia do pensamento
que conscienciosamente desconhece. Comofoi e  possvel semelhante 
coisa? Porque convm vin-
car a extravagncia deste facto inegvel: a cincia experimental 
progrediu em boa parte merc do

trabalho de homens fabulosamente medocres, e at menos que 
medocres. Quer dizer, a cincia
moderna, raiz e smbolo da civilizao actual, acolhe em si o homem 
intelectualmente mdio e per-
mite-lhe operar com xito. A razo disso est naquilo que , ao mesmo 
tempo, a vantagem maior
e o mximo perigo da nova cincia e de toda a civilizao que esta 
representa e dirige: a meca-
nizao. Grande pane das coisas que h afazer em fsica e em biologia 
so tarefa mecnica de
pensamento que pode ser executada por qualquer um, ou pouco menos. 
Para efeito de inmeras
investigaes  possvel dividir a cincia em pequenos segmentos, 
acantonarmo-nos num e desin-
teressarmo-nos dos demais. A segurana e exactido dos mtodos 
permitem esta'trasitria e
prtica desarticulao do saber Trabalha-se com um desses mtodos 
como com@ uma mquina e
para obter abundantes resultados nem sequer foroso possuir ideias 
rigorosas sobre o sentido e
afundamento deles. Assim a maior parte dos cientistas contribuem para 
o pro resso geral das cin-
cias encerrados na clula do seu laboratrio, como a abelha na do 
seufavo

                    Jos Ortega y Gasset, La R~ 94 Masses, Stock, 
1937, ibidem.
                                                            IENE
                                                             39
A CRISE DOS VALORES

               No foi somente em ter apressado os sucessos polticos 
revolucionrios que a guerra provou ser
          m *acelerador poderoso+. Muitos dos movimentos intelectuais 
e artsticos que antes de 1914
          ANK                   andavam j a atacar e a corroer as 
posies assumidas pela gerao anterior ganharam um mpe-
          to novo com as experincias da guerra; e alguns deles, com 
o desenvolvimento dos novos meios de
          comunicao de massas - o cinema, o disco e a rdio - 
principiaram a atingir um pblico mais
          vasto. As consequncias sociais e polticas da guerra foram 
tais que as pessoas, consoante as
          suas ci          .          rcunstncias individuais e 
nacionais, podiam, umas delas, alimentar esperanas extrava-
          gantemente optimistas de que estaria a comear um nova era 
revolucionria em que tudo iria ser
          possvel e em que novas tcnicas artsticas se iriam ligar 
a novos conceitos do homem e da socie-
          dade; a outras pessoas, contudo, as imagens e os sons da 
nova arte e da nova msica pareceriam
          tambm ser um smbolo da violenta dissoluo de uma ordem 
estabelecido e de valores estabelecidos -
          um KulturboIschewismus, como lhe chamaram os Nazis - e 
provocar-lhes-iam ou a exigncia de

          uma depurao da sociedade ou ento uma nostalgia 
pessimista das certezas dissipadas.

                         James JolI, A Europa desde 1870, Lisboa, D. 
Quixote, 1982.


AS TRANSFORMAES SOCIAIS: O EXEMPLO INGLES

               As transformaes sociais provocados pela guerra 
apresentam, de um pas para outro, muitas
          caractersticas comuns. Mais do que passar em revista os 
pases beligerantes, preferimos centrar o
          estudo num s, o Reino Unido da Gr-Bretanha e da Irlanda. 
Porqu o Reino Unido? Porque, mais
          do que qualquer outro pas europeu, foi profundamente 
afectado pelo choque da guerra, no porque
          os combates se tenham desenrolado no seu territrio, mas 
sem dvida porque era, entre todos, o
          menos preparado para o enfrentar. Para o ingls mdio de 
1914 a guerra na Europa era um fen-
          meno desconhecido desde h um sculo, e o seu pas, 
protegido pela imensidade martima, parecia
          invulnervel. [...          1
               O abalo sofrido deixou vestgios to profundos que 
acabaram por dar origem, nos primeiros anos
          do ps-guerra, ao mito da gerao sacrificado (lost 
generation). Mito suscitado pela considerao
          das baixas militares (744 000 mortos, 1 600 000feridos), do 
dficit dos nascimentos (800 000 nos
          quatro anos de guerra), dos sacrifcios suportados pela 
elite (as baixas militares tinham sido pro-
          porcionalmente muito mais elevadas entre os jovens 
oficiais, os jovens quadros instrudos, do que
          entre a tropa mida ou os oficiais superiores). Espalhou-se 
a ideia de que a elite intelectual desa-
          parecera e, com o decorrer dos anos, firmou-se a convico 
de que as perdas de uma guerra
          absurda explicavam a mediocridade do pessoal poltico de 
entre as duas guerras, mas tambm a
          incapacidade, a estreiteza de esprito, a ausncia de 
iniciativa de um patronato ultrapassado. [...           1
          O mito da lost generation no passa de facto de um mito. 
Por muito desagradvel que seja esta
          ffinebre contabilidade, convm dizer claramente que o 
nmero de mortos representa apenas 9% dos
          mobilizveis; logo, dos homens entre os 20 e os 45 
restavam, nofim da guerra, 9 em cada 10. [...               1
          Na realidade, o que suscitou o mito nofoi tanto o nmero 
de perdas humanas como a extenso
          das mudanas introduzidos pelas exigncias da guerra e do 
imediato ps-guerra, mudanas tanto
          mais profundamente sentidas quanto o Reino Unido durante 
muito tempo fora considerado o pas por
          excelncia do liberalismo, do puritanismo, da hierarquia 
(uma *sociedade de deferncias, comofora
          definida a sociedade vitoriana e ainda a sociedade 
eduardiana).

               Com efeito, a terra do liberalismo acaba por conhecer 
os rigores do dirigismo.                    Economia
          dirigida, abastecimento dirigido, sade dirigida, taisforam 
as exigncias da guerra.
               O puritanismo, quando a vida se tornara to ameaada e 
os prazeres to raros sofrera rudes
          olpes. Os breves encontros do soldado de licena 
harmonizavam-se mal com o respeito pelo ritual
          vitoriano do noivado, as convenes do decoro j no eram 
admitidas nos *cabars para soldados+,
          os nascimentosfora do casamento tornavam-se aceitveis, 
seno admitidos. De um s golpe a guer-

40

O ROMPIMENTO DOS EQUILBRIOS E DOS VALORES TRADICIOE

r acabava de tornar ultrapassado o cdigo social e moral do sculo 
xix. Dali em diante, os puri .

tanos tiveram de resignar-se a tolerar a existncia de comportamentos 
*no convencionais+ ou at
*emocionais+.
     A boa sociedade e a classe mdia tiveram que admitir tambm que 
o que durante muito tempo
fora um dos seus privilgios, o conhecimento e a prtica da 
contracepo, se alargara s classes
populares. A distribuio de contraceptivos aos tommies para prevenir 
o contgio das doenas ven-
reas esteve na origem da extenso a todas as categorias sociais de um 
dos mtodos de restrio dos
nascimentos. A demografia britnicafoi com isto profunda e 
duradouramente afectada.
     O sentimento religioso ter sido tambm atingido pelas 
adversidades da guerra e pelas decep-
es dos ps-guerra?  difcil responder a esta pergunta. As tomadas 
de posio patriticas e at
nacionalistas da Igreja estabelecido cansaram, presumivelmente, e at 
talvez tenham chocado. A
evoluo dos costumes, por outro lado, atenuou indiscutivelmente as 
presses sociais que impunham
s categorias inferiores uma prtica religiosa cuja necessidade elas 
talvezj no sentissem espon-
taneamente. Tudo leva a crer que a intensidade do sentimento 
religioso enfraqueceu; mas no  pos-
svel avaliar a amplitude do recuo.
     A mudana de atitude mais profunda e mais duradoura 
manifestou-se no prprio seio da classe
operria, que adquiriu a convico de que, como qualquer outra classe 
social, e mesmo mais, tinha
contribudo, com os seus sacrifcios e com o seu trabalho, para a 
vitria. No s os operri.os come-
aram a afirmar que valiam tanto como os outros (as good as everybody 
else), como conseguiram
convencer-se disso e libertar-se daquele complexo de inferioridade 
que estivera na origem e expli-
cara a permanncia da sociedade de deferncia, vestgio de outros 
tempos.

     Os contemporneos no perceberam talvez imediatamente a 
importncia e o alcance destas
mudanas. Masforam impressionados, por certo, pela mais evidente de 
todas, a transformao da
condiofeminina.
     Na origem desta transformao est o empolamento do emprego da 
mo-de-obra feminina, tor-
nado indispensvel devido  partida para a frente de uma parte da 
mo-de-obra masculina, mas
sobretudo imposto pela formidvel expanso da produo militar. [... 
    1
     As consequncias deste afluxo feminino s diversas profisses e 
actividades foram profundas. Em
primeiro lugar, para as mais humildes, a possibilidade de escaparem  
misria, e at de atingirem
o bem-estar. Para as maisfavorecidas, o acesso  cultura, at a 
reservado aos estudantes do sexo
masculino ( nos anos 1920 que as estudantesforamfinalmente admitidas 
a apresentar-se aos exa-
mes da Universidade de Cambridge). Para todas, ainda, uma ocasio de 
se juntarem ao mundo exte-
rior, de sarem do larfamiliar, de se libertarem da sua antiga 
dependncia.
     Assim, logo a seguir  guerra, j no se punha a questo de 
manter as mulheres no seu tradicional
estado de inferioridade. A lei de 6 de Fevereiro de 1918 
concedeu-lhes o direito de voto a partir dos
30 anos (21 anos para os homens). Esta leifoi completada, em 1928, 
pela extenso do direito de
voto a todas as mulheres maiores. Mas, em 1919, o Sex 
Disqualification Removal Act abolira as
barreiras legais que proibiam certas profisses s mulheres, e o 
Matrimonial Causes Act de
1923 concedera s mulheres o direito, que os homens j possuam, de 
pedir o divrcio com fun-
damento no adultrio.
     A igualdade jurdica  apenas o aspecto legal da promoo da 
mulher. O fnmeno capital, com
efeito, foi a confiana em si prpria que a mulher inglesa, como as 
suas irms europei.as empenhadas
nas mesmas actividades, adquiriu durante a guerra e por causa da 
guerra.
     Talvez haja que acrescentar que a guerra favoreceu, alm da 
mulher, a juventude, mas por
outras razes. J no so tanto os servios prestados pelos jovens 
que os puseram em evidncia na
sociedade britnica do ps-guerra, mas antes uma espcie de m 
conscincia do pblico, impres-
sionado pela morte prematura de centenas de milhares de jovens. Daqui 
resultou uma extrema
indulgncia para com os sobreviventes, uma adulao pela juventude 
enquanto tal, sentimentos,
porm, confinados dentro de limites ainda razoveis, mas prefigurao 
do que vir a acontecer
depois da Segunda Guerra Mundial, quando a abdicao dos adultos os 
levar a precipitar-se no
culto da juventude.


Pierre Lon, Histria Econmica e Social, vol. V, tomo 1, Lisboa, S 
da Costa Editora, 1982,

41

dl _i:               CRISE D, ORES E AS GRANDES RUPTURAS NO PENSA

CIVILIZAO DE MASSAS NA AMRICA

          Foi,    1 aofim e ao cabo, uma sociedade em efervescncia, 
mas semprefirme nos seus ali-
A

          cerces, que recebeu o choque de dez anos de prosperidade, 
de uma prosperidade que nunca fora
          to agressiva, porque portadora de uma nova civilizao.
               Os sinais de prosperidade so bem conhecidos, e basta 
recordar, sem pretender levar a com-
          parao at ao tempo de antes da guerra, que em sete anos 
(1922-1929) a produo industrial
          e o rendimento nacional cresceram em metade (progresso de 
50% exactamente da primeira e de
          42% do segundo). Esteformidvel crescimento, porm, no 
permi . ti . u atenuar as desigualdades
          sociais
               A desigualdade dos rendimentos  evidente e, se 
admitirmos as normas americanas da
          poca, segundo as quais o rendimento mnimo necessrio para 
assegurar um decent living teria
          sido de 2500 dlares, verifica-se que menos de um tero 
dasfamlias americanas ter atingido
          esse nvel.
               Seja qualfor o significado destas estatsticas, 
reconhece-se geralmente que a categoria social
          mais mal tratada durante o perodo de prosperidadefoi a dos 
agricultores.
               Os mais infelizes, ou os mais impacientes, abandonaram 
os campos. [...
               Por isso, a populao americana se torna nesse momento 
de maioria urbana                          de sorte
          que os Estados Unidos so atingidos nessa poca por um 
gigantismo urbano.
               Uma das consequncias imediatas dessa urbanizaofoi a 
extraordinria prosperidade da
          indstria da construo civil. Em primeiro lugar, por 
virtude da construo, no centro das gran-
          des metrpoles, daqueles *arranha-cus+, cuja moda 
caracteriza to bem os anos de prospe-
          ridade.
               A indstria da construo civil recebeu, por outro 
lado, um vivo impulso do movimento de
          *suburbanizao+, que se desenha j nessa altura. 
Beneficiando da melhoria dos meios de
          transporte, e principalmente dos progressos do automvel, e 
sucumbindo tambm aos apelos das
          agencias imobilirias que forjam j o tema da *qualidade de 
vida+ fora do centro das cidades,

          numerosos citadinos mandaram construir nos subrbios ricas 
casas ou vivendas ondefixaram
          residncia. [...           1
               A melhoria da condio operria  sem dvida uma das 
razes do recuo do sindicalismo
          depois da guerra.                    O sindicalismo, j 
declinante na classe operria,  perfeitamente
          alheio  categoria social dos empregados que nos anos vinte 
comea a destacar-se vigorosa-
          mente, pelos seus recursos e pelo seu estatuto, mais ainda 
do que pela sua mentalidade e pelo
          seu comportamento, do mundo operrio. Ainda se no chama a 
esses empregados *colarinhos
          brancos+; a expresso s se ir popularizar por volta de 
1950 graas a Wright Mills. [...                  1
               Foi esta categoria de trabalhadores, assim como a dos 
operrios qualificados e, bem
          entendido, todo o sector dos patres de empresas, pequenas 
e mdias, da indstria e do
          comrcio, que beneficiaram das enormes mudanas no gnero 
de vida que seficaram a dever
          ao consumo de massas.
               Porque no  tanto na subida dos rendimentos, nominais 
ou reais, que se deve procurar o
          carcter original do perodo, como numa oferta 
extraordinria de produtos, se no todos
          baratos, pelo menos acessveis  massa dos consumidores. E 
o consumo de massas, vanguarda
          de uma civilizao de massas, que caracteriza 
fundamentalmente a Amrica dos anos vinte.
               Como se tornou possvel este consumo de massas? Pelos 
progressos conjugados da produ-
          o e da distribuio. [...             1 Quanto a certos 
produtos, os progressos foram fulminantes.  o caso
          do automvel: eram necessrias 14 horas de trabalho para 
produzir um veculo na primeira
          fbrica, clssica, de Henry Ford, mas bastavam 93 minutos 
com o progresso da cadeia, utilizada
          por ele pela primeira vez em 1914; e, em Outubro de 1925, 
das cadeias Ford sai um automvel
          de 10 em 10 segundos.


42

                                        VALORES TRADICION A

     Mas tambm progressos na distribuio, que se devem, em primeiro 
lugar,  concentrao
das empresas sob aforma de chain stores (lojas de sucursais 
mltiplas) [...    1.

     Progressos que se devem tambm aos mtodos de venda, ditos 
*cientficos+, na realidade
uma explorao sem trgua dos viajantes e representantes comerciais, 
constantemente manti-
dos sob tenso para os obrigar a *Jorar+ as vendas. Progressos que 
se devem, sobretudo, 

generalizao do crdito, das vendas a prestaes, meio maravilhosos 
de levar a consumir ren-
dimentos ainda no ganhos.

     Progressos que se devem, finalmente, quilo que pretende ser uma 
nova cincia, a publici-
dade [...  1.

     O consumo de massas tem de trazer a felicidade, uma felicidade 
complacentemente descrita
pelos mass media, e que o historiador George Mowry resume 
ironicamente deste modo: * Um
frango assado em cada mesa, um automvel em cada garagem, uma pele de 
vedeta de cinema
para cada rapariga, e talvez um adultrio para cada casamento. +

     Este desenvolvimento do uso do automvel em menos de uma gerao 
 uma das caracte-
rsticas importantes da civilizao moderna. Smbolo do estatuto 
social, o automvel arrasta o
seu proprietrio para despesas infinitas, f-lo viver acima dos seus 
meios e esgotar-se numa
buscafuriosa de recursos suplementares. [...   1

     A rdio e o cinema foram os meios de difuso da cultura de 
massas. A primeira estao
emissora, a estao KDKA da Westinghouse Company, abriu em Pittsburgh 
a 2 de Novembro de
1920 para retransmitir os resultados das eleies presidenciais. Na 
origem, a rdio foi, por-
tanto, concebida como um meio de informao rpida. Masfoi a difuso 
de msica e de canes
que a tornou popular e suscitou um tal entusiasmo que em 1929 
penetrava num lar em cada trs.
Desde logo a publicidade na rdio iornava-se extremamente eficaz, e 
foi a publicidade que, tra-
zendo-lhe oramentos gigantescos, fez dela uma indstria e, ao mesmo 
tempo, o agente por
excelncia da propagao da escultura de massas+.

     Nesta cultura de massas, o divertimento  introduzido pelo 
cinema, cujos progressosforam
tais que se considera que em 1930, nas cidades mdias, toda a 
populaofrequentava uma sala
de cinema pelo menos uma vez por semana. Divertimento tambm era o 
espectculo desporti-
vo. Este tornara-se, nosfins da guerra, aquilo a que se chamou uma 
obsesso americana: em
1921, a primeira receita que ultrapassou um milho de dlares 
realizara-se por ocasio do
desafio de boxe Dempsey-Carpentier ao qual assistiram 75 000 
espectadores. Nesse mesmo ano,
o recorde de aflunciafora igualmente batido no domnio do basebol, 
em que ofamoso Babe
Ruth ia ser por longos anos a vedeta. Mas j o prqfissionalismo 
degradava o desporto: para se

realizarem encontros entre equipas universitrias defutebol americano 
construam-se estdios
de 70 000 lugares utilizados alguns dias por ano; reuniam-se 
multides que, por ocasio do
combate Tunney-Dempsey, organizado em 1927 em Chicago, dois teros 
dos 145 000 especta-
dores estavam to afastados do ringue que no puderam distinguir qual 
dos dois pugilistas
ganhara. Quase s o golfe permaneceu um desporto praticado por 
jogadores que no eram
vedetas, visto que ocupava os tempos livres de mais de dois milhes 
de adeptos. Justifica, em
certa medida, o nome que outrora se deu aos anos vinte de *Era do 
jogo+, que se deveria cor-
rigirpara *Era do espectculos.

     Assim, o desenvolvimento de uma produo de massas e de um 
consumo de massas trans-
formaram as condies de existncia de uma parte da sociedade, 
enquanto a extenso do
modo de vida urbano, com as suas distraces e as suas tentaes 
mltiplas e a difuso de uma
cultura nacional graas  rdio e ao cinema levavam a pr em questo 
o sistema de valores
estabelecidos, sistema prprio dos meios protestantes das zonas 
rurais e das pequenas cidades.

P. Lon, ob. cit.



43

X CRISE DOS VALORES E AS GRANDES RUPTURAS NO PENSAMEr
                                                            .. . .. 
....... .

A CIDADE DE ZENITH

                    Doane - Zenith, dizia Doane com um ar pensativo, 
 uma cidade que tem um poder
               gigantesco, edifcios gigantescos, mquinas 
gigantescas, meios de transporte gigantescos.

                    Dr Yavitch - Tenho horror  vossa cidade. Ela 
reduz a um modelo uniforme toda a bele-
               za da vida. [...               1

                    Doane -                        Enervam-mecom as 
vossas perptuas lamentaes sobre *a estandardi-
               zao+! [...                 1

                    Dr Yavitch - A criao de um tipo uniforme  
excelente em si. Quando compro um rel-
               gio Ingersoll ou um automvel Ford, compro por menor 
preo um bom instrumento, sei

               exactamente o que possuo e dei-me mais tempo e energia 
para a minha personalidade. [...                       1
               No, o que eu combato em Zenith,  o modo de pensar 
uniforme e, bem entendido, as tra-
               dies da concorrncia. Os verdadeiros traidores [... 
                   1 so os prprios, os bravos e indus-
               triosos pais de famlia que recorreram a todos os 
processos conhecidos de patifarias e de
               crueldade para assegurar o bem estar aos seusfilhos. O 
pior disto tudo  que eles so bons
               e, pelo menos no seu trabalho, inteligentes. No  
possvel odi-los verdadeiramente e, con-
               tudo, os seus espritos *estandardizados+ so o 
inimigo.

                                        Sinclair Lewis, Babitt, 1922.








                         i@   4








                    Gari




         Times Square em Nova Iorque



44

               A ALIENAO DO TRABALHO FABRIL (1934-1935)

     Para mim, pessoalmente,  isto o que quer dizer trabalhar na 
fbrica. Isto quer dizer que
todas as razes exteriores (antes julgava-as interiores) sobre as 
quais assentava o meu senti-
mento de dignidade e o respeito de mim mesma,,foram radicalmente 
quebradas em duas ou trs
semanas, sob uma coaco brutal e quotidiana. E no creiam que isso 
me causou anseios de
revolta. No, pelo contrrio, provocou aquilo que eu menos esperava 
de mim prpria - a doci-

lidade. Uma docilidade de besta de carga resignada. Parecia-me que 
tinha nascido para espe-
rar, para receber, para executar ordens - que nuncafizera mais do que 
isso - que nofaria
nunca mais nada alm disso. No me sinto orgulhosa de o confessar  o 
gnero de sofrimentos
de que nenhum operara . o fala: causa demasiado sofrimento s de se 
pensar nisso. [... 1
     H dois factores, nesta escravido: a rapidez e as ordens. A 
rapidez: para *chegar a+  pre-
ciso repetir movimento atrs de movimento numa cadncia que, sendo 
mais rpida que o pen-
samento, impede no s de reflectir mas at de sonhar  preciso, ao 
colocarmo-nos frente 
mquina, matar a alma durante 8 horas por dia, o pensamento, os 
sentimentos, tudo. Est-se
irritado, triste ou desgostoso,  precido engolir, empurrar para o 
fundo de si prprio a irrita-
o, tristeza ou desgosto: eles retardaro a cadncia. E o mesmo 
acontece com a alegria. As
ordens: desde que se pica o ponto at  sada, pode-se a qualquer 
momento receber qualquer
ordem. E  preciso sempre calar e obedecer A ordem pode ser incmoda, 
ou perigosa de exe-
cutar, ou mesmo inexequvel; ou at dois chopes darem ordens 
contraditrias; isso no impor-
ta: calar-se e submeter-se. Dirigir a palavra a um ch@fe - mesmo para 
uma coisa indispensvel -
 sempre, mesmo se se  valente [...      1, expor-se a ser-se mal 
acolhido; e se isso acontecer, 
melhor calar-se. Quanto aos prprios acessos de nervos e de mau 
humor,  preciso engoli-losl-
eles no devem traduzir-se nem por palavras nem por gestos, porque os 
gestos so a cada I          .ns-
tante determinados pelo trabalho. Esta situao faz com que o 
pensamento se enrole, se
retraia, como a carne se retrai perante o bisturi. No se deve ser 
*consciente+.
     Tudo isso acontece com o trabalho no qualificado, bem 
entendido. (Sobretudo o das
mulheres.)
     E atravs de tudo isto um sorriso, uma palavra de bondade, um 
instante de contacto huma-
no tm mais valor que as amizades mais devotadas entre os 
privilegiados [...         1. S ali se sabe o
que  a fraternidade humana. Mas encontra-se pouco disso, muito 
pouco. A maior parte das
vezes, as prprias relaes entre camaradas reflectem a dureza que 
domina tudo ali dentro.

                              Simone Weil, La condition ouvrire, 
Gallimard, 195 1.


                                             A ANOMIA SOCIAL

     Mosca e Pareto * utilizaram as suas anlises cientficas da 
sociedade como meios para pr

em causa os pressupostos liberais que nos anos anteriores  pri . mei 
. ra guerra mundial pareciam
estar a ganhar terreno por toda a parte na Europa, exprimindo-se 
atravs da difuso do
sufrgio universal e do governo parlamentar Na verdade, porm, 
ajuntar a esses ataques direc-
tos ao liberalismo como doutrina poltica, os pressupostos de muitos 
membros da gerao ante~
rior a sua confiana no progresso do homem e na razo humana, estavam 
a ser postos em causa
de diversas maneiras. Os grandes pensadores sociais do comeo do 
sculo xix e dos meados
desse sculo - Saint-Simon, Conite, Marx - tinham aceitado todos 
eles, apesar das suas gran-
des diferenas, que a histria se movia para diante, e que, ou por 
uma lenta evoluo ou por um
salto revolucionria, o destino do homem ia melhorar [...        1
     No princpio do sculo xx, socilogos e cientistas andavam a 
espalhar a ideia de que o com-
portamento poltico se baseava muitas vezes em assunes irraci      
  . onal.s e emoci.onais.

                                                                 45

                                                  1     R, l

               Quanto mais os homens estudavam a sociedade, mais 
complexas pareciam ser as razes para
          uma mudana poltica e mais precrio o equilbrio do 
sistema poltico liberal no Ocidente da
          Europa. [...           1
               Durkheim, no seu estudo do Suicdio, publicado em 
1897, chamou a ateno para algumas
          dasfraquezas caractersticas da sociedade industrial sua 
contempornea. Em consequncia do
          acelerado ritmo de mudana econmica e do predomnio das 
doutrinas de laissez-faire que o
          acompanharam, a sociedade j no estava a desempenhar a sua 
funo de restringir o indiv-
          duo e de fixar claramente os limites que ele poderia ter 
esperana de atingir na sua vida. Uma
          das causas do aumento da taxa de suicdios que Durkheim 
havia calculado era, no seu enten-
          der, o facto de as aspiraes dos homens serem agora 
ilimitadas, e de aquilo que eles preten-
          diam ser com frequncia inatingvel, de modo que eles 
passavam a sentir-se constantemente
          frustrados. Em sociedades mais estveis o sistema social 
tinha sido suficientementeforte para
          obrigar os homens a ligarem as suas aspiraes a objectivos 
que eles podiam ter esperana de
          alcanar: mas na sociedade europeia do fim do sculo xix 
predominava um estado que
          Durkheim designava por drglement (desregramento) ou 
anomie (anomia, ilegalidade), uma
          ausncia de regras de comportamento social reconhecidas e 
um colapso das categorias de orga-

          nizao social, de sorte que os homens ja no sabiam em que 
situao se encontravam. A natu-
          reza da sociedade era de molde a estimular sonhos cada vez 
maiores de bem-estar material e de
          riquezas; e pela natureza das coisas esses sonhos no eram 
deforma alguma susceptveis de
          realizao. *Os apetites que a indstriafaz surgir - 
escreveu Durkheim - acham-se libertos
          de qualquer autoridade constrangedora. Esta apoteose do 
bem-estar material, santificando-os
          por assim dizer, colocou os apetites econmicas acima de 
todas as leis humanas. +
               Embora a doutrina da anomia de Durkheim tenha 
implcito um ataque directo s doutrinas
          econmicas liberais da sociedade industrial capitalista, 
ele no era totalmente pessimista
          acerca do futuro, como eram alguns dentre os cientistas 
sociais seus contemporneos. A sua
          avaliao das tenses impostas aos indivduos pelo 
desenvolvimento industrial em larga esca-
          la tem alguma coisa em comum com a descrio feita por Marx 
da *alienao+ do operrio
          industrial na sociedade capitalista, mas a insistncia de 
Durkheim na possibilidade de,. os
          desejos dos homens se adaptarem quilo que eles possam 
razoavelmente esperar, e a sua
          convico de que os homens podem ser levados a encarar a 
realidade das suas situaes e a pr
          de parte a.fantasia na formulao dos seus desejos, 
aproximam-no de Freud.

                                                       J. JolI, ob. 
cit.


O PS-GUERRA AMERICANO

     A Um ps-guerra catico, onde se acentuaram ao mesmo tempo as 
caractersticas de uma into-

          lerncia puritana e de uma liberdade de costumes que, 
parecia, roava a desintegrao dos
          valores tradicionais, sem sequerfalar da expanso 
espectacular do gangsterismo, desorientava
          os admiradores. S  medida que os anos passavam se 
modelou, irresistivelmente, a imagem de
          uma nao que parecia ter resolvido os problemas do 
crescimento econmico e da harmonia
          social numa prosperidade que, no resto do Mundo, se 
pretendia impacientemente partilhar
               Para se compreender a originalidade do aps-guerra 
americano, convm admitir que os
          Estados Unidos no foram um beligerante como os outros. 
Para os Americanos, a guerra
          tem lugar noutro continente, afrente militar situa-se a 
mais de 10 000 km de distncia e as ope-
          raes, na prtica, constituram apenas um breve epi       
       .          sdio. [...          1

               Mas era nafrente interna, se assim se pode dizer, que 
se tinham levantado problemas de longo
          alcance. A necessidade de mobilizar a opinio pblica, no 
momento em que o pas empreendia uma
          guerra que no parecia necessria a toda a gente, iria 
arrastar os Estados Unidos para a busca de
          uma coeso nacional cuja ltima forma foi a do conformismo, 
e at a da mais pura intolerncia.

46

O ROMPIMENTO DOS EQUILIBRIOS E DOS VA                                
                                                TRADICIONAIS
                                                            . 
........... ...

     Com vista a sensibilizar os seus compatriotas para as 
necessidades da *cruzada+ na Europa,
o prprio presidente Wilson lanara, durante o ano de 1917, uma 
gigantesca campanha de pro-
paganda, mobilizando 150 000 conferencistas, escritores e artistas. 
Campanha rapidamente
ultrapassada pela entrada em aco de numerosas organi    .zaes de 
voluntrios, como a National
Security League ou a National Protective Association, que se 
precipitaram em actividades irres-
ponsveis. Equipes volantes, por exemplo, penetravam em casa dos 
camponeses para se assegu-
rarem de que eles participavam no esforo de guerra pela compra de 
ttulos do Tesouro e de
emprstimo do Estado; se o campons manifestava alguma indiferena ou 
m-vontade, era oficio-
samente acusado e a sua casa assinalada aos patriotas pela aposio 
de um cartaz amarelo. [...    1
Assim, a cruzada patritica, de incio dirigida contra os 
Germano-Americanos e contra as
pessoas suspeitas de espionagem ou apenas de participao 
insuficiente no esforo de guerra,
acabou por degenerar (havia comandos de activistas que obrigavam os 
suspeitos de deslealdade
a ajoelhar em pblico para beijar a bandeira) em caa aos tbios e 
transviados para instalar no
pas o mais rgido dos conformismos.
     Esta atmosfera, nascida da guerra, no contribuiu pouco para o 
xito desse smbolo da into-
lerncia quefoi o Ku Klux Klan. [...  1 Chegara o tempo de rejeitar o 
liberalismo, porque nofor-
necera qualquer defesa contra a imigrao estrangei   .r, e de o 
substituir por um vigoroso ame-
ricanismo, resumido no slogan: Native, White, Protestant Supremacy.
     Os factores do xito, temporrio, do KKK provm simultaneamente 
da tradio e da con-
juntura. Tradicionais so a averso ao estrangeiro         e a 
averso ao judeu         conjuntu-
ral  a desconfiana relativamente a uma Igreja Catlica, que se 
apoia em certas categorias de

imigrantes para desenvolver o seu poder, que instrui os seusfilhos 
nas suas escolas paroquiais,
que condena os casamentos mistos, que parece no aceitar a laicidade 
do Estado; conjuntural
tambm  a averso aos Negros que, durante a guerra, invadiram o 
mercado de trabalho do
Norte, atrados pela oferta de emprego e pelo nvel de salrios.
     A intolernciaferoz dos dirigentes e dosfiliados do KKK 
manifestou-se, com a mesma violncia,
nofamoso Red Scare dos anos 1919-1920. O *medo vermelho+ surgiu na 
Primavera de 1919, algu-
mas semanas depois dafundao da III Internacional, e no momento em 
que os acontecimentos da
Baviera e da Hungria levavam a pensar que o bolchevismo ia cobrir a 
Europa: a ideia de que o pr-
ximo objectivo dos *ven-nelhos+ era a Amrica espalhou-se 
imediatamente numa opi . ni . ao pblica que
acabava de ser transtornada pela vaga de greves e de violncias do 
imediato ps-guerra. [... 1
     O conformismo nascido da guerra, a intolerncia, de origem mais 
longnqua mas refora-
da pelo xito do KKK e a exploso do Red Scare desabrocham na 
elaborao de uma nova
legislao da imigrao. [...  1
     A inteno do legislador era evidentemente reduzir a imigrao 
em geral, mas sobretudo a
proveniente da Europa central, oriental e meridional. [...   1
     Ser de classificar na mesma rubrica da intolerncia a grande 
cruzada antialcolica do ps-
-guerra (foi a 1 de Julho de 1919 que entrou em vigor o War-time 
Prohibition Act, proveninente,
por sua vez, da ratificao da 18.'Emenda  constituio, votada em 
1917)? Para alguns, a
proibiofoi imposta pelo estado de esprito do tempo de guerra [... 
     1, excessivo e inimigo de
qualquer compromisso. Para outros, foi inspirada pelo mundo do campo, 
da pequena cidade,
da classe mdia protestante, desejoso de tornar as pessoas melhores 
pela lei, e imposta ao
mundo das cidades, mundo diverso, materialista, gozador e laxista. 
Seria, pois, como que o lti-
mo esforo das foras tradicionalistas para imporem ao conjunto da 
sociedade um valor
moral especfico, a sobriedade e o autodomnio. Mas h que verificar 
que bem depressa se viu,
pelo menos nas cidades, que uma massa considervel de cidados, por 
vezes dos mais respei-
tados, no tinham qualquer inteno de obedecer  lei.
     Se  certo que a proibio teve efeitos benficos na sade 
pblica, est infelizmente prova-
do que trouxe consigo um cortejo de doenas sociais que do um triste 
colorido aos anos vinte.
Sem nos determos excessivamente na decomposio moral de meios at a 
bem-pensantes

47


Mario          @- A(        y


(mdicos desonestos que passavam receitasfalsas, farmacuticos sem 
escrpulos que vendiam
clandestinamente o lcool medicinal), basta evocar o desenvolvimento 
assustador da fraude, do
trfico, a constituio de quadrilhas de bootleggers, que no 
tardavam ajuntar  sua actividade
bsica a extorso sistemtica de fundos pela chantagem (racket), e 
finalmente a generalizao
da corrupo das autoridades (polcias, polticos, funcionrios e at 
magistrados). Um bom
exemplo do mecanismo da degradao fOrnecido pelos night-clubs: 
fruto dos anos loucos, nas-
cidos do jazz e da diverso nocturna, enveredaram rapidamente pelo 
trfico do lcool e,
para evitar perseguies e sanes, obtiveram a *proteco+ da 
polcia e de certos gangs. As
*despesas+ dessas proteces foram cobertas, evidentemente, por 
trficos suplementares, e
muito especialmente pelo trfico das mulheres, trfico que tambm era 
preciso proteger A espi-

ral trfico-proteco-corrupo era o mais evidente resultado de uma 
*cruzada seca+, que s
                             1.a

iria cessar com a aprovao da 2 emenda, que anulava a 18.a, em 1933.
                                   P.   Lon, ob. cit.

O DIREITO DE VOTO
CONCEDIDO AS
MULHERES EM
VARIOS PASES
DA EUROPA








NOVAS PROFISSES
PARA AS FRANCESAS
Sucia (direito de eleger o Conselho Municipal)

Finlndia

Noruega

Dinamarca

Rssia

Gr~Bretanha (mulheres com mais de 30 anos)

Polnia

Islndia, Alemanha, Pases-Baixos

Austria

Checoslovquia

Hungria

Gr-Bretanha (mulheres a partir dos 28 anos)

Espanha, Portugal

Romnia

Frana

                         Segundo Dermenjian e outros.



- Mare Curie, Prmio Nobel da Fsica

-    Marie Cure, primeira mulher professora de Sorbonne

     Marie Curie, Prmio Nobel da Qumica
     Primeira mulher doutora em Letras
     Primeiras mulheres engenheiros

     Primeira mulher agregada de Medicina
     Primeira mulher recebida na Escola Central
     Primeira mulher conselheiro de embaixada



Posio das mulheres em 1000 pessoas activas




  a indstria              348  269
No comrcio                377  425
Nas profisses liberais
?@e nos servios pblicos  283  383

                                   P.   Lon, ob. cit.


48

           A MODA NAS VSPERAS DA
           PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL








           Gw                . 21

   Almada Negreiros, Pintui-a dcLol'ali\ a
  de figurinos (Alfaiataria Cunha - 1913),
       Centro de Arte Moderna, Lisboa.

                  TR@@@A1S



          COCO CHANEL IMPE A MODA

               1914. A guerra
gantes tinham chegado a Deauville. Era preci-
so no s pente-las, mas em breve, porfalta de
costureira, vesti-las         1. O tecido faltava. Eu
talhava os jerseys em sweaters e as malhas de
treino como eu prpria usava.  No fim deste pri-
meiro ano de guerra, tinha ganho 200 milfran-
cos-ouro          Ao inventar os jerseys, libertava
o corpo, abandonei a cintura (que no retomei
seno em 1930) e inventei uma nova silhueta.
Para estarem de acordo com ela, e com a guer-
ra a ajudar, todas as mulheres emagreceram,
*magras como Coco+                  Em 1917, cortei os
meus cabelos bastos; comecei a encurt-los
pouco a pouco. Finalmente, usei-os curtos [...              1.
Decidira substituir as peles ricas por pelagens
mais pobres [...     1. Utilizei o coelho [...    1. Fiz vir
os tweeds da Esccia [...        1. Consegui que lavas-
sem menos as ls para lhes deixar a suavidade
[... 1. Pedi aosfabricantes cores naturais; que-
ria adequar a mulher  natureza, obedecer ao
mimetismo dos animais.

     Chanel, citada por Paul Morand, L'Allure de Chanel,

                                   Hermann, 1976.

Muitas mulheres ele-








   AJOVEM
DOS ANOS 20








     Jorge Barradas,
desenho para a capa
da revista ABC, Julho de 1927,
Centro de Arte Moderna, Lisboa






49

A                               AS



1932                                             1943








- - -----                                     ------ - -----

          Modas e Bordados, n.' 1065, 1932. Os Nossos Filhos, n.' 14, 
Junho de 1943.

1 - Gentil kimono em vole
de algodo beije sobre uma
saia de *toile mordore+.
Um fichu em toile de seda
*Inordore+ com pintas beije.

2 - Kiniono em crepe azul
marinho, aberto sobre um
colete em riscas vermelhas
e azuis.

3 - Vestido para tarde, muito
distinto, preto, com a frente
do casaco em branco.
Ao longo das costuras, um
ligeiro bordado a preto.

4 - Vestido de seda cor-de-
-rosa velho; algibeiras
franzidas; *iabot+ de renda
branca e lacinho de veludo
preto.




OS *ROARING TWENTIES+ AMERICANOS E O FRACASSO

DA EMANCIPAO FEMININA

     Ik A liberdade de costumes, durante o perodo dos Roaring 
Twenties,  o outro aspecto caracte-
          rstico do ps-guerra americano.
               Esta liberdade  simbolizada pela flapper, a *garota 
sem peias+, que ostenta um estilo (*viver 
          sua maneira+) absolutamente alheio ao da gerao anterior. 
O termo flapper surgira nofim do scu-
          lo XIX, onde se aplicava s jovens pouco virtuosas, no 
princpio do sculo xx designava a jovem
          excntrica que mandara cortar o cabelo e que ostentava uma 
vida de bomia. Nos anos vinte, desig-
          na as jovens emancipadas que se pretendem alheias a todas 
as convenes soci . ai . s.
               Sada quase sempre de uma famlia rica, a flapper, 
vestida por cima do joelho, exageradamen-
          te pintada, pretende chocar por todos os aspectos do seu 
comportamento. Fuma ostensivamente, e
           maneira de provocao, cigarros em pblico, usa uma 
linguagem grosseira, bebe lcool sem medi-
          da, comporta-se mal nos petting partias (ou necking 
partias; os peritos contemporneos no so
          capazes de explicar a diferena) e ainda pior durante 
certos passeios nocturnos de automvel, visto
          que este se tornara, segundo alguns, *uma casa de 
prostituio sobre rodas+. Durante muito
          tempo se ir dissertar sobre a dimenso exacta da 
imoralidade das flappers, e o assunto no tem
          muito interesse. O que convm reter  que a revoluo das 
flappersfoi breve, ou antes, que as mais
          jovens se afastaram disso rapidamente, enquanto a chama era 
retomada pelas mulheres de idade
          menos tenra: *Foi a jovem+, verifica um historiador 
americano, *que lanou o ideal da flapper, mas
          foi a me que o manteve vivo. + Sinal da importncia do 
culto da juventude, em que chafurdaram os
          adultos dessa poca.

50
O ROMIPIMENTO 00@@U1L1           BRIOS E DOS VALO@@@@@S

     O que convm reter tambm so as ambiguidades dessa moda. A 
jovem que no respeita qualquer
tabu, sobretudo se for de ordem sexual, e ostenta um comportamento 
emancipado, abandona as
caractersticas da sua feminilidade e acentua o seu aspecto 
masculino, as suas maneiras arrapa-
zadas, de tal modo que j se disse que s a maquilhagem podia 
distinguir os sexos. E essa emanci-
pada, em vez de recuperar as tonalidades dofeminismo, pelo contrrio, 
despreza a emancipao que
as antepassados exigiram, professando pelo contrrio, que o 
direitofundamental da mulher  o de
dispor do seu corpo, que a sua funo primordial  consagrar-se ao 
amor. Assim se desencadeou
uma espcie de reacofeminizante, muito aparente no meio snob por 
excelncia da Universidade

de Vassar, onde, em 1923, um inqurito mostrava que 90% das 
estudantes desejavam casar-se e con-
sideravam que o casamento era *a mais bela das carreiras+.
     A moda flapper, por muito provocante que tenha sido, e apesar da 
discutvel continuao que teve
nas ociosas de idade madura, no passou de uma breve aventura de 
algumas estaes. Mas teve efei-
tos que no so para desprezar na evoluo dos costumes: pela moda, 
que se tornou mais sensata
com o tempo, mas que, dotando a mulher de roupas menos volumosas, lhe 
concedeu liberdade de
movimentos, um -vontade que caracterizam o perfil moderno; pela 
maquilhagem, que deixou de ser
uma provocao para se tornar, graas  multiplicao dos sales de 
beleza [...       1 e das suas pro-
fissionais [...  1, um meio de conservar o aspecto da juventude; pela 
difuso de prticas at a
exclusivamente masculinas (tabaco, lcool), que, com moderao, 
contribuiu para deitar abaixo
pesadas barreiras; por uma liberdade de linguagem mais facilmente 
tolerada; pela adopo de acti-
vidades novas, outrora rigorosamente proibidas ao sexofraco pela 
moral burguesa, a menos original
das quais no  a especulao na bolsa [...    1.
     Mas a contestao dos costumes e dos valores tradicionais nofoi 
obra exclusivamente dos flap-
pers. A moda dofreudismo, umfreudismo primrio, a bem dizer, mal 
digerido, posto ao alcance das
multides e difundido por intelectuais geralmente recalcados, 
transformou a Amrica dos Roaring
Twenties. Para este freudismo o sexo era a fora motora do gnero 
humano e a liberdade sexual a con-
dio da sade mental; qualquer represso do instinto sexual era 
condenvel, ao passo que o deixa-
-andar e a autocomplacncia se tornavam condies defelicidade. A 
difuso desta moda reforou, no
domnio da linguagem, o proselitismo das flappers: na boa sociedade a 
mulher, que outrora fingia cho-
car-se com tudo, orgulha-se porj no o ser com nada. A pornografia 
faz as delcias da imprensa ilus-
trada e o cinema, que j criara o tipo da vamp, produziu em massa 
filmes de ttulos aliciantes. [...1
     A moda da msica i azz foi, para alguns, mais um exemplo da 
decadncia dos costumes: uma
dana como o fox-trot, ritmada pelo brbaro saxofone, no era mais do 
que uma *unio sexual sin-
copada+. Para outros o jazzfoi *a msica popular da cidade 
industrial+, para outros ainda a expres-
so nova de um mundo activo, enrgico, trepidante, ou ento a 
manifestao da espontaneidade con-
tra o maquinismo, ou ainda uma revolta alegre contra as convenes, 
ou at *a revolta das emoes
contra a represso+.
     Sejam quaisforem estas interpretaes ambiciosas, o jazz, tal 
como a pornografia ou os exageros
da juventude, contribuiu para que as antigas autoridades sociais, 
tanto a aristocracia do Leste como

a burguesia do Middle West, considerassem os anos vinte o decnio das 
*ms maneiras+. Juizo par-
cial evidentemente, mas que reduz a propores bastante justas este 
movimento dos Roaring
Twenties. Com efeito, deve notar-se que este movimento no realizou 
uma substituio de valores,
antes no passou de uma contestao dos valores tradicionais. 
Snobismo, exibicionismo, laxismo,
instauram j aquilo a que muito mais tarde se vir a chamar uma 
permissiva society.
     Por isso, pode pr-se a questo de saber se os anos vinte no 
tero posto em causa, ao fim e ao
cabo, a solidez dafamlia americana. Alguns ndices levariam a 
admiti-lo: subida das taxas de divr-
cios, baixa da taxa de natalidade, indulgncia sistemtica na 
educao das crianas. Em sentido
contrrio, a existncia de uma enorme maioria conservadora, a que 
apoiou o presidente Coolidge
precisamente porque ele celebrava constantemente os antigos valores 
ameaados e surgia como uma
perfeita expresso do ascetismo puritano, fornece matria para 
reflexo. [...    1
A mulher no conheceu nos anos vinte a *emancipao+ econmica. 
Continua a ser mal remu-
nerada, confinada nos empregos *femininos+, considerada a maioria das 
vezes uma *trabalhado-
ra tem orri  .a+ que  paga o mal.s mi.seravelmente possvel.

     p

51

               Por maioria de razo, as mulheres no obtiveram, 
apesar das manifestaes enganosas dos
          Roaring Twenties, a emanci              .          pao 
social. Os progressos da liberdade sexual no prejudicaram a
          crena assente na distribuio dos papis entre os sexos. 
Para os Americanos e Americanas dessa
          poca o casamento e osfilhos constituem o objectivo da 
existncia para as mulheres e o xito mate-
          rial do mundo exterior  famlia o objectivo dos homens. 
Como o trabalho da mulher continua a ser
          considerado uma ameaa para a estabilidade dafamlia, as 
barreiras sociais que se opem ao aces-
          so das mulheres s profisses liberais e aos negci        
     .          os subsistem. Reforam-se at com o tempo. No
          fim do decniofoi lanada uma vigorosa ofensiva da 
imprensa, e sobretudo das revistasfemininas
          com o Ladies Home Journal, para reconduzir as mulheres  
*feminilidade+. Em especial, se se admi-
          tia que as mulheres das categorias inferiores pudessem 
exercer uma profisso, era porque a neces-
          sidadefinanceira o impunha. Mas as mulheres das classes 
mdias no deviam procurar trabalho,
          porque isso seria uma derrogao do estatuto de mulher e de 
me; para elas, e tambm, mas em

          menor medida para as categorias superiores, carreira e 
casamento continuavam a ser rigorosamente
          incompatveis. A crise econmica dos anos trinta no,fez 
mais do que aumentar a reprovao
          pblica das mulheres casadas e empregadas. Mas no criou 
essa atitude, que lhe era muito anterior.

                                                  Pierre Lon, ob. 
cit.




O FEMINISMO EM PORTUGAL

               Que durante o sculo xix o questionamento dos papis 
tradicionais atribudos s mulheres
          durante sculos (assim como as bases doutrinrias que os 
justificavam) esteve presente na vida por-
          , uguesa, atesta-o em primeiro lugar a coragem e a 
persistncia das mulheres escritoras que ousa -
          ram trazer o problema para fora da privacidade familiar que 
at a lhes era o nico espao reco-
          nhecido como autenticamente seu. Ousadia que no raro as 
tornava objecto de zombaria quando no
          alvo de autnticas grosserias masculinas, e de condenao 
ou distanciamento por parte de muitas
          das suas iguais. [...           1
               Nas classes cultas parece adquirida a noo de que a 
mulher no  de modo algum intelectual-
          mente inferior ao homem. Mas tais capacidades, para se 
desenvolverem, precisam de uma instruo
          e educao levadas a srio. Instruo e educao que visam 
primariamente prepar-la para o exer-
          ccio dos seus papis fundamentais: esposa-companheira do 
marido, educadora dos filhos, dona de
          casa. Se, alm disso, tiver gosto e capacidade para se 
entregar a obras de benemerncia ou para bri-
          lhar nas letras e nas artes, nada o impede. Se quiser 
abraar carreiras consentneas com a suafemi-
          nilidade (professora, enfermeira, modista, etc.), ela tem 
necessidade e direito, alm da instruo pri-
          mria e da educao bsica para os seus papis na,famlia, 
a uma educao profissional. O que no
          quer dizer que nem todos os homens estivessem dispostos a 
subscrever as afirmaes dos seus cole-
          gas mais progressistas nestes domnio. [...             1
               Pois  exactamente pela emancipao da mulher em todos 
os domnios que vo bater-se as suces-
          sivas geraes de feministas que do periodismo faro 
tribuna. Repudiando embora, nas palavras e
          nas suas vidas, o preconceito da incompatibilidade da 
plenitude dos direitos com a vida familiar.
               No jornal A Alma Feminina, aparecido em Maio de 1907, 
encontramos definidos, atravs de
          sucessivos editoriais, os objectivos do peridico que se 
assume como feminista e, simultaneamente

          o que, no entender das responsvel            .          s 
pelo peridico, se deveria entender porfeminismo: uma doutrina
          que *no quer roubar a mulher  famlia mas reivindica para 
ela direitos sociais mais extensos e
          complexos+. A instruo das mulheres continua a ser a 
exigncia nmero um [...                   1. Nojornalfala-
          se em divrcio, admitindo-o cautelosamente embora 
apontando-lhe os grandes inconvenientes.
          Reivindicam-se direitos polticos [...             1.
               Em Agosto de 191 1 surge um jornal que assume o 
feminismo como uma componente do republica-
          nismo:  A Madrugada, rgo da Liga Republicana das 
Mulheres Portuguesas. O peridico prope-se lutar
          ao lado de todos os oprimidos, especialmente mulheres e 
crianas. E no que respeita s mulheres vai to
          longe quanto possvel na reivindicao dos direitos civis e 
polticos que ainda lhe so negados.

52

                    EQUUB@@@@@S TR                                   
             IS

     O ltimo peridico de que vamos ocupar-nos  o Boletini Oficial 
do Conselho Nacional das
Mulheres Portuguesas que se publicou ininterruptamente desde 1914 a 
1946, data em que, por impo-
sio governamental, foi dissolvido. [...            1 De assinalar 
que a partir de 1917 o rgo do Conselho
passa a denominar-se Alma Feminina. [...              1
     Estando, [ ... Ifiliado no International Council of Women, o 
Conselho nofica estranho a todos
os temas e trabalhos que so objecto de ateno por parte daquele: o 
trabalho da mulher e a sua
situao econmica, a melhoria da situao legal da mulher na famlia 
e no estado, o direito de voto
para as mulheres, a supresso do trfico de brancas, melhoramentos na 
rea da sade, o acesso das
mulheres aos servios profissionais de educao, a proteco a 
emigrantes, especialmente mulhe-
res e crianas. [...    1
     Os objectivos ltimos a alcanar so agora clara e rigorosamente 
definidos: a igualdade dos
sexos perante a lei, nomeadamente no mundo do trabalho, onde se 
defende o direito a salrio igual
para trabalho igual; e ainda o direito  participao poltica. 
Quando, em 1946, o movimentofoi
obrigado a cessar as suas actividades podemos considerar que deixou 
s mulheres um legado
precioso [...    1. O seu ltimo programa geral, segundo julgo datado 
de 1945, tem um peso de moder-
nidade que ainda hoje est longe de ter sido cumprido e poderia bem 
servir de inspirao para todos
os movimentos que se empenham na democratizao real da sociedade 
portuguesa.
      claro que toda a inteligncia e esforo das sucessivas 
geraes defeministas no bastaram para

mudar a mentalidade dominante [...              1. Masj havia 
brechas nessa mentalidade. [...           1
     Mas nem tudo foram ventos que sopraram a favor. E entre as 
dificuldades a vencer, as menores
no tero sido oferecidas pela generalidade da populaofeminina 
habituada a sculos de silncio,
obedincia e recluso no ambiente,familiar ou no claustro. Por vrias 
vezes asfeministas acusam
desnimo exactamente por causa da apatia das mulheres e da sua ftaca 
capacidade de se mobili-
zarem para lutar pela sua prpria dignidade. [...              1
     Quando se trata de mentalidades temos de admitir que os tempos 
se mudam mais fcil e rapi-
damente do que as vontades.

lvone Leal, *Os papis tradicionais femininos: continuidade e 
rupturas de meados do sculo xix a meados
          do sculo xx+, A Mulher na Sociedade Portuguesa. Viso 
histrica e perspectivas actuais,
                                        Actas do Colquio, vol. 11, 
Coimbra.

                     NEM








Taxas de fecundidade (1855-1939)


100
80
60
40

,o CD o CD o       o o o        @n o n  o o C) o   o,
,o (o (O r@ r-     co co 0)     0) 0 o  N N C,) M  C,)
               @D  I@2 @-D @-O  @-O

               Philippe Aris, Histoire des Populations Franaises, 
Seuil, 1971.

Nmero de crianas nascidas vivas (1855-1939)


1000
900
800
700
600
500
Lo    (D  Ln O   Ln O LO O LO O @n   O LO CD U-)  m
Lo    (o  (O r-  r- ao co 0) 0) 0 0  N N C,) C)   (1)

     ?2 @2  @2 ?2   ?2     ?2 ?2 1c2                           
Ibidem.


                                                            53

               A CRISE DOS VALORES E AS GRANDES RUPT



        Taxa de substituio em 1939


Mxico            Hungria

Japo             Est. Unidos

A. do Sul         Austrlia
                  Alemanha
Portugal

Pases Baixos     Bulgria
                  Dinamarca
Itlia
                  Frana
Irlanda        f
                  Noruega
Rssia
                  Blgica
Canad            Sucia

Polnia           G.B.

Austria           Sua

               A taxa de substituio mede a relao entre os 
efectivosfemininos
               de duas geraes sucessivas. Se 1000 meninas do 
origem, uma gerao mais tarde, a 1000
               outras meninas, a taxa  de 1: a populao est em 
equilbrio. Se a taxa  inferior a 1,
               a substituio de geraes nofica assegurada.




A POPULAO PORTUGUESA

               Se se dividisse a populao portuguesa em trs grupos 
etrios - os jovens (0-14 anos), o dos
          adultos (15-59 anos) e o dos velhos (60 anos e mais) -, e 
se observasse a sua evoluo entw- 1890
          e -i 940, verificar-se-ia que, at cerca de 1920, o grupo 
jovem representava 33% - ou seja, um
          tero - da populao portuguesa, cabendo ao grupo dos 
adultos aproximadamente 57% e ao
          grupo dos velhos  volta de 10%. No entanto, quase 
imperceptivelmente, ofenmeno do enve-

          lhecimento da populao comeou a ser visvel a partir de 
1911, na lenta perda de peso relativo
          ao grupo jovem, ao passo que um tambm quase imperceptvel 
aumento do peso relativo do grupo
          dos velhos era j assinalvel entre 1920 e 1940. 
Acentue-se, contudo, que se tratava de uma evo-
          luo extremamente lenta, se comparada com a que se ia 
verificando nos pases do Noroeste euro-
          peu desde meados do sculo xix e que, em Portugal, s aps 
a Segunda Guerra Mundial se come-
          aria a registar uma significativa acelerao do processo 
de envelhecimento da populao.

     A. H. de 0. Marques, Portugal - Da Monarquia  Repblica, 
Lisboa, Presena, 199 1.




MEDIDAS CONTRA O DECRESCIMENTO POPULACIONAL EM FRANA

               No pas inteiro, o envelhecimento progride. A 
proporo dos velhos cresce, a dos jovens
          diminui. A proporo dos habitantes com idade de 60 anos e 
mais ultrapassa ou aproxima-se
          dos 215 em numerosos departamentos [...                    
     1. *No Tarn-et-Garonne, o grupo de crianas de O a 5
          anos  menos numeroso que o dos velhos de 70 a 75 anos, e o 
dos jovens de 20 a 25 conta sen-
          sivelmente menos indivduos que o grupo de 60 a 65 anos+. 
Em Frana, a taxa de reproduo
          , em 1938, de cerca de 0,87, quer dizer que a substituio 
das geraes no est assegurada
          seno at aos 9110 anos.

54

     Uma populao que decresce ou que J   .a no cresce, representa, 
para a produo e para o tra-
balho da nao, uma diminuio das exportaes. Os produtos agrcolas 
vendem-se mal. Os
tecidos, os artigos emferro, os objectos de consumo corrente no 
encontram mais comprado-
res; forosamente impe-se aos produtores procurar no exterior 
mercados sempre mais difceis
de conquistar e defender A populao comanda a produo e o consumo. 
Procuraram-se
remdios para travar este dfice de homens. Uns tm como efeito 
introduzir mais equidadefis-
cal nas cargas fiscais e de aliviar as cargas das famlias numerosas. 
Os outros criam pela lei
novosfranceses. Outros melhoram as condies de vida rural; outros 
ainda protegem os vivos
contra a morte [...  1. Favorecem um acrscimo da natalidade sem 
tocar no fundo da questo. O
problema demogrfico ter uma soluo diferente conforme o pas 
pensar: que o nmero  uma

fora e uma riqueza, ou que a felicidade material no  possvel numa 
nao numerosa.

                                   A.   Demangeon, Gographie 
Universelle, tomo VI, La France, 1948.




                    A EVOLUO DA NATALIDADE EM FRANA

                             milhares

                         1000 - - curva da natalidade


900 -  evoluo da natalidade suposta,
       se a fecundidade dos casais ti-
       vesse permanecido constante ao

800 -  nvel mdio de 1932-1939

700 -

600 -

500 -

                              1932 1@34 166 119'38 1@40 1@42 1d44 
1@46






                                             A *MULHER NOVA+

     No incio do sculo xx, a *mulher nova+  celibatria e 
orgulhosa da sua fora interior
Alexandra Kollontai celebra no seu ensaio A Nova Mulher (1913) a 
mulher que j no sacri-
fica a vida ao amor e  paixo. A maior parte das feministas, 
qualquer que seja a sua tendn-
cia, so ento celibatrias por escolha. Se algumas consideram que o 
facto de serem chamadas
*menina+ valoriza a sua integridadefisica e moral, muitasfeministas 
reivindicam a designao
de *senhora+ para qualquer rapariga com mais de dezoito anos.
     Para muitas mulheres casadas e mes defamlia esboa-se um 
consensofeminista a respeito
do controlo de nascimentos. Este elabora-se na perspectiva de uma 
nova representao da sexua-
lidade. [...1
     A questo da sexualidade no  apenas tratada sob o ngulo da 
moralidade, mas tambm
sob os aspectos cientfico, poltico e econmico. Insistindo no 
perigo da sexualidade, impe-se

aos homens e s mulheres a continncia sexual como remdio para a 
moral dupla. Esta *pure-
za social+ domina amplamente a cenafeminista no ltimo quartel do 
sculo xix. No incio do
sculo xx, uma atitude mais positiva face  sexualidade feminina pode 
desenvolver-se: por um

                                                                 55

........... .......

lado, graas a uma primeira gerao de mdicas que esboam uma 
reconquista do corpo
pelo domnio cientfico e que, pelo seu ensino, sugerem s mulheres 
que se libertem do medo e
da ignorncia do seu prprio corpo: por outro lado, graas  criao 
de ligas neomalthusianas
que contribuem para a divulgao dos meios de contracepo. Mas o 
terreno parece frgil.
     O separar-se o prazer sexual da procriao provoca medo. [...   
1
     Tambm em Frana, trinta anos depois da Inglaterra, o 
neomalthusianismo se organiza com
Paul Robin e provoca escndalo num clima repopulacionista. A partir 
de 1902, Nelly Roussel,
Madeleine Pelletier, Gabrielle Petit e Claire Galichen defendem as 
suas ideias. A Dra. Pelletier
 no entanto a nica a assumir o direito ao aborto como consequncia. 
Durante o mesmo pero-
do, o grupo neomalthusiano genebrinofavorece, na Sua, uma difuso 
trilingue de La Vie inti-
me (1908-1914), onde defende uma maternidade consciente. O 
Unicojornaljminista suo do
incio do sculo que fala de contracepo e aborto  La L'Explore 
(1907-1908) e o seu con-
gnere suo-alemo Die Vorkmpferin (1906-1920), redigidos por 
Marguerite Faas-Hardegger,
secretria da Unio Sindical Sua.
     Nos Estados Unidos, transgredindo a lei, Margaret Sanger e Enima 
Goldmann contam-se
entre as rarasfeministas que, antes da guerra, fazem do tema da 
contracepo uma priorida-
de. Feministas inglesas empenhadas nas campanhas pelo controlo dos 
nascimentos e pelo abor-
to, como Stella Browne e Marie Stopes, ligam-se ao movimento da 
reforma sexual. Nesse
quadro cientfico, elas ousam igualmente falar da homossexualidade 
feminina.

          Anne-Marie Kppeli, *Cenas feministas+, Histria das 
Mulheres, vol. 4.








O *NORD-EXPRESS,,




                      A

A    ACELERAO DO QUOTIDIANO:
    CASO FRANCES

     Outra inovao da poca, outro enco-
rajamento  despesa tambm, so as des-
locaes rpidas. E contudo os novos
meios de transporte nofazem desapare-
cer os antigos. O nmero dos cavalos tor-
nou- se estvel pouco a pouco: 3 milhes
de cavalos de trabalho, 1 milho de cava-
los de traco. O nmero de veculos no
motorizados era em 1930 idntico ao de
1890. Mas de ressa os caminhos-de-ferro
p
fizeram pouco a pouco a sua apario:


Quilmetros de caminho-de-ferro

          ............................. 9 525

                      o


                                 .............................  43 
059

                                 .....                          49 
628
Cartaz de Adolphe Mouron (1927)



56

Depois chegaram os elctricos:

          Quilmetros de elctricos

     24
411
1  085
4 231
8 690
10 236

(Mas somente cerca de uni tel--o
transportavam passageiros.)
Em seguida apareceram as bicicletas:

            Nmero de bicicletas

                                    981 000
                                   3 552 000
                                   4 398 000
          E                        6 820 000

                                   8 788 000

Nmero ao qual  preciso juntar

as 51 000 motocicletas de 1920, que
se tornaram meio milho em 1933.
Porfim o automvel:


Nmero de automveis

Publicidade ao Volkswagen (1938)






      3000  ......
     54000  ......
    135000  73000
1   109000  411000
1   397000  458000
1   831000  ?
   2472000  ?

Acrescentemos que a comunicao telefnica
expandiu-se aproximativamente ao mesmo                               
                                            per tu 111
ritmo que o automvel:

Nmero de assinantes de telefone

                                   16 000
                                   70 000
                                   210 000
                                   310 000
                                   439 000

                              1    113 000

                              1    590 000

Teodore Zeldin, Histoire des passionsfranaises
          (1848-1945), vol. 3, Paris, Seuil, 1979. Publicidade ao 
Fiat (1934)

                                                            57

 A.       NMERO DE VECULOS
@1& AUTOMVEIS
          EM DIVERSOS PASES


em milhes                          O PAQUETE DE LUXO *NORMANDIA+

          30

          20

          10

          3
                                                            ... 
........

          2





          o
          1913       1921       1930      1938





AS TRAVESSIAS AREAS

                     A.








                                             Gago Coutinho (1 
869-1959)
                                        Gago Coutinho e Sacadura 
Cabral
                                   atravessaram o Atlntico Sul, pela 
primeira
                                   vez sem pontos de apoio, de
                                   Maro a Junho de 1922
                     W.

                    Maryse Bastl (1 898-1952)

               Detentora de dez recordes internacionais

                    de distncia e de durao


58

                                                  ...... ....... .... 
...

                                        VALORES TRADICIONAIS


     CARTAZ DA COMPANHIA AREA
          IMPERIAL AIRWAYS (1935)


                              O NOVO MEIO DE TRANSPORTE:
                                      A BICICLETA PARA DOIS



                         IMPERIAL
                         AIRWAY5

                         Th.


                    4.1








                                   O TURISMO EM PORTUGAL

     Entre os novos prazeres conquistados pelas classes mdias no 
primeiro tero do sculo, con-
vir no esquecer o turismo. Viajar por pra.-,er era, at ento, 
apangio dos muito ricos ou dos
peregrinos religiosos. A difuso do caminho-de- rro e, mais tarde a 
do automvel, aliadas a um
.fe

aumento do nvel de vida e  criao gradual de in a-estruturas e de 
novos hbitos e modas,
                                                  .fr
levaram a uma intensificao notvel da viagem ldica, quer no 
interior quer no exterior do
Pas. A palavra turismo, ainda ausente dos dicionrios de finais de 
Oitocentos, tornou-se
corriqueira na lngua portuguesa. [ ... ]Joram publicados sucessivos 
guias, itinerrios, mapas,
bilhetes-postais ilustrados, etc., tanto de Portugal como de Lisboa e 
de outras cidades e vilas.
[... 1 Todos os centros populacionais de alguma importncia passaram 
a ter um ou mais hotis
junto da estao de caminho-de-ferro, condio indispensvel a um 
turismo desenvolvido.

               A.   H. Oliveira Marques e outros, Portugal - Da 
Monarquia para a Repblica, Presena, 1991.





          A MODA DE VIAJAR: O *EXPRESSO DO ORIENTE+

     O Expresso do Oriente levava consigo na noite o seu pblico 
tri-semanal. O mesmo, sempre.
As costureirasfrancesas e as modistas maisjovens entravam em 
Constantinopla aps uma via-
gem de abastecimento. Em Laroche, o per fume de Paris dissipou-se 
enquanto que reapareceram
os tenazes odores do Oriente: a rosa e a bergamota picante. As 
mulheres do Servio Civil vaci-
lavam no corredor com seis bebs louros, que no tero bero, antes 
de Bombaim. Os oficiais


                                                                 59

                    'IRISE DOS V.4i-

          do Estado-Maior, com bon de polcia, palmilham os cais 
durante a paragem, com a perna curta
          estendida e autoritria. Os Franceses tm tantas 
condecoraes que nem se lhes consegue ver
          o peito. Os Ingleses deixavam-se dormir tarde e, 
assobiando, ocupavam o lavabo at que a pro-
          viso de gua e de toalhas estivesse esgotada. Por fim, as 
famlias israelitas espanholas de
          Salnica, de regresso de Vichy, onde a sua tez se aclarara, 
permaneciam deitadas todo o dia,
          vestidas defato de saia e casaco, sobre as camas desfeitas 
[...                 1. Depois, tudo adormecia ao som
          da cano das rodas, acompanhada por castanholas de ao. 
Ressonava-se. [...                        1

          O comboio acordou as gares suas, de estilo gtico, cujos 
vitrais tremeram.                           Depois,
          1 passaram-se os arrozais do Piemonte at uma estao que 
acabava no nada, sobre uma cis-
          terna de sombra e de silncio e issofoi Veneza. Ao acordar, 
uma nortada de ao cortou o milho
          da plancie croata. A Srvia fazia-se anunciar pelos seus 
porcos, raiados de preto e branco [...                    1
          que devoravam, tombada nofosso, uma carcaa de vago de que 
restavam apenas as rodas e o
          sinal de alarme [...             1. Em Vinkopje, os Romenos 
[ ... ]foram separados do comboio, na noite gela-
          da. Depois de Sofia, as casas apresentavam os seus pimentos 
a secar, irmos das vinhas virgens.
          Iluminados pelo sol nascente, trabalhadas pelos bois, as 
plancies blgaras ostentavam uma
          prosperidade simblica, como nas vinhetas dos selos de 
correio ou no reverso das moedas. Por
          fim, aps a travessia do deserto da Trcia,                
    numa brecha da muralha bizantina, espraiava-
          -se o Mar de Marmara.

               Paul Morand, *La nuit turque+, Ouvert la nuit, 
Gallimard, 1921.



OS RECORDES DE VELOCIDADE: OS *RALLIES,> AUTOMVEIS




                    Categoria corrida: Bugati     Mdia: 98,900 
knilli.

                 Categoria turismo: Renault - Mdia: 83,300 km/h.
(5 de Dezembro de 1926) Categoriasport.- Turcat Mery -Mdia: 75,900 
km/h


                    (22 de Setembro de 1929)            Citron.


                                   Categoria corrida: Bugati - Mdia: 
194,681 knilh.

                   Categoria sport: Auburn - Mdia: 90,338 kmlli.
(19 de Maro de 1930)            1 ... 1

                   Buick.
                              (Maio de 1932)          1...1


                    Categoria corrida: Bugati - Mdia: 66,963 knilh.

(Abril de 1935)        Corri sport: Railton - Mdia: 64,964 km/h.

                                   Ford - Mdia: 50,786 km/h.
          (4 de Julho de 1,036)

                                                  Segundo Vasco 
Calixto



60

OS *ANOS LOUCOS+

     Ojazz tomou-se langoroso, as guitarras hawaianas
faziam ouvir os seus miados, e mal se tinham abando-
nado as primeiras danas         do aps-guerra j se
bamboleava  moda negra. O exotismo a baixo preo
penetrava nos meios mais simples: tinha-se cantado
Noites da China e Os Jardins do Alhambra, agora can~

tava-se Dinati e Ukulele-lady, danava-se o charleston
e o upa-upa, e os domins tinham dado lugar ao niale-
jong      As mulheres usavam vestidos pelojoelho em
forma de camisa, de cintura baixa, os cabelos muitas
vezes cortados * garonne+, como ento se dizia,
porque no se tinha esquecido um escandaloso roman-
ce com esse ttulo, que pareceria hoje mais ridculo
que malicioso.       A bisca tinha substitudo a mani-
lha, por vezes o bridge, e Mistnguett consagrava esta
moda numajava ento clebre. Os canonetistas toma-
vam-na por modelo, [...   1 e ela brilhava tanto sobre as
escadas gigantes do music-hall, com as suas paradas
de plumas, como no empedrado dos arredores, onde
tambm reinavam as finas fantasias de Maurice
Chevalier, enquanto ascendia uma nova estrela          1:
os vintes anos encarapinhados, geis e negros de
Josphine Baker As ruas de Montparnasse, a multido
cosmopolita continuava a afluir, mostrava-se aos
estrangeiros a praa de Lenine, todos os motoristas de
txi eram prncipes russos, representara-se Seis
Personagens  Procura de Autor, empregavam-se
demasiadamente as expresses *clima+, *sob o signo
de+, dizia-se de tudo que era *fonnidvel+, descobriu-se
ainda a droga, a pederastia, a viagem, Freud, afuga e
o suicdio. Em suma, todos os elementos da doura de
viver

                    R.   Brasillach, Notre avant-guerre, Plon.

                    VIL
E r                    A D













_Ik


      John Held, uma *flapper+ danando
  o charleston, capa da revista Life, 1926








J,

                     Ae
  Paris  noite num dancing de Montmartre,
     ilustrao de Manuel Orazi (1925).


     NOVAS MODAS E NOVOS COSTUMES EM INGLATERRA


   A *desvergonha+ do ps-guerra revela-se em primeiro lugar na 
modafeminina. A Inglesa da moda dos         AlE,
anos vintefoi descrita como uma criatura de pernas beige (cor nova), 
sem cintura, sem peito, quase sem      A~

cabelo. A moda das meias de seda artificial, dos vestidos tubulares 
que paravam nojoelho, dos cabelos cur-  A@L

tos f... 1 e dos chapus em campnula, a que sucumbiram meninas e 
jovens da boa sociedade, era supos-
ta manifestar a emancipao do sexofraco. [...   1 Foi por volta de 
1929 que o corpofeminino voltou a tor-
nar~se perceptvel, que um retomo a uma maior simplicidade obteve o 
assentimento dosjovens.
     Entre os homens as modas foram muito menos aventurosas, e todo o 
arsenal complicado dos
colarinhos duros e dos chapus moles (enquanto no vinha o chapu 
Eden dos anos trinta) conservou
a suafuno simblica. Todavia, os estudantes afortunados e os 
dandies londrinos atreveram-se ao
ponto de adoptar as Oxford bags, espcie de calas pata-de-elefante, 
cuja moda no ultrapassou o
ano de 1924.

                                                                 6 1

               A CRISE DOS VALORES E AS,9.1A

               Os mundanos dos dois sexos precipitaram-se em 1921 
para os night-clubs                  de Londres,             onde
          comeou a servir-se uma nova bebida, o cocktail, no meio do 
acompanhamento de uma msica de
          jazz que das suas origens apenas conservara o seu aspecto 
mais comercial. Ao som desta msica
          aprendeu-se a danar segundo ritmos muito afastados das 
tradies britnicas. Mas a atmosfera dos
          interminveis cocktall partias e das noites inteiras 
passadas a danar o charleston no parece ter
          passado alm do elegante West End de Londres.  que, fora 
dessa zona, e mesmo nas maiores cida-
          des da provnicia, se afirmava uma condenao silenciosa, 
mas resoluta, dos novos costumes.
               Era antes de mais nada orque no eram truly British 
que esses costumes eram denunciados.
                                   e por essa razo no podiam dei-



                                                       P. Lon, ob. 
cii.

                      p
          Sabia-se que tinham sido introduzidos pelo cinema americano
          xar de ser ordinrios.





                     31
                      &








               Charles Geisinar, do e,@l@et-itc-tilo de niusic-liali 
*Mlstinguett+ no Moulin Rouge em Paris (1926).



A VIDA NOCTURNA EM PORTUGAL

               Os teatros no esgotam a rede de salas de espectculo. 
Disseminadas pelo Pas existiam mais de
          meio milhar de sociedades recreativas onde o teatro sefazia 
comfrequncia [...                1.
               -s espectculos eram muito variados. Preferia-se a 
farsa e a comdia, mas no faltava o
          drama e a alta comdia, a mgica, a opereta e o vaudeville, 
a revista e o music-hafi, a declamao
          potica, o circo, etc. A pera via-se sobretudo em Lisboa e 
no Porto. [...           1

               Comercializados desde finais do sculo xix, os 
espectculos de cinema comearam, apouco e
          pouco, a competir com os de teatro. [...           1
               Nos centros de veraneio e at em algumas grandes 
cidades havia casinos, onde as pessoas endi-
          nheiradas e da alta sociedade se reuniam para conviver, 
danar, tomar ch e assistir a alguns espec-
          tculos. Era o que passava no Monte Estoril, perto de 
Lisboa. Mas sendo proibidos oficialmente os
          jogos de azar, no havia grande diferena entre um casino e 
um clube, no sentido tradicional da
          palavra.
               A partir da I Grande Guerra comearam a aparecer em 
Lisboa os night-clubs, modalidade nova
          de diverso que podia tambm incluir espectculos. Em 1922 
havia na capital doze desses lugares
          de convvio, nmero que baixou depois, por conta da 
*moralidade+ e dos *bons costumes+, atficar

          reduzido a trs ou quatro por volta de 1930. Alm do jogo 
(tolerado ou clandestino), da dana, do
          restaurante e, em muitos casos, da droga e da prostituio, 
alguns night-clubs incluam espectculos
          de variedades e apresentavam orquestras e conjuntos 
estrangeiros transitrios.

                                   A.   H. 0. Marques e outros, ob. 
cit.

62

            @-HOQUE DO PS-GUERR

     As horas importantes da histria da cultura raramente soam em 
unssono, como seramos ten-
tados a crer. Parecera natural que,  febre dos acontecimentos 
polticos capitais, correspondesse
uma ecloso de obras-primas ou o aparecimento de novos nomes.  Nada 
disto se passou no perodo
da libertao      A guerra, os seus grandes homens e os seus 
acontecimentos dramticos alimen-
tam assim, simultaneamente, a literatura, as artes e o movimento das 
sociedades sem permitir aos
contemporneos o tempo suficiente para uma habituaro ao novo 
cenrio. Como se a memria, a
lenda e a nostalgia tivessem precipitado a sua aco.
     A questo essencial que se coloca em 1919: a guerra marcar uma 
etapa (e de que envergadu-
ra ... ), ou ser de encerrar esse parntese o mais depressa 
possvel? A resposta  essencialmente indi-
vidual, de tal modo a recordao do conflito e dos primeiros anos do 
sculo determina as atitudes do
quotidiano. Edificando monumentos aos mortos ou associando o 
patriotismo e o sofrimento em ima-
gens emblemticas, narrativas ou vitrais de igreja, os contemporneos 
no se limitam a cumprir um
dever piedoso; manifestam assim a sua nostalgia de um certo 
equilbrio, de uma *Belle poque+
exaltada mas to mal entendida. Mas este regresso ao passado prximo 
 acompanhado pela
intuio brutal da descontinuidade introduzido pela guerra. Afastar 
as recordaes e afirmar uma
diferena radical so,formas de esconjurar o passado e de esquecer 
que a sequncia linear da his-
tria foi interrompida.  certo que os roaring twenties ou a 
revoluo surrealista envolvem uma
minoria de indivduos, so atravessados por mltiplas cises, e duram 
afinal bem pouco tempo. So
no entanto componentes da alquimia de uma gerao, na medida em que 
obrigam cada um a definir
a sua i enti    e pe a prpria natureza das suas recordaes.
      na nostalgia que se encontra o tema unificador da comemorao. 
Mas j no se trata, como no
sculo xix, de *reinventar uma tradio+;  preciso agora encontr-la 
e proteg-la contra os inimigos
reais ou imaginrios. O Francs contra o Alemo, o democrata contra o 
bolchevique, os *pequenos+

contra os *grandes+, os *verdadeiros+ combatentes contra os que se 
aproveitaram da guerra, os
*bons cidados+ contra os revolucionrios, os marginais e os 
estrangeiros - todos estes esteretipos
se ligam a um modelo idealizado de nao, exaltado pela recente 
adversidade. Consenso espantoso,
quefaz desaparecer, durante algum tempo, as concepes divergentes do 
contrato social, tanto nas
democracias anglo-saxnicas como no continente. Uma espcie de 
alergia ao pluralismo se mani-
festa, enquanto os governos apelam  unio e  reconstruo. Henry 
Ford denuncia a *Internacional
Judaica+ no seujornal, fazendo-se eco dos 4,5 milhes de aderentes  
KKK, que odeiam os negros,
os estrangeiros e a Igreja Catlica. Realiza-se assim um curioso 
compromisso entre a nostalgia de
uma idade de ouro e a reutilizao dos seus mitos, perante a 
incapacidade geral de compreender as
transformaes em curso. [...   1
     Esta nostalgia individual  defacto uma dasformas do 
conservadorismo; mas  difcil conceber
que as classes mdias e os camponeses pudessem aceitar e suportar sem 
ressentimento a desapari-
o do seu mundo,familiar. Sob este ponto de vista, a percepo da 
realidade, por vezes aproxima-
tiva, re ra as atitudes defensivas. Uma manifestao evidente  o 
comportamento receoso das bur-
guesias europias na gesto do seu patrimnio; a desconfiana afecta 
no s os valores estrangei-
ros, mas sobretudo os bancos. Por no se saber onde colocar o 
dinheiro, arrecada-se sobjorma de
semiliquidez.  Preocupados com a regularidade dos seus rendimentos, 
os chefes de famlia procuram
conservar os empregos, mesmo        ois dosfilhos criados, e 
modfficam as suas despesas domsticas.
     Entre a vontade de manter uma criada, para conservar o estatuto 
social, e as dificuldades dos

     tempos, muitasfamlias recorrem  substituio proporcionada 
pelos progressos tcnicos; o asp-
     rador e o automvel, modernos e caros, permitem manter um certo 
standing e dispensar os servios
     de pessoal domstico. A um nvel mais geral, a reorganizao das 
economias e a instaurao de
     novos regimes polticos na Europa Oriental, a partir de 1923, 
coincidem com a recuperao das vir-
     tudes anteriores  guerra. [...        1
          Apesar das reticncias da opinio mdia, no  possvel 
deixar de acentuar o frinidvel anseio
     de ar puro suscitado pelos roaring twenties. A radical 
mod@ficao da nioda feminina, ou a voga do
     jazz, dos bares nocturnos e dos cocktafis correspondem a uma 
nova arte de viver,  instalao de
     uma sociedade de consumo. Reduzi-la  *libertinagem+, ao 
snobismo ou a uni passatempo reservado
     cios bright young things, significa subestimar a inquielao de 
uina gerao e a sua vomita e                    viver

     no seu prprio tempo.  sobretudo esquecer que uma parte da 
gerao da guerra tinha j anterior-
     mente manifestado o seu gosto pela aco, a sua aspirao a uma 
nova moral, a sua paixo pela
     aventura e pelo desporto. Como poderia ela reconhecer-se nas pro 
sses def de tini Herriot, par-
     tidrio dos direitos da mulher desde que no excedessem o quadro 
municipal, favorvel  igualdade
     dos sexos, mas preocupado com os desastres da *excitao 
intelectual+ nas raparigas.'@ Os polticos
     1    .nvocam a memria da gerao perdida e as ameaas de 
desvitalizao interna que as perdas demo-
          grficas representam para as sociedades europias. Mas ser 
esse o problema desses,jovens mais
          interessados na modernidade que na sntese poltica? A 
guerra projectou-os fora da continuidade
          social, e o regresso da paz assiste  confirmao de uma 
gerontocracia que baseia a coeso               s regi-
          mes na comemorao.  A moda do americanismo constitui assim 
uma forma cnio a e                           rniar a
          recusa do regresso a uma idade de ouro mtica e do discurso 
puritano. Para os estudantes de Oxford
          ou do Quartier Latin, a flapper no  apenas o tipo ideal 
da jovem excntrica, liberta de convenes
          soci. ai.s e tabus; a sua maquilhagem, o vesturio 
masculino ou as saias acima do joelho, o seu gosto
          pelo cigarro e pelos night-clubs, representam cortes com as 
regras de vida do sculo xix. O intem-
          poral que presidia  formao da mulher passa a 
defrontar-se com as exigncias materi . ai . s; conti-
          nuara a ser necessarioformar uma companheira do homem, 
consciente dos seus deveres, uma me
          cujosfilhos sero o orgulho da nao? Por outro lado, 
atravs das crticas contra a juventude ame-
          ricana e os seus mentores, adivinha-se a manifestao de um 
nacionalismofechado, em que a con-
          testao do monoplio cultural europeu  considerada uma 
leviandade. Como exemplo, temos as
          reaces britnicas perante a invaso defilmes americanos, 
acusados de amoralidade e sobretudo
          de no serem truly british. No entanto, apesar das medidas 
proteccionistas adaptadas em 192 7, 85%
          dosfilmes projectados em Inglaterra nos anos vinte 
continuam a provir de Hollvwood. Em socie-
          dades ansiosas por celebrar o passado, a intruso da 
modernidade americana assume afiorina de um
          desa odirigidopelajuventude.

          fi

                                             B. Droz e A. Rowley, ob. 
cit.

     1 .     Recorde a metodologia adequada a este tipo de trabalho 
(Histria 10, 1. vo., pp. 154-
     155 e Histria 11, 1.2 vol., p. 36).


     2.   Faa uma ficha de leitura do documento 1.

                    documentei

                    Direi que um modernista, no domnio do governo  
um anarquista e um bolchevique:
               na ci                .               nci             
  .               a,  um evolucionista; no domnio dos negcios,  
um comunista; no das artes, uni
               futurista; no da msica, o seu nome  jazz; no da 
religio  um ateu e um infiel.

          Opinio de um clrigo americano do estado de Luisiana, nos 
anos 20.

64

    C~CATURA SOBRE A IDEIA QUE OS *BONS+
       AMERICANOS TEM DE Si PRO PRIOS.

     Somos o maior povo do mundo. O nosso governo  o melhor. Em 
matria de religio, de f, de pr-
tica moral, ns, os protestantes somos exactamente o que o homem deve 
ser, e somos tambm os melho-
res combatentes que h sobre a terra. Como povo, somos o mais sbio, 
politicamente o mais livre, social-
mente o mais desenvolvido. Outras naes podero enganar-se, cair, 
mas no que nos toca, estamos
livres disso.    Fomos escolhidos por Deus para salvar e purificar o 
mundo com o nosso exemplo. Se
as outras naes quisessem adoptar os nossos princpios religiosos e 
polticos, a nossa atitude geral em
relao  vida, bem depressa, sem dvida, elas seriam fliZes e to 
prsperas como ns.

                                   F.   Bonh, publicado no American 
Journal of Sociology, Janeiro 1925.


1.   Analise os documentos 2 e 3.

2.   Insira as questes neles tratadas no contexto de uma 
caracterizao mais vasta da socie-
     dade americana do primeiro ps-guerra.




1.   Veja e analise alguns filmes sobre o ps-guerra americano, tais 
como:

          -    Cotton Club, de Coppola                              o 
Os Intocveis, de Brian de Palma

2.   Promova um debate sobre o filme que tiver sido analisado.




1.   Imagine que lhe foi entregue a tarefa de organizar uma exposio 
ou uma recriao ao
     vivo do perodo entre as duas guerras mundiais, nos seguintes 
aspectos:

          moda                       msica                    
*fazeres

2.   Deve procurar materiais e informao em livros, jornais da 
poca, revistas especializa-
     das, em filmes, discos, entrevistas, etc.

3.   Organize dossers sobre as diferentes matrias.

4.   Realize uma exposio na sua escola sobre o tema escolhido.

S.   E, porque no uma passagem de modelos ou a recriao de 
ambientes?



1.   Caracterize a crise dos valores da sociedade do ps-guerra.

2.   Explique os novos comportamentos demogrficos dos anos 20 e 30.

     A CRISE DO PENSAMENTO RACIONALISTA



1.   A REACO ANTIPOSITIVISTA: O INTUICIONISMO

     o A revalorizao das crenas religiosas

2.   AS INCERTEZAS DA CIENCIA: O ACASO E A INDETERMINAO:
     A REVOLUO DESENCADEADA PELA TEORIA DA RELATIVIDADE

3.   AS CONCEPES PSICANALITICAS E O SEU IMPACTO NA CULTURA
     E NOS COMPORTAMENTOS: A LIBERTAO DOS CONSTRANGIMENTOS
     SOCIAIS








Trajecto de parlculas subalmicas numa cmara de bolha
         cheia de hidrognio lquido

     11, 1 11 W4 .* 4

1.   A REACO ANTIPOSITIVISTA:
     O INTUICIONISMO


     Como vimos, a partir dos ltimos anos do sculo
xix, o mundo conheceu uma ntida transformao
das condies de vida e do pensamento. A cincia
dera ao homem um optimismo para encarar o
futuro que a guerra se encarregaria de desfazer.
Antes mesmo da guerra e da crise subsequente a
esta, as certezas legitimadas pelo cientismo vinham
j sendo contestadas.
     O positivismo, a f inabalvel na cincia e
na razo, que impregnara as cincias fsico-mate-
mticas e biolgicas foi posto em causa pelo
filsofo francs Henry Bergson (doc. 1 ). Este
autor critica o culto do nacionalismo e defende,
contra o positivismo, que no  a cincia nem a
razo o motor de todas as coisas, mas sim uma
forma de evidncia mais funda, a que chama
intuio. Da que a sua filosofia seja conhecida
por intuicionismo. Contra as teorias evolucio-
nistas de pendor mecanicista Bergson afirma
que  o *impulso (lan) vital+ que explica a
evoluo do Universo. Por isso, a sua filosofia 
tambm uma forma de vitalismo. As ideias de
Bergson tiveram notria influncia no pensa-
mento espiritualista europeu das primeiras dca-
das do sculo xx.
     Tambm ao nvel das cincias sociais e
humanas se assiste ao questionamento das cor-
rentes positivistas. Por exemplo, a objectivida-
de da Histria reclamada pelos positivistas 
posta em causa por filsofos como Benedetto
Croce e WilheIm Dilthey que fazem ressaltar o
papel do historiador na construo da sntese
histrica (doc. 2).

a A revalorizao das crenas religiosas

     Os primeiros anos do sculo xx ficaram mar-
cados por uma generalizada crise religiosa. O pro-
gresso da cincia, o laicismo e o socialismo tinham
contribudo para o declnio da religiosidade,
enquanto o profundo anticlericalismo levou, nal-
guns pases,  separao da Igreja e do Estado. A
crise religiosa do incio do sculo prossegue ao
longo das dcadas de 20 e 30, uma vez que a reli-
gio parecia j no ser capaz de responder aos
anseios do mundo moderno dominado pela tc-
nica. O xodo rural acabou tambm por contribuir

68

para o desenraizamento das pessoas que, nas suas
comunidades de origem, estariam mais prximas
das prticas religiosas do que estavam agora nas
grandes cidades (doc. 3).
     H, contudo, certos sinais que demonstram a
vitalidade das Igrejas, nomeadamente, da Igreja
Catlica, com o reanimar das peregrinaes (veja-se
o exemplo de Ftima, a partir de 1917), de certas

procisses, de converses, etc.
     Enquanto as massas, sobretudo as urbanas,
pareciam afastar-se cada vez mais da religio,
nota-se ao nvel das elites um despertar do sen-
timento religioso, ligado sobretudo a movimentos
de carcter social. O catolicismo social atraiu
muitos jovens intelectuais, sobretudo em Frana,
antes da guerra. Renasceu depois, nos anos 30,
ligando-se, em Itlia e em Espanha, a partidos
polticos de inspirao catlica. Tambm se assis-
tiu ao nascimento de sindicatos e de uma impren-
sa de inspirao crist, enquanto as encclicas
papais definiam as concepes da Igreja quanto s
questes polticas, econmicas e sociais, como
aconteceu com a encclica Quadragesimo anno
(1 93 1 ), de Pio XI, que retomou as questes sociais
que Leo XIII expusera na sua encclica Rerum
Novarum (1891).
     Mas, o mais inesperado foi, sem dvida, a
penetrao de Deus no mundo da Cincia.
Perante o desmoronar das certezas cientficas e
das explicaes deterministas, o cientista deixou
margem para o inexplicado racionalmente e, por-
tanto, para a interveno divina no mundo (doc. 4).

2.   AS INCERTEZAS DA CIENCIA:
     O ACASO E A INDETERMINAO;
     A REVOLUO DESENCADEADA PELA
     TEORIA DA RELATIVIDADE

     A evoluo da cincia em vez de progredir na
via racional e das certezas que  possvel provar,
enveredou por vias aparentemente irracionais.
Tudo parecia ser posto em causa, nomeadamente
as leis fundamentais do positivismo.
     Uma das questes mais polmicas do incio do
sculo foi o desenvolvimento da teoria da relati-
vidade restrita, que Albert Einstein (doc. 5)
apresentara em 1905 e que abalou o mundo da
fsica. Apesar de apresentada em 1905, a teoria
da relatividade foi desenvolvida nos anos seguintes
e, em 1915, Einstein aceitou escrever um artigo no

Times para explicar ao grande pblico, em lingua-
gem comum, a sua teoria (doc. 6).
     De repente, as noes fsicas e cosmolgicas
fundamentais da fsica clssica newtoniana como
espao, tempo, matria, energia e universo, caram
por terra. A nova teoria punha em causa o carc-
ter absoluto do espao e do tempo de Newton.
     Segundo a fsica newtoniana, os acontecimen-
tos verificados em qualquer lugar ocorriam dentro
de um mesmo tempo universal e de um mesmo
espao tambm universal. Einstem provou a rela-
tividade da simultaneidade, dependendo da posi-
o do observador (doc. 7), bem como a interde-
pendncia do espao e do tempo (doc. 8). Provou
ainda que a massa de um corpo  equivalente 

sua energia e a sua interconvertibilidade, possi-
bilidade sobre a qual repousa a energia atmica.
     Anos mais tarde, em 1916, Einstein apresentou
a teoria da relatividade generalizada, segundo a
qual a gravitao  a curvatura do espao pela
massa. Isto teve implicaes na representao do
espao: o conjunto de todas as massas provoca
uma curvatura espacial do Universo (doc. 9-A),
que sendo curvo em toda a parte  finito, fechado
mas 1 'limitado (doc. 9-11).
     Contudo, este espao curvo, fechado e esfrico
proposto por Einstein no  o nico possvel e
poucos anos depois, ainda na dcada de 20, outros
cientistas apresentaram novas teorias acerca do
espao. Todavia, nenhum dos modelos apresentava
um carcter de certeza ou havia qualquer possibi-
lidade de prova. A tecnologia mais recente, nomea~
damente as sondas planetrias, tm provado uma a
uma as teorias de Einstein.
     A nova teoria provocou, contudo, extensa
polmica e produziu um grande choque na
conscincia cientfica do incio do sculo, sobre-
tudo entre os fsicos fiis  geometria e mecnica
clssicas, c 'as teorias eram facilmente verific-
Ui
veis experimentalmente.
     Apesar do sentimento de euforia intelectual
perante as perspectivas de novos avanos cientfi-
cos e tecnolgicos (doc. 10 e cL doc. 4), o homem
comum no deixou tambm de ser afectado pela
repentina relativizao de tudo o que at ento
parecera imutvel e verdadeiro. A confiana nas
certezas cientficas estava profundamente abalada
at porque, tambm noutras reas, as verdades
tidas como leis inquestionveis sofriam duros gol-
pes perante as modernas teorias. Isto , desde o

          PENSA    E
k CRISE: DO          M

     extraordinariamente grande, como o Universo, at
     ao mundo do extraordinariamente pequeno, como
     a fsica do tomo, tudo parecia ruir.
          No incio do sculo (I 900), Planck pusera em
     causa a fsica clssica ao formular a teoria dos
     quanta, acentuando o carcter descontnuo ou
     quntico dos fenmenos relativos ao mundo da
     microfsica. A teoria quntica foi depois aplicada
     pelo prprio Einstein  teoria da luz e por NieIs
     Bolkr para explicar a estrutura atmica e os espec-
     tros luminosos especficos dos elementos qumi-
     cos. O fsico Schrdinger introduziu na fsica at~
     mica o conceito de *nuvem de probabilidades+,
     que significava que, de um modo geral, no se
     poderia estar seguro quanto  posio e  veloci-
     dade duma partcula num dado instante. S se
     poderia ter certeza em relao a um desses facto-
     res, o outro permanecia incerto.

          O fsico alemo Heisenberg tornou clebre esta
     particularidade da nova fsica sob a designao
     de Princpio da Incerteza. Contrariamente  viso
     newtoniana, a teoria quntica conduziu a um
     indeterminismo generalizado.
          Isto deu origem a nova disputa terica, a *que-
     rela do determin' ismo+, entre os que, como
     Einstein, continuavam a defender o determinismo
     cientfico e os que, como Bolir e Heisenberg,
     defendiam o indeterminismo, ou seja, o papel
     do acaso e da mera probabilidade na Natureza.
     Entre os que se situavam nesta posio estava Lus
     de Broglie, um dos fundadores da mecnica ondu-
     latria (doc. 11 e cf. doc. 4).

     3.   AS CONCEPES PSICANALITICAS
          E O SEU IMPACTO NA CULTURA E NOS
          COMPORTAMENTOS: A LIBERTAO
          DOS CONSTRANGIMENTOS SOCIAIS

          O impacto cientfico da psicanlise pode asse-
     melhar-se ao provocado pela teoria da relatividade,
     mas teve muito mais implicaes a nvel social.
          A psicanlise, fundada por Sigmund Freud
     (doc. 12), surgiu inicialmente como um mtodo de
     determinao das causas das neuroses e como uma
     teraputica para o seu tratamento. Deu depois ori-
     gem a uma doutrina psicolgica. A sua novidade
     foi ter descoberto a natureza do inconsciente, de
     que . modo intervinha na vida orgnica e na vida
     consciente, que at a se julgava a salvo de tal
     influncia.

69

     O princpio fundamental da psicanlise assenta
na existncia de um inconsciente para onde so
relegados os factos desagradveis que a censura da
conscincia no deixa que apaream  luz. Muitos,
contudo, no so totalmente recalcados e deter-
minam muitos actos inexplicveis como os erros,
os actos falhados e os sonhos.
     Freud, mdico e neurologista, interessado pela
psiquiatria, comeou por tratar a histeria atravs
da hipnose, tcnica essa a que chamou catarsis.
Progressivamente, substituiu o sono hipntico
pelo simples estado de abandono dos pacientes. O
papel do mdico seria o de conseguir trazer 
conscincia as foras recalcadas inconscientes
(doc. 13), origem das neuroses. Surgiu deste modo
a teoria do recalcamento e, com ela, a psicanli-
se (doc. 14).
     Esta confisso provocado acabava por des-
comprimir o que ficara recalcado e a aceitao



     DOCUMENTOS








     Henry Bergson (1859-1941)




70

das causas dos transtornos trazidas  conscincia
do doente, sem interveno da censura, significava
que se estava a caminho da cura.
     Freud chegou ainda  concluso de que a maior
parte das neuroses tinham origem sexual, enten-
dendo a sexualidade no seu sentido lato e no em
sentido genital (doc. 15).
     A interpretao de Freud no s se aplica s
perturbaes mas tambm s sublimaes, ou seja
dos actos espirituais elevados. A psicanlise apa-
rece assim como uma interpretao geral do
homem, da histria e da cultura.
     As implicaes desta teoria foram variadas. Ao
nvel artstico motivou escritores e artistas para
explorao do inconsciente na arte, dando origem
ao surrealismo. Ao nvel do homem comum tornou
possvel encarar e discutir mais abertamente as
questes sexuais e o abandono de certos precon-
ceitos morais e sociais (doc. 16).






DO POSITIVISMO AO RELATIVISMO
E AO INTUICIONISMO

     Os meados do sculo xix no assistiram apenas
ao desenvolvimento do liberalismo poltico; fora
tambm um perodo em que a aplicabilidade dos
mtodos das cincias naturais a toda a espcie de
problemas pareceu no conhecer limites. Ao longo
do sculo este movimento tinha tido como resulta-
do, especialmente na Alemanha, a tentativa de con-
ciliar a religio e a cincia mediante a aplicao
dos critrios de uma erudio racional ao estudo
da Bblia e ao testemunho dos Evangelhos, assi-
nalando assim uma nova evoluo na teologia pro-
testante. Analogamente, ofilsofo, crtico e histo-
riadorfrancs Hippolyte Taine, falecido em 1893,
acreditara que todas as mudanas histricas se
poderiam explicar em termos cientficos precisos e
que o estudo da histria poderia fazer-se segundo

os mtodos experimentais utilizados pelas cincias
naturais, testando-se as hipteses em referncia
aos factos. A literatura, a arte e a prpria tica,
pensavam Taine e muitos outros da sua gerao,
tudo isso podia ser estudado da mesma maneira.
Este tipo de ideias havia conduzido, tanto em
Frana como na Alemanha, a um novo interesse

                                                       ION       TA

por uma erudio histrica precisa, baseada num trabalho minuci . oso 
nos arqui . vos, e ao culto da
objectividade e da exactido imparcial nos escritos histricos, 
sintetizado pelo grande historia-
dor alemo Leopold von Ranke, falecido em 1886, aos 91 anos, no seu 
famoso dito de que a his-
tria deveria ser escrita *tal como ela era realmente+ (*wie es 
eigentlich gewesen+).

     Mas nofim do sculo xix esta espcie de certeza tambm estava a 
ser contestada e aquela
nfase do irracional e da importncia das reaces instintivas que j 
notmos nos escritores
sociolgicos desse perodo principiava a ser aplicada a outros ramos 
do pensamento. Assim, por
exemplo, em 1893, jovem filsofo italiano de 29 anos, Benedetto 
Croce, publicou um ensaio
sobre a A Histria Considerada segundo o Conceito de Arte, o primeiro 
de uma longa srie de
livros em que ele iria desenvolver uma filosofia da histria em 
oposio  crena predominante
na meticulosa acumulao de factos pormenorizados que, segundo se 
esperava, poderiam vir
agrupar-se numa viso ob ectiva do passado. *Toda a histria  a 
histria do pensamentos,
escreveu ele mais tarde: os factos com que lida o historiador vibram 
na sua mente: e ao
escrever histria ele est de certo modo a analisar-se e a 
aperfeioar o conhecimento de si pr-
prio. A nossa compreenso dos eventos e das aces passadas depende 
do grau em que ns
somos capazes de recriar o pensamento dos participantes atravs de um 
esforo imaginativo
para nos identificarmos com eles. Croce, que continuou a ser at 
depois da Segunda Guerra
Mundial uma dasforas intelectuais dominantes na Itlia, estava a 
pensar segundo linhas seme-
lhantes s de um certo nmero de historiadores efilsofos alemes 
quando punha em destaque
a necessidade da imaginao recriadora na elaborao da histria. 
[...       1 Parece concluir-se das
opinies de Croce e das de algunsfilsofos alemes, como Wilhelm 
Dilthey, que a verdade his-
trica  sempre relativa, e que as respostas finais, certas e 
objectivas que os historiadores posi-
tivistas julgaram ter ao seu alcance lhes escapariam para sempre.

     Esta rebelio contra as aparentes certezas da gerao anterior e 
o sentimento de que a rea-
lidade no era susceptvel de uma anlise definitiva pronta a servir 
so aspectos significativos
de quase todos os ramos do pensamento no final do sculo xix e nos 
primeiros anos do nosso
sculo. Nafilosofia, por exemplo, ofrancs Henri Bergson, num grande 
nmero de livros, o pri-
meiro dos quaisfoi o Essai sur donnes immdiates de Ia conscience 
(Ensaio sobre os Dados
Imediatos da Conscincia), publicado em 1889 quando tinha 30 anos, 
partiu de um estudo de
percepo e do trabalho de neurologistas e psiclogos contemporneos 
(incluindo o america-
no William James), que se tinham ocupado dos mecanismos atravs dos 
quais adquirimos o
nosso conhecimento do mundo exterior Criticou a viso mecanicista dos 
nossos processos men-
tais e fez salientar o papel do tempo e da memria na construo da 
nossa viso do mundo.
*Toda a diviso da matria em corpos independentes, de contornos 
absolutamente determina-
dos,  uma diviso artificial+, escreveu ele em Matire et Mrnoire 
(1900). A realidade no
podia ser dissecado numa srie de factos rigorosos separados uns dos 
outros, 1        .a que a nossa
experincia era antes a de um processo ininterrupto de mudana 
constante, em que a dimenso
do tempo  to importante como a dimenso do espao. *Existe pelo 
menos uma realidade -
escreveu ele na sua Introduo  Metafsica, publicado em 1903 -, 
aquela que todos ns
apreendemos de dentro, por intuio e no por simples anlise. Ela  
a nossa propria perso-
nalidade no seu fluir atravs do tempo - o nosso eu que permanece. +

     A influncia de Bergson, no s na Frana mas tambm na Itlia 
(ainda que menor na
Alemanha ou na Inglaterra), foi talvez maior do que a de muitos 
pensadores mais profundos,
devido em parte  elegncia e  clareza do seu estilo        1. 
Masfoi tambm em parte porque a
sua insistncia na importncia do instinto e na necessidade de 
encararmos a realidade como um
contnuo que ns abordamos de muitas direces diferentes sintetizava 
aquilo que muitos dos
seus contemporneos sentiam, especialmente no campo das artes, quer 
estivessem ou no
directamente influenciados pelos ensnamentos do prprio Bergson.

                                                       J. JolI, ob. 
cit.

                                                                 71


               AW

A DESCRISTIANIZAO

               Um outro fenmeno contribuiu consideravelmente para 
restringir a influncia do factor reli-
          gioso e enfraquecer a autoridade das igrejas, mas no deve 
ser confundido com a querela reli-
          giosa nem com a secularizao da sociedade civil, mesmo que 
os seus efeitos se lhes tenham
          adicionado. Trata-se da descristianizao. Isto no , de 
modo algum, a mesma coisa: a lai-
          cizao do Estado visava apenas afrouxar ou romper os laos 
oficiais, jurdicos ou institucio-
          nais, que uniam o poder pblico  Igreja. No emitia juzos 
sobre os sentimentos pessoais e as
          crenas dos indivduos: as posies tomadas pelos polticos 
nos conflitos entre igrejas e
          Estado no eram de modo algum determinadas pelas suas 
opinies sobre a existncia de
          Deus ou a divindade de Cristo. Aquilo a que se chama 
descristianizao, pelo contrrio, tem a
          ver com as crenas ntimas e os comportamentos pessoais. 
Ela exprime ofacto de que, ao cabo
          de uma centena de anos nas sociedades modernas, massas 
humanas cada vez mais numerosas
          parecem desinteressar-se de qualquer crena religiosa. 
Deixam de frequentar os lugares de
          culto, afastam-se dos sacramentos, negligenciam as 
obrigaes cultuais. A regresso da prtica
          religiosa  o indcio de um desinteresse crescente pelas 
igrejas e pela religio. Diferentemente
          do estado de esprito que tinha presidido  laicizao no 
princpio do sculo xix e que se
          definia por uma hostilidade militante, a descristianizao 
mais no exprime do que desinteresse
          e indiferena.
                certo que, por ser diferente pela sua natureza de 
combate, a descristianizao no est
          dela historicamente dissociada por completo. A poltica 
anticlerical dos governos de esquerda,
          a legislao anti-religiosa, as medidas de excepo tomadas 
contra a Igreja e as suas institui-
          es, contriburam seguramente para desviar certas camadas 
da populao dos seus hbitos
          religiosos. Do mesmo modo, o manifesto desacordo entre as 
aspiraes do tem o e as posies
          das autoridades religiosas foi responsvel pelo afastamento 
de muitos que, intimi                     s a
          optar entre afidelidade  religio tradicional e a 
esperana de construir um mundo mais livre
          ou maisjusto, escolheram a democracia ou o socialismo, a 
cincia ou afraternidade humana.
          Contudo, assim como a descristianizao das massas no se 
reduz  laicizao das instituies
          pblicas, as suas causas no se limitam  guerra que 
travaram no sculo xix os dois campos ini-

          migos. O desinteressefoi reforado ou precipitado por 
outrosfactores, cujo inventrio  indis-
          pensvel  compreenso do fenmeno. Sem contar que so 
teis para o esclarecimento dos pro-
          cessos de mudana social.
               A descristianizao , em larga medida, a traduo de 
um desfasamento no tempo.
          Sanciona em particular a lentido das instituies 
eclesisticas em compreenderem o seu
          tempo e as questes que este lhes dirige. Este desfasamento 
 particularmente sensvel em dois
          campos. Em primeiro lugar, no tocante aos movimentos 
intelectuais: o clero no estudou nem
          avaliou no seu justo valor as ideias novas, teorias e 
sistemas. Por conseguinte, as suas res-
          postas eram inadequadas, a sua apologtica obsoleta, o seu 
ensino anacrnico. Em segundo
          lugar, no que diz respeito aos factos sociais, que as 
igrejas levaram tambm muito tempo a
          reconhecer e a compreender Assim, quando se afirma que a 
classe operria tinha sido des-
          cristianizada, a expresso  imprpri           .          
a e denuncia um erro histrico. Defacto, implicaria que,
          anteriormente, a classe operria tivesse sido crist e que 
a Igreja a tivesse pouco a pouco dei-
          xado afastar-se. Ora, esta classe  uma realidade social 
nova que nunca tinha sido, obvia-
          mente, visto que no existia como tal, evangelizada. , 
portanto, mais conforme  realidade das
          evolues dizer que as igrejas no repararam no seu 
aparecimento, que s se aperceberam tar-
          diamente da sua presena e dos seus problemas. Quase sempre 
demasiado tarde para poderem
          ainda fazer-se escutar Entretanto, esta nova classe 
adquirira os seus hbitos, dirigira-se a
          outras filosofias para obter resposta s suas questes e 
para buscar nelas a inspirao da sua
          aco colectiva. Por no terem percebido a novidade do 
fenmeno e reconhecido a importncia
          da nova classe, as igrejas negligenciaram a sua 
evangelizao: a construo de igrejas ou

                                        ............. ....... .. .

72

                   A M41=

templos, a'criao de parquias, a constituio de um clero, sofreram 
um atraso de uma ou vrias
geraes: nesse perodo, as crianas tinham crescido sem instruo 
religiosa, os adultos, afas-
tados dos lugares de culto, impedidos pela ausncia de folga 
dominical, tinham abandonado
a prtica do culto. , assim, devido a um jogo de consequncias 
indirectas que o trabalho
industrial, afbrica ou a manufactura, a cidade, tiveram efeitos 
negativos sobre afidelidade

religiosa das populaes urbanas. No como o imaginavam muitas vezes, 
e sem razo, os
homens da Igreja, porque a indstriafosse em si incompatvel com a 
religio ou que a cidade
fosse mais imoral do que o campo, mas porque as realidades concretas 
modelam os compor-
tamentos e afeioam as mentalidades.
     A mutao social que correspondeu  industrializao e  
urbanizao levou  desinte-
grao dos quadros tradicionais nos quais a prtica religiosa se 
inserira durante sculos e 
ruptura dos hbitos colectivos que sustentavam a vida religiosa. 
Havia nafidelidade macia 
religio e na observncia das disciplinas eclesisticas pela maior 
parte dos crentes uma com-
ponente considervel de conformidade aos usos e de submisso s 
regras do grupo social. O
deslocamento do grupo e o questionar dos seus hbitos no podiam 
deixar de ter consequncias
sobre a religio colectiva.  neste sentido que a secularizao 
alimentou a descristianizao e
que doisfenmenos, que  legtimo distinguir devido  sua diferena 
de natureza, tiveram, ape-
sar disto, efeitos recprocos.  esta transformao profunda das 
relaes entre pertena reli-
giosa e sociedade que se expressa quando se diz que as nossas 
sociedades passaram de uma
situao de cristandade para um estado de dispora. Por outras 
palavras, a f passou no mesmo
perodo de uma era de conformidade para uma era de anterioridade.

     Falando sempre de descristianizao, arri   .scar-nos-iamos a 
esquecer que o recuo da vida
religiosa no  exclusivo do cristianismo. As mesmas causas, 
desagregao das civilizaes tra-
dicionais, xodo rural, urbanizao galopante, industrializao, 
progresso da instruo, difu-
so das tcnicas, produzem efeitos semelhantes em todos os 
continentes. Poder-se-iafalar tam-
bm de *desislamizao+ nos pases muulmanos em contacto com a 
civilizao ocidental, tanto
mais que os factores de novidade e de mudana, em vez de, como na 
Europa, serem produzidos
localmente, so importados do exterior Conviria interrogarmo-nos 
tambm sobre o estado das
crenas religiosas nas ndias; indagar qual ter sido a sua evoluo 
no Japo, ao confrontar-se
com a civilizao mais moderna que existe. Ofenmeno afecta, sem 
dvida, em propores vari-
veis, em ritmos desiguais e com modalidades especficas todas as 
religies.

                                                  Ren Rmond, ob. 
cit.






                                   AS *INCERTEZAS+ DA CIENCIA

     De facto, as perturbaes que modificam o comportamento social 
na dcada de Vinte so de
menor importncia e sobretudo de muito menor alcance que as mutaes 
intelectuais que se ela-
boram no segredo do laboratrio ou do gabinete de trabalho. 0 apoio 
que do aos sabios os
meiosfinanceiros doravante convencidos do interesse prtico da 
investigao pura explica, em
parte, os progressos prodigiosos da cincia. [...  1 Para espanto de 
muitos, a cincia abandona,
com efeito, o mundo racional e tranquilizante da certeza e do 
absoluto para entrar no apa-
rentemente irracional, e portanto inquietante, da incerteza e do 
relativo. A crise afecta em pri-
meiro lugar a matemtica e a lgica abaladas pelas descobertas de 
Hilbert, que define um espa-
o com uma infinidade de dimenses e que elabora uma *teoria dos 
conjuntos+. Mas ela sub-
verte ainda mais o mundo da      ica, onde a reflexo de Einstein 
sobre as relaes do espao e

                         fs
do tempo desemboca numa geometria de quatro dimenses, das quais o 
tempo  a quarta, e na

                                                                 73

          clebre teoria da relatividade que demonstra que o espao e 
o tempo no so absolutos, mas
          relativos ao sistema csmico observado, que o alemo 
Heisenberg, ao estabelecer em 1924 o
          princpio da indeterminao, considera mesmo poder ser 
perturbado pela simples observao
          de que ele  objecto. Assim, o determinismo absoluto 
dosfenmenos sobre o qual assenta afisi-
          ca clssica encontra-se gravemente atingido, em particular 
no domnio atmico, onde a teoria
          tradicional da continuidade da matria se acha transtornada 
desde ofim do sculo xix e incio
          do sculo xx pelas descobertas de Becquerel, dos Curie e de 
Max Planck, etc., descobertas que
          conduzem fundao de duas mecnicas aparentemente 
exclusivas uma da outra: a mecnica
          quntica de Heisenberg e a mecnica ondulatria de Louis de 
Broglie (1924), mas as quais
          Schrdinger demonstra todavia a partir de 1926 assentarem 
sobre duas noes que podem na
          realidade combinar-se perfeitamente: a onda e o corpsculo, 
*duasfaces complementares da
          realidades. Aproveitando os trabalhos dosfisicos, os 
qumicos podem ento estudar a estrutura
          do tomo e da molcula [...              1.

               A angstia que a humanidade experimenta perante o seu 
destino, ao qual a guerra parece ter
          feito perder todo o sentido, acha-se alm disso acrescida 
pela crise que as cincias atravessam.
               Diante do carcter relativo e subjectivo da 
experincia que Einstein revela, osfilsofos so
          levados a pensar, na esteira de Henri Poincar, que o 
homem, incapaz de conhecer a natureza
          das coisas, nunca poder mais do que descortinar as suas 
relaes comuns; seguindo a esco-
          la fenomenolgica do alemo Husserl, eles consideram que 
esta ltima s pode ser conhecida
          por uma intuio que lhe revelaria a estrutura. O estudo 
dos fenmenos conduz portanto ao
          irracionalismo inquietante de um outro alemo, Martin 
Heidegger, que, na sua obra funda-
          mental: Ser e Tempo, publicado em 1927, demonstra que para 
alm da angstia do filsofo
          dinamarqus Kierkegaard, a existncia desemboca no nada, do 
qual s se pode sair pela
          conscincia que tem da sua prpri             .          a 
existncia. Assim, a escola existencialista valoriza pela pri-
          meira vez no plano filosfico a noo do absurdo  qual a 
guerra parece ter dado uma justifi-
          cao a priori e que s pode conduzir ao desespero, a menos 
que, com Karl Jaspers, o homem
          prefira refugiar-se naf em Deus.
               Ao revelar que o irracional *no est provavelmente 
excludo+ do universo, homens de
          cincia e filsofos reservam com efeito um lugar ao 
mistrio e por conseguinte  ideia crist
          de Providncia: Deusfaz assim paradoxalmente a sua entrada 
no mundo das cincias numa
          poca em que a descristianizao afecta cada vez mais as 
massas proletarizadas da Europa
          Ocidental, do Mxico e da Rssia, em que o Islo recua na 
Turquia sob o golpe de uma laici-
          zo vinda de cima, em que as multides da ndia perdem 
pouco a pouco as suas tradies reli-
          giosas em contacto com as ideias europias, em que por todo 
o lado as manifestaes exteri-
          ores do culto tais como jejuns rituais recuam em virtude da 
sua inadaptao s condies de
          vida moderna dominada pela procura do tempo e do dinheiro. 
Defacto, apesar destesfacto-
          res desfavorveis, apesar da exasperao dos nacionalismos 
que colocam o Estado acima de
          tudo e por conseguinte acima de Deus, assiste-se, sob a 
influncia da Aco Catlica e dos
          partidos confessionais, cuja criao a Igrejafavorece, a um 
despertar do sentimento religio-
          sos, sobretudo entre as elites de numerosos pases, e  sua 
integraro na cidade onde ela 
          facilitada pela assinatura de numerosas concordaras (umas 
quinze no total) que harmonizam
          as relaes da Igreja e do Estado e das quais a mais 
clebre  a que foi firmada pela Itlia em

          1929. Este despertar  particularmente sensvel em Frana, 
onde a camaradagem das trin-
          cheiras eliminou muitos preconceitos e onde surge, com o 
auxlio doutrinal dos dominicanos,
          um catolicismo social e democrtico orientado  esquerda e 
de que os *democratas populares+
          so a expresso parlamentar


     Pierre Thibault, O Perodo das Ditaduras (1 918-1947), Lisboa, 
Dom Quixote, 198 1.



74

C








Albert Einstein

                              GNESE LGICA DA RELATIVIDADE

          Para compreender a sua essen-
cia, deve-se, portanto, tomar conheci-
mento dos princpios sobre os quais ela
assenta. Mas antes de os examinar, devo
notar que a teoria da relatividade se asse-
melha a um monumento com dois andares,
que so a teoria da relatividade restrita e
da relatividade generalizada. A primeira,
sobre a qual assenta a segunda, diz res-
peito a todos os fenmenos fsicos com
excepo da gravitao; a teoria da rela-
tividade generalizadafornece a lei da gra-
vitao e as suas relaes com as outras
foras naturais.
     Desde a antiguidade grega se sabe que
para descrever o movimento de um corpo 
necessrio recorrer ao movimento de um
outro corpo, ao qual se refere o movimento
do primeiro. Refere-se ao solo o movimen-
to de um carro, o movimento de um planeta  totalidade das estrelas 
fixas visveis. Em fsica, os
corpos aos quais se referem os fenmenos, no que diz respeito ao 
espao, so designados pelo
nome de sistemas de coordenadas. Por exemplo, no se podem formular 
as leis da mecnica de
Galileu e de Newton a no ser utilizando um sistema de coordenadas.
     Mas, para que as leis da mecnica sejam vlidas, no se pode 
escolher arbitrariamente o esta-

do de movimento do sistema de coordenadas (ele no deve ter nem 
rotao, nem acelerao). Um
sistema de coordenadas admissivel na mecnica chama-se *um sistema de 
inrcia+. Mas o esta-
do de movimento de um sistema de inrcia no , segundo a mecnica, 
determinado sem ambi-
guidade pela natureza. Deve antes dizer-se: um sistema de coordenadas 
que se desloca em linha
recta com movimento uniforme em relao a um sistema de inrcia  
tambm um sistema de inr-
cia. Por *principio de relatividade restrita+, deve entender-se a 
extenso da proposi . o anteri . or
a qualquerfenmeno natural: a toda a lei geral da natureza, vlida 
para um sistema de coorde-
nadas K, deve ser vlida, sem modificaes, para um sistema de 
coordenadas Ki, animado de um
movimento de translao uniforme em relao a K.
     O segundo princpio sobre o qual assenta a teoria da 
relatividade restrita  o *principio da cons-
tncia da velocidade da luz no vcuo+. Este princpio diz: a luz tem 
sempre, no vcuo, uma velocida-
de de propagao determinada (independentemente do estado de 
movimento e dafonte luminosa). [...             1
Os dois princpios anteriores estofortemente apoiados na 
experincia, mas no parecem ser,
logicamente, compatveis. A teoria da relatividade restrita 
conseguiu, finalmente, realizar esta
unio lgica modificando a cinemtica, quer dizer, a doutrina das 
leis relativas ao espao e ao
tempo (partindo do ponto de vista fsico). Ela mostrou o seguinte: 
dizer que dois acontecimentos
so simultneos no tem significado seno relativamente a um sistema 
de coordenadas e torna-se
evidente que a forma dos metros e a marcha dos relgios deviam 
depender do seu estado de movi-
mento relativamente ao sistema de coordenadas. (Cf. docs. 7 e 8).
     Mas afsica clssica, englobando as leis de Galileu e de Newton, 
no se adaptava a esta cine-
mtica relativista que referimos. Desta ltima decorriam condies 
matemticas gerais s quais
as leis naturais deviam corresponder se os dois pri      .ncipi.os 
gerai.s em questofossem verdadeiros.
A fsica devia adaptar-se a eles. Em particular, chegou-se a uma nova 
lei do movimento para os
pontos materiais (deslocando-se rapidamente), que se verificou 
perfeitamente para as partculas


75

                                        
......................................................

               carregadas electricamente. O resultado mais importante 
da teoria da relatividade restrita dizia res-
          peito s massas inertes de um sistema de corpos. Mostrou-se 
que a inrcia de um sistema deve

          depender do seu contedo em energia e chegou-se, por assim 
dizer,  concepo de que as massas
          inertes no so mais do que energia latente. O principio da 
conservao da massa perdeu a sua
          autonomia e con ndiu-se com o da conservao da energia.
               A teoria da relatividade restrita, que no era mais do 
que o prolongamento sistemtico da elec-
          trodinmica de Maxwell e Lorentz, abriu novas vias, 
ultrapassando os seus prprios limites. A
          independncia das leisfi(sicas relativamente ao estado de 
movimento do sistema de coordenadas
          deveria limitar-se aos movimentos uniformes de translao 
dos sistemas de coordenadas uns em
          relao aos outros? O que  que tem a natureza com os 
sistemas de coordenadas introduzidos por
          ns e o seu estado de movimento? Alm disso se  
necessrio, para descrever a natureza, empre-
          gar um sistema de coordenadas escolhido  nossa vontade, a 
escolha do seu estado de movimen-
          to no devia, ao menos, sofrer nenhuma limitao, as leis 
deviam ser absolutamente independentes
          desta escolha (princpio da relatividade generalizada). A 
aplicao deste princpio da relatividade
          generalizada  fcil de compreender por meio de uma experi 
. nci . a conhecida desde h muito
          tempo, segundo a qual o peso e a inrcia de um corpo so 
regidos pela mesma constante (igual-
          dade das massas pesada e inerte). Imagine-se, por exemplo, 
um sistema de coordenadas animado
          de um movimento de rotao uniforme relativamente a um 
sistema de inrcia no sentido de
          Newton. Asforas centrfugas que intervm, relativas a este 
sistema, devem conceber-se no sen-
          tido da doutrina de Newton, como efeitos da inrcia. Mas 
estasforas centrfugas so, exactamente
          como as foras de gravidade, proporcionais  massa dos 
corpos. No seria possvel, em certas cir-
          cunstncias, conceber o sistema de coordenadas como imvel 
e asforas centrfugas comoforas
          de gravitao? Fcil conceber , mas a isso se ope a 
mecnica clssica.
               Estas consideraes feitas de passagem, deixam-nos 
pressentir que uma teoria da relatividade
          generalizada deve fornecer-nos as leis da gravitao, e o 
prosseguimento lgico da ideia justificou esta
          esperana. Mas o caminhofoi mais duro do que se podia 
esperar porque exigia o abandono da geo-
          metria de Euclides; e isto significa que as leis segundo as 
quais os corpos slidos se devem dispor no
          espao no concordam exactamente com as leis espaciais 
prescritas pela geometria euclidiana.  o
          que se pretende significar quando se fala da *curvatura do 
espao+. Os conceitos fundamentais,
          *recta+, *plano+, etc., perdem assim o seu significado 
exacto emfsca (Cf. docs. 9-A e B).
               Na teoria da relatividade generalizada, a doutrina do 
espao e do tempo, a cinemtica, deixa

          de desempenhar o papel de umfundamento independente do 
resto dafisica. O modo de compor-
          tamento dos corpos e a marcha dos relgios 
dependeinfundamentalmente dos campos de gravi-
          tao, os quais, por sua vez, so produzidos pela matria.
               A nova teoria da gravitao afasta-se notavelmente, 
sob o ponto de vista dos princpios, da teoria
          de Newton; mas os resultados prticos concordam tanto com 
os desta teoria que  difcil encontrar
          provas de diferena que sejam acessveis  experincia. Eis 
as que, at ao presente, se encontraram:
               L'A rotao das elipses das rbitas planetrias em 
volta do Sol (verificado para Mercrio);
          2.'A curvatura dos raios luminosos pelos campos de 
gravitao (verificado pelasfotografias
          inglesas de eclipses solares);
               3.' Um deslocamento para o vermelho das riscas 
espectrais da luz que nos enviam as estrelas
          de massa notvel.
               O principal atractivo da teoria reside nofacto de 
constituir um todo lgico.
               Se uma nica destas consequncias se mostrasse 
inexacta, seria necessrio abandon-la;
          toda a modificao parece impossvel sem abalar o edifcio.

               Mas ningum deve pensar que a grande criao de Newton 
pode realmente ser excluda por
          esta teoria ou por qualquer outra. As suas grandes e 
ntidas ideias conservaro sempre nofuturo
          a sua eminente importncia, e  sobre elas que fundaremos 
todas especulaes modernas sobre a
          natureza do mundo.

                    Panorama das Ideias Contemporneas, Lisboa, 
1968,.1'

76

                      7








     De acordo com a mecnica clssica, os objectos num comboio em 
movimento com-
portam-se como se a composio estivesse parada ( esquerda). Com as 
cortinas corri-
das, seria impossvel dizer-se se o comboio est em andamento ou no. 
Contudo, pensa-
va-se que o movimento dos raios luminosos era capaz de revelar o 
*verdadeiro+ movi-
mento do comboio. A relatividade diz-nos que os efeitos 
electromagnticos, e em especial

a velocidade da luz, so idnticos para os passageiros do comboio e 
para os observadores
estacionrios, sendo, portanto, incapazes de revelar qualquer 
movimento *absoluto+ de
uns e outros.

     A velocidade da luz para um observador estacionrio  sempre a 
mesma a parti           .r de
qualquerfonte fixa (1), ao passo que a velocidade de um objecto 
material, como uma bola
em movimento,  vari   .vel (9). A velocidade da luz vinda de 
umafonte em movimento -
dum comboio, por exemplo -  a mesma para um observador estacionrio 
(2), para um
observador dentro do comboio (3) ou para um observador a mover-se em 
relao ao com-
boio (4). Se uma bola for atirada do comboio, a sua velocidade em 
relao a um obser-
vador estacionrio (6) ser igual  soma da velocidade do comboio (5) 
com a velocida-
de do objecto em relao ao comboio (7). Por sua vez, esta ltima  
igual  velocidade do
objecto medida em relao  pessoa que o arremessa (8).



                    Colin A. Ronan, Histria Natural do Universo, 
Lisboa, 1992.



                                                                 77

               O *CONTINUUM,@
                ESPAO-TEMPO

               ........... ............. ......... .

Imagem do mundo de      Imagem do mundo
um observador mvel     do observador esttico
com v  constante


                    Futu,




V C      E

Sinal
lumn


Algures     ures




            Aqui e agora



p
rr          luminoso








                         Espao-Tempo

               .................... . . .............





                S. Esquema da
      curvatura bidimensional do espao








Espao finito limitado              Espao aberto


                         Peter Kurzmann e outros, ob. cit.







78

          ESQUEMAS DA TEORIA
          DA RELATIVIDADE GENERALIZADA

A.   A curvatura do espao em volta do Sol

                         -4.          Posio aparente
                  efectiva
                  da estr@








                      2








                    Terra

A distoro do espao pela enorme massa do Sol dobra
os raios de luz vindos de uma estrela que lhe passem perto
(2), o que altera a posio aparente do astro, j que
  assumimos que a luz viaja em linha recta
         Adaptado de Colin A. Ronan.

                   MI M @

O IMPACTO DA TEORIA DA RELATIVIDADE

     O progresso tecnolgico tivera como resultado o aparecimento de 
numerosos movimentos de
reaco contra ele, mas no impediu a sociedade europia das vsperas 
da Primeira Guerra
Mundial de estar cada vez mais condicionada pelas novas mquinas e 
pelas novas descobertas
cientficas. Havia alm disso muita gente que estava sempre pronta a 
aplaudir essas inovaes
e a entusiasmar-se com proezas tais como a primeira travessia da 
Mancha em aeroplano
efectuada em 1909 pelo francs Lou is Blrot
     A perspectiva das viagens areas (e, como depressa se verificou, 
tambm da guerra area)
e das radiocomunicaesfez que o mundo parecesse mais pequeno e o 
domnio da Europa sobre
todo ele ainda mais seguro enquanto esta detivesse o monoplio dessas 
descobertas. Mas, ao
mesmo tempo, os trabalhos dos cientistas tericos iam sugerindo novas 
dimenses ao pensa-
mento humano, novos conceitos de distncia e de espao e novas ideias 
sobre a natureza da
matria. [...  1 Em 1905 um jovem fsico alemo, Albert Einstein, 
apresentou pela primeira
vez a sua teoria especfica da relatividade e,formulou-a dez anos 
depois na sua forma geral
final. Utilizando complicadas observaes astronmicas e clculos 
matemticos avanados,
Einstein desenvolveu uma teoria segundo a qual medidas de energia e 
de massa eram insepa-
rveis de questes de velocidade e movimento, e nenhuma observao 
efectuada a partir de um
nico pontofixo, num universo que podia encontrar-se em permanente 
expanso, devia mere-

cer-nos a confiana de ser inteiramente verdadeira. Parecia resultar 
destas descobertas que a
matria seria muito mais instvel do que at ento se pensara; a 
verdade cientfica seria
menos universal do que se supunha. Embora as teorias deste gnero, 
que implicavam operaes
matemticas altamente tcnicas, fossem de mais difcil compreenso 
para os leigos do que as
singelas certezas dafisica newtoniana que elas pareciam vir 
substituir, elas comearam a influen-
ciar gradualmente as perspectivas morais e metafsicas dos europeus 
cultos, de sorte que as
noes de relatividade, de quanta e do universo em expanso, ainda 
que muitas vezes de um
forma inexacta e mal compreendida, criaram em poucos anos uma nova 
viso do mundo e suge-
riram novos progressos tecnolgicos que contriburam para o 
sentimento de excitao inte-
lectual e de possibilidades cada vez mais largas originado pelos 
inventores e os engenheiros.

                                                  James JolI, ob. 
cit-

A

A








                              A *QUERELA DO DETERMINISMO,,

     Ao mesmo tempo, desaparece o determinismo dos fenmenos 
admitidos pela antiga fsica, o
qual estava ligado  possibilidade de sejormar uma imagem precisa da 
realidadefisica no qua-
dro do espao e do tempo. No se pode em geral prever com certeza 
osfenmenos que iro ter
lugar: s as probabilidades dos diversosfenmenos possveis so 
acessveis aos nossos clculos.
 facto que entre cada medida as probabilidades tm uma evoluo 
rigorosamente regulada
pela equao de ondas, mas cada medida ou nova observao, pelas 
informaes que nosfor-
nece, interrompe este determinismo das probabilidades.
     A interpretao de Bohr e Heisenberg no s reduz toda a fsica 
 probabilidade, mas d a
esta noo um sentido que  absolutamente novo na cincia. Ao passo 
que todos os grandes
mestres da poca clssica, desde Laplace at Henri Poincar, 
proclamaram sempre que osfen-
menos naturais eram determinados e que a probabilidade, quando se 
introduz nas teorias

cientficas, resulta da nossa ignorncia ou da nossa incapacidade 
para seguir um determinis-
mo bastante complicado, na interpretao actualmente aceite dafsica 
quntica, tratamos de

79



N

                    R @J PTURAS NO PEUSAMENTO E NA ARTE
*probabilidade pura+ que no resulta de um determinismo oculto. Nas 
teorias clssicas, como
a teoria cintica dos gases*, as leis de probabilidade eram 
consideradas como resultando da
nossa ignorncia dos movimentos completamente determinados, mas 
desordenados e comple-
xos, das inumerveis molculas do gs: o conhecimento das posies e 
das velocidades das
molculas permitir-nos-ia, em princpio, calcular rigorosamente toda 
a evoluo do gs, mas
na prtica as probabilidades eram introduzidos como consequncia da 
nossa ignorncia do
valor destes parmetros ocultos. Ora a interpretao puramente 
probabilstica da mecnica
ondulatria rejeita uma tal interpretao das leis da probabilidade 
que ela fornece: estas
leis no resultam da nossa ignorncia do valor dos parmetros ocultos 
que seriam as coorde-
nadas e a velocidade do corpsculo, porque tais parmetros ocultos 
no existem, no podendo
o corpsculo manifestar-se com uma posio ou uma velocidade bem 
definidas seno fugiti-
vamente no momento de uma observao ou de uma medida. A 
probabilidade emfsica qun-
tica no resultaria da nossa ignorncia: seria a contingncia pura. 
[...  1
     Desde h vinte e cinco anos, a quase totalidade dos fsicos 
aceitou a interpretao pura-
mente probabilstica de Bohr e Heisenberg. H no entanto algumas 
excepes notveis; sbios
eminentes como Einstein e Schroedinger recusaram sempre aceit-la 
opondo-lhe objeces
embaraadoras.
Louis de Broglie, Bulletin de la Societfranaise de philosophie, 
Gauthier-Villards, 1953,
                                   in Panorama das Ideias 
Contemporneas.








                     IM






Siginund Freud (1856-1939)






80
O RECALCAMENTO
     As coisas passaram-se conforme esperava,
libertei-me da hipnose, mas com a mudanwde
tcnica o trabalho catrsico mudou tambm de
aspecto. A hipnose tinha encoberto um jogo de
foras que agora se revelou, e cuja compreenso
deu  teoria unifundamento seguro.
     Como era possvel que os doentes tivessem
esquecido tantosfactos da sua vida exterior e inte-
rior e que no obstante pudessem lembrar-se deles
quando se lhes aplicava a tcnica referida? A
observao respondeu por completo a estas ques-
tes. Tudo quantofora esquecido tinha sido peno-
so ou pavoroso ou doloroso ou vergonhoso relati-
vamente s pretenses da personalidade. A ideia
impunha-se por si mesma;  justamente porque
isso havia sido esquecido, isto , no tinha per-
manecido consciente. Afim de voltar a traz-lo 
consci.nci.a, era preci.so vencer algo no doente,
algo que se defendia, era necessrio empregar
esforos para fazer presso sobre este e obrig-lo.
O esforo exigido do mdico era diferente consoan-
te os diversos casos, aumentava em proporo
directa da di culdade da recordao. A quantida-
de de esforo do mdico era evidentemente a medida
                                                                 AV,


de uma resistncia do doente. J no era preciso exprimir por 
palavras o que se tinha experien-
ciado, e estava-se na posse da teoria do recalcamento.
     [... 1 Nada de semelhante fora jamais reconhecido na vida 
psquica. Evidentemente repre-
sentava um mecanismo primrio de defesa, comparvel a uma tentativa 
de fuga [...      1. A este pri-
meiro acto de recalcamento ligavam-se outras consequncias. Em 
primeiro lugar, era necessrio
que o eu se protegesse do impulso sempre pronto da emoo recalcada 
por um esforo per-
manente, de contrabloqueio, pelo qual se empobrecia; por outro lado, 
o recalcado, agora
inconsciente, podia procurar uma derivao e satisfaes 
substitutivas por vi.as i.ndi.rectas e con-
seguir desse modo malograr as intenes do recalcamento. [...      1

     A doutrina do recalcamento tomou-se a pedra angular da 
compreenso das neuroses. A tare-
fa teraputica devia ser agora concebida diferentemente, o seu fim j 
no era a inibio do afec-
to empenhado por vias falsas, mas o descobrimento dos recalcamentos e 
a sua resoluo por
meio de actos de juizo, que podiam consistir na aceitao ou na 
condenao daquilo que
outrora fora repelido. Ao deixar de chamar a este mtodo de 
investigao catarsis, denomi-
nando-o psicanlise, atendi a este novo estado de coisas.

          Sigrnund Freud, A Minha Vida e a Psicanlise, Gallimard, 
1928, in Panorama das Ideias Contemporneas.


                                   FREUD E A PSICANALISE

     No ensino da medicina, esto habituados a ver Vem a preparao 
anatmica, o precipitado
que seJorma depois de uma reaco qui 1 mi . ca, o arqueamento do 
msculo pelo efeito da exci-
tao dos seus nervos. Mais tarde, ~vos apresentado o doente, os 
sintomas da sua afeco, os
produtos do processo mrbido, e em muitos casos, colocam diante dos 
vossos olhos, o estado
isolado, o germe que provocou a doena. Nas especialidades 
cirrgicas, assistem s interven-
es atravs das quais se procura ajudar o doente, e devem mesmo 
experimentar faz-las
vocs prprios. E at na psiquiatria, a demonstrao do doente, com 
as modificaes do seu
jogofisonmico, com a sua maneira defalar e de se comportar, 
traZ-vos uma quantidade de
observaes que vos deixam uma impresso profunda e durvel.
     Infelizmente, as coisas passam-se de modo muito diferente na 
psicanlise. O tratamento psi .

canaltico no permite seno uma troca de palavras entre o analisado 
e o mdico. O paciente
fala, conta os factos da sua vida passada e as suas impresses 
presentes, queixa-se, confessa os
seus desejos e as suas emoes. O mdico dedica-se a dirigir a marcha 
das ideias do doente,
desperta as suas recordaes, orienta a sua ateno em certas 
direces, d-lhe explicaes e
observa as reaces de compreenso ou de incompreenso que provoca no 
doente. f...        1 A ps-
canlise quer dar  psiquiatria a base psicolgica que lhe falta; 
espera descobrir o terreno
comum que tornar intelegvel o encontro de um distrbio psqui   
.co. Para atingir estefim, deve
colocar  distncia qualquer pressuposio de ordem anatmica, 
qumica ou fisiolgica, no
trabalhar seno apoiando-se sobre noes puramente psicolgicas, o 
que, receio bastante, ser
precisamente a razo pela qual ela vos parecer estranha, num 
primeiro momento.

          Sigrnund Freud, Introdution  Ia psychanal.vse, Payot, 1961 
(segundo conferncias feitas de 1915 a 1917)



                              A SEXUALIDADE FREUDIANA
     *A sexualidades est separada da sua relao demasiado estreita 
com os rgos genitais e       id
considerada como funo corporal que abarca o conjunto do ser e que 
aspira ao prazer, funo
que s secundariamente entra ao servio da reproduo; em segundo 
lugar, contam-se entre as        lq
perturbaes sexuais todas as perturbaes apenas ternas e amigas 
para as quais a linguagem
corrente emprega a palavra *amar+ nas suas mltiplas acepes.
     Freud, A Minha Vida e a Psicanlise, Panorama das Ideias 
Contemporneas.
                                                                 81
A CRISE D0@S'V'AL0RE-'.@@', E- AS GRANDES RUPTURAS NO PENSAMENTO E NP

     .. ... .. ..........................

O IMPACTO DAS TEORIAS FREUDIANAS NA CULTURA
E NOS COMPORTAMENTOS

     A,                    J numerosos pensadores haviam salientado 
nos fins do sculo xix e comeos do sculo xx
          a importncia da compreenso do lado instintivo da natureza 
humana, sugerindo que as emo-
          es e os impulsos instintivos seriam mais importantes para 
nos dar a chave das aces
          humanas do que o pensamento racional. Foi, porm, Freud 
quem primeiro apresentou uma hip-
          tese terica promenorizada acerca do papel do subconsciente 
e das maneiras como este influencia
          o comportamento. Aquilo que indubitavelmente escandalizou 
os contemporneos de Freud
          foi a extenso em que ele relacionou as instigaes do 
subconsciente com os impulsos sexuais,
          que considerava como a fora motriz essencial da natureza 
humana. Efectivamente, dois dos
          seus primeiros e mais famosos adeptos, Alfred Adler e C. G. 
Jung, cedo romperam com ele por
          no poderem aceitar integralmente este aspecto dos 
ensinamentos de Freud: Adler ps prati-
          camente de lado o subconsciente e insistiu em que a 
necessidade de dominar um sentimento de
          inferioridade na vida social seria a explicao bsica de 
uma grande parte do comporta-
          mento humano, e procurou ligar a psicanlise a uma crena 
optimista e, porventura, um tanto
          ingnua na possibilidade da criao de uma sociedade 
socialista que tornaria a adaptao do
          homem  vida social comparativamente simples. Jung foi-se 
interessando cada vez mais, no

          decurso da sua longa vida, pela possibilidade de descrever 
um subconsciente colectivo e de ana-
          lisar o contedo simblico dos mitos que tinham obcecado a 
humanidade desde os tempos mais
          primitivos, e acabou por aceitar o valor teraputica das 
crenas religiosas e o papel da f irra-
          cional como elemento de coeso da sociedade.
          A explicao da mente inconsciente que Freud nos prope e a 
sua demonstrao dos meca-
     nismos dos quais os homens racionalizam as suas motivaes e 
recei . os 1 . nconscientes median-
     te um complicado sistema de smbolos deram uma nova dimenso  
nossa conscincia e com-
     preenso da natureza humana. Abriram tambm aos escritores e 
artistas um novo campo de
     exploraes que eles iriam investigar durante as dcadas 
posteriores  obra de Freud se
     haver tornado mais amplamente conhecida. Ao homem comum, a obra 
de Freud veio tornar pos-
     svel uma discusso maisfranca do que nunca das actividades 
sexuais e dos problemas do sexo,
     e isso conduziu entre as classes europias educadas a uma 
reviso de muita coisa do cdigo
     moral anteriormente aceite.  interessante notar que Max Weberj 
se havia preocupado com
     este aspecto das consequncias dos ensinamentos de Freud em 
1907, e numa controvrsia com
     um dos discpulos de Freud exprimiu a sua inquietao pelas 
consequncias que poderiam
     sobrevir se as teorias de Freudfossem aplicadasfora dos 
consultrios mdicos e se rompesse
     assim o precrio equilbrio moral da sociedade.
          Mas a obra de Freud teve ainda outras implicaes. Ele foi 
um dos raros grandes pensa-
     dores que constantemente rejeitaram a metafsica e que no 
pregaram uma soluo total para
     os males da humanidade. O mtodo da psicanlise, ao levar um 
indivduo a encarar de fren-
     te at os factos mais desagradveis do seu prprio passado, 
tinha em mira tornar-lhe a vida
     suportvel, habilit-lo a adaptar-se s exigncias e tenses da 
sua existncia quotidiana e nada
     mais. Certas pessoas - incluindo alguns dos prprios adeptos de 
Freud - acharam exces-
     sivamente limitada esta viso sombria e pessimista do mundo e da 
sociedade; e as implicaes
     sociais das doutrinas de Freud parecem realmente ser a aceitao 
da ordem existente e da ver-
     dade acerca de si prprio. Devemos antes achar, mediante um 
esforo de introspeco, a
     maneira de nos adaptarmos ao mundo em que vivemos do que mudar 
esse mesmo mundo.
     Adaptando-se  sua prpria pessoa, o homem adaptar-se-ia  
sociedade. Nessa medida,
     Freud, com toda a sua insistncia na importncia do instinto e 
no obstante a sua descober-
     ta do papel do inconsciente na nossa vida, continuou a ser um 
nacionalista que no tinha qual-

     quer tolerncia para com as foras sinistras do sculo xx, sobre 
as quais ele prprio derra-
     mara tamanha claridade.

82

                   DO F@-'

     O contraste entre os objectivos cientficos desinteressados de 
pensadores como Durkheim ou
Freud e as sinistrasforas instintivas para as quais a sua obra veio 
chamar a ateno  um dos
mais notveis caracteres do clima intelectual da Europa antes de 
1914. Assim como a liberdade
poltica do Estado liberal produziu crticos que reagiram contra o 
sistema parlamentar como
tal, assim tambm o alargamento da pesquisa cientfica at incluir 
novas matrias de investi-
gao e sugerir uma nova srie de explicaes para o comportamento 
humano deu lugar a uma
reaco contra esse mesmo temperamento cientfico e contra o mtodo 
cientfico que tinha tor-
nado possveis tais descobertas. Ao mesmo tempo, a expanso da 
industrializao e o contnuo
progresso tecnolgico, aumentando embora o nmero das opes 
materiais e alargando os
gneros de experincia abertos s populaes da Europa, levaram, [... 
    1 a uma reaco seme-
lhante  que acabamos de apontar, e estreitamente relacionada com 
ela, contra a estrutura e os
pressupostos da sociedade industrial e mecanizada.

                                   J.   JolI, ob. cit.








     A, Exerccios

     1.   Aponte razes para o fenmeno da descristianizao da 
sociedade do incio do sculo
          xx e para a posterior revalorizao das crenas religiosas.

     2.   Explique o impacto na cultura do princpio do sculo:

               a)   da teoria da relatividade;
               b)   da psicanlise.



          Tr"


     1.   Escolha um dos cientistas mais importantes da primeira 
metade do sculo xx, por
          exemplo, Einstein, e elabore a sua biografia.

     2.   Recorde a metodologia adequada a este tipo de trabalho 
(Histria 11, 1.2 vol., p. 83).

     3.   Pode realizar outro tipo de trabalho de sntese sobre: a 
cincia na primeira metade do
          sculo xx.

     4.   Recorde a metodologia adequada a este tipo de trabalho 
(Histria 1 1, 1.- vo pp. 166,
          180, 200 e 219-220).

               A OW
     ,,Israel


AS INOVAES REVOLUCIONARIAS DA CRIAO LITERARIA E ARTSTICA


          1.   PROLIFERAAO E DIVERSIDADE DE INOVAOES FORMAIS;
               AS EXPERIENCIAS DE VANGUARDA
               A criao de novas linguagens pictricas nos finais do 
sculo xix e
               incios do sculo xx

          2.   A CONSTRUO DE UM NOVO UNIVERSO PLASTICO: A EXALTAO 
DA
               COR; O DESMANTELAMENTO DA PERSPECTIVA E A VISO
               INTELECTUALISTA DO ESPAO

               - O cubismo
               - O abstraccionismo
               -    O neoplasticismo

          3.   A DIMENSO SOCIAL DA LITERATURA E DA ARTE

               . Cepticismo e denncia na criao literria
               - As vanguardas literrias
               -    A projeco da angstia e da revolta na arte 
expressionista
               - O fauvismo
               - O expressionismo alemo
               -    O dadasmo
               -    O programa de interveno da Bauhaus e as razes 
do funcionalismo
               arquitectnico
               -    O dinamismo futurista

          4.   DA DESCOBERTA DA INTERIORIDADE A EXPLORAO DO
               INCONSCIENTE; A REVOLUO SURREALISTA

          5.   O MOVIMENTO MODERNISTA EM PORTUGAL: UMA SNTESE
               DE TENDENCIAS

                A literatura

                A arte








                    Juan Mir, Homem e Mulher, 1936 (C. E. A. C., 
Barcelona)


MUIMIIIII

                 .... ......

1.   PROLIFERAO E DIVERSIDADE
     DE INOVAES FORMAIS;
     AS EXPERIENCIAS DE VANGUARDA

     No ltimo quartel do sculo xix, o gosto
artstico dominante - o da arte oficial -,
entendia a obra de arte como uma cpia fiel da
realidade, com um esquema compositivo e tri-
dimensionalidade que lhe dava a sensao de
volume.
     O aparecimento da fotografia, trazendo a pos-
sibilidade de, atravs de um processo rpido, se
multiplicarem as imagens realistas, isto , de se
copiar fielmente a natureza, velo, ao fim e ao cabo,
libertar a pintura desta funo.
     A obra de arte ganhou autonomia frente 
realidade, e a pintura reivindica a sua linguagem
prpria, completamente diferente da Natureza,
libertando-se da necessidade de copi-la ou de
imit-la.
     A pintura reivindica assim o seu carcter
bidimensional sem fices espaciais e volum-
tricas e assume a sua autonomia frente  realidade.
Esta  uma das caractersticas da pintura contem-
pornea.
     O processo de destruio da imagem
artstica tradicional, criada no Renascimento,
inicia-se na poca em que se contrapem o
Neoclassicismo e o Romantismo, mas atinge o
seu mximo no sculo xx com as vanguardas.
De facto, j os pintores romnticos tinham
colocado a tnica da individualidade do cria-
dor em contraposio ao acadernisno (Cf.
Histria 11, pp. 360-365), e os realistas tinham
ultrapassado a pura pintura de salo, ao colo-
carem a sua obra ao servio dos menos favo-
recidos, utilizando-a como uma arma contra
as injustias sociais, mas so os pintores van-
guardistas que rompem com toda e qualquer
norma estabelecido, negando a tradio e os
mestres (doc. 1).

     Estes artistas vo buscar a sua designao 
linguagem militar. Avant-garde era a designa-
o que se dava aos soldados que combatiam na
primeira linha. No sculo xix, aplicou-se aos
revolucionrios que queriam transformar a socie-
dade e, no incio do sculo xx, pouco antes da
Primeira Guerra Mundial, comeou a designar,
em Frana, os que lutavam, no campo da arte,
contra todos os movimentos academistas e cons-

86

                              SEM
tituam a guarda-avanada da nova sensibilidade
criadora em luta pela profunda transformao da
criao artstica.
     A arte passa a ser entendida como investigao
permanente e os pintores lanam-se na busca de
novas tcnicas e de novos materiais, atravs dos
quais seja possvel desenvolver-se a sua sensibili-
dade criadora.
     Contudo, o vanguardismo no se confina 
pintura mas antes se caracteriza pela unio das
artes numa frente comum contra a tradio,
uma vez que os mesmos princpios se aplicam ao
cinema,  msica,  poesia,  pintura e  escultura.
     As vanguardas, pela sua prpria essncia de
experimentao constante, esto, todavia, conde-
nadas  efemeridade, pois outras alternativas aca-
bam por superar as anteriores.
     Caracterizam-se pelo elitismo e tambm pelo
grande divrcio entre o pblico e estas novas for-
mas de arte, que se tornam pouco inteligveis. Da
que as referncias dos crticos na sua poca sejam
na sua maior parte pejorativas e o escndalo pro-
vocado pelas primeiras exposies pblicas das
obras destes artistas.
     Frente  sociedade burguesa hostil s suas
novas propostas artsticas, os vanguardistas assu-
mem-se como grupo que encabea uma revoluo
plstica incompreendida, possuidor da chave--- de
uma nova linhagem esttica que superou os grupos
anteriores. O movimento institucionaliza-se atravs
de reunies, manifestos, revistas, etc. Os textos
tericos tornam-se parte integrante da produo
artstica, pois os artistas tm necessidade de teori-
zar para que as suas obras sejam convenientemen-
te interpretadas. Nesses textos, de forte carga ideo-
lgica, encontram-se muito claramente expressos o
combate  tradio, a agressividade e o desafio 
sociedade.
     Contudo, aps a incompreenso do pblico
nos primeiros momentos, com o tempo, as van-
guardas so depois assimiladas e aplaudidas
pelo mesmo pblico burgus que antes as tinha
criticado.
     Actualmente distinguem-se as vanguardas his-
tricas, das primeiras dcadas deste sculo, muitas

delas aparecidos quase em simultneo (expressio-
nismo, cubismo, futurismo, abstraccionismo,
dadasmo, construtivismo e surrealismo), das van-
guardas recentes, aparecidos depois da Segunda
Guerra Mundial (doc. 2).

          ......................
     A criao de novas linguagens pictricas
     nos finais do sculo xix e incios do
     sculo XX

     Uma das grandes dificuldades, quando se fala
de movimentos artsticos e dos seus representantes,
 o facto de a maior parte dos artistas no caber
apenas num desses movimentos e, ao longo da sua
vida, aderir sucessivamente a vrios. Para mais, os
estudiosos de arte no so, por vezes, unnimes em
consider-los dentro de determinada escola ou
movimento, o que torna complicada a sua aborda-
gem didctica.

     Apesar de no constiturem exactamente uma
vanguarda, falaremos dos impressionistas e ps-
-impressionistas pela influncia que tiveram sobre
as vanguardas propriamente ditas.
     Aps o precedente dos romnticos e dos reali-
tas, surge, em Paris, por volta de 1860, o impres-
sionismo. Aparece entre um grupo de jovens pin-
tores - Czanne, Guillaumin, Pissarro, Bazille,
Sisley, Renoir, Monet, Degas (Cf. p. 21), Manet
(doc. 3) -, que compartilham o desejo de romper
com todos os convencionalismos acadmicos. O
desenho torna-se secundrio,  a cor que d
forma.
     Rejeitam os motivos de inspirao histrica,
religiosa ou literria. Os seus temas so os efeitos
de luz e as vibraes atmosfricas provocados
pelo calor. Pintam em pinceladas fragmentadas
e justapostas.
     O nome de impressionismo derivou do nome
de um quadro exposto por Monet que se intitulava
Impression - Soleil levant (doc. 4), nome que
serviu para caracterizar todo o grupo.
     Mal acolhidos no seu tempo, a maior parte
deles continuou a expor e, a pouco e pouco, a sua
linguagem pictrica comeou a ser entendida pelo
pblico.
     Alguns pintores que tiveram inicialmente uma
fase impressionista, acabaram por demarcar-se
dessa corrente. Entre eles contam-se Czanne
(doc. 5), Van Gogh (doc. 6), Gauguin (doc. 7) e
Toulouse-Lautrec. Ficaram conhecidos pela desig-
nao muito imprecisa de ps-impressionistas.
     Em comum tm o gosto pela luz e pela cor,
que usaram no apenas para reproduzir imediata-
mente a realidade mas tambm como instrumen-
to da expresso ntima do artista.


                10NA0"DAC'1@-


     Deste modo, cada um com a sua experincia
prpria ir influenciar vrias correntes da arte con-
tempornea: Czamie constri volumes atravs da
cor, disposta em diferentes planos, e influenciar
os pintores nabis, fativistas e sobretudo os cubistas;
Van Gogli, ao distorcer a cor e a pincelada para
exprimir o que lhe vai na alma, abre caminho ao
expressionismo, e Gauguin, com a sua pintura tal-
tiana, influenciar decisivamente o fativismo.


2.   A CONSTRUO DE UM NOVO
     UNIVERSO PLASTICO: A EXALTAAO
     DA COR; O DESMANTELAMENTO DA
     PERSPECTIVA E A VISO
     INTELECTUALISTA DO ESPAO

     Os pintores que mais contriburam para a des-
truio dos velhos conceitos estticos e para uma
abordagem inovadora da arte foram, sem dvida,
os que escolheram a via no figurativa ou abs-
tracta, isto , as vanguardas cubista, futurista e
abstraccionista.

         cubismo

     O cubismo foi criado por Picasso e Braque,
nos anos de 1906 e 1907. Picasso, sem dvida o
nome mais importante do cubismo, aps as suas
fases azul e rosa, inspirado na pintura de Czanne,
chega ao cubismo. Com este descobre que as
linhas de contorno dos corpos podem ser quebra-
das e que  possvel revelar as faces ocultas dos
objectos. Foi ainda muito marcado pela escultura
negra (doc. 8). A pesquisa constante de novas
abordagens da realidade acabaram mesmo por
aproxim-lo do abstraccionismo, a tal ponto
decompe as figuras sobre as quais trabalha.
     O outro fundador do cubismo, Braque, parte do
fauvismo e tenta uma pintura mais ordenada e
menos expressiva (doc. 9). Os dois artistas traba-
lham juntos durante alguns anos, encetando uma
investigao profunda sobre a nova linguagem que
propem (doc. 10):
     - lutam antes de tudo pela decomposio do
espao tridimensional do quadro e a sensao
volumtrica que da deriva e que marcara a pin-
tura desde o Renascimento. Reivindicam a bidi-
mensionalidade do quadro;
     - contrariamente  pintura tradicional, que pre-
tendia ser uma representao da realidade, os seus

                     87

quadros gozam da mal s completa autonomia em

relao  Natureza e regem-se por leis prprias;
     - lutam ainda contra a concepo esttica da
Pintura tradicional, que representava o objecto com
um carcter fixo e imutvel. O cubismo introduz a
quarta dimenso e permite a viso simultnea do
objecto quer de frente quer de perfil e pelos seus
contornos posteriores e inferiores, como se o espec-
tador se movesse em torno do objecto. Introduz-se
assim a dimenso tempo, j que  viso esttica se
junta agora a sucesso e a durao (doc. 11).
     - a cor e a luz so sacrificados em prol da
ordenao nacionalista do quadro.
     - apesar da utilizao da linguagem geom-
trica, ela no  essencial e serve apenas para pro-
curar a essncia interna das coisas.
     - o cubismo cria uma nova realidade, no
como a vemos, mas como a pensamos. Da que os
quadros no tenham qualquer intuito repre-
sentativo.
     At 1912, o bismo viveu a sua fase analtica,
caracterizada pela decomposio dos objectos, do
ponto de vista do espectador, que gira  volta
daqueles e consegue captar todas as suas facetas de
todos os pontos de vista. Naquela data, inicia-se a
fase de cubismo sinttico, caracterizado pela no
decomposio do objecto mas pelo recurso a uma
imagem que sintetiza as suas formas essenciais e a
sua matria.  nesta poca que surgem as primeiras
colagens na superfcie do quadro (etiquetas, peda-
os de jornal, chapas, etc.) (doc. 12).
     Esta nova linguagem produziu um profundo
choque nos contemporneos. Contudo, aps a
revoluo cubista e com o fim da tridimensionali-
dade renascentista e da sua viso esttica, a pintu-
ra mudou radicalmente.
     Numerosos pintores aderiram ao cubismo, apesar
de procurarem uma linguagem prpria dentro dele,
como sejam Juan Gris (doc. 13), Albert Gleizes,
August Herbin, Robert Delaunay (doc. 14) e
Sonia Delauny, Fernand Lger e Francis Picabia.
     Ao nvel da escultura devemos mencionar, para
alm do prprio Picasso, os escultores Raymond
Duchamp-Villon e Henri Laurens (doc. 15).

     O abstraccionismo

     Wassily Kandinsky (1866-1944), de origem
russa, aps uma fase expressionista em que este-
ve ligado ao movimento alemo Die Blaue Reiter,

88

envereda pelo abstraccionismo e torna-se um dos
maiores nomes da arte abstracta europia.
Advoga a autonomia da obra de arte em relao ao
seu criador e estabelece relaes entre msica e
pintura, chegando mesmo a comparar as cores a
instrumentos musicais, em que o azul actuaria

num quadro como uma flauta actua numa sinfo-
nia, o verde como um violino, o branco como o
silncio, etc.
     A obra de arte no tem qualquer relao com a
Natureza, usa uma linguagem puramente abs-
tracta, em que se busca ritmo e dinamismo atra-
vs da cor.
     Ligada  sua poca de investigao em que
escreve o livro Do Espiritual na Arte, publicado
em 1912, surge a primeira fase da sua obra abs-
tracta conhecida por cromtica, em que usa a cor
pura sem quaisquer referncias figurativas e com
uma profunda ligao  msica.  dessa poca a
sua Primeira aguarela abstracta (1 91 0) (doc. 16).
A segunda fase, a do *geornetrismo lrico+, coin-
cide com a sua actividade de professor na Bauhaus,
e constitui a busca de uma linguagem universal a
partir da matemtica (doe. 17). Mais tarde aproxi-
mar-se- ainda do surrealismo.
     O abstraccionismo no se resume obviamente 
obra de Karidinsky (doc. 18) e pintores como
Malevitch (doc. 19), Robert Delaunay,
Frantisek Kupka, Francis Picabia passaram por
uma fase abstracta a que se chamou abstraco
geomtrica. Igualmente os pintores do grupo De
Stij1 se podem enquadrar dentro da designao de
abstraccionistas.
     O abstraccionismo aparece ligado a outras teo-
rias quer cientficas quer filosficas, sendo notria
a influncia das teorias de Einstein, de Freud ou do
intuicionismo de Bergson na obra dos pintores
abstractos.

     - O neoplasticismo

     Um outro grupo de vanguarda aparece, no con-
texto da Primeira Grande Guerra, na Holanda, que
vai -dar origem a outra alternativa de abstraco
nacionalista. O movimento conhecido por neo-
plasticismo teve origem num grupo de artistas que
comearam a publicar a revista De Stij1 (O Estilo),
em 1917, na cidade holandesa de Leyden. Faziam
parte desse grupo os pintores Piet Mondrian (doc.
20), Theo van Doesburg (doc. 21), entre outros.

     Esta diversidade de experincias artsticas est
de acordo com o verdadeiro esprito das vanguar-
das que buscam a unidade das artes sem limites
impostos por barreiras entre diferentes linguagens.
     So os pintores do grupo os inspiradores e te-
ricos do movimento, redigindo manifestos e esta~
belecendo os princpios programticos do mesmo:
buscavam uma nova esttica diferente de todas as
anteriores, de uma plstica elementar, ao servio de
um novo homem; contestavam o individualismo e
pugnavam pela criao da harmonia universal; a
arte devia buscar a sua essncia elementar e aban-
donando qualquer referncia  Natureza. A obra de

arte devia obedecer s suas leis prprias que esta-
beleciam uma abstraco geomtrica, racional e
ordenada que tendia para a universalidade.
     Estes princpios baseavam-se na crena de que
a arte podia actuar sobre a sociedade criando
uma nova vida atravs de uma linguagem racio-
nalista, diferente da irracionalidade da guerra.
     Na busca da nova realidade, os artistas do
movimento reduzem ao mnimo o vocabulrio pic-
trico, eliminam a linha curva, herdeira do esp-
rito barroco, e usam apenas linhas verticais e
horizontais que se cruzam em ngulos rectos, de
modo a sugerir equilbrio e repouso. Criam super-
fcies planas de cores puras primrias.
     Os quadros no pretendem transmitir qual-
quer mensagem, no descrevem nem querem
dizer nada. Mostram-se como so na sua lingua-
gem fria, racional, matemtica, apresentando-se
como paradigmas de um vocabulrio universal.
     Os anos de maior actividade do grupo foram os
de 1917 a 1921. Contudo, dissenses internas aca-
bam por separar os seus membros. Apenas
Mondrian permanece fiel s ideias do movimento,
enquanto outros buscam novas experincias.
     A nacionalidade procurada pelos artistas de De
Stij1 no passa de uma utopia e os seus membros vero
irromper na Europa, durante o primeiro ps-guerra, a
nova irracionalidade do fascismo e do nazismo.

3.   A DIMENSAO SOCIAL DA LITERATURA
     E DA ARTE

-    Cepticismo e denncia na criao
     literria

     Antes da guerra, na primeira dcada do sculo
xx, os escritores procuravam individualmente,

sobretudo, respostas para o mundo novo que os
cercava. Alguns, como Paul Claudel (O Anncio
Feito a Maria, 1912), encontraram inspirao na f
catlica; outros, como Alain-Fournier, viraram-se
para o sonho (O Grande Meaulnes, 1913). Um
dos nomes mercantes deste perodo foi Andr
Gide, que publica, em 1913, Alcools e que tenta
libertar o romance de uma submisso excessiva 
realidade, fazendo dele uma obra de arte, tal como
acontecera na poesia e na pintura, ideia que expe
atravs da personagem de Eduardo no seu roman-
ce Os Moedeiros Falsos (doc. 22).
     A guerra trouxe novas preocupaes aos
homens de letras e muitos comearam a interro-
gar-se sobre a civilizao ocidental e sobre os seus
valores fundamentais. Essa inquietao fez os
escritores virarem-se de novo para o homem,
dando origem ao novo humanismo contempora-
neo. E o homem que  o centro de obras como as
de Roger Martin du Gard (Os Thibault, 1922-

1940), de Jules Romains (Os Homens de Boa
Vontade, 1932-1946), mas tambm de outros como
Cocteau, Saint-xupry (doc. 23), etc.
     A literatura tornou-se mais angustiada e
mais crtica. Isso  notrio em vrios escritores
franceses, mas tambm em escritores americanos.
Um autor onde a angstia e o absurdo so levados
ao extremo  Franz Kafka, hngaro de lngua
alem, autor de obras como O Processo (1925),
retrato de uma sociedade absurda onde o indivduo
 esmagado pela burocracia, enquanto Aldous
HuxIey usa a ironia para criar uma obra a que
chamou significativamente Admirvel Mundo
Novo (1 932) (Cf. doc. 2, p. 181).
     Nos anos 30, devido  crise econmica e ao
desenvolvimento dos fascismos, a literatura
torna-se mais empenhada politicamente, tendo
muitos escritores militado na oposio aos regimes
totalitrios nos seus pases e aderido ao Partido
Comunista. Entre estes contam-se Louis Aragon e
Paul luard. Mximo Gorki (A Me, 1907) 
um nome tambm sobejamente conhecido entre
os escritores soviticos empenhados na revoluo.
     A guerra de Espanha serviu de inspirao a
algumas obras literrias, como A Esperana
(1937), de Louis Malraux, e Os Grandes
Cemitrios sob a Lua (1938), de Georges
Bernanos. Alis, vrios escritores se empenha-
ram activamente nos combates, ao lado dos repu-
blicanos, nomeadamente Hemingway.

89

                   DOS VAI

     O perodo entre as duas guerras  frtil em
obras notveis e escritores de talento como Marcel
Proust (Em busca do Tempo Perdido, 1913-1927).
As tendncias so, contudo, muito diversas. Entre
os escritores de lngua inglesa e alem apareceram
obras de grande importncia: o irlands James
Joyce publica Ulisses em 1922; no mesmo ano
Virgnia Woolf publica O Quarto de Jacob; em
1924, o alemo Thomas Mann d  estampa A
Montanha Mgica. Nos Estados Unidos aparecem
as obras de John dos Passos (Manhattan Transfer,
1925, e U. S. A., 1919-1925), onde introduz um
novo estilo de escrita e critica a nova sociedade de
consumo. O mesmo se diga em relao a Main
Street (I 920) e Babbitt (I 922), de Sinclair Lewis,
onde se critica a sociedade americana estandardi-
zada. William Faulkner  o grande mestre da des-
crio do Sul. Constri personagens simultanea-
mente simples e complexas, como os idiotas de
O Som e a Fria (1 929) e os criminosos subde-
senvolvidos de O Santurio (I 93 1).
     O mais importante nome desta gerao 
Ernest Hemingway, autor de Adeus s Armas

(I 929) e Por Quem os Sinos Dobram (1 940), entre
outros. Em Tema  a Noite (1 934), Scott Fitzgerald
retrata a gerao do gin que afoga no lcool, na
dana e no jazz a sua indolncia. As Pastagens do
Cu (I 932), A Um Deus Desconhecido (1 933), O
Grande Vale (1938), As Vinhas da Ira (1939), de
John Steinbeck, so o retrato cru da Amrica
rural do perodo da Grande Depresso, e Erskine
Caldwell descreve sobretudo o mundo dos pobres
brancos da Gergia. O teatro popularizou os seus
escritos, nomeadamente Tobacco Road (1932).
     No teatro europeu pontifica o alemo Bertold
Brecht, criador do teatro poltico e autor de obras
como A pera dos Trs Vintns (1 928), O Crculo
de Giz Caucasiano (1938), Vida de Galileu (1938),
Me Coragem e os Seus Filhos (I 939), O Senhor
Proprietrio e o Seu Criado (1941), etc. E ainda
Jean Anouilh, autor de Siegfried (1928), O
Viajante sem Bagagem (1937) e O Baile dos Ladres
(1938), e Luigi Pirandello, cuja obra teatral se
inicia em 19 1 O e onde avulta, entre outras, a pea
Seis Personagens  Procura de Um Autor (1 92 1).

     No devemos ainda deixar de referir autores
mais tradicionais que escrevem obras destinadas ao
grande pblico, a que poderemos chamar literatu-
ra de evaso. Na literatura policial, os grandes
nomes so Georges Simenon e Agaffia Christie.

90

                . . ........

               RANDES RU@@RAS
                  @@NSAMEl

          As vanguardas literrias

     Alguns destes escritores inseriram-se em movi-
mentos de vanguarda.

     O vanguardismo literrio caracterizou-se
sobretudo pelo desejo de ruptura com a esttica
anterior, tanto no que toca aos motivos de inspi-
rao como quanto  expresso.

     Mais do que pretender criar novas escolas, as
vanguardas quiseram sobretudo romper com a tra-
dio. Era uma literatura experimental que ante-
punha  perfeio a originalidade e que se mani-
festou sobretudo ao nvel potico e ensastico mais
do que ao nvel da prosa ou do teatro.

     Um desses movimentos  o futurismo, surgido
em 1909.  um movimento optimista caracterizado
pelo anti-historicismo, projectando-se no futuro e
vivendo do mito do moderno. Foi uma reaco
contra o decadentismo e o simbolismo. Inspirava-se

na esttica da mquina, da velocidade e da vida
moderna e trepidante da cidade. Surgiu com
Marinetti, que publicou no Figaro o Manifesto
Futurista (doc. 24). Foi um movimento efme-
ro, apesar das repercusses que teve noutros pa-
ses, sobretudo ao nvel plstico. A defesa do beli-
cismo e do militarismo fizeram-no aproximar do
fascismo italiano.

     A total ruptura dos valores operada pela guerra
deu razo de ser ao dadasmo (doc. 25). Quando a
cincia, que deveria contribuir para o progresso
social e histrico, fora a criadora de armas terr-
veis, e os valores ticos se tinham afundado, no
havia razes para o homem continuar a acreditar
na arte e na literatura. Desde logo, o movimento se
afirmou como anti-arte e anti-literatura.

     O cepticismo total, a troa e o sarcasmo, a
negao absoluta e a renncia  criao caracteri-
zam este movimento literrio. Aqui encontramos
Andr Breton, Lus Aragon, Paul luard.

     A partir deste movimento surge, em 1924, o
surrealismo, proclamado por Andr Breton com
o seu Manifesto do Surrealismo (doc. 26). Do
Movimento Dad conserva o desprezo pela lite-
ratura mas no desdenha explorar um novo filo
at a inexplorado: o mundo dos sonhos. Prope
para isso uma nova tcnica: a escrita automtica.
 um movimento antinaturalista e antirealista,
revoltando-se contra qualquer tipo de lgica e
bebendo influncias das teorias psicanalticas de
Freud.

                  NES REW

     Num primeiro perodo, entre 1923 e 1925, explo-
ram a via dos sonhos, mas alguns dos escritores que
aderem a esta forma de expresso caem num nega-
tivismo radical e no onrico sombrio e depressivo,
que desemboca, para alguns deles, no suicdio.
     Como vimos, numa segunda poca, j nos anos
30, perante a crise econmica e a subida do fas-
cismo, alguns escritores surrealistas, como Lus
Aragon e Paul luard, tomam posio e aderem ao
Partido Comunista, produzindo algumas obras
empenhadas politicamente (doc. 27).
     O cubismo tem tambm a sua expresso liter-
ria, entre 1917 e 1920, sobretudo entre os escrito-
res franceses, apesar da obra precursora de
Apollinaire, Alcools, publicado em 1913.
     As obras literrias cubistas caracterizam-se
pela irregularidade mtrica, por no usarem pon-
tuao, por serem formadas como de bocados dis-
persos de conversas ouvidas ao acaso, de memrias,
ttulos de jornais, etc., tal como os quadros dos
pintores cubistas sintticos (CL doc. 11). O poeta

foge  realidade sensorial, ao descritivo e opta
pela realidade intelectual e pelo fragmentismo,
transformando-se num espectador que se interpela
a si prprio. Os poemas no so mais que anota-
es do poeta, sem preocupaes de relao causal
entre elas, entrecruzando-se o passado e o presen-
te. Nomes como Max Jacob, Cendrars, Reverdy e
Jean Cocteau aderiram a este movimento.
     De todos os movimentos de vanguarda, parece ter
sido o expressionismo alemo o mais rico de todos
eles, pelo seu carcter polifacetado e pela multipli-
cidade dos gneros que desenvolveu (doc. 28).
     Enquanto as outras vanguardas quase se limi-
taram  poesia, o expressionismo estendeu-se ao
ensaio, ao drama e ao romance.
     Tendo denunciado a catstrofe iminente, depois
da guerra, o expressionismo critica a sociedade
burguesa que lhe sobrevive. Caracteriza-se pelo
cepticismo, pelo desespero, a crueldade, a troa
do que  belo, chegando a fazer a apologia da feal-
dade, do irracional e mesmo do demonaco.
     As obras expressionistas revelam sentimentos
de horror e sofrimento onde se mistura a solidarie-
dade, o conflito das geraes, a evaso a uma rea-
lidade opressiva, a luta contra a desumanizao
do maquinismo, a crtica ao mundo burgus, etc.
     Dois dos nomes mais mercantes deste movi-
mento literrio foram Kafka e Brecht, a que j nos
referimos.

     Nos anos 30 comea a desenhar-se a tendncia
existencialsta, desenhada pelas obras de Jean-
-Paul Sartre. Caracterizava-se pelo absurdo, o
nada, o pessimismo, a ruptura com as convenes.
As situaes descritas so violentas, a atmosfera 
amoral, a expresso directa e crua, o tom, muitas
vezes, cnico.
     Podemos inscrever dentro desta tendncia lite-
rria escritores como Albert Camus (O Estrangeiro,
1942), Sartre (O Ser e o Nada, 1943), Simone de
Beauvoir, Alberto Moravia (Os Indiferentes), mas
tambm os americanos John dos Passos, William
Faulkner, CaldwelI, Ernest Hemingway, John
Steinbeck, que especulam com os sentimentos de
vazio e de absurdo, bem como com o irracionalismo
e uma certa animalidade das personagens.


     A projeco da angstia e da revolta
     na arte expressionista

     Enquanto para alguns historiadores da arte o
expressionismo nasce ainda nos finais do sculo
xix, apontando como exemplos os casos dos pin-
tores Ensor, Hdler e Munch (doc. 29), outros
consideram estes pintores como pr-expressionis-
tas e situam o nascimento desse movimento'de
vanguarda - o expressonismo -, nos primeiros

anos do sculo xx. Parece extremamente signifi-
cativo o ano de 1905, com o aparecimento simul-
tneo do grupo dos fauves, em Paris, e do grupo
De Brcke (A Ponte), em Dresden,  frente do
qual se encontrava Errst Ludwig Kirchner.

                - O fauvsmo

     Em 1905, no Salo de Outono de Paris, um
grupo de jovens pintores expe obras marcadas
pela agressividade das suas cores (doc. 30). O
nome pelo qual ficaram conhecidos foi-lhes dado
pelo crtico de arte Lus Vauxcelles, que lhes cha-
mou fauves, ou seja, feras. O grupo era formado
por Matisse (doc. 31), Derain (U. p. 137),
VIaminck (doc. 32), Puy, Manguin e Rouault, a
que se juntaram posteriormente Dufy, Marquet
e Van Dongen.
     No aceitam o papel representativo da pintura
tradicional e apreciam a arte primitiva e infantil,
porque no respeita convencionalismos. Nas suas
obras renunciam ao espao construido e tendem

91

          ...........

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para a deformao. O protagonismo situa-se ao
nvel da cor, brilhante e agressiva. Usam sobre-
tudo as cores primrias, aplicadas em pinceladas
soltas, vigorosas, violentas ou grossos empastes.
     Apesar de muito semelhante ao expressionismo
alemo, distancia-se deste porque nos fauvistas
subsiste um certo sentido de ordem e decorativis-
mo que no existe no expressionismo e tambm
porque h neles alegria de viver. Pelo contrrio, no
expressionismo sente-se a angstia de viver, como
veremos mais adiante.
     A experincia fauve durou apenas dois anos,
entre 1905 e 1907, e os seus representantes adop-
tam depois outras linguagens pictricas.

     - O expressonismo alemo

     Os pintores do grupo, que contestam as estru-
turas scio-polticas do Imprio Alemo, comba-
tem a tradio e a representao realista da
Natureza, bem como o conceito de beleza da
poca, dominado pelos pintores impressionistas
alemes. Supervalorizam o eu e a necessidade de
expressar as suas ansiedades e conflitos pessoais.
Da encontrarem motivos de inspirao em pinto-
res como Van Gogh e Munch.
     A sua pintura corresponde ao fauvismo francs

e ambos os movimentos receberam as mesmas
influncias: do romantismo colheram a valorizao
do indivduo; com Nietzsche aprenderam a crtica
 sociedade burguesa; com Gauguin, a ateno a
civilizaes exticas e as cores; de Munch, a alu-
cinao das suas figuras, e de Van Gogh, a defor-
mao da Natureza e as cores intensas.
     S em 191 1, quando expuseram em Berlim,
foram chamados *expressionistas+. A partir de
1920, esta designao engloba todas as tendncias
artsticas revolucionrias surgidas entre 1910 e
1920.
     No  um movimento unitrio e dentro dele
houve numerosas manifestaes expressionistas, as
mais importantes das quais foram Die Briicke, Der
Blaue Reiter (O Cavalo Azul) e Der Neue
Sachlichkeit (Nova Objectividade).

     Die Brcke (A Ponte)

     O grupo, nascido em 1905, permaneceria at
1913. Dele faziam parte Frutz Bley1, Ernst
Ludwig KircImer (doc. 33), Erich Heckel e Karl

92

Schmidt-Rottluff, a que    se juntaram mais tarde
Emil Nolde, Max Pechstein e Otto Mller.
Viveram juntos e trabalharam juntos desde 1906, a
tal ponto que algumas das telas que pintaram
podem ser consideradas trabalho de grupo. S se
individualizaram quando vieram residir em Berlim,
a partir de 191 1.
     Concebiam a arte como uma concepo do
mundo e no como mera exigncia esttica. Nos
seus quadros conta acima de tudo a expresso das
suas paixes ou ideias, e por isso lhe sacrificam a
beleza. Os seus temas referem-se a aspectos da
vida quotidiana. As cores e as formas usadas de
modo arbitrrio pretendem provocar no espec-
tador um sentimento de assombro, de repulsa ou
de medo.

     Der Blaue Reiter (O Cavalo Azul)

     Este grupo do expressionismo alemo nasceu
em Munique, em 191 1, a partir da Nova
Associao de Artistas, fundada em 1909 e presi-
dida por Karidinsky. Desde logo surgiram dissi-
dncias entre os pintores realistas e os abstractos
do grupo, e estes ltimos [Kandinsky, Franz
Marc (doc. 34), Kubin e Mnter] abandonaram o
grupo e fundaram um grupo novo a que deram o
nome de O Cavalo Azul, porque Marc e
Katidinsky adoravam cavalos e a cor azul.
     No se trata de um grupo homogneo, mas,
todavia, podem encontrar-se elementos comuns
na sua pintura: afastamento da Natureza, exaltaro

do eu, aspirao  fuso das artes, renncia a uma
uniformidade formal dos elementos do grupo, esti-
mulando a criao de estilos pessoais.
     Tal como os artistas de Die Brcke foram
influenciados pelo fauvismo e pelo cubismo, pelas
formas de arte primitiva, pela filosofia de
Nietzsche e de Schopenhauer. A guerra disper-
sou o grupo em 1914.

     Der Neue Sachlichkeit (Nova Objectividade)

     A experincia da guerra fez voltar alguns artis-
tas de novo para a pintura figurativa. A pintura
expressionista alem deste gnero  extrema-
mente dura e desapiedada, tal como a realidade.
Nela se reflecte a morte e a misria, em con-
traste com cenas ostentatrias da burguesia e dos
militares.

                         ...............

...... ...................... . ... ..... . ...... . . .

     Em 1923, surgiu uma nova corrente chamada
Der Neue Sachlichkeit (Nova Objectividade), que
agrupou artistas das mais variadas tendncias rea-
listas alems. O nome apareceu pela primeira vez
numa circular/convite para uma exposio onde
se pretendia reunir as obras mais significativas dos
artistas realistas dos ltimos dez anos. A exposio
realizou-se em Marinheim, em 1925, e nela esta-
vam representados Max Beckmann, Otto Dix e
George Grosz (doc. 35), entre outros.
     Apesar da grande diversidade dos artistas
enquadrados por este movimento, encontram-se
nas suas obras alguns traos comuns: compro-
misso com a realidade contempornea; repre-
sentao de cenas da vida quotidiana, nomea-
damente cenas de rua, de cabar ou de prostibulos;
stira e ironia perante alguns grupos sociais,
como os militares. Os temas so sempre tratados
de modo impessoal e distante.
     Este grupo foi dissolvido, como muitos outros,
em 1933, devido  perseguio nazi.
     Para alm dos artistas enquadrados em movimen-
tos ou grupos  necessrio fazer referncia a alguns
grandes pintores a que poderemos chamar indepen-
dentes.  o caso de Modigliani e de Marc Chagali.
     Chagall nasceu na Rssia e foi para Paris em
1910. Ali recebeu influncia do fauvismo, o que
lhe permitiu trabalhar a cor, bem como da nova lin-
guagem do cubismo, que, todavia, depressa aban-
donou por ser demasiado rigoroso, frio e realista.
     A sua pintura revela um mundo onrico onde
evoluem estranhos seres que gravitam, pintados
em cores explosivas.  um pintor de difcil classi-
ficao, tendo j sido classificado como cubista,
expressionista e surrealista, tendo, de facto, um

pouco de tudo (doc. 36).
     Amedeo Modigliani instalou-se em Paris em
1906. Os seus quadros revelam o interesse pela
figura humana, que apresenta sempre com um
certo hieratismo.

     O dadasmo

     Como j referimos, o forte impacto da Primeira
Guerra Mundial vai tambm servir de motor ao
aparecimento de outro movimento de vanguarda
que acentua o irracional, o acaso. o jogo e a pro-
vocao, o dadasmo.
     Na cidade sua de Zurique, onde se encontra-
vam artistas das mais variadas origens, alguns con-

.... .... . .. ........ .....................

siderados desertares e traidores nos seus pases,
outros pacifistas e exilados, o poeta romeno Tristn
Tzara e o artista francs Hans Arp fundam, em
1916, no cabar Voltaire, o Movimento Dad.
     Contestam o belicismo e todos os princpios
considerados como valores eternos. Para isso uti-
lizam a ironia, a troa, o insulto, a crtica, de modo
a destruir a ordem e estabelecer o caos. O prprio
nome do movimento no tem significado algum. O
nico principio programtico do grupo, se assim se
pode dizer,  a incoerncia.
     A prpria arte no escapa ao dadasmo, j que o
que importa no  a obra de arte mas a atitude
destrutiva em todas as esferas da vida humana. O
que criam no  uma obra de arte, mas apenas um
objecto, fruto da improvisao e do absurdo. Da o
recurso a materiais at a rejeitados pelos artistas,
como desperdcios (doc. 37).
     Contrariamente aos outros movimentos de van-
guarda que criaram novas linguagens, dentro de
uma nova ordem, o dadasmo inverte todo o pro-
cesso porque no lhe interessa criar nada, nem
descobrir qualquer nova linguagem e muito menos
lhe interessa a expresso e a ordem (doc. 38).
     O movimento dad espalhou-se desde Berlim, a
Paris, Roma, Tquio, Lisboa e mesmo Nova
lorque, sendo, de todos, o mais internacional dos
movimentos de vanguarda.

     O programa de interveno da Bauhaus e
     as raizes do funcionalismo arquitectnico

     Desde finais do sculo xix que se desenvolvia
na Europa uma corrente essencialmente decorativa,
que utilizava as linhas curvas e a decorao luxu-
riante, mas cujas ramificaes se estenderam 
pintura (Klimt),  joalharia, ao mobilirio e 
arquitectura, conhecida por Arte Nova. O arqui-
tecto catalo Gaud foi um dos principais repre-
sentantes deste estilo. As suas obras caracterizam-se

pelas linhas sinuosas, formas orgnicas que quase
se assemelham a ossos, embrechados e decorao
floral (doc. 39).
     Contudo, a novidade do beto armado e do
ascensor tinham tornado possvel construir, na
Amrica, os primeiros arranha-cus. Frank Lloyd
Wright chamara j a ateno para a necessidade da
simplicidade formal e de linhas na concepo dos
edifcios. A sua influncia foi sentida na Europa,
antes da guerra, nomeadamente na Alemanha,

93

                 ..........

onde arquitectos como Behrens e Gropius acom-
panham essas tendncias, que conhecem posterior
desenvolvimento devido ao contributo da Bauhaus.
     Mesmo aps a tragdia da guerra, que parecia
tudo ter posto em causa, inclusive o progresso
baseado no desenvolvimento tecnolgico, as novas
tecnologias continuaram a seduzir os artistas e a
alimentar as esperanas no crescimento social e
cultural. Tendo em comum o interesse pela abs-
traco e pelo pensamento socialista, surgiram trs
movimentos, entre 1917 e 1920: a Bauhaus, na
Alemanha; o Construtivismo, na Rssia, e De
Stiffi, na Holarida, que j referimos. advogavam a
necessidade de a arte saber responder s novas
exigncias tcnicas e sociais, procurando usar os
mtodos e os materiais da produo industrial,
produzindo coisas teis. Rejeitavam qualquer
tipo de imitao ou de insero em normas pre-
-estabelecidas.

     A Bauhaus foi uma escola de arquitectura,
arte e desenho, fundada por Walter Gropius
em Weimar, na Alemanha, no ano de 1919.
Resultou da fuso da Escola Superior de Artes
Plsticas e da Escola de Artes e Ofcios e pretendia
dar aos artistas uma boa preparao para os ofcios,
dando-lhes a possibilidade de conhecerem e usa-
rem diversos materiais. Pretendiam a integraro de
todos os gneros artsticos e artesanais, mas 
bvia a preponderncia da arquitectura.
     No seu primeiro manifesto declaravam os fun-
dadores que desejavam construir alguma coisa de
novo sobre as runas da guerra, oferecendo aos
jovens a possibilidade de realizar os seus ideais e
de criar uma nova sociedade.
     O seu nome, de facto, significa qualquer coisa
como *casa dos construtores e, nas suas origens,
o projecto da Bauhaus reclamava-se do mesmo
esprito que animava os construtores das catedrais
medievais: um mesmo objectivo e o mesmo senti-
mento esttico. Mas acima de tudo era uma escola
que pretendia a renovao pedaggica do ensino
da arte, at a profundamente acadmico, e onde

ensinaram nomes como Johannes Itten, Paul Klee,
Kandinsky, Oskar Schlemmer, Laszlo Moholy-
-Nagy, Lyonel Feininger, Adolf Meyer, etc.
     Os estudos duravam trs anos e meio, escalo-
nados por nveis, e pela frequncia de ateliers
onde os artistas se integravam conforme os seus
interesses: Madeira, Metal, Tecido, Cor, Impresso

94

                    RAM)E

e Tipografia, Arquitectura e Construo, publici-
dade, Fotografia e Artes Plsticas. Os trabalhos
eram depois expostos e os mtodos de trabalho
divulgados em publicaes ou conferncias.
     Em 1925, a Bauhaus transferiu-se para Dessau
(doc. 40) e, mais tarde, em Setembro de 1932,
para Berlim, onde apenas sobreviveu seis meses,
tendo sido encerrada em Abril de 1933 pelos nazis.
A sua histria corre paralela  da prpria
Repblica de Weimar (doc. 41).
     Uma das grandes inovaes da Bauhaus
foram as suas propostas sobre esttica indus-
trial, uma esttica funcional onde predominavam
as linhas rectas e a geometria mais estrita.
     Walter Gropius projectou, em 1910, a
Fbrica Fagus, onde utilizou o ladrilho e, sobre-
tudo, o ferro e o vidro, que se tornou num dos
primeiros modelos do funcionalismo (doc. 42).
O funcionalismo prope uma adeso total s
necessidades prticas da comunidade, nomeada-
mente nos objectos de uso corrente, o que vai
dar origem ao design (doc. 43).
     Sobretudo a partir de 1923, a Bauhaus conver-
teu-se num centro de produo dedicado  reali-
zao de projectos e ao desenho de modelos sobre-
tudo destinados  indstria.
     No domnio da pintura, trabalharam na
Bauhaus um nmero importante de artistas,-das
mais variadas tendncias, que podem, contudo,
ser agrupados segundo algumas semelhanas entre
si. Deste modo, Itten, Muche, Klee (doc. 44) e
Kandinsky tm em comum a espiritualidade e a
potica da geometria, enquanto Moholy-Nagy,
Albers e Bayer representam a nova orientao
virada para a tcnica e para o racional. Outros
artistas, como Feininger e SchIemmer so difi-
cilmente enquadrveis e permanecem como per-
sonagens independentes.

     Tal como os artistas da Bauhaus, tambm os
construtivistas russos [Malevitch (CL doc. 19),
Lissitzky (Cf. p. 29), Taflin, etc.1 rejeitam a tra-
dio e pensam que  beleza das coisas se deve
aliar o de funcionalidade. Proclamam ainda a
necessidade de uma arte nova e original ao servio
da sociedade.

     Esta vanguarda termina em 1930 com a ins-
taurao da ditadura estalinista na Unio Sovitica.
     De facto, nos anos 30 a arquitectura oscila,
segundo os regimes polticos, entre neoclassicismo

                 I)NARIAS 1

e modernismo. Nos     pases totalitrios constro-
em-se grandes monumentos em estilo neoclssico,
de modo a confirmar e a perpetuar o poder do
regime, embora se utilizem os materiais e as
modernas tcnicas de construo.
     Os modernos continuam as suas experincias,
mas sempre de modo a dar funcionalidade s
construes. Tanto na construo dos arranha-cus
americanos como das moradias europeas, as linhas
so direitas e no h ornamentao suprflua.

     Para alm dos arquitectos da Bauhaus, desta-
cam-se outros nomes importantes dentro desta ten-
dncia do funcionalismo esttico: o americano
Wright (doc. 45), o finlands Alvar Aato e o
suo Le Corbusier (doc. 46), entre muitos outros.

     O dinamismo futurista

     Para alguns, esta  a vanguarda por excelncia,
pois pressupe um corte radical com a tradio
artstica (o passadismo), uma alterao da cultura
dominante e um grande esprito de experimenta-
o, com a criao de uma arte para o futuro (o
futurismo) (doc. 47). O impacto foi enorme no
seu pas de origem, a Itlia, pas de grandes tradi-
es artsticas (CL doc. 24).
     Logo no ano seguinte ao Primeiro Manifesto
Futurista, de Marinetti, um grupo de jovens artistas
(Severini, Carr, Boccioni, Russolo e Balia),
apresentavam, em Fevereiro de 19 1 0, o Manifesto
dos Pintores Futuristas e, dois meses depois, o
Manifesto Tcnico da Pintura Futurista, onde se
retoma o conceito de dinamismo. Para obterem
efeitos de mobilidade e vibrao da superfcie
pictrica, recorrem aos princpios de decompo-
sio cromtica e luminosa (doc. 48). A pintura
futurista caracteriza-se ainda pela agressividade
da cor e pelos temas transcendentes. Procuram
ainda implicar directamente o espectador na obra.
     O futurismo pretendeu abranger todos os mbi-
tos, desde a arquitectura  moda, do desenho 
decorao e  escultura, onde se destaca Boccioni
(doc. 49). As im licaes arquitectnicas do futu-
rismo fizeram-se sentir sobretudo ao nvel dos
projectos de Sant'Elia (doc. 50), nenhum deles
posto em prtica. Advogava, entre outras coisas,
que as cidades deviam ser invadidas pelo barulho
das grandes fbricas.

     Devido  defesa que faziam do militarismo, do

patriotismo e da guerra, o futurismo acabou, como

          ........ ...

                      C

                    ;Ir-, E ARTISTICA

vimos, por ligar-se ao fascismo. Se alguns destes
artistas morreram, de facto, na guerra, outros des-
ligaram-se do movimento e procuraram outras lin-
guagens alternativas.


4.   DA DESCOBERTA DA INTERIORIDADE
     EXPLORAO DO INCONSCIENTE;
     A REVOLUAO SURREALISTA

     Uma outra vanguarda literria e plstica nasce
em 1924, em Paris, quando, como vimos, Andr
Breton apresenta o Manifesto do Surrealismo (CL
doc. 26). Pretende acima de tudo acabar com a
nica coisa que ainda restava da arte tradicional: a
sua viso lgica da realidade. Os surrealistas pre-
tendem exprimir o que se passa no seu sub-
consciente sem interveno nem limitao alguma
nem censura (doc. 51).

     Como precedentes poderemos recuar at ao
simbolismo e a alguns pintores expressionistas e
depois ao dadasmo, donde vieram muitos dos pin-
tores surrealistas.

     Porm, enquanto o movimento Dad  total-
mente negativo, nhilista e destruidor, o surrea-
lismo  um movimento comprometido politica-
mente, nomeadamente com o Partido Comunista,
na luta contra o fascismo; optimista, j que cr na
possibilidade de um homem novo e baseia-se
cientificamente na teoria psicanaltica de
Freud.
     Em 1925, realiza-se a primeira exposio de
pintores surrealistas, entre os quais se destacam
Jean Arp, Chirico, Paul Klee, Max Ernst,
Picasso, Mir (Cf. p. 85), Ray, Masson. Mais
tarde, aderem ao movimento Dali (doc. 52),
Tanguy, Delvaux e Magritte.
     Apoiando-se na teoria de Freud, reivindicam
a autonomia da imaginao e a capacidade do
inconsciente se exprimir sem limitaes (doc. 53).
Representam cenas grotescas e absurdas,
sonhos ou alucinaes inslitas (doc. 54).
Precisamente devido a esta liberdade, o movi-
mento surrealista no apresenta um carcter uni-
trio e permite uma enorme diversidade.

     Ao nvel da escultura destacam-se, para alm
de Picasso, Dali, Alberto Giacometti, Arp e

Brancusi, entre outros. Este ltimo atinge uma
grande depurao de formas, utilizando normal-
mente formas ovides de uma pureza formal abso-
luta (doc. 55).


95

.ffirErM
     M       

5.   O MOVIMENTO MODERNISTA EM
     PORTUGAL: UMA SNTESE DE TENDENCIAS

A    literatura

     O modernismo foi um movimento esttico,
em que a literatura surge associada s artes pls-
ticas, empreendido por Fernando Pessoa, Mrio
de S-Carneiro e Almada Negreiros, em sinto-
nia com as vanguardas europias, mas sem deixar de
apresentar uma certa originalidade (doc. 56).
     Foi em 1913, em Lisboa, que se constituiu o
ncleo do grupo modernista que, em 1914, lan-
ou a revista Orpheu, de que saram apenas dois
nmeros e onde colaboraram Lus de Montalvor,
Pessoa, S-Carneiro, Almada Negreiros, Alfredo
Guisado e Raul Leal.
     O grupo entretanto continuou a publicar noutras
revistas e, em 1917, surgiu a revista Portugal
Futurista, onde foram reproduzidos quadros de
Santa-Rita Pintor e Sousa Cardoso, juntamente
com poemas futuristas de S-Carneiro (pstumos)
e Pessoa, sobretudo sob o seu heternimo de
Alvaro de Campos.
     Mais tarde, em 1927, apareceu a revista
Presena, que deu a conhecer a obra dos moder-
nistas da gerao do Orpheu, mas que revela
um ntido recuo em relao a essa gerao e um
regresso parcial ao neo-romantismo, atravs de
Jos Rgio e Miguel Torga.
     No Orpheu revelaram-se tendncias vrias,
que vo desde a permanncia do simbolismo e do
decadentismo at s tendncias inovadoras como o
futurismo. Alvaro de Campos/Fernando Pessoa
publica a Ode Triunfal (1915) (doc. 57) e a Ode
Martima, S-Carneiro, a Manucure (1915),
Almada Negreiros, o Mani sto Anti-Dantas
fe
(1916) (doc. 58) e UltimatumfUturista s gera-
es portuguezas do sculo XX (1 917) (doc. 59). O
futurismo foi, contudo, uma moda de curta durao
e os seus mentores depressa enveredaram por
outras vias.
     O modernismo nasceu antes da guerra, mas
esta acelerou o seu desenvolvimento. A inquieta-
o perante o fracasso de uma sociedade que se
julgava slida e na via do progresso material e

moral reflectiu-se tambm em Portugal. Aps a
guerra, as geraes mais novas sentiram um enor-
me desejo de destruir tudo o que era j caduco, e
comear de novo.

96

     Em Portugal, a nova gerao combatia o aca-
demismo bem pensante de republicanos burgueses
que tinham feito carreira  sombra do partido e
que se arvoravam em mentores do gosto, como
Jlio Dantas, Augusto de Castro, Antero de
Figueiredo e Correia de Oliveira.
     Por isso, a gerao do Orpiteu foi uma gera-
o provocadora, excntrica que se deixou arre-
batar pelo mundo da tcnica do seu tempo e que
reagiu contra o imobilismo cultural da poca, atra-
vs da agresso e do sarcasmo, at mesmo da auto-
marginalizao.
     J nos anos 40 a literatura portuguesa envere-
dou pelo neo-realismo de Alves Redol, Fernando
Namora, Carlos de Oliveira, Verglio Ferreira,
Afonso Ribeiro e Domingos Monteiro.

                   A arte

     No incio do sculo, o gosto generalizado ia
para os pintores figurativos, sobretudo para os
naturalistas como Malhoa. Foi a gerao do
Orpheu, nomeadamente jovens pintores portu-
gueses que estudavam em Paris, que renovou a
linguagem esttica nacional, introduzindo as
novas solues das vanguardas cubista e futurista
em Portugal: Guilherme Santa-Rita (1 889-1918)
iniciou as suas incurses no cubismo e no futuris-
mo, fase de que se conhece uma Cabea, datada de
1912 (doc. 60). Resta muito pouco da sua obra,
pois, a seu pedido, foi destruda pela famlia, aps
a sua morte.
     Arnadeu de Sousa-Cardoso estudou tambm
em Paris, onde conheceu Modigliani, com quem
exps em 191 1. Depois aproximou-se dos cubis-
tas e exps no Salo de Outono de 1912, bem
como na primeira exposio de pintura moderna
realizada nos Estados Unidos, em 1913, e no
mesmo ano, em Berlim. Aderiu posteriormente
ao abstraccionismo, por marcada influncia de
Delaunay (doc. 61). Em 1914, aps viagens na
Alemanha, dedica-se a experincias expressio-
nistas. No mesmo ano, a guerra f-lo regressar a
Portugal.
     A convivncia com a gerao do Orpheu
fazem-no virar-se para o futurismo. Exps pela
primeira vez em Portugal em 1916, no Porto e em
Lisboa, e os seus quadros provocaram escndalo.
A sua pintura , nesta poca, uma verdadeira
amlgama de tendncias (doc. 62 e cf. p. 5).


                                        NM

     Tanto Santa-Rita Pintor como Sousa-Cardoso
morreriam muito jovens, em 1918.
     Almada Negreiros (1893-1970) partiu para
Paris em 1919, onde no se deixou influenciar
demasiado pelas correntes mais recentes. As suas
obras revelam certa influncia do construtvismo e
at mesmo uma certa abstraco, mas tambm um
certo idealismo nacionalista (doc. 63 e cf. p. 13).
     Para alm destes, devem ainda citar-se os
nomes de Eduardo Viana, em cujas obras se reve-
lam influncias do impressionismo, do fauvismo e
do cubismo (doc. 64); Manuel Bentes, Manuel
Jardim, Armando de Basto, Abel Manta, Dordio
Gomes. A gerao aparecido nos anos 20, cultora
do expressionismo, pertence Carlos Botelho (doc.
65), Mrio Eli, Jlio Reis Pereira (doc. 66),
Dominguez Alvarez e Sarah Afonso. Nos anos
30, devem referir-se os nomes de Lino Antnio,
Jlio Santos e Augusto Gomes e o surrealista
Antnio Dacosta (doc. 67).
     No devemos deixar de mencionar Maria
Helena Vieira da Silva, apesar de ter trabalhado
em Frana desde 1928. Enveredou pela arte abs-
tracta, mas conseguiu dar aos seus quadros pro-
fundidade espacial, tornando-se uma grande ino-

vadora neste campo a nvel internacional. Outras
das suas inovaes  a sugesto da presena de
fi uras indefinveis nos seus quadros (doc. 68).
     No campo da escultura modernista, Diogo de
Macedo (doc. 69), Alvaro de Bre e ainda
Ernesto do Canto da Maia, que tambm viveu
muitos anos em Paris, onde realizou uma obra
dentro do gosto *dco+ e que a partir dos anos 30
entrou ao servio da ideologia oficial, esculpindo
esttuas de reis e de heris. Na mesma linha vo
Francisco Franco (doc. 70), Leopoldo de
Almeida, Maximiano Alves, entre outros.
     No campo da arquitectura, no incio do sculo,
dominava a corrente nacionalista, bem como o
neoromnico ou neomanuelino. Nos anos 20 sur-
gem as solues moderno-racionalistas de Cristino
da Silva (doc. 71), Pardal Monteiro (doc. 72),
arquitectos oficiais do Estado Novo, Carlos
Ramos e de Cassiano Branco, arquitecto inde-
pendente, autor do teatro Eden, em Lisboa, entre
muitos outros.
     Como vimos, o modernismo portugus no
foi um movimento homogneo, mas sim uma sn-
tese de vrias' tendncias quer literrias quer
plsticas (doc. 73).


DocUMENTOS
                                                  ASVANGUARDAS

     Com o advento das correntes iluministas, positivistas~progressi 
 .stas, evolucionistas (ao modo
de Darwin ou Spencer) iniciou-se um combate  tradio, vista como 
impeditiva de progresso e
da prpria evoluo. Se esta pode ser tomada em mos pelo homem (como 
dizia Jacob), ento o
predomnio dever ser, no da tradio, mas da inovao.  
afundamento terico das van-
guardas. O modernismo vanguardista, efectivamente, organiza-se sobre 
o princpio de que  gera-
o nova cabe o papel mp-ssinico de romper com o passado e de, sobre 
os escombros da
herana destruido e abandonada, acelerar a evoluo, inventar o 
futuro, criar um mundo novo.
     Se observarmos as principais tendncias do primeiro modernismo 
em geral, encontramos
numa primeira,fase duas vertentes; a antitradicionalista e 
iconoclstica, e afuturista.
     A primeira incendeia a tradio e destri as suas imagens e 
smbolos; a segunda, comple-
mentar, deseja ultrapassar o passado, transcender o presente e criar 
desde j o futuro, no
sendo pois de admirar que a expresso do movimento, da velocidade, 
do,futurvel na socieda-
de actual, constitua o seu principal propsito. Por um lado, 
o.fauvismo, o cubismo, o expres-
sionismo, o abstraccionismo, o dadasmo; por outro, o movimento 
propriamente futurista,
que entronca nalguns daqueles, mas para acentuar as dimenses de 
velocidade, de acelerao,
de motricidade social e industrial.

Antnio Quadros, O Primeiro Modernismo Portugus - Vanguarda e 
Tradio,
                         Mem Martins, Publicaes Europa-Amrica.

97

                 ...........

     A
          OS PRINCIPAIS MOVIMENTOS ARTSTICOS (FIM DO SCULO XIX - 
1945)


        1900     1910            1920        1930                  
1940

        Czanne  > CUBISMO       lo PURISMO  CRCULO E ABSTRACO
FRANA           I--"       41,              QUADRADO CRIAAO

          ARTE NEGRA            ORFISMO
          _ 1w                                             PINTORES 
DE
     SECAO DE OIRO


                                                       TRADIAO

IMPRESSIONISMO                                ESCOLA DE PARIS 
FRANCESA
                                          EXPRESSIONISMO
Van Gogh

           Gauguin   FALIVISMO
NEO-IMPRESSIONISMO

                                   Nabis

                                                            DADA



               ITALIA                                  FUTUR
                 RA@0SMISMO

                 SUPREMATISA

               (RSSIA
                                                      REALISMO SOCI


                                   AGIT PROP
.URSS                              CONSTRUW

EUROPA         EXPRESSIONISMO
DO NORTE
                                   NEO-PI---A        ICISMO
PASES BAIXOS                      De Stij1
                                   BAUHAUS
ALEMANHA       EXPRESSIONISMO  Di  Der Blaue Reiter
                                   DADA

               INGLATERRA                                   ARMORY   
      DADA
                                                         SHOW

               ESTADOS-UNIDOS                                        
                                                                     
                                    BAL1HAUS                         
                                                               
SURREALISMO
                                                                     
           (artistas europeus emigrados)

               PORTUGAL                                              
M    O    D E R N 1 S M O








               douard Manet
               (1832-1888),
               Almoo na Relva,                                      
     . @A
               1863

               (Museu d'Orsay,

               Paris)



                                                            . ... . . 
........

98

  C. Monet, Impresso: Nascer do Sol, 1872








                     -.

 (Museu d'Orsay, Paris)








          Paul Czanne (1839-1906),
Retrato de um Campons, 1901-1906
(Museu Thyssen Bornemisza,Madrid).
Afigura humana  tratada como
mais um elemento da paisagem.
          Asformas decompem-se
em manchas de cor. Esta  a grande
protagonista do quadro





99









          Vincent Van Gogh
          (1853-1890),
          A Igreja de Auvers-
          -sur-Oise, 1890
          (Museu d'Orsay,
          Paris)

                              N@








                     1W&



          Paul Gauguin (1848-1903),

          Mata Mua, 1892
          (Museu Thyssen, Madrid). -
          A paisagem exuberante serve
          de fundo a uma cena primitiva
          intensamente iluminada.
          Algumas mulheres rodeiam
          um dolo, enquanto outra,
          sentada, escuta o companheiro
          que tocaflauta.
          As cores so brilhantes
          delimitadas por perfis escuros
          e asformas so simples
          e quas e planas.




                                                            .. . 
........... .. .

100

          1 f f@ 1 iXI1,10.-%UITili                       @@RT'ISTICA
AS









Picasso, As Meninas de Avignon (1907) (Mu,@ewn olt Modern Ari, Nova 
Jorque).
Asfiguras evocam as de C@wnne e revelam ainda a influncia
  da escultura ibrica pag e da arte negra








     G.   Braque, Casa em
          L'Estaque, 1908
(Kunstmuseum, Berna).
          A paisagem
  reproduzido atravs
defiguras geomtricas
       ligadas entre si






1 01

0[2                 A CRISE DOS VALORES E AS GRANDE     URAS NO r 
TT@T

O CUBISMO

     A.               A segunda *revoluo+ artstica deste incio de 
sculo comea sob aforma de uma aventura pes-
          soal, a de Pablo Picasso (1881-1973). As Meninas de Avignon 
[...                       1, que so normalmente consi-
          deradas como o nascimento do Cubismo, foram acabadas no 
Outono de 1907 [...                           1.
          Espanhol de nascimento, filho de pintor, Picasso formou-se 
no ambiente do Academismo e
     apresentava-se, aos dezoito anos, como um gnio precoce pelo 
brio do seu trabalho. O contacto com
     Paris, onde vai pela primeira vez em 1900 antes de a se 
instalar quatro anos mais tarde, leva-o a
     renegar a sua formao e a procurar novas directrizes. Atrado 
durante algum tempo por uma arte
     social [...      1, adopta depois um estilo muito influenciado 
pelo do barcelons Isidro Nofiell (1 873-191 1)
     para evocar vagabundos ou enfermos numa pintura em vrios tons 
de azul (perodo azul). Em 1904-
     1905, passa afiguras de saltimbancos melanclicos, numa pintura 
em que a cor dominante  o rosa
     (perodo rosa). [...        1
          Durante os anos de 1906-07 atravessa uma crise que conduz 
ao Cubismo. O conhecimento das
     obras de Czanne e principalmente das Grandes Banhistas, de que 
uma das trs verses ter pro-

     vavelmente sido exposta no Salo de Outono de 1905, leva-o a 
encarar a possibilidade de se desli-
     gar da realidade da viso. O exemplo das esttuas ibricas que o 
haviam impressionado no Vero
     de 1906, [...       1 desempenhou j de certo modo o mesmo 
papel, que se ampliar, na execuo das lti-
     mas cabeas das Meninas de Avignon, graas  descoberta das 
mscaras africanas. A bem dizer, o
     quadro de Picasso significa menos o incio do Cubismo do que a 
inaugurao de uma arte que toma
     liberdades em relao  viso e abandona a tradicional 
representao.
          Aps este sucesso (de incio bastante discreto, porque o 
quadro sfoi exposto em Paris alguns
     dias em 1916 f...         1), estabeleceu-se uma espcie de duo 
entre Braque e Picasso. No Outono, atingem
     ambos uma arte que se pode dizer verdadeiramente cubista, pois 
parece ter por base a famosa asser-
     ofeita por Czanne a mile Bernard e por este publicado em 
Outubro de 1907: *Na natureza tudo
     se modela com base na esfera, no cone e no cilindro,  
necessrio aprender a pintar a partir destas
     figuras simples. + [...      1
          A aventura destes dois artistas prossegue, em seguida, a um 
ritmo rpido. A partir de 1910, aban-
     donam esta primeira etapa para transporem uma segunda, a do 
*Cubismo analticos. Mais dor que
     uma etapa czanniana, a do Cubismo analtico tinha~se tornado 
possvel devido s Meninas de
     Avignon, que, rejeitando a realidade da viso, abriam a 
possibilidade de pintar a realidade do conhe-
     cimento (Guillaume Apollinaire). Os motivos dos quadros so 
analisados em planos conjugados na
     pintura sem a preocupao de uma legibilidade directa da figura 
formada. Estes planos podem cor-
     responder a aspectos de um objecto ou de uma forma humana que 
no podem ser captados numa
     mesma viso: rosto e costas, por exemplo. [...           1
          Uma prtica de anlise como esta leva os pintores a 
transformar os elementos isolados em super-
     flcies pictricas. Da at  inverso do processo criador, 
bastava apenas dar um passo. Picasso e Braque
     do-no, cerca de 1912, partindo de elementos materiais planos - 
superfcie do quadro, papis diver-
     sos, zonas pintadas em cor uniforme... - e associando-os para 
evocar a realidade.  o Cubismo sim-
     trico (at c. 1917) e a srie dos papis colados. Na 
contemplao da obra, o espectador sente a ambi-
     guidade dos materiais, simultaneamente referentes da realidade 
quotidiana, quando se trata de papel
     de jornal ou de parede, e fragmentos de uma composio que 
sugere um outro aspecto da realidade.
          A especificidade do trabalho desenvolvido pelos dois 
pintores continua a ser aquilo a que mais
     tarde se chamou a autonomia do facto pictrico. Apesar dos 
comentrios dos pintores e do seu intr-
     prete privilegiado, Guillaume Apollinaire, o objectivo no  
tanto analisar uma realidade de conhe-

     cimento como dar a ver uma obra pictrica, baseada nessa 
anlise, mas orientada antes de mais por
     imperativos de unidade puramente pictricos. Tambm no  sem 
razo que as criaoes de Picasso
     e de Braque se refugiam ento numa gama cromtica muito 
restrita, dominada pelos castanhos e
     pelos ocres, realados por vezes por alguns tons de verde. A 
ascese desta paleta  ainda uma
     recusa do gosto da cor dos *Fauves+, uma afirmao implcita da 
intelectualidade da viso.

     Albert Chtelet e Bernard Philippe Groslier, Histria da Arte, 
vol. 3, Larousse,
                    traduo portuguesa do Crculo de Leitores, 
Lisboa, 199 1.

102

                              UMA ARTE INTEIRAMENTE NOVA

     Tem-se censurado vivamente aos novos artistas pintores as suas 
preocupaes geomtricas.
Entretanto, as figuras geomtricas so o essencial do desenho. A 
geometria, cincia que tem por
objecto a extenso, a sua medida e as suas relaes, tem sido em 
todos os tempos a propria
regra da pintura.
     At ao presente, as trs dimenses da geometria euclidiana 
bastavam s inquietaes que o
sentimento do infinito pe na alma dos grandes artistas.
     Os novos pintores, no mais do que os seus antepassados, no se 
propuseram ser gemetras.
Mas pode-se dizer que a geometria  para as artes plsticas o que a 
gramtica  para a arte do
escritor Ora hoje, os sbios j no se cingem s trs dimenses da 
geometria euclidiana. Os
pintores dispuseram-se naturalmente e, por assim dizer, por intuio 
a preocupar-se com as
novas medidas possveis da extenso que na linguagem das modernas 
oficinas de arte so desig-
nadas no conjunto e sumariamente pela expresso de quarta dimenso.
     Tal como se oferece ao nosso esprito, do ponto de vista 
plstico, a quarta dimenso seria
gerada pelas trs medidas conhecidas: figura a imensidade do espao 
eternizando-se em
todas as direces num momento determinado. Ela  o prprio espao, a 
dimenso do infinito:
 ela que d elasticidade aos objectos. D-lhes as propores que na 
obra eles merecem,
enquanto na arte grega, por exemplo, um ritmo de certa maneira 
mecnico destri incessan-
temente as propores.
     A arte grega tinha da beleza uma concepo puramente humana. 
Tomava o homem como
medida da perfeio. A arte dos pintores novos toma o universo 
infinito como ideal e  a este

ideal que se deve uma nova medida da perfeio que permite ao artista 
pintor dar ao objecto
propores conformes ao grau de elasticidade a que ele deseja 
lev-lo.

Apoffinaire, Les Peintres cubistes, Figuire, 1913, in Panorama das 
Ideias Contemporneas.






                     WF7








     Pablo Picasso, A Garrafa do Velho Marco, 1913 (Museu Nacional de 
Arte Moderna, Paris)




                                                            103

   J. Gris, Homenagem a Picasso, 1911-1912
          (Art Institute, Chicago).














      R. Delauna-v, Torre Eiffel, 1910,
(Salomon R. Guggenheim Museum, Nova Iorque.)
 O artista deforma e decompe dinamicamente
         a imagem da Torre Eif ,fel








                                   H. Laurens, Cabea de Rapariga, 
1920
                                   (Col. Peggy Guggenheim, Veneza).
                                   O artista decompe e recompe os 
vrios planos
                                   do objecto, criando uma nova 
relao entre

                                   o espao e a forma



104

                                        A








Wassili Kandinsky, Primeira Aguarela Abstracta, 1910-1913. (Museu 
Nacional de Arte Moderna, Paris).
O artista, nesta fase, considera as cores e as formas puras
como meios significantes da expresso pictrica, atravs dos quais 
expressava o ritmo.



                              VER O REAL DE OUTRO MODO

     Todo o fenmeno pode ser vivido de duas maneiras. Estas duas 
maneiras no esto arbi-
trariamente ligadas aosfenmenos - elas resultam da natureza 
dosfenmenos, de duas das
suas propriedades:

          Exterior-Interior

     Se observarmos a rua atravs da janela, os seus rudos so 
atenuados, os seus movimentos
sofantasmagricos e a prpria rua, por causa do vidro transparente, 
mas duro e rgido, pare-
ce um ser isolado palpitando num *mais longe+.
     Mas quando se abre a porta: samos do isolamento, participamos 
desse ser, tornamo-nos a
activos e vivemos a sua pulsao atravs de todos os nossos sentidos. 
A alternncia contnua do
timbre e da cadncia dos sons envolve-nos, os sons sobem em turbilho 
e subitamente desa-
parecem. Do mesmo modo, os movimentos envolvem-nos -jogo de linhas e 
de traos verticais
e horizontais, atirados pelo movimento em direces diferentes, jogo 
de manchas coloridas que
se aglomeram e se dispersam, com uma ressonncia por vezes aguda, por 
vezes grave.

     A obra de arte reflecte-se  superfcie da conscincia. Ela 
encontra-se *mais longe+ e, quan-
do a excitao cessa, desaparece da superfcie sem deixar rasto. H 
ali tambm como o vidro
transparente, mas duro e rgido, que impede todo o contacto directo e 
ntimo. L ainda, temos
a possibilidade de penetrar na obra, de a nos tornarmos activos e de 
viver a sua pulsao atra-
vs de todos os nossos sentidos.

                                   W.   Kandinsky, Point, ligne, 
plan, Denoel, 1970.

                                                            105

O NASCIMENTO DA ABSTRACO

     A.               As obras produzidas no mbito do Cubismo 
analtico de Picasso e Braque apresentavam-se
          aos espectadores como praticamente desligadas de qualquer 
realidade visual. [...                     1 O seu
          exemplo evidenciava a possibilidade de pintar sem qualquer 
relao com a realidade, valori-
          zando apenas os componentes pictricos. Esta ideia 
desenvolve-se, de modo mais ou menos con-
          fuso, em numerosos estdios, e as primeiras pinturas 
verdadeiramente abstractas so realiza-
          das, paralelamente, em diferentes locais.
          Kandinsky pinta as pri . mei . ras telas deste gnero, em 
Munique, por volta de 1912-13,
     Larionov em Moscovo c. 1911. Picabia (1879-1953), que procurava 
o seu caminho no incio do
     sculo num Impressionismo moderado, reivindicou em 1909, a 
criao de uma aguarela abs~
     tracta intitulada Cauchu, composta por formas coloridas que lhe 
tero sido sugeridos, de
     acordo com o ttulo, pela ideia do cauchu. No entanto,  s aps 
ter passado por experincias
     muito prximas do Cubismo que adopta de modo mais sistemtico, 
em 1913, uma expresso
     totalmente abstracta em grandes quadros onde se imbricam 
estruturas muito leves. [...           1
          O percurso do pintor checo Frantisek Kupka (1871-1957)  
semelhante mas no idntico.
          1 A partir de 1911, decide-se por uma orientao que se 
tornar definitiva e, at  sua morte,
          s pintar telas organizadas em torno deformas em geral 
curvilneas extremamente coloridas.
           em 1913 que se concretizam as vrias posi                
.          es abstractas e se afirma a Abstraco
          latente. O mesmo  tambm vlido para o holands Piet 
Mondrian (1872-1944), que procura-
          va, desde 1908, afirmar as linhas de estrutura em pinturas 
provenientes, tambm elas, do
          Neo-impressionismo.


                                   A.   CUtelet e Grosfier, ob. cit.








                      j
                         CasimirMalevitch, Suprematismo,


1 06

                                    1915 (Museu Russo, Leninegrado)

          P. Mondrian,
     Composio em
Vermelho, Amarelo e
Azul, 1930, (Coleco
Alfred Roth, Zurique).
Linhas rectas
cruzando-se
ortogonalmente
delimitam superfcies
rectangulares ou
quadrados pintados de
cores primarias. Estas
caractersticas
encontram-se na sua
obra desde 1916-1917








     Theo Van Doesburg,
Contracomposio de
Dissonncias XVI,
1925 (Haags
Gemeentemusem, Haia).
Este pintor afasta-se do
puri.smo de Mondrian
ao utilizar as diagonais
como elemento linear
fundamental.

                      








107

*FAZER ENTRAR TUDO+ NO ROMANCE...

               -  porficar, de todos os gneros literrios, o mais 
livre - discorria Eduardo -, o mais
          lawless....  talvez por isso, por medo dessa mesma 
liberdade (pois os artistas que mais sus-
          piram pela liberdade so, frequentemente, os mais 
desequilibrados desde que a obtm), que o
          romance, desde sempre, se tem agarrado  realidade to 
aflitivamente? E nofalo apenas do
          romance francs. Tanto como o romance ingls, o romance 
russo, por muito que se evada do
          aperto, fica sempre escravo da semelhana. O nico 
progresso que defronta  o de se aproximar
          ainda mais do natural. O romance jamais conheceu aquela 
*formidvel eroso dos contornos+,
          de que fala Nietzsche, e aquele voluntrio afastamento da 
vida, que permitiram o estilo, por
          exemplo, s obras dos dramaturgos gregos ou s tragdias do 
sculo XVIIfrancs. Conhece
          voc alguma coisa de mais perfeito e de mais profundamente 
humano do que essas obras? Mas,
          precisamente, tudo isso s pode ser humano sendo-o 
profundamente; no afecta parec-lo, ou
          pelo menos parecer real. Efica uma obra de arte.

Andr Gide, Les Faux-Monnayeurs, Gallimard, 1925, in Panorama das 
Ideias Contemporneas.




RESPEITO PELO HOMEM!

               Respeito pelo Homem! Respel            -to pelo 
Homem!...  essa a pedra de toque. Quando o nazista
          respeita exclusivamente o que se parece consigo, s se 
respeita a si mesmo. Recusa as contra-
          dies criadoras, arruna toda a esperana de ascenso e 
planta, para mil anos, no lugar de um
          homem o autmato duma termiteira. A ordem pela ordem castra 
o homem do seu poder essencial,
          que  transformar o mundo e a si           .          
prprio. A vida cria a ordem mas a ordem no cria a vida.
               Parece-nos, a ns, muito pelo contrrio, que a nossa 
ascenso no terminou, que a verda-
          de de amanh se alimenta do erro de ontem e que as 
contradies a superar so o prprio humo
          do nosso crescimento. Reconhecemos como nossos at os que 
diferem de ns. Que estranha
          parentela! Ela assenta no,futuro, no no passado. Nofim, 
no na origem. Ns somos todos pere-
          grinos que, por atalhos diferentes, penamos a caminho do 
mesmo encontro.

               Mas eis que hoje o respeito do homem, condio da 
nossa ascenso, est em perigo. O estalar
          do mundo moderno atirou-nos para as trevas. Os problemas 
so incoerentes, as solues con-
          traditrias. A verdade de ontem morreu, a de amanh est 
ainda por construir Nenhuma sntese
          vlida se entrev e cada um de ns tem na mo s uma 
parcela da verdade. Nafalta de evidncia
          que as imponha, as religies polticas recorrem  
violncia. E eis que dividindo-nos acerca dos
          mtodos corremos o risco de no nos darmos conta de que nos 
apressamos para o mesmofim.
               O viajante que transpe a sua montanha na direco 
duma estrela, se se deixar absorver de
          mais pelos problemas da escalada, aventura-se a esquecer 
que estrela o guia. Se no age seno
          por agir no ir dar a parte nenhuma. A mulher que aluga 
cadeiras na catedral preocupando-se
          obcecadamente com o lucro, arrisca-se a esquecer que serve 
um deus. Analogamente, se me
          enclausuro em qualquer paixo partidria, arrisco-me a 
esquecer que uma poltica s tem sen-
          tido sob a condio de estar ao servio de uma evidncia 
espiritual. Saboremos nas horas de
          milagre uma certa qualidade de relaes humanas: para ns a 
verdade est nisso.
               Seja qual for a urgncia da aco, -nos vedado 
esquecer a vocao que deve dirigi-Ia,
          seno essa aco permanecer estril. Queremos instaurar o 
respeito do homem. Porque nos
          havemos de odiar adentro dum mesmo campo? Nenhum de ns tem 
o monoplio da pureza de
          intenes. Posso combater, em nome do meu rumo, o rumo que 
um outro escolheu. Posso cri-
          ticar os caminhos da sua razo. Os caminhos da razo so 
nvios. Mas tenho de respeitar esse
          homem, no plano do Esprito, se ele se afadiga a caminho da 
mesma estrela.

108

     Respeito pelo Homem! Respeito pelo Homem!... Se o respeito pelo 
Homem radica no cora-
o dos homens, os homens acabaro por criar em contrapartida o 
sistema social, poltico ou
econmico que consagre esse respeito. Uma civilizao alicera-se, 
primeiro que tudo, na subs-
tnca. No homem ela , antes de mais, desejo cego dum certo calor Em 
seguida o homem, tac-
teando, encontra o caminho que conduz ao,fogo.

     Antoine de Saint-Exupry, Lettre  um Otage, Gallimard, 1945, in 
ibidem.






                              MANIFESTO DO FUTURISMO

     .... . .... ...... ...
1.   Ns queremos cantar o amor do perigo, o hbito da energia e da 
ousadia.
2.   A coragem, a audcia e a rebeliosero elementos essenciais da 
nossa poesia.
3.   A literatura exaltou at hoje a imobilidade pensativa, o xtase 
e o sono.  Ns queremos
     exaltar o movimento agressivo, a insnia,fbril, o passo de 
corrida, o salto mortal, a
     bofetada e o soco.
4.   Afirmamos que a magnificncia do Inundo se enriqueceu com uma 
nova beleza: a bele-
     za da velocidade. Um automvel de corrida, com o seu co e 
enfeitado por grossos

                     .fr
     tubos semelhantes a serpentes de hlito explosivo... um 
automvel que ruge, que parece
     correr debaixo defogo,  mais belo do que a vitria de 
Samotrcia.
5.   Queremos glorificar o homem que segura o volante, cujo eixo 
ideal atravessa a Terra, ele
     tambm lanado em corrida, no circuito da sua rbita.
6.    preciso que o poeta se enriquea com ardor, enforco e 
liberdade, para aumentar o entu-
     sisticofervor dos elementos primordiais.
7.   J no h beleza seno na luta.  Nenhuma obra que no tenha um 
carcter agressivo pode
     ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento 
assalto contra asfor-
     as ignotas, para reduzi-Ias e prostr-las diante do homem.
8.   Estamos no promontrio extremo dos sculos!... Porque razo nos 
devemos acautelar, se
     queremos arrombar as misteriosas portas do impossvel? O Tempo e 
o Espao morreram
     ontem. Vivemos agora no absoluto, pois crimos a velocidade 
omnipresente.
9.   Queremos glorificar a guerra - nica higiene do mundo - o 
militarismo, o patriotismo,
     o gesto destruidor dos libertrios, as belas ideias pelas quais 
se morre e o desprezo pela
     mulher
10.  Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de 
todas as espcies e
     combater contra o moralismo, o,feminismo e contra todas as 
baixezas oportunsticas ou
     utilitrias.
11.  Cantaremos as grandes multides agitadas pelo trabalho, pelo 
prazer ou pela rebelio;
     cantaremos as mars multicores ou polifnicas das revolues nas 
capitais modernas;
     cantaremos o vibrante fervor nocturno dos arsenais e dos 
estaleiros incendiados por vio-
     lentas luas elctricas; as estaes glutonas, devoradoras de 
serpentes que deitam,fumo;

     as fbricas penduradas nas nuvens pelos fios retorcidos dos seus 
rumos; as pontes
     semelhantes a ginastas gigantes que galgam os rios, balouando 
ao sol com um brilho de
     facas; os piroscafos aventurosos que,farejam o horizonte, as 
locomotivas de peito amplo
     que atropelam os carris, como enormes cavalos de ao com,freios 
de tubos e o voo des-
     lizante dos aeroplanos cuja hlice rasga o vento como uma 
bandeira e parece aplaudir
     como uma multido entusiasta.

                                   Marinetti, Manifesto Futurista 
(1909).


                                                            109

UM MANIFESTO DADA

               Nada de pintores, nada de literaturas, nada de 
msicos, nada de escultores, nada de reli-
          gies, nada de republicanos, nada de realistas, nada de 
imperialistas, nada de anarquistas, nada
          de socialistas, nada de bolchevistas, nada de polticos, 
nada de proletrios, nada de democratas,
          nada de burgueses, nada de aristocratas, nada de exrcitos, 
nada de polcia, nada de ptrias,
          enfim basta de todas essas imbecilidades, mais nada, mais 
nada, nada, nada, nada, nada.
               Desta maneira, esperamos que a novidade, que ser a 
mesma coisa que o que ns no que-
          remos, se impor menos podre, menos egosta, menos 
mercantil, menos obtusa, menos imen-
          samente grotesca. Vivam as concubinas e os concubistas. 
Todos os membros do movimento Dada
          so presidentes.

Vinte e Trs Manifestos Dad, Litrature, n.' 13, Maio 1920, in 
Panorama das Ideias Contemporneas.


MANIFESTO DO SURREALISMO

 ... Ns vivemos ainda sob o reino da lgica; era a isto, claro, que 
eu queria chegar Mas os

          processos lgicos, em nossos dias, apenas se aplicam  
resoluo de problemas de interesse
          secundrio. O nacionalismo absoluto que continua na moda s 
permite considerarfactos que
          provm estreitamente da nossa experincia. Pelo contrrio, 
osfins lgicos escapam-nos.  in-
          til acrescentar que  prpria experincia se puseram 
limites. Move-se numa gaiola donde  cada
          vez mais difcil faz-la sair Tambm ela se apoia na 
utilidade imediata e  vigiada pelo bom

          senso. A pretexto de civilizao e de progresso fomos 
levados a banir do esprito tudo o que,
          com ou sem razo, se pode taxar de superstio, de quimera; 
a abolir todas as formas de inda-
          gao da verdade que no estejam em conformidade com os 
costumes. Foi na aparncia pelo
          maior dos acasos que recentemente foi revelada uma parte do 
mundo intelectual, e em minha
          opinio de longe a mais importante, de que toda a gente 
afectava desinteressar-se.  s ds-
          cobertas de Freud que temos de agradec-lo. A f de tais 
descobertas, se desenha enfim uma
          corrente de opinio em virtude da qual o explorador humano 
poder conduzir mais longe as
          suas investigaes, autorizado como estar a no se ater 
unicamente s realidades sumrias.
          A imaginao est mesmo talvez a recobrar os seus direitos. 
Se as profundezas do nosso esp-
          rito contm estranhasformas susceptveis de intensificar as 
da superfcie, ou de lutar vitorio-
          samente contra elas, h todo o interesse em capt-las, 
capt-las primeiro, para as submeter
          depois, se for o caso, ao domnio da nossa razo. Os 
prprios analistas s tm a ganhar com
          isso. Mas importa observar que nenhum meio foi a priori 
designado para a conduo desta
          empresa, que at nova ordem pode passar por ser actividade 
de poetas como de sbios e que o
          seu xito no depende dos caminhos mais ou menos 
caprichosos que forem trilhados.

                    Andr Breton, Manifeste du Surralisme, Kra, 
1924, in ibidem.




REVOLUO E LITERATURA

               Muitos dos escritores e artistas que tinham reagido 
contra a guerra, ou que, como o pintor
          Fernand Lger tinham aprendido nas trincheiras a respeitar 
melhor a dignidade e os sofri-
          mentos dos soldados sentiram-se, quando a guerra acabou, 
arrastados para a actividade
          poltica ou, pelo menos, obrigados a assumirem um 
compromisso poltico, em muitos casos com
          o Partido Comunista.
                                                            . . .. 
... ......

1 1 o

     O relacionamento da maioria dos escritores europeus com o 
comunismo e com a Unio
Sovitica iria ser mais complicado. E isso devido  natureza do 
prprio regime sovitico e ao

desapontamento e  desiluso que muitos deles sentiram, primeiro com 
os mtodos usados por
Lenine para impor a sua concepo da ditadura do proletariado, e 
depois, aps a morte de
Lenine, com os crescentes poderes ditatoriais de Estaline. [...1
     Ao longo do sculo xix a inteligentsia russa tinha sabido 
responder com admirvel preste-
za s novas ideias da Europa Ocidental; e nos anos imediatamente 
anteriores  Revoluo
houve na Rssia grupos de escritores e pintores que mantinham ntimo 
contacto com os novos
movimentos em Frana e na Alemanha, com o Cubismo, o Futurismo e o 
Expressionismo, e que
tinham contribudo tambm para o impacte que o Bailado Russo de 
Diaghilev ocasionara nas
capitais do Ocidente antes de 1914.
     A sensao de libertao e de uma nova e intensa experincia que 
muitos artistas e inte-
lectuais sentiram nos primeiros um ou dois anos da revoluo cedeu o 
passo a um estado de
esprito menos exuberante, quando no de autntica desiluso. O 
maisfamoso internacional-
mente de todos os escritores revolucionrios russos da gerao mais 
velha, Mximo Gorki, que
havia dado  prosa russa um novo realismo revolucionrio, no se 
absteve de criticar muitos
aspectos do novo regime. [... 1
     O dilema do escritor revolucionrio na Rssia da dcada de 20 
acha-se claramente exem-
plificado na carreira do poeta Vladimir Mayakovsky. Nasceu em 1893 e 
foi criado no Cucaso,
onde seu pai era guarda florestal. A sua reaco contra a vida rural 
quando ainda era muito
jovem tornou-o receptivo  mensagem do Futurismo: *Depois de ter 
visto a luz elctrica perdi
o interesse pela natureza. No est bastante actualizada+, escreveu 
ele. Partilhava [tambm]
com os Futuristas a rejeio do passado [... 1. Identificou-se 
rapidamente com a revoluo [...  1.
Contudo as suas ltimas obras, O Percevejo (1929) e O Balnerio 
(1930), metem a ridculo mui-
tos aspectos do sistema sovitico. Ambasfracassaram quandoJoram 
representadas. [...      1

                                   J.   Joli, ob. cit.




                              EXPRESSIONISMO E DADASMO

     Ainda antes da guerra, e em grande parte sob a influncia de 
Nietzsche, uma gerao
inteira de escritores e artistas, na Alemanha e na Austria, tinha 
estado  espera de uma
mudana violenta. O movimento artstico e literrio geralmente 
conhecido como Expressiortsmo

exprimia uma atmosfera de apreenses, receios, culpas e pressgios em 
que as experincias da
vida burguesa contempornea se imbuam de um sentimento de terror As 
histrias e romances,
muitos deles s postumamente publicados, que um jovem autor 
checo-alemo de Praga, Franz
KaJka, escreveu entre 1912 e a data em que morreu, vtima de 
tuberculose, em 1923, pintam-nos
uma sociedade em que as rotinas quotidianas da vida da classe mdia 
se transformam subita-
mente num mundo de ansiedade e de horror, onde o protagonista acorda 
abruptamente e des-
cobre que se transformou num piolho gigantesco (A Metamorfose), ou 
que se encontra envol-
vido em infindveis e mal definidos processos judiciais (O Processo) 
ou numa luta de pesade-
lo com uma burocracia misteriosa (O Castelo).
     Vrios dos poetas expressionistas tinham perecido na guerra: um 
dos melhores, o austra-
co Georg TrakI, matou-se num hospital militar de Cracvia em Novembro 
de 1914. Alguns deles
s tinham visto na guerra destruio e desgraa; mas outros tinham 
tido a esperana de que
aquele imenso sofrimento levasse a uma nova ordem social e 
fraternidade entre os homens.
*Der Mensch ist gut+ (*O homem  bom+), proclamou Leonhard Frank no 
ttulo de umafantasia
expressionista de 191 7, onde as vtimas da guerra - as vivas, os 
invlidos, os pais que per-

               ACRISE@DOSVALORESE.AS(,%'?_,,q,'I

          deram os filhos - ultrapassam os horrores e proclamam um 
mundo novo. O colapso de 1918 e
          a Revoluo alem pareciam confirmar todas as suas 
profecias. A Alemanha enfrentava a des-
          graa e a runa total, mas era-lhe dada tambm a 
oportunidade de varrer os destroos e
          construir de novo.
               Tal como em Frana, um certo nmero de intelectuais 
alemes uniu-se aos grupos polticos
          da esquerda e mais tarde ao Partido Comunista alemo. [... 
               1
               Ao mesmo tempo, outros escritores e artistas 
-primeiro, durante a guerra, em Zurique e em
          Nova Iorque e depois em Berlim, em Colnia e em Paris - 
haviam decidido que a sua misso
          era destruir toda a arte e, atravs da eliminao daquilo 
que anteriormente se considerara
          como cultura, abrir caminho a uma nova ordem social, 
intelectual e artstica. Esse movimento,
          conhecido por movimento Dad, na sua determinao de troar 
de tudo o que at alifora toma-
          do a srio e de esvaziar da sua ostentao o mundo burgus, 
tinha evidentemente implicaes
          polticas; e na Alemanha alguns dos seus representantes 
estiveram durante certo tempo envol-
          vidos na poltica revolucionria, servindo como comissrios 
culturais junto dos conselhos de

          trabalhadores e de soldados, ou utilizando as novas 
tcnicas de fotomontagem e justaposio
          incongruente de imagens para fins de stira poltica. 
Houve, no entanto, muitos casos em que
          esta revolta permaneceu  margem da poltica - como sucedeu 
com o francs Marcel
          Duchamp, que passou todo o perodo da guerra em Nova Iorque 
e introduziu ali algumas des-
          tas ideias, e que foi talvez, em termos puramente 
artsticos, o artista mais prestigioso associado
          a este movimento -, mas a demonstrao que elafez das 
absurdas pretenses da sociedade res-
          peitvel e a sua revelao de novos nveis de simbolismo 
subconsciente contriburam para o
          clima intelectual da Europa imediatamente a seguir  
guerra. Levou tambm dentro de poucos
          anos a outro movimento que teve ligaes estreitas com a 
revoluo poltica e, durante algum
          tempo, com o Partido Comunista - o Surrealismo.

                                   J.   MI, ob. cit., p. 452-454.





                      






                                   Z@'




          E.               Munch, O Grito, 1893,
          (Galeria Nacional, Oslo).
          Este pintor expressa
          magistralmente na sua
          pintura sentimentos
          profundos como a
          angstia, atravs da dure,-.(i
          das cores e das pesadas
          linhas de contornos
          desfiguras





112

@K@@,A0"@RgV"IQNARIASDAC                                     A

                                                  O FAUVISMO

     Os dez anos que precedem a Primeira Guerra Mundial, mais 
precisamente os que vo de 1905 a
1914, contam-se entre os mais surpreendentes da arte europeia. Ao 
contrrio das correntes das dca-
das precedentes, que se limitaram a prosseguir a explorao das suas 
frmulas, assiste-se ento a
uma concorrncia desenfreada entre os jovens artistas em busca de 
novas vias de expresso, pelo
menos na arte pictrica e - em menor grau - na escultura. Paris  
ento verdadeiramente o cen-
tro onde se elaboram todas estas pesquisas. [... 1
     No entanto no devemos esquecer que os pintores e os escultores 
que nos parecem hoje,  dis-
tncia, dominar este momento excepcional so ento vistos pela 
maioria como desmiolados, des-
providos do mnimo gosto, e que  a arte *oficial+ - tanto em Paris 
com em toda a Europa - que
se mantm na vanguarda. [...   1 O Salo de Outono de 1905  um bom 
exemplo desta situao: apa-
recem a novos pintores a quem ser dada a denominao de *fauves+ 
(feras), exactamente porque
o brilho da sua paleta e a franqueza da sua escrita se assemelham a 
rugidos [...   1.
     A apresentao, no Salo de Outono de 1905, de telas onde a cor 
 empregue em tons puros, sem que
se cuide da exactido do tom local, no podia deixar de 
escandalizarface s correntes tradicionais.
     Os *Fauves+ noJormam, no entanto, um grupo homogneo: Henri 
Matisse (1869-1954) tor-
nara-se amigo de Georges Rouault (1871-1958) e de Albert Marquet 
(1875-1947) no estdio de
Gustave Moreau, na Escola de Belas-Artes. Conhecera Andr Derain 
(1880-1954) [...             1 e por
intermdio de Maurice de Vlaminck (1876-1958) encontraram-se na 
exposio Van Gogh de 1901
[... 1. A estes parisienses vieram-se juntar trs havrenses, Raoul 
Dufy (1877-1953), Georges Braque
(1882-1963) e Othon Friesz (1879-1949). Seguiam todos, haviaj vrios 
anos, linhas de trabalho
prximas [...  1. Trata-se, porm, de uma orientao anloga, e no 
de uma doutrina, para a qual
cada um deles contribui com as suas variantes pessoais. O chefe de 
fila -porque  o mais velho e
tambm porque tem uma autoridade natural - , dejcto, Henri Matisse. 
[...      1
     A aventura *fauve+ ter curta durao. Comeam, logo em 1907, a 
manifestar-se divergncias.

                              Albert CHtelet e Bernard Philippe 
Groslier, ob. cit.








     Henry Matisse (1869-1954), A Dana, 1910 (Museu do Ermitage, 
Leninegrado).
     Asformas so muito simplificadas.  o carcter expressivo das 
cores que se impe totalmente

                                                            113

    jALORESEASGRANDESFIL rURASO~NSA@,,IE




                         0








                     $

Maurice Vlaminck (1876-1954), As Oliveiras, 1905-1906 (Museu Thyssen, 
Madrid).
 a cor que constri a imagem, usada em pinceladas largas








    Li-n,w Lud@@ ig Kircimei (1880-1938),
Rua com Mulher de Vermelho, 1914-1925 (Museu Thyssen, Madrid).
Atravs das cores,fortes usadas arbitrariamente, o pintor cria uma 
*ponte+ entre
o que expressa e aquilo que o espectador compreende



1 1 4

          George Grosz (1893-1959),
      Cenas de Rua Kurfrstendam, 1915
          (Museu Thyssen, Madrid).
      A cena tem algo de caricaturesco,
  apesar do seu realismo. O distanciamento
  e a frieza com que o pintor se colocou em
    relao  cena representada impede o
 espectador de perceber as emoes do autor

                LUCIOOARIAS 1



                                   '@A








                                        Franz Marc

                                        (1880-1916),
k_                                       O Sonho, 1912.

     As cores usadas
arbitrariamente nas
figuras e na
paisagem, onde se
destacam os cavalos
azuis, transmitem
uma sensao de
calma, serenidade
e estatismo








                      4








Marc ChagalI, As Escadas da Torre E'ffel, 1939
                      1
(coleco particular). Os seres e as coisas,
      estranhamente associados, flutuam
 sobre uinfundo azul, num ambiente de sonho







115

                    A C F








          Kurt Schwitters
          (1887-1948), Merzbild
          IA. O Alienista, 1919
          (Museu Thyssen, Madrid).
          O autor renunciou
          a todos os elementos
          plsticos da pintura
          tradicional. Sobre a tela
          umas pinceladas grossas
          delineam a silhueta
          de um homem e sobre
          ele inmeros objectos
          colados








                     w,








          F.               Picabia, Tickets, 1922
          (coleco particular)
          O mundo das mquinas
          serve de inspirao
          ao autor. Neste quadro
          no h qualquer
          funcionalidade dos seus
          componentes, revelando
          a ironia e a esttica
          do gratuito subjacente
           obra




116

          REV(
                                            ERARIA E ARTST!r-A








                      g








                     -Ad








Antnio Galufi, Edifcio Mil, em Barcelona, 1907-1910






                      M








W. Gropius, Bauhaus, 1925, sede de Dessau. Exemplo prtico 
dofuncionalismo arquitectnico



                                                            117

          C DOS @1"',' Oas E AS@GRA:@@N0ES RL:!@@`!'.,RAS NO 
PENSAME,,"


A BAUHAUS: O FUNCIONALISMO ARQUITECTNICO E O *DESIGN+

               Aqueles que de momento estavam preparados para 
aproveitar ao mximo da nova tecnologia
          tinham  sua disposio numerosas esferas de actividade 
imediata que afectavam mais directamente
          - homem comum do que as especulaes dosfsicos tericos. 
Enquanto a averso  cidadefoi [...                     1

          a emoo que esteve por detrs de muitos dos movimentos de 
regresso  terra ou de ressurgimento
          de artes e ofcios esquecidos, o orgulho na cidade levou 
outros a planearem novos mtodos de cons-
          truo e a conceberem novasformas de vida urbana. [...     
          1 De meados do sculo XIX por diante a uti-
          lizao doferro nas construes, frequentemente em 
combinao com o vidro, tinha dado  Europa
          os seus monumentos caractersticos: o Palcio de Cristal, 
por exemplo, construido para a Grande
          Exposio de Londres de 1851, e a Torre Eiffel, quefoi o 
elemento central da Exposio de Paris de
          1889. [...          1
               Nosfins do sculo XIX a utilizao de novos materiais 
- ao e beto armado - comeou a com-
          binar-se com uma esttica nova. Na Alemanha construam-se 
j desde 1890 edifcios armados em ao;
          o beto armado principiou a ser utilizado largamente desde 
cerca de 1904; e a singeleza destes mate-
          riaisfez crer que se devia deix-losfalarem por si mesmos, 
sem necessidade de qualquer decorao
          ou ornato. [...           1 Foi, porm, na Alemanha que a 
explorao de novos materiais e o desenvolvimento
          daquilo que viria a ser em dcadas posteriores o *estilo 
internacional+ da arquitectura foi levado
          mais longe nos anos anteriores a 1914 (mais longe pelo 
menos na Europa, pois muitas dessas ino-
          vaes tcnicas e estilsticas tinham sido influencidas por 
realizaes americanas). [...                 1 Mas o
          mais essencialfoi que na Prssia, o maior e mais importante 
dos Estados alemes, umfuncionrio da
          cmara de comrcio, Hermann Muthesius, deu apoio activo a 
um grupo de projectistas quefundou em
          1907 a Deutsche Werkbund, consagrada ao princpio do que se 
chamava *neue Sachlichkelt+ (a nova
          funcionalidade ou novo realismo). [...             1 A 
finalidade deste movimento era a de provar que os novos
          processos tecnolgicos e os novos materiais podiam criar 
uma arte vlida para a nova era industrial.
          Esse idealfoi resumido nos seguintes termos em 1913 por um 
jovem arquitecto, Walter Gropius, que
          se iria tornar uma desfiguras principais na criao do 
estilo arquitectnico do sculo XX:

               Comparada com outros pases europeus, a Alemanha leva 
um nitido avano na esttica da cons-
          truo de fbricas. Mas na ptria da indstria, na Amrica, 
existem grandes edifcios fabris cuja
          majestade excede at as melhores obras alems desse gnero. 
Os silos para cereais do Canad e da
          Amrica do Sul, os depsitos de carvo das linhas frreas 
principais e as mais modernas salas de tra-
          balho dos monoplios industriais norte-americanos podem 
comparar-se, na sua esmagadora fora
          monumental, s construes do antigo Egipto.


               [...           1 Se bem que, por seu lado, o gosto 
oficial germnico, tal como era representado nas opinies
          artsticas de Guilherme II e da sua corte, fosse 
intoleravelmente opressivo, pretensioso e sentimental,
          foi ainda assim na Alemanha que aqueles a quem Wolaus 
Pevsner chamou os pioneiros do moderno
          desigri encontraram a maior oportunidade de levar  prtica 
as suas ideias; efoi tambm na Alemanha
          que muitos dos arquitectos e planeadores revolucionrios da 
gerao seguinte, como, por exemplo, o
          jovem suo Charles Edouard Jeanneret, conhecido como Le 
Corbusier, foram estudar. [...                  1
               [...           1 Assim como os acontecimentos da 
guerra e da revoluo puderam inspirar no interior do
          movimento expressionista excessos de optimismo e 
pessimismo, assim tambm a reaco aos acon-
          tecimentos da poca pde conduzir, por um lado, a um estilo 
empolado e fantstico - como nalguns
          poemas de Becher - e, por outro, a uma exigncia de 
objectividade e simplicidade, de um estilo puro,
          directo e conciso - como muitas das obras do poeta e 
dramaturgo alemo Bertolt Brecht. Foi na
          arquitectura e nas artes aplicadas que este movimento no 
sentido da *neue Sachlichkeit+ (nova objec-
          tividade) foi mais evidente, ainda que muitas vezes os 
pressupostos filosficos em que ele assentava
          fossem to misteriosos e to irracionais como aqueles que 
inspiraram os extremos da arte expressi-
          onista neo-romntica. As administraes municipais 
socialistas de vrias cidades alems, [...                     1
          estavam decididas a confiar a arquitectos avanados os 
projectos de construo de diversos edifcios
          e de habitaes para trabalhadores. O centro e o foco do 
movimento inovador encontrava-se na

118

                   A C A

                    XES REVOLUCIONARIA$ D                 Ri AO Li

Bauhaus, uma escola de arquitectura, pintura e desenho, criada 
inicialmente em Weimar e transfe-
rida depois em 1925, quando o clima poltico mudou e a Bauhausfoi 
acusada de ser *uma instituio
bolchevista spartaquista+, para Dessau, no pequeno Estado de Anhalt, 
na Alemanha Central.
     A influncia da Bauhaus estendeu-se muito para alm da Alemanha. 
Quando depois de 1933 muitos
dos seus membros mais notveis, incluindo Walther Gropius e Ludwig 
Mies van der Rohe, foram obr-
gados a exilar-se, contriburam para o desenvolvimento em todo o 
mundo de um autntico *estilo
internacional+ de arquitectura. A Bauhaus demonstrou ser muito mais 
do que uma escola de arquitectura.

E alm de ensinar pintura e criar novos padres de mobilirio e de 
tecidos, proclamou tambm uma men-
sagem  sociedade. Levou por diante as ideias dos reformadores de 
antes da guerra com a sua exi       .gn-
cia de um regresso ao trabalho individual do arteso. *Todos ns, 
arquitectos, escultores e pintores, care-
cemos de regressar aos ofcios. + Mas agora o conceito de percia 
artesanal implicava o emprego da
mquina, e o seu objectivo seria, no dizer de Gropius, a criao de 
uma *clara arquitectura orgnica,
cuja lgica profunda seja radiosa e nua, sem estorvos defachadas 
mentirosas e de outras imposturas;
queremos uma arquitectura adaptada ao nosso mundo de mquinas, rdios 
e carros velozes, uma
arquitectura cujafuno seja claramente reconhecvel na relao das 
suasformas+. Asfbricas iriam ser,
segundo Gropius sustentava, as catedrais dofuturo, e achar-se-iam 
ligadas a uma nova organizao
social, descentralizada e quase anarquista, a qual garantiria que a 
utilizao das mquinas no desu-
manizaria o homem, nemfalsearia o relacionamento de um homem com 
outro homem.
     A Bauhaus, at os Nazis a forarem a cerrar as suas portas, foi 
na Alemanha um foco de con-
trovrsia, e pareceu simbolizar, aos olhos dos crticos nacionalistas 
de direita da Repblica de
Weimar, tudo aquilo que eles detestavam no domnio social, poltico e 
artstico. A outros pareceu
encarnar novos ideais e novas esperanas. Serviu, sem dvida, 
parafocar a ateno dos artistas da
Europa inteira, e alguns dos mais notveis dentre eles, como 
Kandinsky e Paul Klee, fizeram
parte do seu corpo docente, e os compositores Bla Bartok e Igor 
StravinskyfOram l realizar con-
ferncias. Mantinha relaes com outros grupos e movimentos europeus, 
como o dos artistas abs~
tractos holandeses, entre os quais Piet Mondrian e Theo Van Doesberg, 
ligados ao peridico De Stij1
(O Estilo), que ambos tinhanifundado em 1917, e com os arquitectos e 
pintoresfranceses que tinham
 sua frente Le Corbusier e Amde Ozenfnt, e que nos primeiros anos 
da dcada de 20 procla-
mavamj no ttulo da sua revista L'Esprit Nouveau o novo esprito da 
arte do sculo XX.

                                   J.   JolI, ob. cit.








                              -1911, A111,ed-ari~der-Leine, RI-A.
Walter Gropius e Adolj'Mevei,  1aguswerk, 1910
               Foi a primeirafachada totalmente concebida em vidro.

                     ML








119

               A C

,








                                                       m   e.
                                                         21


                    -sa








 Gerrit Thomas Rieti,erld, Cadeira Vermelha
     e Azul, 1918 (coleco particular).
O design aplicado a objectos de uso quotidiano.








          Paul Klee, Senecio, 1922
         (Museu de Arte, Basileia).
  A obra deste pintor reflecte a flutuao
       entre ofigurativo e o abstracto
   na poca em quefoi professor na Bauhaus

                     120

1, rank Loyd Wrlght, Casa da Cascata, anos 30








Le Corbusier, Palcio dos SindiLatu-, W,),@covo, 1929 a 19jj

REVOLUCIONARIAS DA CRIAAO LITERARIA E ARTISTIC

O FUTURISMO

     Se as novas ideias arquitectnicas e o desenvolvimento de uma 
nova esttica defuncionalidade
estavam a principiar em 1914 a mudar a aparncia de algumas cidades e 
fbricas da Europa, a exci-
tao das novas invenes - automveis, aeroplanos, a rdio e o 
cinema - estavam tambm a criar
um novo romantismo acerca da mquina e do brilho, a fascinao e o 
ritmo da vida citadina. [...             1
No comeo do sculo XX a vida na cidade era um tema inevitvel para 
escritores e pintores, e a rela-
o do homem com a mquina estava tambm afazer parte dos temas 
artsticos. [...       1 Os artistas estavam
a usar estilos novos e avanados para exprimir o cenrio do sculo 
XX. O pintor expressionista alemo
Emst Ludwig Kirchner estava desde 1907 a representar numa srie de 
cenas de rua a tristeza e a excitao
da cidade, ao passo que em Frana, em 1911 e 1912, Robert Delaunay e 
Fernand Lger utilizavam as tc-
nicas cubistas que haviam aprendido com Picasso e Braque defragmentar 
o espao e representar os objec-
tos simultaneamente de vrios pontos de vista, para assim exprimirem 
o dinamismo da vida urbana.
     Foi, porm, na Itlia e na Rssia, dois pases onde a 
industrializao e o emprego das mquinas
se tinham desenvolvido muito mais tarde do que em Frana ou na 
Alemanha, que foi proclamada uma
nova e estridente doutrina esttica que exigia o reconhecimento da 
mquina como parte fundamental
da existncia humana. Em 1909, o escritor italiano F. T. Marinetti 
publicou o seu Manifesto
Futurista, no qual declarava que *o esplendor do mundo foi 
enriquecido com uma nova beleza, a
beleza da velocidades e afirmava que *um automvel de corrida [...   
       1  mais belo do que a Vitria
de Samotrcia+. [...   1 O enfado de Marinetti e os seus amigos 
sentiam a estagnao da sociedade ita-
liana e a sua obsesso do passado ajustavam-se ao clima da opinio na 
Itlia de antes de 1914 e [...        1
isso contribuiu para o ambiente em que iria surgir o Fascismo 
italiano. Na arte a sua influnciafoi
mais larga e menos perniciosa. Sugeriram novos meios de comunicar a 
excitao da velocidade e o
ritmo e dinamismo da vida urbana, e deram incio a um novo movimento 
para a incorporao de ele-
mentos mecnicos na arte. Marinetti visitou a Rssia e descobriu que 
tis suas ideias eram ali avi-
damente adaptadas por artistas avanados que se preocupavam com a 
inveno de novasformas de

expresso revolucionria e que quase se tornaram os artistas oficiais 
da Revoluo russa durante
um curto perodo a seguir a 1917, enquanto as autoridades 
bolcheviques no mudaram de ideias
acerca da natureza da arte. Tanto em Frana como na Alemanha, e at 
em Inglaterra (na obra de
Wyntlham Lewis e do grupo dos Vorticistas), os Futuristas 
contriburam com novas ideias sobre a
maneira de incorporar a mquina e a cidade do sculo XX no quadro da 
arte europeia. No obstante
a sua violncia, a sua exaltaro da guerra e o seu histrico 
nacionalismo italiano, os Futuristas tam-
bm chamaram a ateno para alguns dos aspectos positivos da idade da 
mquina, e apontaram uma
atitude alternativa  dos discpulos de William Morris e  de todos 
aqueles que s viam esperana
para o futuro na rejeio de todo o progresso tecnolgico e no 
regresso  era pr-industrial.

                                   J.   JolI, ob. cit.

A








                                   G.   Balla, Velocidade Abstracta + 
Rudo,
                                                      1913-1934
                                   (coleco Peggy Guggenhem, 
Veneza).
     O artista d a sensao de
dinamismo atravs de trajectrias
cromticas e luminosas

4&&

1 21

                    0
                    kX

-'.4'.NDES RUPTURAS NO PEN`,.@'








11J








     U.     Boccioni, Formas nicas
de Continuidade no Espao, 1913
(Museu de Arte Contempornea, S. Paulo,Brasil).
                    A obra traduz plasticamente uma
          tenso dinmica nova, atravs da decomposi .o
                    e interseco de volumes



O SURREALISMO
3,








                      








         A. Sant'Elia, Cidade Nova:
  Casa em Degraus sobre Dois Planos de Rua,
      1914 (coleco P. Acceti, Milo)





     Enquanto alguns artistas da dcada de 20 andavam em busca de um 
esprito novo atravs do
contacto com a arte popular e a cultura da classe trabalhadora, o 
desenvolvimento de novos
mel .os culturais de massas e de novos espectculos de massas serviu 
apenas para dar maior
realce  divergncia entre o gosto popular e a arte de vanguarda [... 
           1. Em contraste com
estas tentativas de colmatar ofosso entre o escol e as massas, entre 
o artista e o trabalhador, em
nome do Realismo social, um dos outros grandes movimentos artsticos 
revolucionrios da dca-
da de 20, o Surrealismo, apontava para uma maneira diferente de 
transformar a arte e a
vida. Mediante a sua explorao daquilo a que Apollinaire chamou *os 
universos interiores+,

os surrealistas esperavam escandalizar o mundo burgus efaz-lo 
perder a sua presuno, pen-
sando que serviam assim os mesmos objectivos que os revolucionrios 
polticos. Durante um
perodo curto os Surrealistas foram tidos pelos Comunistas como seus 
aliados. No dizer de
Lunacharsky, *Os surrealistas entenderam correctamente que a misso 
dos intelectuais revo-
lucionrios num regime capitalista  a de condenarem os valores 
burgueses. Este esforo
merece ser estimulado. + Mas o contraste entre o esprito iconoclasta 
bomio e extravagante dos
122
            IR@AS DA CRi @ O L
                .......... ..

Surrealistas e o esforo poltico disciplinado exigido pelos 
Comunistas era

aliana no durou muito tempo [...    1. Dos grandes escritores 
surrealistas apenas Louis Aragon
permaneceu constantemente fiel ao partido [...    1.

     O primeiro manifesto surrealista foi publicado em 1924 por Andr 
Breton, que se tornou o
terico doutrinrio do movimento; o manifesto deu uma definio de 
dicionrio do Surrealismo:
*UM puro automatismo psquico pelo qual se pretende exprimir, quer 
verbalmente, quer por
escrito, quer por outro meio seja ele qualfor, o 
verdadeirofuncionamento do pensamento. Um
ditado do pensamento, sem que a razo exera sobre ele qualquer 
controlo e para alm de qual-
quer preocupao esttica ou moral+. O objectivo dos Surrealistas era 
o de explorarem o
mundo novo revelado pela psicanlise e basearem a poesia e a pintura 
na associao livre de
imagens produzidas pelo subconsciente do artista. Os seus mtodos 
incluam a *escrita auto-
mtica+ e a justaposio de frases colhidas ao acaso nos jornais, 
tentando-se captar assim o
esprito e o ambiente dos sonhos, nos quais tudo pode acontecer e 
onde no h justaposies
que sejam absurdas demais para poderem ser aceites. Nas obras dos 
melhores dentre os poetas
e pintores surrealistas, Max Ernst, Joan Mir, Paul luard ou Louis 
Aragon por exemplo, o efei-
to conseguido podia ser obsessivo e chocante, e sugerir uma nova 
maneira de encarar o
mundo. Embora os surrealistas reconhecessem o muito que deviam a 
Freud, a admirao que
sentiam por ele no era retribuda integralmente: Freud escreveu j 
no fim da sua vida:
*Tenho-me sentido inclinado a considerar os Surrealistas, que 
aparentemente me arvoraram em
seu santo patrono, como completamente loucos (digamos antes a 95% 
como com o lcool)+, mas

depois prosseguiu dizendo que uma visita do pintor Salvador Dali *com 
os seus olhos ingenua-
mentefanticos e a sua inegvel mestria tcnica+ tinha vindo alterar 
os seus clculos. Talvez
que, embora eles o no declarem, as suas imagens devam realmente mais 
 viso mitolgica de
Jung, mais romntica, do que  clareza muito terra-a-terra de Freud. 
No entanto, os Surrealistas
- e especialmente os pintores - ajudaram a que as descobertas da 
psicanlise passassem a
fazer parte dafigurao aceite do sculo XX, e contriburam assim 
para popularizar as ideias
de Freud e Jung, que to profundamente influram na cultura do nosso 
tempo.

                                   J.   JolI, ob. cit.

grande demais. A








,)til Vu~ LJUII, rui m,,lelicia da Memria, 1929- i 932. Os 
relgiosfIcidos do  obra um carcter de sonho
alucinado.  Os elementos naturalistas da paisagem aparecem 
transfigurados numa perspectiva visionria

--.ff








123

                                                       .... .... 
.............. 1--- - --------- --- --------
01                  A CRISE DOS VALORES E AS GRANDES RUPTURAS
A PINTURA SURREALISTA: UM MODELO PURAMENTE INTERIOR

               Uma concepo muito estreita da imitao, dada comofim 
da arte, est na origem do grave equ-
          voco que vemos perpetuar-se at aos nossos dias. Partindo 
do princpio de que o homem s  capaz
          de reproduzir com maior ou menorfelicidade a imagem que se 
lhe apresenta, os pintores mostraram-se
          demasiado conciliadores na escolha dos seus modelos. O erro 
cometido foi o de pensar que o
          modelo apenas poderia ser tomado a.  certo que a 
sensibilidade humana pode conferir ao objec-

          to da aparncia mais vulgar uma distino absolutamente 
imprevista; [...                1 A obra plstica, para cor-
          responder  necessidade de reviso absoluta dos valores 
reais sobre a qual todos os espritos
          esto hoje de acordo, dever referir-se a um modelo 
puramente interior, ou deixar de ser.
               Resta saber o que pode entender-se por modelo 
interior, e  aqui que convm encarar o grande
          problema levantado nestes ltimos anos pela atitude de 
alguns homens que encontraram verda-
          deiramente a razo de pintar, problema que uma miservel 
crtica de arte se esfora desesperada-
          mente por sqfismar.

Andr Breton, Le Surralisme et la Peinture, in Panorama - Ideias 
Contemporneas.






O PAPEL DO PINTOR  O DE PROJECTAR O QUE NELE SE VE

                como espectador que o autor assiste, indiferente ou 
apaixonado, ao nascimento da sua obra
          e observa as fases do seu desenvolvimento. Do mesmo modo 
que o papel do poeta, [...                   1 consiste em
          escrever segundo o que se pensa (se articula) nele, o papel 
do pintor  o de limitar e de projectar
          o que nele se v. Ao dedicar-me cada vez mais a essa 
actividade (passividade), a que mais tarde
          chamaram *parania crtica+, e ao adaptar aos meios 
tcnicos da pintura (por exemplo: raspagem
          de cores sobre um fundo preparado em cores e
          posto sobre uma superfcie desigual) o processo
          de frottage, que antes parecia aplicvel somente
          ao desenho, e tratando de restringir sempre mais
          a minha prpria participao activa ao devir do
          quadro, a fim de alargar por esse meio a parte
          activa das faculdades alucinatrias de esprito,
          consegui assistir como espectador ao nascimento
          de todas as minhas obras, a partir de 10 de
          Agosto de 1925, dia memorvel da descoberta
          do frottage. Homem de *constituio ordinrias
          (emprego aqui os termos de Rimbaud), fiz tudo
          para tornar a minha alma monstruosa. Nadador
          cego, fiz-me vidente. Vi. E surpreendi-me apai-
          xonado do que via, querendo identificar-me com
          o que via.
                                        Num pas cor de *peito de 
rola+, aclamei o
                                   voo de 100 000 pombas. Vi-as 
invadir florestas
                                   negras de desejos, muros e mares 
semfim. Vi uma
                                   folha de hera flutuar sobre o 
oceano e senti um tre-

                                   mor de terra muito suave...

                                   Max Ernst, *Au-de 1 de Ia 
peinture+,

                                             Cahiers dArt, in ibidem.

                              Brancum,' 1,1                     X
               (Museu Nacional de Ai-te Moderlia, Paris)


                     124

                    IAA

O MODERNISMO PORTUGUES

     Se nos cingirmos  valorizao crnica (acentuao na ruptura e 
nos indcios do novo), o que 
um prisma no caso aceitvel, desde que no o absolutizemos e o 
consideremos no em mono, mas
pluricategorabilidade, e se atendermos  conscincia doutrinria, sem 
a qual no se pode falar de
um movimento esttico ou de ideias, o primeiro modernismo portugus 
resume-se afinal ao grupo do
Orpheu, isto , ao grupo que em Portugal antes de todos aceitou e 
assumiu certas caractersticas de
afrontamento da herana cultural do realismo, do naturalismo, de 
neo-romantismo ou de lusitanismo
saudosista. Sejamos mesmo mais precisos: resume-se ao subgrupo que, 
dentro do movimento rfi-
co, deliberadamente procurou expressar o modo do tempo, o moderno, a 
vanguarda.
     Que poetas e artistas o constituem? Se folhearmos os dois 
nmeros publicados do Orpheu,
bem como o terceiro nmero, [...     ]; se percorrermos as pginas 
das revistas posteriores suas her-
deiras, como o Exlio (1916), o Centauro (1916), o Portugal Futurista 
(1917), a Contempornea (ini-
ciada em 1922) ou a Revista Portuguesa (1923); ou se estudarmos a 
obra de outros intelectuais das
mesmas esferas de influncia - deparam-se-nos efectivamente dois 
grupos de escritores e artistas.
De um lado os que, muito ligados ainda ao neo-romantismo, ao 
saudosismo ou ao simbolismo, sur-
gem no movimento por companheirismo geracional e pela solidariedade 
dos cafs lisboetas. Do
outro, os verdadeiramente inovadores, no contedo e naforma.
     J tem sido notado por crticos e historiadores da literatura o 
hibridismo do movimento rfico:
o simbolismo e o decadentismo constituem importantes linhas defora e 
delas no so completa-
mente independentes os mais modernistas, como S-Carneiro ou Pessoa; 
ao seu lado, porem,
irrompem poesias, desenhos, colagens e um grafismo que podem ser 
considerados francamente como

inovadores, dentro do eixo crnico 1910-1920.
     Ora, quela sensibilidade esttica, muito mais do que  
modernista, pertencem poetas como Lus
de Montalvor, Ronald de Carvalho, Alfredo Pedro Guisado, Armando 
Crtes-Rodrigues, Augusto
Ferreira Gomes, D. Thomaz de Almeida, Eduardo Guimares, Raul Leal, 
Albino de Menezes,
Castelo de Moraes, Carlos Parreira, Augusto de Santa-Rita, Martinho 
Nobre de Mello, Camilo
Pessanha, Alberto Osrio de Castro, o prprio Angelo de Lima, etc., 
etc.
     Daqui se depreende ter sido nofim de contas restrito o subgrupo 
efectivamente modernis-
ta ou vanguardista que animou o movimento do Orpheu, entendendo-o no 
amplo sentido e
incluindo pois a j citada sucesso dos seus rgos, culminando com a 
Contempornea, diri-
gida por Jos Pacheco ou Jos Pacheko (como ento gostava de 
assinar), que fora o orienta-
dor grfico da revista-matriz de 1915; resume-se ele, quanto a ns, a 
sete personalidades: as
de Mrio de S-Carneiro, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, 
Santa-Rita Pintor, Amadeo de
Souza-Cardoso, Jos Pacheco e Antnio Ferro. [...         1
     Escrevia Jos Augusto Frana, ao terminar a sua alis excelente 
sinopse intitulada O
Modernismo na Arte Portuguesa, que, conceito polmico em 1915, 
integrado em 1930, ultrapassa-
do dez anos depois, este nosso modernismo nunca foi claramente 
definido. Mas teve ele a nosso ver
um sentido secreto, um sentido que poder ter escapado no princpio 
aos seus protagonistas, mas de
que eles prprios depressa se deram conta muito cedo e que assumiriam 
em plena conscincia,
nomeadamente Pessoa, Almada e Ferro, j que S-Carneiro, Santa-Rita e 
Souza-Cardosoficaram
pelo caminho entre 1916 e 1918. Nofoi um modernismo qualquer. Foi um 
modernismo portugus
[...  1. Foi, apontemo-lo desdej, uma Vanguardafundamentalmente 
empenhada em reencontrar e em
actualizar a Tradio. Neste sentido, se considerarmos a histria 
como um itinerrio aberto, sem
limites, foi um movimento triunfante, um movimento cujos objectivos, 
mesmo se esbatidos com o
segundo modernismo ou combatidos depois dos anos 40-50, permanecem 
vivos e irrefutados.
Porque escreveu um observador defora, o pensadorfrancs Andr Coyn, 
que a vanguarda portu-
guesa foi a nica, de todas as vanguardas europias, que 
ulteriormente reencontrou a tradio, no sen-
tido ultra-religioso do termo?  um tpico sobre que devemos 
deter-nos, fugindo facilidade do con-
ceito cronolgico das vanguardas.

                                             Antnio Quadros, ob. 
cit.

                      A








125

ODE TRIUNFAL



A dolorosa luz das grandes lmpadas elctricas dafbrica
Tenhofebre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

 rodas,  engrenagens r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos emffiria!
Emfriafora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecadosfora,
Por todas as papilasfora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lbios secos,  grandes rudos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabea de vos querer cantar com um excesso
De expresso de todas as minhas sensaes,
Com um excesso contemporneo de vs, o mquinas!

Einfebre e olhando os motores como a uma Natureza tropical
Grandes trpicos humanos deferro efogo efora -
Canto, e canto o presente, e tambm o passado e o futuro.
Porque o presente  todo o passado e todo ofuturo
E h Plato e Virglio dentro das mquinas e das luzes elctricas
S porque houve outrora eforam humanos Virglio e Plato,
E pedaos do Alexandre Magno do sculo talvez cinquenta,
Atomos que ho-de ir terfebre para o crebro de squilo do sculo 
cem,
Andam por estas correias de transmisso e por estes mbolos e por 
estes volantes,
rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carcias ao corpo numa s carcia  alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma mquina!
Poder ir na vida triunfante como um automvel ltimo-modelo!

1...1

Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortferos!
Couraas, canhes, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como umafera.
Amo-vos carnivoramente.



Mas, ah outra vez a raiva mecnica constante!
Outra vez a obsesso movimentada aos nibus.
E outra vez affiria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os 
comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas esto levantandoferro ou afastando-se das docas.
ferro,  ao,  alumnio,  chapas deferro ondulado!
 cais,  portos,  comboios,  guindastes,  rebocadores!


Eia! e os rails e as casas de mquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, mquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-l!

Hup-l, hup-l, hup-l-h, hup-l!
H-l! He-h! H-o-o-o-o-o!
Z-Z-Z----Z-Z-z-Z-Z-z-z-Z!

Ah no ser eu toda a gente e toda a parte!


126

 Alvaro de Campos, Poesias, Lisboa,
               Edies Atica, 1980.

               AS INOV4          REVOLU(           @.A @@_ DA 
CRIAC`.'


                                              MANIFESTO ANTI-DANTAS


               Basta pum basta

     Uma gerao, que consente deixar-se representar por um Dantas  
uma gerao que nunca ofoi.  um
coio d'indigentes, d'ndignos e de cegos!  uma resma de charlates e 
de vendidos, e s pode parir abaixo
de zero!
Abaixo a gerao!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Uma gerao com um Dantas a cavalo  um burro impotente!
Uma gerao com um Dantas  proa  uma canoa em seco!
 Dantas  um cigano!
 Dantas  meio cigano!
 Dantas saber gramtica, saber sintaxe, saber medicina, 
saberfazer ceias pra cardeais, saber
tudo menos escrever que  a nica coisa que elefaz!
        p
O Dantas esca tanto de poesia que atfaz sonetos com ligas de 
duquesas!

O Dantas  um habilidoso!

O Dantas veste-se mal!

O Dantas usa ceroulas de malha!

O Dantas especula e inocula os concubinos!

O Dantas  Jlio!

Morra o Dantas, morra! Pim!
1...1

    Dantas nu  horroroso!
O Dantas cheira mal da boca!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas  o escrnio da conscincia!
Se o Dantas  portugus eu quero ser espanhol!
O Dantas  a vergonha da intelectualidade portuguesa! O Dantas  a 
meta da decadncia mental!
E ainda h quem lhe estenda a mo!
E quem lhe lave a roupa!
E quem tenha d do Dantas!


Morra o Dantas, morra! Pim!
     Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificao 
do pas mais atrasado da Europa e de
todo o Mundo! O pas mais selvagem de todas as Africas! O exlio dos 
degredados e dos indiferentes! A
Africa reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos 
sobejos! Portugal h-de abrir os olhos um
dia - se  que a sua cegueira no  incurvel e ento gritar comigo, 
a meu lado, a necessidade que
Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!
     Morra o Dantas! Morra! Pim!

     JOS DE ALMADA NEGREIROS
     POETA D'ORPHEU
     FUTURISTA
     E
     TUDO
     1915

                                        Almada Negreiros, Obras 
Completas.

                                                            127

                                   N .EMS ENT.0 E. NA ARTE

                         ES E                    PTURAS OP ...A

*ULTIMATUM+ FUTURISTA AS GERAES PORTUGUEZAS DO SECULO XX

               Eu no perteno a nenhuma das geraes 
revolucionarias. Eu perteno a uma gerao cons-
          tructiva.

               Eu sou um poeta portuguez que ama a sua patria. Eu 
tenho a idolatria da minha profisso
          e peso-a. Eu resolvo com a minha existncia o significado 
actual da palavra poeta com toda a
          intensidade do privilegio.
               Eu tenho 22 anosfortes de saude e de inteligncia.
               Eu sou o resultado consciente da minha propria 
experincia: a experincia do que nasceu
          completo e aproveitou todas as vantagens dos atavismos. A 
experincia e a precocidade do meu
          organismo transbordante. A experincia d'aquele que tem 
vivido toda a intensidade de todos os
          instantes da sua propria vida. A experincia d'aquele que 
assistindo ao desenrolar sensacional
          da propria personalidade deduz a apoteose do homem 
completo.
               Eu sou aquele que se espanta da propria personalidade, 
e creio-me portanto, como portu-
          guez, com o direito de exigir uma patria que me merea. 
Isto quer dizer: eu sou portuguez e
          quero portanto que Portugal seja a minha patria.
               Eu no tenho culpa nenhuma de ser portuguez, mas sinto 
a fora para no ter, como vs
          outros, a cobardia de deixar apodrecer a patria.
               Ns vivmos n'uma patria onde a tentativa democrtica 
se compromete quotidianamente. A
          misso da republica portugueza j estava cumprida desde 
antes do 5 de Outubro: mostrar a
          decadncia da raa. Foi sem duvida a Republica portugueza 
que provou conscientemente a
          todos os cerebros a runa da nossa raa, mas o dever 
revolucionaria da Republica portugueza
          teve o seu limite na impotncia da criao. Hoje  a 
criao portugueza do seculo XX quem dis-
          pe de toda a fora criadora e constructiva para o 
nascimento de uma nova patria inteiramente
          portugueza e inteiramente actual prescindindo em absoluto 
de todas as epochas precedentes.
               Vs, oh portuguezes da minha gerao, nascidos como eu 
no ventre da sensibilidade euro-
          peia do seculo XX. Crae a patria portugueza do seculo XX.
               Resolvei em patria portugueza o genial optimismo das 
vossas juventudes.
               Dispensae os velhos que vos aconselham para vosso bem 
e atirae~vos independentes pr
          sublime brutalidade da vida. Criae a vossa experincia e 
sereis os maiores.
               Ide buscar na guerra da Europa toda a fora da nossa 
patria. No front est concentrada toda
          a Europa, portanto a Civilizao actual.
               A guerra serve para mostrar osfortes mas salva 
osfracos.
               A guerra no  apenas a data historica de uma 
nacionalidade; a guerra resolve plenamen-
          te toda a expresso da vida. A guerra  a grande 
experincia.

               A guerra intensifica os instintos e as vontades e faz 
gritar o Gnio plo contraste dos incom-
          pletos.  na guerra que se accordam as qualidades e que os 
previlegiados se ultrapassam.  na
          violncia das batalhas da vida e das batalhas das naes 
que se perde o mdo do perigo e o
          mdo da morte em quefmos erradamente iniciados. [...      
           1
                a guerra que accorda todo o espirito de criao e de 
construo assassinando todo o sen-
          timentalismo saudosista e regressivo.
                a guerra que apaga todos os ideaes romnticos e 
outrasffirmulas litterarias ensinando que
          a unica alegria  a vida.
                a guerra que restitue s raas toda a virilidade 
apagada pelas masturbaes raffines das
          velhas civilizaes.
                a guerra que liquida a diplomacia e arruna todas as 
propores do valor acadmico,
          todas as convenes de arte e de sociedade explicando toda 
a miseria que havia por debaixo.
           a guerra que desclassifica os direitos e os codigos 
ensinando que a unica justia  a Fra,
           a Inteligencia, e a Sorte dos arrojados.


128

                    CRU@

      a guerra que desloca o crebro do limite domestico pr 
concepo do Mundo, portanto da
Humanidade.

     A guerra cobre de ridiculo a palavra sacrifcio trans rimando o 
dever em instinto.  a guer-

                    . /o

r que proclama a patria como a maior ambio do homem.  a guerra 
que faz ouvir ao
mundo inteiro plo ao dos canhes o nosso orgulho de Europeus.
     Portugal  um paiz defracos, Portugal  um paiz decadente:
     1 -porque a indiferena absorveu o patriotismo.

     2 - porque aos no indiferentes interessa mais a politica dos 
partidos do que a propria
expresso da patria, e sucede sempre que a expresso da patria  
explorada em favr da opinio
politica. No  o sentimentalismo d'esta explorao o que eu quero 
evidenciar Eu quero
muito simplesmente dizer que os intersses dos partidos prejudicam 
sempre o intersse comnum
da patria. Ainda por outras palavras: a condio menos necessria 
para a fra de uma
nao  o ideal politico.


     3 - porque os poetas portuguezes s cantam a tradio historica 
e no a sabem distinguir
da tradio-patria. Isto : os poetas portugueses tm a inspirao na 
historia e so portanto
absolutamente insensveis s expresses de heroismo moderno. Donde 
resulta toda a impotncia
pr criao do novo sentido da patria.

     4 - porque o sentimento-svnthese do povo portuguez  a saudade e 
a saudade  uma nostl-
gia mrbida dos temperamentos exgotados e doentes. O fado, 
manifestao popular de arte
nacional, traduz apenas esse sentimentos  'Vnthese. A saudade 
prejudica a raa tanto no seu sen-
tido atvico porque  decadncia, como pelo seu sentido adquirido 
porque definha e estila.

     5 - porque Portugal no tem odios, e uma raa sem odios  uma 
raa desvirilisada porque
sendo o odio o mais humano dos sentimentos  ao mesmo tempo uma 
consequencia do dominio
da vontade, portanto uma virtude consciente. O odio  um resultado 
daf e semf no hafra.
A f, no seu grande significado,  o limite consciente e premeditado 
d'aquele que dispe
d'uma razo. Fra d'esse limite existe o inimigo, isto , aquele que 
dispe de outra razo.

     6 - porque a constituio da familia portugueza no obedecendo, 
unanime ou separada-
mente: a nenhum principio de f  o nosso descrdito de nao da 
Europa. Uesde a educao
fiamiliar at depois da educao oficial inclusive o casamento a 
desordem faz-se progressiva-
mente at  putrefaco nacional. E tudo tem origem na inconscincia 
com que cada um exis-
te: em Portugal toda a gente  pai pla mesma razo porque falta  
repartio. Do estado de sol-
teiro para o estado de casado d-se exclusivamente, na nossa terra, 
uma mudana de habitos.
     Em Portugal educar tem um sentido d@frente: em Portugal educar 
significa burocratisar
Ex.: Coimbra. Mas na maioria o portuguez  analfabeto e em geral  
ignorante; na unanimidade
o portuguez  impostor, prova ividente de deficientissmo.

     7 - porque a desnacionalizao entre ns  uma verdade, e pior 
ainda, sem energias que a
inutilizem nem tentativas que a detenham:

     a)     O portuguez com todas as suas qualidades de po@yglota 
desnacionaliza-se immediata-
mente fra da patria, e at na propria patria, porque (com o nosso 
desastre do analfabetismo)
a nossa litteratura resume-se em meia-duzia de bem intencionados 
acadmicos cuja obra,
no satisfazendo ambies mais arrojadas, obriga a recorrer s 
litteraturas extrangeiras.

Resultado: ainda nenhum portuguez rialzou o verdadeiro valor da 
lingua portuguesa.

     b)     o portuguez educado sem o sentimento da patria e 
acostumado  desordem dos governos
criou para si a compensao inutil de dizer mal dos governos e nem 
poupou a patria.

129

               A<.,RISE',-'>OSVAI.,.ORESEASGRANDESRU

          Estabeleceu-se at, elegantemente, como prova de 
inteligncia ou de ter viajado dizer mal da
          patria. Isto deixa de ser decadncia para ser a propria 
impotenciafisica e sexual.

               c)               o portuguez assimila de preferncia 
todas as variedades da importao em descrdito das
          proprias maravilhas regionalistas; o commercio e a 
industria tm quasi sempre de se masca-
          rarem de extrangeiros para serem ificazmente rendosos.  
porque todas essas variedades da
          importao cumprem mais exactamente as exigncias dos 
mercados do que os nossos com-
          mercios e industrias regionalistas. Estas no satisfazem 
nem as necessidades nem as trans-
          formaes sucessivas das sociedades, enquanto que a 
importao aparece sempre como uma
          surprza e, sobretudo, obedecendo a todas as condies do 
que  util, actual e necessrio. De
          modo que nem chega a haver a luta - a importao entra logo 
com o rtulo de victoria.

               8 - porque Portugal quando no  um paiz de vadios  
um paiz de amadores. A f da pro-
          fisso, isto , o segrdo do triumfo dos povos,  
absolutamente alheio ao organismo portuguez
          do que resulta esta continua atmosfera de tdio que 
transborda de qualquer resignao.
          Tambem o portuguez no sente a necessidade de arte como no 
sente a necessidade de lavar os
          ps. E a Litteratura com todo o seu grammatical pigas e 
salista, diverte mais as visitas do que
          a necessidade de no ser ignorantes. Daqui a miseria moral 
que transparece em todas as mani-
          festaes da vida nacional e em todos os aspectos da vida 
particular.

               9 - porque Portugal a dormir desde Cames ainda no 
sabe o novo significado das pala-
          vras. Ex.: patria hoje em dia quer dizer o equilbrio dos 
intersses commerciaes, industriaes e
          artsticos. Em Portugal este equilbrio no existe porque o 
conmercio, a industria e a arte no
          s no se relacionam como at se isolam por completo 
receosos da desordem dos governos. A

          palavra aventura perdeu todo o seu sentido romntico e 
ganhou em valor efectivo. Aventura hoje
          em dia, quer dizer: O merito de tentativa industrial, 
commercial ou artstica.

               ]O -porque o aspecto geral dos typos exala um estertor 
a pdre. Portugal, uma resultan-
          te de todas raas do mundo, nunca conseguiu a vantagem de 
um cruzamento util porque as raas
          belas isolaram-se por completo. Ex.: as varinas.
               O portuguez, como todos os decadentes, s conhece os 
sentimentos passivos: a resignao, o
          fatalismo, a indolncia, o mdo do perigo, o servilismo, a 
timidez, e at a inverso. Quando  viril
          manifesta-se instintivamente animal a par do seu 
analfabetismo primitivamente anti-hygienico.
                preciso criar a adorao dos musculos contra o 
desfilarfaminto e debilitado das instru-
          es militares preparatorias numeros 1 a 50.
           preciso criar o espirito da aventura contra o 
sentimentalismo litterario dos passadistas.
          E'preciso criar as aptides pr o herosmo moderno: o 
herosmo quotidiano.
           preciso destruir este nosso atavismo alcoolico e 
sebastianista de beira-mar
           preciso destruir sistematicamente todo o espirito 
pessimista proveniente das inevitveis
          desiluses das velhas civilizaes do sentimentalismo. [... 
             1
               Finalmente:  preciso criar a patria portugueza do 
sculo XX.
               Digo segunda vez:  preciso criar a patria portugueza 
do seculo XX.
               Digo terceira vez:  preciso criar a patria portugueza 
do seculo XX.

               Aproveitae sobre tudo este momento unico em que a 
guerra da Europa vos convida a
          entrardes pr Civilizao.

               O povo completo ser aquele que tiver reunido no seu 
maximo todas as qualidades e todos
          os defeitos.

               Coragem, portuguezes, s vosfaltam as qualidades.

               Lxa. Dez. 1917

                                        Jos de ALMADA-NEGREIROS

130

ASI          ',)ES REVOLUO1ON~S DA CR                    E "IAP@
                                              IAAOtIT @R








     Santa-Rita Pintor, Cabea (1912.`),
     (Centro de Arte Moderna, L' 'sboa).
  Interpenetrao cubista-futurista de uma
        cabea humana e de um violino








                     PF








10








     A. de Souza Cardoso, PHitura, 1917
 (C. A. M., Lisboa).- Pintura de *ambincia+
    dadaista que inclui colagens, pedaos
        de espelho, ganchos de cabelo

         Ainadeo de Soul-a cardoso,
  P'ntura Abstracta, 1913 (C.A.M., Lisboa)








     AfinadaNegreiros, Domingo Lisboeta
       (tapearia), (C.  A. M., Lisboa)





                                                            1 31

Mario                                              RANDS F
                     Oc-
                                                                 '








               Eduardo Viana, O Rapaz das Louas, 1919
                    AL@
                         Carlos Botelho, Alfama, 1933 (C. A. M., 
Lisboci)








          Jlio Reis
          Pereira, Espera,
          1930
          (C.  A. M., Lisboa)

                    emw-,



132

                  AO LITERA








               4








                                                   Antnio Dacosta,

                                                  Serenata Aoriana,
                                                              1940.








                                                                 r






>






                                        Maria Helena
                                   Vieira da Silva,
                                   Quarto dos
                                   Azulejos,
                                   1935.





                                                            133

MKT7@                               E DOS VALORES E AS GRANOFES'. E







               Diogo de Macedo, O Adeus, 1920 (C. A. M., Lisboa).









                     3_


               Francisco Franco, Torso, 1922 (C. A. M., Lisboa)



               . .... ....... ......... .... .. .. . ... . . . . . . 
.. ..... .......... .... .............

134

                                                                 Ao
                    -E liS_V4

MODERNISMO PORTUGUES: SNTESE DE TENDENCIAS

               O modernismo portugus tem, mais que tudo, uma imagem 
de inocncia, e logo na prpria
          dopo do nome que no corre, com o sentido que em Portugal 
teve nas histrias da arte de
          outros pases, onde  praticamente ignorado (como em 
Frana), ou se alarga a perodos mais vas-
          tos que podem incluir ofim do sculo, ou mesmo o 
impressionismo. E ainda, entre ns, o *moder-
          no+ hesitou sempre entre uma maneira de ser (modo) e uma 
maneira de fazer (moda), relativas
          ambas ao que  actual, de agora, ou de h pouco. [...      
      1
               Tudo comeou por uma escapada de jovens romanticamente 
idos para Paris, com um sonho de
          liberdade mais na cabea que na alma ou nas tripas, que 
decidiram trazera sua magra experincia
          a Lisboa, em 1911. Trs anos depois, outros regressariam de 
Paris em diferentes condies de
          urgncia que a guerra impunha, e trariam na bagagem uma 
experincia diferente, de outro
          modo ingnua, marcada pelas aventuras do tempo. Para uns, 
era ainda o impressionismo que con-
          tava, na medida em que, trinta anos atrs, quando.fora 
ocasio, ele no tinha contado para os seus
          antepassados ainda e sempre naturalistas de Barbizon; para 
outros, foi o cubismo e o.fturismo,
          mais este do que aquele, por razes de imaginao mas 
tambm, com certeza, de facilidade
          polmica e de insuficiente conscincia plstica. [...      
    1
               Ofuturismo pde passar  linguagem mais corrente, como 
troa ou acusao, mas a ruptura
          quefoi levaria mais de vinte anos a ser entendida, por cima 
de outros tantos do pacato modernismo
          que uma *segunda gerao+ assumiria - na medida do seu 
possvel e do seu necessrio.
               Um e outro encheram a histria dos anos 20 e 30, 
dcadas de continuidade e de digesto, que

          mais ou menos enterraram, resistindo-lhe, o que mais 
perigoso havia na sua herana, ao mesmo
          tempo que davam relevo e sentido ao que era assimilvel em 
praxis, atravs da maturidade que aos
          mais velhos ia acontecendo. Por isso           '           
enquanto Almada comeava (e esperava), Viana e Dordio,
          Soares e Barradas, plstica e mundanamente, realizavam 
ento as suas melhores obras - tal como
          os escultores que tinham a sua idade, Franco, Diogo e Canto 
da Maia, sentados entre Rodin e
          Bourdelle. Para os arquitectos, as possibilidades eram 
menores, mas tambm, nos anos 20,
          Cristino, Pardal e Ramos disseram o que tinham a dizer de 
novo, entre Le Corbusier e Gropius, e
          Cassiano logo a seguir; para os primeiros, de resto, tudo 
estaria terminado dez anos mais tarde.
          como, alis, para os escultores, presos na frmula 
nunogonalvesca que Franco props logo em
          1928 e iria limitar tudo o mais, na sua arte. 
Brilhantemente embora, por vezes.
               A pintura, mais livre de realizar, poria com Botelho 
os seus limites num naturalismo moder-
          nizado, mais individual em Bernardo, mais exemplarmente 
reduzido no jovem Jlio Santos. Mas,
          para alm destes limites, estariam Eloy, Jlio e Pedro. So 
j os anos 30 que, seno para estes,
          para todos os outros se aquietaram oficialmente num 
*equilbrio+ por isso mesmo necessrio. Ou
          numa decorao estilizada e,folclrica, mundana mais uma 
vez.
               Talfoi o custo que o modernismo teve de pagar (e quase 
sempre gostosamente pagou ... )  pro-
          teco do Estado, pela interveno alis corajosa de 
Antnio Ferro que se bateu bem contra o pro-
          vincianismo oitocentesco que sobrevivia nos gostos dos 
outros responsveis governamentais -
          tanto quanto do pas real.
               O outro intercessor, Duarte Pacheco, esse pensou que 
as obras pblicas, para serem durveis,
          implicam servio e servido a um passado ilusoriamente mais 
antigo, tambm de modo provinciano
          imaginado.
               Provincianismoft)i, alis, uma irnica e negra 
acusao que Pessoa lanou em 1932 sobre toda
          a actividade que durante os anos 20 se realizara, seno j 
antes - e ele no podia deixar de recor-
          dar ento o seu man@fstoJu'turista de 1917. Ainda essa 
actividade, na sua mais pequena aventura,
          *sabia a pstuma+, como saudosamente se diria, j em 1942.
               Era-o ento, sem dvida, o modernismo de 10, 20 e 30, 
falecido ante asforas da situao defi-
          nida na magna Exposio de 1940. A menos que...

Jos Augusto Frana, O Modernismo na Arte Portuguesa, Lisboa, 
Instituto de Cultura Portuguesa, 199 1.
                                                 ..........

136

             TRABALHOS PRATICO s



          1. Observe atentamente os documentos    1 a 7.


                                                            @SM








                     IDA








VA






          Andr Deivin,    A Ponte de Westrnirster,   1906 Pablo 
Picasso, Homem com Clarinete, 1911-12








Wk1@








     Piet Mondi-ian, Composio 1, 1931

                    . . ......... ...... .... .

                 fUTURISMO-








Glaconio Balla, Manifestao Patritica, 1915








     Mir, Taberna do Sapato Velho, 1937

     2. Reveja a metodologia aconselhada para a realizao deste tipo 
de trabalhos em
       Histria 1 1, 1.9 vol., pp. 138-139.

     3.   Apesar de especialmente virada para a anlise de obras 
figurativas, tenha em conta essa
          Metodologia no trabalho que vai realizar. Como algumas das 
obras que analisou no so
          figurativas propomos-lhe outras pistas complementares de 
anlise.

     4.   Descreva, em cada obra, as formas que conseguir reconhecer.

     5.   Aponte qual  o elemento protagonista (linha, cor, luz, 
espao, etc.) de entre todos os
          elementos de cada quadro.

     6.   Relacione cada um dos quadros com os que, de entre todos os 
outros, est mais prximo
          dele quanto  composio, uso da cor, decomposio em 
planos geomtricos ou no,
          e c.

     7.   Relacione cada um dos quadros representados com os que, de 
entre todos, esto
          mais afastados dele quanto aos elementos mencionados na 
questo anterior.

     8.   Para cada obra, defina o tema tratado e o modo como o 
pintor o fez: de modo realista,
          fantstico, crtico, ridculo, irnico, etc.

     9.   Indique de que modo cada uma das obras se insere ou rompe 
com as correntes pict-
          ricas da sua poca.

     10.  Explique que sensao transmite cada uma destas obras: 
repouso, tenso, tranquili-
          dade, inquietao, dinamismo, simplicidade, complexidade, 
equilbrio, desequilbrio, etc.

     1    1. Justifique qual foi, em sua opinio, o tipo de 
comunicao (intelectual ou emocional) que
          o pintor procurou estabelecer com o espectador.

     12.  Aponte, de entre as obras apresentadas, aquela que gostaria 
de ter em sua casa e qual
          a que mais detestaria possuir.

     13.  Explique as razes da escolha anterior.






                    O pintor j no necessita preocupar-se com 
detalhes insignificantes, pois para
               isso est a fotografia, que o faz muito melhor e mais 
rapido. J no  misso da pin~
               tura representar os acontecimentos histricos; estes 
encontram-se nos ivros. Ns
               temos uma opino mais alta da pintura: ela serve ao 
artista para expressar as suas
               vises interiores.

                         Henri Matisse, *Conversas+, Les Nouvelles, 
Paris, 1909.


140

                                                       - - 
----------------




               Reprovou-se vivamente aos novos pintores as suas 
preocupa@1-oes geomtricas...
          Estes pintores, assim como os seus antecessores, no se 
propuseram ser gemetras.
          Pode dizer-se, contudo, que a geometria  em relao s 
artes plsticas o que a gra-
          mtica  para o escritor.

Guillaume Apoffinaire, Os Pintores Cubistas. Meditaes Estticas, 
Buenos Aires, 1957.




               Os elementos essenciais da nossa poesia sero o valor, 
a ousadia e a rebelio.
          Declaramos que o esplen r                           mun    
             se enriqueceu com uma nova eleza: a ele-
          za            da velocidade. Um automvel de corridas  
mais bonito que a Vitria de
          Samotrcia.

                         Marinetti, Prinieiro Manifesto Futurista, 
1909.




               Para que uma arte se torne abstracta, quer dizer, para 
que no revele nenhuma
          relao com o aspecto natural das coisas reveste 
fundamental importncia a lei da
          snatura ilao                    natureza. Em pintura, a 
cor primria mais pura possve  o que
          produz essa abstraco da cor natural.

Pet Mondrian, Arte Plstica e Arte Plstica Pura (artigos escritos 
entre 1937 e 1943),
                                                  Buenos Aires, 196 
1.




A pintura  andar, correr, beber, dormir efazer as necessidades.

                                                       Artur Cravan.




               Ofacto de eu prprio, no momento de pintar, no 
compreender a significao dos
          meus quadros, no quer dizer que estes no tenham nenhuma 
significao: pelo con-
          trrio, a sua significao  to profunda, complexa, 
coerente e involuntria que esca
          pa  simples anlise da intuio lgica.

                                                       Salvador Dali.




     -ela com ateno ca a um dos documentos.

2.   Insira cada um deles no movimento de vanguarda a que pertence e 
justifique a sua
     opo.

                                                                 ki








          abaHh@) de sntese

     1.   Propostas de trabalho:

          - Biografia de qualquer pintor, escultor ou escritor da 
primeira metade do sculo

          - Trabalho de aprofundamento sobre qualquer corrente 
literria ou artstica da me
          poca.

          - As vanguardas em Portugal.




     1.   Agora que deve estar prestes a terminar a leitura da obra 
de Steinbeck As Vinhas da Ira,
          prepare-se para fazer uma ficha de leitura, onde conste a 
identificao da obra, tempo
          e lugar da aco, o assunto e caracterizao de 
personagens.

     2.    especialmente importante que saliente as questes 
relacionadas com a conjuntura
          economica e social dos Estados Unidos durante a Grande 
Depresso, uma vez que lhe
          ser til para o aprofundamento do tema 1 0.

     3.   Insira a obra no contexto das literaturas do primeiro 
ps-guerra.




     1.   Explique o papel das vanguardas na ruptura com a esttica 
tradicional.

     2.   Explique de que modo a literatura e a arte reflectem as 
mudanas operadas na
          sociedade.

     3. Caracterize o modernismo portugus.




     1.   Organizao de um dossier de turma sobre arte 
contempornea, incluindo reproduo
          de obras, bem como o registo de comentrios de 
especialistas e de apreciaes
          pessoais.

     2.   Visita de estudo a coleces de museus ou a exposies de 
arte contempornea, orien-

          tada, se possvel, por um artista ou crtico de arte e 
seguida de um debate sobre a pro-
          blemtica da criao artstica no mundo moderno.

     3.   Trabalho de grupo sobre O Movimento do Orfeu a partir da 
recolha e anlise de textos
          r presentativos.

     4.   Organizao de uma exposio aberta  escola sobre a arte 
modernista em Portugal.


142

                A IRRADIAO
            DA CULTURA DE MASSAS








                     AU








Um                     w-

Revista Negra nos Campos Elsios,     Paris, 1925 - Cartaz de Paul 
Colin






               ------- -------

      HOMOGENEIZAO E ESTANDARDIZAO
   DOS COMPORTAMENTOS E PADRES CULTURAIS



     1.   A CULTURA AO SERVIO DOS ESTADOS

     2.   A GENERALIZAAO DO ENSINO COMO INSTRUMENTO DE INCULCAO
                                   @@L UMA NOVA DISCIPLIWk




         O impacto da rdio, veculo privilegiado de propaganda 
poltica
         O cinema, meio de difuso de modelos sococulturais

          DF- V1'@@-@2.@@'@' @@L

     3.   O PAPEL DOS MEDIA
          . A imprensa popular








                 A LIAO DE

                     4.



           LUS, A I PIA, A.MIL IA
                A TRI 1,0CIA
                     DA

         Ca rtaz do S. P. N. (1 938)





----- - --- -

1    A CULTURA AO SERVIO DOS ESTADOS

     Aps os anos 20, em que todas as experincias
culturais pareciam ter sido tentadas, os anos 30
representam, um pouco por todo o lado, uma certa
*normalizao+ cultural.
     Os anos 20 tinham sido anos de profundas
mudanas econmicas, sociais, culturais e polti-
cas. As dificuldades econmicas do ps-guerra
tm inevitavelmente que ligar-se a ascenso dos
partidos de direita e a implantao de regimes
totalitrios. A questo cultural no pode ser desli-
gada de tal realidade.
     Nos Estados autoritrios, sejam eles de direi-
ta ou de esquerda, o Estado toma a seu cargo a
definio de normas a que a arte e os artistas se
devem submeter. A cultura deve obedecer, obri-
gatoriamente, a imperativos ideolgicos, enqua-
drando-se na norma vigente. A necessidade de
construir um homem novo diferente do modelo
que aparecia como resultado das democracias libe-
rais burguesas e capitalistas, e extremamente des-
confiados quanto  perigosa liberdade individual
dos criadores, leva os regimes autoritrios a impor
uma arte oficial. Os nazis pretendem um homem

novo (doc. 1), biolgica e culturalmente puro,
habitando solo ariano onde buscam os fundamen-
tos da sua cultura nacionalista; os fascistas italia-
nos entroncam o homem novo fascista na romani-
dade; para os bolcheviques, o homem novo  o
proletrio, que triunfou do capitalismo e rejeita
todo o passado czarista.
     Em todos os modelos, a imposio da arte ofi-
cial fez-se por expulses, intolerncia e margina-
lizao dos que no se integraram no novo modelo.
Em todos estes regimes, esta nova cultura busca
razes no passado longnquo onde se procuram
motivos de inspirao e legitimidade. Tudo isto 
apoiado pela prtica da propaganda posta ao ser-
vio da nova arte.
     Enquanto os fascistas integram o futurismo de
Marinetti, os nazis condenam toda a *arte degene-
rada+ das vanguardas, conotada com cultura bol-
chevique. Chega mesmo a ser posta a ridculo
numa exposio intitulada *A arte degeneradas,
realizada em 1933, em Nuremberga, e onde foram
expostas obras de Kirchner, Klee, Nolde, Chagall e
Kandinsky e, depois, em Munique, em 1937 (doc.
2). Multas obras de arte foram queimadas publi-
camente, enquanto se promovia a *nova arte do

146

Terceiro Reich+. Calcula-se que cerca de 4 000
obras de arte tenham sido destrudas pelos servios
de propaganda.
     A arte nazi queria-se popular e figurativa, e
no elitista, como a da Repblica de Weimar. Os
motivos inspiradores eram as tradies germnicas
medievais, bem como o campones e os trabalhos
agrcolas. A arquitectura imponente e neocls-
sica  bem o smbolo do poder do regime (doc. 3).
Em 1933,  criado o Ministrio da Informao e da
Propaganda, a cargo de Goebbels, a quem cabe a
tarefa da nazificao da cultura, controlando
todos os aspectos, desde o cinema,  rdio e s
artes plsticas.
     Os artistas so obrigados a aderir s diferentes
cmaras profissionais enquadradas pela Cmara
da Cultura. A partir de 1934, os media e o cinema
so objecto de um maior e mais rgido controle.
     Na Itlia, apesar da fascizao da cultura, os
artistas conservaram maior liberdade de criao. Nos
anos 30, o controle sobre a cultura e sobretudo sobre
os media toma-se, todavia, mais apertado. O gigan-
tismo e o neoclassicismo caracterizam tambm
as construes, sobretudo na cidade de Roma. Os
temas ruralistas so igualmente recuperados pelos
artistas, para tornar a cultura prxima das massas.
     Na URSS, aps a NEP, o regime endureceu e
submeteu os intelectuais, colocando-os ao servio
do partido. Os artistas, a partir de 1934, foram
obrigados, tal como os outros cidados, a cons-

truir o realismo socialista, que, a par do gigan-
tismo, caracteriza os monumentos edificados
em glria do socialismo (doc. 4).
     Os anos 30 marcam, de facto, um endureci-
mento na poltica cultural com a proibio de
editoras independentes, de purgas em bibliotecas e
perseguio de intelectuais individualistas e
*pequeno-burgueses+. A cultura passa a ser pla-
nificada, tal como a economia. As associaes de
artistas so proibidas. Os que querem continuar a
trabalhar devem obrigatoriamente pertencer 
Unio dos Artistas Soviticos e respeitar e propa-
gar o realismo socialista, pois este organismo
detm o monoplio da distribuio dos materiais e
dos instrumentos de trabalho. Os artistas no
enquadrados caem sob a alada da lei contra o
parasitismo e podem, por isso, ser condenados a
trabalhos forados.
     Em Portugal, aps as experincias de van-
guarda, a cultura retomou modelos mais modera-

dos, at porque a partir de 1926 a realidade polti-
ca se modificou. A maior parte dos artistas das
vanguardas acomodou-se e *normalizou-se+ (doc.
5), seguindo as novas regras de criao artstica
impostas pelo Estado Novo (doc. 6).
     Ao nvel da arquitectura, a dcada de 30  o
perodo das construes modernistas. A dcada
seguinte, a partir da Exposio do Mundo
Portugus (1940), traz consigo o *reaportugue-
samento+ das construes (doc. 7).
      inegvel que a cultura portuguesa dos anos
30 e 40 se inspira em modelos populares e rura-
listas, entendidos como verdadeiros arqutipos da
genuna alma portuguesa (doc. 8).


2.   A GENERALIZAO DO ENSINO, COMO
     INSTRUMENTO DE INCULCAO DE
     VALORES E DE IMPOSIAO DE UMA
     NOVA DISCIPLINA SOCIAL

     Por sua vez, o ensino revelou-se um instru-
mento excelente para a veicularo de ideias e valo-
res de acordo com a nova realidade poltica. A
estatizaro da cultura e do ensino deu aos Estados
um meio eficaz de controle, sobretudo da juventu-
de (doc. 9 e cf. doc. 59, vol. 1, pp. 486-487).
     Em Itlia, como j vimos, o Estado tomou a
seu cargo a educao da juventude. Sobretudo a
partir de 1936, a escola, essencialmente a escola
primria, que abrangia a quase totalidade das crian-
as, passou a estar completamente submetida
aos interesses da poltica. Para alm da escola, as
organizaes de 'uventude enquadravam os jovens
dentro de um modelo uniformizado e fascista (Cf.
vol. 1, p. 443).
     Na Alemanha, o Estado substituiu-se  fam-

lia na educao da sua juventude. Professores e
manuais escolares foram submetidos a apertada
censura. Estes tornam-se verdadeiros catecismos
das doutrinas nazis (doc. 10). As organizaes de
juventude concluam a formao dada na escola.
     A URSS controlava tambm eficazmente a
formao dos seus jovens, atravs de organiza-
es prprias e atravs da escola. A tarefa da alfa-
betizao foi considerada prioritria. Em 1918, a
escola nica, laica e gratuita foi tornada obrigat-
ria, mas o decreto da sua criao s foi eficaz-
mente aplicado nos anos 30. Um decreto de 1930
tornou a escola obrigatria para as crianas entre

os 8 e os 1 1 anos e outro decreto de 1931 obrigava
os adultos, com idades compreendidas entre os 16
e os 50 anos, a aprenderem a ler e a escrever. Nas
fbricas e nos campos criaram-se comits para a
luta contra o analfabetismo. Esta poltica teve
resultados positivos, uma vez que, no recensea-
mento de 1939, quatro entre cinco soviticos afir~
mavam saber ler e escrever.
     As massas possuam, de facto, estes rudimen-
tos de cultura, mas no tinham acesso ao ensino
secundrio pago e muito menos  universidade,
onde s entravam os filhos dos esquadros soviti-
cos+. A baixa da taxa de analfabetismo no
correspondeu uma verdadeira democratizao
do ensino.
     Em Portugal, a generalizao do ensino
(docs. 11 e 12) contribuiu tambm para a incul-
cao de valores e de modelos que se julgavam
mais adequados  nova realidade poltica.
     Entre 1930 e 1936, as influncias da escola
republicana fazem-se ainda sentir a diversos nveis,
mas rapidamente so tomadas medidas contra essa
nociva influncia (doc. 13): eliminou-se a escola
nica, voltando-se  separao por sexos, simplifi-
caram-se os programas, desqualificaram-se profis-
sionalmente os professores, reduziu-se a escolari-
dade obrigatria, criaram-se postos de ensino, tudo
em nome da luta contra o analfabetismo (doc. 14).
     A partir de 1936, edificou-se a escola nacio-
nalista (doc. 15), alicerada numa forte compo-
nente ideolgica, reforando-se o seu papel edu-
cativo em detrimento do instrutivo (doc. 16). O
cuidado extremo na doutrinao das novas gera-
es revela-se na imposio do livro nico (doc.
17), aquele que manifestamente mais se adequava
cientfica e ideologicamente ao modelo imposto
pelo Estado Novo (doc. 18).

     Verificamos, pois, que a cultura dos anos 30 e
40  posta decididamente ao servio dos
Estados, sobretudo dos Estados autoritrios. A
generalizao do ensino e a luta contra o anal-
fabetismo comporta tambm uma estratgia de
mobilizaro ideolgica, j que a escola se apre-

senta como o meio mais eficaz para a inculcaro
de valores na juventude (doc. 19).
     A cultura destes anos e destes Estados , por
um lado, uma cultura tradocionalista, inspiran-
do-se, na arquitectura e na escultura, em modelos
greco-rornanos e neoclssicos, e na pintura, litera-

147

tura e cinema, no ruralismo, mas que tem como
objectivo a criao de um homem novo, conser-
vador e fascista.
     Pretende, contudo, aproximar-se do povo e
ser por ele aceite, ao contrrio da cultura dos
anos do ps-guerra em que a cultura das vanguar-
das era marcadamente elitista.


3.   O PAPEL DOS MEDIA

     Os media vo ter uma importncia decisiva na
transmisso de valores culturais e sociais, contri-
buindo, tal como os meios de transporte, para pr
fim ao isolamento de muitas populaes. A
imprensa, a rdio e o cinema foram os veculos
privilegiados da cultura de massas, acessvel ao
grande pblico e em sintonia com ele.

     A imprensa popular

     Nos anos 20, a imprensa continuava a ser o
meio essencial de informao pblica. A sua
importncia cresceu nos anos 30, quando grandes
grupos financeiros dominam os grandes jornais,
sobretudo na Gr-Bretanha e nos Estados Unidos. A
edio de jornais e revistas revela-se, cada vez mais,
um negcio lucrativo. Utiliza a mais moderna tec-
nologia e adapta-se  acelerao do quotidiano
(doc. 20) para estar sempre sobre os acontecimentos.
     A imprensa especializa-se conforme os gostos
do pblico e as tiragens aumentam ao longo da
primeira metade do sculo (doc. 21). Aparecem
assim jornais de pura informao e reporta-
gem, com apoio fotogrfico, que procuram vei-
cular mais informao que opinio, a par de jor-
nais infantis, revistas femininas, de cinema ou
de arte. Mesmo a imprensa no especializada mul-
tiplica as pginas especiais para atrair um maior
leque de compradores: pgina feminina, pgina
desportiva, passatempos, etc.
      ainda de salientar a importncia da imprensa
de provncia na difuso das notcias locais ou
regionais (doc. 22).
     A imprensa recorre cada vez mais a agncias
noticiosas, o que permite estar a par de notcias
actualizadas de todo o mundo (doc. 23).
     A publicidade que aparece nas pginas de jor-
nais e revistas contribui decisivamente para o equi-

lbrio oramental das empresas jornalsticas, dando-

148

-lhes possibilidades de gozar de relativa indepen-
dncia em relao ao poder poltico (doc. 24).
     Contudo, se tal foi possvel em Inglaterra, na
Frana ou nos Estados Unidos, o mesmo no acon-
teceu nos pases submetidos a regimes autoritrios
da Europa, como a Itlia, a Alemanha e a URSS
que submeteram a imprensa a uma severa censura
e a usaram como veculo de transmisso da polti-
ca governamental. O mesmo aconteceu em
Portugal, como j referimos no tema anterior (Cf.
volA, doc. 46, pp. 473-474). Logo em 1927, a
censura foi imposta aos jornais e reforada duran-
te o Estado Novo, o que contribuiu para o desapa-
recimento de muitos dos jornais conotados com a
oposio ao regime (doc. 25).
     No incio do sculo, contudo, apesar da elevada
taxa de analfabetismo, os jornais tinham muita
circulao (doc. 26) em Portugal, no s nas gran-
des cidades como na provncia, sobretudo os de
feio conservadora.

     O impacto da rdio, veculo privilegiado
     de propaganda poltica

     Entretanto, a TSF ou telefonia sem fios, nasci-
da no incio dos anos 20, conhecia um extraordi-
nrio xito e um desenvolvimento acelerado. A
rdio transmitia agora notcias de todo o Mundo,
no mesmo instante em que estavam a desenrolar-se
os acontecimentos, chegava a todos os lugares,
por mais longnquos que fossem, fazia penetrar
em todos os lares a cultura que o poder pretendia
veicular (doc. 27). O isolamento acabou de vez.
     Rapidamente se multiplicaram as estaes
de rdio privadas ou estatais, que transmitiam
em vrios comprimentos de onda. Os aparelhos de
rdio aperfeioaram-se, comearam a ser fabri-
cados em srie e baixaram de preo: em 1939,
80% dos lares americanos tinha uma telefonia,
enquanto em Frana havia aparelhos em 5 milhes
e meio de casas (docs. 28 e 29). O poder da rdio
tornara-se enorme (doc. 30).
     A rdio foi, por excelncia, o meio de pro-
paganda poltica: o presidente americano Hoover
usou-a, em 1928, na sua campanha eleitoral;
Roosevelt utilizou-a para convencer os Americanos
da sua poltica do New Deal; na URSS fizeram-se
transmisses em inmeras lnguas para que a todos
pudesse chegar a doutrinao bolchevique; em
Frana, foi tambm um meio muito utilizado pelos

H0L@-@

polticos. Contudo, os grandes utilizadores da

rdio foram os regimes totalitrios da Itlia e da
Alemanha que a utilizaram para transmitir os dis-
cursos dos lderes, que assim penetravam intima-
mente em todos os lares (doe. 31) e so ainda
transmitidos para a rua atravs de poderosos alti-
falantes.
     A rdio serviu ainda como meio de instruo
dos menos cultos, instituindo a lngua oficial como
modelo que a pouco e pouco se sobreps s dife-
renas regionais. Proporcionou ainda ao grande
pblico programas culturais que de outro modo
lhe estavam interditos. Foi assim, tal como o cine-
ma, um meio de uniformizao cultural (doe.
32).
     Nos anos 20, a rdio comeou a dar os primeiros
passos em Portugal (doe. 33), sendo as telefonias
comercializadas a partir do final da dcada (doe. 34).

     O cinema, meio de difuso de modelos
     sococulturais

     No fim dos anos 20 surgiu a revoluo do cine-
ma sonoro, que contribuiu para arrastar ainda
mais pblico para as salas de cinema. Tornou-se
habitual que, antes do filme propriamente dito, se
apresentasse um filme de actualidades (doe. 35).
Este jornal em imagens mais no fazia que mode-
lar a opinio pblica, inculcando-lhe os valores
dominantes, tanto mais que, na generalidade dos
casos, a censura prvia tinha muita cautela com o
tipo de notcias vindas a pblico e o modo como
eram veiculadas.
     O cinema foi o grande construtor de sonhos
e difundiu, atravs do poder das suas imagens, a
moda, os penteados, a maneira de actuar e de falar,

                O DOS COMP-'

a msica, a dana, os anseios e at os objectos
que as personagens tinham ou desejavam no ecr.
A mquina dos sonhos uniformizava assim no s
os corpos mas os prprios sonhos dos espectado-
res, moldando-lhes os espritos para a aceitao
dos mesmos valores que as personagens aceita-
vam (doe. 36).
     O cinema foi ainda utilizado como arma de
guerra durante a Segunda Guerra Mundial, tanto
do lado dos paises do Eixo como do lado dos
Aliados. Uns e outros usaram histrias situadas no
passado para veicularem as ideias do presente: os
primeiros, o anti-semitismo, os segundos, o patri-
otismo e a resistncia ao invasor. Inserem-se nesta
linha filmes alemes como O Judeu Suss, reali-
zado em 1940 por Veit Harlan (doe. 37), e O Judeu
Eterno, realizado no mesmo ano por Fritz Hippler;
os filmes russos de Eisenstein, Alexandre Nevsky
(1938) e Ivan, o Terrvel (1943), e filmes ameri-
canos como To be or not to be, de E. Lubitsch.

     Em Portugal, o cinema foi inicialmente, entre
1918 e 1924, feito por estrangeiros, seguindo-se-lhe
um periodo de certa decadncia at 1930 (doe.
38). Nas dcadas de 30 e 40, o cinema portugus
foi, quanto  temtica, essencialmente de carcter
provinciano e pequeno burgus. As personagens
eram sobretudo campnios ou pequenos lojistas,
onde imperavam as cenas de comdia e as cantigas
(doe. 39), e as concluses moralizantes, at porque
a produo cinematogrfica era submetida regu-
larmente, a partir dos anos 30,  *vigilncia moral+
exercida pelo Secretariado do Cinema e da Rdio
e, de um modo geral, pela censura. Realizaram-se,
todavia, obras com objectivos diferentes, nomea-
damente com vista  difuso da nova ideologia
*imperial+ (doe. 40).








149

               ..............

                                                  DocuMENTOS






                     -A








               O Construtor da Alemanha, caricatura de Oskar Garvens 
(1933)






A EXPOSIO DA *ARTE DEGENERADA+
ORGANIZADA PELOS NAZIS EM MUNIQUE, EM 1937

               Com a abertura desta exposio soou a hora do 
embrutecimento da arte alem e, por con-
          sequncia, da humilhao cultural do nosso povo.

               A partir de agora, conduziremos uma guerra implacvel 
de depurao contra os ltimos ele-
          mentos da subverso cultural. [...            1 Agora - e 
isso posso assegurar-vos -, vamos desalojar e
          dispersar todas estas cor as de bisbilhoteiros, de 
diletantes e vigaristas da arte que se apoiam
          entre si. Pelo que nos diz respeito, no nos opomos a que 
estas personagens pr-histricas, que
          se reclamam da cultura da idade da pedra, estes gagos da 
arte, voltem para as cavernas dos
          seus antepassados e a borrem as paredes com as suas 
garatujas primitivas e cosmopolitas. Mas
          a Casa da arte alem de Muniquefoi construda pelo povo 
alemo para a sua arte alem.

Palavras de Hitler na inaugurao da exposio em 19 de Julho de 
1937, citado por Hildegard Brermer,
                    La Politique artistique du national-socialisme, 
Paris, 1980.


150

.-,GENEIZAAOEESTANDARDIZ,@,.,,'@@@       1@J








                                                               .74
                              .... . .. ----- -

               O gigantismo da arquitectura nalzi:

a grande Cmara de Berlim, afutura *Germani    .a+, maqueta
de Albert Speer, 1937. Ao lado para comparao,
surge a Porta de Brandeburgo, imponente monumento de Berlim




          O Operrio
      e a Ko]koziana,
         escultura de
Vera Moukhina (1937)




A NORMALIZAO DA VANGUARDA

     No ms imediato  publicao das entrevistas de Antnio Ferro a 
Salazar, em Janeiro de 1933,

surgiu porfim a ofensiva. Ao autor do Manifesto anti-Dantas (1915) e 
do Ultimatum futurista s
geraes portuguesas do sculo XX (1917) abriram~se-lhe tambm, 
finalmente, as portas da SN8A
para aproferir uma conferncia com o pragmtico cabealho Arte e 
artistas. Comeou-aj sem
referncias a escolas ou partidos estticos: *A palavra mais 
desconsiderada hoje em Portugal 
a palavra artista. Desconsiderada, desprestigiada, falida, e 
postafora de cena e da vida. No haja
receio de afirmar isto mesmo, rendidos estamos pela evidncia das 
realidades. + Preocupou-se em
comprovar porque eram *essencialissimas na vida dos povos e dos 
individuos+ as *duas palavras+
do ttulo da alocuo. Mas a desassombrada colagem ao poder teria 
mais impacte que as justi-
ficaes aduzidas. O professor que viera de Coimbra e ele, Almada 
Negreiros, possuam a
mesma leitura de *como funciona a mquina social+. Logo depois de 
referir as declaraes do
chefe ao Dirio de Notcias afirmaria, seguro das suas convices, 
que *a nossa atitude  a de
indivduos em marcha para a colectividade e plenamente confiados no 
Estado+. Uma promessa
solene de bom comportamento,  qual por bvio e natural se seguiria o 
desafio para o *Grande
Encontro+: *Em Portuga nunca ningum pensou at hoje, nem os 
particulares nem o Estado, em
que o centro-base de um movimento de conjunto que se estendesse at  
totalidade da colectivi-
dade portuguesa pudesse ser precisamente o da Arte?+. Em Fevereiro, 
novo passo. Nessa ocasio

                      A








15-1

     seria a prpria assemblia geral da SNBA que, nomeando uma 
comisso para dar ao Governo a
     existncia prxima da misria de muitos praticantes do Belo, 
escolhera para a representar dois
     artistas profundamente empenhados na exibio de 1930 - o 
escultor Diogo de Macedo e o arqui-
     tecto Jorge Segurado -, alm de Lus Teixeira, jornalista, 
tambm envolvido nessa aventura.
          A vanguarda predispusera-se tambm ela  normalizao. 
Ejustamente tal sucedeu no espa-
     o institucional mais conotado com o tradicionalismo, aquele 
onde o magistrio esttico,
     feito a partir de um pressuposto analtico fundamentalmente 
anacrnico dos objectos, tendia a

     premiar, conferindo-lhe a maioridade, quem melhor conseguia 
aproximar-se da virtuosidade tc-
     nica dos mestres imortais. Deveras distinto era, como igualmente 
verificmos, o projecto
     modernista que se informava na defesa do princpio basilar da 
adequao da obra aos fins
     superiores do criador, livre e ilimitado no seu universo 
pessoalssimo. Sem que tenham sido
     obrigados a abandon-lo, ou sequer forados a incorporar o 
arqutipo acadmico, o reco-
     nhecimento oficial, digamos assim, atingiria os segundos quando 
manifestassem sincero respeito
     pelo poder poltico constitudo. Ento, ver-se-iam investidos no 
perseguido, e no apenas
     formal, papel de representantes legtimos da sua comunidade.

                                   F.   Rosas, Portugal e o Estado 
Novo, Lisboa, 1992.



AS NOVAS DIRECTRIZES DA CRIAO ARTSTICA

     A                     Ainda em 1935, e naquela festa em que 
vimos o presidente do Conselho apontar deforma
          Prudente *directrizes+ a artistas e escritores, Antnio 
Ferro ser de novo instado, agora com
          outra preciso, a ilustrar os propsitos do seu organismo. 
A primeira vista parece tomado de um
          temor reverencial, transportando a efectiva compreenso dos 
*princpios morais+ para os *dis-
          cursos+ e as *palavras supremas+ de Salazar Contudo, este 
seu texto  mais do que uma vulgar
          pea de oratria. No se trata nele s de divagar em torno 
da impossvelfigura do intelectual
          laicizado. A funo de suporte do poder reclama um 
comprometimento doutrinrio profundo,
          orgnico. De acordo com as noes amplamente difundidas nos 
ltimos palcos do salazarismo
          - a de *Equilbrio+, e sobretudo a de *Ordem+ -, Ferro ir 
esclarecer sem evasivas o signi-
          ficado da sua abrangente *Poltica do Esprito+. J muito 
para alm da simples e *legtima ela-
          borao de um programa de assistncias ao agente cultural, 
essa expresso surge-lhe *amb-
          gua e vastissima+. O SPN deveria preparar a necessria 
*atmosfera+ capaz de desencadear o
          aparecimento de uma *arte saudvel+. Desde logo, inclina-se 
a caracterizar territrio interdito,
          assimilando-o a uma corrupo mortificante das almas: o 
*diabolismo dissolvente+, o *amo-
          ralismo e a morbidez+ que, por *volpia ou satanismo+, 
*sujam a arte+ na invarivelfabri-
          cao do *grosseiro+, do *feio+, do *bestial+, do 
*malfico+. E o mais importante  que o
          comum dos sujeitos tidos por refractrios da ordem - mesmo 
se vislumbrados no cadinho das

          *pinturas viciosas do vcio+, da *literatura sdica+ e dos 
romances *de escavaesfreudianas+
          de uns quantos *infatigveis e doentios rebuscadores de 
contradies+ - surge identificado com
          o sector oposicionista. Aqui a explicao derradeira da 
tese do combate e de todas as reflexes
          que a envolvem: ns queremos *declarar guerra publicamente 
aos dspotas da liberdade do
          pensamento, aos intelectuais *livres+ [...            1, 
aos defensores do homem gidiano, do homem-ter-
          ramoto, Narcisos da democracia, envenenadores do Mundo!+. 
Este estatuto no lhe permite
          admitir a existncia de uma forma de pensar ou sentir 
autonomizada do campo poltico, redu-
          zida apenas  mundividncia de um autor. Na qualidade de 
*dirigente de um organismo que se
          enquadra dentro do Estado Novo+ -lhe impossvel aceitar as 
obras daquela provenincia.
          Pouco tempo depois, e para os casos em *que se passam as 
fronteiras do in rme+, chegar a
          defender a tomada de *medidas higinicas+.

                                                            Ibidem.

                                   ........ . .. ....... 
.............

152

HO      ENEI                 4D                                MI 
TURAIS


A EXPOSIO DO MUNDO PORTUGUES

     Em 1940, um grande acontecimento, artstico e poltico, veio pr 
ordem e dar sentido ao que,
em arquitectura e nas outras artes, se processara ao longo dos anos 
30: a exposio come-
morativa do oitavo centenrio da nacionalidade e terceiro da 
independncia restaurada no
sculo XVII - *primeira exposio histrica que se realizou no 
mundo+.
     Na Europa em guerra, tratava~se de uma afirmao de paz e 
harmonia em que o governo de
Oliveira Salazar insistia, indo para a frente com a iniciativa h 
muito apregoada. [...  1
     Era assim que tudo parecia indicar que a exposio de 1940, com 
a responsabilidade que lhe
assistia, havia de ser atribuda s novas geraes. A, porm, se 
confrontaraniforas adversas,
do S.P.N.-Ferro e da tradio, estas representadas pelo presidente da 
S.N.B.A., Arnaldo
Ressano, notvel caricaturista e coronel. Entenderam estas que a 
Exposio constitua uma
oportunidade ltima, ou uma batalha definitiva para os seus 
princpios e para a sua prtica pro-

fissional, e logo romperam hostilidades com duas conferncias de 
Ressano que utilizou gran-
des meios de denncia poltica, descrevendo os modernistas como 
*charlates+, *paranicos+,
*degenerados+, em grande parte judeus e comunistas - J          .a 
que da Rssia tudo partira.
Revolucionrios sem Deus e sem moral, os modernistas no iam poder 
assumir uma exposi        .o
que comemorava a ptria catlica e ordeira! Hitler era tomado em 
exemplo, contra o Mussolini
de Ferro [...  1.

     Tratava-se de compor um *estilo moderno, forte, saudvel+ e j 
no modernista; tratava-se,
em suma, de marcar o *ressurgimento+ da ptria do Estado Novo com a 
formulao dum
*estilo portugus de 1940+. [... 1

     Para que essefimfosse atingido, escolheu-se Cottinelli Telmo 
para arquitecto-chefe da expo-
sio, contando-se de antemo com a sua habilidade e a sua 
versatilidade.
     Uma dzia de arquitectos, uma vintena de escultores, mais de 
quarenta pintores colabora-
ram com Cotinelli: praticamente todos os modernistas estiveram 
presentes, e alguns acadmicos
tambm. Excepes maiores: Cassiano, Keil do Amaral, Diogo de Macedo, 
Soares, EloY,
Jlio, Pedro, por razes polticas ou de menor adequao ao trabalho 
proposto, ou outras
ainda, mas sem diminurem o significado profissional do grande 
estaleiro arquitectnico e deco-
rativo. [...1
     O pavilho *de Honra e de Lisboa+ foi a pea principal do 
conjunto, sobrepondo formas
modernas   eformas laboriosamente estilizadas do passado, em desejada 
garantia nacionalista
que o manuelino traduzia: o seu revivalismo era mais uma vez 
assumido, como no sculo XIX.
Cristino deu ali a medida do seu talento e afirmou-se como o 
arquitecto conveniente ao programa
definitivo da arquitectura do Estado Novo que, neste momento e neste 
edifcio precrio, marca,
ao mesmo tempo, o seu ponto de chegada esttico e o seu ponto de 
inflexo ideolgico. [...    1
     Mas outra escultura majestosa simbolizava a inteira exposi      
  .o, e era o Padro dos
Descobrimentos, imagi   .nado por Cottinelli, tambm com esculturas 
de Leopoldo, que modelou
uma teoria defiguras de navegadores e conquistadores dirigindo-se, ao 
longo de uma rampa,
para afigura do Infante D. Henrque virado para as guas do Tejo - 
como que  proa duma
caravela cujo velame estilizado estruturava o monumento. Monumento 
provisrio, ele ser pas-
sado  pedra vinte anos depois, j na decadncia do regime, em 
oposio a outro projecto cuja
modernidade naturalmente ento seria condenada.

     Frescos e painis, de teor nacionalista, ilustrando passos da 
Histria nacional, tiveram em
Almada um realizador de grandeflego, de excelente acerto decorativo, 
com concorrncia do
jovem Manuel Lapa que definiu um processo de estilizao de gosto 
medieval de larga utilizao
1...  ].
     Mas 1940 foi tambm o *ano ureo+ da arquitectura, como se 
afirmou: a Exposio de
Belm apenas coroou artisticamente um vasto movimento de realizaes 
que nesse ano sim-
bolicamente se terminaram, ou quase. Servem de exemplos maiores o 
Estdio Nacional (de

A@








1 53

          Jacobetty Rosa) de inspirao italiana ou a ampliao do 
Museu de Arte Antiga (Rebelos de
          Andrade), cuja feio tradicionalista e grandiosa conveio 
tambm s obras da Assembleia
          Nacional, como vimos - e *a onte monum

          ,f'           ental+, dos Rebelos, com esculturas de Diogo 
e
          Maximiano e baixos-relevos de Barradas, quefoi erguida 
aofim da alameda traada a partir
          do IST, pondo-lhe um ponto final que, em relao ao 
complexo arquitectural modernista de
          Pardal, nascido nos anos 20, marcou tambm uma nova 
situao esttica e ideolgica. Situao
          igualmente pontuada pela esttua equestre clssica de D. 
Joo IV, de Franco, inaugurada ento
          em Vila Viosa, ante o palcio brigantino - quando outro 
pao dos duques era exageradamente
          restaurado em Guimares, dentro dum programa que satisfez 
outros monumentos ilustres,
          desde a S e do castelo de Lisboa s runas de outros, pelo 
pasfora.
               Este olhar para o passado da ptria ajustava-se s 
realizaes do presente, mas impunha a
          estas uma referncia ideogr@fica de que a pintura e a 
esculturafatalmente se ressentiriam - e
          ainda mais a arquitectura, submetida ento  estilizao 
que observmos atrs, com activo
          repdio do que de internacionalista essa arte acarretara, 
na sua fase inventiva. Duarte
          Pacheco, presidindo ao *ano ureo+ de 1940, dava definitiva 
razo ao programa que j antes
          impusera aos arquitectos da sua capital do Imprio. E com 
essa aco, fortemente apoiada, a

          fase mais artstica e mais aberta que Antnio Ferro 
procurara definir na vida portuguesa, che-
          gava ao seu termo, em,fatal subordinao: o reino das obras 
pblicas exigia outras certezas
          mais palpavelmente polticas.

               Jos Augusto Frana, O Modernismo da Arte Portuguesa, 
Lisboa, 199 1.


A ARTE POPULAR PORTUGUESA

     A Explorando a mundividncia pr-industrial e propondo a 
apropriao das manifestaes

          diferenciadoras da raa lusitana - *selo da ptria 
espiritual+, a arte folclrica propiciaria ima-
          gens da *pobreza+ *honrada+, *limpa+, *asctica e 
filosfica+ -, a propaganda apelou, aos
          valores culturais submersos porque, evidentemente, se 
ajustavam  utopia salazarista. A reten-
          o de motivos e formas do artesanato indgena 
permitir-lhe-ia exibir a rusticidade, o con-
          servadorismo, o tradicionalismo e reivindicar o seu 
carcter arquetpico. As marcas da alma do
          Povo personificariam a unidade funcional de toda a 
comunidade.
               Da unilinear viso aplicada pelo uso da histria 
passou-se assim para a assumpo aberta
          da no-mudana. Ferro fez dela simultaneamente um problema 
das elites e de endoutrinao dos
          cidados. *Eu sei que o vanguardismo (detesto a palavra 
modernismo) e internacionalismo+,
          afirmou em 1943, *so duas palavras que andam quase sempre 
juntas+, mas *para conseguir o
          seu divrcio bastar continuar o que temos feito: trabalhar 
pelo renascimento da nossa arte
          popular, audaciosa e livre, atravs dos tempos; oferta de 
motivos rasgados, amplos, originais 
          imaginao dos nossos artistas [...            1, bem mais 
apaixonantes do que as abstraces geomtricas. +
          Estaria dessa forma *a dar  vida portuguesa uma fachada 
impecvel de bom gosto+ e a *con-
          tribuir para a consolidao de uma conscincia cvica e 
poltica no povo portugus+.
               Atravs da constante recuperaoIrecriao das 
tradies sepultadas, a tentativa de elevar
          a expresso *artes decorativas+, pretendendo objectivamente 
anular uma distino estabelecido
          - artes maiores e artes menores -, destacou-se de entre as 
apostas do director do Secretariado.
          Tornou-se mesmo a principal via da figurao: *os 
decoradores+ passaram a ser *os grandes
          semeadores da beleza, os grandes cengrafos da vida!+. Ao 
servio da persuaso salazarista,
          as representaes do popular, inteiramente fabricados por 
artistas ou suportadas directa-

          mente pelo SPN/SNI - e pouco depois tambm pela Fundao 
Nacional para a Alegria no
          Trabalho e a Junta Central das Casas do Povo -, 
inscreviam-se em qualquer gnero ou
          forma. As marchas populares, os concursos da aldeia mais 
portuguesa de Portugal, das mon-

154

tras, das estaesfloridas, dos ranchosfolclricos, a criao do 
bailado *Verde Gaio+ - *des-
pretensiosa antologia potica formada por estados de alma da paisagem 
e raa portuguesas,
primeira *flor+ que a propagandafora a um tempo buscar e lanar * 
terra+ -, as pousadas
de estilo pitoresco, as mltiplas exposies do trajo, da tapearia, 
da cermica e do mobilirio,
vulgarizaram o conceito de regionalismo numa dimenso desconhecida.
     Pouco antes de abandonar o Secretariado, Antnio Ferro 
institucionalizou o postulado
essencial da doutrina poltica. A unidade-ideal simbolizar-se4a no 
Museu de Arte Popular
Fiquemos com as suas declaraes no acto da inaugurao, em 1948. De 
*toda a campanha de
ressurgimento tnico que temos desenvolvido, est, precisamente, a 
defesa de uma arte moder-
na, contempornea, que no deixe de ser profundamente nacional. O 
povo, com as suas tintas
lisas, as suas linhas sbrias, o seu poder de sntese  sempre o 
artista mais novo, mais espon-
tneo, actual em todas as pocas. Os artistas que o seguem, depois da 
necessria transposio
intelectual, podem ter a certeza de fazer obra moderna -pintura, 
arquitectura, bailado ou poe-
sia - mas no estranha  nossa maneira de ser, ao nosso carcter Este 
museufica sendo, por-
tanto, seJor bem aproveitado, uma nascente de arte moderna 
portuguesa, paleta para os pin-
tores, pedra para os escultores, rgua e compasso para os 
arquitectos, poesia para todos... Por
mim, confesso-me francamente satisfeito por ter realizado uma das 
aspi     .raes da minha vida:
preparar a casa, o templo para o casamento, a,fuso da nossa arte 
moderna, isto , da arte viva
com o esprito do nosso povo, com o esprito eterno da Nao+.

                                   F.   Rosas, ob. cit.



          O CONTROLO SOCIAL DE CLASSE E A EMERGENCIA
                              DA ESCOLARIDADE DE MASSAS

     A maior parte do que se escreveu sobre a escola como reprodutora 
da estrutura de classes
foi desenvolvido com base na anlise das sociedades industriais 
avanadas [...     1. Contudo, este

papel social da escola pode ser tambm visto em perodos histricos 
anteriores, nomeaduniente
aquando do aparecimento da escolaridade de massas. De,facto, a ideia 
do uso da escola
como um instrumento de controlo social  ela prpria um acontecimento 
histrico. [...             1
Existem casos histricos comprovativos da    'extrema variedade de 
causas possveis do desen-
volvimento da escolaridade de massas: desde razes econmicas (como 
numa Alemanha ansi-
osa por competir com a Inglatera), a poltico-religiosas (como nos E. 
U.A., em que a educao
era vista como indispensvel para a criao duma sociedade livre e 
protestante): desde razes
nacionalistas (como numa Itlia, em que um Estado recentemente criado 
desejava usar a
escola paraformar um conjunto nacional a partir de um puzzie de 
tradies e culturas locais
muitssimo diversificados) a militaristas (como no Japo dos finais 
do sculo XIX). E, no
entanto, foram sempre as classes dominantes as que, em ltima 
anlise, mais bene ciaram da
extenso da escolaridade. Dito isto, no se deve, deforma alguma, 
concluir que a educao
popular mais nofoi do que um plano maquiavlico das classes 
dirigentes para disciplinar o
povo. Jamais nos defrontamos com uma situao em que as primeiras se 
decidem friamente a
conceder a instruo a uma massa aptica e indiferente. Pelo 
contrrio, o que quase sempre
sucedeufoi que as classes dirigentes quer as massas se encontravam 
divididasface ao problema
da educao. Se, defacto, o desenvolvimento da escolaridade 
obrigatria no pode ser visto
como uma resposta por parte de uma democracia *benevolente+  presso 
das massas, no
deve, no entanto, ser considerado como uma estratgia vitoriosa e 
clara por parte das classes
dominantes. A situao  mais complexa e ambgua do que a 
representada nalguns relatos.
     No entanto, independentemente do contexto histrico e social 
particular em que a educao
surge, as presses populares - quando presentes -ficaram sempre 
subordinadas  estratgia
das classes dominantes.

                                                            155

               A IRRADIAO 0& CULTURA.                   A.,:

               A ideia de usar a escola como um instrumento para o 
controlo ideolgico das massas , por-
          tanto, ela prpria um acontecimento histrico, ligado a uma 
fase especfica do desenvolvimento
          capitalista.

               O caso portugus


               Como em todos os pases, o desenvolvimento do 
capitalismo em Portugal levantou o pro-
          blema do controlo das classes trabalhadoras. De facto, 
embora pequena e relativamente
          desorganizada, a classe operara             .          a 
portuguesa comeava a pr s classes dominantes o proble-
          ma da sua integraro social. Este ponto adquiriu uma 
relevncia particular durante a dcada
          de 1920, quando os conflitos sociais asumiram um tom quase 
insurrecional, e quando um
          nmero crescente de patres comeou a tornar-se cada vez 
mais hostilface  *rebeldia+ de uma
          classe operria pouco desejosa de aceitar os sacrifcios 
exigidos pela acumulao do capital.
          [...           1 Mesmo entre o que era provavelmente 
afraco mais coesa das classes dominantes - a bur-
          guesia rural que advogavafirmemente uma estratgia de 
analfabetismo total - eram J                    .           detec-
          tveis algumas vozes discordantes que, embora de acordo com 
a tese conservadora tradicional
          de que a escola mais nofazia do que roubar braos aos 
campos, propunham, no entanto, que
          aquela no fosse pura e simplesmente erradicada, mas que 
fosse adoptado um curriculum espe-
          cial para uso nas escolas rurais destinado a transmitir uns 
rudimentos de tcnicas agrcolas.
          Por outro lado, os grupos de presso mais ligados  
indstria estavam numa posio em que as
          vantagens do uso da escola como meio de controlo social 
lhes surgiam deforma mais clara. [...                 1
          A sua atitude eventualmente negativa e os seus receios 
derivavam no de um qualquer dio 
          mobilidade social, mas de uma obsesso mrbida com os 
perigos da literatura subversiva. [...                  1
          A preocupao do Estado Novo com osfilhos das classes 
trabalhadoras e, deforma geral, com
          as crianas vivendo nos *perigosos+ centros urbanos nascia 
da necessidade de impedir que a
          herana cultural da Repblica fosse transmitida s novas 
geraes, e no de qualquer con-
          vico nas virtudes da escolaridade de massas que, de 
facto, estava longe de possuir.

     WFilorriena Mnica, Educao e Sociedade no Portugal de Salazar, 
Lisboa, 1978.,@




EXTRACTOS DE TEXTOS DE MANUAIS ESCOLARES NAZIS
SOBRE O CULTO DO CHEFE E O EUGENISMO

               Quando,  noite, j estiverem na cama e quando 
pensarem em todas as pessoas de quem gos-
          tam, pensem igualmente em Ado@ffi Hitler. Pensem, 
meus,filhos, quefoi a vocs, ao vossojtu-

          ro que ele votou toda a sua vida e o seu combate e, ento, 
peam ao Bom Deus por ele, di.-,endo:
          *Protegei o nosso Fhrer e ajudai-o na sua grande tar@fa'. 
Amen.+ [...             1

               Um doente mental custa diariamente 4 marcos, um 
invlido 5,5 marcos, um criminoso 3,5
          marcos. Em muitos casos umfunciontrio no ganha mais do 
que 4 marcos, um empregado 3,5
          marcos e um aprendiz 2 marcos.
               1.   Faam um grfico com estes nmeros.
               2.   Segundo estimativas prudentes h, na Alemanha, 
cerca de 300 000 doentes mentais,
          epilpticos, etc, em asilos. Calculem quanto custam 
anualmente estes 300 000 doentes mentais
          e epilpticos. Quantos emprstimos de 1000 marcos se 
poderiainfazer a jovens casais, se esse
          dinheirofosse economizado?

                    Citado por Alfred Grosser, Dix Leons sur le 
nazisme, 1976.

156

C

C-;E1                                                          @U

                                                       DRC@@'@'

                              Alunos          Ensino primrio

                                                              Total
                 Ensino ofi@

              - -- --- - -----


     241 856 180 768 422 624       -       -       -  241 856 180 768 
422 624

     315 639 239 253 554 892   36437   15369   51806  352 076 254 622 
606 698

     339 203 270 706 609 909   39134   15707   54841  378 337 286 413 
664 750

     439 266 406 758 846 024   19922   21289   41211  459 188 428 047 
887 235
FAM

,a, Inclui adolescentes e adultos
(b ) Menores em idade escolar. Devido ao lanamento da Campanha 
Nacional de Educao de Adultos apenas se consideraram os

- id,d, --1---, para no distorcer a coerncia da srie estatstica.
     Nmero de adultos no considerados: 88 386.
Fontes: Anurio Estatstico de Portugal - Ano de 193 1.
     Estatsticas da Educao de 1940-1941, 1950-1951 e 1960-196 1.

                                   Citado em F. Rosas, ob. cit.




      Taxas de escolaridade - 1890/1950

Percentagem de alunos matriculados nas escolas primrias (7-11 anos)

     Anos


      28,8

      16.2

22,7  20.6

23,5  26.5

29,3  26.9

36,7  53@8
-     79.7



(a)  C.I,:.Iad.s . partir dos d.d., I--id., --- V.,,, P.1ido 
Vaic,,le, O Lw,d, Lib-1... ; Cens. 1940;
     A.   E. 1939140.

(h) Calculados a partir dos dados (pouco fidedignos) includos em 
Macedo, H. Veiga, G,,,,des e Peq.enos...

                              M.' Filomena Mnica, ob. cit.



OBJECTIVOS DA ESCOLA SALAZARISTA:
    *A SAGRADA OFICINA DAS ALMAS+

     Os novos objectivos apontados  escola elo salazarismo 
pretendiam combater as *aber-
                                        p
raes+ que o liberalismo e a Repblica haviam inculcado na mente 
popular A uma educao
excessivamente intelectual deviam contrapor-se os conceitos da 
doutrina crist, sobretudo as
palavras de So Paulo: *Mulheres, sede submissas a vossos maridos, 
como convm segundo o

Senhor Maridos, amai as vossas mulheres e no as trateis com 
aspereza. Filhos, obedecei em
tudo a vossos pais, porque isto agrada ao Senhor. [...               
        1 Servos, obedecei em tudo a vosso
senhores terrenos, no servindo s na presena, como quem busca 
agradar a homens, mas com
sinceridade de corao, temendo a Deus. + Tratava-se, em suma, de 
ressuscitar a moral tradi-
cional do temor a Deus e ao amo.
     Sob a poderosa influncia das ideias positivistas, tanto a 
Monarquia liberal como a Repblica
tinham querido modernizar o Pas. E, como acreditavam que o 
desenvolvimento dependia da reno-
                     A .
                     AL








157

                      D

          vao das mentalidades, a educao ocupou para ambos um 
lugar ideologicamente muito impor-
          tante. A escola cabiajormar, no apenas o cidado 
consciente da democracia moderna, como tam-
          bm, o que era ainda mais urgente, o operrio qualificado, 
necessrio  industrializao.
               O Salazarismo rejeitou estes pressupostos. Nem a 
democracia nem o desenvolvimento eco-
          nmico eram coisas positivas; as massas nunca poderiam 
exercer o poder e a industrializao
          continha em si males e perigos. A educao do povo 
representava um ideal utpico e demag-
          gico que apenas dava *uma ilusria elevao  massa ignara 
e inferior+ Qualquer esforo srio
          nesse sentido s seria eficaz pelo chamado mtodo 
indirecto, isto , mediante a preparao de
          um escol quefiormaria a mente dos que lheficavam abaixo na 
escala social. A *crena pueril
          em uma difuso igualitria da cultura+ era inaceitvel.
               Em 1934, numa circular enviada a todos os professores, 
o Estado Novo definia a escola pri-
          mria: * o viveiro de que uma sociedade dispe para 
cultivar os valores ticos e profissionais
          de que precisa e ensaiar o homem que lhe convm+. 
Reconhecia, por conseguinte, como bsi-
          ca afuno socializante da escola.
               Um dos objectivos deste artigo consiste em analisar o 
tipo de homem que o salazarismo ten-
          tava *ensaiar+. [...           1


               *Os homens no nascem iguais+: o debate sobre a escola 
nica

               Alguns socilogos contemporneos mostraram como as 
sociedades industriais avanadas
          utilizam o sistema escolar para legitimar as desigualdades 
sociais, fundando-se na ideologia
          meritocrtica segundo a qual as posies privilegidadas so 
acessveis a todos os indivduos de
          igual talento. As sociedades democrticas, em especial os 
Estados Unidos da Amrica, sentiram
          a necessidade de justificar as profundas desigualdades 
econmicas que nelas se mantm,
          apesar dos proclamados ideais de liberdade, fraternidade e 
igualdade. Uma das formas pos-
          sveis de justificao residia em explic-las por 
diferenas individuais inatas de capacidade inte-
          lectual, tal como reveladas pela seleco escolar. Sendo a 
transferncia de status por via
          hereditria condenada pela ortodoxia do poder, passou a 
considerar-se a diferenciao social
          como produto de aptides individuais.
               A viso salazarista da sociedade como uma estrutura 
hierrquica imutvel conduziu a
          uma concepo diferente do papel da escola: esta no se 
destinava a servir de agncia de dis-
          tribuio ou de deteco do mrito intelectual, mas 
sobretudo de aparelho de doutrinao. Para
          o salazarismo no havia, alis, qualquer razo para 
justificar as desigualdades econmicas, que
          eram inevitveis e institudas por Deus. E convinha at, 
pelo contrrio, rebater asfalsas ideias
          do passado que apresentavam a escola como a *grande 
niveladora+. Salazar afirmava mesmo
          categoricamente que a educao, s por si, pouco nivelaria, 
ou seja, que numa sociedade
          naturalmente hierarquizada, a educao pouco poderia 
contribuir para uma maior igualdade.
               Contudo, antes de a ortodoxia ser imposta pela fora 
(isto , at cerca de 1932), houve um
          perodo de violento debate sobre as vantagens, limitaes e 
perigos da escola nica. A polmica
          foi crucial, tanto para situacionistas como para 
republicanos, porque levantava as questesfun-
          damentais da igualdade e da democracia.
               A imprensa republicana e os jornais operrios 
defendiam que a escola primria devia, acima
          de tudo, promover a igualdade e, portanto, recrutar alunos 
em todas as classes sociais. Para os
          jornais nacionalistas tratava-se precisamente de 
desacreditar estas ideias. Em seu lugar, o
          Estado Novo propunha a teoria de uma hierarquia natural e 
eterna e de um sistema escolar
          naturalmente discriminatrio.
               Os defensores da escola nica visavam principalmente 
trs objectivos: a igualdade de
          acesso  instruo, a gratuidade dela e a criao de um 
sistema de orientao vocacional.

          Todas as crianas, ricas ou pobres, raparigas ou rapazes, 
do campo ou da cidade, deviam gozar
          das mesmas oportunidades educacionais. A escola nica 
permitir-lhes-ia subir *aos postos
          superiores da sociedade, consoante as suasfaculdades e 
aptides+, o que beneficiaria no s

158

o indivduo, mas tambm a sociedade: *E porque h-de ser cavador ou 
sapateiros, pergunta-
va A Repblica, *quem tiver inteligncia para muito mais?+. Numa 
palavra, a escola nica era
o cadinho de todas as classes, donde a harmonia social 
progressivamente emergiria.
     Fora este o sonho dos homens da revoluo de 1910, daquele 
legislador qiue garantia que os
Portugueses no tardariam a transformar-se numa *colmeia+ e a, 
pacfica e diligentemente, unindo *a
fora dos seus msculos, a seiva do seu crebro e os preceitos da sua 
moral+, criar uma nova Ptria.
     Para os republicanos, a escola nica por si s, sem mudanas 
polticas ou econmicas, asse-
guraria indubitavelmente a fraternidade e a felicidade universais. E 
porque  que se negava a
absoluta evidncia das vantagens da escola nica? Por uma ra@Zo 
simples, por causa do srdido
egosmo dos que viviam do trabalho alheio; em Portugal e noutros 
stios, como observava O
Ensino Primrio, transcrevendo a seguinte peroraro de um obscuro 
jornal francs: *nOs no
queremos a escola nica, porque no queremos que o povo ascenda 
verdadeiramente  maiori-
dade poltica e econmica, que ele tome plena e clara conscincia de 
todos os seus direitos e se
torne o nico senhor do seus destinos; ns queremos a manuteno duma 
classe dirigente. +
Os anarco-sindicalistas tinham obviamente menos con ana nas virtudes 
da escola nica, e
tambm menos a ganhar com um sistema educacional *ineritocrtico+.
     Em 1932, com medo das consequncias, j ningum gabava a escola 
nica e s se lhefaziam
referncias idirectas. Ojornal integralista A Revoluo vigiava, 
denunciando zelosamente os
professores *comunistas+, que insistiam em pensar nela, como alguns 
prqfessores da Escola
Normal de Coimbra, que por essa altura criminosamente pediram aos 
alunos uma redaco
sobre o assunto. A ortodoxia nacionalista vencera; a *escola para os 
ricos+ e a *escola para os
pobres+ haviam adquirido o ' estatuto de realidades imutveis. [ ... 
1
     A doutrina oficial declarava a igualdade impossvel e os regimes 
democrticos indesejveis
e contra natura, porque i .mpediam, na escola e na sociedade, que os 
*talentos+ brilhassem e se

desenvolvessem. Ao aniquilar a harmoniosa estrutura do ancien regime 
e ao erguer em seu lugar
o indivduo isolado e omnipotente, a democracia conduzia, em ltima 
anlise, ao comunismo.
Alm disso, as vrias classes sociais no tinham apenas capacidades 
desiguais, mas tradies e
necessidades prprias. A existncia de culturas de classe especficas 
(e hierarquizadas) serviu,
aos idelogos situacionistas, de novo argumento a favor de um sistema 
escolar diferenciado:
seria um erro crasso *dar ao quarto estado a instruo do terceiro, 
do segundo ou do primeiro+.
     No contexto portugus, ser-se educado segundo a posio social 
significava, acima de
tudo, aceitar a condio rural. Na verdade, a tnica nos valores do 
campo tornar-se-ia um dos
traos-chave da ideologia oficial. Em 1934, o primeiro Congresso da 
Unio Nacional deter-
minava taxativamente que o *ensino devia prender o homem  terra, 
dando-lhe elementos para
nela viver e a valorizaras. [...1
     A glorificao da vida rural tornou-se, assim, um dos pontos 
centrais da ortodoxia. Afinal
de contas, o prprio Salazar era *um filho do campo+, com saudades do 
*murmrio das
guas de rega+ e da *sombra dos arvoredos+. O poeta nacionalista 
Antnio Correia de
Oliveira sintetizou muito bem o ponto de vista oficial num poema que 
posteriormente viria a ser
includo no livro nico do Estado Novo:

                                   Minha terra, quem me dera
                                   Ser humilde lavrador;
                                   Ter o po de cada dia,
                                   Ter a graa do Senhor;
                                   Cavar-te por minhas mos
                                   Com caridade e amor

     A isto correspondia, como necessrio contraponto, o denegrimento 
da vida citadina.

                                        Maria Filornena Mnica, ob. 
cit.

                                                            159
                                                            %@s@
                                                            I\IV

                                        'URA DE
                                                            ... 
............

O ENSINO PRIMARIO EM PORTUGAL NOS ANOS 30

               A reduo da escolaridade obrigatria (1 930), a 
criao dos postos de ensino (1 931), a orien-

     96. M         ao do ensino pela moral crist (1935) e a 
simplificao dos programas (1929-1937) so
     algumas das medidas que ilustram bem a poltica educativa do 
Estado Novo. Esta lgica
     minimalista procura levar a escola ao conjunto da populao, sem 
desencadear novas expec-
     tativas sociais e minimizando os efeitos de uma hipottica 
utilizao do capital escolar como
     factor de mobilidade social. Os debates travados entre 1933 e 
1938, quinqunio de acesas pol-
     micas sobre a reforma escolar, documentam deforma exaustiva a 
vontade de instaurar meca-
     nismos de controlo e de seleco no acesso aos diferentes nveis 
de ensino.

               Seguindo o guio dos quesitos apresentados  comisso 
nomeada em 1933, constata-se a
          definio de quatro fins ltimos da poltica educacional 
num Estado nacionalista:

               1.' Garantir e impor uma instruo mnima a todos, o 
que obriga a conceber o ensino primrio
               deforma mais simples (ao alcance de todos) e a 
dedicar-lhe uma ateno privilegiada.
               2.'Escolher os mais capazes, separando-os logo que 
possvel dos *incapazes de ascenderem
               aos graus superiores de cultura+, diversificando os 
mecanismos de seleco escolar
               3.' Orientar os estudantes no sentido das suas 
*naturais vocaes+, isto , no sentido da rea-
               lizao dos seus *destinos sociais+.
               4.' Fixar de antemo as necessidades do Estado e da 
colectividade em matria de diplo-
               mados, criando restries frequncia de certos graus 
e modalidades de ensino.

               Para alm dos dispositivos internos ao sistema 
educativo, o Estado Novo serve-se de um dis-
          curso de matriz moralizante para limitar os efeitos sociais 
da escolarizao. As referncias
          morais realam a simplicidade e a humildade, criticando as 
ambies pessoais e as expectativas
          de mudana. As palavras de Salazar exprimem bem esta 
atitude:

               *Oio muitas vezes dizer aos homens da minha aldeia: 
*Gostava que os pequenos soubessem
          ler para os tirar da enxada. + E eu gostaria bem mais que 
eles dissessem: * Gostaria que os peque-
          nos soubessem ler, para poderem tirar melhor rendimento da 
enxada. + Precisamos convencer o
          povo de que afelicidade no se consegue buscando-a atravs 
da vida moderna e dos seus artif-
          cios, mas procurando a adaptao de cada um s 
caractersticas do ambiente exterior +

               O ensino primrio procura vivificar o lugar que cada 
um ocupa na ordem social. O projecto

          comporta uma dimenso integradora, que fomenta a coeso 
moral, no quadro de um respeito pelas
          hierarquias vigentes. A apropriao do patrimnio escolar 
devefazer-se no sentido defertilizar a
          situao presente, sem alimentar pretenses a uma mudana 
deposio. Os programas de ensino
          e as estratgias pedaggicas promovem a adeso a normas e a 
valores coerentes com esta atitude.

                                                       F. Rosas. ob. 
cit.

A ESCOLA NACIONALISTA

          A                         O ano de 1936 marca um ponto de 
viragem na poltica educativa. A fase que se estende at
               ao ps-guerra caracterizasse pela tentativa de 
edificao da escola nacionalista, baseada
               numaforte componente de inculcaro ideolgica e de 
doutrinao moral: a escola  investido
               *principalmente como uma agncia, no de transmisso 
de conhecimentos (instruo), mas de
               formao da conscincia (educao)+.
               A imagem educativa do Estado Novoficou associada a 
estafase e a algumas das medidas
          ento tomadas: adopo da designao de Ministrio da 
Educao Nacional, imposio do livro
          nico, criao da Mocidade Portuguesa e da Obra das Mes 
pela Educao Nacional, etc.

160

A eficcia do esforo de construo nacionalista da educao mede-se 
no tanto pela obra rea-
lizada mas sobretudo pela capacidade de atribuio de sentidos  
aco escolar e  poltica
educativa. Carneiro Pacheco compreendeu que as transformaes 
educativas precisam de
um discurso de suporte e que a linguagem reformadora no  apenas um 
instrumento de
poder mas tambm uma tecnologia que mediatiza a distribuio do poder 
[...         1
     A afirmao nacionalista do primado da educao sobre a 
instruo comporta uma dimen-
so moral e poltica, que refora a vertente de enquadramento da 
escola, bem explicitada por
Gustavo Cordeiro Ramos num discurso de 1936:

     *Alargou-se a aco da escola, cujofim no  apenas ensinar, mas 
sobretudo educar e edu-
car politicamente, no sentido nobre da palavra, isto , transmitir 
conhecimentos que no con-
trariem, antesfavoream osfundamentos morais do Estado. +

     Muito importante para a compreenso deste momento  a recusa do 
*estril enciclopedismo

racionalista+, que significa na prtica a reduo dos programas de 
ensino s aprendizagens
escolares de base e a valorizao dos envolvimentos morais e 
religiosos. Esta atitude dificul-
ta o investimento da escola como espao de mobilidade, acentuando as 
lgicas da conformao
social.
     A estabilidade dos consensos internos dispensa o Estado Novo de 
buscarfontes externas de
legitimaro, o que contribui para provocar um corte com os movimentos 
educativos alm-fron-
teiras. Coincidindo com a afirmao de uma pedagogia nacionalista e 
conservadora, a exclu-
so das redes internacionais de circulao de ideias e de produo de 
prticas conduz a um
grande empobrecimento do tecido educacional portugus.

                                   F.   Rosas, ob. cit.





O DEBATE SOBRE *EDUCAO+ VERSUS *INSTRUO+

     A anlise do debate sobre a escola nica permitiu revelar a 
funo, que os salazaristas atri-
buam  escola, de perpetuar uma hierarquia social rgida. A anlise 
do debate sobre *educao+
versus *instruo+ permitir observar como se imps um novo currculo 
religioso nas escolas.
     Os republicanos orgulhavam-se de ter substitudo Deus pelo ABC. 
O Estado Novo pretendeu,
exactamente com o mesmo zelo, repor Deus no lugar do ABC. A oposio 
entre *instruo+ e
*educao+ reaparece - a primeira supostamente visando o treino do 
intelecto e a segunda a
formao do carcter [...    1 Os salazaristas apontavam  escola o 
objectivo de incutir a *vir-
tude+, e no o de dar um treino profissional ou transmitir 
conhecimentos teis. A questo era
posta nos seguintes termos: *Ser a instruo suficiente para as 
nossas crianas?+ E o racio-
cnio simples. Comeava-se pelo pressuposto de que a instruo no 
representava necessari-
amente um bem; da resultava, como  evidente, que a falta de 
instruo no representava
necessariamente um mal. Os primeiros portugueses, apesar de 
analfabetos, tinham muitas vezes
uma estatura moral muito superior  dos contemporneos. *Hoje+, 
escreveu Alfredo, Pimenta,
*uma pessoa bem educada, correcta, atenciosa, ocupando 
conscienciosamente o seu lugar e
mantendo as distncias legtimas  o l vem um!+. Por regra, porm, 
notava~se cuidadosamente
que no se estava a elogiar o analfabetismo enquanto tal, mas apenas 
a reconhecr ofacto bvio
de os analfabetos poderem ser pessoas boas e morais: *De forma 
nenhuma vamos dizer que se

devam fechar as escolas e que  aconselhvel o analfabetismo. No. O 
que desejamos frisar 
a distino afazer entre instruir e educar, sublinhando at que, 
muitas vezes, a instruo, s por
si,  prejudicial e vai destruir o trabalho da educao. + Claro que 
havia quem advogasse o

                                                            1 61

               A IRRADL4O DA CULTURA DE MASSAS                     
          W

          analfabetismo, uma posio excessivamente extremista para 
muitos. Os salazaristas ortodoxos,
          no entanto, limitavam-se a pedir a restaurao do velho 
sistema de valores morais dentro da
          sala de aula.
               Tratava-se, na prtica, de introduzir no currculo 
primrio os *bons costumes+ e, para tanto,
          era preciso distinguir entre *boa+ e *m+ *instruo+, 
isto , entre *bons+ e *maus+ profes-
          sores e, em ltima anlise, entre *bons+ e *maus+ 
portugueses. No  dificil imaginar como se
          utilizavam estes objectivos: *bons+ eram a instruo e os 
professores nacionalistas e *maus+
          os correspondentes laicos, republicanos ou bolchevistas. 
Nem sequer havia necessidade de
          negar o valor da instruo: bastava separar o *trigo+ do 
*joio+.
               A imprensa nacionalista, sobretudo As Novidades e A 
Voz, incitava continuamente o
          Governo a purgar o currculo escolar A acreditar no que 
dizia, por toda a parte *ms+ esco-
          las corrompiam a juventude, professores *comunistas+ 
minavam os fundamentos do Estado
          Novo e o saber *corrosivo+ destrua as mais sagradas 
tradies protuguesas. [...                   1
               Quando, em 1927, foi fechada a Unio dos Professores 
Primrios, Fernando de Sousa
          anunciou at a tremenda descoberta de uma organizao 
filiada na III Internacional, cujo
          objectivo consistia em converter todos os professores 
primrios em agentes de propaganda da
          doutrina anti-social do bolchevismo. J ento eram 
evidentes os sintomas da histeria antico-
          munista que depois viria a reinar Uma vez, um ex-ministro 
da Instruo interrompeu um dis-
          curso de Salazar sobre os perigos da infiltrao comunista, 
exclamando nervosamente: * a
          escola, Sr Presidente do Ministrio,  a escola+.
               A *boa+ instruo acabou gradualmente por se reduzir 
s mais rudimentares tcnicas
          intelectuais, ou seja, ao *ler escrever e contar+. E 
estafoi a doutrina (e a prtica) que preva-
          leceu at muito depois da Segunda Guerra Mundial. [...     
            1

               O que valorizava o currculo,  margem dos textos de 
leitura, ou antes, neles integrada, era,
          assim a doutrina crist; s por ela o saber se 
tornariafrutuoso e til. Para aprender a ler tinha
          de se ler alguma coisa e esse *alguma coisa+ devia ser o 
catecismo.
               A reforma de Carneiro Pacheco, de 1937, coroou todas 
as tentativas anteriores de cristia-
          nizar a escola e realizou as aspiraes mais reaccionrias 
quanto  reduo do currculo esco-
          lar e  supremacia da religio no ensino. [...             
1
               E a religio inculcava nas crianas valores que 
correspondiam ao ideal salazarista da rela-
          o entre as classes sociais. Criavafuturos governantes 
esmoleres que sabiam dar semferir as
          susceptibilidades alheias; e futuros cidados resignados e 
agradecidos, aptos *a aceitar sem
          relutncia, antes com reconhecimentos. Ensinava s 
crianas, no apenas a amar o Menino
          Jesus no prespio, mas tambm a respeitar os pais, os 
professores e os governantes. Deus, alis,
          aparecia nos livros de leitura da escola primria na verso 
do Supremo Juiz e Governante; e a
          insitncia na sua omnipotncia e omniscincia nada tinha de 
acidental.
               A religio era *o sperofireio+ que impedia as piores 
aberraes do esprito e desordens da
          sociedade. Como afirmava no seu estilo caracteristicamente 
fantico Fernando de Sousa:
          *Ou os mandamentos de Deus ou os satnicos ditames da 
judiaria bolchevista+. Foram, sem
          surpresa, os mandamentos. Ao contrrio de certos regimes 
totalitrios, o Estado Novo adoptou
          voluntria e entusiasticamente a ideologia tradicional, 
fazendo reviver o velho Portugal da
          Reconquista e das Descobertas, de homens patriticos e 
devotos, Durante a sua vignci                     .          a, os
          cidados semfforam suspeitos e mesmo acusados de serem 
portugueses *incompletos+. [...                         1
          Em Abril de 1936, o ABCJi legalmente derrotado por Deus: 
*Em todas as escolas pblicas
          do ensino primrio infantil e elementar+, estipulava a Lei 
n.' 1941, *existir, por detrs e acima
          da cadeira do professor, um crucifixo, como smbolo da 
educao crist determinada pela
          Constituio+. Como muitos outros regimes conservadores, o 
Estado Novo determinava que a
          melhor - na realidade, a nica - instruo para os pobres 
era a religio.

                                             M.' Filomena Mnica, ob. 
cit.

162

A INCULCAO DE VALORES A PARTIR DAS PRIMEIRAS LETRAS

A

                                        ta as autoridade,

                                     a autoridade na famlia, O@
                              Os s    (@?rigados_ a tcr-lhe amor, 
res-

             Pel o e ( edincll,

                                                    O PM essor  a 
autoridade na escola.
                                                  Todos Os meninos 
devem obedecer s suas
                                                  Or@ens e estar com 
ateno s suas, lies.
     f                                          E Deus quem nos 
manda

     ela ,,(, eles
     alto        altar altura
     Lusitos!            Lusitas

          Vva Salazar!





              A cantina escolar

                              Gostei tanto de ir hoje  escola, m-
                         nha me! A senhora professora estava
                         muito contente, porque inaugurou uma
                         cant'na, onde os meninos pobres podem
                              11

                         almoar de graa. Se visse, Mezinha! As
                         mesas muito asseadas, os pratos branqui-
                         nhos, jarras floridas e tudo to alegrei
                         A sopa chei ava que era um regalo; e

                     Ir

                         todos ns estvamos satIsfetos, ao ver
                         obrezinhos matar a fome.
                         OsJfilho do carpinteiro, a quem eu s vezes
                         dava da minha merenda, de vez em quando
                         ria-se para ns, como que a dizer:
                         -Est ptima a sopinha!

     Pergunte'  senhora professora quem
                      1

                         tinha feito tanto bem  nossa escola e ela
                         respondeu-me:
                              -Foi o Estado Novo, que gosta muito
                         das crianas e para elas tem mandado
                         fazer escolas e cantinas, creches e parques.
                         Mas as familias que possam tambm devem
                         ajudar. No'te esqueas de o dizer  tua
                         me.




O Livro da Primeira Classe (]'edio, 1941), adoptado como livro 
nico durante largos anos

                                                            163

A INCULCAO DE VALORES A PARTIR DAS PRIMEIRAS LETRAS

A

                                        tai as autoridades

                                         a autoridade na famlia.
                                   fil      o                        
        O@

     l obrigados a ter-lhe amor, res-
peito e obedi - i

                                                       nci;1.
     O professor  a autoridade na escola.
Todos os meninos devem obedecer s suas
ordens e estar com ateno s suas, lies.

s manda r@@peItar os
r s autoridades,


ela       eles
altO      altar altura
Lusitos!  Lustas
                        c

          Viva Salazar!







                      D

              A cantina escolar

     Gostei tanto de ir hoje  escola, mi-
nha m& A senhora professora estava
muito contente, porque inaugurou uma
cantina, onde os meninos pobres podem
almoar de graa, Se visse, Mezinha! As
mesas muito asseadas, os pratos branqui-
nhos, jarras floridas e tudo to alegrei
A sopa cheirava que era um regalo; e
todos ns estvamos satisfeitos, ao ver
os pobrezinhos matar a fome.
     O filho do carpinteiro, a quem eu s vezes
dava da minha merenda, de vez em quando
ria-se para ns, como que a dizer:
-Est ptima a sopinha!
     Perguntei  senhora professora quem
tinha feito tanto bem  nossa escola e ela
respondeu-me:
     -Foi o Estado Novo, que gosta muito
das crianas e para elas tem mandado
fazer escolas e cantinas, creches e parques.
Mas as famlias que possam tambm devem
ajudar. No te esqueas de o dizer  tua

me.

O Livro da Primeira Classe (]'edio, 194 1), adoptado como livro 
nico durante largos anos
     ... .. . ... .......................     . .....

163

A ESCOLA, VECULO DA TRANSMISSO DE VALORES

     A Mas como eram, ento, transmitidos valores diferentes aos 
rapazes e raparigas portugueses
          socialmente diferenciados? Como eram os rapazes ricos 
socializados parafuturos dirigentes e
          os pobres para aceitarem a hierarquia social, a partir da 
mesma base material ideolgica -9
               A resposta est em que, embora a base material 
ideolgicafosse inegavelmente a mesma -
          o livro nico -, as mensagens que ela veiculava no 
coincidiam. A sua *leitura+ era condicio-
          nada pela posio social dos alunos. Analisando os textos, 
verifica-se que, na sua maior
          parte, os valores so apresentados em bipolaridade, o que 
permite  criana identificar-se
          espontaneamente com um dos plos. A histria da criana 
rica que d um brinquedo a uma cri-
          ana pobre como presente de Natal constitui um exemplo 
perfeito. Os valores propostos no texto

          no se limitam  caridade, incluem a gratido. A reaco 
imediata inconsciente de cada criana
          seria muito provavelmente identificar-se com a criana da 
histria cuja posio fosse idntica
           sua. Os futuros dirigentes eram assim doutrinados para 
serem caritativos e bondosos,
          enquanto os futuros governados aprendiam *a aceitar sem 
relutncia antes com reconheci-
          mento+, como determinava o legislador
               Passemos, agora, a analisar pormenorizadamente os 
valores bsicos transmitidos pelo
          currculo primrio. Em Maio de 1936, da varanda do quartel 
de Infantaria 8 em Braga,
          Salazar proferiu as seguintes palavras, que sintetizam os 
pri . ncpi . os fundamentais do Estado
          Novo: *No discutimos Deus e a virtude; no discutimos a 
Ptria e a sua Histria; no dis-
          cutimos a autoridade e o seu prestgio; no discutimos 
afamlia e a sua moral; no discutimos
          a glria do trabalho e o seu dever+. Esta declarao de 
princpios constitui um excelente meio
          de organizar a anlise do contedo escolar, mesmo que no 
se respeite rigorosamente a sua
          ordem de exposio. Comear-se- por *Deus, autoridade, 
famlia e trabalho+, deixando a
          *Ptria e a sua Histria+ para mais tarde. Os primeiros 
elementos traduzem o tipo de sociedade
          que Salazar procurava criar; os segundos, a sua 
reinterpretao do passado nacional.

               *Deus, Autoridade, Famlia, Trabalho+ - A imagem da 
sociedade

               Os principais valores que o salazarismo procura 
inculcar - obedincia, resignao, cari-
          dade - constituam as virtudes tradicionais que a Igreja 
vinha ensinando havia sculos. A dou-
          trina era uma e a mesma. Deus  omnipotente e todo o poder 
deriva em ltima anlise d'Ele;
          logo, em Seu nome, e por Sua vontade, Salazar presidia aos 
destinos do povo portugus.
          Obedecer ao governante escolhido pelo Senhor, como o 
cardeal Cerejeira insistia em recordar
          aos portugueses, no passava de obedecer a Deus. Como se 
lia alis no livro de leitura da 1.'
          classe: * Deus quem nos manda respeitar os superiores e 
obedecer s autoridades+. Aos olhos
          do Estado Novo, nenhum mandamento excedia o quarto em 
importncia: a obedincia ocupa-
          va o eixo das virtudes.
               Basta percorrer os textos para verificar a nfase 
posta na obedincia. Um dos exemplos mais
          ntidos  provavelmente o seguinte, extrado do livro de 
2.' classe: *Na escola tinha a senhora
          professora explicado  Isabel que todos ns precisamos de 
obedecer queles que tm o direito de
          mandar Isabel, ao chegar a casa, contou ao pai que a 
senhora lhe havia dito que no era pos-

          svel a vida entre os homens sem autoridade. + O pai, 
extremoso, considerou o assunto mais aten-
          tamente. Em seguida, disse solenemente filha que *ele, que 
era operrio, obedecia ao capataz;
          o capataz obedecia ao engenheiro, o engenheiro obedecia ao 
dono da fbrica e o dono da
          fbrica  leifeita pelo Governo da Nao+. Nesta altura, 
afilha, arrebatada por assunto tofas-
          cinante, indagou a quem obedeciam os governantes. A 
resposta foi tranquilizadora: *Obedecem
           sua conscincia de homens dignos, formada no amor sincero 
de Deus, da Ptria e da Famlia+.
          O texto acabava com uma afirmao reconfortante, *Isabel 
nunca mais esqueceu estas palavras+,
          o que constitua simultaneamente uma ordem, uma advertncia 
e um desejo.

164

     Para o Salazarismo, existia uma natural cadeia de comando, uma 
hierarquia disposta por
Deus [...  1.
     Nunca se perdia uma oportunidade para enaltecer a pobreza como 
uma virtude em si pr-
pria, porque, como as crianas repetiam obedientemente com o 
professor *Amar a pobreza
agrada ao Senhor+. [...    1.
     Em contrapartida, a riqueza legitimava-se pelo trabalho aturado. 
         A vida do campons
era a mais honrada efeliz de todas as vidas. [...   1 Numa sociedade 
idealizada, assente na ima-
gem da famlia, o lar acupava obviamente um lugar central. Como os 
governantes, os pais
representavam Deus na Terra. [...    1
     E, de maneira geral, os livros nicos demonstram 
monocordicamente como osfilhos devem
obedincia aos mais velhos - pais, avs e outros parentes - e como os 
mortos devem ser vene-
rados, visto que os vnculosfamiliares so *os elos de uma longa 
cadeia ligada pelos laos do
sangue, do afecto e at do interessei. A tnica recai na unidade e na 
continuidade, assim como
no valor dafamlia e do lar comofonte de imenso conforto e amor
     A famlia,  semelhana da sociedade, formava um todo harmnico, 
sem vestgios de plu-
ralidade ou de conflito. O lar aparecia invariavelmente como o locus 
dafelicidade. [...      1
     O lar que se descreve  sempre, como no exemplo acima, o lar 
campons idealizado, onde,
nas palavras de um narrador tpico, o *pai se senta  lareira efala 
dos trabalhos do campo+ e
a *me, depois de arrumar a cozinha, se senta a coser roupa ou afazer 
meia ... +.
     A concrdia social e a felicidade dependiam igualmente de uma 
salutar diferenciao dos
sexos: cada classe e cada sexo no seu lugar *natural+. Dado que se 
pensava que os papis do

homem e da mulher eram radicalmente diferentes, dever-se-ia inculcar 
a rapazes e raparigas ensi-
namentos e valores distintos. A funo principal das raparigas 
consistia em proporcionar ao lar
uma atmosfera de *conforto, calma e bem-estar+. Grande parte da sua 
socializao nesse papel
era, na realidade, feita na prtica: as raparigas substituam as mes 
em muitas tarefas domsti-
cas e ao mesmo tempo iam gradualmente aceitando a sua posi . o de 
subordinaofeminina. [... 1
O filho era naturalmente moldado  imagem do pai - *obediente  ... 
lei (de Deus), bom
1 e til  Ptria+. Profissionalmente, propunham-se como modelos 
trabalhadores rurais,
artesos, pastores e at, por vezes, caixeiros [...  1.
     Os textos que versavam directamente temas polticos e religiosos 
tomaram-se muito maisfre-
quentes nos livros nicos dos anos 40. No novo livro da ].'classe, 
por exemplo, exemplificavam-
-se as letras L e M com as seguintes frases: * Viva Salazar+ e * O 
Ms de Maria+. Muitas pgi-
nas eram igualmente preenchidas com demonstraes de gratido pelas 
incontveis realizaes
do Estado Novo. A pergunta imaginria de uma criana sobre quem 
beneficiara tanto com a sua
escola, dava-se a seguinte resposta: *Foi o Estado Novo, que gosta 
muito das crianas e
para elas tem mandadofazer escolas e cantinas, creches e parques+.
     No quer isso dizer que no houvesse doutrinao poltica antes 
de meados da dcada de 1940-
1950, porque havia. Assim, por exemplo, em 1938foram distribudos 
pelas escolas 84 000 exem-
plares de sete desenhos com comentrios sobre a obra gloriosa de 
Salazar, como material para as
aulas de leitura. Estas gravuras, que acabaram porficar penduradas 
nas paredes durante anos,
pretendiam ilustrar a aco do chefe do Governo nos campos 
dasfinanas, estradas, portos, res-
taurao de monumentos, foras armadas, *justia social+ efamlia, 
partindo do esquema simples
do *antes / depois+. Como exemplo do tom propagandstico dos textos, 
bastar transcrever o
seguinte passo: *Portugal  hoje dos pases mais bem governados em 
todo o mundo, e todo o
mundo, por isso, exalta a obra de Salazar Admiremos a sua 
inteligncia, o seu saber, a seriedade
com que ele falou ao Pas e a verdade com que cumpriu todas as suas 
promessas+.
     No entanto, e apesar disto, antes de aparecer o livro nico, a 
doutrinao poltica directa era
menos organizada e evidente do que seria depois.

                                             M.' Filomena Mnica, ob. 
cit.

                                                            165

                                             . . . . ... ... 
.................... ------

          O *PARIS-SOIR+ E AS INOVAES NA IMPRENSA

                                                            
.................

                    Quando se prepara a volta  Frana de 1934, o 
Paris-Soir no hesita em revelar todos os
               seus segredos:

                    *Logo que a cpia  batida  mquina nos trs 
torpedos* a bordo dos quais Gaston Bnac,
               Baker dIsy, G. Villetan e Latour seguem a corrida,  
enviada pelo telefone, *veiculada+ por
               poderosas motos guiadas pelos campees Joly e Schulz. 
Os operadores fotgrafos Gillet e
               Tharce transmitem asfotos que acabaram de tirar pelas 
vias mais rpidas, o belino e o avio.
               ]+

          A 18 de Dezembro de 1935, eis ainda mais novidades:

                    * Uma inovao sensacional na imprensa francesa: 
Paris-Soir Domingo. A partir de sbado
               prximo, todos os sbados, dois Paris-Soir sero 
postos  venda: o Paris-Soir ordinrio a
               0, 25 e o Paris-Soir Domingo a 0, 50. Trata-se muito 
simplesmente do jornal norma a que se jun-
               taro dez pginas de concepo e apresentao 
inteiramente novas, tratando os assuntos mais
               diversos e os mais interessantes, reunindo as 
assinaturas mais clebres, ilustradas com as
               mais belas fotografias e desenhos dos melhores 
desenhadores. +

                                   R.   Barillon, Le Cas Paris-Soir, 
A. Colin, 1959.




TIRAGEM DE JORNAIS (em milhares de exemplares)


                     1940

Wstados Uni      28    41

  Frana        1 o    12

@Gr-Breta       8  17,6
             a





O LUGAR DOS JORNAIS DE PROVNCIA NA IMPRENSA FRANCESA
(de 1832 a 1939 em percentagem de tiragens)

                                   50 -
                                   40 -
                                   30 -
                                   20 -
                                   10
                    1832             1867 1880                 1914  
      1939



166
                                                         AGENCIAS
,sal     Frana (fundada em 1835).                     NOTICIOSAS
                         Gr-Bretanha (fundada em 1851).
      Estados Unidos (fundada em 1848).
      Estados Unidos (fundada em 1907).
           URSS (fundada em 1918).

                                   B.   Voyenne, Lu Presse dans Ia 
Socit Contemporaine, A. Colin, 1962.


          PUBLICIDADE NA IMPRENSA                     FRANA, 1938

          (Percentagem de espao publicitrio ocupado)

                                                            29,87%
                                                            17,46%
                                                            8,85%
                                                            7,28%

                                                            5,43%
                                                            5,18%

                                                            4,35%
                                                            4,20%
                                                            3,30%

          IT rSOS                                                    
14,08%

                                                                 
Segundo Th. Zeidin.


                      CIRCULAR URGENTE DA DIRECO-GERAL
DOS SERVIOS DE CENSURA A IMPRENSA - AGOSTO DE 1931

     *Directivas -As comisses de censura tero em vista que:
     L'A imprensa [...     1  o mais poderoso e eficaz meio de 
propaganda. Por isso mesmo tem uma
complexa e elevada misso social a cumprir de que os governos se no 
podem alhear e a que cor-
respondem iniludveis deveres em relao ao Estado e sagrados 
direitos que no  lcito negar,
     2.'A Ditadura Militar prope-se conseguir a reabilitao moral 
da Repblica Portuguesa e a res-
taurao financeira e econmica da Nao. [...      1
     4.'A censura prvia  o meio indispensvel a uma obra de 
reconstruo e saneamento moral.
Vivendo de uma ideia de justia, no deve gerar a violncia; para 
tal, deve  sua aco presi di . r um
critrio slido, elevado e coerente, o que no exclui o indispensvel 
rigor na serena masfirme apli-
cao das instrues presentes. [...   1
     13.'Asforas morais da Nao, garantia do seu progressivo 
engrandecimento, no podem estar
 merc de influncias deletrias, de doutrinas doentias e actos 
criminosos de fcil poder de sugesto,
cuja publicidade deve ser reduzida a um mnimo compatvel com a 
funo informadora da imprensa.
     14.'A obra de reconstruo nacional exige de todos os sectores 
da vida pblica portuguesa o
mais acrisolado amor  ordem que  imprensa pertence manter e no 
destruir.
     15.'A liberdade de imprensa, justamente compreendida, no 
implica o uso de linguagem des-
pejada, do insulto soez e da grave injria s crenas religiosas de 
cada um.
     16.'A imprensa pertence o principal na acalmaro dos espritos, 
no esquecimento dos dios e
paixes, congregando os esforos de todos os portugueses para o bem 
da Nao. A luta irritante sem
elevao nem critrio, a campanha acintosa e apaixonada geram a 
desconfiana, o dio e o atentado.
17.' O alarme na opinio pblica, provocando a desordem nos 
espritos, gera a indisciplina e perturba
a ordem nas ruas. A imprensa que o provoca abusa o seu direito e 
esquece o seu mais instante dever.
     18.' Umjornal inteligentemente dirigido pode ser ptimo auxilio 
em diligncia de servios de policia.+

                                   F.   Rosas, ob. cit.

                                                            167

A IMPRENSA EM PORTUGAL

                  Quadro 1
           Publicaes peridicas





416   37  298   75         6  213  116  57   10   8    12

...  ...  ...  ...       ...  ...  ...       ...  ...  ...
417   39  304   59        15  196  129  49   7    7    29
431   39  283   99        10  228  104  58   15   9    17
466   39  288   91        48  205  104  56   13   10   78
464   42  314  100         8  237  117  67   11   8    24
530   38  342  134        16  281  125  67   10   10   37
543   37  376  108        22  273  132  57   5    10   66
...  ...  ...  ...       ...       ...  ...  ...  ...  ...
...  ...  ...  ...       ...  ...            ...  ...  ...
          ...  ...       ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...
...  ...  ...  ...       ...  ...  ...  ...  ...  ...


...  ...  ...  ...       ...  ...  ...  ...  ...  ...  ...
...  ...  ...  ...            ...  ...  ...  ...  ...  ...
414   36  251       127       ...       ...  ...  ...
439   43  294       102       ...  ...  ...  ...  ...  ...
498   44  321       133       ...  ...  ...  ...  ...  ...
422   44  259       119       ...  ...  ...  ...  ...  ...
480   55  272       153       ...  ...  ...  ...  ...  ...
503   42  305       156       ...       ...  ...  ...  ...
532   36  283       213       ...  ...  ...  ...  ...  ...
471   53  267       151       ...  ...  ...  ...  ...  ...
471   47  289       135                      ...  ...  ...
487   41  309       137       ...  ...  ...  ...
512   44  264       204       ...  ...  ...  ...  ...  ...
483   34  285       164       ...  ...  ...  ...  ...  ...
691   31  398  156       106  105  174  246  18   17   131
662   30  371  156       105  90   190  225  16   25   116


          Fonte: Anu,i, Ettti,, de Po,tugal, anos de 1904-1905 a 
1930. Como  fcil de verificar, estes nmero, afa,ta-e m tanto das 
tabelas dadas
           estampa pelos Anais das Bibliotecas , A,quivos.



                  Quadro 11
           Publicaes peridicas


        Anos                                      T

                                                634   51  348  200   
35
                                                653   58  319  204   
72
                                                ...  ...  ...  ...  
...
                                                750   41  325  280  
104

                                                667   47  324  247   
49

Fonte: A,,.i, das Bibliote-  A,quivos, 1921 a 1925.

Citado em A. H. Oliveira Marques e outros, Portugal - Da Monarquia  
Repblica.



168

                                                            ,ler

                     w~

                         O PAPEL DA RADIO SEGUNDO UM JORNALISTA

     A rdio  demasiado generosa. Desvaloriza os seus tesouros 
espalhando-os gratuitamente
sobre a via pblica      Ela mistura, sem interrupo, como um orgo 
da Berbria, as trag-
dias, os dramas lricos e sinfonias sublimes misturadas, alm do 
mais, com todos os desperd-
cios do caf-concerto. Diminui assim perigosamente as sedues das 
obras de arte. Toda a gente
pode, doravante, tratar por tu os grandes aristocratas do pensamento. 
O proprietrio do bar
mais mal afamado no tem mais que girar o boto para chamar como 
criados, Debussy,
Racine, Chopin, Verlaine, Mozart ou Musset, cujas vozes puras, se 
misturaro com conversas
devassas, at ao momento em que a clientela reclamar a expulso 
brutal destes maadores.
     Tanto  desejvel ver a beleza colocada  porta de toda a gente, 
como  perigoso despojar
as obras-primas da aurola de respeito a que tm direito. Neste 
domnio, a rdio tem diaria-
mente graves responsabilidades. Antes que um automatismo terrvel 
tenha tornado este esfor-
o impossvel,  preciso rever cuidadosamente todos os maquinismos e 
todas as cordas da for-
midvel engrenagem radiofnica, que deve ser nossa escrava e no 
nossa mestra.

     E.   Vuillermoz (1938), citado em La Rvolution des changes au 
XXe sicle - La documentationftanaise, 1975.


                      



          IFR^AIS








                                             O aparelho de rdio nos 
anos 30

     O aparelho de rdio em 1925.
          lustraro de Gyp

                                                                     
            O PODER DA      RDIO

   A experincia radiofnica de Welles talvez no tenha sido menos 
decisiva para a sua obra

cinematogrfica que a sua experincia teatral. [ ... 1 No entanto, 
ignora-se geralmente o quan-  MIM
to a incrvel aventura da invaso imaginria de New Jersey pelos 
marcianos tinha sido pouco      WEENML
premeditada.
   Desde a poca do Federal Theatre, Welles era uma vedeta da cadeia 
C. B. S. (Columbia
Broadcasting System) onde tinha adquirido cada vez mais liberdade. 
Desde 1938, ele dirigia a
uma emisso semanal na qual participava a sua companhia de teatro: 
The Mercury Theatre on
the Air Essa emisso devia apresentar em cada semana, com Welles como 
responsvel, uma
adaptao de uma obra clssica. Depois de A Ilha do Tesouro, Jane 
Eyre, O Homem que Era
Quinta-Feira, Jlio Csar, A Volta ao Mundo em 80 Dias, e algumas 
outras emisses sobre
assuntos que no deram escndalo, Welles teve a ideia de pr no ar 
uma obra de *fico cien-

                                                            169

               11RRAD1AA@

          tfica+, como se diria actualmente. Ele pensou 
imediatamente em livros tais como Le Nuage
          Pourpre, de Shiel, e Le Monde perdu, de Conan Doyle, antes 
de se decidir pela Guerra dos
          Mundos do seu quase homnimo, H. G. Welles.
               A emisso esteve quase a no se realizar j que a 
matria do livro pareceu, de incio,
          decepcionante aos adaptadores. Eles achavam essas histrias 
de marcianos completamente idio-
          tas. Mas Orson Welles, que dirigia os ensaios de Danton, 
deviafazerface ao seu contrato radio-
          fnico e no tinha muito tempo para mudar o programa in 
extremas. A 29 de Outubro de
          1938, desesperado com a mediocridade das gravaes dos 
ensaios, Welles pensa, com os seus
          amigos do Mercury, que o nico meio de dar um pouco de sal 
 histria  acentuar o realismo

          dos acontecimentos actualizando-os, e passa a noite a 
refazer a adaptao para lhe introduzir
          um carcter de autenticidade, situando a aco nos 
diferentes pontos da Amrica. O resultado,
          mesmo assim, no lhe parece brilhante e essa  tambm a opi 
. ni . ao de todos os que ouvem o lti-
          mo ensaio, actores e tcnicos. Mas  muito tarde para o 
melhorar
               Conhece-se a continuao da histria, e se o 
acontecimento no tivesse deixado marcas
          objectivas e sido objecto de verdadeiros estudos 
cientficos, teramos hoje dificuldade em
          acreditar na sua existncia e sobretudo na sua amplitude. 
Esse extraordinriofenmeno de
          esquizofrenia colectiva  escala de uma nao 
parecer-nos-ia desmesuradamente exagera-
          do pela publicidade ou pela lenda wellesiana. mas os factos 
a esto. Bastou que um locu-
          tor annimo anunciasse no decurso da emisso, como uma 
prioridade, a aterragem de
          marcianos em New Jersey, e depois que, de momento a 
momento, outras comunicaes do
          gnero e mesmo um discurso *dramtico+ do ministro do 
Interior, depois do presidente vies-
          sem confirm-la e agrav-la, para que milhares, depois 
centenas de milhares, enfim, milhes
          de ouvintes acreditassem nofim do mundo. As consequncias 
deste pnico tornaram-se cle-
          bres: as pessoas fugiam no importa para onde, as da cidade 
para o campo e ao contrrio.
          As estradas foram atravessadas em plena noite por inmeros 
automveis. Os padres foram
          chamados em confisso. Houve abortos espontneos, membros 
partidos na confuso, sn-
          copes: os hospitais e os centros psiquitricos j no 
sabiam como fazer face s suas res-
          ponsabilidades. Em Pittsburgh, uma mulher preferiu prfim 
aos seus dias do que ser violada
          por marcianos. No sul, rezava-se nas praas pblicas. As 
pilhagens comearam nas cidades
          meio abandonadas. Em New Jersey, chamou-se a Guarda 
Nacional. Vrios dias, seno
          semanas mais tarde, os socorristas da Cruz Vermelha e dos 
Quakers tinham ainda que ir, ao
          fundo dos Black Hills de Dakota, convencer infelizes 
famlias aterrorizadas de que podiam
          voltar para casa. Houve sem dvida, com Orson Welles, pelo 
menos um beneficirio desta
          histria colectiva: o honrado senhor Hadley Cantril, 
professor de psico-sociologia na
          Universidade de Princeton, que fez as delcias com o seu 
estudo e pde descrev-la numa
          douta obra como *a primeira mani stao de pnico moderno 
observada at esse dia

                     .f


          sobre materiais de pesquisa adequados aos socilogos+. 
Enquanto metade da Amrica
          enlouquecia e a polcia cercava o estdio cujas linhas 
telefnicas estavam bloqueadas
          pelas chamadas, Orson Welles prosseguia imperturbavelmente 
essa *medocre+ emisso
          antes de se precipitar com os seus actores para o teatro 
para continuar os ensaios nocturnos
          de Danton. Ele no descobriu realmente seno na manh 
seguinte, e para seu grande
          espanto, a extenso do desastre... ou do seu triunfo. [... 
           1
               Apenas uma palavra mais, que no prejudica as 
explicaes do honroso senhor Cantril, de
          Princeton.  bom, seno para o explicar, pelo menos para o 
situar no seu contexto histrico, lem-
          brar que este *fim do mundo+ duplamente wellesiano 
aconteceu numa Amrica sensibilizada pela
          inquietao da guerra prxima. Era a poca de Munique e no 
estava longe o dia em que um
          locutor annimo interromperia uma emisso de variedades 
para anunciar em voz trmula que
          Pearl Harbour acabava de ser destruda pelos Japoneses. 
Mas, ento, muitos dos americanos que
          acreditaram na histria de Orson Welles pensaram tratar-se 
de uma brincadeira de mau gosto.

                                   A.   Bazin, Orson Welles, Lisboa, 
1991.


170

               A RADIO, MEIO DE PROPAGANDA POUTICA








                                   *O Fiihrerfala+ (1939)
                                   Este quadro de Paul
                                   Matias Padua mostra
                                   umafamlia camponesa
                                   que ouve com ateno
                                   o discurso do Fhrer.
                                                       A rdio , nos
                                                    regimesfascstas,
                                                   um instrumento de
                                             propaganda muito eficaz





              A DIFUSO DE MODELOS SOCIOCULTURAIS ATRAVS DA RADIO E 
DO                                       CINEMA

   O cinema tornou-se muito popular no fim dos anos vinte, em todas 
as classes sociais, e par-                iK
ticularmente na classe operria (*o cinema foi o tapete mgico das 
massas+, escreve Janet
Roebuck). O seu papel social de uniformizao do sonho nunca foi, sem 
dvida, to evidente                    Ma
como nos anos trinta. A todos os espectadores, filmes ingleses (de 
melhor qualidade do que
durante o decnio anterior), e sobretudo filmes americanos, ofereciam 
a imagem de uma
certaforma de viver, impunham certos estilos e certas modas. Dessa 
poca data incontesta-
velmente uma certa *americanizao+ da Inglaterra, pela adopo de 
modos de dizer, de
palavras de calo e at de comportamentos.
    Os progressos no menos gigantescos da rdio constituram um 
factor igualmente podero-
so de uniformizao social. Pela qualidade notvel dos seus 
programas, colocando ao alcan-
ce de todos os ouvidos debates, concertos, emisses literrias, a 
British Broadcasting
Corporation contribuiu para reduzir a diferena de conhecimentos 
entre pessoas instrudas e
ineducated.  que os meios dirigentes britnicos haviam sido 
impressionados muito desfavo-
ravelmente pelo caos em que os excessos da livre imprensa tinham 
mergulhado a rdio ame-
ricana. Pretenderanifazer da rdio uma coisa sria, controlada pelo 
Parlamento, administrada
por uma sociedade Monopolista detentora de uma licena. A rdio 
britnica depressa se tornou
famosa pela sua apresentao, pela sua solenidade, pela ambio dos 
seus objectivos culturais.
Lazerfamiliar por excelncia, a rdio contribuiu poderosamente para 
uniformizar a lngua, pela
estandardizao da pronncia e das formas de expresso. Aquilo a que 
se chamou o B.B.C.
English tomou-se o modelo pelo qual alinharam os ingleses de boa 
vontade. Assim, a pronncia,
que durante muito tempofora sinal de pertena a este ou quele nvel 
da hierarquia social, per-
deu um pouco da sua importncia na semiologia social.
   A marcha para a uniformidadefoi, por conseguinte, uma das 
caractersticasfundamentais
da histria inglesa no perodo entre as duas guerras, e 
particularmente dos anos trinta.
                                                                     
                      P. Lon, ob. cit.

                                                            1 71

A RADIODIFUSO
EM PORTUGAL

     Na dcada de Vinte, uma outra
forma de entretenimento domstico
iniciou os seus primeiros passos. Foi
a radiodifuso. Comeou por esta
poca, em Portugal, a *brincar-se+
coma rdio, construindo os ama-
dores receptores (as chamadas
galenas) e emissores prprios, e
criando-se pequenos postos de
transmisso locais. Nos finais da
dcada estavanij comercializadas
as telefonias - chamadas ento
receptores -, que recebiam sobre-
tudo emisses do estrangeiro. Mas
eram raras e caras.

          0.   Marques e outros, ob. cit.
PUBLICIDADE AOS
APARELHOS DE RADIO



* Y1                               +"



                              C,
                              Q@

O Receptor da actualidade,      inteira-
mente alimentado pela, @corrente de
luz, facilita a audio das Emissoras

     estrangeiras em'Alto-f&ante.        @2

     JO  Auliena a Aulc>4QJAU10
          Ec.-. 1:000 00

RADIO PORTUGAL

P.     dos SapaeIros - 1.'
, i 8 B o A


AS *ACTUALIDADES+ NO CINEMA

Ao Eis que, de repente, as *actualidades+ passaram a primeiro plano 
nos programas. Eis que

os directores das salas de cinema as anunciam s suas portas em 
letras enormes. Eis que o
pblico vem expressamente para as ver E eis que as aplaude, que as 
comenta e que continua a
falar delas durante muito tempo depois de as ter visto.  que de 
mudas, passaram a sonoras. 
que, feitas para representar a prpria imagem da vida, elas 
encontraram o que lhesfaltava para
traduzi-Ia em todas as expresses.

     A actualidade muda est morta!  certamente o que pensam hoje 
quando vem e ouvem, todas as
semanas, as actualidades sonoras efaladas. E que coisas elasj vos 
revelaram, no  ?! Todos aque-
les de quem vocs nunca se aproximaram, mas dos quais os jornais vos 
contam todos os dias as
manobras, as obras, os xitos, as proezas, todos aqueles de que j 
viram tantas vezes a fotografia ani-
mada no cran, no tm a impresso de conhec-los, agora que ouviram 
o som da sua voz?
     Os sons sozinhos so mais impressionantes que as imagens. 
Recordam-se daquelefilme des-
crevendo a evacuao da Rennia pelas tropasfrancesas? O ltimo 
render da guarda em
Mogncia: uma praa imensa repleta de uma multido cerrada, atrs das 
tropas armadas. Um
silncio total, pungente. Uma ordem: dois homens destacam-se e 
dirigem-se em direco  sen-
tinela imvel. Ouve-se apenas o barulho dos seus passos e, de 
repente, um relgio que d horas:
a hora do ltimo render da guarda. Alguns instantes mais tarde a 
bandeirafrancesa  levada
lentamente ao som da Marselhesa. E, no momento em que o general em 
chefe a recebe das suas
mos, um imenso grito jorra dos peitos alemes. Um grito digno, mas 
um grito de libertao
que, h 11 anos, esperava este preciso momento para se escapar 
livremente. Mais do que
todas as imagens nofoi este grito que impressionou a vossa 
imaginao?

Jean Loubignac, artigos de jornal de 1930, citado por R. Jeanne e C. 
Ford, Le cinma et Ia presse, Paris, 1960.



172




PARA UM CINEMA DE MASSAS

     Queremos entrar na vida. Se fazemos um filme que respeite  vida 
da armada, vamos a
Odessa, a Sebastopol, vamos para o meio dos marinheiros, estudamos a 
atmosfera, os senti-
mentos destas pessoas e comeamos assim a exprimir verdadeiramente o 
sentimento do meio
que nos interessa.
     Se  unifilme campons como A Linha Geral, vamos  aldeia, 
passamos o tempo entre os
camponeses e comeamos assim a exprimir a cor local e os sentimentos 
da terra. Do mesmo
modo com os actores e os diversos intrpretes. [... 1 Ofilme 
abstracto no se ocupa de organi-
zar nem de provocar as emoes, principalmente sociais, do auditrio, 
enquanto que ofilme de

massas se ocupa principalmente em estudar como, pela imagem e pela 
composio das imagens,
provocar a emoo do auditrio. No temos j o recurso do tema de 
aventuras, policial ou
outro;  preciso encontrar, pois, na prpria imagem e nos modos de 
montagem, os meios de pro-
vocar as emoes desejadas.
     Foi uma questo de que nos ocupmos bastante. Depois de ter 
trabalhado nesta direco,
conseguimos realizar a maior tarefa da nossa arte:,filmar pela imagem 
as ideias abstractas, de
algum modo concretiz-las; e isso, no traduzindo uma ideia atravs 
de uma anedota ou de
qualquer histria, mas achando directamente na imagem ou na 
combinao de imagens, os
meios de provocar reaces sentimentais, previstas e gozadas 
antecipadamente.
     Trata-se de realizar uma srie de imagens compostas de tal 
maneira que provocam um movi-
mento afectivo, que desperta, por sua vez, uma srie de ideias. Da 
imagem ao sentimento, do
sentimento  tese. H evidentemente, procedendo assim, o risco de se 
tornar simblico; mas no
devemos esquecer que o cinema  a nica arte concreta, que  ao mesmo 
tempo dinmica e que
pode desencadear as operaes do pensamento.

Conferncia dada na Sorbonne por Eisenstein em 17 de Fevereiro de 
1930,
                         citado em L. Moussinac, Eisenstein, 1964.








5 OppIaudi








       UA r,1m Vt1T11AM.AN,@,,,TCRRA










173

                    @@ ---, i .
                    O CINEMA EM PORTUGAL

               Alguns dos estrangeiros que vieram trabalhar para 
Portugal ainda se conservaro entre ns
          por mais algum tempo. Mas a *poca do cinema portugusfeito 
por estrangeiros+ (muitas vezes
          111(4ts bem ambientado e mais portugus do que muito cinema 
nacionalfeito posteriormente por
          portugueses - e isto  uma das mais curiosas 
caractersticas da produo que vai de 1918 a
          1924) tinha chegado ao fim. Seguir-se- um perodo 
pobretana em que predominam a falta de
          recursos, o amadorismo, a indigncia criadora... e um certo 
oportunismo. [...                       1
               O cinema, em Portugal, tornara-se uma espcie de 
actividade amadora ou artesanal. Mas
          1930 parece trazer nimo a muita gente para correr a sua 
aventura. [...                     1 O sonoro est prestes
          a bater-nos  porta, o que tornar essas aventuras ainda 
mais difceis e contingentes. [...                      1
          Em 193 1, o cinema tornara-se sonoro e falante. A maior 
parte das vezes falava pelos coto-
          velos (para dizer muito pouco) e cantava a todo o 
propsito. Pensou-se, na altura, que o
          sonoro iria prejudicar a universalidade do espectculo 
cinematogrfico e favorecer as cine-
          matografias nacionais. [...               1 Entram no 
cinema portugus ofado e os touros, de que dificilmente
          nos havemos de libertar, mais o marialvismo que lhe est 
adstrito... A Severa teve um xito
          invulgar Ofilme ia ao encontro do gosto popular, tinha de 
tudo: as belas imagens da lezria, as
          faustosasfestas da aristocracia, osfados, asfacetas cmicas 
do Timpanas [...                        1, os confrontos
          da marquesa com a fadista, as corridas de toiros, um 
fandango [...                         1, a grotesca paixo do
          Custdia e a morte da Severa cercada por populares 
envergando trajes regionais de todas as
          provncias portuguesas (simbolizando Portugal chorando a 
morte do Fado).
               A adeso do pblico ao cinema sonoro e o sucesso de A 
Severa impulsionaram a criao da
          Tobis Portuguesa, fundada em Junho de 1932, depois de uma 
campanha que entusiasmou o pas
          cinfilo.

                                                            Alves da 
Costa, Breve Histria do Cinema Portugus - 1896-1962,
                                                                    
                Instituto de Cultura Portuguesa, s.d.






                         O PRIMEIRO
                         FILME
                         K^GUES
                         FEITO POR
                            TUGUEsr5

     'X








 Cartaz dofilme A Cano de Lisboa,
realizado por Cottinelli Telmo, em 1933


174

Cartaz dofilme Feitio do Imprio, realizado em 1940
          por Antnio Lopes Ribeiro

                              TRABALHOS PPIT, ICOS

A, An,@"Ise de

                                   lulan



          *Toda a Alemanha                     p
          escuta o Fhrer

          com o receptor
          popular+. Cartaz de
          Lonid, 1936

                                   M1,17,1 MI, i7111i

               A audincia da rdio no perodo entre as duas guerras 
mundiais



                  8 400 000
    4 000 000 (5 milhes e meio em 1939)
                  8 300 000
                 26 000 000




A0                                                       188

                     171

                    1 31

                                                       122
                                                       77
                                                       22
                                                       15



1.   Determine o papel da rdio na formao da opinio pblica, tendo 
em conta os dados
     fornecidos pelos documentos 1, 2 e 3.

2.   Refira o papel dos outros media na difuso de modelos 
socioculturais.

                                        MUM M9M0MEIMOZI M 1, 5: LI

                   O bero

     Que lindo bero, Mrri.  para o
menino? No foi a Mezinha que o com-
prou, pois no?
     -No, meu amor; eu no tinha dinheiro.
Foram umas meninas que andam a estu-
dar no Liceu, as meninas da Mocidade
Portuguesa. Tiveram pena de ns, por
sermos pobrezinhos, e deram-nos o bero
ido,

e os vest    s para o nosso menino.x
-Marri, so to boas essas meninas!
Eu, se as Agisse, dava-lhes um beijo e ha-
via de lhes dizer: Muito obrigada! Bem
hajam! A Mezinha at chorou de alegria
com o bercinho e o enxoval para- o me-
nino.



O Livro da Primeira Classe, 7.' ed., Lisboa, 1957.



1.   Comente o documento 4, salientando quais os valores que se 
pretenderam inculcar
     nos dois grupos sociais em presena.



     abIalho de snte@;e

1.   Relembre a metodologia adequada a este tipo de trabalhos em 
Histria 11, 1.2 vol.,
     pp. 166, 180, 200 e 219-220.

2.   Elabore um trabalho de sntese sobre qualquer dos temas que lhe 
propomos:

      Os media em Portugal nas quatro primeiras dcadas do sculo 
XX;
      O cinema portugus nas dcadas de 30 e 40;
     A msica popular portuguesa nos anos 30 e 40;
     Ideologia e valores em textos destinados ao ensino primrio

 Portugal (1 936-1946).







                                                              1%~' - 
MNffia
176

n g m

CARACTERSTICAS E MANIFESTA ES DA CULTURA DE MASSAS



     1.   O DESEJO DE EVASAO E O IMAGINARIO MITICO

          o A literatura de aco e literatura sentimental
          o Os heris do filme e da banda desenhada
          * O culto das *estrelas,> do cinema e da rdio

     2.   OS GRANDES ENTRETENIMENTOS COLECTIVOS

          4 A popularidade da msica ligeira
          - Os espectculos desportivos e a canalizao de tenses 
conflituais








                    kA 








                    Robert DelaunaY, A Equipa [de rugby] do Cardiff 
(1913)

1.   O DESEJO DE EVASO E O IMAGINARIO
     MTICO

     Vemos, pois, que quer pela aco das polticas
educativas e culturais dos Estados, quer atravs
dos mass media, os modos de vida tendem a uni-
formizar-se. Do ponto de vista social, atenuam-se
tambm as grandes diferenas entre classes,
apesar de permanecerem alguns antagonismos.
     A imprensa, a rdio e o cinema fornecem a
mesma informao a toda a gente, independente-
mente do seu estatuto social, e formam a opinio
pblica (doe. 1). De modo que so as massas que
se mobilizam politicamente em amplos movi-
mentos de apoio ou de contestao aos lderes
polticos.
     A cultura de massas perde de vista o indivduo
e alguns inquietam-se perante a perspectiva de
uma civilizao futura em que o homem no seja
mais que um elo frgil de uma cadeia infernal
desumanizada (doe. 2).
     Para fugir aos problemas reais do seu tempo
e s dificuldades quotidianas, as massas buscam
todos os meios de evaso possveis.

     A literatura de aco e literatura
     sentimental

     Um desses meios  a leitura. Contudo,
enquanto os mais cultos se dedicam  leitura de
obras profundas e de maior flego, onde se reflec-
tem as angstias da poca, as massas preferem
obras mais leves (doe. 3), onde se possam iden-
tificar com o heri da aco, quer este seja o
detective do romance policial, quer seja a mais
bela rapariga que encontra o amor eterno com que
sempre sonhara. Da o xito dos romances poli-
ciais, como os de Agaffia Christie, que cria figu-
ras inesquecveis como as de Miss Marple ou
Poirot, ou Georges Simenon, criador do inspector
Maigret.
     Os romances *cor-de-rosa+ continuam a ter
imensa procura da parte de um sector quase essen-
cialmente feminino, e os folhetins, quer publica-
dos nos jornais quer difundidos pela rdio, tm
um pblico fiel (doe. 4), que, no caso dos folhetins
inseridos em jornais dirios, corta e colecciona
cada um dos episdios e com eles forma um livro
que rel sempre que pode.

178

     Os heris dos filmes e da banda
     desenhada

     Um outro gnero de literatura de evaso que
aparece nos anos 20  a banda desenhada, facil-
mente acessvel ao grande pblico porque publi-

cada em pequenas revistas vendidas a baixo preo.
Por outro lado, as histrias eram facilmente com-
preendidas pelos leitores, uma vez que eram con-
tadas atravs de imagens.
     O pblico jovem e menos jovem adere facil-
mente a estes novos heris, que, devido  sua inte-
ligncia, como  o caso de Tintin (doe. 5), ou 
sua fora, como no caso do Super Homem (doe.
6), lutam pelo bem e levam sempre a melhor sobre
as foras malficas.
     . Alguns destes heris so transpostos para o
cinema, que se povoa de muitos outros heris,
quer sejam os xerifes que libertam as cidades ame-
ricanas dos fora-da-lei ou dos ataques dos ndios,
quer sejam os protagonistas de comoventes his-
trias de amor, nos quais se projectam os especta-
dores, levando a uma identificao tal que eleva os
actores que os encarnam no cinema ou na rdio ao
nvel de *estrelas+.

         culto das *estrelas+ do cinema
         da rdio

     O cinema e a rdio tornam-se de facto, a partir
dos anos 20, os dois meios mais poderosos da cul-
tura de massas.
     O cinema, visto por gente de todas as classes
sociais, nivela, ao menos em sonhos, todos os
espectadores rendidos  magia do ecr, nos quais
inculca novas normas sociais e cria novos dese-
jos, modificando, a pouco e pouco, os seus com-
portamentos individuais e sociais.
     Em Hollywood, os anos 20 foram a poca
urea do cinema mudo e de actores como Max
Linder, Buster Keaton e Charlie Chaplin, que
realiza, em 1921, O Garoto de Charlot (doe. 7) e,
em 1925, A Corrida ao Ouro.
     Na Alemanha de Welmar, os filmes marcados
pelo expressionismo so fantsticos e sombrios,
como: A Rua sem Alegria, realizado em 1925 por
Pabst, com Greta Garbo, ou O Doutro Mabuse
(1 922) e Metropolis (1 926), de Fritz Lang (doe. 8).
     Na Unio Sovitica, Eisenstein realiza, em
1925, O Couraado Potemkine e, em 1927, no

dcimo aniversrio da revoluo, o filme Outubro.
     Em Espanha, Lus Bufluel realiza em 1928 um
filme surrealista, O Co Andaluz.
     A partir de 1926, o filme sonoro traz novo
interesse ao cinema: Don Juan, em 1926,  o pr-
meiro filme sonoro e, em 1927, surge o primeiro
filme com dilogos falados, O Cantor de Jazz
(doe. 9). O cinema torna-se uma poderosa inds-
tria. Enormes estdios funcionam em Hollywood,
Berlim e Roma, mas  a indstria americana que
inunda de filmes, geralmente ligeiros, as salas de
cinema: westerns, comdias musicais, filmes de
amor, mas tambm desenhos animados. Em 1928,

aparece o Rato Mickey, criado por Walt Disney,
que, entre 1934-1936, realiza Branca de Neve e os
Sete Anes.
     Aparecem os filmes musicais com Fred
Astaire, os filmes cmicos com os irmos
Marx e Charlot (adaptado s novas tcnicas
mas profundamente crtico em relao  civili-
zao das mquinas), em filmes sonoros mas
com poucos dilogos como As Luzes da Cidade,
em 1931, e Tempos Modernos, em 1936, ou
grandes dramas de fundo histrico como E Tudo
o Vento Levou, primeiro filme de longa metra-
gem a cores, realizado em 1939, por Victor
Fleming, que tornou imortais os actores Clark
Gable e Vivien Leigh e foi premiado com 10
scares da Academia (doe. 10).
     O cinema fantstico aparece pela mo de rea-
lizadores como Merian C. Cooper, que realiza, em
1933, King Kong (doe. 11).
     O cinema francs triunfa nos anos 30 com rea-
lizadores como Marcel Carn com filmes como O
Cais das Brumas (1938), com o par de actores
mais famoso em Frana, Jean Gabin e Michle
Morgan (doe. 12), e Jean Renoir, cujos filmes
so hoje clssicos.
     De Inglaterra parte, em 1939, para Hollywood
Alfred Hitchcock, grande mestre dos filmes de
suspense, que em 1936 realizara Os 39 Degraus.
     Na Alemanha, depois de filmes como O Anjo
Azul, de Steinberg, e protagonizado por Marlene
Dietrich (doe. 13), e de filmes realizados por Fritz
Lang, o cinema torna-se um instrumento de pro-
paganda nazi (doe. 14). De entre os realizadores ao
servio do regime destaca-se apenas a realizadora
Leni Riefensthal, sobretudo com o filme Os
Deuses do Estdio, realizado por ocasio dos
Jogos Olmpicos de Berlim, em 1936.

     Em Itlia, os estdios da Cinecitt, criada perto
de Roma em 1930, realiza tambm filmes de pro-
paganda fascista.
     Na URSS, o cinema continua tambm ao ser-
vio do regime e aparecem obras como Alexandre
Nevski, em 1938, realizado por Eisenstein, e obra-
-prima do regime estalinista.
     Esta poderosa indstria que  o cinema, sobre-
tudo o americano, apoiasse no *star system+ (doe.
15). Hollywood cria artificialmente um tipo de
actor ou actriz que encarne, aos olhos do pblico,
um modelo de beleza, bom carcter, riqueza e feli-
cidade. A estrela de cinema  o prottipo do
mito moderno (doe. 16).
     Para conseguir fixar o interesse do pblico nes-
tas figuras mtcas, Hollywood controla no s o
guarda-roupa, o penteado, mas tambm a vida pri-
vada destas estrelas, que acabam por se tornar
cativas da grande mquina que as envolve, no
resistindo muitas delas  grande presso que se

exerce sobre elas e soobrando muitas vezes no
lcool ou nas drogas.
     Na poca do mudo, as grandes stars foram
Rudolfo Valentino (doe. 17), Mary Pickford
(doe. 18), Gloria Swanson e a sueca Greta
Garbo (does. 19 e 20).
     Com o cinema sonoro aparecem outras estrelas,
entre as quais a criana-prodgio como Shirley
Temple, que recebeu um scar com 6 anos de
idade, em 1934 (doe. 21).
     Este sistema, rigorosamente vigiado pela
Legio da Decncia, instituda em 1934, devia
seguir regras severas quanto  moralidade dos
comportamentos no ecr. Os filmes deviam ter
sempre um fim feliz, que fizesse o espectador
esquecer os problemas de uma Amrica a braos
com a depresso econmica.


2.   OS GRANDES ENTRETENIMENTOS
     COLECTIVOS

     A popularidade da msica ligeira

     J desde o incio do sculo, os discos tocados
em gramofones (doe. 22) tinham trazido at ao
pblico a voz dos seu cantores favoritos, sobretu-
do ao nvel da pera. O aperfeioamento no s
dos gramofones mas tambm no fabrico dos discos
tornou possvel uma maior difuso / 4a msica por

                                             1 7q

     ..........

entre um pblico progressivamente mais vasto,
mas normalmente abastado (doc. 23).
     Foi, contudo, a rdio que tornou possvel
alargar o auditrio musical, difundindo as msi-
cas e os ritmos que se cantavam ou danavam em
todo o Mundo, desde o tango argentino ao expres-
sivo jazz americano (doc. 24). Cantores como
Maurice Chevalier (doc. 25), Tino Rossi ou
Josphine Baker tornaram conhecidas por toda
a Europa as canes da moda, ligeiras e frvolas.
Ao transmitir a msica que o pblico gostava, a
rdio tornou-se um dos maiores entretenimentos
(doc. 26).
     Tambm os espectculos de music-hall atraam
numeroso pblico, que, como vimos, tambm
enchia os dancings, onde se danava ao som dos
ritmos da moda.

     Os espectculos desportivos
     e a canalizao de tenses conflituais

     Uma outra actividade comeou a entusiasmar
as massas: o desporto, quer porque cativava um

nmero crescente de praticantes, quer porque cati-
vava cada vez mais uma multido de espectadores
(doc. 27).
     Os regimes autoritrios tiveram enorme cuida-
do em relao  prtica desportiva, sobretudo pelos
jovens, uma vez que o *hornem novo+ deveria ser
so de mente e de corpo.

     O ciclismo atraiu inmeros participantes, mas
foi o desporto como espectculo que atraiu as
massas. Futebol (doc. 28), rguebi, crquete, atle-
tismo (doc. 29), boxe e tnis tornaram-se extre-
mamente populares. Construram-se estdios para
milhares de espectadores e criaram-se as apostas
desportivas (doc. 30).
     Criaram-se os primeiros campeonatos nessas
modalidades, no s nacionais como internacio-
nais. As vitrias contra os estrangeiros tornaram-
se quase um dever patritico e faziam vibrar as
massas que consideravam a honra da ptria salva
se a sua equipa ganhasse, perdida se o resultado
fosse uma derrota. Os eventos desportivos eram
ocasies para mostrar o poderio das naes: veja-
se o exemplo dos Jogos Olmpicos de Berlim, em
1936, que se transformaram numa parada nacio-
nalista, onde a pura e saudvel raa alem mostrou
ao mundo o poder da Alemanha.
     O desporto tornou-se uma questo nacional
e canalizou tenses e pulses que de outro
modo explodiriam de maneiras mais perigosas
(doc. 31).
     Em Portugal, o desporto comeou por ser uma
actividade da elite que se dedicava aos desportos
nuticos, ao hipismo e ao tnis. A pouco e pouco,
certas modalidades, como o ciclismo, o atletismo e
o hquei em patins (doc. 32) vulgarizaram-se. Mas
foi o futebol que se tornou o mais popular dos
desportos de massas em Portugal (docs. 33 e 34).






A CULTURA DE MASSAS

DocuMENTOS


     Aos olhos do leitor a imprensa pouco se modificou.          A 
imprensa continua a dar lies,
mais preocupada com a moral do que com factos, e a ser portadora de 
uma mensagem cvica
cada vez mais insistente, ao ritmo do agravamento das tenses. Esta 
permanncia mascara con-
tudo a evoluo econmica e o aparecimento dos media destinados a um 
pblico especfico. Os

anos vinte assistem com efeito ao triunfo do big business [...    1.
     Esta diversificao dos rgos de imprensa, bem como o sucesso 
do cinema, ser determi-
nada pela *prosperidade+ econmica dos anos vinte? [...        1 
Estaremos perante o resultado da
difuso da electricidade e da gua corrente (com a exploso da 
construo civil), a reper-
cusso da expanso automobilstica, ou simplesmente o Preito da moda, 
como a voga dos
gelados de creme que surge na Inglaterra nos anos vinte? Para alm 
das peripcias vrias, os resul-
tados so claros: as sociedades ocidentais iniciaram a homogeneizao 
dos seus modos de vida.
     Quer isto dizer que estas sociedades caem na banalizaro e na 
uniformidade? Apesar do
controlo da indstria cinematogrfica pelos Estados Unidos e pela 
Alemanha, o cinema no

180

     CARACTERSTICAS E MANIFE            A". !ES DA.CULTURADE W

pode ser reduzido a um instrumento de propaganda com a,funo de 
difundirjunto dos espec-
tadores a ideologia de uma economia dominante. [...     1 Embora o 
aburguesamento das condies
de vida tenha aberto novos horizontes, os traos especficos 
dafamlia operria e camponesa
permanecem. O cinema, a rdio e o desporto parecem desempenhar o seu 
papel de uniformi-
zao do sonho, da cultura e dos tempos livres, mas no deixam de ser 
modelados pela imagem
de marca que cada pas toma para si prprio, ou pelas ideias e 
reflexos recebidos da opi . ni . ao
pblica. Numa poca em que o futebol se afirma como desporto de massa 
e consegue reuni . r
vrias dezenas de milhar de espectadores nos estdios, os governos 
comeam a desviar o
ideal olmpico: *J no se trata de higiene, de sade, de vida 
melhor, de raa maisforte; trata-se
agora de propaganda, de publicidade, de vitria+. [...     1
     A Europa vai buscarformas, ritmos e modas quer  Rssia de 
Kandinsky ou de Stravinsky,
quer s suas colnias ou  Amrica de Ford e do jazz. Mas no se 
contenta com a sua utiliza-
o *em colagem+ sobre as suas prprias composies; a Europa 
apropria-se dessas contri-
buies exteriores e procura integr-las, em diversos graus, no seu 
ambiente habitual. Assim,
os motivos *cubistas+, de inspirao africana, que invadem os tecidos 
e ajoelharia, prolongam
a voga orientalista dos anos de 1900, embora o vesturio e os 
acessrios (do Jersey ao relgio
de pulso) sejam adaptados s novas condies de existncia dos heris 
de Paul Morand. A ideia
de uma civilizao a salvaguardar, a exaltar ou a exportar 
sobrepe-se portanto  de uma cul-

tura transmissvel. As convergncias/ concorrncias mundiais incitam 
as sociedades a interiorizar
os seus conflitos, as suas contradies e as suas transformaes, 
enquanto tendiam, antes de
1914, a lanar a responsabilidade sobre os dirigentes.

                                   Bernard Droz e Anthony RowIey, ob. 
cit.






                    HOMENS FABRICADOS EM LABORATORIOS

     Quanto mais baixa  a casta, disse Mr Foster, menos oxignio se 
lhe d. O primeiro rgo
afectado  o crebro. Depois o esqueleto. A setenta por cento de 
oxignio normal, obtm-se
anes. A menos de setenta por cento, monstros sem olhos.
     - Os quais no so de nenhuma utilidade, disse Mr Foster para 
concluir
     - Mas entre os psilons, disse justamente Mr Foster, no temos 
necessidade de intelign-
cia humana. No se tem necessidade e no se produz. Mas, ainda que 
num psilon o esprito
esteja amadurecido aos dez anos, so necessrios dezoito antes que o 
corpo esteja apto para o
trabalho. Que longos anos de imaturidade, suprfluos e desperdiados! 
Se fosse possvel ace-
lerar o desenvolvimento fsico at torn-lo tambm rpido como o de 
uma vaca, que economia
enorme da viria para a Comunidade!
     -    Enorme!, murmuraram os estudantes.
         entusiasmo de Mr Foster era contagiante.
     Esfregou as mos. Porque, bem entendido, no se contentava em 
incubar simplesmente os
embries. Isso, qualquer vaca seria capaz de ofazer
     Alm disso, ns predestinamos e condicionamos. Ns decantamos os 
nossos bebs sob a
forma de seres vivos socializados, sob aforma de Alfas e de psilons, 
defuturos limpa-latrinas
ou de futuros... Estava a ponto de dizer *futuros Administradores 
Mundiais+, mas, voltando
atrs, disse *futuros Directores de Incubao+.
     O D.I. C. foi sensvel ao cumprimento que recebeu com um 
sorriso.

                              Aldous Huxley, Admirvel Mundo Novo, 
1932.

                                                            181

                DA JUNTURA 1@



LITERATURA E EVASO

               Esta revoluo [dos modos de expresso literrios e 
artsticosIfaz-se na atmosfera ator-
          mentada dos anos loucos que leva o homem a fugir de si 
mesmo atravs de uma evaso no irra-
          cional e no irreal, cuja irrupo nos domnios cientficos 
efilosficos constituiu uma prova da
          sua importncia.
               Explicam-se assim os xitos considerveis alcanados 
pelo romance policial que, na pers-
          pectivafreudiana, permite ao leitor mdio penetrar no 
universo de seres cujas nevroses, diluindo
          os recalcamentos,fiazem irrupo  superfcie da 
conscincia: loucos, criminosos e outros indi-
          vduos associais.
               O romance psicolgico, que  uma maneira de evaso 
para fora de si mesmo procurando
          viver a vida dos outros, conhece igualmente uma grande voga 
com os enormes romans fleuves
          de Roger Martin du Gard (Os Thibault), de Georges Duliamel 
(A Crnica dos Pasquier), de
          Jules Romains (Os Homens de Boa Vontade). Mas  sobretudo 
aos autores de A Procura do
          Tempo Perdido: Marcel Proust, e dos Alimentos Terrestres: 
Andr Gide, os quais so os dois
          mentores da gerao do ps-guerra juntamente com Paul 
Valry, que este romance deve a reno-
          vao dos seus mtodos de anlise, empenhando-se o primeiro 
em demonstrar por meio de uma
          introspeco minuciosa o afundamento de uma certa sociedade 
aristocrtica aniquilada defacto
          em 1914, declarando-se o segundo convicto como Huxley ou 
Pirandello da incoerncia fun-
          damental do homem e do mundo em que ele se aventurou, e 
onde s conta o acto gratuito. O pes-
          simismo amoralista que emana das suas obras conduz quer ao 
desencanto de O Velho e o Mar,
          de Hemingway, quer  exaltaro da paixo carnal em Henry 
Miller
               Reagindo contra esta subverso dos valores 
espirituais, Bernanos e Mauriac, que libertam
          a literatura catlica dos seus corifeus edificantes, 
transcendem em Deus a incoerncia aparente
          do mundo corrompido pelo pecado, mas salvo pela f.
               Uma outra fonte de evaso ,fornecida pelo pensamento 
puro, onde a emoo nasce mais do
          canto das palavras e da sua harmonia do que do seu sentido; 
outros aindafogem da realidade
          para um mundo de fantasia, tal como Jean Cocteau e Jean 
Giraudoux, a no ser que, tendo
          ouvido como Somerset Matigliam *o apelo de Taiti+, prefiram 
encontrar o distanciamento
          nas viagens aos pases longquos caros a Pierre Benoit, aos 
irmos Tharaud... e sobretudo ao
          Malraux de A Condio Humana.


                                                  Pierre Thibault, 
ob. cit.


OS FOLHETINS POPULARES

     A Magia do Amor, por Elena Garland

               Captulo XIII - Alberto Esmond

               - No me agrada a caa s feras; portanto, estou 
convencido de que as Montanhas Rochosas
          continuaro sendo para mim *A Terra Incgnita+.
               Com garradice Alma respondeu-lhe:
               - Devia entregar-se a uma caada de outro gnero:  
cruel da sua parte abandonar tantas don-
          zelas, que estavam na ansiosa espectativa de ver a qual 
delas voc atiraria o lao.
               Dyson observou:
               - Talvez o senhor Esmond considere o amor como uma 
inspirao.
               Alma, rindo, disse:

               - Apaixonar-se hoje e casar amanh.
               - Como Sir Leicester - acrescentou Dvson. - O Sr. 
Esmondj ouviu a notcia sensacional da
          ltima hora?



182

                  kL DE AM


     Captulo XIV - Ligada a um farsante!

     Na vspera do seu casamento, Vera fra a casa de Rosalia para 
lhe participar que, no dia
seguinte, ia casar, com Sir Leicester Sabine.

     Rosaliaficou radiante. Segundo o seu modo de pensar, casar com 
um homem rico era ter afeli-
cidade garantida, a no ser que o noivojosse velho ou repugnante.

     - Deixe l, que o amor vir depois, dizia. Ora, imagine, como 
h-de ser bom, ver todos os seus
dese .os satisfeitos; mas, afinal, quem tinha razo era eu, ein?

     (Continua)

                              Folhetim de O Sculo, 1 de Outubro de 
1930.








TINTIN








183

                     que




                    Me famous CO~in
                    has wo~ a wh&e

                         reel.5 of Joy.








     A First Naflonal   Attraction

                     AO

                                        EIN FILM VOK FRITZ          
LA

                                             BRIGITTF HEIM-GUSTAV FR 
HUCH.

                                                                 o
                                                  KARI f WEUND, GUNIM 
R RMAU
                                   UFA FILM IM VERLEM DER     
EaB-U@-MI'
                                   Metropolis, filme reali,-ado por 
Frit7 Lang
                                   em 1926 e onde ele denuncia os 
perigos que
                                   ameaam as liberdades individuais,
                                   sobretudo a manipulao das massas








                                                       'M0

                                                                 

               RO4C0 ~SUMME TRIUMPH




          ,@@JAZfSINGERI
                    Cartaz. de cinema:

               Al Jolson en *O Cantor de Jazz+                    
lIffiMIM - l



184

M IA WRAY
R I@WTWW@

Mua CAPOT




c OOP
SCHOEI                     f
o     I.:            . 7,




          Cena dojilme O Anjo Azul
     com Hans Albers e Marlene Dietrich.

Michle Morgan e Jean Gabin,
o casal mais clebre do cinema
firancs, em Cais das Brumas (1938)








185

               A IRO .OIAO.DACULT RADE.MASSA-1,
                                     U


ALGUMAS DATAS-CHAVE NA HISTRIA DO *STAR SYSTEM+ DE ANTES DA GUERRA

               1908 - Nick Carter, um dos primeiros heris do cinema 
mudo (inventado em 1895).

               1911 - Primeiro estdio em Hollywood.

               1912-1914 - Nascimento da *vamp+ no cinema sueco, da 
*diva+ no cinema italiano, da
          *star+ no cinema americano (Mar@y PickfOrd).

               Princpio dos anos 20 - Quando Hollywood se torna o 
centro mundial do cinema, apo-
          geu do star system:
               Louise Brooks, Gloria Swanson, Rudolph Valentino, 
Douglas Fairbanks, etc.

               1927 - Greta Garbo em A Carne do Diabo, no L'ano da 
inveno do *sonoro+.

               1930 - Marlene Dietrich no Anjo Azul.

               Fim dos anos 20, princpio dos anos 30 - uma nova 
gerao de estrelas mais *verda-
          deiras+ e maisfamiliares: Shirley Temple, James Cagney, 
Gary Cooper (em O Extravagante
          Mr. Deeds), etc.

               1932 - Jean Harlow, um dos primeiros *sex-simbol+, em 
Loura Platinada, de Frank
          Capra.

               1937 - Nasceu uma Estrela, primeirofilme inspirado no 
star system.

               1938 - Clark Gable e Vivien Leigh em E Tudo o Vento 
Levou.

               1938 - Mich1e Morgan e Jean Gabin em Cais das Brumas.

               1941 - Humphrey Bogart em O Falco de Malta.





O MITO MODERNO: A ESTRELA

               O cinematgrafofoi concebido para estudar o movimento: 
tornou-se o maior espectculo
          do mundo moderno. O aparelho de filmagem parecia destinado 
a copiar o real: ps-se a fabri-
          car sonhos. O cran parecia dever apresentar um espelho ao 
ser humano: ofereceu ao sculo
          XX os seus semi deuses, as estrelas [...           1. As 
estrelas so seres que participam simultaneamente

          do humano e do divino, parecidas, por certos traos, com os 
heris das mitologias ou com os
          deuses do Olimpo, suscitando um culto, at mesmo, uma 
espcie de religio. [...               ]A mitologia
          das estrelas situa-se numa zona mista e confusa, entre 
crena e divertimento. A religio das
          estrelas seria como uma religio sempre embrionria e 
sempre inacabada. Quer dizer: o
          fenmeno das estrelas  simultaneamente 
esttica-mgica-religiosa, sem ser nunca, seno no
          extremo limite, totalmente um ou outro. [...            1 A 
mitologia das estrelas no poderia ser consi-
          derada como uma ilhota de ignorncia, de infantilismo, de 
religiosidade, no seio de uma civi-
          lizao moderna, que seria, ela, essencialmente racional. 
Bem ao contrrio, so os prprios
          desenvolvimentos da modernidade, quer dizer, a vida urbana 
e burguesa, que suscitaram e
          desenvolveram o mito das estrelas.

                         Edgar Morin, prefcio  3.' ed. de Les 
Stars, Le Seuil, 1957.


186

Rudolfo Valentino








          Tipo do *amoroso latino+,
     Rudolfo Valentino era adorado como
     um deus por milhes de admiradoras.
        A sua morte em 1926 provocou
              vrios suicdios

. ....... .. .



                Mary Pickford








                      

         A *pequena noiva do mundo+
    especializou-se em papis de ingnua








Greta Garbo e Robert Ta.vIor numa cena dojiliiie Marganda Gautier,
           realizado por George Cukor em 1937

                                                            187

A

O ROSTO DE GARBO

               Garbo pertence a essafase do cinema em que a percepo 
do rosto humano lanava a maior
          perturbao no meio das multides, em que as pessoas se 
sentiam literalmente perdidas numa
          imagem humana como nunifiltro, em que o rosto constitua 
uma espcie de estado absoluto da
          carne, que no podia ser atingido nem abandonado. Alguns 
anos antes, o rosto de Valentino pro-
          vocava suicdios; o de Garbo participa ainda do mesmo 
reinado do amor corts, em que a carne
          gera sentimentos msticos de perdio.
               Trata-se, indubitavelmente, de um admirvel rosto-ob 
ecto; na Rainha Cristina, filme quefoi
          reposto em Paris nos ltimos anos, a caracterizao tem a 
espessura de uma camada de neve,
          como se fosse uma mscara; no  um rosto pintado,  um 
rosto de gesso, defendido pela super-
          fcie da cor e no pelas suas linhas; por sobre toda esta 
neve ao mesmo tempo frgil e com-
          pacta, s os olhos, negros como uma polpa bizarra, mas de 
maneira nenhuma expressivos, so
          como duas ndoas um pouco trmulas. Mesmo em toda a sua 
extrema beleza, esta face, que no
           desenhada, mas antes esculpida numa matria lisa e 
esfarelvel, o que quer dizer que  simul-
          taneamente perfeita e f@mera, aproxima-se da face 
enfarinhada de Charlot, dos seus olhos de
          vegetal sombrio, do seu rosto de tteme.
               Ora, a tentao da mscara total (a mscara antiga, 
por exemplo) implica talvez no
          tanto o tema do oculto (caso das mascarilhas italianas) 
como o de um arqutipo do rosto huma-
          no. Garbo dava a ver uma espcie de ideia platnica da 
criatura, e  isso que explica que o seu
          rosto seja quase assexuado, sem todavia ser ambguo.  
verdade que o filme se presta a essa
          indeterminao (a rainha  sucessivamente uma mulher e um 
jovem cavaleiro); mas a Garbo
          no realiza nenhuma proeza de disfarce; ela  sempre igual 
a si mesma, ostentando semfingi-

          mento, debaixo da coroa ou dos seus grandes chapus de 
feltro de abas cadas, o mesmo
          rosto de neve e de solido. O seu apelido de Divina visava, 
sem dvida, menos a expresso de
          um estado superlativo da beleza do que a essncia da sua 
pessoa corprea, cada de um cu em
          que as coisas so criadas e acabadas na maior das 
claridades. Ela prpria tinha conscincia
          disso: quantas actrizes consentiram em deixar entrever  
multido o amadurecimento inqui                .          e-
          tante da sua beleza! Ela, no: era preciso que a sua 
essncia se no degradasse, que o seu rosto
          no conhecese nunca outra realidade alm da perfeio 
intelectual, mais ainda do que a
          plstica. A Essncia foi-se obscurecendo pouco a pouco, 
progresivamente recoberta pelo vu dos
          culos, dos chapus e dos exlios; mas no se alterou 
nunca.
               E, contudo, sobre este rosto divinizado, algo de mais 
agudo do que uma mscara se dese-
          nha: uma espcie de relao voluntria, e portanto humana, 
entre a curva das narinas e a
          arcada das sobrancelhas, uma,funo pouco vulgar, 
individual, entre essas duas zonas da face;
          a mscara no  seno a adio das linhas, o rosto  antes 
de mais uma referncia temtica de
          umas s outras. O rosto da Garbo representa esse momento 
frgil em que o cinema vai
          extrair de uma beleza essencial uma beleza existencial, em 
que o arqutipo vai ser inflectido
          para a fascinao dos rostos transitrios, em que a 
claridade das essncias carnais vai dar
          lugar a uma lrica da mulher.
               Enquanto momento de transio, o rosto da Garbo 
concilia duas idades iconogrficas, asse-
          gura a passagem do terror ao encanto. Como se sabe, 
encontramo-nos hoje no outro plo desta
          evoluo: o rosto de Audrey Hepburn, por exemplo,  
individualizado, no s pela sua temtica
          particular (a mulher infantil, a mulherfelina), mas tambm 
pela sua prpria pessoa, por uma
          especificaro quase nica do rosto, que nada mais tem de 
essencial, mas  constitudo por uma
          complexidade infinita de,fun)@es morfolgicas. Como 
linguagem, a singularidade da Garbo era
          de natureza conceptual, a de Audrey Hepburn de natureza 
substancial. O rosto da Garbo  a
          incarnao da Ideia, o de Hepburn a do Acontecimento.

                         Roland Barthes, Mitologias, [1.' ed, 19571, 
Lisboa, 1978.

188

                                                            ..... 
..... . .... ...

                                             @i 11     -@A DE MASSAS



                    ....................... . .








                     190

                                                       Novxs     
colleces
                                                         sensacionaes

               Shirley Temple
     recebeu um Oscar em 1934, com
         apenas 6 anos de idade

                                                            @RA

                                             Um           MOMIONE
                                             Finlndia
                                             11.**   RUA 00 @@1.X, 
@ll








*VWA 1 U








                                                  ............       
 .......

                                                            189

               " M1;7.1 -1 r-A-1


O *JAZZ+, MSICA VIVA
               A principal caracterstica do Jazz  aqui          .  
        lo a que se chamou o swing, palavra difcil de defi-
          nir Designa a pulsao rtmica regular e subtil que anima a 
medida a quatro tempos e que  o
          elemento essencial de toda a interpretao do 'azz. O swing 
no pode exi . sti . r no texto musical
          seno em potncia; est essencialmente no executante. Uma 
partitura musical pode estar
          mais ou menos apta a ser *swingada+; uma orquestra poder 
*swingar+ qualquer arranjo que
          outra executar sem o menor swing. Duke Ellington, um dos 
maiores msicos de jazz, disse
          muito justamente: *No h texto musical que seja swing. 
Ningum pode escrever swing, poi                . s o
          swing  o que emociona o auditor e no existe swing 
enquanto a nota no soa. O swing  um
          fluido, e, mesmo que uma orquetra tenha tocado um trecho 
catorze vezes, pode o swing surgir
          s  dcima quinta vez. +
               A importncia do swing no jazz basta parafazer 
compreender que esta msica  essencial-
          mente uma msica de dana, o que, contrariamente a um 
preconceito corrente, no tira nada ao
          seu valor artstico. Quando se,fala com desdm da *msica 
de dana+, esquece-se que os com-
          positores clssicos de h alguns sculos escreviam 
principalmente msica de dana, a ritmo
          regular contnuo. [...          1
               De tudo o que precede, deduz-se que, no jazz, a 
criao no est separada da interpretao.
          Nisso reside outra caracterstica do jazz. Em vez de um 
compositor escrevendo uma msica que
          os executantes tocaro em seguida, so os prprios 
intrpretes que, no jazz, asseguram a
          matria musical, seja pelas suas improvisaes, seja pela 
sua participao na elaborao das
          orquestraes. Os arranjos de conjunto que as orquestras de 
j azz executam, raramente so fixa-
          dos uma vez por todas. Muitas vezes so modificados segundo 
as sugestes do chefe de orques-
          tra ou dos seus msicos. O arranjo de tal ou de tal trecho 
pertence ao repertrio de um Duke
          Ellington ou de um Count Basie varia notavelmente de um ano 
para o outro.
               Outra caracterstica do jazz, que resulta da 
precedente:  essencialmente uma arte colectiva.
          Nele, a criao  raramente individual. Quando, numa 
orquestra, um solista improvisa, 
          apoiado pelos membros da seco rtmica que podem 
influenciar enormemente a sua maneira
          de improvisar, do mesmo modo que o labor do solista 
influencia, por seu lado, o estilo da sec-
          o rtmica. Acontece,  certo, que o jazz pode conhecer a 
criao individual: tal  o caso de um
          pianista tocando a solo sem o menor acompanhamento. Mas os 
solos de piano derivam direc-

          tamente da criao colectiva, pois, na origem, os pianistas 
de Jazz tocavam unicamente para
          fazer danar, e, como se disse mais acima, os danarinos 
influenciam os msicos, pelo menos
          do ponto de vista rtmico (que  o mais importante).
               Outra caracterstica do jazz  que os msicos no 
utilizam os seus instrumentos segundo a
          tcnica *clssica+, tal como se ensina nos conservatrios. 
Tocam como cantam. Ora, se o esti-
          lo vocal negro j bastante d@ferente da tcnica vocal 
europeia, o contraste torna-se ainda mais
          acentuado no domnio instrumental, em que os negros dobram 
a trompette, o trombone, o cla-
          rinete, para de algum modo se exprimirem como uma voz 
humana. O estilo instrumental dos
          negros  o mesmo que o de um negro quefala ou que canta.  
*expressivo+ sem nfase, sem sen-
          timentalismo redundante ou declamatrio de m qualidade, 
mas com uma veemncia extraor-
          dinria.  pelo ataque das notas, pelas inflexes, pela 
vibratilidade, muito mais que pela
          ideia meldica em si mesma, que o msico de jazz cria 
belasfrases nas suas improvisaes ou
          numa orquestraro de conjunto.

               Hugues Panassi, Le Jazz, nm. esp., *Le Point+, n.' 
XL, 1952,
                                   in Panorama das Ideias 
Contemporneas.




190

                                                            IV!W




     I



                                   GNEROS DE MSICA                 
  A.

                      o

                                   DIFUNDIDOS PELA RADI NOS
                                            ANOS 40 EM FRANA

                                                  N? de horas por ano

                                                  @A622 horas de

                                   1555 horas de                     
     r-m,
                                   1369 horas de

                                   942 horas de

                                   463 horas de

                                   229 horas de

                         P44GR                                61 
horas de

Programa do espectculo de Maurice Chevalier, em 1924 Th. Zeldin, 
Ilisioire des Passions Franaises, vol. 3, Paris, 1981.


                                                  O DESPORTO

     O desporto era o fruto de novas relaes entre trabalho e 
fazeres. Diz-se por vezes que o des-
porto se desenvolveu com o aumento do tempo livre, a reduo do 
horrio de trabalho e a inven-
o dofim-de-semana; defacto, o desporto expandiu-se anteriormente s 
leis sobre a utao
do trabalho; e, de todas as maneiras, a classe operria foi a ltima 
a participar nos desportos
organizados. [...    1 Deve antes analisar-se o aparecimento do 
desporto de massas no como um
culto rendido ao aumento do tempo livre mas como uma reaco contra a 
sua falta: foi porque
no podiam j divertir-se como queriam que as massas tiveram que 
organizar estas distraces
para depois do trabalho.
     O desporto, suscitando novos rituais, demarcou-se de repente dos 
antigos: a tradicional
festa da aldeia e osfestivais religiosos ofereciam momentos de 
repouso comparveis, mas eram
regidos por regras e todos deviam participar neles; os novos 
desportos permitiam a cada um afir-
mar a especificidade dos seus gostos e das suas aptides. Operavam 
uma partilha nova entre o tra-
balho e ojogo. O desporto institucionalizava ojogo numa actividade 
aparentemente distinta, o tra-
balho tomava ento o aspecto de uma maada - o que criou uma falsa 
dicotomia. Na realidade
trabalho ejogo tinham estado e continuavam a estar estreitamente 
misturados. [...              1 Quanto mais
os desportos e os cios apareciam como provas defelicidade, mais se 
exigia tirar satisfao do
trabalho. Eram sobretudo os membros das Profisses liberais e os 
empregados do sector terci-
rio em expanso, que afirmavam sofrer de aborrecimento, tal como de 
excesso de trabalho,
foram eles que desempenharam um papel particularmente activo no 
desenvolvimento do desporto.

O desporto era bem mais que um meio de matar o tempo, ele 
representava ao mesmo tempo um
prolongamento dos divertimentos tradicionais e um esforo para se 
libertar deles. [...              1

     Numerosos organizadores desportivos viam, na sua boa f, no 
desporto, um meio de esti-
mular a coragem da nao, melhorar a sade, dominar a violncia e 
disciplinar a juventude.
estes ideais deixavam impvidos a maior parte dos desportistas. Uma 
histria exclusivamente
preocupada com estesfins morais negligenciava toda a dimenso ldica, 
totalmente desinte-

                                                            191

                     .fe
               se dedicar aos exerccios fsicos.

               ressada, que motivava a inal                .         
      or parte dos 'ogadores. Os clubes desportivos contemplavam, 
con-
               tudo, ambos os aspectos, .frente destes 
encontravam-se, em geral, homens cheios de poder,
               munidos de um senso agudo de organizao, vidos de 
honras oficiais, e aos olhos dos quais o
               desporto era um servio pblico. A massa dos 
aderentes, pelo contrrio, vinha ao clube mais
               para se divertir, aproveitar das facilidades o 
recidas, tomar um copo e conversar do que para

                                             Theodore Zeldin, ob. 
cit.



               FUTEBOL                                               
  ATLETISMO


                                                  281 202

                                                                     
                                                   46 402
                                   277 832                           
                          Nmero de clubes

               Nmero de clubes         216 52
                    Nmero de jogadores        40 13    45 676
          Nmero de jogadores                                   
autorizados
          autorizados           188 760                              
31 210 31 952

                                                       7092

                     o                           3787


144 761                                        26 302      26 536 61

12 137 273                                          24 18V
     51 @8                                         24 914

          3983                            1 902
                                                                 40

     3424                                 616                       
19

                                       224    ;3         189         
        741

25                                          7 34

                        2594                              17
1630                                 15084        1441        16 709

659                                   1253

1920  1925  1930  1935  1940  1944    1921  1925        1930    1935 
 1940  1944

                                   Futebol e atletismo, 1919-1944

               Segundo a Enciclopdia Geral dos Desportos, 1946.

OS LAZERES DE MASSAS

O desenvolvimento dos fazeres de massas no est exclusivamente 
ligado ao das frias
agas. O desporto contribuiu amplamente para ela, quer sob aforma 
prtica (o ciclismo, por

     p
Au&  exemplo, foi cada vez mais apreciado pelos jovens, que puderam 
beneficiar, para os seus cir~
     cuitos, da hospitalidade dos albergues da juventude, criados em 
1930), quer sobretudo sob a
     forma de espectculo de,fim-de-semana. Nos anos trinta, o reijoi 
ofutebol, no plano local, onde
     o desafio do sbado  tarde se tornou um rito social de reunio 
dos homens, e no plano nacional,
     com a criao do campeonato das equipes profissionais e 
sobretudo as provas da Cup, cuja.final,
     disputada pela primeira vez em 1923, em Wembley, atraiu uma 
multido de 200 000 espectadores.
     O rugby e o cricket conservaram, apesar do enorme xito 
dofutebol, os seus adeptos.
          No princpio dos anos 1930 foi introduzido o sistema de 
apostas sobre os desafios de futebol

     profissional. Nova ocasio para os apostadores, que podiam j 
satisfazer a sua paixo pelas
     corridas de cavalos (a aposta mtua foi organizada pelo 
Racecourse Betting Act de 1928) e
     pelas corridas de galgos. Esta paixo pelas apostas unia, ao que 
parece, todas as classes sociais
     e Charles Mowat v nela *o vicio do sculo XX, como o 
alcoolismofoi o do sculo XIX+; mas
     acrescenta: *Pode ser que tenha sido o gosto pelas apostas que 
manteve a sensatez e o opti-
     mismo das pessoas durante a Depresso, a Segunda Guerra Mundial 
e o ps-guerra, com as
     suas angstias e a sua austeridade. +
                                                  P. Lon, ob. cit.

192

                         A CANALIZAO DE CONFLITOS

     Foi igualmente na dcada de 20 que alguns desportos passaram a 
ser, como as corridas de
cavalos tinham sido durante muito tempo, formas populares de diverso 
para centenas de milha-
res de pessoas que no praticavam necessariamente elas prprias esses 
jogos. Os jogadores de
futebol forneceram um novo tema aos artistas, o pintorfrancs Robert 
Delaunay evocou em
1912-1913 a velocidade e destreza de L'quipe de Cardiff, ao passo 
que o compositor suo
Arthur Honnegerfez do rguebi o tema de um poema sinfnico em 1928. 
Ao longo do sculo XX,
o desporto organizado, especialmente ofuteboljogado por equipas 
profissionais 1...      1, tornou-se
cada vez mais um espectculo de massas, at mesmo um culto de massas, 
e um desafio inter-
nacional, um motivo de expresso de emoes patriticas que levou 
alguns pensadores sociais
a considerarem o desporto como um substituto da guerra.

                                   J.   JolI, ob. cit.








                                                                 A@N









                                                  - - - - - - - -Io


                                                            193

               IRRADIAAO DA CULTURA DE MASSAS


O DESPORTO EM PORTUGAL

     Entre os modos de ocupao dos tempos livres, o desporto comeou 
a desempenhar papel de
relevo [... 1. iniciado, nas suas,formas organizadas, por influncia 
estrangeira, nomeadamen-
ie britnica, o desporto,foi, a princpio, apangio da aristocracia e 
da alta burguesia. A
pouco e pouco popularizou-se e democratizou-se, sobretudo nas 
modalidades ligadas  bola.
[... 1 O nmero de publicaes peridicas sobre desporto, que no iam 
alm de trs ou quatro no
primeiro decnio da centria, subiu para 10 (1913), 12 (1920), 20 
(1923) e 32 (1926), embora
com altos e baixos intermdios e diminuindo sensivelmente a partir da 
introduo da censura.
               De aristocrtico e lisboeta, o desporto passou a 
popular e nacional.

                                   A.   H. de Oliveira Marques e 
outros, ob. cit.






             TRABALHOS PRATICOS

                                                                 '


A,    ffi







Durante hora e meia de jogo, que fiz seno aceitar?

quando iria incomodar os nossos adversrios, para se mostrar quando 
era a ns que incomo-
dava. Aceitei que o vento soprasse quando estava contra ns e 
acalmasse quando estaria a

nossofavor Aceiteifazer a minha parte nas combinaes dejogo que eu 
achava votadas aofra-
casso. Aceitei e@foros ejdigas que sabia inteis      Aceitei que 
Beyssac metesse um golo, lhe
apertassem a mo, recebesse o sorriso das senhoras e tivesse o seu 
nome no boletim do clube,
quando,ffira eu e apenas eu que, por uma desmarcao, lhe tinha 
permitido marcar Aceitei dez
vezes que o rbitro decidisse contra ns, e no disse nada; 
aconteceu-me uma vez comear a
protestar, Ramandou,fez-me calar: *Silncio no campo!+ Ramandou tem 
dezoito anos e eu vinte
e cinco, e aceitei a sua brusquido um pouco desenvolta porque,  luz 
da justia, eu tinha razo,
 luz do jogo, eu estava errado.         Aceitei as minhas lacunas, 
que durante hora e meia
avaliei, ali! asseguro-te, sem que nada tenha escondido. Sei que 
tenhofalta deflego, que deixo
que me tirem a bola, que no tenho um remate certo. Sei que sou o 
centro de umafora to mis-
teriosa como a electricidade ou o gnio, a forma, que vem, vai, 
volta, sem razo e sem qualquer
regra conhecida, que me d s dez horas a plenitude de um semi deus e 
me corta as pernas s
de repente renasce do fundo de uma prostrao total, que desaparece 
duran-
onze e meia, que
te os dias do mais rduo treino, que faz crer que h verdadeiramente 
uma alma do corpo
independente da outra; e eu olho no interior de mim esta pessoa viva, 
estranha, e que sou eu
proprio e sobre a qual nada posso.

                                   H.   de Montherlant, Les 
Olimpiques, Gallimard, 1924.

Aceitei que o sol se escondesse








                                                             WN
194                                                             W

1.   Leia com ateno o documento

2.   Identifique a profisso do narrad

3.   Explique o que est em jogo na sua vida.

4.   Insira esta questo no contexto da emergncia do desporto de 
massas.





     O casamento de uma vedeta da televiso ocupa mais espao, 
portanto reveste-se de m
importncia, que esta in rmao silencia ; em quatro meses           
       ano e 9 5, ouve

                         fi9
Chile, segundo o arcebispo de Santiago, vinte e dois assassnios de 
opositores, cinquenta
feridos por balas, quinhentos e setenta e um cidados relegados para 
lugares desconhecidos,
duzentos e trinta e trs casos de tortura. O espectculo esmaga a 
tica da informao.
     Com os enormes meios que lhe so consagrados, o 
Estado-espectculo e a informao-
-espectculo, que ocupam o palco com carcter permanente, do provas 
de uma notvel
cegueira. Demoram mais de um ano a descobrir, na Etipia, uma fome 
prevista h muito
tempo. Meses perdidos para o envio de socorros de urgencia. E ser 
preciso alongar ainda o
prazo para se aperceber que a fome,franqueou sub-repticiamente a 
fronteira de um pas pr-
sovitico e atingiu um outro, o Sudo, ento submetido, ele tambm, a 
uma abominvel ditadura,
mas pr-ocidental... O espectculo nunca  inocente.
      difcil, mas possvel, it@fOrniar-se.  difcil, mas 
possvel,,fazer a triagem, por mais delicada
que seja, entre as *notcias+ que constituem uma informao 
significante e as que em nada
mudam a marcha do mundo.  difcil, mas possvel, interessar um 
pblico crescente por esta
ascese da inteligncia.
     Tanto para o Estado como para os media,  certamente maisficil 
continuar o espectculo,
mesmo que medocre. Contudo, ateno: o espectculo no une 
duradoiramente cidados
responsvel . s associados a uma empresa comum, mas arrebanha um 
auditrio provi . srio que se
dilui aps a ltima rplica. Os habitantes de um pas, apesar de tudo 
o que os divide e os dila-
cera, tm interesses comuns, mesmo que apreciados de modo diverso.
     Uma nao tem tambm uina histria e, se o quiser, um,futuro, um 
projecto que pode discutir
mas que a leva, solidariamente, a es ros livremente consentidos. S 
pode viver em conjunto
fio
pela adeso a uma certa percepo do seu lugar no mundo, do papel que 
nele pode interpretar
para ela e para outros. Mal informada sobre si prpria e sobre o seu 
lugar no mundo, cami-
nhar sem inquietaes para as piores desgraas. No h democracia 
sem informao rigorosa
e sem debate leal, incompatveis com o espectculo-rei que desnatura 
a informao e dissolve

o Estado, a nao e a prpria sociedade, tornada ignorante das 
solidariedades elementares, dos
interesses mais essenciais, das aspiraes mais legtimas.
     Nofim do espectculo, como aps umfrente-a-frente televisionado, 
quando cair o pano e
se apagarem as luzes da ribalta, o pblico dispersar-se- e 
regressar a casa. No dia seguin-
te, ele aperceber-se- com estupefaco que o seu destino 
nofoijogado no palco que lhe apre-
sentaram, mas em lugares muito diferentes. Descobrir que o sistema 
monetrio, os meca-
ni.smos dos mercadosfinanceiros ou dos produtos bsicos, os sistemas 
de armas e as concep-

     es estratgicas, todos esses problemas speros com os quais os 
responsveis da informao-
     espectculo no o quiseram incomodar, decidiram por si. 
Demasiado tarde, ele saber que
     outros poderes surgiram, que outras relaes de,foras se 
estabeleceram. Respeitar ainda o
     ritual sagrado da democracia, mas ach-lo- sem capacidade de 
influir sobre o real. Ento
     indignar-se-: porque no me preveniram.? O espectculo que 
retivera a sua ateno, afinal
     no tinha qualidade...

               A Comunicao Social Vtima de Negociantes, Lisboa, 
1992.


     1.   A partir da leitura do documento 2, elabore um comentrio 
sobre o poder cada vez maior
          dos media na actualidade na formao/deformao da opinio 
pblica.

     2.   Procure mais informao sobre o tema e promova um debate 
sobre as questes em
          apreo, ao nvel da sua turma.



     1.   Caracterize a cultura de massas.

     2.   Aponte razes para a sua emergncia.

     3.   Caracterize o star system que, hoje, sabemos no se reduzir 
s estrelas do cinema mas
          tambm aos desportistas, aos artistas da rdio e da TV, 
etc.

     4.   Explique o xito da banda desenhada e da literatura 
sentimental e de aco.

     D@                               @t@'3S     progra,

     1.   Visionamento e comentrio de filmes que exprimam ou 
reproduzem actitudes e com-

          portamentos sociais caractersticos da poca, como: A Rosa 
Prpura do Cairo e Os Dias
          da Rdio, de Woody Allen, e Cabaret, de Bob Fosse.

     2.   Pesquisa de documentos referentes  divulgao da cultura 
de massas em Portugal dos
          anos 30-

     3.   Elaborao de um comentrio escrito sobre os temas 
sugeridos pela leitura de alguns
          textos das Mitologias, relacionados com a problemtica em 
estudo. Propomos, por
          exemplo, os documentos 3 e 4 e o documento 20, da p. 188.


                                        p O B i4 E
     A

          O ltimo gag de CharlotJi o de ter tranVrido metade doseu 
prmio sovitico para a caixa
     do Padre Pierre. No,fundo, isso equivale a estabelecer uma 
igualdade de natureza entre o pro-
     letrio e o pobre. Charlot viu sempre o proletrio sob a 
fisionomia do pobre: da a fora
     humana das suas representaes, mas tambm a sua ambiguidade 
poltica. O que  bem visvel
     nesse filme admirvel que  Tempos Modernos. Charlot a ora a 
sem cessar o tema proletrio,
     fl
     mas nunca o assume politicamente, o que ele nos d a ver  o 
proletrio ainda de olhos,fecha-
     dos e mistificado, de nido pela natureza imediata das suas 
necessidades e a sua alienao total
     fi

                                                                 
...... ... ..
196

nas mos dos seus senhores (patres e polcias). Para Charlot, o 
proletrio  ainda um homem
que temfome: as representaes da,fme so sempre picas em Charlot: 
grossura excessiva das
sanduches, rios de leite, fruta que se deita fora depois de uma 
mordedela: por uma atitude irri-
soria, a mquina de comer (de essncia patronal) no fornece mais do 
que alimentos parcela-
res e notoriamente inspidos. Absorvido na sua fome, o homem-Charlot 
situa-se sempre ime-
diatamente abaixo da tomada de conscincia poltica: a greve  para 
ele uma catstrofe, por-
que ameaa um homem realmente cego pela,fome; este homem no se 
integra na condio ope-
rri .a seno naquele momento em que o proletrio e o pobre coincidem 
debaixo do olhar (e das
pancadas) da polcia. Historicamente, Charlot coincide mais ou menos 
com o operaro da

Restaurao, o trabalhador revoltado contra a mquina, desamparado 
pela greve, fascinado
pelo problema do po (no sentido prprio do termo), mas ainda incapaz 
de aceder ao conhe-
cimento das causas polticas e  exigncia de uma estratgia 
colectiva.
     Mas  preci .samente porque Charlot personifica uma espcie de 
proletrio em bruto, ainda
exterior  Revoluo, que a sua fora representativa  imensa. 
Nenhuma obra socialista con-
seguiu, at agora, exprimir a condio humilhada do trabalhador com 
tanta violncia e gene-
rosidade. S Brecht, talvez, tenha entrevisto a necessidade, para a 
arte socialista, de surpreender
sempre o homem em vsperas da Revoluo, isto , o homem s, ainda de 
olhosfechados, pres-
tes a abrir-se  luz revolucionria pelo excesso *natural+ dos seus 
sofrimentos. Ao mostrar o
operrio j empenhado num combate consciente, subsumido pela Causa e 
pelo Partido, as
outras obras do conta de uma realidade poltica necessria, mas 
seinfora esttica.

     Ora Charlot, em con rmidade com a ideia de Brecht evidencia a 
sua cegueira perante o

                         P                                     1

pblico, de tal modo que este v, simultaneamente, o cego e o seu 
espectculo; ver algum no
 ver a melhorfi)rma de ver intensamente o que ele no v: assim, so 
as crianas que denun-
ciam ao Guignol aquilo que elefinge no ver. Por exemplo, Charlot, na 
sua cela, bem tratado
pelos guardas, leva a vida ideal do pequeno-burgus americano: de 
pernas cruzadas, l o seu
jornal debaixo de um retrato de Lincolti, mas a suficincia adorvel 
dessa postura desacred-
ta-a completamente, fazendo com que no sej . a mal . s possvel 
refugiar-se nela sem se dar
conta da nova alienao que contm. As mais leves tentaes tornam-se 
desse modo vs, e o
pobre  assim delas afastado. Em suma,  por isso mesmo que o homem- 
Charlot triunfa sempre
de tudo: porque escapa a tudo, rejeita todas as ordens comanditadas, 
e nunca investe no
homem seno o prprio homem. A sua anarquia, politicamente 
discutvel, representa em arte a
forma talvez mais eficaz da revoluo.



            kI, U S i C -,!,-i A

     O tempo do teatro, qualquer que ele seja,  sempre ligado. O do 
music-hall , por defini-
o, interrompido;  um tempo imediato. E  esse o sentido das 
variedades: que o tempo cni-

co seja um tempo justo, real, sideral, o tempo do prprio referente, 
no o da sua previ          .so (tra-
gdia) ou da sua reviso (epopeia). A vantagem deste tempo literal  
que ele  o melhor que
pode servir o gesto, porque  evidente que o gesto no existe conto 
espectculo seno a par-
tir do momento em que o tempo  entrecortado (v-se isso bem na 
pintura histrica, em que
o gesto surpreendido do personagem, o que alhures chamei o numen, 
suspende a durao). No
fundo, a variedade no  uma simples tcnica de distraco,  uma 
condio do artifcio (no
sentido baudelairiano do termo). Extrair o gesto da sua polpa 
adocicada de durao, apre-

     sent-lo num estado superlativo, definitivo,        dar-lhe o 
carcter de uma visualidade pura,           liber-
     t-lo de toda e qualquer causa, esgot-lo como espectculo e no 
como significao, tal  a
     esttica originial do music-ha11. Objectos (de mergulhadores) e 
gestos (de acrobatas), limpos
     do tempo (isto , ao mesmo tempo de um pathos e de um logos), 
brilham como artifcios puros,
     que no deixam de fazer lembrar a fria preciso das vises 
baudelairianas, sob o haxixe de
     um mundo absolutamente purificado de toda a espiritualidade 
porque renunciou precisamente
     ao tempo.
          Tudo  feito, no music-hall, para preparar uma verdadeira 
promoo do objecto e do
     gesto (o que, no ci ente mo erno, no po e ser seno ito contra 
os espectcu os psico -
     gicos, e especialmente o teatro). Um nmero de music-hall  
quase sempre constitudo pelo
     choque de um gesto e de um material: patinadores com o seu 
trampolim de laca, corpos tro-
     cados dos acrobatas, danarinos e antipodistas (confesso ter uma 
grande predileco por estes
     nmeros de anti odistas dado que o corpo  a objectivado com 
doura: no  um objecto duro
     e catapultado como na pura acobracia, mas antes uma substncia 
mole e densa, dcil aos
     movimentos muito curtos), escultores humoristas com as suas 
massas multicores, prestigita-
     dores mascando papel, seda, cigarros, carteiristas abafando 
relgios, carteiras, etc. Ora, o
     gesto e o seu objecto so os materiais naturais de um valor que 
no teve acesso  cena
     seno atravs do music-hall (ou do circo), e que  o Trabalho. O 
musie-hall, pelo menos na sua
     parte variada (porque a cano, que passa como uma vedeta 
americana, releva de uma outra
     mitologia), o music-hall  a forma esttica do trabalho. Cada 
nmero a se apresenta, quer
     como exerccio, quer como produto de um labor: to depressa o 
acto (do prestigitador, do acro-
     bata, do mimo)  a soma final de uma longa noite de treino, como 
o trabalho (desenhadores,

     escultores, humoristas)  recriado completamente diante do 
pblico ab origine. De qualquer
     maneira,  um acontecimento novo que se produz, e esse 
acontecimento  constitudo pela per-
     feio,frtgil de um e,@foro. Ou antes, artifcio que  mais 
subtil, o esforo  retido no seu auge,
     nesse momento quase impossvel em que vai mergulhar na perfeio 
da sua realizao, sem ter
     contudo abandonado completamente o risco defracasso. No 
music-hall tudo  quase conse-
     guido; mas  precisamente este quase que constitui o 
espectculo, e lhe conserva, a despeito
     da sua preparao, a sua virtude de trabalho. Assim, o que o 
espectculo de musie-hall d a
     E           ver no  o resultado do acto, mas o seu modo de 
ser, a tenuidade da sua superfcie conseguido.
     Eis unia maneira de tornar possvel um estado contraditrio da 
histria humana: que no gesto
     do artista sejam simultaneamente visveis a musculatura 
grosseira de um trabalho rduo, a
     ttulo de passado, e a lisura area de um actofcil, originria 
de um cu mgico: o musie-hall
      o trabalho humano memorizado e sublimado; o perigo e o esforo 
so significados no
     mesmo momento em que so subsumidos pelo riso ou pela graa.
          Naturalmente, o music-hall necessita de uma profundidade 
ferica que tire ao labor toda a
     rugosi de e no lhe deixe mais do que o traado. Nele reinam as 
bolas brilhantes, as varinhas
     leves, os mveis tubulares, as sedas qumicas, as brancuras que 
rangem e as maas cintilantes;
     o luxo visual exibe aqui a facilidade, depositada na claridade 
das substncias e na ligao dos
     gestos; o homem ora  um suporte vertical, uma rvore ao longo 
da qual desliza uma mulher-
     caule; ora se trata, partilhada por toda a sala, da cenestesia 
do impulso, da gravidade, no
     vencida mas sublimada pelo salto. Neste mundo metalizado, 
emergem antigos mitos de germi-
     nao, dando a esta representao do trabalho a cauo de 
movimentos naturais muito antigos,
     sendo a natureza sempre uma imagem do contnuo, isto , feitas 
bem as contas, do fcil.



198

              TENSES POLTICAS
        E EQUiLBRIOS GEOESTRATEGicos
          DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
               AOS NOSSOS DIAS

     CRONOLOGIA


     1945 1946 1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 
1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 
1972 1973 1974 1975 1976

10                                                             10

               Pontos altos d Guerra Fria



                                                                     
                                                                     
                                                                   
1975 - Actas finais da
8                                                                    
                                                      ... ... ....

                                                Conferncia de 
                                                  elsnquia
                    1972    Nixon vai


                              Tratado S

7                                                        er  R      
7
                                                         inq Icio)
   1968 -Tratado sobre armas
   nucleares.                 1971 - Compi  isso da
   (EUA, URSS, Gr-Bretanha   qu            o potncias

6  e 59 outros Estados                      Berlim                   
6


     1963     Negociaes EUA-
5                                               -URSS sobre armas 5
                                                        atmicas

                                             1 967 -Tratado en re 
EUA,

4                                                                    
  1959 - Encontro sobre                                              
                                                URSS e Gr i-Bretanha 
                                                                     
                                             4
                                                                 
desarmamento em

             Carrip David E.U.A.
                   e URSS.
             Conferncia de Par
3



2                                                              >* 2
1955    Pacto de                                          1975[76 
Guerra em Angola
                                                            Varsvia
                                                            
Conferncia sobre

                                                    desarmamento 196 
de des viamento
1                                                            lear 1




o                                                               o



1               1945                Conferncias d e                 
                                                                     
                                                                     
                                  1
          falta e Potsdam

                                        1968      Fim do ataque areo

2                                                                    
          americano a Hani.     2
                                                                     
          Primavera de Praga.
                    1954  Conferncia de                             
          Crise dos Estados
                          Berlim entre Mini, ros                     
          satlites socialistas

3                         dos estrangeiros        1957  Lan mE ito do 
Sputnik                         3




4  1947 - Doutrina                                                   
                                 4
   Truman


                     6 - Revovuoh  a     1960 - Lanam ;nto de U2

1952  Proposta URSS  Ocupao p     1 db  sobre a Issia


5  para neutraliza      do Suez pel@ Fr na       5
   total da Alema       e Gr-Breta

                    53  istcio da
                        rra da Coreia
6                                                 6




7                       1958      Ultimato a      7
                        Berlim pela           SS


                    1948149  o de
                                   1 96 -Teste  s superbombas
8  1948 - Golpe de                 da UFI:      ;. Teste das bombas  
8
   Praga                           atmic       s dos EUA

                                                  Crise ( Berlim.

                                   Constr  ;o do Muro
                                   Refor  do empenhamento
9   1949 - N                               os EUA                 9
              1950153 - Guerra da          ame
              Coreia

                                           1962 - Crise de Cuba
10                                                               10

     1945 1946 1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 
1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 
1972 1973 1974 1975 1976


                     77@

200


                                               .. ....  ... .... . . 
. . ..... .....

Principais Guerras desde 1945


  SIA
                                                                     
                                                                     
       - - - - - - - - - - - - - -

  CHINA                                                 Guerra Civil 
Chinesa

  INDONSIA                                             Guerra de 
independncia da Indonsia
  INDOCHINA                                                          
      Primeira Guerra (Ia Indochina
  FILIPINAS                                                          
      Revolta Huk nas Filipinas
  BIRMANIA                                                 Revolta 
Karen na Birmnia
  MALASIA (MALAIA)
                                                                     
                               Emergncia na Malsa
  COREIA                                                             
  Guerra naCoreia
  TIBETE                                                             
                            Revolta no Tibete contra a China
  INDOCHINA                                                          
                                                                     
                                                          @PSegunda 
Guerra Indo-Chinesa
  NDIA-CHINA                                                        
                                          Guerra de fronteira 
Sino-Indiana
  MALASIA                                                            
                                                                     
                                 Confronto Maisia-indonsia
  NDIA-PAOUISTAO
                                                                     
                                                                     
                    IE"Guerra Indo-Paquistanesa
  CHINA-URSS                                                         
                                                                     
                                               Incidentes de 
fronteira Sino-Soviticos
  NDIA-PA0L1ISTO
                                                                     
                                                                     
                                                     Guerra 
Indo-Paquistanesa
  FILIPINAS                                                          
                                                                     
                     Revolta Muulmana nas Filipinaslyl~
  TIMOR LESTE                                                        
                                                                     
                                                                    
affilinffl --i
                                                                     
                                                                     
                                 Invaso Indonsia de Timor Leste
  KAMPLICHEA                                                         
                                                                     
                                               Invaso Vietnamita do 
Kampuchea
  VIETNAME

                                                                     
                                                                     
                                                      Invaso Chinesa 
do Vietriame


AFRICA
MADAGASCAR  Rpv011, du r.11; i 1
QUENIA      Revolla Ilos rlim: r., 11 1 1 R4u              ffi,      
w~g
TUNSIA     @p,                                @.p.                  
de          da IIIIII5U1
MARROCOS                                       !
                                                                     
Guerm de    de, Marrocos


ARGELIA     Guerra de Indoppiffleiu:ia da Ar(lia
                                            .1

SUEZ                                                                 
    Suez

CONGO                                                                
                                       rra Civil do Congo
                                                                     
                                   Gue

ERITREIA                                                         
Revolta da Eritreia
                                                                     
                                                   ..... ..... . 
....... . .. ..
                                                   Guerra de 
Independncia de Ango
ANGOLA                                                               
                 Ia
GUINE                                                       Guerra de 
Independncia da Guin         
................................................
                                                                     
                                     
...........................................
MOAMBIQUE                                               Guerra de 
Independncia de Moambique
                                                                     
                                    ....... .... ...
RODESIA                                                     Guerra de 
Independncia do Zimbabwe

NIGIRIA                                                             
                                            Guerra Civil da Nigria

ANGOLA                                                               
                                           Guerra Civil de Angola


NAMBIA                                                              
                            Guerra de Independncia da Na m bia

OGADEN                                                               
                                                      Guerra do 
Ogaden

SAHEI.                                                               
                                                          G uerra o a 
e

TANZANIA                                                             
                                                 Invaso Tanzaniana 
do Uganda


   EUROPA
   GRECIA             Revolta Comunista Grega
r  ALEMANHA DE LESTE  Interveno Sovitica na Alemanha de Leste
   POL(JINIA          Interveno Sovitica na Polnia
   HUNGRIA            Interveno Sovitica na Hungria
   CHECOSLOVAOUIA                                                 Int 
a na Checoslovquia
   IRLANDA DO NORTE   Irlanda do Nor e

   AMRICA LATINA
   CUBA               Revoluo Cubana
   BMA DOS PORCOS     Baa dos Por cos

     SAO DOMINGO    Interveno americana em So Domingos
     GUATEMALA      Guerra Civil na Guatemala =wffiNNffiffiffl@@
     NICARAGUA                                  Revoluo na 
Nicargua

     El. SALVADOR
                                           Guerra Civil em El 
Salvador


   MALVINAS
                                                   Ataque argentino 
s Malvinas

   MDIO ORIENTE

   ISRAEL
                  Guerra Arabo-lsraelita
   CHIPRE         Desordens Civis em Chipre
   SINAI          Invaso Israelita do Sinai
   UBANO          Interveno americana no Lbano
   IEMENE                                          (-,corri civil nu 
1 niene

r  ADEM                                            Gilorw 11,! 
Indeliplidncia de Adp111

   ISRAEL                                          Guerra dos Seis 
Dias
   ISRAEL
                                                   Guerra de Yorn 
Kippur
   CHIPRE
   LIBANO                                          Invaso Turca de 
Chipre
                                                   Guerra Civil 
Libanesa/SriaIOLPAsrael @=0N~
   AFEGANISTO
                                                   Interveno 
Sovitica no Afeganisto
   IRAO-1RAQUE                                     Guerra do Golfo 
Iro-iraque

Guerra entre estados           Guerra Civil          Guerrilha 
Interveno estrangeira


                                                            201

           O AFRONTAMENTO BIPOLAR
          DO POS-GUERRA (1945-1954)








          Clim-chilI, Muo T@-Tng, Roosevelt e Estaline

          O FIM DA GUERRA E A PROMESSAS DE PAZ
                              ........ . .........................  
... . ..... ............


1.   A ERA DO *DIALOGO IMPOSSVEL+

2.   1945 - ANO ZERO DA EUROPA: DA CONFERENCIA DE IALTA AOS
     ACORDOS DE POTSDAM

3.   A PARTILHA DE ZONAS DE INFLUENCIA E O NOVO TRAADO
     DA EUROPA

4.   A ORGANIZAO DAS NAES UNIDAS: *A DEMOCRACIA ESTENDIDA,
     AS RELAES INTERNACIONAIS,,

     Balano da ONU








     Os exaltados preparam-se para o confronto final que decidiria o 
domnio do Mundo

               o          TAMEUTO BIPOLAR,

1.   A ERA DO *DIALOGO IMPOSSVEL+

     Os acontecimentos ocorridos na Europa entre a

2' Grande Guerra e os anos oitenta resultam do
antagonismo de duas dinmicas. Uma de natu-
reza poltica, que leva, sem nunca se desencadear
um conflito geral, ao afrontamento das duas gran-
des potncias dotadas de um arsenal militar
extraordinrio, os Estados Unidos e a URSS.
Outra de natureza econmica, que marca um
novo impulso do capitalismo  escala mundial.

     Na primeira podemos distinguir trs perodos:
um curtssimo, em que as alianas do tempo da
guerra se mantm; outro, entre 1946 e 1962, em
que a *guerra fria+ adquire formas e intensidade
variveis, comeando o degelo a encaminhar as
super potncias para um 3.0 perodo, a *coexis-
tncia pacfica+, caracterizado por um instvel
equilbrio nuclear entre os dois grandes. Ao longo
desta evoluo abrem-se fissuras nos dois blocos
por aco de foras concorrentes, isto , do original
mundo bipolar ameaa nascer um outro, tripolar
ou quadripolar, sem que nos momentos de crise
internacional estes candidatos  liderana, China,
Comunidade Econmica Europela, Japo, consi-
gam ser escutados para a resoluo dos problemas.
     Por seu lado, na dinmica dos sistemas econ-
micos tanto a leste como a oeste, h a considerar
como intervenientes na reconstruo e no perodo
de prosperidade do ps-guerra a descolonizao, a
internacionalizaro do capital e as novas industria-
lizaes do Terceiro Mundo.
     1945  sem dvida o ponto de partida do anta-
gonismo entre as dinmicas poltica e econmica e
a data da confirmao de que  era da supremacia
europeia se sucede a era dos Estados-continentes,
URSS e EUA. Pode dizer-se que toda a histria
poltica de 1945 a 1995 decorre da constataro
deste declnio irremedivel e da necessidade de
reinventar o futuro.


2.   1945 - ANO ZERO DA EUROPA: DA
     CONFERENCIA DE IALTA AOS ACORDOS
     DE POTSDAM

     O *que fazer?+ quando terminasse a guerra,
ocupava os Aliados desde 1943. Nesse ano, logo no
princpio, em Casablanca, Ingleses e Americanos
combinaram, quando a ocasio chegasse, exigir da


206

POS-GUERRA (1945-1954)

     Alemanha uma capitulao sem condies.
     Depois, j no Outono, em Teero, juntam-se-lhes os
     Russos e inicia-se uma srie de conferncias tri-
     partidas da maior importncia. Segundo convic-
     o generalizada, Churchill, Roosevelt e Estaline
     decidem, em Fevereiro de 1945, em Ialta, na
     Crimeia (doc. 1), definir as zonas de influncia
     que consagram a partilha da Europa. As especifica-
     es ocorrem em Julho, na Conferncia de
     Potsdam, entre Estaline e dois actores menores:
     Truman, que entretanto ascendera  presidncia dos
     Estados Unidos aps a morte de Roosevelt, e Atlee,
     o lder do Partido Trabalhista que ganhara aos con-
     servadores, apesar do enorme prestgio internacional
     e nacional de que Churchill gozava (doc. 2).
          A derrota alem e dos seus aliados consuma-
     ra-se. A capitulao militar definitiva fora assi-
     nada (doc. 3), Mussolini executado, Hitler suici-
     dara-se e, em Agosto, a bomba atmica destrura
     Hiroxima e Nagasqui (doc. 4). Em Potsdam, na
     sequncia de um protocolo j aceite em Teero
     por presso sovitica e desenvolvido posterior-
     mente, consagrara-se o princpio *de estabelecer a
     uniformidade tnica de certas regies+ (doc. 5) e
     a deciso de proceder, *de forma ordenada e huma-
     na+,  transferncia das populaes alems da
     Polnia, Checoslovquia e Hungria. Assim se pre-
     para a satelitizao do Leste (doc. 4).

          Ao findarem as hostilidades, a deciso de
     Potsdam vai dar origem  mais colossal migrao
     humana de toda a histria, calculada entre 15 e
     16 milhes de pessoas (doc. 6).

          Outro ajuste de contas  ainda decidido dentro da
     poltica de desnaziricao: o julgamento dos prin-
     cipais responsveis pelos horrores da guerra que
     agora se estava em condies de avaliar. Quarenta
     milhes de mortos (doc. 7) e uma guerra total que
     envolvera as populaes civis, sujeitas aos bombar-
     deamentos areos, foradas a abandonar a sua casa e
     o seu pas (doc. 8), empenhadas na resistncia, per-
     seguidas e deportadas pela sua raa e convices.
          No Japo, numa curta fase de depurao, os
     responsveis so condenados; na Alemanha, o
     Tribunal de Nuremberga inicia as suas sesses
     no final do ano e ao fim de 10 meses delibera a
     condenao  morte de onze dos principais dig-
     nitrios, civis e militares, do regime hitleriano. 
     um apuramento de responsabilidades (a que a
     Itlia foi poupada aps a aproximao aos
     Aliados nos finais da guerra), que abriu feridas


o                                                               o

                         *IM D, @',U            AS P )MESSAS DE PAZ

que ainda no sararam completamente passados
50 anos.
     Tambm est preparada antes do fim da guerra
a nova ordem internacional. Em 194 1, Roosevelt
sugere a constituio de uma aliana mais per-
manente do que a que ento se assinava por razes
militares. Nessa linha redige em 1941, juntamente
com Churchill, a Carta do Atlntico, e nela
entronca a constituio das Naes Unidas deci-
dida em Ialta em 1945 (doc. 10). A reconstruo
do sistema monetrio internacional fica tam-
bm garantido em 1944, em Bretton-Woods (doc.
11). A entrada em funcionamento do Fundo
Monetrio Internacional consagrava o regresso 
estabilidade das moedas e o papel do dlar como
moeda de reserva (nico papel-moeda de con-
vertibilidade multilateral).
     Representantes de 45 governos discutem a
futura ordem econmica que impea, pela posi-
tiva, o regresso das desordens dos anos 30 que
tanta influncia tinham exercido no deflagrar da 2.'
Grande Guerra. So dois os sectores fundamen-
tais: recriar, como se disse, um sistema monetrio
internacional e encontrar uma plataforma de acor-
do geral sobre o comrcio e as tarifas aduaneiras.
     Devido  sua inegvel superioridade industrial,
financeira e militar so os pontos de vista dos
Estados Unidos que acabam por triunfar, num
debate em que um dos mais notveis intervenien-
tes foi o economista britnico Keynes. Este defen-
dia que o novo sistema monetrios (SMI) no
devia assentar num padro-ouro, mas sobre uma
moeda de conta, inconvertvel, o bancor emitido
por um organismo internacional de compensao.
Mas so as posies americanas que vencem, isto
, o regresso a uma verso melhorada do Gold
Exchange Standard ' lanado em 1922 e que
repousava sobre o ouro e o dlar americano. As
duas novidades do sistema monetrio internacio-
nal so o Fundo Monetrio Internacional (FMI)
e a criao do Banco Mundial (Banco
Internacional para a Reconstruo e o
Desenvolvimento). Ambos tm a sede em
Washington e naturalmente na sua constituio
reflectem a supremacia dos EUA (doc. 12). Como
qualquer deciso devia reunir 80% dos sufrgios,
calculados em razo da quota-parte de cada mem-
bro do FM1, na prtica, depois do abandono da
posio sovitica, isso correspondia  possibili-
dade de veto acordada aos Estados Unidos.
     Estes ltimos, temendo o reaparecimento de

uma crise de sobreproduo, tambm, desde 1941-

1942, vinham afirmando a sua vontade de elimi-
nar todas as formas de discriminao no comr-
cio internacional e de reduzir as tarifas adua-
neiras. Consideravam que era essa a lio da his-
tria: *a liberdade no trfico comercial internacio-
nal criar o ambiente necessrio  preservao da
paz+. A procura dos meios prticos de reforar a
cooperao internacional conduziu  proposta de
Dezembro de 1945 de fundar uma Organizao
Internacional do Comrcio (OIC), mas o que deste
esforo ficou foi o GATT (General Agreement on
Tariffs, and Trade), conjunto de regras acordadas
em 1947. Delas dependeu o desenvolvimento efec-
tivo do comrcio mundial (doc. 13).

     No plano social, Lord Beveridge, em 1942,
baseado num estudo sobre segurana social apon-
ta a responsabilidade do Estado na luta contra
a doena, a misria, o desemprego e a ignorn-
cia. Em 1944 precisa o seu pensamento num pan-
fleto, O Pleno Emprego Numa Sociedade Livre. 
este o principal ponto de referncia do welfare-
-state. Segundo a doutrina preconizada, que no 
original nas medidas propostas mas sim na siste-
matizao, o Estado-providncia  um Estado
que permanece liberal porque respeita as leis
do mercado mas que reconhece o seu dever de
interveno social.
     Para completar o puzzle, um outro movimento
determinante para o imediato ps-guerra, a desco-
lonizao, encontra apoio oficial em 1943, com a
garantia de independncia da Coreia dada pelo
Estados Unidos, Gr-Bretanha e China e, no ano
seguinte, com a Conferncia de Brazzaville. Em
1945 inicia-se a vaga irresistivel das declaraes
sucessivas de independncia.


3.   A PARTILHA DE ZONAS DE INFLUENCIA
     E O NOVO TRAADO DA EUROPA

     Apesar de no ser consensual a ideia de que
em 1945, nas conferncias de lalta e, mais ainda,
na de Potsdam, os Aliados tivessem dividido o
Mundo,  desde ento que o mal-estar se comea a
instalar. Tratava-se de combinar as ltimas ope-
raes militares e de traar as grandes linhas da
reorganizao territorial e poltica da Europa.
     As trs potncias vitoriosas desejam manter
relaes harmoniosas, mas depois de feito o pri-

207

meiro balano, segue-se o momento da tomada de
consc lncia das diferenas e das divergncias. Os
EUA, os mais fortes economicamente e com um
territrio inclume s destruies da guerra (doe.
14), temem precisar da ajuda sovitica para o ani-

quilamento definitivo do Japo; a Gr-Bretanha,
que estivera na origem da definio de reas de
influncia (doe. 15), deseja incluir a Frana na ocu-
pao da Alemanha; a Unio Sovitica, que granjea-
ra a admirao dos demais pelos enormes sacrifcios
e perdas sofridas (doe. 16), encontrava-se esgotada
pela guerra, mas sal do isolamento a que as potn-
cias democrticas tinham votado o bolchevismo e
apresenta ao Mundo as enormes conquistas territo-
riais levadas a cabo pelo Exrcito Vermelho.
     Em todas as conferncias internacionais - de
Teero a Potsdam - se apresentam os *Trs
Grandes+ mas, a prazo, a perda das colnias e a
dependncia da Gr-Bretanha para com os Estados
Unidos  um facto incontomvel (doe. 17). Na reali-
dade, a definio das zonas de influncia passa
apenas por dois comparsas, EUA e URSS, que sa-
ram da 2.' Guerra Mundial como as potncias hege-
mnicas do planeta. A Europa perde o seu tradicio-
nal primado e v-se partilhada pelas duas zonas de
influncia: a Ocidental dominada pelos Estados
Unidos e a Oriental pela Unio Sovitica (doe. 18).
     A Escandinvia, a Europa atlntica e a medi-
terrnica, com pequenas variantes na Itlia, recu-
peram as fronteiras de 1939. A Europa Central e de
Leste, com a extenso territorial da URSS, o des-
locamento das regies englobadas na Polnia e o
desaparecimento da Alemanha enquanto Estado
livre, sofre uma profunda mutao. Com a depor-
tao de minorias, a carta poltica da Europa rev-
Ia-se do ponto de vista tnico mais homognea do
que antes da guerra. Fora do continente, as potn-
cias coloniais,  excepo da Itlia, retomam, por
pouco tempo, os seus imprios.


4.   A ORGANIZAO DAS NAES UNIDAS:
     *A DEMOCRACIA ESTENDIDA AS
     RELAES INTERNACIONAIS,,

     Os anos de guerra tinham unido vigorosa-
mente a Europa, quer no plano do combate, ocu-
pao e resistncia, quer no plano do sistema pol-
tico, em torno das trs foras democrticas mais
avanadas. O socialismo, ligado  11 Internacional,
o comunismo, que sai da clandestinidade apoiado

208

pela Unio Sovitica e a democracia crist, forta-
lecida pela resistncia aos regimes autoritrios.
     Estas trs foras, unidas em governos de coli-
gao, encetam em vrios pases transformaes
profundas no domnio das instituies polticas,
das estruturas econmicas e das relaes sociais,
todas elas tendentes a possibilitar uma democra-
cia poltica e social mais completa e mais efectiva.
     No campo das relaes internacionais,  o per-

curso que vai da proclamao, em 14 de Agosto de
1941, dos oito pontos da Carta do Atlntico, fir-
mada por Churchill e Roosevelt,  Carta das
Naes Unidas, assinada em S. Francisco a 26 de
Junho de 1945 por 51 pases (doe. 19). Em 1946
realiza-se, em Genebra, a ltima reunio da SDN,
antes da sua dissoluo e da fixao da sede da
ONU em Nova lorque (doe. 20).
     O projecto  de iniciativa norte-americana e
vem na linha das propostas do presidente Wilson
em 1919 para a fundao da Sociedade das
Naes. Tentava-se, evidentemente, eliminar as
razes do fracasso desta (doe. 21).
     O seu grande entusiasta  Roosevelt, que, de
forma expressa, abandona o isolacionismo tradi-
cionalmente defendido pelo seu pas e defende um
sistema permanente de segurana geral apto a
assegurar a paz no Mundo, sustentada pela colabo-
rao econmica e poltica das naes (doe. 22).
     Comparticipado por todos os Aliados contra o
Eixo, este embrio de Naes Unidas, dominado
por quatro *gendarmes+ vigilantes e com direito de
veto - a Inglaterra, os EUA, a China, a URSS e, 
ltima hora, a Frana, que se lhes juntou - devia
estender-se aos povos democrticos e pacficos
de toda a Terra desde que subscrevessem a Carta.
A democraticidade e o pacifismo exigidos precavia
desde logo a entrada das potncias do Eixo, filtra-
va algumas candidaturas e vai justificar a expulso
de alguns membros ao longo da sua existncia.
     O estatuto das Naes Unidas foi elaborado
em dois tempos. Em 1944, em Dumbarton Oaks,
nos Estados Unidos, acordo quanto  composio
(Assembleia Geral com um membro um voto;
Conselho de Segurana reservado, por direito pr-
prio, aos *Grandes+ e outros dez pases sem lugar
cativo; Secretariado, Tribunal Internacional de
Justia e Conselho Econmico e Social) e, em 1945,
em lalta, quanto ao funcionamento interno, (direi-
to de veto dos cinco membros permanentes do
Conselho de Segurana, excepto em questes de
processo, e a representao das repblicas soviticas

satlites reduzidas a duas, Ucrnia e Belo-Rssia,
para alm da Unio Sovitica.
     A Carta das Naes Unidas foi elaborada
definitivamente na Conferncia de Abril-Junho de
1945 em S. Francisco (doc. 23). Ao objectivo pri-
mordial da manuteno da paz - mesmo se com
o apoio de uma fora armada internacional
expressamente constituda, os Capacetes Azuis
junta-se a defesa dos direitos do homem, a igual-
dade entre homens e mulheres e entre naes gran-
des e pequenas, a supresso da discriminao de
raa, lngua ou religio, a afirmao do direito dos
povos disporem de si prprios e a negao 
Organizao do direito de ingerncia nos assuntos
internos dos Estados (doc. 24).

     Balano da ONU

     Com o estatuto que vimos, a ONU s pode
cumprir plenamente a sua funo desde que os
*Grandes+ que dominam o Conselho de
Segurana se concertem. A *guerra fria+ apanhou
a Organizao entre o bloqueamento e as manobras
poltico-diplomticas das superpotncias para ilu-
dir o legislado. Por seu lado, a descolonizao e a
transformao efectiva do grupo inicial numa
organizao universal (135 membros em 1973)
permitiram na Assembleia Geral maiorias auto-
mticas para certo tipo de problemas e mpossibi-
litaram maiorias para outros. Nestas condies, a
ONU perdeu muito do seu prestgio.

                              W.:

     O crescimento da Organizao no foi gradual.
Sem contar com os pases que participaram na
guerra contra o totalitarismo nazi e fascista houve,
em 1955, a primeira vaga de entradas, com a
maioria das naes europias e, em 1960, a
segunda vaga, com as novas naes africanas.
Seguiu-se, na dcada de 90, a adeso dos pases de
Leste sados da rbita sovitica e, entretanto, casos
isolados de grande importncia como, em 1971, a
admisso da China comunista em lugar da China
nacionalista e, em 1973, a das duas Alemanhas.
     Para alm da falta de recursos - a ONU
depende das contribuies voluntrias dos seus
membros e dos efectivos militares que estes esto
dispostos a dar-lhe - nem sempre a interveno
das suas foras (na Coreia, no Congo, no Prximo
e Mdio Oriente) foram bem interpretadas. Por
outro lado, a despeito do valor positivo que repre-
senta a existncia de um sistema internacional de
dimenso planetria, a instrumentalizao pol-
tica da instituio e uma excessiva burocratiza-
o, que absorve 90% do seu oramento (doc. 25),
lanaram algum descrdito sobre ela, por parte
daqueles que defendiam o primado do direito e
acreditavam nos grandes princpios formulados na
Declarao Internacional dos Direitos do Homem
de 1948 (doc. 26). Instrumento til, se no para
manter a paz perturbada continuamente com guer-
ras locais, ao menos para atenuar os contrastes
internacionais e evitar a catstrofe irremedivel de
uma guerra atmica entre superpotncias.



DOCUMENTOS


                                OS UDERES
                   %,Argel
                          DAS POTENCIAS

                            VENCEDORAS
                      V
                                   DA GUERRA








ChurchilI, Roosevelt e Estalinefotografados nofinal da Conferncia de 
Ialta


209

                    DNTAMENTO BIPOLAR DO P""',@




          A. Campanha
          eleitoral
          de 1945 na
          Gr-Bretanha








          Cartas dirigidos a
          Churchill - uma c
                      om
           * fotografia indicando
           * destinatrio e outra,
           * To the greatest Man,>







          B. Campanha
          de rua em

                                             ONSER
          cima do

                    N T R
          tejadilho de
          um automvel








210

A ALEMANHA RECONHECE A DERROTA








                    O APOCALIPSE








               A bomba atmica -
               10 kg de urnio 235


                              211

AS DEPORTAES NA URSS



                                                                 
....... ... .

                    A clusula secreta de Yalta inclua o compromisso 
de *repatriar+, de bom ou mau
               grado, portanto  fora, as pessoas arbitrariamente 
denominadas soviticas, de cate-
               gorias muito diversas, e instaladas fora do seu pas 
natal. Ningum no Ocidente teve
               conhecimento da aco terrivel pela qual Roosevelt e 
Churchill, desconhecedores ou
               inconscientes, julgando nada poder recusar a Estaline 
entregaram aos esbirros e aos
               carrascos da Gupou mais de dois milhes de 
indivduos, homens, mulheres e crian-
               as. Um grande nmero destes infelizes preferiu o 
suicdio, muitos outros no cederam
               seno s mais cruis violncias, a maioria pereceu nos 
terrores do Goulag cujo nome
               no era ainda conhecido no mundo, apesar de os chefes 
de Estado respeitveis, ou dos
               seus conselheiros, no terem o direito de o ignorar

                                                            .... 
....................
          Estaline, de Boris Souvarine, ed., Grald Lebovici, 1985.


     A .

               MIGRAES DO PS-GUERRA


                                                            PAISES 
BAL




                  SLESVIG-
                  HOLSTF-IN
                     001

                          1 022 000                   PR    ORIENTAL
             -fOMRIA-BRANDEBURG

                     410 000
     POLONIA

     518 000         Berfim   POLNIA
NHA  BERLIM

     ZONA SOVITICA

                                                                     
      1 037 000                                         SILESIA
                                   v                                 
                                         2 055 000




                   SUDETAS

Fronteiras da Alemanha
em 1938                                                    12 000

                                                                     
           CHECOSLOVAQUIA
                                   1-X                               
                      BAVIERA



                                                            ROMNIA


Provenincia e nmero                                         RIA
de pessoas deslocados
                 WURTEMBIEF

                   AUSTRIA

                                                       JUGOSLAVIA

                                                       HUNGRIA

Refugiados ou deportados
na populao total de cada
Estado (1 945-46)




212


         20%                         em        milhes

                                     civis              militares
                                     mortos             mortos



         z
         ,q
         o             11%

                                                        U)
                                                        w
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                                               CO       ,
1 4      5,8 0,2  1,2  0,4  0,4 0,2  0,06      0,3      O 0,06








GR-BRETANHA

               4              PAS

                              BAI


                    @@8%




                              ALEMANH


                                             78%

          FRANA








                                   Li








               Percentagem de alojamentos
               destruidos

          >     Estado do alojamento em 1945
               comparado ao de 1938

                                                  w, 1

                                                        Ap
                                                       0

                              OS MORTOS DA GUERRA

em % da populao

     2% de 1939                  U)
     FIO


                              11%        o



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                     2%
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     --i -                    -1       1 A @ 1

     O 0,3     0,7 1,3       2 6      10 10




                                   AS DESTRUIES

                      A

                    Aqmk





                    29%                           URSS
                          POLONIA








                   AUSTRIA

                     NG


                                        IVINIA


                 JUGOSLAVIA






Dfice da produo industrial
em %

Estado de produo industrial
em 1938 comparado ao do 1
trimestre de 1945








213

                      



PROPAGANDA A FAVOR DA
CRIAO DAS NAES UNIDAS

           III1TEI)
          we are sting

                      A








*Unidos seremosforte, unidos, venceremos+

               UM *DIKTAT+ AMERICANO?

     Com este extraordinrio optimismo constru-
tor que os caracteriza, os Americanos tinham-se
preocupado, antes mesmo de entrar na guerra,
em elaborar planos monetrios e internacio-
nais para o ps-guerra [... 1. Apesar da reunio
de vrias centenas de especialistas e de jorna-
listas, a conferencia de Bretton-Woods nofoi
propcia a um trabalho cientfico [...  1. Quase
sincronizada com as operaes de desembar-
que, a conferncia tinha um papel a desempe-
nhar na guerra psicolgica e devia demonstrar
que as naes democrticas so capazes de se
entender para restabelecer a prosperidade eco-
nmica        Na altura em que a batalha da
libertao acabara apenas de se travar, a maior

parte dos governos tinha preocupaes mais
urgentes do que a construo da ordem mone-
triafutura. Pensavam sobretudo nos crditos
que poderiam obter e no julgavam sensato
contrariar os credores.      O vigor com que a
delegao americana defendia o seu texto,
incluindo as vrgulas, tornou bem difcil qual-
quer discusso verdadeira.


     R. Moss, Le s-ystme de Bretton-Woods, Paris 1948.




A         AS QUOTAS-PARTES DO FM1

     1944              de dlares)                      1947       
es)

                                                            <,.s

                                   3,61





31,2%                                                 6%    28,5%






ESTADOS UNIDOS                     CHINA            FRANA

REINO UNIDO                        LI.R.S.S.        NDIA



214

RESTO DO MUNDO

                                   OS PRINCPIOS DO GATT

     OGATTumacordomultilaterald,@finindoos ireitoseasobrigaes     
                s partes
Estados em 1947) em matria internacional. Entre 38 artigos, os 
princpios essenciais so:
     Consolidao das tar@fs aduaneiras: diminuio dos direitos 
alfandegrios; dimi-
nuio e supresso da contingentao.
     - Interdio de qualquer prtica discriminatria contra os 
produtos estrangeiros em

proveito dos produtos nacionais.
     -Adopo da clusula da nao maisfavorecida para todos os 
pases signatrios do
GATT: cada Estado beneficia das vantagens consentidos por um governo 
a um outro
governo.  o princpio do bi-multilateralistno.
     Inte o dumping: ven com perdas ou a aixo os preos no merca 
interno
graas a proteces governamentais a exportao.
     - Todas as normas jurdicas legais        devem estar claramente 
indicados para permitir
a maior transparncia possvel.

R. Bnichi, M. Nouschi, La croissanc-e aux XIX" et XX"sicles, Paris 
1990.



                         milhes de toneladas


800 -

700 -                                RECORDES DA PRODUO
                 617
600 -                      carvo    DOSEUA

500 -                 571

400
        402

300 -

200 -                      petrleo
100 --  171



80 -              81

70 -                   72  ao

60 -         55

50

                           ferro
40 -

30
                           trigo

20                     30
         20
10 -

                         o

                         1939  1940   1941  1942   1943   1944   1945




CHURCHILL EM MOSCOVO EM 9 DE OUTUBRO DE 1944

     Porque o momento erafavorvel  aco, declarei: *Liquidemos o 
caso dos Balcs. Os
vossos exrcitos encontram-se na Romnia e na Bulgria. Temos 
interesses, misses e agen-
tes nesses pases. Evitemos os conflitos por questes desnecessrias. 
No que diz respeito 
Gr-Bretanha e  Rssia, que direis de um predomnio de 90% na 
Romnia para vs, de
um predomnio de 90% na Grcia para ns, e da igualdade, 50-50, na 
Jugoslva?+
     Coloquei afolha de papelface a Estaline a quem tinha sidofeita a 
traduo. Houve um
ligeiro momento de pausa. Seguidamente, pegou na sua caneta azul, 
desenhou um largo
trao em sinal de aprovao, e voltou a dar-nos a folha.

          Winston ChurchilI, Mmoires sur Ia Deuxime Guerre 
mondiale, Plon.

                                                            21 5

                 (1945-1954)




                                     1141
             1  Me-  1

                             100       61
PESADAS

DESTRUIES                150.6    113.8
NA URSS                  531.000  397.000

                           3.159      624

                             100       60





166        149

31.1      19.4

48.3      43.3


14.9       8.8
18.3      12.3

29.9      15.9
58.400  38.400

4.522    1.822

211        6.3

5.7        1.8



O APAGAMENTO DA GR-BRETANHA

               A Inglaterra sair desta guerra magnificamente 
engrandecido sob o ponto de vista poltico
          e moral. Aquilo que a Frana foi entre 1914 e 1918, foi-o 
ela no Vero de 1940 e a partir da(. Foi
          ela que, no momento decisivo, foi a muralha, a nica 
muralha de civilizao ocidental ameaada.
          [...            1 Nesta prova suprema mostrou do que era 
capaz, no s no domnio militar mas mais
          ainda no domnio cvico e o seu prestgio de nao 
democrtica e liberal aumentou imensamente.
               Pelo contrrio, a sua posio econmica e financeira 
est gravemente comprometida: a sua
          carteira exterior, factor importante da sua balana de 
pagamentos, est, em larga medida, liqui-
          dada; de potncia tradicionalmente credora tornou-se 
devedora. Os dominions, constitucio-
          nalmente independentes com o Estatuto de Westminster, 
so-no defacto cada vez mais; o seu
          desenvolvimento econmico por vezes prodigioso, a sua 
participao na guerra, as relaes
          directas que, pela fora das coisas, tecem com as economias 
vizinhas, finalmente, a sua posi-
          o extra-europeia, vo neste sentido.

                                   A.   Siegfried, France, 
Angleterre, tats-Unis, Canad, Paris, 1946.


                         A. O mundo dividido e desequilibrado
               Em seguida  derrota da Alemanha e do Japo, os 
Estados Unidos, a Gr-Bretanha e a
          U.R.S.S. s reduzem parcialmente o seu aparelho militar; 
conservam em armas poderosos exr-
          ci-s, uma indstria blica considervel e prosseguem as 
suas pesquisas febris no domnio de
          novas armas. Com o tempo este desarmamento relativo e 
precrio cedeu lugar a um rearma-
          mento macio, acentuado no decorrer dos conflitos menores 
que irrompem e nos quais a vio-
          lncia e o carcter total da guerra se agravam, 
especialmente na Guerra da Coreia, onde a cruel-

          dade dos bombardeiros ultrapassou a da guerra mundial na 
Europa.
                que o mundo se encontra profundamente dividido em 
dois blocos que o perigo comum
          aproximara temporariamente, mas que se acham de facto 
separados pelas diferenas de estru-

216
tura econmi        .ca e social, pelas paixes e interesses. A 
vitria sovitica, o estabelecimento de
Democracias Populares na Europa Oriental e Central, depois, alguns 
anos mais tarde, o triunfo
de Mao Ts-Tung na China ampliaram prodigiosamente *o campo do 
comunismos; desde
1943, o prestgio ganho pelas vitrias russas, a afirmao de uma 
potncia militar e da solidez
de um regime cuja fragilidade era denunciada h trinta anos, 
constituam um golpe terrvel para
a antiga sociedade e inquietavam as potncias anglo-saxnicas. [...  
                                       1
     Desde ofim das operaes militares na Europa e na Asia, as 
desconfianas agravam-se, os
mal-entendidos, as suspeitas, as acusaes acumulam-se de parte a 
parte; as oposies entre
Aliados aprofundaram-se e culminaram, em alguns anos, num conflito 
que, em todos os dom-
nios - salvo o das armas - assumiu o carcter de uma verdadeira 
guerra;  a guerra fria,
acompanhada de uma espectacular dissoluo de alianas, que 
caracteriza o segundo ps-guer-
ra; 1947 marca o seu comeo e 1953 s assiste aos primeiros sintomas 
de uma amenizaro. A
oposio entre os dois Grandes teve por consequncia acentuar as 
divises no interior de cada
pas; partidrios e adversrios das duas concepes do mundo que se 
opem, mobilizando todas
asforas disponveis numa luta sem trguas, exigindo *a participao+ 
de todos, sem deixar a
ningum a possibilidade de ser neutro ou hesitante. Fora da Europa, 
cada campo procura esten-
der a sua influncia e consolidar as suas posies, de maneira que, 
por toda a parte, surgem
conflitos, alguns dos quais, na Asia, degeneram em guerras limitadas. 
Problemas polticos e
problemas econmicas esto estreitamente ligados nesta preparao de 
uma terceira guerra
mundial que cada bloco acredita ou simula acreditar o seu antagonista 
ser capaz de desen-
cadear; imprimem a todas as manifestaes da civilizao 
contempornea umafisionomia nova,
uma instabilidade crescente, ao mesmo tempo que agravam as antigas 
tenses.

               Maurice Crouzet, A poca contempornea, 2, S. Paulo, 
1963.



                                   B.   A partilha da Europa


o          200 km                        S      Fronteira de 1937

Cou           NI,                     Limite das zonas de ocupa-

                    ao prev istas em Ialta para
     MAR                                             BALTICO         
                                           a Alemanha e Austria
     DO                                                              
     UANIA
     NORTE                                                           
                                            URSS

                                             Fronteiras anexadas

BERLIM                                                    Polnia

          /BAIXOS

                                              Fronteiras anexadas
R.U.
                                        Jugosivia
-Varsvia:
                                             Fronteiras anexadas

Anturpia       Colnia                                   POLONIA

                         U.R.S.S.                  Breslau

     BLGICA                                                  
Bulgria

ALEMANHA                                      Fronteiras anexadas
                                      Cracvia

E.U.                                             = Pases neutros
Estrasburgo  o                        CHESCOSLOVAQ ---- Nova 
fronteira depois

                         Munique                          de 1945
FRANA
                                   E.U

*@           apeste                                  U.R.S.Silir,
               SUIA                   ALI         V@ena
                                      STRI@

                                                  H413RfA
               Triest,,                                      ROMNIA

JUGOSLAVIA                                                   ALTA
                 Belgrado          Bucareste

                      o

Sarajevo                                                MAR NEGRO

                    [TA[
                                   o Sofia
Roma                                          BULGARIA
                                                            RQUIA
                  ALB@N@@~
                 _@GRCIA,_


217

A FUNDAO
DA ONU






          Sesso da
          Conferncia
          de S. Francisco
          (1945), na qual
          foi assinada
          a Carta da
          Organizao das
          Naes Unidas








EDIFCIO DA ONU
EM NOVA IORQUE









          Projecto
          de Le Corbusier
          e Oscar Niemeyer                              df





218
          A DEMOCRACIA ESTENDIDA AS RELAES INTERNACIONAIS

     O fim da Segunda Guerra Mundial marca uma etapa decisiva no 
caminho de uma
democracia poltica e social mais completa e mais efectiva. [...  1
     Nos anos de 1919 e 1920, a Sociedade das Naes sara dessa 
ideia; em 1945, a
democracia tentar de novo traduzir-se em instituies 
intergovernamentais. Com os
seus oito pontos, a Carta do Atlntico (1941) pode ser considerada o 
complemento dos
catorze pontos da declarao wilsoniana de 1918 [...     1.
     Os governos tencionam tirar ensinamentos da falncia da SDN. Os 
Aliados propem-se
permanecer unidos para impedir a desforra dos vencidos e preservar a 
paz. Uma das
razes a que se atribui a ineficcia da SDN era a igualdade fictcia 
entre grandes e
pequenos: todos os membros da SDN tinham direitos idnticos, ainda 
que houvesse entre
eles uma disparidade gritante. Por isso mesmo, a Conferncia de So 
Francisco, iniciada
antes dofim da guerra, distingue entre os Grandes (em nmero de 5), 
tidos por detentores
das responsabilidades mundiais, e os outros. Os Grandes disporo de 
assento permanen-
te no Conselho de Segurana, que  o rgo essencial; e ali tero o 
direito de veto. Os
outros sero representados rotativamente no Conselho de Segurana e 
elegero seis mem-
bros para completar os cinco Grandes.

                                   R.   Rmond, ob. ct.







                                        --- -- ---------- - -----

                                   A ONU: A ARVORE
                                   DA COOPERAO
                                   INTERNACIONAL








                                                 Cartaz da poca
                    ILW"
                                                       dafundao
                                                  das Naes Unidas
                    ,NATIONS UNIES

                                                            219

                                                                 1 M



A FUNDAO DAS NAES UNIDAS

               Os trs Grandes.tinham decidido em Ialta a criao de 
uma nova organizao inter-
          acional, cuja constituio a Con rncia de So Francisco, 
em 1945, fixa na *Carta das

                     .fe
          Naes Unidas+. O seu objectivo no  somente *manter a paz 
e a segurana internacio-
          nal+, mas tambm estabelecer uma cooperao internacional 
quefar respeitar as liber-
          dades fundamentais dos homens sem discriminao e 
favorecer o progresso social. Ao
          lado de uma assemblia geral, cujo papel  apenas 
consultivo - estudo dos problemas e
          voto de *recomendaes+ - o rgo essencial  o Conselho de 
Segurana por ela eleito.
          Este obedece  autoridade exclusiva das grandes potncias, 
posto que cinco dos seus
          onze membros so permanentes (Estados Unidos, Gr-Bretanha, 
Frana, China e URSS)
          e que cada um possui o direito de veto; qualquer conflito 
entre dois destes paralisa, por-
          tanto, a aco do Conselho, cuja misso facilitar o ajuste 
pacfico dos desentendimentos,
          tomar as decises provisrias imediatas em caso de ameaa 
de conflito e instruir as quei-
          xas apresentadas. A ONU compreende igualmente um Conselho 
Econmico e Social do
          qual dependem numerosos organismos, como a UNESCO, 
encarregada da cooperao cul-
          tural e cientfica, a Organizao Internacional do 
Trabalho: alm disso, existem um
          Conselho de Tutela ou Trusteeship que herda as antigas 
atribuies da WN concernantes

          aos territrios sob mandato, um Tribunal Internacional de 
Justia e um Secretariado.
               A instituio funcionou mediocremente devido s oposi 
              .          es que, desde o incio e na
          maior parte dos litgios, surgiram entre as grandes 
potncias, bem como ao uso do direi-
          to de veto, utilizado principalmente pela URSS, isolada em 
face da coligao das outras
          potncias; cada vez mais, a ONU apareceu como um 
instrumento nas mos dos Estados
          Unidos - como a LDN fora antes de 1939 um meio de dominao 
da Inglaterra e da
          Frana - sobretudo quando aps 1949 a cadeira permanente, 
atribuda  China, ficou em
          poder do governo da Formosa.

                                   M.   Crouzet, ob. cit.'







CARTA DAS NAES UNIDAS - 1945

               Ns, os Povos DAS NAES UNIDAS RESOLVIDOS

               a preservar as geraes vindouras do,flagelo da 
guerra, que, por duas vezes, no espa-
          o da nossa vida, trouxe sofrimentos indizveis  
humanidade, e reafirmar a f nos direitos
          fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser 
humano, na igualdade de direitos
          dos homens e das mulheres, assim como das naes grandes e 
pequenas, e a estabelecer
          condies sob as quais a justia e o respeito pelas 
obrigaes decorrentes dos tratados e
          das outras fontes do direito internacional possam ser 
mantidos, e a promover o progresso
          social e melhores condies de vida dentro de uma liberdade 
mais ampla,
               E PARA TAIS FINS
               praticar a tolerncia e viver em paz, uns com os 
outros, como bons vizinhos, e unir as
          nossas foras para manter a paz e a segurana 
internacionais, e a garantir, pela aceitao
          de princpios e a instituio de mtodos, que afora armada 
no ser usada a no ser no
          interesse comum, a empregar um mecanismo internacional para 
promover o progresso eco-
          nmico e social de todos os povos.

220

... . ....... 
........................................................



     RESOLVEMOS CONJUGAR OS NOSSOS ESFOROS PARA A CONSECUO DESSES 
OBJECTIVOS.

     Em vista disso, os nossos respectivos Governos, por intermdio 
de representantes reu-
nidos na cidade de So Francisco, depois de exibirem seus plenos 
poderes, queforam acha-
dos em boa e devida forma, concordaram com a presente carta das 
Naes Unidas e
estabelecem, por meio dela, uma organizao internacional que ser 
conhecida pelo
nome de Naes Unidas.



                 captulo 1

              FINS E PRINCIPIOS

                   Artigo
     Osfins das Naes Unidas so:
     1.     Manter a paz e a segurana internacionais e, para isso: 
tomar, colectivamente,
medidas efectivas para evitar ameaas  paz e reprimir os actos de 
agresso, ou outra qual-
quer ruptura de paz e chegar, por meios pacficos, e em conformidade 
com os pri   .ncipios da
justia e do direito internacional, a um ajuste ou soluo das 
controvrsias ou situaes que
possam levar a uma perturbao da paz;
     2.     Desenvolver relaes amistosas entre as naes baseadas 
no respeito do princpio da
igualdade de direitos e da autodeterminao dos povos, e tomar outras 
medidas apropria-
das aofortalecimento da paz universal;
     3.     Conseguir uma cooperao internacional para resolver os 
problemas internacionais
de carcter econmico, social, cultural ou humanitrio, e para 
promover e estimular o res-
peito pelos direitos humanos e pelas liberdadesfundamentais para 
todos sem distino de
raa@ sexo, lngua ou religio; e

     4     .Ser um centro destinado a harmonizar a aco das naes 
para a consecuo desses
objectivos comuns.
                 A rtigo 2.`
     A organizao e os seus membros, para a realizao dosfins 
mencionados no art.
agiro de acordo com os seguintes princpios:
     1.   A Organizao  baseada no principio da igualdade de todos 
os seus membros.
     3.   Todos os membros devero resolver as suas controvrsias 
internacionais por meios
pacficos, de modo que no sejam ameaados a paz, a segurana e a 
justia internacionais.


                     XIX

          RATIFICAO E ASSINATURA

                Artigo 110.'

     1.     A presente Carta dever ser ratificado pelos Estados 
signatrios, de acordo com os
respectivos mtodos constitucionais.
     3.     A presente Carta entrar em vigor depois do depsito das 
ratificaes da Repblica
da China, Frana, Unio das Repblicas Socialistas Soviticas, Reino 
Unido da Gr-
-Bretanha e Irlanda do Norte e Estados Unidos da Amrica, e pela 
maioria dos outros
Estados signatrios. O Governo dos Estados Unidos da Amrica orgam   
      .zar, em seguida,
um protocolo das ratificaes depositadas, o qual ser comunicado, 
por meio de cpias, aos
Estados signatrios.

Feita na cidade de So Francisco, aos vinte e seis dias do ms de 
Junho de mil novecentos e quarenta e cinco.


                                                            221

. .. . ... .................................................... 
............



O SISTEMA DAS NAES UNIDAS








                                   CONSELHO
                                   DE TUTELA

     Grandes Comisses -

 Comits Permanentes
e Comits de Progresso

Outros rgos subsidirios
     da Assemblia Geral



                  TRIBUNAL
                  INTERNACI

                   DEJUST






  Corifer-ia das Naes Unidas sobre o  -
C.merao . Desenvolvimento - CNUCED

          F,ndo das Naes Unidas para   -
                    a Infncia - UNICEF

   Alto Comissariado das naes Unidas   -
              para os Refugiados - HCR

Prog,ama Alimentar Mundial - ONU/FAC, -

     Programa das Naes Unidas@aDra -
o Desenvolvimento Industrial - o U    1

          Programa das Naes Unidas
             para o Ambiente - PINUA

      Instituto de Formao e Pesquisa
         das Naes Unidas - U NITAR

      Programa das Nao@@s Unidas para
          o DeserivoWn,ento - PNUD

     Universidade das Naes Unidas - 

     Fundo Especial das Naes Unidas

     Cons,,lho Mundial da Alimetao








Principais rgos da ONU
Organismos semi-Autnomos da ONU

Organismos Autnomos ou Instituies
Especializadas da ONU






222



                          FNI-101) - Fora das Naes U,idas e,
                          de observar a libertao (de,co1or,,@@.;ic:

                          FLINU - Fora de Urgncia das Naes Unidas

                          UNFICYP - Fora das Naes Unidas
                          encarregada de manter a paz em Chipre
                          UNMIOGIP - Grupo de Observadores militares
            CONSELHO      das Naes Unidas para a ndia a Paquisto
            DE            ONUST - Organismo das Naes Unidas

            SEGURANA     encarregado de vigiar a Trgua na Palestina


                          Comit do Estado-Maior

                          Comisso do Desarmamento

ASSEMBLIA
  GERAL

            SECRETARIADO




                                   AlEA-Agnca Internacional de 
Energia Atmica

  ONSELHO      - - - - - - - - --  GATT - Acordo Geral sobre as 
Tarifas
ECONMICO                          Aduaneiras e o Comrcio
  E SOCIAL                         FAC, - Organizao das Naes 
Unidas para
                                   a Alimentao e Agric.IWra
                                   UNESCO -Orga,izao das Naes 
Unidas

    Comisses  Regionais           para a Ed.cao, a Ci,cia e a 
Cultura
                                   OIVIS - Organi,ao Mundial de 
Sade
    Comisses  Tcnicas

     Comits de sesso,       OIT - Organizao Internacional do 
Trabalho
     comits permanentes
     e comits especiais.     FIVII - Fundo Monetrio Internacional




                              IDA -Associao Internacional para o
                              Desenvolvimento

                              BIRD - Banco Internacional para a 
Reconstruo
                              e Desenvolvimento

                              SFI - Sociedade Financeira 
Internacional


                              OACI - Organiao da Aviao Civil
                                             Internaciona

                                   UPU - Unio Postal Universal

                                   UIT - Unio Internacional
                                     das Telecomunicaes

                                   OIVIM - Organizao Meteorolgica 
Mundial

                                   OlvICI - Organizao 
Intergovemamental
                                      Consultiva da Navegao 
Martima

                                   OMPI - Organizao Mundial da 
P,op,iedade
                                      Intelectual








SellLindo Antnio Jos Fernandes

                      o



      DECLARAO DOS DIREITOS DO HOMEM


     A Declaraco dos Direitos do Homem,
proclainada pela .111 @,<emb1eia Geral das Naes 1.1'ndas, em 1948

     Artigo 1 - Todos os seres humanos nascem livres e iguais em 
dignidade e direitos e, dotados
como so de razo e conscincia, tm de comportar-se uns com os 
outros com espritofiraternal.

     Artigo 3 - Todo o indivduo tem direito  vida,  liberdade e  
segurana da sua pessoa.
     Artigo 5 - Ningum ser submetido a tortura, nem a penas ou 
tratamentos cruis, inhumanos
ou degradantes.

     Artigo 7 - Perante a lei todos so i  .guais, e todos tm o 
direito, sem diferenas, a igual pro-
teco da lei. Todos tm direito a igual proteco contra toda a 
discriminao que quebrante esta
Declarao, e contra toda a provocao a tal discriminao.
     Artigo 9 - Ningum poder ser arbitrariamente preso, detido ou 
exilado.
     Artigo 12 - Ningum poder ser objecto de ingerncias 
arbitrrias na sua vida privada, na
suafamlia, no seu domiclio ou na sua correspondncia, nem de 
ataques  sua honra ou  sua
reputao. Toda a pessoa tem direito  proteco da lei contra tais 
ingernci   .as ou ataques.
     Artigo 18 - Toda a apessoa tem direito  liberdade de 
pensamento, de conscincia e de reli-
gio.
     Artigo 19 - Todo o indivduo tem direito de opinio e de 
expresso. Este direito inclui o de no
ser inquietado por causa das suas ideias; o de procurar, receber e 
difundir, sem limitao defiron-
teiras, informaes e ideias por qualquer modo de expresso.
     Artigo 20 - Toda a pessoa tem direito  liberdade de reunio e 
de associaes pacficas.
     Artigo 26 - Toda a pessoa tem direito  educao. A educao 
h-de ser gratuita, ao menos
no que pertence  instruo elementarfundamental. O ensino elementar 
 obrigatrio. O ensino
tcnico e profissional deve ser generalizado; o acesso aos estudos 
superiores deve estar patente
a todos com plena igualdade, em funo das aptides individuais.

                                                            ......... 
....... ..








                TRABALHOS PR

     A, Meto(Johoga- Explorar uma entrevisto,

          A entrevista  um meio de recolha de informao muito usual 
no sculo XX. Como
     documento histrico exige uma abordagem especfica que comporta 
vrias fases:


     1.   Indicar datas e personagens: Quem  o entrevistador? Quem  
e qual a importncia
          do entrevistado? O calendrio da entrevista obedece a 
alguma razo?

     2.   Salientar os motivos de interesse da entrevista e o 
contexto em que se insere: qual
          a opinio do entrevistado relativamente a esses temas? As 
perguntas e respostas
          inscrevem-se num contexto poltico, econmico ou social?

     3.   Referir as aluses expressas ou encapotadas a temas, 
acontecimentos ou ideias da
          poca.

          Gonrier@tIa@r> de texto

                    *De qualquer maneira, que uma moeda nacional, 
gerida comfinalidades nacio-
               nais, para assegurar a prosperidade nacional, por 
autoridades nacionais, se veja eri-
               gida em padro internacional e que as suas oscilaes, 
as suas converses se reper-
               cutam sobre o mundo inteiro no  lgico, nem 
admssivel.+

                                                       Men c 
s-France.

     1.   Discuta a posio do poltico francs Mends-France 
relativamente  acta final da
          conferncia de Bretton-Woods.


     1.   Confronte o pensamento de dois grandes estadistas europeus, 
Churchill e De
          Gaulle sobre as Naes Unidas.

                    A organizao de que dispomos actualmente no tem 
a eficcia suficiente para
               cumprir esta misso primordial. Este ajuntamento de 
todas as naes em p de
               igualdade, quer sejam grandes, pequenas, poderosas ou 
sem influncia, para cons-
               tituir um organismo central, pode comparar-se  
organizao de um exrcito sem
               separaes estanques entre o alto comando e os chefes 
de diviso ou de brigada.
               Uma torre de Babel em que a confuso  atenuada por 
hbeis manobras de corredor,
                tudo o que resultou at agora. Mas  preciso 
preservar.
                                   W.   ChurchiII.

                    Era com simpatia, mas no sem circunspeco, que 
eu observava a organizao
               nascente. Com certeza [...                 1 que podia 
parecer saudvel que as causas de conflitos

               ameaadoresfossem trazidas a uma instncia 
internacional e que esta se empenhasse
               em conseguir acordos                       Todavia, ao 
contrrio do que Roosevelt pensava, do que
               Estaline fingia acreditar, eu no exagerava o valor 
das Naes Unidas.  Os seus mem-
               bros seriam os Estados, isto , o que h no mundo de 
menos imparcial e mais inte-
               resseiro. As suas reunies podero certamente formular 
moes polticas, mas no
               torn-las obrigatrias. E, no entanto,  previsvel 
que se pretendessem qualificadas
               para uma e outra coisa. Por outro lado, as suas 
decises f...                 1 arriscavam-se a con-
               trariar negociaes propriamente diplomticas [...    
              1 as nicas fecundas por causa do
               seu carcter de preciso e de discrio. Enfim, 
devia-se presumir que muitos peque-
               nos pases seriam automaticamente desfavorveis s 
grandes potncias.
                                                       Ch. de Gaulle.

          1 @,3balho

     1. Elabore a biografia de um dos quatro polticos citados nos 
dois textos anteriores:
       Roosevelt, Churchili, Estaline ou De Gaulle.

224

      A DEFINIO DAS AREAS GEOPOUTICAS



1.   A INVERSO DAS ALIANAS E O INCIO DA GUERRA FRIA

     - A questo alem
     - O antagonismo das ideologias
     - A corrida ao armamento nuclear

2.   O EXPANSIONISMO DO BLOCO SOVITICO

     - A formao das novas democracias populares na Europa de Leste
     - O apoio aos movimentos comunistas dos pases asiticos

3.   A RESPOSTA AMERICANA

     - O fim do isolacionismo
     - A supremacia econmica e financeira dos EUA e a ajuda aos 
pases
     europeus
     -    O controle sobre o continente americano e o estabelecimento 
de
     bases no Pacfico e no Mdio Oriente

4.   A IRRADIAO DA GUERRA FRIA

     - O conflito israelo-rabe
     - A formao da Repblica Popular da China
     - A Guerra da Indochina e a Guerra da Coreia








                    -2* M

           Lanamento de um mssil

1.   A INVERSO DAS ALIANAS E O INICIO
     DA GUERRA FRIA

     Mal terminada a guerra, os aliados da vspe-
ra separam-se, portanto, em campos opostos, o
bloco capitalista liderado pelos Estados Unidos e o
bloco socialista pela Unio Sovitica. Entre os
dois as incertezas crescem. Iro as relaes entre
os dois campos endurecer-se ou desanuviar-se?
A resposta  complexa: prudentemente os adver-
srios evitam uma agressividade efectiva mas
empolam a escalada das suas desconfianas rec-
procas. Nenhum gesto, projecto ou medida tomada
por um dos dois,  considerado inocente pelo
outro, que, imediatamente, a encara como indcio
das suas ambies agressivas.
     A diviso est claramente definida a partir de
1947 (doc. 1), data de nascimento de um mundo
bipolar (docs. 2 e 3). A denncia de ChurchilI,
feita no ano precedente, acerca de uma *cortina de
ferro+ na Europa concretiza-se (doc. 4). Levantada
do Bltico ao Adritico, cortando a Europa em
dois blocos, era a prova da constituio pela URSS
de uma esfera de influncia hermeticamente fecha-
da. Onde as previses do estadista ingls falharam
 que no foi ao longo desta linha de demarcao
que a tenso atingiu o seu ponto mximo, mas no
Mediterrneo Oriental e no Prximo Oriente.
Contudo, a ruptura entre os antigos aliados pro-
duziu-se a propsito do problema alemo.

     A questo alem

     Aps discusses ao longo de 1946, sem conse-
guirem regular o problema alemo, os Aliados con-
cordaram em limitar-se a assinar tratados, 1 O
de Fevereiro de 1947, com os cinco satlites da
Alemanha (Itlia, Bulgria, Rornnia, Hungria e
Finlndia). Igualmente pouco concordantes se mos-
traram quando os Soviticos pretenderam forar,
como compensao  Polnia, a cedncia definitiva
das terras germnicas at  fronteira Oder-Neisse.
Os aliados ocidentais remeteram a discusso para a

concluso de um tratado de paz.
     A questo alem apresentava trs vertentes: a
desnazificao que no ficara resolvida com o
encerramento do Tribunal de Nuremberga (doc. 5),
a fixao das fronteiras orientais e as reparaes
de guerra. Nem em Moscovo (Maro-Abril de
1947), nem em Londres (Novembro-Dezembro do

226

mesmo ano) se verificaram progressos. A Frana
queria uma Alemanha muito pouco centraliza-
da, com uma estrutura federal agrupando uma
dzia de Lnder; a URSS queria um Estado for-
temente centralizado e o controle internacional
da regio do Rulir onde ela teria um papel domi-
nante; os Ingleses e Americanos queriam um
governo federal forte que gerisse os assuntos
externos, a economia e as finanas.
     O problema alemo torna-se o ponto nevrlgico
nas relaes internacionais e a questo do estatu-
to de Berlim o ponto mais controverso.
     Enquanto Estado, a Alemanha tinha desapare-
cido em Junho de 1945. Tinha perdido cerca de
1 00 000 kin2 e fora dividida em quatro zonas de
ocupao: sovitica, americana, britnica e fran-
cesa. Berlim estava submetida a uma ocupao
quadripartida (doc. 6). O que estava assente desde
Potsdam era a necessidade de repor a unidade
da Alemanha, proceder ao seu completo desar-
mamento e desmilitarizao e ao desmantela-
mento do partido e das organizaes nacional-
-socialistas, nomeadamente da sua influncia
em qualquer domnio (como por exemplo o da
educao) que pudesse retardar o desenvolvimen-
to das ideias democrticas. Os governos aliados
comprometiam-se, por seu lado, a preparar a
reconstituio da vida poltica, do sistema judici-
rio, dos partidos alemes sob uma base demo-
crtica e a fomentar a integraro pacfica da
Alemanha na vida internacional.
     Aproveitando estas clusulas gerais, de um lado
e do outro, sempre com protestos de inocncia
prpria e acusaes de exorbitncia contra o adver-
srio, a Unio Sovitica, em 1945, impe  sua
zona uma revoluo antifascista e democrti-
ca; o desmantelamento radical das estruturas agr-
rias e, a ttulo de reparao, a expropriao das
empresas industriais entretanto desmontadas; alm
da reforma do sistema judicirio e educativo visan-
do a democratizao profunda da sociedade alem.
No ano seguinte, obriga  fuso dos partidos socia-
lista e comunista e  constituio do Partido
Social Unificado (SED) que transforma num par-
tido marxista-leninista de modelo sovitico. O
passo seguinte, sempre assacando a responsabili-
dade ao Ocidente,  a consagrao constitucional
da Repblica Democrtica Alem (I 949).

      que entretanto, em 1947, as potncias oci-
dentais unificam as suas trs zonas de ocupa-

o, o que facilitava as trocas, e, em 1948, com o
desagrado dos Soviticos, que respondem com o
bloqueio de Berlim, decidem criar uma moeda
comum, o Deutsche Mark.
     O bloqueio de Berlim, de Junho de 1948 a
Maio de 1949, consistiu no encerramento das estra-
das e caminhos-de-ferro que ligavam a *trizona+ a
Berlim Ocidental (doc. 7), ameaando a cidade de
asfixia. Durante um ano, os Americanos vo asse-
gurar 95% do seu abastecimento atravs de uma
ponte area (doc. 8). Para Truman  uma questo
de honra e o penhor das promessas feitas ao
Ocidente. Estaline, que no pode interceptar a
ponte area sob risco de desencadear nova guerra,
resigna-se a levantar o bloqueio.
     A crise de Berlim sela a diviso da Alemanha.
Em Abril de 1949 nasce dos acordos de
Washington, que prevem eleies gerais em
Agosto, a Repblica Federal da Alemanha
(RFA) e a 7 de Outubro, sem eleies, constituiu-se,
como vimos, a RDA. A primeira, depois de enor-
me resistncia da Frana, readquire, em 1954, a
sua total soberania e, em particular, o direito ao
rearmamento e torna-se o 15.' membro da NATO;
a segunda, igualmente rearmada, adere ao Pacto
de Varsvia em 1955.

     O antagonismo das ideologias

     A partilha militar e poltica do mundo do ps-
-guerra correspondeu igual diviso no plano ideo-
lgico. Para alguns historiadores mesmo, as razes
da situao so dessa natureza (doc. 9), embora,
para explicar a rapidez com que a situao inter-
nacional se deteriorou, seja preciso *a interfe-
rncia entre o antagonismo ideolgico e a com-
petio pela hegemonia ou as apreenses pela
seguranas.
     Situao deteriorada tambm no plano psi-
colgico. A velha Europa aceitava com dificuldade
um estatuto anteriormente apenas aplicado a terri-
trios coloniais ou em profunda crise, como a
Turquia ou a China da viragem do sculo. Zona de
influncia significava para muitos uma corrupo
da ordem interna dos Estados e onde podia espe-
rar-se uma interveno do exterior ou uma modifi-
cao das instituies sem vontade dos prprios.
     A democracia no parecia vital e a vida polti-
ca apresentava-se como uma comdia arquitecta-
da por esta ou aquela superpotncia. Adulterada

                         Ww

                     ma


por suspeitas, no permitia a consolidao de uma
s democracia e reduzia os homens  resignao
com o estado de coisas ou  sua superao pelo
envolvimento apaixonado na disputa ideolgica.
     Firmada a aliana dos anos da guerra na base da
oposio das democracias aos regimes totalitrios,
cedo se verificou que a democracia podia apresentar
duas faces bem distintas, bebidas ambas dos ideais
da Revoluo Francesa. Uma acentuava a compo-
nente da liberdade, a outra a da igualdade.
     A primeira, que na lgica adoptada das zonas
de influncia dominava o Ocidente, prezava a
liberdade de expresso, os direitos da pessoa, as
eleies livres com sufrgio universal.
Considerava o socialismo sovitico como *uma
nova f fantica+, que procurava impor a sua auto-
ridade absoluta sobre o resto do Mundo, e coloca-
va sob a sua proteco os que estivessem decididos
a preservar a liberdade e a opor-se s presses
comunistas (doc. 10).
     A segunda, que dominava a Oriente, reivin-
dicava-se da ideologia marxista-leninista (ver
Histria 12 - 1.' vol., pg. 248). De alguma
maneira, alis, a URSS devia parte da sua fora 
doutrina que encarnava. Apresentava-se como um
mtodo cientfico de anlise da sociedade e, ao
acentuar a importncia dos mecanismos de explo-
rao, seduzia os camponeses e operrios com
condies de vida muitos difceis e os intelectuais
que sonhavam com um mundo melhor. Explicava
ainda a degenerescncia inevitvel do capitalis-
mo e o triunfo irresistivel do socialismo.
     Muitas vezes, a superioridade dos comunistas
no se manifestava pelos resultados eleitorais mas
mais por presses de rua e de movimentos de
opinio favorveis. Na realidade, em menos de
trs anos, a paisagem poltica e ideolgica de parte
considervel da Europa mudara, sem que a vonta-
de dos povos se tivesse exprimido plena e livre-
mente, e o recurso continuado  aco subversiva
de sindicatos e de partidos comunistas nacionais
(doc. 11) comeava a assustar o mundo ocidental.

- A corrida ao armamento nuclear

     A diviso do Mundo em campos ideolgicos
hostis favorece o nascimento de instituies inter-
nacionais encarregadas de enquadrar uma polti-
ca comum ou de coordenar a aco de foras
militares. As tenses internacionais e o agrava-

227

..... . ..... .

mento dos antagonismos levam  corrida s
armas nucleares (doc. 12) e  formao de alian-
as militares por parte das duas superpotncias.

     Estados Unidos e Unio Sovitica tinham
armamento tecnicamente avanadssimo, mas os
primeiros conservaram o monoplio da bomba
atmica at finais de 1949. Depois foi a vez da
bomba A, sovitica (1 949), e das bombas H ame-
ricana (1952) e sovitica (1953), mostrando que,
no confronto entre os dois adversrios, at finais
da dcada de 50, pertencia aos Estados Unidos a
supremacia nuclear, a superioridade area e o
maior nmero de bases militares espalhadas pelo
Mundo. Os Russos mantinham a primazia no exr-
cito de terra. Na escalada verbal equivalem-se.
O maccarthismo* americano, ferozmente antico-
munista, e o dogmatismo estalinista, que acusa de
todos os males as *hienas capitalistas+, marcam o
apogeu da histeria que ento atingiu o Mundo.
     Neste clima de tenso nasceu o Pacto do
Atlntico Norte, uma aliana militar liderada pelos
EUA e constituda em 4 de Abril de 1949 (doc. 13)
com 1 1 pases iniciais, entre eles Portugal. Juntaram-
-se-lhes a Turquia, a Grcia e o Luxemburgo em
1952, a Alemanha Federal em 1955 e a Espanha em
1982. A aliana tomou-se mais eficiente mediante
uma organizao especfica conhecida pelas ini-
ciais da denominao inglesa: NATO.
     Muito centralizada, os seus rgos assegu-
ram o desempenho de funes polticas
(Conselho) e militares (Comit Militar) face a um
eventual agressor. Em vez de uma justaposio de
exrcitos nacionais passa-se a uma fora integrada
sob um comando supremo.
     Este modelo serviu aos Estados Unidos para
outras alianas e pactos anticomunistas na
Europa, na Amrica e na Asia-Pacfico.
     A Leste, a Unio Sovitica consolidou a sua
influncia entre os pases da Europa Oriental ins-
tituindo, tambm em 1949, um Conselho de
Mtua Assistncia Econmica (Comecon) e, em
1955, aps o rearmamento da Alemanha, uma ali-
ana militar que, da cidade onde foi assinada, tomou
o nome de Pacto de Varsvia (doc. 14). Visava
enfrentar a Organizao do Tratado do Atlntico
Norte (NATO/OTAN), mas tambm repor a sua
autoridade e prestgio perante a bvia rivalidade
chinesa depois da Conferncia de Bandung.
Organizao exclusivamente militar, reunia as for-
as da URSS e das democracias populares sob o

228

controle apertado do estado-maior sovitico.
     Na Europa, poucos pases conseguem ficar fora
desta bipartio (doc. 15).

2.   O EXPANSIONISMO DO BLOCO SOVITICO

     O mundo socialista, reduzido em 1945 
URSS e  Monglia, estende-se no incio dos anos

50  Coreia do Norte,  China e a todo o Leste
europeu. Se os resultados so impressionantes, a
estratgia deixa os observadores estupefactos. Ao
sair de uma guerra vitoriosa, mas que a deixou
arruinada e esgotada, a URSS regressa  ordem
estalinista de antes de 1939 (doc. 16): as nacio-
nalidades so amordaados, proibidas as veleida-
des de abertura no plano poltico e religioso,
restabelecido o controle absoluto do Partido
Comunista e da ditadura pessoal de Estaline.
     As condies de vida do povo russo tomaram-se
durssimas para tentar superar os enormes danos
da guerra e da ocupao nazi e lanar-se num
desenvolvimento econmico acelerado (doc. 17).
     O 4.' plano quinquenal, lanado em Maro de
1946, obtm pleno sucesso mas sacrificando o
consumo a favor do investimento produtivo, em
especial da indstria pesada. A recuperao global
s  conseguido  custa de uma baixa substancial
dos salrios reais e pelo recurso macio  mo-
-de-obra concentracionria. A reorganizao
da agricultura, indispensvel depois da grande
fome de 1947, revela-se um fracasso; a colectivi-
zao do patrimnio  rejeitada violentamente
nas regies anexadas do Bltico, Ucrnia, Bielo-
Rssia ocidentais e Moldvia, com numerosas
deportaes para abater os recalcitrantes. O refor-
o do controle, que tambm  poltico e essencial-
mente ideolgico, abate-se sobre um milho de
cidados suspeitos de hostilidade ao regime, que
so internados em campos de trabalho ou encar-
cerados na base de processos arbitrrios ou de
simples decises policiais (doc. 18). As deporta-
es dos povos algenos aumentam o teor con-
centracionrio do regime (Cf. doc. 5, pg. 214).
     No entanto, a Unio Sovitica goza de um
enorme prestgio por ter pago a maior factura em
vidas humanas contra o 3.' Reich e a *ptria do
socialismos exerce uma grande influncia sobre
o proletariado dos pases industriais e sobre os
povos que combatem pela libertao do colo-
nialismo dos pases capitalistas.

     A formao das novas democracias
     populares na Europa de Leste

     Foi entre 1945 e 1949 que se constituiu a
*Europa de Leste+ (doe. 19), na zona partcular-
mente instvel criada no Centro da Europa pelo
desmembramento do Imprio Austro-Hngaro,
muito frgil econmica e politicamente no perodo
entre guerras. A tutela sovitica acaba por ser
imposta igualmente  Finlndia.
     Estaline pretende defender os interesses do
Estado Russo erguendo na Europa Central uma bar-
reira de proteco territorial e poltica. Os perigos
contra os quais se sente esta obsesso de segurana
so a hostilidade do mundo capitalista e um even-

tual ataque atmico americano. Para os afastar,
refora-se o exrcito, que de libertador passa a ocu-
pante, e fomenta-se a influncia dos partidos
comunistas locais sob controle de Moscovo.
     Seja pela fora, como na Jugoslvia e na
Albnia, seja no termo de uma tomada de poder
sistematicamente organizada, como na Polnia,
na Romnia, na Checoslovquia, na Bulgria e
na Hungria, seja por vontade da URSS, como na
RDA, o domnio poltico dos partidos comunis-
tas impe-se, por vezes s, por vezes no quadro de
coligaes de partidos mais ou menos fictcios
(doe. 20). Uma vez no poder, elaboram constitui-
es segundo modelo sovitico, empenham-se
num plano econmico prioritariamente colecti-
vista, com pequenas bolsas privadas na agicultura,
e numa economia estritamente planificada e inte-
grada no Comecon a partir de 1949.
     A integraro poltica constri-se com a assina-
tura de tratados de aliana reforados por medi-
das militares de apoio aos regimes comunistas
das *dernocracas populares+. , alm disso, aju-
dada pela criao, em 1947, do Kominform, um
gabinete de informao que serve de rgo de liga-
o entre os pases comunistas.
     Em trs anos, usando sempre o mesmo proces-
so, a famosa *estratgia do salame+, eliminando
fatia a fatia as outras foras polticas, a fuso dos
partidos comunista e socialista est concluda. As
democracias populares so dirigidos totalmente
pelos partidos comunistas, que encetam a reorga-
nizao da sociedade banindo os vestgios das
antigas classes sociais *exploradoras+, valorizando
as foras proletrias e fundindo as minorias nesta
estrutura homo nea. Uma vez concentrado o
9

monoplio do poder nos comunistas, e nos comu-
nistas mais ortodoxos e fiis a Moscovo, instaura-se
a perseguio religiosa e o controle de opinio, de
acordo com as directrizes do Kominform.
     Entre 1950 e 1953, a represso sovitica atin-
ge mesmo os aparelhos comunistas das demo-
cracias populares, onde os dirigentes demasiada-
mente ciosos da independncia nacional so afas-
tados do poder ou mesmo executados.  o que
acontece com Gomulka na Polnia (1 949), Rajk
na Hungria (1 949) e Slansky, acusado de sionismo,
na Checoslovquia (1952).  o que no acontece
com Tito na Jugoslvia que, convencido da possi-
bilidade de uma passagem rpida ao socialismo,
conseguiu enfrentar Estaline em 1948 e afirmar a
autonomia de deciso do seu pas (doe. 21).

     Se Moscovo e Belgrado, aps a morte de
Estaline, se reconciliam, outros levantamentos
anti-soviticos perturbam as relaes dos subs~
critores do Comecon e do Pacto de Varsvia:

Berlim em 1953; a revolta de 1956 na Polnia; no
mesmo ano, muito mais dramtica, a insurreio
hngara. A partir da construo do muro de
Berlim em 1961, a srie de fugas individuais da
RDA; a Primavera de Praga em 1968; e, depois
de 1980, seguindo o exemplo polaco, o grande
movimento de protesto colectivo que levou 
desagregao interna e ao verdadeiro fenmeno
de libertao verificado em todas as repblicas
democrticas de Leste no final da dcada de 80.
     No plano do desenvolvimento econmico,
observa-se o mesmo fracasso (doe. 22).

     O apoio aos movimentos comunistas
     dos pases asiticos

     Nos incios da dcada de 20, o Dr. Sun Yat-Sen,
fundador da Repblica Chinesa, aproximou-se da
Unio Sovitica que surgia como protectora natu-
ral de todos os povos escravizados. Governo e
Partido Comunista Chins uniram-se ento contra o
estrangeiro, mas quando, em 1925, Sun Yat-Sen mor-
reu, rapidamente esse entendimento e entre os ante-
riores e o Partido Nacionalista termina, iniciando-se
uma guerra civil que durar vinte e dois anos. A
guerra mundial interrompeu os contendores, que se
aliaram no combate aos invasores japoneses.
     Libertada a China em 1945, nacionalistas de
Chiang Kai-Chek e comunistas de Mao Ts-

229

-Tung envolvem-se em combates que, depois de
vitrias sucessivas dos comunistas, culminam com
a proclamao, em 1949, em Pequim, da
Repblica Popular da China.
     A vitria de Mo na China, as dificuldades dos
Franceses na Indochina, a fraqueza dos imprios
coloniais no Sudeste Asitico mostram o abati-
mento do campo ocidental na Asia.
     Apesar da supremacia dos Estados Unidos no
Pacfico, estes renunciam a ajudar um regime na
agonia como o de Chiang Kal-Chek (doc. 23). A
China aproxima-se de Moscovo e apola os movi-
mentos comunistas de libertao da Asia coloni-
zada. A URSS comea em breve a secundar a
reconstruo da China, envolvendo-se ambas nos
conflitos asiticos que estudaremos mais tarde.
De momento, *quase todo o Extremo-Oriente
pareceu ter-se tornado vermelho+.
     Um historiador actual que contrape a expanso
do campo colectivista na Asia, durante os anos 50,
 relativa estabilidade da influncia das duas super-
potncias na Europa, considera que os comunistas
dispem de trs trunfos: a vontade real de liber-
tao e independncia dos pases dominados pelo
imperialismo ocidental; um modo de acumulao
- o colectivismo de Estado - que provou a sua

capacidade nos pases pouco desenvolvidos e um
modo de organizao poltica e de mobilizaro
ideolgica que tambm demonstrou o seu prstimo.

3. A RESPOSTA AMERICANA

     Na desolao geral do ps-guerra (cf. doc. 16,
pg. 216), o primado dos Estados Unidos, refor-
ado nos anos do conflito,  impressionante.
     A guerra no tinha tocado o seu territrio e
com o parque industrial intacto pde adoptar a
tecnologia mais avanada; o desemprego tinha
sido completamente absorvido e as necessida-
des militares constrangiam as fbricas a um tra-
balho ininterrupto e ao recrutamento de uma
enorme mo-de-obra; extraa anualmente metade
do carvo e dois teros do petrleo mundial;
produzia cerca de metade da energia elctrica e
do ao e tinha enormes reservas de ouro; dispu-
nha de uma frota mercante tripla da inglesa, de
uma aviao civil muito superior  de todos os
outros pases reunidos e de armas tecnicamente
avanadssimas, alm da j citada bomba at-
mica (docs. 24 e 25).

230

     Quando se tratou de marcar a sua esfera de
influncia, os Estados Unidos no escolheram
to bvias formas de controle poltico e militar
como a URSS. A estratgia que usaram para
assegurar o domnio sobre a Europa Ocidental,
baseou-se principalmente na presso econmica
e na ameaa de represlias aos pases onde os
comunistas obtivessem resultados eleitorais muito
elevados.
     Historiadores h que consideram esta poltica
seguida pelos Estados Unidos no como tendo
sido determinada pelas circunstncias de 1945,
mas antes como produto de uma longa histria e
expresso de uma sociedade e dos seus valores.

         fim do isolacionismo

     O isolacionismo  uma criao norte-ame-
ricana que se distingue da neutralidade, da autar-
cl e do simples isolamento geogrfico.
     A palavra foi utilizada pela primeira vez em
1851 e tornou-se na linha de fora dominante
da poltica externa estado-unidense, especial-
mente nas suas relaes com a Europa. Contudo,
mesmo sem nome de baptismo, ainda antes da
independncia, as colnias americanas reclama-
vam distncia relativamente s guerras europias e,
em 1796, Washington proclamava: *a nossa gran-
de regra de conduta nas relaes internacionais
deve consistir no incremento das relaes comer-
ciais, dando-lhe a menor ligao poltica poss-

vel. [Devemos] manter-nos afastados de alianas
permanentes+. Em 1801, Jefferson falava de *paz,
comrcio, amizade honesta com todas as naes,
mas sem alianas com ningum+ e, em 1823, o
presidente Monroe sintetizava na conhecida frase:
*a Amrica para os americanos+.
     No sculo XX, com o presidente Wilson e a
entrada na Primeira Guerra Mundial, o princpio
do isolacionismo entra um pouco em declnio. A
no ratificao da admisso dos Estados Unidos
como membro da SI)N mostrou, afinal, a sua vita-
lidade ainda. Todavia, o ataque a Pearl Harbour
quebrou as ltimas resistncias. Os Estados
Unidos vo doravante envolver-se em operaes
militares, assinar acordos bilaterais ou multila-
terais com diversos Estados (doc. 26), instalar
bases militares em muitos pases e participar em
diversas organizaes econmicas e militares
(docs. 27 e 28).

      no tempo de Truman que se inaugura a nova
teoria - *Ns aprendemos a combater com as
outras naes na defesa comum da nossa liberdade.
Devemos aprender agora a viver com as outras
naes para o progresso mtuo+ - e a nova prti-
ca - primeiro, com os emprstimos bilaterais
concedidos a longo prazo a ttulo de urgncia,
depois, com o European Recovery Program, mais
conhecido pelo nome do seu iniciador, o general
Marshall.

- A supremacia econmica e financeira
dos EUA e a ajuda aos pases europeus

     Constatada a runa que os contratos de
emprstimo-arrendamento iniciais representavam
para o credor americano e o devedor europeu, o
Plano Marshall vinha propor uma ajuda intei-
ramente gratuita a todos os pases europeus,
incluindo a URSS (doc. 29). A aceitao da ajuda
teve imediatamente consequncias na conjuntura
econmica e permitiu a reconstruo dos pases
da Europa Ocidental (doc. 30). A Unio
Sovitica recusou a oferta e condicionou a dec-
so dos seus satlites.
     A ajuda econmica de quatro anos diz respeito
tanto a capitais como a mercadorias - materiais e
matrias~primas - de acordo com uma repartio a
definir em conjunto pelos pases beneficirios. Para
atribuir anualmente os crditos concedidos criou-se,
em 1948, a Organizao Europeia de Cooperao
Econmica (OECE), encarregada daquela tarefa e
de organizar uma verdadeira cooperao comercial
e monetria entre os 16 Estados europeus.
     Para os EUA, poltica e economicamente, o
Plano Mashall teve duas consequncias. Por um
lado, os Americanos encontravam sada para os
seus produtos e livravam os pases europeus da

misria, verdadeiro viveiro dos partidos comu-
nistas; por outro lado, ao mesmo tempo que tira-
vam argumentos aos comunistas, os Estados
Unidos, sob pretexto de racionalizar a distribuio
dos fundos qua doavam, subordinam a sua ajuda 
harmonizaro dos diversos programas, o que
equivalia a integrar os vrios pases num sistema
econmico europeu, privando-os, assim, da sua
independncia.

     Tem-se olhado com algum cinismo para o
Plano Marshall quando se faz uma apreciao geral

.... ........


sobre ele. Salienta-se habitualmente o oportunismo
americano, esquecendo que h nos Estados Unidos
uma forte componente idealista e que  natural
que ela se reflicta nas relaes internacionais. Os
seus valores, interesses e ideologia esto intima-
mente ligados. A ordem democrtica que desejam
no domnio poltico juntam a ambio de uma
ordem econmica liberal.
     A supremacia econmica e financeira que estu-
dmos, e de que o americano tem conscincia,
leva-o a conceber a democracia como um ideal
para o qual  preciso tender e a defender a ideolo-
gia da *porta aberta+, isto , a promover a abertu-
ra das fronteiras s trocas (doc. 31), o que entende
ser a melhor maneira das naes atrasadas encon-
trarem a via da prosperidade.
     Os anos do ps-guerra vo ser justamente aque-
les em que estas constantes da poltica americana
se comeam a perder.

         controle sobre o continente americano
         o estabelecimento de bases no Pacfico
         no Mdio Oriente

     Como se disse, a propaganda comunista
seduzia mais os pases subdesenvolvidos do que o
capitalismo triunfante dos Estados Unidos com
o prestgio abalado pela utilizao da bomba at-
mica e a poltica equvoca que desenvolvia relati-
vamente  descolonizao e a outras situaes de
dependncia. Nos incios dos anos 50, para con-
trariar os progressos do comunismo sovitico,
depois do chins, e os impedir de trazer para o
seu lado os pases subdesenvolvidos, lana-se em
todos os domnios e em todos os continentes
com propostas de apoio que vo da colaborao
poltico-militar  ajuda tcnica.
     Se esta ltima, lanada por Truman em 1949,
envolvia trs anos depois *missionros tcnicos+
em 32 pases - *no pode haver soluo rpida
para as numerosas dificuldades que assaltam as
jovens naes da Asia e da Africa, se no ajudar-

mos, com toda a nossa energia, essas naes a
crescer e a desenvolverem-se em liberdades
no plano dos acordos polticos no foi to feliz
como com a Europa.

     O primeiro tratado inteiramente de auxlio
mtuo assinado com a Amrica Latina sob patro-
cnio americano efectuou-se em 1947 e     fez parte

                     231

de todo esse conjunto inspirado na rivalidade capi-
talismo/socialismo do ps-guerra (doc. 32). Se o
isolacionismo norte-americano nunca afectou as
suas relaes com os pases do sul do continente, a
Segunda Grande Guerra contribuiu para o estrei-
tamento desses laos.
     Antes, em nome dos vnculos interamericamos,
os Estados Unidos querem garantir a neutrali-
dade do continente. Depois, o pan-americanis-
mo* vai fundar-se na necessidade de preservar a
solidariedade americana e de estabelecer uma
zona de segurana (doc. 33) contra a subverso
interna ou algum ataque externo. Na Carta da
Organizao dos Estados Americanos, assinada
por 21 Estados, so estes os princpios inscritos
(doc. 34).
     Compreende-se, assim, o rude golpe que repre-
sentou para os Norte-Americanos a instalao, em
1959, de um regime comunista na ilha de Cuba
com a declarada inteno de difundir este pelo
continente. Contra aquela vai pronunciar-se a
OEA, condenando e expulsando posteriormente
Cuba da organizao.
      ter s portas o comunismo internacional con-
tra o qual se armara institucionalizando alianas
militares na Europa, nas Amricas e, um pouco
mais tarde (1954), no Sudeste Asitico. Outro pro-
cesso estratgico que usou, na luta contra o outro
grande poder mundial, foi a multiplicao de
bases cercando o poderio sovitico.
      o que faz um pouco por todo o Mundo, como
denuncia Mo Ts-Tung (doc. 35), e muito parti-
cularmente no Pacfico e no Mdio Oriente. Na
primeira destas reas, os Estados Unidos esto
interessados em fazer reingressar o Japo no con-
certo das naes, desde que este renuncie a todas
as suas possesses ultramarinas. Pretendem tam-
bm conservar as bases militares que extorqui-
ram ou lhes foram cedidas. Reputam-nas indis-
pensveis  defesa do Extremo Oriente contra o
expansionismo ideolgico e militar da China. No
Mdio Oriente  porque temem que o comunismo
se infiltre sob a capa do nacionalismo rabe.
     Com esta desconfiana, a tenso israelo-rabe 
absorvida como coisa prpria e passa para primei-
ro plano.


4.   A IRRADIAO DA GUERRA FRIA

     A Segunda Guerra Mundial transformou pro-

232

fundamente as relaes entre as metrpoles euro-
peias e as suas colnias. Por razes ideolgicas, o
mundo comunista  favorvel  descolonizao
e, apoiando os movimentos nacionalistas e inde-
pendentistas, consegue ampliar as suas zonas de
influncia e enfraquecer os pases ocidentais. Em
princpio, os Estados Unidos, primeiro povo colo-
nizado a tornar-se independente, tambm apoia
o combate dos povos que se querem tornar inde-
pendentes, mas devido s suas alianas com os
colonizadores no lhes  fcil adoptarem uma
posio oficial. De qualquer modo, neste perodo
de tenses, resultantes do conflito surdo entre as
superpotncias - a *guerra fria+ segundo a
expresso cunhada na Amrica do Norte em 1946
e generalizada na dcada de 50 - h uma ameaa
permanente  paz internacional.
     As zonas de afrontamento no faltam. No
corao da Europa, a Alemanha, que ocupa como
vimos uma posio-chave para testar o poder dos
antagonistas, no Mediterrneo, onde os interesses
ocidentais esto em jogo na Grcia e na Turquia
e, especialmente, no Prximo e Mdio Oriente e
na Asia de Sudeste, onde se assiste  primeira
etapa da descolonizao.

- O conflito israelo-rabe

     O problema mais quente da zona do
Mediterrneo Oriental , logo a seguir  guerra, o
do destino da Palestina.
     Antiga provncia turca, tinha sido colocada
sob tutela inglesa aps a Primeira Grande Guerra.
Para a se dirigiram numerosos judeus, atrados
pelo ideal sionista* e em fuga perante o anti-semi-
tismo larvar nos pases europeus nas primeiras
dcadas do sculo. A coexistncia pacfica com a
populao autctone, rabe,  difcil porque envol-
ve a posse das terras. Em 1938 seriam cerca de 1
milho de habitantes rabe da rea e 400 000 os
judeus. O genocdio hitleriano deixou por uns anos
em suspenso a efectivaro da criao de um
Estado judaico de maioria rabe, cuja gnese j
vinha de longe (doc. 36). Perante a oposio 
constituio de uma s entidade poltica, a
Inglaterra entrega o caso  ONU que apoia a
proposta de uma comisso internacional constituda
em 1947 e que defende um plano de partilha da
Palestina (doc. 37). O plano  aceite por judeus,
americanos e soviticos mas rejeitado pelos ra-

bes. Previa na Palestina dois Estados, um judaico,

outro rabe, e Jerusalm, a cidade santa de judeus,
rabes e cristos, ficaria internacionalizada.
     A 15 de Maio de 1948, a independncia do
Estado de Israel  proclamada. Imediatamente os
pases rabes independentes entram em guerra.
Apesar da sua inferioridade numrica, os judeus
saem vencedores de uma guerra de oito meses,
que termina em Janeiro de 1949 com um armist-
cio. O antigo mandato ingls  dividido em dois
Estados que no respeitam a deciso de internacio-
nalizao de Jerusalm. No lado rabe no se
chega a concretizar um Estado rabe palestinia-
no, mas sim uma partilha, com o Egipto a admi-
nistrar a faixa de Gaza e a Jordnia a dominar a
Cisjordnia e a Transjordnia.
     Meses depois, Israel  admitido na ONU e
escolhe a esfera de influncia ocidental; inver-
samente, os Estados rabes alinham de prefern-
cia pela Unio Sovitica.

- A formao da Repblica Popular
da China

     Depois da derrota do Japo, duas foras polti-
cas ficam face a face na China libertada do dorn-
no nipnico: o Kuomintang (Partido Nacional
do Povo) e o Partido Comunista. O primeiro 
dirigido por Chiang Kai-Chek, que representa os
interesses da aristocracia rural e da burguesia
urbana, e apoiasse nos Norte-Americanos; o segun-
do  chefiado por Mao Ts-Tung, suportado pela
URSS e tem do seu lado os camponeses e os
patriotas das diferentes classes sociais. So bases
slidas onde vai recrutar os soldados do Exrcito
"Vermelho", disciplinado e doutrinado, em con-
traste com as deseres e indisciplina das tropas
nacionalistas, que dominam o Centro e o Sul do
pas (doc. 38).
     Numa primeira fase, entre Dezembro de 1945 e
Janeiro de 1947, os Americanos tentam uma con-
ciliao entre os dois grupos porque desejam ver
uma China *forte, unida e democrticas. Apoiando
os nacionalistas, paralisados pela intriga poltica,
pela corrupo e por chefes sem grandes dotes de
estrategas, estavam condenados ao fracasso.
     A partir de finais de 1948, o Exrcito Vermelho,
que j tinha recuperado da sua inferioridade num-
rica e de material, controla quase todo o territrio.
Em 1950, a conquista acabou e Chiang Kai-Chek

.. .. ..... .....          . ... ...

refugia-se na Formosa.
     Politicamente, a China seguiu por alguns anos
(entre 1949 e 1957) o modelo sovitico: centrali-
zao do Estado mas descentralizaro ao nvel
das provncias, partido comunista nico, uma
fachada i urdica escondendo a ausncia de verda-

deiro poder parlamentar. Substitudo pela auto-
ridade do partido, que impe uma ordem de essn-
cia totalitria, o novo governo chins vai tomar
medidas violentas que fazem cerca de cinco
milhes de vtimas, transformar a sociedade (doc.
39) e obter melhores resultados na reforma eco-
nmica (doc. 40).

     A Guerra da Indochina e a Guerra
     da Coreia

     Uma guerra no Extremo Oriente comeou
em 1946 com o levantamento da Indochina con-
tra os Franceses. Uma outra comeou em 1950
com a invaso da Coreia do Sul pela Coreia do
Norte. Ambas duravam ainda em 1953 (doc. 41).
O que h de original nisto  que a guerra *fria+ se
transformou em guerra *quente+ e que nas duas
vezes as tropas americanas se acharam envolvi-
das: primeiro na Coreia, depois na Indochina, face
 China maoista, cujo aumento de poderio inquie-
ta no s os ocidentais, mas tambm a ndia, com
quem tem fronteiras.
     A interveno internacional no conflito que
ops as duas Corcias foi a resposta norte-ameri-
cana, a que se juntaram foras inglesas, belgas,
holandesas e turcas, aos apelos da ONU que con-
denava a agresso (doc. 42). Poucos meses depois,
a Coreia do Norte recebia o apoio militar da
China Popular (doc. 43). Para evitar um conflito
com esta ltima, Truman substituiu MacArthur,
que propunha a utilizao de armas nucleares. As
negociaes de paz foram lentas e rduas (Outubro
de 195 1 -Julho de 1953).
     A Guerra da Indochina foi, nesta fase - a
primeira num conjunto de guerras que vo de 1940
a 1975 -, uma guerra colonial de libertao.
Travada, entre 1946 e 1954, contra os Franceses,
culmina com a completa retirada da potncia
colonizadora e a diviso do pas em dois
Estados: o Vietname do Norte, apoiado pela
URSS e usando estratgia maolsta (doc. 44), e o
Vietname do Sul, ajudado pelos EUA (doc. 45).
Inscreve-se assim no quadro das grandes confron-

233

                                                  DocumENTOS
1947: O ANO DA DIVISO DA EUROPA

Ak Cumpre-nos traar o desenrolar da guerra fria a partir do momento 
em que essa diviso se torna
nuinfacto reconhecido da situao internacional, isto , em 1947. O 
ano de 1947 assinala, com efei-
          to, o ponto decisivo. Um ano capital, talvez o mais 
importante dos quinze ou vinte que se seguiram
          aofim da guerra.

               O ano de 1947 consagra o rompimento de initivo entre 
os Aliados assinalado por uma sucesso
          de acontecimentos que mantm uns com os outros relaes 
muito complexas de interdependncia,
          que nos obrigam a entrar em alguns pormenores.
               Em primeiro lugar, inverte-se a tendncia da poltica 
estrangeira dos Estados Unidos. A partir do
          fim da guerra e da morte de Roosevelt, a ideia principal da 
diplomacia norte-americana fora, primeiro,
          concluir a guerra com o Japo e, em seguida, repatriar os 
combatentes. Mas a conduta da Unio
          Sovitica leva os responsveis a rever a sua estratgia. No 
comeo de 1947, o governo norte-americano
          desfecha uma contra-ofnsiva. Suspende a desmobilizao e I 
                    .          ni          .          ci          .  
        a o rearmamento. A artir desse
          momento, o oramento militar crescer de ano para ano. Alm 
do mais, o governo renuncia ao iso-
          lamento. E isso  capital: pela primeira vez, os Estados 
Unidos tomam conscincia, deforma dura-
          doura e no apenas acidental, do seu poderio. Data de 1947 
o advento dos Estados Unidos  posio
          de potncia mundial. [...             1 Em 1947, os 
dirigentes da poltica norte-americana consciencializam-se da
          suafora e das responsabilidades que dela decorrem.
               No dia 12 de Maro de 1947, o Presidente Truman       
                  anuncia ao Congresso a sua inteno de
          substituir a Gr-Bretanha na Grcia e na Turquia.  Maro de 
1947: no mesmo ms agoniza a con-
          ferncia que rene em Moscovo os ministros dos Negcios 
Estrangeiros dos quatro grandes pases,
          aquela que se denominou a con rncia da ltima oportunidade 
                            Em Maro de 1947, a Frana

                     ,fe
          mede as consequncias da situao, e, em parte para 
conseguir o carvo do Sarre, adere s posies
          da Gr-Bretanha e dos Estados Unidos. [...                 
 1
               Dois sistemas antagnicos ed@ficam-se em todos os 
planos. No plano militar: o Pacto Atlntico
          contra o Pacto de Varsvia. No plano econmico, dois 
sistemas que acarretam consequncias
          secundrias:,fragmentos da Alemanha incorporam-se num e 
noutro bloco. [...                         1
          A ciso estende-se a tudo: a todos os pases, a todos os 
tipos de organizao.
               Desmembramento das coligaes polticas, ciso dos 
sindicatos, das organizaes de juventude, dos
          movimentos de estudantes, da Federao Mundial Democrtica 
da Juventude. Em toda a parte, cindem-
          se dois sistemas, que se enfrentam em provas de fra, como 
no bloqueio de Berlim, em 1948, durante
          um ano inteiro quando os russos esperam obrigar os Aliados 
a largar a presa.
                                                  R. Rmond, ob. cit.

          A DOUTRINA TRUMAN

     No momento presente da histria do mundo, quase que cada nao 
tem de escolher entre dois modos de vida
alternativos. Coinfrequncia, a escolha no  livre.
     Um dos modos de vida J'Uncla-se na vontade da maioria e 
distingue-se por instituies livres, um governo repre-
sentativo, eleies livres, liberdade individual de expresso e de 
religio garantidas e ausncia de opresso poltica.
     O segundo modo de vida,funda-se na vontade de minorias imposta 
pelafora  maioria. Assenta no terror e
na opresso, numa rdio e numa imprensa controladas, em eleies 
manipuladas e na supresso das liberdades
pessoais.
     Eu penso que a poltica dos Estados Unidos deve ser apoiar os 
povos livres que esto em vias de resistir s
tentativas de domnio lanadas por minorias armadas apoiadas por 
presses exteriores.
     Eu penso que devemos ajudar os povos livres a traar o seu 
prprio destino como entenderem.
     Eu penso que a nossa ajuda dever ser principalmente de natureza 
econmica e financeira, essenciais para
a estabilidade econmica e uma vida poltica serena.

                    Discurso do Presidente Truman em 12 de Maro de 
1947.


234

                                                                 m41



                                        O RELATRIO JDANOV

     Quanto mais nos afastamos dofim da guerra mais claramente nos 
aparecem as duas prin-
cipais direces da poltica internacional do ps-guerra, que 
correspondem  diviso em dois
campos principais dasforas polticas que operam na arena mundial: o 
campo imperialista e
antidemocrtico, o campo anti-imperialista e democrtico.
     Os Estados Undios so a principalfora dirigente do campo 
imperialista. A Inglaterra e a
Frana esto unidas aos Estados Unidos e marcham como satlites, no 
que respeita aos
assuntos importantes, nos carris da poltica imperialista dos Estados 
Unidos.
     O campo imperialista  sustentado tambm pelos Estados 
possuidores de colnias, tais como
a Blgica e a Holanda, e pelos pases com regime reaccionrio 
antidemocrtico, tais como a
Turquia e a Grcia, assim como pelos pases dependendo poltica e 
economicamente dos
Estados Unidos, tais como o Prximo Oriente, a Amrica do Sul e a 
China.

     As foras anti-imperalistas e antifascistas formam o outro 
campo. A URSS e os novos
pases democratas so o seu alicerce. Os pases que romperam com o 
imperialismo e que se alis-
taram resolutamente na via do progresso democrtico, tais como a 
Romnia, a Hungria, a
Finlndia. Ao campo anti-imperalista aderiram a Indonsia, o 
Vietname, a ndia. O campo ant-
-imperialista apoiasse em todos os pases sobre o movimento operrio 
e democrtico, sobre os
partidos comunistas irmos, sobre os combatentes dos movimentos de 
libertao nacional
dos pases coloniais e dependentes, sobre todas asfioras 
progressistas e democrticas que exis-
tem em todos os pases.

Relatrio de Jdanov na Conferncia dos Partidos Comunistas da Europa 
em Setembro de 1947.








                                        A CORTINA DE FERRO

     De  Stettin no Bltico a Trieste no Adritico, desceu uma 
cortina deferro que atravessa o con-      
tinente. Atrs desta linha, encontram-se as capitais de todos os 
pases de Leste: Varsvia,            N
Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste, Sfia. Todas 
estas cidades clebres,

todas estas naes se encontram na e,@f@ra sovitica, e todas esto 
submetidas, de umaforma ou
de outra, no s  influncia sovitica mas ainda ao controle muito 
apertado e constantemen-
te aumentado de Moscovo. S Atenas, com a sua glria imortal,  livre 
de decidir do seu.fturo
por eleies a que assistiro observadores britnicos, americanos e 
franceses. O governo
polaco, dominado pela Rtssia, foi sem razo encorajado a estender-se 
consideravelmente
sobre o territrio alemo e assiste-se hoje a deslocaes dolorosas 
de populao cuja extenso
ultrapassa a imaginao: implicam milhes de alemes. Os partidos 
comunistas que eram
fracos em todos os pases do Leste europeu foram investidos de 
poderes que no correspondem
de maneira nenhuma  sua importncia numrica e procuram em todo o 
lado exercer um con-
trole totalitrio. Em quase todos os casos  um estado policial que 
est no poder e,  excepo
da Checoslovquia, no existe verdadeira democracia. A Turquia e a 
Prsia esto profunda-

mente perturbadas e inquietas com as reivindicaes de que so 
objecto e com as presses exer-
cidas pelo governo de Moscovo.

Discurso de Churchill na Universidade de Fulton (EUA) em 5 de Maro 
de 1946.

O NAZISMO AINDA  UM TABU ALEMO

     A Woller identifica trs grandes etapas na investigao sobre o 
nacional-socialismo que tem
          sido feita na Alemanha. O seu incio data de 1950, o ano em 
que foi criado o Instituto de
          Histria Contempornea de Munique, precisamente com o 
objectivo de fornecer informao
          sobre o que se passou durante o III Reich. *Nos primeiros 
temposfoi o nico organismo que se
          dedicou  investigao dos anos de 1933 a 1945, j que este 
era um tpico que os professores
          de Histria Contempornea das Universidades no queriam 
abordar, devido s ligaes que
          muitos deles tiveram com o nacional-socialismo+, afirma o 
nosso interlocutor
               Recorda que estes primeiros investigadores tiveram 
acesso aos documentos nazis que se
          encontravam sob a custdia dos Aliados e que muitos deles 
frequentaram primeiro cursos nos
          EUA com o objectivo de estudarem o *modo como se processa a 
investigao histrica numa
          sociedade democrtica e como lidar com o passado recente+. 
Eram, no geral, *jovens que
          tinham crescido sob o regime nazi, mas que se sentiam 
livres da culpa pessoal+, afirma Woller,
          acrescentando: * O que no quer dizer que essa gerao no 
fosse influenciada, mesmo sub-
          conscientemente+. Foi uma gerao que se centrou sobre 
afigura de Hitler e em cujos trabalhos
           visvel a *tendncia de atribuir ao ditador a 
responsabilidade exclusiva+ pelo que se passou.
               Veio depois uma segunda fase em que os historiadores 
comearam a identificar *as foras
          sociais, como os grupos industriais, as igrejas, os 
Tribunais, os mdicos, que tornaram poss-
          vel a ascenso e a manuteno de Hitler no poder+. E, 
finalmente, logo aps as revoltas estu-
          dantis de 1968, uma nova gerao levantava a questo que 
at ento fora adiada. *Foi quan-
          do os pais comearam a ser confrontados com a pergunta 
dosfilhos: `E tu, quefizeste duran-
          te a guerra?". + Para os investigadores, refere Woller, 
tinha chegado a altura de se debruarem
          *sobre o quefez o cidado comum+ durante os 12 anos do III 
Reich.

Hans Woller, historiador, em entrevista ao Pblico, 24 de Maro de 
1995.




                    i "S

                                                            U.R.S.S.


                                             (12          Kiiininarad

                                                                 C,
          A.   Da Alemanha

                                                            Hamburg

               de 1937 
                                                       o      o
               Repblica Federal                         Bremen
                   BERLIM
                 Hannover o

                                                          POLNIA
Zona francesa                                        Pzig

                                                o Dresden lcisse

Zona britnica                                             o Bres

Fronteira da Alemanha                   Frankfur
em 1937

                     art
Zona americana

Zona russa                                      Munique

Fronteiradasquatro
zonas alemes



236

                    BERLIM, UM ENCLAVE OCIDENTAL
                                        EM TERRA SOVITICA

     B. Berlim: as quatro zonas                                     
4,
                                                       SCh1eSw~d?@


                                                           Ki '1
SECTORES DE BERLI



                                                            @_ubeque


                                              Zona
                           -1,4  Fuhisbwttel  sovitica

  Francs                        rg
                                 Hambu@


       Ae,.,orto de Tegel        r-i Bremen

                                 Fassberg
ls                        Zona

          Aeroporto        Sovitico                                
Inglesa

                   Celleo-
                  Wunstorf
                    Aeroporto                                        
                           Hanver
                    de Tempelhof

                                                            n Munster

                                                            p Leipzig

                                                           ores 
areos

                                                       Voos de Berlim



                                   ncofoi                 Voos para 
Berlim

                                                  Sinalizaes



               BERLIM-OESTE AMEAADA DE ASFIXIA

     Os russos nunca pronunciaram a palavra bloqueio. Limitaram-se a 
invocar motivos tcni-
cos em apoio das medidas coercivas que infligiam aos seus aliados e  
populao berlinense.

     A partir de 24 de Junho o ritmo acelera-se. Pra toda a 
circulao na auto~estrada e na va
frrea Berlim-Helmstedt. Motivo: as pontes sobre o Elba precisam de 
reparaes. As centrais
elctricas de Berlim-Este deixam de alimentar os sectores ocidentais. 
Motivo: escassez de car-
vo. O abastecimento de produtos alimentares a Berlim-Oeste  
interrompido. Motivo: falta de
meios de transporte.

                         B. Winter, Berfin, enjeu et symbole, Paris, 
1959.



          A GUERRA FRIA: AS ORIGENS DA RUPTURA

     A ruptura tem causas ideolgicas. A guerra fria relaciona-se, em 
parte, com um desacordo
doutrinrio fundamental entre os Aliados da vspera, que incide, ao 
mesmo tempo, sobre os
meios e os fins: os vencedores esto divididos no s quanto  
finalidade de ordem poltica, mas
tambm quanto aos mtodos que devem ser adaptados. Essa ruptura no 
constitui surpresa nem
novidade. Havia j muito tempo que estava germinando. A *grande 
aliana+, para retomarmos
a expresso churchilliana, entre o Oeste e o Leste foi provocado pela 
agresso da Alemanha
contra a Unio Sovitica: imposta pelas circunstncias, no decorria 
dos sistemas nem dos sen-
timentos; era antes a oposio inscrita na natureza dos regimes e da 
suafilosofia. Os antago-
nismos tinham sido momentaneamente disfarados pelas necessidades da 
luta contra o inimi-
go comum e pelas ambiguidades do vocabulrio, pois os dois campos 
usavam mais ou menos os
mesmos termos, embora lhes conferissem significados diferentes. Um e 
outro se pretendem
democrticos, mas referem-se a duas noes da democracia. Para o 
Oeste, sendo o desabrochar
das liberdades individuais herdadas dos regimes liberais, a 
democracia implica o

                                                            237

                      o
          pluralismo das opinies pbli            .          (-as e 
das.frinaes organizadas. Para o Leste, pondo em des-
          taque a justia que deve ser instaurada e a igualdade que 
deve ser promovida, a democracia
          acarreta a suspenso das liberdades individuais: em lugar 
de tolerar o pluralismo, identifica-se
          com o monoplio de um partido que exerce uma ditadura 
absoluta.
               O bom entendimento entre os vencedores talvez tivesse 
podido prolongar-se se o acordo fosse

          apenas especulativo, se a disseno s opusesse entre si 
sistemas ideolgicos. Mas a divergncia
          tambm se insere no espao e na geografia. Coloca s voltas 
umas com as outras potncias animadas
          de ambio, que perseguem objectivos a longo prazo, 
alimentam temores, preocupam-se com a pr-
          pria segurana. Essa inter ,ferncia entre o antagonismo 
ideolgico e a competio pela hegemonia
          ou as apreenses pela segurana explicam a rapidez com que 
se deteriora a situao internacional.
               [A] Europa Ocidental e os Estados Unidos comeam a 
alarmar-se, receosos de que a
          Rssia pusesse as mos em toda a Europa: na poca, a Europa 
achava-se totalmente incapaz de
          se defender contra uma agresso externa. Ela tambm tinha 
medo da subverso no interior: os
          partidos comunistas eram poderosos; controlando asforas 
sindicais, estavam em condies de
          deflagrar greves gerais e paralisar a economia. No  vo o 
receio de v-los provocar, do inte-
          rior, a subverso das instituies e juntar-se ao bloco 
sovitico.
               Essa eventualidade assusta primeiro os britnicos, 
depois os norte-americanos.
          Encontrando-se ainda no poder, no primeiro semestre de 
1945, Churchill [ ... ]preconiza uma
          unio europeia defensiva contra a infiltrao e a subverso 
comunistas. A primeira ideia da uni-
          ficao europeia no  econmica;  poltica e estratgica.

                                   R.   Rmond, ob. cit.



MUNDO LIVRE CONTRA SOCIALISMO

               Depois da Segunda Guerra Mundial, estava claro que, 
sem a participao dos Estados
          Unidos, no havia nenhuma outra potncia capaz de qfrontar 
a Rssia. [...               1 O momento era
          chegado de colocar deliberadamente os Estados Unidos da 
Amrica no campo e  cabea
          do mundo livre [...            1.
               As sementes dos regimes totalitrios alimentam-se da 
misria e da penria. Elas crescem
          e multiplicam-se no solo rido da pobreza e da desordem e 
atingem o seu desenvolvimen-
          to mximo quando a esperana de um povo numa vida melhor 
est morta.
               Esta esperana precisamos de mant-la viva. Os povos 
livres do mundo esperam de ns
          que os ajudemos a salvaguardar as suas liberdades.

                                   Henry Truman, Mtnoires, vol 11, 
Paris, 1956.




SOCIALISMO CONTRA IMPERIALISMO

               Uma tarefa particular incumbe aos partidos comunistas 
irmos da Frana, da Itlia, da
          Inglaterra e dos outros pases. Eles devem tomar em mo a 
bandeira da defesa da indepen-
          dncia nacional e da soberania do seu prprio pas. Se os 
partidos comunistas irmos perma-
          necerem firmes nas suas posies, se no se deixarem in 
uenciar pela intimidao e a chan-
          tagem                 se eles souberem, na luta contra a 
sujeio econmi              .          ca e poltica dos seus 
pases,
          pr-se frente de todas as  '          foras dispostas a 
defender a causa da honra e da independncia
          nacional, nenhum dos planos de submisso da Europa se 
poder concretizar

     Jdanov, Relatrio  Conferncia dos Partidos Comunistas 
Europeus, Setembro de 1947.


238

               A.   O armamento nuclear no rescaldo de Hiroshima:
    *Uma bomba nova e extremamente cruel+

     No Outono de 1945, a esperana mundial de pa,- parecia assentar 
na recentemente formada
Organizao das Naes Unidas (ONU), mas os delegados que haviam 
assinado a sua carta
em 26 de Junho de 1945 no estavam preparados para a era nuclear Em 
Junho de 1946, uma
proposta americana para a criao de uma autoridade que controlasse o 
desenvolvimento at-
mico internacional, patrocinada pelo ONU, foi boicotada pela 
insistncia sovitica para
que os EUA destrussem os seus stocks atmicos antes de ser preparado 
qualquer sistema de
inspeco.
     Os EUA estabeleceram os seu prprio programa civil para o 
desenvolvimento secreto da
energia nuclear, a Comisso de Energia Atmica, e experimentaram uma 
quarte bomba at-
mica sobre o atol de Bikini, no Pacfico. Em 1947, as expresses 
*Cortina de Ferro+ e *guer-
rafria+ tornaram-sefamiliares. Em 1948, parecia iminente uma guerra 
entre os EUA e a URSS
devido  questo de Berlim. Em 1949, a URSSfez explodir o seu 
primeiro engenho atmico.
At ao Tratado de Proibio de Experincias Nucleares, datado de 
1963, que a Frana e a
China se recusaram a assinar, o temor da contaminao pela 
precipitao nuclear era senti-
do em todo o Mundo.
     Nos EUA, o receio de subverso comunista levou ao aparecimento 
do movimento antico-

munista dos anos 50, personificado pelo senador Joseph R. McCarthy, 
cuja carreira poltica na
*caa s bruxas+ foi breve mas espectacular Em 1951, Julius e Ethel 
Rosenberg foram con-
denados  morte por espionagem atmica, aps um julgamento que 
permanece altamente

controverso, sendo executados por traio
em 1953. No mesmo ano, J. Robert
Oppenheimer, que se havia oposto  cria-
o da bomba de hidrognio e se mostrava
a favor do contrle civil internacional da
energia atmica, foi impedido de continuar
a ter acesso a dados governamentais secre-
tos, a pretexto de que representava um risco
para a segurana, embora as suas ligaes
esquerdistas h muitofossem conhecidas.
     A medida que se desenvolvia a tecnolo-
gia nuclear, aumentava o sigilo e a suspei-
ta internacional. A fora explosiva das
*superbombas+ termonucleares passou a
ser medida no em toneladas, mas em
megatoneladas (milhes de toneladas de
TNT), e os sistemas de lanamento torna-
ram-se cada vez mais sofisticados. Depois
da guerra, poucos acreditavam que qual-
quer nao se atreveria a utilizar nova-
mente armas nucleares. Mas, tal como o
processo de que resultou Hiroshima, a cor-
rida nuclear continua. Segundo Einstein,
*cada passo apresenta-se como a inevitvel
consequncia do passo anterior+.

Os Grandes Acontecimentos do Sculo XX,
                              Lisboa, 1984.

B. Armas nucleares


Monoplio americano de
armas nucleares
Meios de transporte:
bombardeiros 8-29
baseados nas fronteiras
da Unio Sovitica

Stock de + 100 unidades
Cerca de 500 B-29

+ 1000 armas atmicas
ou de hidrognio
B-36 e B-47
operacionais



7000 - 10 000 armas
B-52 operacional

introduo do B-58







_W               63 ICBM

Sofia            186 MRBM

io Icance
) aIc+@ e        600 bombardeiros I_R
;eis balisticos  2200 bombardeiros lVIR

Primeiro teste sovitico
de armas nucleares
100 - 200 armas
Meios de transporte:
Tu-4 Buli incapaz de
atingir os estados Unidos
sem reabastecimento em
voo ou bases no
estrangeiro

+ 2000 armas
Tu-16 Badger com um
alcance de 6450 km,
Tu-20 com um alcance
de 11 200 km e o
Myasisbchev Bison, com
um alcance de 9700 km.
Primeiro lanamento com
xito de um lCBM.

+ 50 lCBM
 200 MRBM
 190 bombardeiros LI3
1100 bombardeiros lVIR


239

A NATO: o brao armado das foras ocidentais

          0~

          iLIM
t









  Cartaz ingls para comemorar os dez anos
da Organizao do Tratado do Atlntico Norte

                                        As partes em este Tratado:

     Reafirmam a sua f nos propsi-
tos e princpios da Carta das
Naes Unidas e o seu desejo de
viver em paz com todos os povos e
todos os Governos.
     Determinados a salvaguardar a
liberdade dos seus povos, a sua
herana comum e a sua civilizao,
baseados nos princpios da demo-
cracia, liberdades individuais e
imprio do direito. Desejosos de
favorecer na zona do Atlntico
Norte o bem-estar e a estabilidade.
Resolvidos a unir os seus esforos
na defesa colectiva e na conserva-
o da paz e da segurana.
     Acordam na concluso do Pacto
do Atlntico Norte:

     Art.' L'-As partes comprome-
tem-se, tal como est estabelecido
na Carta das Naes Unidas, a
solver por meios pacficos todos
os diferendos de modo que a segu-
rana internacional, assim como a
justia, no possam ser postas em
perigo, e abster-se-o nas suas
relaes internacionais do recurso 
ameaa ou ao emprego dafora de qualquer modo que seja incompatvel 
com asfinalida-
des das Naes Unidas.

     Art.' 2.' -As partes contribuiro para o desenvolvimento das 
relaes internacionais
amistosas e pacficas, reforando as suas instituies livres, 
assegurando uma melhor
compreenso dos princpios em que se baseiam essas instituies e 
favorecendo as condi-
es prprias para assegurar a estabilidade e o bem-estar Trataro de 
eliminar toda a opo-
sio nas suas polticas econmicas internacionais e estimularo a 
colaborao econmica
entre qualquer ou entre todas as partes.

     Art.' 3.'- Afim de assegurar da maneira mais eficaz a realizao 
dos objectivos do pre-
sente Tratado, actuando individual e conjuntamente de uma maneira 
contnua e e ctiva

                                                                 ,fe

pela apartao dos seus prpri    .os meios e prestando-se ajuda 
mtua, mantero e aumen-
taro a sua capacidade individual e colectiva de resistncia ao 
ataque armado.
                                        Washington, 4 de Abril de 
1949.

240
     O PACTO DE VARSVIA: A RESPOSTA COMUNISTA

     As partes contratantes,                                         


     Reafirmando a sua aspirao a criar um sistema de segurana 
colectiva na Europa, baseado
na participao de todos os Estados europeus, independentemente do 
seu regime social e pol-
tico, que lhes permitir unir os seus esforos com o intuito de 
assegurar a paz na Europa;
     Tendo em conta, a situao criada na Europa com a ratificao 
dos acordos de Paris que
prevem a formao de um novo grupo militar sob a forma de * Unio da 
Europa Ocidental+,
com a participao de uma Alemanha Ocidental remilitarizada e com a 
sua integraro no bloco
norte-atlntico, o qual aumenta o perigo de uma nova guerra e cria 
uma ameaa  segurana
nacional dos Estados amantes da paz;
     Convencidos de que nestas circunstncias os amantes da paz devem 
tomar as medidas
necessrias para garantir a sua segurana e promover a manuteno da 
paz na Europa;
     Guiando-se pelos propsitos e princpios da Carta nas Naes 
Unidas,
     Desejosos de fortalecer e desenvolver ainda mais a amizade, 
cooperao e assistncia
mtua de acordo com os princpios de respeito pela independncia e 
soberania dos Estados e da
no interveno nos seus assuntos internos;
     Resolveram concluir o presente Tratado de Amizade, Cooperao a 
Assistncia mtua e com
talfinalidade nomearam os seus plenipotencirios.

Varsvia, a 14 de Maio de 1955, em quatro exemplares: russo, polaco, 
checo e alemo.








                 lSLANDIA-@,                                         
                         PASES DA NATO

                                                                     
                         E DO PACTO


                                                                     
                         DE VARSVIA



                                         em                          
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            1    NDA                                         co
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         U.FI.S.S.---.-
                              10, HO@A  RER

OCEANO
ATLANTICO                                DEM.
                              El_.I.A    ALEMA           POLONIA




                                         REp
                                         FED.
                              LUSS       ALEMA

                              FRANA

                              SUIA             AUSTRIA HUNGRIA

                                                                   
ROIVINIA


                                                      
@JUG0SLAV1_@,___,_     MAR
                                                                     
         NEGRO

        ESPANHA                                                     
BULGAF1@

                                                             ALBANIA

                              TERILO                                 
         TURQUIA


               Pases que aderiram  NATO                        
Malta     Rbdes
               Pases que aderiram ao Pacto de                       
      Chipm


                                                            241
    IMEDIATO PS-GUERRA NA URSS:
    RETORNO A NORMALIDADE ESTALINIANA

     l 1

     AILL                  O perodo do imediato ps-guerra (1 
945-194 7) parece ter sido um dos mais difceis e um dos
          mais movimentados da histria da URSS [...              1. 
Trsfactores primordiais contriburam para com-
          plicar a situao interna da Unio: por um lado, as 
migraes internas de populaes devidas
           guerra, s ocupaes, s transferncias das indstrias, 
conjugados com os problemas de cer-
          tas nacionalidades, fizeram que a mobilidade social parea 
ter sido ento particularmente viva;
          por outro lado, os temas de propaganda utilizados durante a 
guerra, exaltando o passado e a
          nao russos, tolerando um despertar limitado das crenas 
religiosas, exaltando o papel de cer-
          tas nacionalidades, sobretudo militares [...           1, 
modificaram sensivelmente os mitos oferecidos 
          mentalidade colectiva sovitica; finalmente, a autoridade 
de Staline, j incontestada antes de
          1941, desdobra-se numa divinizao completa, fazendo do 
marechal Staline um patro (khoz-
          jain) ou um guia (vojd), simultaneamente temido e adorado 
[...               1. Por isso, quando  preciso
          solucionar as dificuldades do ps-guerra, Staline,  cabea 
de um PC muito mais vasto do que
          em 1941, apesar das baixas da guerra (3 872 000 membros em 
1 de Janeiro de 1941, 5 510 000
          em 1 de Janeiro de 1946), tem de levar em conta os hbitos 
de tolerncia adquiridos durante a
          guerra, os ideais propostos para galvanizaras energias na 
frente e na retaguarda
          Os Soviticos precisavam de reconstruir o mais depressa 
possvel a sua indstria pesada
     para consolidar o lugar de "Supergrande" conquistado pela 
vitria; e, por consequncia,
     no seriam tolerados qualquer afrouxamento dos esforos nem 
qualquer pausa. [...           1
     Ora, os resultados obtidos durante o ano de 1946 no estiveram  
altura das esperanas.
     1 Na realidade, a URSS, tal como os outros pases da 
Europa,fortementeferidos pela guer-
     ra, tem de comear por encontrar a soluo para os males que so 
a fome e o frio; a taxa de
     natalidade de 1946 (23,8 por mil) no reflecte a alegria de um 
regresso  normalidade, na URSS

     no se assiste a um *baby-booni+.

               O retorno da URSS ao isolamento

          1 E difcil julgar, mas um facto  iniludvel: nofim do 
conflito, a URSS foi economica-
     mente isolada. Em 1945, nas conferncias de Ialta e Potsdam, a 
delegao sovitica colocara
     o problema das reparaes a pagar pela Alemanha e pelos seus 
aliados. [...         1 Mas os Soviticos
     esperavam sobretudo que o auxlio econmico obtido durante a 
guerra continuasse depois da
     guerra. Ora, nofim das hostilidades na Europa, em Maio de 1945, 
antes ainda de ter acabado
     a guerra contra o Japo, o presidente Truman suspendeu 
brutalmente os fornecimentos do
     *emprstinio-arrendamento+ para *responder+ s usurpaes 
soviticas na Europa oriental;
     tornou-se rapidamente evidente que o auxlio econmico americano 
seria concedido aos
     Soviticos na proporo da sua *cooperao+ na Europa oriental; 
as negociaes travadas em
     1946 pelo conselho de ministros dos Negcios Estrangeiros [...  
          1 mostraram nitidamente a
     amplitude do diferendo poltico-econmico entre os dois 
gigantes; Staline no queria abandonar
     a *barreira defensivas considerada necessria  segurana da 
URSS; Truman no queria aju-
     dar a reconstruo de um Estado cujo poderio militar 
convencional mal era compensado do
     lado americano pela posse da arma atmica. A rupturafoi rpida, 
completa [...             1.
          Assim, a abertura econmica que poderia ter-sefeito com o 
mundo no comunista no se veri-
     ficou, e a URSS ia permanecer relativamente isolada das grandes 
correntes de trocas mundiais.

                              Ren Girault, in Pierre Lon, ob. cit, 
vol. vi.




242

 No eixo das ordenadas utilizaram-se ndices
           da taxa de crescimento

140 -



130 -                       URSS

20 -


1,10 -  \VI

1 00

  1926  1936 1940  1947     1957
                   Segundo  Herouvile

O CRESCIMENTO DA URSS





O CONTROLE POUTICO E IDEOLGICO DA ERA ESTALINISTA

     O reforo do controlo  tambm poltico e essencialmente 
ideolgico. As tendncias liberais
que se tinham a rmado durante a guerra so brutalmente contidas a 
partir do Vero de 1946.
Comojustificao, tm sido invocados as tenses econmicas e o clima 
do incio da guerrafria.
Mas, fundamentalmente, esta poltica explica-se pela necessidade de 
cercear uma forma de tole-
rncia que poderia a longo prazo minar as bases mais slidas do 
estalinismo. Promovido ao esta-
tuto de perito ideolgico e cultural, sem dvida devido ao seu 
notvel passado de depurador e ao
dio profundo que dedica aos intelectuais, Andrei Jdanov, secundado 
por Suslov, passa- a supe-
rintender sobre todos os domnios do pensamento, das cincias e das 
artes. A Jdanovchtchina
recorre de facto s duas prticas complementares da afirmao 
peremptria da verdade socia-
lista e da depurao dos recalcitrantes. As condenaes porformalismo 
ou esteticismo burgus,
e a partir de 1949 por cosmopolitismo (acusao decorrente de um 
anti-semitismo mal disfar-
ado), caem sobre os meios literrios e artsticos, dizimando as 
unies de escritores e de com-
positores. As cincias humanas no so poupadas, com a condenao 
sumria da psicanlise, a
cruzada conduzido contra as teori  .as lingusticas de Marr, a 
denncia e a marginalizaro do eco-
nomista Varga (culpado de ter *firmado que o capitalismo se 
encontrava em condies de
sobreviver s suas contradies, pelo menos provisoriamente). Em 1949 
 a vez da historiografia,
com uma reinterpretao da poltica czarista de russfficao das 
minorias, cuja denncia
(clssica desde 1917) passa a ser considerada *reaccionria+. No  
melhor o tratamento
dedicado s cincias exactas, com excepo do sector daflsica, que 
consegue conservar intac-
tos os seus mtodos de investigao graas firmeza do acadmico 
Jqffe. O delriojdanovista
atinge o cmulo com os prejuzos provocados pelas teorias de 
Lissenko. Agrnomo e bilogo
charlato, mas mestre na arte da auto-qfirmao, Lissenko conseguiu 
uma rpida ascenso a

partir de 1935, com a sua denncia dos *culaques da cincia+. Nomeado 
presidente da Academia
das Cincias Agrrias, consegue estabelecer um vazio em torno de si, 
relanando em 1948, com
o apoio do Comit Central, uma campanha contra as leis da gentica 
mendeliana. Acompanhada
de depuraes e ajustes de contas pessoais, esta campanha vai 
prolongar-se por outros domnios
cientficos (biologia, fisiologia), retardando consideravelmente os 
processos da investigao.
     Para uma domesticaro generalizada do pas, o exrcito, o 
partido e as nacionalidades
assumiam uma importncia fundamental. [...        1 Da resulta a 
despersonalizao da histria da
guerra (que deixa de tolerar qualquer intermedirio entre Estaline e 
o soldado annimo), o qfas-
tamento dos chopes mais prestigiados (Jukov  enviado para Odessa e 
depois para o Ural) e a des-
militarizao do partido. [... 1 Relativamente s nacionalidades, 
habilmente associadas ao esfor-
o colectivo durante a guerra, a mudana de atitude  geral - desde a 
tradicional depurao at
 reviso completa da sua histria, agora encarada como um longo 
processo de aproximao com
 povo russo. Mas esta poltica assume tambm formas mais violentas, 
em que a colaborao com
 ocupante serve (e continuaria a servir) de pretexto  deportao de 
povos inteiros.

               Bernahd Droz, Histria do Sculo XX, 2.' vol., Lisboa, 
1988.
J K.
AR1^
A1IIIIIIIIIIIIL








243
               AFRONTAMENTO 131POLAR D P6
.................................................

O NASCIMENTO DAS DEMOCRACIAS POPULARES

               O imperialismo alemo e acessoriamente italiano vo 
impor uma satelizao s potncias
          do Eixo, suscitando antes e durante a guerra diversos 
movimentos de resistncia antifascista,
          em que os comunistas desempenham um papel desigual mas 
geralmente importante. A situao
          em 1945 -lhes assim profundamente favorvel. A derrocada 
das classes dirigentes, compro-
          metidas na colaborao e desacreditadas pela derrota, 
conferia de facto aos partidos comu-

          nistas a funo de fora de substituio organizada, 
enquanto o avano profundo do Exrcito
          Vermelho no corao da Europa deixava  URSS todos os 
trunfos que lhe permitiriam tirar par-
          tido da vitria e constituir em seu redor uma vasta rea 
defensiva. Os Ocidentais mostram-se
          resignados com a situao. Defacto, afilosofia de Ialta ia 
no sentido de conciliar a restaura-
          o da democracia pluralista com uma orientao 
pr-sovitica dos governos da Europa
          Central. Mas a indeciso dos Aliados, as divises e o 
diletantismo dos democratas liberais, alm
          da determinao de Estaline e dos comunistas locais, vo 
inviabilizar esta primeira orientao.
               No entanto, este processo de sovietizao  
desigualmente rpido e segue diversas vias.
          Podemos distinguir trs casos diferentes nasformas de 
acesso dos oito pases do Leste europeu
          ao estatuto de democracias populares. Aqueles em que a 
tomada do poder pelos comunistas 
          consecutiva  libertao do pas e nada ou quase nada deve 
 aco sovitica; situaes em que
          a URSS, dominando o terreno, impe imediatamente aos pases 
que pretende transformar em
          guarda avanada um governo em que os comunistas controlam 
os postos fundamentais; e, final-
          mente, os pases em que a instaurao da democracia 
popular, mais tardia, no resulta de uma
          opo predeterminada, mas sim da evoluo das relaes 
Leste-Oeste.


               A Albnia e a Jugoslvia

               A Albnia e a Jugoslvia apresentam a originalidade de 
se terem libertado quase exclusi-
          vamente pelos seus prprios meios, na sequncia de uma 
resistncia contra o Eixo em que os
          partidos comunistas desempenham um papel preponderante, ou 
mesmo exclusivo.


               Polnia, Romnia e Bulgria

               O processo de sovietizao  igualmente rpido, ou 
quase, na Polnia, na Romnia e na
          Bulgria. Mas o poder de deciso no pertence nestes casos 
a partidos comunistas com apoio
          varivel, mas sim aos representantes militares e polticos 
da URSS, que alimentam afico das
          frentes patriticas e dos governos de coligao para 
atribuir a militantes comunistas experi-
          mentados, frequentemente chegados nos furges do Exrcito 
Vermelho, os postos-chave do apa-
          relho do Estado. Estes conseguem assim controlar as 
eleies e proceder a depuraes que, ini-
          ciadas contra os colaboradores da Alemanha nazi, se alargam 
progressivamente s fileiras do

          antifascismo liberal ou socialista. A fuso forada (ou 
pelo menos fortemente solicitada) da
          esquerda socialista com os partidos comunistas conduz a uma 
absoro pura e simples e ao
          regime de partido nico. [...           1


               Hungria e Checoslovquia

               A evoluo da Hungria e da Checoslovquia apresenta 
aspectos diferentes. Na incerteza que
          pesa sobre o seu destino, estes dois pases assistem nos 
primeiros anos do ps-guerra a eleies
          livres e a uma autntica vida poltica. Isto  
particularmente evidente na Hungria, onde o

244

            A DEFINIO DAS AREAS

Partido Comunista dispe de umafraca audincia e a ocupao sovitica 
alimenta a russqfo-
bia tradicional da populao. [... 1
     Ao contrrio da Hungria, a Checoslovquia dispe nofim da guerra 
de um partido comu-
nista solidamente implantado e que, sem os conselhos de moderao de 
Estaline, teria podido
facilmente tomar o poder [...  1 Uma depurao relativamente 
moderada, reforma agrria e naci-
onalizaes reduzidas ao essencial e uma rpida reconstruo econmi 
  .ca pareciam encaminhar
o pas na via de um socialismo autnomo e democrtico. Esta poltica 
de equilbrio  alargada
ao campo diplomtico. Persuadidos de que a segurana da 
Checoslovquia passaria a depen-
der da proteco da URSS o presidente Bens e o ministro Jan Mazaryk 
no regateiam os ges-
tos de boa vontade em direco a Moscovo, procurando fazer do pas 
uma *ponte+ entre o Leste
e o Ocidente.
     A imposio sovitica no sentido da recusa dos crditos 
Marsha11, alm da ordem de diferir
a assinatura de um tratado com a Frana, representam o dobre de 
finados desta poltica.
Aps a criao do Kominform, os comunistas multiplicam as crticas e 
exi . gnci . as para com os
sociais-democratas [... 1. O extremo cansao fsico do presidente 
Bens, a benevolente neu-
tralidade do exrcito e a habilidade de Gottwald perante dirigentes 
socialistas de invulgarpusi-
lanimidade levavam assim de vencida a liberdade de um povo.
     Em 1948, quando a sovietizao da Europa Oriental parece 
concluda, surge subitamente o
cisma jugoslavo. [...1
     Como frequente no seio do movimento comunista internacional, os 
argumentos de carc-
ter ideolgico apenas escondem conflitos de interesses. O cisma 
jugoslavo deve-se muito

pouco a qualquer heresia ao marxismo-leninismo. ,fundamentalmente um 
conflito de indiv-
duos e um conflito de Estados. [...   1 O diferendo degenera ento 
num conflito de Estados,
opondo o orgulho nacional de um povo ao imperialismo de uma grande 
potncia hegemonista.
De facto, os dirigentes jugoslavos no esto dispostos a admitir a 
infiltrao dos Soviticos no
aparelho de Estado (exrcito, polcia), nem o desenvolvimento de 
sociedades mistas cujos
objectivos exploradores so evidenciados pelos exemplos vizinhos. Em 
resumo, o que se encon-
tra em causa  realmente a vontade de independncia de um Estado 
forcado na resistncia nacio-
nal e, reciprocamente, a insubordinao insuportvel de um satlite a 
que a URSS exige o ali-
nhamento com o bloco que ela prpria chefia.


     A    Repblica Democrtica Alem

     O cisma jugoslavo representa um incontestvel fracasso para a 
URSS, s parcialmente
compensado pela instaurao da Repblica Democrtica Alem.  
evidente que Estaline teria
optado por conservar uma Alemanha unificado desmilitarizada e 
esgotada pelas reparaes, de
preferncia a uma partilha que iria alimentar no corao da Europa 
uma ameaa permanente
de conflagrao. O imediato ps-guerra assiste ao desenvolvimento, na 
zona de ocupao sovi-
tica, de duas polticas que s aparentemente so contraditrias: a 
pilhagem do potencial
industrial e o renascimento de uma vida democrtica letal e regional 
comparvel  das zonas
ocidentais. Mas a deteriorao do clima internacional, a partir da 
Primavera de 1946, vai
determinar um desvio no sentido da sovietizao e, posteriormente, na 
esteira das iniciativas
ocidentais, a construo progressiva de um Estado concorrente.

B. Droz, ob. cit.






245

               AFRONTAMENTO 131POLAR DO PS-GUERRA


MODALIDADES DE SOVIETIZAO NA EUROPA DE LESTE


                      o






                              AR BALTIC



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                                   vitela



                                                 URSS

                                                 Estado ex-mimigo
411 Bu                                           da URSS

        N., 19-1@,
        Aq. 1       ROMENIA                      Polnia: centro do 
cordo
                                                 de segurana 
sovitica

                                                 Checoalovquia: 
democracia

        Belgrado                                 pluralista 
at'Fevereiro de 1948

                    Bucareste                    Jugosivia: excluda 
da
        JUGOSLAVIA             MAR
                    Da,bio    NEGRO             comunidade 
socialista em
                                                 Junho de 1948
                    BULGARIA
                                                 Albnia


                                                 Data das eleies 
previstas
                                      oy.  1946  em Ialta

                               00 km             A Austria continua
                                                 a ser ocupada at 
1955




TITO RESPONDE AS ACUSAES SOVITICAS

                    O povo sovitico, e sobretudo os seus dirigentes, 
devem estar convencidos de que a
               Jugoslvia, com os seus actuais chefes, caminha 
irresistivelmente para o socialismo [...                             
                       1.
                    Pensamos que as pequenas democracias populares, 
tais como a Jugoslvia, compro-
               metidas com as novas vias do socialismo, deveriam, 
permanecendo solidamente unidas entre
               si e em relao  URSS, ser completamente 
independentes e soberanas f...                                       
          1.
                    As experincias revolucionrias experimentadas e 
conseguidos nas democracias popu-
               lares deveriam ser consideradas como seguimento da 
grandes experincia da revoluo de
               Outubro. Constituem, no esprito da cincia marxista e 
leninista, um ensinamento novo em
               matria de prtica revolucionria. O papel da Unio 
Sovitica deveria ser estender o
               apoio compreensivo e sem restries da sua autoridade 
s democracias novas e de pr cons-
               tantemente em evidncia, atravs da propaganda, os 
sucessos destas democracias, nas suas
               reali                 .               zaes 
socialistas.

          Carta dirigida por Tito ao seu partido, datada de 12 de 
Abril de 1948.


246

                   @1E0P0L




                     800
          800 -                Alemanha Ocidental


700 -                         Alemanha Oriental                      
                                        DESENVOLVIMENTO
                                                                     
    6311
600 -                                                                
                                        COMPARADO DAS

                                                                     
                                        DUAS ALEMANHAS
500 -
       A2

                                                                     
                                        EM 1966
200 -  E                                                             
                ?


       167
                160                                                  
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                         48,6     51,7
                     E        E.E

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22,1

                     4,1 2,6
o                    MM_      o,9 1,2




                    A VITRIA DO COMUNISMO NA CHINA

     No dia 1 de Outubro [de 19491, Mao W-tung proclama em Pequim 
afundaro da Repblica
Popular da China.
     A explicao da vitria comunista reside num complexo de causas 
militares, sociais e
polticas indissociveis. [... 1


     A estas fraquezas ope-se a fora crescente do campo comunista, 
e especialmente do
Exrcito Vermelho. Este consegue manter a unidade e a continuidade de 
comando, apesar da
disperso das suas bases, adoptando uma estratgia bastante malevel 
baseada nas tcnicasJ       . a

testadas da guerrilha rural, que no o impedem posteriormente de 
conduzir uma guerra de
cerco e com grandes unidades. As qualidades do combatente comunista, 
a sua disciplina e a sua
convico de combater por uma causa justa, simultaneamente nacional e 
revolucionria, vo
compensar a inferioridade numrica inicial.

     Signifcado internacional

     Entre 1945 e 1949, a ajuda americana no ter ultrapassado os 
2000 milhes de dlares
aproximadamente, dos quais apenas metade destinada afins militares. 
Ajuda bastante modes-
ta, e da qual os comunistas sabero tambm beneficiar duplamente: 
recuperando pelos mais
diversos meios uma parte do material afectado aos nacionalistas, e 
denunciando eficazmente o
conluio entre o Kuomintang e o imperialismo americano. Este fracasso 
do containment* vai
fazer assim o jogo da URSS; notavelmente discretos perante os 
progressos dos comunistas at
ao incio de 1947, os Soviticos precipitaram-se a apoiar a vitria, 
acelerando osfornecimentos
de armas. Logo aps a proclamao da Repblica Popular da China, Mao 
1s-tung dirige-se a
Moscovo para concluir os acordos de Fevereiro-Maro de 1950, que 
concretizam a nova aliana
sino-sovitica. A recusa americana em apear a China nacionalista do 
seu lugar permanente no
Conselho de Segurana no anula a possibilidade de os Estados Unidos 
procederem ao reco-
nhecimento da China Popular num prazo mais ou menos curto. Mas o 
incio da Guerra da
Coreia, em Junho de 1950, vai evidentemente pr cobro a estas 
conjunturas. A China tinha
entrado, pelo menos provisoriamente, na lgica dos blocos.

                                   B.   JolI, ob. cit.


                                                            247

                                                                 I`@

               o

                    ..............

O IMEDIATO PS-GUERRA NOS EUA:

ABUNDANCIA, CONSUMO, PRAZER

               A seguir  vitria e, sobretudo, por oposio a uma 
Europa transtornada e terrivelmente
          empobrecido, a Amrica ergue-se como o pas da abundncia 
por excelncia.
               Abundncia de homens - eis-nos perante a surpresa da 
inverso de tendncia do movimento
          demogrfico dos vinte anos anteriores. Aquilo a que se 
comea a chamar o baby boom repre-
          senta mais do que a recuperao natural e passageira do 
dficit dos anos da guerra: trata-se
          de um movimento mais profundo, cujo ritmo se mantm 
vigorosamente at 1947 e s afrouxa
          ligeiramente durante todo o decnio seguinte. Fenmeno 
notvel, esta recuperao da natali-
          dade afirmou-se mais nitidamente (+48% de 1936 a 1947) 
entre as mulheres de raa branca do
          que entre as mulheres de cor (+24%) [...              1.
               No total, o crescimento demogrfico lanava no 
mercado, num decnio, cerca de 20 milhes
          de consumidores suplementares, consumidores muito dispostos 
a consumir, visto que, em gran-
          de maioria, citadinos.
               Dispostos a consumir tambm porque, mais do que nunca, 
tinham meios para isso. A subi-
          da geral dos rendimentos e, melhor ainda, a sua melhor 
distribuio foram os elementos
          determinantes de um crescimento acelerado do consumo. [... 
               1
               O movimento de produo macia de bens de consumo, 
interrompido durante a guerra,
          recupera todo o seu vigor. A produo macia de automveis 
[...                1 aumenta o parque, incluin-
          do os veculos utilitrios, de 30 milhes e meio em 1944 
para 41 milhes em 1948, ou seja, um
          aumento de 30% em quatro anos. [...               1 Objecto 
de consumo, o automvel tornou-se objecto de
          ostentao e meio de prestgio social.
               Mas o consumo de massas alargava-se muito alm do 
automvel. O ps-guerra  j a
          idade dos novos produtos qumicos, desde a produo, em 
Dezembro de 19391 do nylon pela Du
          Pont, at aos plsticos, fibras sintticas, detergentes, 
insecticidas e silicones.  tambm a era
          do gadget elctrico (condicionadores de ar, cobertores 
elctricos, mquinas de lavar, conge-
          ladores domsticos, trituradores de lixo, contadoras de 
relva elctricas) e, mais moderno
          ainda, do gadget electrnico (estabilizadores e selectores 
de corrente, transistores, semicon-
          dutores e todo o equipamento dos receptores e emissores de 
televiso). Smbolo da nova era, a
          indstria da televiso conheceu a mais fulgurante expanso 
das indstrias americanas
          Equipava, em 1948, 17 estaes emissoras.

               Finalmente, o ps-guerra abre definitivamente a era da 
aviao civil.
               Abundncia, consumo, desperdcio [...                1 
e prazer, sero as palavras chave dos anos cin-
          quenta. No viria longe o tempo em que uma parte da 
populao activa, os publicitrios, se
          dedicaria  estimularo artificial do consumo.
               Assim, o estilo de vida de uma grande parte da 
populao, especialmente das classes
          mdias e superiores, modificava-se rapidamente e acabava 
por entrar violentamente em conflito
          com a moral tradicional. O sistema clssico de valores, 
baseado na austeridade (*adiar o pra-
          zer para mais tarde+, segundo a tica puritana) e no 
trabalho (considerado como um valor em
          si), tendia a ser substitudo por um esprito de gozo, por 
uma glorificao da abundncia e do
          consumo (j no da produo), em suma, por um hedonismo 
materialista que iria pr em
          causa, a prazo de cerca de uma gerao, no plano da 
ideologia e da cultura, os prprios ali-
          cerces do capitalismo.

                                   Ren Girault, in P. Lon, ob. 
cit., vol. vi.





248

                    MIAM~



                    A.   Alguns nmeros sobre o automvel em 1959

                    Fabrico anual de veculos automveis 
(compreendendo                                                       
       BARlVIETROS DA
                                   veculos comerciais)

                                             PROSPERIDADE



5135   000  22,5  habitantes
1365   000  28,8
1126   000  31,8

1495   000  35.3

       Circulao de carros de turismo

                   global


                                   97 000 000          22 habitantes

56871000                                                3  *
4549000                                                11  *
4500000                                                10  *
3860000                                                13  <1
            Segundo Tableaux de Uconomieftanaise, 1960.

          B. Produo de automveis   C. Evoluo do comrcio 
internacional


                                              do            carvo


  milhes
                                  1913        Ne,,,cast[,@


10
                                              Ca,diff
                                                            Duisbo.,g
                                        @Ham
           E.U.A.




  7

                                                                     
           @a




  5                               1927




  3




                   ALEMANHA FED.
  2

1,7                G R-BRETANHA

1,5
                   @ANA


                                  1950




0,7                ALIA                                              
       6;
                                                            
Krole.ska-Huta

0,5

                   CANADA

0,3



              Carves it le,"s

1955     1956      1957      1958      1959       1960 Carves no 
ingleses



Segundo Annuaire S. G. F., 1961.               Segundo Perpillou.


                                                            249

                              . . .........                     .. 
...................



Aow ACORDOS OCIDENTAIS DE ASSISTENCIA MTUA EM 1955





                                                  Moscovo


           Tratado do
           Atlntico Norte

           EANO             Pacto
Washingtc                   Sul-Co     Washi
           NTICO
                            Pac
                            japo

           Pacto
           io               Pacto das
                            Filipinas








                    Pacto
                   do Otas

                    OCEAM
                   NOICO
         Pases da assistncia mtua
00                        Bloco comunista
o




PACFICO








TRATADOS INTERNACIONAIS PATROCINADOS PELOS ESTADOS UNIDOS

               Acordo de Cooperao corri a Libria (8 de Julho de 
1959).

          Tratado Interamericano de Auxlio Mtuo (2 de Setembro de 
1947).

          Tratado de Defesa Mtua com as Filipinas (30 de Agosto de 
195 1).

          Tratado de Segurana entre a Austrlia, Nova Zelndia e 
Estados Unidos (ANZUS), em 1 de

          Seterribro de 195 1. Organizao do Tratado do Sueste 
Asitico (SEATO) que inclui os Estados

          Unidos, a Austrlia, a Nova Zelndia, o Paquisto, as 
Filipinas, a Tailndia, a Gr-Bretanha, o

          Carnbo@ja, o Laos e a Repblica do Vietriarne (Sul), em 8 
de Setembro de 1954. Tratado de Defesa

          Mtua com a Repblica da China (Formosa) ei -ri 2 em 
Dezembro de 1954. Tratado de Auxlio

          Mtuo e Segurana entre os Estados Unidos e o Japo, em 19 
de Janeiro de 1960.


               Ti-atado do Atlntico Norte (NATO), que inclui os 
Estados Unidos, Blgica, Canad,

          Dinamarca, Frana`1. Islndia, Itlia, LLIxemburgo, 
Holanda, Noruega, Portugal, Gr-Bretanha,
          Grcia (unida em 1952), Turquia (unida em 1952) e Repblica 
Federal Alem (unida em 1955),
          assinado em 4 de Abril de 1949. Acordos de Defesa com a 
Espanha (26 de Setembro de 1953).

               Incluso dos Estados Unidos nos Comits do Pacto de 
Cooperao Mtua, assinado em
          Bagdade, entre o Iraque, Turquia, Gr-Bretanha, Paquisto e 
Iraque, em 24 de Fevereiro de 1955.
          Posteriormente foi reconvertido em Organizao do Tratado 
do Centro (CENTO), aps retirada do
          Iraque (1 959). Acordo de Cooperao com o Iro (5 de Maro 
de 1959). Acordo de Cooperao a
          com TUrquia (5 de Maro de 1959).

(1) Em 1967,   F-. band,mou a Nt,.


250
Se,,undo o Departamento de Estado sobre os compromissos dos Estados 
Unidos, em 1966.
                    A UEM

          A RETOMA DA ESTRATGIA DO *CORDO SANITARIO+

     Pela sua prpria natureza, a guerra fria tolera mal a 
neutralidade. Nenhum dos dois blocos
aceita de bom grado que terceiros permaneam  margem. Tanto um 
quanto o outro se empe-
nham em recrutar o maior nmero possvel de aliados.  o momento em 
que grassa o que se
denominou a *pactomania+ dos Estados Unidos, que constroem pacto 
sobre pacto, visando for-
mar, em torno do bloco sovitico, uma cintura de segurana contnua 
entre pases ligados por
acordos militares. Ao lado do Pacto do Atlntico (Abril de 1949), que 
associa a Europa
Ocidental  Amrica do Norte - Estados Unidos e Canad - o ANZUS, 
nome.formado com as
iniciais dos pases contratantes - Austrlia, Nova Zelndia e US 
(Estados Unidos) - o pacto
dito da OTASE ou da Asia do Sudeste, que associa  Nova Zelndia e  
Austrlia as Filipinas
e a Tailndia, e o pacto dito de Bagdade, ou ainda do CENTO, que 
comportava no incio a
Turquia - membro tambm do Pacto do Atlntico, ponto de ligao que 
junta um pacto a outro
- o Iraque, o Iro e o Paquisto.
     O sistema desenhava um imenso arco de crculo, que ia da 
extremidade setentrional da
Noruega - membro do Pacto do Atlntico - ao Japo - ligado aos 
Estados Unidos por um
tratado em 1951 - e ao Alasca americano. Esse dispositivo  
materializado por mais de uma
centena de bases, ocupadas pela aviao estratgica norte-americana 
na Europa, em Marrocos,

na Turquia, na Arbia e outros lugares ainda.  a estratgia do 
*cordo sanitrios de 1919,
retomado em outra escala, estendida ao universo inteiro, que cerca, 
alm da Unio Sovitica,
as democracias populares e a China comunista. A assistncia militar 
avantaja-se, de ano
para ano,  ajuda econmica. A poltica do general Marshall  
susbtituda, e logo eclipsada, por
uma poltica francamente militar, em que a estratgia  senhora.

                                   R.   Rmond, ob. cit.








                     y,



                                   A.   George Marshali,
                                        o proponente da
                                                  ajuda  Europa




                                                            251

                                   B.   Os objectivos do Plano 
Marshali

                    . ........ .... .. ... .......... . ....... .. . 
.... .. .. . . .....
                    As necessidades da Europa, nos prximos trs ou 
quatro anos, em alimentos e outros pro-
               dutos essenciais vindos do estrangeiro - 
principalmente da Amrica - excedem de tal modo
               as suas disponiblidades actuais que ou ela recebe uma 
ajuda suplementar substancial ou
               enfrentar uma deteriorao econmica, social e 
poltica gravssima. Para alm dos efeitos
               desmoralizadores sobre o mundo em geral e da 
possibilidade de estalarem distrbios resul-
               tantes do desespero das populaes, dever ter-se em 
conta as consequncias que da advi-
               ro para a economia dos Estados Unidos. , pois, 
lgico que os Estados Unidos devero
               fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ajudar o 
mundo a regressar a uma sade
               econmica normal, sem a qual no poder haver 
estabilidade poltica nem paz. A nossa pol-

               tica no se dirige contra nenhum pas, contra nenhuma 
doutrina, mas contra afome, a pobre-
               za, o desespero e o caos. O seu objectivo  o 
renascimento de uma economia produtiva no
               mundo, de modo a garantir as condies econmicas e 
sociais propcias  existncia de ins-
               tituies livres                 1 Qualquer governo 
que consinta em ajudar-nos nas tarefas de recupe-
               rao encontrar, estou certo, uma colaborao total 
por parte do governo americano.

George Marsha11, Comunicao pronunciada na Universidade de Harvard, 
5 de Junho de 1947.





                    C. Uma interpretao do Plano Marshali








             Cartaz sueco, 1947



252

          AUXLIO AMERICANO AOS PASES ESTRANGEIROS



36,2      A
          Auxlio por pases
          1940-1948





                                   Milhares de milhes

TOTAL: 69 milhares               de dlares
de milhes de dlares

                                        8






                     6-

                      B
Auxlio por anos
1949-1958


               Auxlio Militar

     Auxlio no Militar






                                                  4-

11,0
     10,4




                                   2-
5,0


     o                3,0
     IM


         w                                         1949              
o W r- 1958

     E       o    Lr                                    a,   o   a, 
a,





                                   Segundo A. Canfield e Wilder.



                EVOLUO DAS TARIFAS ADUANEIRAS NOS ESTADOS UNIDOS





     Cntimos por dlares

50

40


30

20

10

     1790                   1830                   1870           
1910 1950


Quase sempre as tarifas aduaneiras nos Estados Unidos foram muito 
elevadas. Apenas durante escassos anos
antes da Guerra da Secesso e durante o mandato do presidente Wilson, 
se notou uma baixa sensvel

                                        Segundo A. Canfield e Wilder.

                                                            253
                              @'0 BIPOLk                         945


DO ISOLACIONISMO AMERICANO A OEA

               Vai ser a rivalidade Este-Oeste subsequente  II 
Grande Guerra que estimula o estreitamente
          e institucionali.-,ao dos laos inter-americanos. Com e 
ito, o desenrolar do conflito levou os

1 ik .                                                        fe

          ministros dos Negcios Estrangeiros dos Estados americanos 
a realizarem vrias conferncias
          consultivas, que, em princpio, d@finiram a zona de 
segurana destinada a garantir a neutra-
          lidade do continente americano, e, mais tarde, depois de os 
Estados Unidos terem entrado na
          guerra, proclamaram a solidariedade das Repblicas 
americanas e a sua adeso  Carta do
          Atlntico.
               Os princpios do pan-americanismo so, entretanto, 
definidos em Maro de 1945 pela
          acta de Chapultepec, que,focou essencialmente os problemas 
da guerra e da paz e ampliou os
          poderes de interveno da Unio Pan-Americana em assuntos 
polticos. De resto, as questes
          ideolgicas desempenharam um papel,fundamental na evoluo 
da doutrina de Monroe para a
          continentalizao e no correlativo desenvolvimento da 
solidariedade americana. Assim como
          o continente reagira contra o legitimismo sado do 
Congresso de Viena de 18151, [...               1 reagiu
          tambm contra os regimes totalitrios fascista e nazi em 
vigor na Europa, considerando-os

          como ameaas potenciais ao seu sistema poltico e  sua 
concepo de vida, e contra o totali-
          tarismo comunista. Da que se tenha organizado, pelo 
tratado do Rio de Janeiro (Setembro de
          1947), a df@sa mtua para garantir a segurana americana, 
no s contra um eventual ataque
          ao territrio americano, como tambm contra a subverso 
interna provocado por uma propa-
          ganda ideolgica contrria aos pri           .          
ncvios da democracia representativa, visando especialmente
          o comunismo.
               Porm, foi na Conferncia de Bogot de 30 de Abril de 
1948 que 21 Estados americanos
          assinaram a Carta da Organizao dos Estados Americanos, 
que entrou em vigor em 13 de
          Dezembro de 1951, depois de ratificado por dois teros dos 
pases signatrios, e veio a ser
          reformada em 1967, na III Confrncia Interamericana 
Extraordinria, pelo protocolo de
          Buenos Aires.

          Antnio Jos Fernandes, Organizaes Polticas 
Internacionais, Lisboa, 1980.





ACO GEOPOLITICA DOS ESTADOS UNIDOS
NA AMRICA CENTRAL

                                   ESTADOS UNIDOS          ATLANTICO








                                   1lx-

                                                       @_@CUBA


                                                            -7   mar
                                                                das
                                                            Carabas




                  PACFICO




                              .. . . . .. .. . ..... ... ..... 
....................

                     254

                      o
                                   C "s E,0                   ICAS

PREAMBULO DA CARTA DA ORGANIZAO DOS ESTADOS AMERICANOS

          EM NOME DOS SEUS POVOS, OS ESTADOS REPRESENTADOS NA IX
CONFERENCIA INTERNACIONAL AMERICANA,                            N

     Convencidos de que a misso histrica da Amrica  oferecer ao 
homem uma terra de
liberdade e um ambiente,favorvel ao desenvolvimento da sua 
personalidade e a realizao
de suasjustas aspiraes;
     Conscientes de que esta missoj inspirou numerosos convnios e 
acordos cuja virtude
essencial se origina do seu desejo de conviver em paz e de promover, 
mediante a mtua com-
preenso e o respeito pela soberania de cada um, o melhoramento de 
todos na indepen-
dncia, na igualdade e no direito;
     Certos de que o verdadeiro sentido dasolidariedade americana e 
de boa vizinhana no
pode ser outro seno o de consolidar neste Continente, dentro do 
quadro das instituies
democrticas, um regime de liberdade individual e de justia social, 
fundado no respeito dos
direitos essenciais do homem;
     Persuadidos de que o bem-estar ele todos eles, assim como a sua 
contribuio para o pro-
gresso e a civilizao do mundo exigir, cada vez mais, uma intensa 
cooperao continental;
     Resolvidos a perseverar na nobre empresa que a Humanidade 
confiou s Naes
Unidas, cujos princpios e propsitos rea rmam solenemente ; e
     Convencidos de que a organizao jurdica  uma condio 
necessria  segurana e 
paz, baseadas na ordem moral e na justia; e
     De acordo com a Resoluo IX da Conferncia sobre Problemas da 
Guerra e da Paz reu-
nida na Cidade do Mxico
          resolveram assinar a seguinte

     CARTADA ORGANIZAO DOS ESTADOS AMERICANOS








     AS BASES AMERICANAS NUMA PERSPECTIVA CHINESA: 1958

     O imperialismo norte-americano invadiu Taiwan, territrio do 
nosso pas, e ocupa-o j h
nove anos. Recentemente, enviou as suas foras armadas a invadir e 
ocupar o Lbano. Os
Estados Unidos estabeleceram, ao longo do mundo, centenas de bases 
militares num grande
nmero de pases. O territrio chins de Taiwan, o Lbano e todas as 
bases militares dos
Estados Unidos em territrio estrangeiro so como uma corda apertada 
no pescoo do impe-
rialismo norte-americano. So os prprios norte-americanos e ningum 
mais, quefabricaram
essas cordas, as apertaram ao pescoo e entregaram as pontas ao povo 
chins, aos povos ra-
bes e aos outros povos do mundo, que amam a paz e se opem  
agresso. Quanto mais tempo
permanecerem nesses lugares os agressores norte-americanos, mais se 
iro apertando as cor-
das  volta do seu pescoo.

                                   Mao Ts-Tung, El Libro Rojo, 
Madrid, 1976.



                                                            255

               O AFRONTAMENTO 81POLAR DO PS-GUERRA (1945-1-954)
                                                 .... ..... ......

DA PROCLAMAO DA INDEPENDENCIA DE ISRAEL
A GUERRA ISRAELO-ARABE

               Na tarde do dia 14 de Maio de 1948 [Ben Gurion 
declarou aos microfones da rdio] *... por
          virtude do direito nacional e histrico do povo judeu e da 
resoluo... das Naes Unidas:
          [Ns] por este meio proclamamos a criao do Estado judeu 
na Palestina - que se chamar
          Israel. + f...          1

               A declarao Balfour

               Pouco tempo antes de David Ben Gurion ter proclamado a 
independncia de Israel, realizou-se
          outra cerimnia na cidade porturia de Haifa, 80 km a norte 
de Telavive. [...                 1 o ltimo alto-
          -comissrio britnico para a Palestina, passou revista a um 
contingente das suas tropas. A
          seguir, embarcou numa lancha a motor e dirigiu-se para o 
Mediterrneo, onde um cruzador o

          esperava ao largo. Com esta cerimnia simples terminavam 31 
anos de governaro britnica
          na Terra Santa, que comeara durante a I Guerra Mundial 
quando, em Dezembro de 1917, tro-
          pas britnicas entraram em Jerusalm para arrebatar a 
Palestina ao controlo dos Turcos e ini-
          ciar o cumprimento de uma promessa feita pelo secretrio 
dos Estrangeiros britnico, Arthur
          Balfour [...           1 O que veio a chamar-se a 
Declarao Balfour, havia sidoformalmente publicado
          no comeo desse ano e afirmava: *O Governo de Sua Majestade 
considerafavoravelmente a
          criao... de uma ptria para o povo judeu... [e] nada ser 
feito que possa prejudicar os
          direitos civis e religiosos das comunidades no-judaicas 
existentes na Palestina. +

               O regresso a Sio

               A deciso britnica de patrocinar uma reconstituio 
do nacionalismo judeu na Palestina
          surgiu em consequncia de uma grande variedade de 
circunstncias.
               A esperana de regresso a Sio - Jerusalm            
       que est associada com a crena da vinda
          do Messias, nunca se perdeu entre os Judeus.               
     1 Porm, o desejado regresso a Sio em
          maior escala s comeou a tornar-se realidade no sculo 
XIX, quando as antigas aspiraes
          religiosas se associaram ao moderno conceito de 
nacionalismo. Em meados do sculo, o rabi-
          no Z. H. Kalischer e o socialista Moses Hess reivindicaram 
a colonizao da Palestina pelos
          Judeus, e foram dados os primeiros passos nesse sentido. As 
perseguies verificados na
          Rssia na dcada de 1880 levaram cerca de 25 000 judeus a 
emigrar para a Palestina.
               No entanto, o sionismo s ganhou importncia como 
movimento poltico com a publicao
          do livro O Estado Judaico, de Theodor Herzl, que levou  
celebrao do I Congresso Mundial
          Sionista, em Basilia, em 1897. Herzl morreu em 1904, aps 
ter encetado infrutferas nego-
          ciaes com o imperador Guilherme II e o sulto turco. No 
entanto, a Organizao Sionista
          Mundial tornara-se uma realidade poltica. [...            
 1
               Para a Gr-Bretanha, a Palestina era uma das muitas 
responsabilidades que lhe incubiam
          no Mdio Oriente. Durante a guerra, Londres havia obtido o 
apoio dos Arabes contra os
          Turcos, alimentando-lhes a esperana de que a Gr-Bretanha 
patrocinaria a criao de uma
          vasta nao rabe que incluiria a maior parte da Pennsula 
Arbica. Embora a Palestinaficas-
          se exactamente no centro desta projectada nao rabe, 
mesmo assim os Arabes pareciam dis-
          postos a adiar a discusso acerca da Terra Santa at depois 
da guerra. Em breve, porm, afio-

          rou a dura realidade da luta poltica pelo poder [...      
      1
               Em 1922, viviam na Palestina cerca de 85 000judeus 
(entre aproximadamente 650 000 ra-
          bes). Muitos desses judeus ou eram refugiados das 
perseguies anti-semitas surgidas no
          comeo do sculo na Europa Oriental, ou descendiam de 
judeus que haviam permanecido na
          Terra Santa desde tempos bblicos. Os restantes eram 
imigrantes idealistas que haviam chegado
          nos ltimos dois anos sob os auspcios do moderno movimento 
sionista. Alarmados pelo rpi-

256

do crescimento da populao judaica e amargurados com a poltica 
britnica em relao ao
Mdio Oriente, os chefes rabes da Palestina fomentaram tumultos anti 
judaicos em 1920 - as
primeiras de numerosas perturbaes semelhantes que incendiaram a 
Terra Santa.

     O ritmo acelera-se

     S nos anos 30, porm, comeou realmente o fluxo da emigrao 
judaica. Espicaados pela
poltica anti-semita do novo Governo nazi da Alemanha, centenas de 
milhares de judeus alemes
abandonaram a sua ptria entre 1933 e 1939 e muitos deles 
estabeleceram-se na Palestina. [...    1
No entanto,  medida que a luta contra Hitler prosseguia, tambm 
continuava o esforo sio-
nista para salvar da ira da Alemanha o maior nmero possvel de 
judeus. [...       1 Os Ingleses,
resolvidos a suster a emigrao judaica ilegal, montaram um apertado 
bloqueio martimo ao
longo da costa da Palestina para interceptarem os navios de 
rejgiados, forando-os a princpio
a regressar aos seus portos de embarque e mais tarde fazendo-os 
seguir para territrios sob
ocupao britnica na Africa Central. [...  1
     Perseguida por todos os lados - pelos Arabes, que exigiam o no 
abrandamento da poltica;
pelos Judeus, que insistiam em que os portes do sionismo fossem 
abertos; pelo presidente
Harry S. Truman, dos E U A, que apoiava os sionistas -, a 
Gr-Bretanha, em 1947, apresen-
tou o problema s Naes Unidas.

     Os Arabes unem-se

     Em 29 de Novembro de 1947, aps semanas de intenso debate, a 
Assembleia Geral das
Naes Unidas votou por 33 contra 13 (e 10 abstenes) a diviso da 
Palestina em dois
Estados independentes: um para os seus 1, 1 milhes de rabes, o 
outro para os seus 650 000

judeus. Para os Judeus, estefoi um momento de vitria. [...   1
     Os Arabes, no entanto, consideraram a deciso de desmembrar uma 
regio que havia muito
reclamavam como sua no s um ultraje como um insulto para ser 
vingado com sangue. Ripostaram
quase imediatamente. Multides rabes atacaram e assassinaram em 
Jerusalm os seus vizinhos
judeus, grupos bombistasfizeram detonar explosivos em mercados, 
bandos de guerrilheiros, recru-
tados tanto na Palestina como em Estados vizinhos, cercaram 
aldeamentosjudeus e cortaram as vias
de comunicao. Em Dezembro de 1947, a Palestina estava praticamente 
em estado de guerra civil,
e asforas britnicas, que pouco a pouco se iam retirando, 
recusavam-se a intervir
     Resistir e nada ceder era o lema dos Judeus. Armados 
principalmente com espingardas, aldea-
mento aps aldeamento sustentaram intensivos ataques rabes. Nos seis 
meses entre a votao
da resoluo da partilha e a proclamao do Estado, nem um metro de 
territrio judaico foi per-
dido, pois os Judeus possuam dois trunfos quefaltavam aos Arabes: 
unidade e organizao. [...   1
Face  falta de unidade dos Arabes, os judeus da Palestina em breve 
puderam passar  ofen-
siva. Na Primavera de 1948, a Haganah conseguiu controlar todas as 
cidades importantes den-
tro das fronteiras do Estado judaico proposto pela O N U Estas 
incluam o porto vital de Haifa;
a cidade rabe de Jaffa; Safad, perto da fronteira sria, e a Cidade 
Nova de Jerusalm. Esta
ltima, juntamente com a sua vizinha e muito mais pequena Cidade 
Velha, havia sido designada
pela O N U como zona internacional. [...   1
     No primeiro aniversrio da independncia, tornara-se evidente 
que uma nova potncia nas-
cera no Mdio Oriente. Israel no s tinha sobrevivido como aumentara 
em cerca de um
tero o seu territrio. No entanto, a nao pagara por alto preo a 
sobrevivncia. Haviam sido
mortos cerca de 6000 israelitas, quase 1 % da populao. O nmero de 
mortes entre os Arabes
foi ainda maior Para estes, o sentimento de que haviam sido tratados 
injustamente tornara a
derrota ainda mais amarga. Durante o quarto de sculo seguinte, 
Israel participaria em trs
importantes guerras para afastar as ameaas rabes  sua 
sobrevivncia.

                    Os Grandes Acontecimentos do Sculo XX, Lisboa, 
1984.

257

                    A DEFINIO DAS AREAS GEOPOUTICA,1

UM ESTADO CRIADO SOB MODELO ESTALINISTA - 1949/57


     Dois tipos de decises fundamentais foram proclamadas a partir 
do primeiro ano de exis-
tncia do novo Estado:

     - O ancoramento no campo comunista

     A aliana com a URSS (materializada pelo tratado de 14 de 
Fevereiro de 1950) impe-se aos
dirigentes chineses como uma necessidade para consolidar a revoluo 
e conduzir uma poltica
activa na Asia (interveno na Coreia, ajuda militar  Repblica do 
Viemame e luta contra os
Franceses ... ). Ela traduziu~se numa forte influncia sovitica 
tanto sobre o plano institucional
(constituio de 1954), como poltico (por exemplo, reforo do poder 
do partido sobre o exr-
cito e sobre os intelectuais), como sobre o plano econmico 
(emprstimos, envio de tcnicos e
de material, prioridade  indstria pesada do primeiro plano 
quinquenal (1953-1957)...

     - A remodelao da sociedade

     A lei do casamento (30 de Abril de 1950) proibindo os casamentos 
arranjados e substituindo
a interveno do Estado  da famlia, assim como a reforma agrria 
(28 de Junho de 1950), que
confiscou 46 milhes de hectares (sobre 107) a proprietrios no 
exploradores directos para os
redistribuir a 70 milhes defamlias, estiveram na origem de uma 
enorme revoluo social.
     Este arranque do novo regime e das primeiras reformas custou um 
preo extraordinariamente
elevado em vidas humanas (talvez cinco milhes de execues entre 
1949 e 1952) e implicou a
criao de um sistema repressivo (polcia de segurana, campos de 
internamente e de reedu-
cao). A partir de 1952, a brusca acelerao da colectivizao, 
desejada pessoalmente por Mao
1s-tung (*o primeiro salto em firente+, Vero de 1955- Vero de 
1956) que conduziu a uma *coo-
perativizao+ efectiva da agricultura, e a uma estatizaro quase 
total das empresas industriais,
desde ofim de 1956, suscitou um crescente de oposio assim como 
dissenes internas no
P C C: enquanto a poltica de Mao era criticado durante o VIII 
Congresso, notava-se uma influ-
ncia crescente de Liu Shaoqi e de Deng Xiaoping. Desejoso de retomar 
o domnio completo do
poder, e de enfraquecer os contestatrios do Partido, Mao lanou 
ento a campanha dita das
*Cemflores+ (Maio de 1956-Junho de 1957), quefez soprar um vento 
defronda nos meios inte-
lectuais nas cidades, antes de anunciar, na Primavera de 1957, uma 
virulenta represso, com
deportao de 460 000 *direitistas+ para a Manchria e a Monglia (s 
libertados em 1978).


Jean-Franois Soulet, Sylvaine Guinle~Lornet, Prcis Xhistoire 
immdiate, Paris, 1989.



                                      (base 100 1950)

                                   ndice -

500 -                                          A ECONOMIA CHINESA

400 -

300              n2


200 -
100 -
                                   1950 1955  1960  1965  1970
             Produo industrial
         Produto nacional bruto por
                                   Q)   habitante (a preos 
constantes)

                                   G)   Produo de cereais
                                        Segundo M. Bruce Mc Farlane.


                                                            259

               OAFRONTAMENTOBIPOLARD6@@@@@(1945-1954)

AS GUERRAS DA COREIA E DA INDOCHINA

               No Vero de 1950, a Europa passar por uma psicose de 
pnico. Como a Alemanha, a
          Coreia foi dividida em duas zonas de ocupao: a Coreia do 
Sul, ocupada pelos norte-ameri-
          canos, e a Coreia do Norte, ligada ao bloco sovitico, 
separadas por uma linha demarcatria
          inteiramente convencional, que segue o 38'paralelo de 
latitude norte. No dia 25 de Junho de
          1950, de manh, as tropas da Repblica Popular da Coreia do 
Norte transpem o paralelo e
          invadem a Coreia do Sul. O Presidente Truman reage na hora. 
Os Estados Unidos conseguem
          em seguida - aproveitando-se da ausncia da Unio Sovitica 
no Conselho de Segurana -
          que a sua interveno seja colocada sob os auspcios das 
Naes Unidas.
               Por seu turno, porm, a China intervm e manda 
voluntrios s centenas de milhares. A
          guerra durar trs longos anos e s terminar nofim de 
Julho de 1953, depois de todo o tipo de

          peripcias, entre as quais a destituio do general 
MacArthur, que queria bombardear a
          Manchria chinesa e interminveis negociaes.
               No Sul da China, a vitria dos comunistas chineses 
tambm teve as suas consequncias: a
          sua chegada  fronteira do Viemame arruna a esperana dos 
franceses de esmagar o movi-
          mento de independncia viettiamita. O resultado da vitria 
dos comunistas na China  a derrota
          de Dien Bien Phu em 1954, a Conferncia de Genebra, a 
partilha do Vietname; h dois
          Viemames, como havia duas Coreias e duas Alemanhas. 
Consequncia tangvel, manifestao
          topogrfica da partilha ideolgica do mundo em dois blocos: 
tanto na Europa quanto na
          Asia, a defrontaro dos dois acarreta a partilha.  em cada 
pas que a opinio pblica est divi-
          dida entre os dois blocos.

                                                       B. Rmond, ob. 
cit.



DECLARAO OFICIAL DE TRUMAN
SOBRE A GUERRA DA COREIA - 27 DE JUNHO DE 1950

d, Na Coreia, asforas governamentais que estavam armadas para 
impedir os ataques nafiron-

          teira e preservar a segurana interna foram atacadas por 
unidades vindas do Norte. O Conselho
          de Segurana das Naes Unidas ordenou aos invasores que 
cessassem as hostilidades e reti-
          rassem para o paralelo 38'. Longe de Jz-lo, ao contrrio, 
reforaram os seus ataques. O
          Conselho de Seguranajz ento um apelo a todos os membros 
da Naes Unidas para que ofe-
          ream a ajuda mxima  organizao para cumprimento desta 
resoluo. [...                 1 O ataque contra
          a Coreia demonstra de uma maneira que no deixa dvidas que 
o comunismo ultrapassou o est-
          dio de subverso para conquistar naes independentes e 
far uso daqui em diante da invaso
          armada e da guerra. Desafiou as ordens do Conselho de 
Segurana para preservar a paz e a
          segurana internacional. Nestas circunstncias, a ocupao 
da Formosa porforas comunistas
          constituiria uma ameaa directa para a segurana da regio 
do Pacfico e para as tropas dos
          Estados Unidos que desempenham ali as suas misses 
legtimas e necessrias. Em consequn-
          cia, ordenei ao governo chins instalado nesta ilha que 
cessasse todas as operaes areas e
          navais contra o continente                  Ordenei que as 
tropas americanas nas Filipinas sejam r r-

                                                                 fio

          adas                 ordenei que se acelere o envio de uma 
ajuda militar sforas conjuntas da Frana
          e dos Estados Unidos na Indochina [...             1. Sei 
que todos os Estados membros das Naes Unidas
          estudaro com cuidado as consequncias desta ltima 
agresso, em violao flagrante da
          Carta da O N U. O retorno ao uso dafora nos assuntos 
internacionais teria repercusses de um
          alcance incalculvel. Os Estados Unidos insistiro no 
cumprimento da autoridade da lei.

                                   M.   Alba, Textos de Historia del 
Mundo Contemporneo, Mlaga, 1989.


260

. . . . . . ... ........ ..... ... ....


                                                                     
              . . . ..............................
Ofensiva norte                                         Interveno 
chinesa         Jan.-Abril 1951

                                                                     
                                                       A GUERRA DA

     CHINA                                             CHINA         
                                                       COREIA

                                   Norte                             
              Ofensiva

                                                                     
       do     chinesa e
                                   Coreia do                        
       Japo  norte coreana
                          Mar      Sul
                          do
     p                    Japo

                                                                     
              Linha extrema
                                   Zona da                           
              de ch i neses e
                                   Coreia do Sul                     
              norte-coreanos                        o
                eul
                                   invadida pela       eu
     Mar                           Coreia do Norte
                     DO                                Mar
Amarelo
                     SUI                               Amarelo       
              Limite da

                                                                     
              contra ofensiva
                                                                     
              americana

                          @'u-San                                    
              e sul-coreana

o         200 km                                                o 200 
km

                                         .... ....... .... ..... ..
                     AU
Coni- ,)furtiva american                                    19,50 Fim 
do conflito Nov. 1951
Julho 1953


     CHINA                                                       
CHINA
                   /"@'COR
                     DO
                    NORT

     p                                 2   c            Tropas da 
Avano das


                     ONU e Sul-     P'yor                  v. 1951  
tropas da ONU

               38-   coreanas                                       e 
sul-coreanas

               r                                   eul
                     Linha extrema                         Mar
desembarque    O    de Mac Arthur  armistcio de          do
    em Ichon         2 Novembro     Pan Mun Jorn   COREIA  Japo
      15 Set.                       27 Julho 1953  DO
                                                   SUL

      Mar      -San
  Amarelo

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                                                       .. . .... 
...... ...........................








          AS TRES FASES DA GUERRA SEGUNDO GIAP-                      
  A Ik

                                        Fase 1







ase 2

                              NMF









                    Fa- 2 - G-- d. g-ffilh.;
As trs fases       0@#.taq,-, s :.,,,,,,,aces; d.
               FE,  i,,i,,,ig. . ,[.,g.me,,Io d.,
da guerra           mffiAnda n- ldei.s

                    Fas. 3 - G..,,a ab.rt.
segundo Giap        f.,as;

 FORA EXPEDICIONARIA
FRANCESA                     MAIO DE 1953

     54 000




         Fas. 1 - C,-titu-,- g,up.s
d. p.rrilh.i-; e,,,
          .g.r.r . -t@,b.1 ... b--

Deste total de 189 000 cerca de 1 OC
estavam imobilizados em defesas e
cas. As operaes ofensivas estav,
cargo de 7 grupos mveis e de 8 batalhes
de pra-quedistas.



                     261

                    ABALH

     A.   Exerccos

     1.   Indique as caractersticas da *guerra fria+.

     2.   Explique o sentido da frase de Raymond Aron em 1947 
<,guerra improvvel, paz impos-
          svel+.

     3.   Relacione a convico de que o regresso a uma *Europa 
ordenada e prspera,> exigia
          a contribuio de uma <Alemanha estvel e progressivas> com 
o desencadear de um pri-
          meiro inci ente e envergadura na guerra fria.

     4.   Refira como a existncia da zona de influncia sovitica na 
Europa significou, mesmo na
          linguagem corrente, a mudana da Europa Central em Europa 
de Leste.

     B.   Comeffiro de texto

                    *As nossas relaes externas, polticas e 
econmicas, so indivisveis. No podemos
               dizer que podemos cooperar num domnio e que recusamos 
J--lo noutro. +

                                                       H. Truman, 
1947.

                    *A ajuda estrangeira  um mtodo pelo qual os 
Estados Unidos mantm uma posio
               de influncia e de controle sobre o mundo inteiro e 
apoiam um grande nmero de pases
               que se desmoronariam ou passariam para o bloco 
comunista. +
                                   J.   F. Kennedy, 1962.

     1.   Verifique como se traduziu na aco o pensamento do 
presidente americano, Henry
          Harry Truman, e avalie a eficcia do mtodo explicado por 
Kennedy.

     C.   Aprofundamento de conhecimentos

     1.   Leia o texto sobre *As responsabilidades das origens da 
guerra fria+, que constitui ainda
          hoje um debate em aberto.

     seme ana      s controvrsias suscita s pelas responsabilidades 
alems no desencadeamen-
to da Primeira Guerra Mundial, e em menor grau da Segunda, o 
probleina das causas da guerra fria
anima h cerca de vinte anos um importante debate historiogrfico.  
um debate essencialmente ame-
ffi     ricano, onde as paixes polmicas e polticas no esto 
ausentes; o seu objecto  a questo das res-
i i    igonsabilidades dos Estados Unidos e da URSS na ruptura das 
alianas e na formao dos blocos.
Na esteira das posies oficiais da administrao americana, os 
historiadores da escola tradi-
cionalista atriburam desde muito cedo essa responsabilidade  
poltica expansionista do governo

sovitico, quer este tenha obedecido aos objectivos pan-eslavistas 
tradicionais da diplomacia
russa, quer a vocao internacionalista do marxismo-leninismo. Deste 
ponto de vista, a diplomacia
americana, moldada por uma percepo (alis demasiado tardia) do 
perigo sovitico, apenas
teria obedecido a uma srie de reflexos definitivos. Contempornea da 
guerra do Vietname e da vaga
de m conscincia que grassa ento entre os intelectuais, in uenciada 
pelas ideias da Nova
fl
     Esquer americana, a tendncia revisionista inverte as 
responsabilidades, acentuando o apel
                                                               p

262

essencial dos Estados Unidos no surto da guerraffia. Esta escola 
divide-se ainda em duas corren-
tes. Os mais intransigentes (hard revisionists) colocam a tnica na 
deliberada agressividade dos
Estados Unidos em relao aos pases que se recusavam a aceitar a sua 
viso do niundo, ou seja, a
satis o dos seus intuitos imperialistas. Os moderados (soft 
revisionists) repartem mais equita-
fia
tivamente as responsabilidade, embora sublinhando a importncia do 
processo sucessrio decor-
rente da morte de Roosevelt e as tendncias agressivas da equipa de 
Truman. A constituio de uni
escudo de segurana sovitico e a manuteno de boas relaes com o 
Ocidente no eram porm
incompatveis. Por no o terem compreendido, ou por no terem querido 
admiti-lo, os Estados
Unidos teriam endurecido as suas posies e inventado a frmula do 
cerco. Sob este ponto de vista,
 interessante a contribuio do historiador Daniel Yergin. A sua 
tese atribui a deteriorao das
relaes Leste-Oeste a uma sucesso de mal~entendidos conduzindo a 
uma escalada da desconfiana
mtua - desconfiana sovitica, motivada pela suspenso unilateral do 
emprstimo-aluguer (embo-
ra se tratasse de uma aplicao estrita da lei) e pela intempestiva 
declarao de 14 de Novembro de
1945 sobre a cooperao atmica; e desconfiana americana, provocado 
pela ignorncia e pela
sobrestimao do real papel de Estaline tanto na crise de Trieste 
como na guerra civil grega.
      talvez prefervel adoptar a concepo realista, que insiste no 
carcter inevitvel da guerrafria.
Esta seria uma decorrncia da bipolarizao, na medida em que dois 
sistemas antagnicos so defen-
didos *por duas potncias s*ficientemente vastas, populosas e 
confiantes (no valor das suas crenas
e das suas armas) para disputarem entre si a preponderncia mundial+. 
Decorreria tambm da ine-

vitvel bipolaridade nascida da ocupao de uma parte da Europa pelos 
exrcitos soviticos e
americano, no contexto do vazio poltico criado pelo desmoronamento 
do Eixo e dos seus satlites.

                              Bernard Droz, ob. cit., 2.' volume.


D.   Anlise de documentos

1.   Interprete as duas caricaturas.






N,








     -IA

REPERCUSSO DAS TENSES INTERNACIONAIS NA POUTICA
         INTERNA DOS ESTADOS UNIDOS



     1.   A ASCENSAO DOS PARTIDOS DE ESQUERDA NA EUROPA DO
          PS-GUERRA

     2.   AS REFORMAS SOCIAIS E O WELFARE STA TE

     3.   A REACAO CONSERVADORA E O ANTICOMUNISMO








      Vigilncia, o preo da liberdade



owm~

                     AFR

1.   A ASCENSO DOS PARTIDOS DE
     ESQUERDA NA EUROPA DO
     PS-GUERRA

     A derrota dos regimes autoritrios em 1945
foi sentida como uma vitria sobre a barbrie e
como um triunfo da democracia. As ltimas
monarquias conservadoras desaparecem e as
prprias monarquias, mesmo se constitucionais,
democratas, parlamentares e com foras de esquer-
da no poder, tenderam a desaparecer ou ficaram
confinadas a uma zona na Europa do Norte e do
Noroeste.
     No so s os resqucios de monarquias auto-
ritrias, herdeiras do sculo xviii, como os pr-
prios regimes autoritrios que se abatem, a
comear pelo desaparecimento dos seus mento-
res, como aconteceu na Alemanha, na Itlia ou
nos pases satlites.

     Nos pases europeus de democracia mais anti-
ga, os anos de guerra foram fundamentais para
acentuar o pendor esquerdizante, sobretudo por
influncia dos movimentos ligados  Resistncia.
Esta era democrtica e socialista como o provam
inmeros textos conhecidos.

     O sistema das foras polticas exprime uma
inclinao  esquerda, em parte pelo descrdito
que cara sobre as democracias tradicionais. A
guerra, a ocupao e a resistncia favoreceram a
aproximao entre os vrios nveis de interesses
dos cidados e entre os vrios pases onde as
mesmas correntes poltico-ideolgicas encontram
acolhimento.
     Em meados do sculo, as trs grandes for-
as polticas dominantes so o socialismo, o
comunismo e a democracia-crist (doc. 1). A
conjugao destas trs foras detm na maioria
dos pases uma esmagadora maioria. *Ela exer-
ce o poder, desenha a fisionornia dos novos regi-
mes e elabora as constituies+ e, por outro lado,
da coligao das trs resultam transformaes
profundas nas instituies polticas, nas estrutu-
ras econmicas, nas relaes sociais ou na orga-
nizao do trabalho.
     As polticas definidas por esta tendncia deram
fruto na elaborao das novas constituies; nas
inovaes do regime eleitoral agora efectivamente
aberto ao sufrgio universal; no reforo do regime
parlamentar unicameral; na organizao e con-
trole disciplinar sobre os partidos. No sector eco-

266

          (1945-1954)

nmico so as nacionalizaes de certos ramos
industriais, quer por razes ideolgicas quer como
punio pelo colaboracionismo de algumas
empresas no tempo da guerra. A seleco dos sec-
tores a nacionalizar (os sectores de base, as fontes

de energia, as carborferas, o gs, a electricidade,
os meios de transporte, os bancos e os seguros)
mostra a relao entre a soluo dos problemas
econmicas e dos problemas sociais.

     No campo social, com o contributo do movi-
mento sindical renovado, so as reformas ten-
dentes a realizar um plano, o mais completo pos~
svel, de proteco e de cobertura dos riscos
sociais.


2.   AS REFORMAS SOCIAIS E O WELFARE
     S TA TE

     J vimos como (logo a seguir ao fim da guer-
ra) a Gr-Bretanha deu um primeiro passo no
sentido de atribuir ao Estado maiores responsa-
bilidades na execuo de uma poltica de cariz
social.
      uma dimenso da nova democracia preo-
cupada com os direitos polticos, com os direitos
sociais e com uma nova ordem econmica e
social. Retomando algumas coisas que j foram
ditas, os governos, por presso da opinio pblica,
preocupam-se em promover uma *economia de
mercado organizadas, em que o capitalismo pri-
vado est enquadrado pelo Estado (que pode inter-
vir) e em que a sociedade exige uma poltica acti-
va e igualitria em matria de emprego, segurana
social, sade, habitao, educao e cultura. 
uma concepo muito aberta da democracia que
entrega ao Estado-*providncia+ o encargo dos
cidados (doc. 2).
     A ausncia de qualquer contestao grave do
regime democrtico durante o perodo estudado,
mostra a sua identificao com a mentalidade
colectiva e a sua eficcia na aco. Na sntese de
um historiador citado (Barnard Droz), o estabele-
cimento do Welfare State resulta da alquimia entre
uma corrente conservadora (preocupada em con-
duzir o progresso sem grandes rupturas), uma con-
cepo liberal (defensora de uma igualdade de
oportunidades que prolongue a fermentao social
e cultural dos tempos da guerra) e a inspirao
socialista (correspondente ao reconhecimento dos

partidos trabalhistas e comunistas e ao seu empe-
nho em difundir o mximo de igualdade sob o
controle do Estado) (doc. 3).
     A Constituio Francesa de 1946 e a Lei
Fundamental da RFA de 1949 proclamam a legiti-
midade do Estado-providncia e consagram no
texto a prpria expresso. Contudo, mbito mais
largo alcana na Inglaterra, o pas que melhor tra-
duz a aspirao a uma maior justia social.



3.   A REACO CONSERVADOF3A
     E O ANTICOMUNISMO

     A tenso internacional     que ope os EUA 
URSS acompanha a edificao progressiva de um
bloco comunista de democracias populares e leva
a uma reaco conservadora, inspirada pelos
Americanos, a partir de 1947. Data dessa altura a
lei que autoriza o FBI a investigar a lealdade dos
funcionrios federais.
     Mas a reaco conservadora no tem s uma
colorao anticomunista. Manifesta-se no
Congresso Americano em todas as propostas
legislativas reformistas. H oposio nas tentati-
vas de rever as quotas de emigrao, de estender a
segurana social ou de proibir certas formas de
discriminao, como as que limitam os direitos
cvicos dos negros.
     Para alguns autores  mesmo a unidade nacio-
nal que est em jogo e que se fortalece com a
poltica de anticomunismo militante. A escalada
verbal e passional que vinha sendo alimentada
pelas tenses nascidas com a guerra fria atinge o
clmax entre 1950 e 1954, depois da exploso da
primeira bomba atmica sovitica, da vitria do
comunismo na China, em 1949, e do incio da
Guerra da Coreia, em 1950.

      ento que a espionagem das duas polcias
secretas (CIA americana e KG13 sovitica) se
intensifica, que o governo americano pressiona os
Estados a no votarem comunista, chantageando
com a perda do direito de utilizao dos recursos
afectos ao Plano Marshall e que, internamente, o
senador McCarthy afina a sua poltica de *caa s
bruxas+ (doc. 4).
     O raciocnio  muito simples. No fim da guerra
os Estados Unidos eram a nao mais poderosa
do Universo, agora, em 1950, tinham falhado por-
que no estavam  altura da situao. A impotn-
cia nacional no vinha de ataques exteriores, mas
da traio interna dos cidados mais bem colo-
cados na vida. No eram os pobres ou os estran-
geiros, eram altos funcionrios do prprio
Departamento de Estado, intelectuais, cientistas,
artistas, filiados, ou pelo menos simpatizantes, do
Partido Comunista que, no trabalho ou atravs das
suas obras, no serviam o seu pais e, por isso,
deviam ser perseguidos pela Comisso das
Actividades Anti-Americanas.
     As indstrias do espectculo, em especial o
cinema, so as mais atingidas (doc. 5).
Estimulam-se denncias e fazem-se listas negras
com nomes a abater ou, pela positiva, realizam-se
filmes de propaganda anticomunista.
     Os restos do progressismo do perodo de
Roosevelt desaparecem, mas, mais grave,  o clima
de suspeio nas conscincias.

     A represso ideolgica est na ordem do dia.
Na URSS e no Leste, os que se opem ao estali-
nismo so alvo de violenta perseguio, que passa
pela deportao para a Sibria e pela condena-
o a trabalhos forados ou  morte. Outra forma
de constrangimento ideolgico  o uso pelas super-
potncias de tcnicas de propaganda para provocar
a repulsa pelo outro bloco (doc. 6).








267

                    AONT
                        J

                                                  DocuMENTOS
AS FORAS POUTICAS DO PS-GUERRA
          O Socialismo

               Segundo uma expresso de Lon Blum na poca, o 
socialismo parece *o dono da hora+.
          Trata-se de um socialismo difuso, cujasfronteiras so mais 
largas que as dasformaes socia-
          listas propriamente ditas. Na poca, quase todo o mundo o 
invoca, pouco ou muito, sem uma
          noo clara do contedo do vocbulo: essencialmente, a 
esperana de conciliar a liberdade e
          a justia, a recusa de optar entre uma liberdade cujo 
corolrio seria a desigualdade e a injus-
          tia, e uma igualdade que reduza o alcance e a aco das 
liberdades tradicionais. [...             1
               Em toda a parte, o Partido Socialista, ou os partidos 
socialistas, quando divididos, esto
          associados ao poder H muito tempo que eles participavam j 
no governo em certos pases,
          nomeadamente na Escandinvia. Mas s na Gr-Bretanha o 
socialismo detm a maioria abso-
          luta; fora dali, ainda  demasiado fraco para governar s. 
Cumpre-lhe, portanto, ingressar em
          coligaes e contar com os seus parceiros, o Partido 
Comunista e a Democracia Crist.

          O Comunismo

               A partir de 194 1, o comunismo fez grandes progressos 
na clandestinidade. A parte que tomou
          na luta contra a ocupao atraiu-lhe simpatias. Pela sua 
resistncia, a Unio Sovitica con-
          quistou um prestgio que recai sobre os diferentes partidos 
comunistas. No Leste, o acesso ao
          poder  facilitado pela presena do exrcito vermelho; a 
Oeste pela sua participao nas

          organizaes de resistncia. Ofacto mais novo e, sem 
dvida, a explicao mais decisiva do
          seu xito em 1945,  a conjuno que parece ter-se 
realizado, aos olhos da opinio pblica,
          entre a ideia nacional e o comunismo, entre o sentimento 
patritico e o Partido Comunista. Esse
          partido, que, no perodo compreendido entre os anos de 1920 
e 1935, era antimilitarista,
          internacionalista, e vilipendiava o passado e o exrcito, 
esboou uma primeira reviravolta nos
          anos de 1935 e 1936, e uma segunda, mais acentuada, durante 
a guerra. Na medida em que se
          nacionaliza, o comunismo torna-se numa grandefiora 
poltica na maioria dos pases da
          Europa. [...          1

          A Democracia Crist

               A terceirafora, de sucesso mais imprevisto,  a 
democracia crist: o quefazia as vezes dela,
          antes de 1939, reduzia-se a pequenasformaes parlamentares 
sem grande pblico.
               Em 1945, porm, um concurso de factores favorveis 
aproveita  democracia crist. Ela
          geralmentefez botifigura na resistncia aos regimes 
autoritrios, resistiu aofascismo italiano,
          ao nacional-socialismo. Por outro lado, a derrocada da 
direita conservadora deixa uma
          massa de eleitores atarantados que, no podendo dar os seus 
votos ao socialismo nem ao comu-
          nismo, os daro, porfalta de coisa melhor, aos candidatos 
da democracia crist. O xito da
          democracia crist consagra tambm a ascenso de uma nova 
gerao de militantesformados
          nos movimentos de inspirao crist, aco catlica e 
sindicalismo cristo:  o caso na
          Blgica, na Frana e na Itlia. [...          1
               A democracia crist  um dado novo do sistema das 
foras polticas.  tambm um com-
          ponente essencial da nova Europa poltica.
               Exceptuando-se os trabalhistas na Gr-Bretanha, 
essasforas so geralmente insuficientes
          para constituir, sozinhas, uma maioria e um governo. Esto, 
portanto, condenadas a viverjun-
          tas e a governar de acordo umas com as outras.

                                                       R. Rmond, ob. 
cit.

268

                      w


                                        O ESTADO PROVIDENCIA

     O direito  sade e as polticas de sade que o concretizam so 
uma das dimenses bsicas

do chamado Estado Providncia ou Estado de bem-estar. [...           
        1 O conceito de Estado
Providncia, bem mais tardio, designa aforma poltica do Estado nos 
pases capitalistas avan-
ados num perodo em que o socialismo deixa de estar na agenda 
poltica do curto e mdio
prazo. Como  sabido, o Estado Providncia  o resultado de um 
compromisso, ou um certo
pacto teorizado no plano econmico por Keynes, entre o Estado, o 
capital e o trabalho, nos ter-
mos do qual os capitalistas renunciam a parte da sua autonomia e dos 
seus lucros (no curto
prazo, no no mdio prazo) e os trabalhadores a parte das suas 
reivindicaes (as que res-
peitam  subverso da sociedade capitalista e  sua substituio pela 
sociedade socialista).
Esta dupla renncia  gerida pelo Estado. O Estado transforma o 
excedente libertado, ou seja,
os recursos financeiros que lhe advm da tributao do capital 
privado e dos rendimentos sala-
riais, em capital social.
     O capital social assume duas formas fundamentais: o investimento 
social e o consumo
social, ainda que muitas das despesas do Estado tenham carcter 
hbrido. O investimento social
 o conjunto das despesas em bens e servios que aumentam a 
produtividade do trabalho e, por-
tanto, a rentabilidade do capital investido [...   1. O consumo 
social  o conjunto das despesas em
bens e servios, consumidos gratuitamente ou a preos subsidiados 
pelos trabalhadores, des-
pesas que, por isso, fazem baixar o custo da reproduo da 
mo-de-obra, aliviando assim a
presso sobre o capital para aumentos de salrios directos; inclui 
tambm as despesas com gru-
pos sociais no detentores de uma relao salarial e, portanto, fora 
da populao activa
efectiva, tais como crianas e jovens, domsticas, desempregados, 
velhos, reformados, produ-
tores autnomos, etc. So as despesas com o que designaremos por 
polticas sociais: educao,
habitao, sade, transportes urbanos, instalaes para tempos livres 
e transferncias de
pagamentos de vria ordem, como sejam bolsas de estudo, seguros, 
penses de reforma, etc.
     O capital social tem uma tripla funo. Em primeiro lugar, 
permite ao Estado criar as con-
dies gerais da acumulao (aumentos de produtividade, diminuio 
dos custos de reprodu-
o dafora de trabalho), ou seja, as condies que tornam rentvel o 
investimento, mas que
pela sua natureza ou volume no podem ser realizadas pelos 
capitalistas individuais [...           1. Em
segundo lugar, as despesas em capital social aumentam a procura 
interna de bens e servios,
quer atravs dos investimentos e consumos colectivos, quer atravs 
dos consumos individuais

adicionais [...  1. Em terceiro e ltimo lugar, o capital social 
permite ao Estado realizar a har-
monia social porque assenta na institucionalizao (isto , 
normalizao, desradicalizao) dos
conflitos entre o capital e o trabalho e porque proporciona uma 
redistribuio de rendimentos
que favorece as classes trabalhadoras (os salrios indirectos) e toda 
a restante populao
carenciada, em todos criando um interesse na manuteno do sistema de 
relaes polticas,
sociais e econmicas que torna possvel essa redistribuio. Enquanto 
gestor global deste sis-
tema, o Estado afirma-se portador do interesse geral, acima e alm 
dos interesses particulares
das diferentes classes sociais, e, com isso, legitima-se perante 
aquelas, as classes trabalhadoras [...  1.
     O Estado Providncia assenta, assim, na ideia de compatibilidade 
(e at complementaridade)
entre crescimento econmico e polticas sociais, entre acumulao e 
legitimidao, ou mais
amplamente, entre capitalismo e democracia. E, de facto, assistiu-se 
nos ltimos trinta anos em
todos os pases capitalistas avanados a uma ampliao generalizada 
das despesas sociais.

          Boaventura Sousa Santos, O Estado e a Sociedade em Portugal 
(1974-1988), Porto, 1990.





                                                            269

                   945-1 9


AS REFORMAS SOCIAIS E O * WELFARE STATE+

               As necessidades objectivas da reconstruo econmica 
so acompanhadas na maioria dos
          pases da Europa ocidental, esgotados pela guerra, de uma 
aspirao a reformas sociais.
               Esse desejo de reformas no  novo: a Gr-Bretanha 
durante a guerra (memorando de 1941
          sobre os abonos defamlia), *plano Beveridge+ de 1 de 
Dezembro de 1942), a Frana nofim
          da III Repblica (abonos defamlia e depois Cdigo da 
Famlia) e no regime de Vichy (criao
          da reforma dos trabalhadores idosos, dos subsdios de 
salrio nico, afirmao do direito de
          todo o trabalhador a um salrio mnimo vital, redaco de 
um estatuto do arrendamento
          agrcola). Aumentou no momento da Libertao, por toda a 
parte onde os meios dirigentes sen-
          tiram a necessidade de manter uma coeso nacional que se 
exprimira sob os bombardeamen-

          tos e no esforo de guerra (caso britnico), ou de 
*recompensar+ uma classe operria que toma-
          ra o *bom+ partido, o da resistncia ao ocupante (casos 
belga e francs).
               As primeiras medidas foram tomadas na Blgica. Tinham 
sido preparadas, no tempo da ocu-
          pao alem, por um projecto de *acordo de solidariedade 
nacional+, tambm designado
          como *pacto social+, concludo pelos representantes das 
organizaes patronais e operrias,
          e pos estudos preparados por iniciativa do governo belga de 
Londres. Estes projectos foram
          retomados, pouco tempo depois da Libertao [...           
         1.
               Tal como na Blgica, [em Frana] as reformas sociais 
tinham sido preparadas na clan-
          destinidade (figuravam no programa de aco do CNR, que 
exigia *um plano completo de segu-
          rana social com vista a assegurar a todos os cidados 
meios de susbsistncia em todos os casos
          em que no podem obt-los pelo trabalho, com uma gesto 
pertencente aos representantes dos
          interessados e do Estado+), e em Argel pelo Comit Francs 
de Libertao Nacional.
                    As realizaes (mais completas, na verdade, do 
que na Blgica)Joram menos rpidas.
               O sistema de segurana social [...                1 
estabelecido estava reservado aos assalariados, mas
          cobria todos os riscos, com excluso do desemprego. O seu 
financiamento era assegurado
          segundo o princpio de uma dupla quotizao, salarial e 
patronal, representando esta lt                       '          ima
          cerca do triplo da primeira sem qualquer contribuio do 
Estado. Era proclamado o principio
          da unidade de gesto do *regime geral+, mas as atribuies 
de gesto eram confiadas, no a
          administraes do Estado, mas a um conjunto de conselhos, 
incluindo essencialmente repre-
          sentantes dos segurados e dos patres eleitos [...         
        1.
               A este e@foro de proteco dos trabalhadores veio 
juntar-se, como fora exigido pelo CNR,
          uma tentativa de representao destes no local de trabalho 
[...                   1.
               Na Gr-Bretanha, foi o acesso ao poder do Partido 
Trabalhista que deu o sinal do movi-
          mento reformista. [...             1 O sistema 
estabelecido, muito complicado, pode resumir-se deste modo:
          justape um sistema de seguros sociais e um servio 
original de sade pblica, que se podem
          considerar os herdeiros, muito emancipados, do National 
Health Insurance Act de 1911.
               O sistema de seguros sociais , ao contrrio do 
sistema francs, gerido pelo Estado. [...                    1 as
          pessoas protegidas pelo sistema so todos os adultos; os 
riscos cobertos so a doena, os aci-

          dentes de trabalho, o desemprego, a maternidade, a velhice, 
a viuvez. Uma primeira quotizao
          cobre todos os riscos; no  proporcional ao montante do 
salrio. A contribuio operria e a
          contribuio patronal correspondente representam apenas 20% 
dos recursos; o excedente
          est a cargo do Estado. Alm disso, este paga abonos de 
famlia s famlias que tm pelos menos
          doisfilhos com menos de 15 anos.
               O Servio Nacional de Sade (National Health Servce), 
criado em Fevereiro de 1946 para
          entrar em vigor em 1948, assenta numa funcionarizao quase 
total dos servios mdicos. Com
          efeito, para se instalar, um mdico tem de obter 
autorizao do Servio e comprometer-se a tra-
          tar, em contrapartida de um salrio, um certo nmero de 
pessoas [...                     1. O Servio diz-se com-
          prehensve, no sentido de ser aberto a qualquer pessoa 
residente na Gr-Bretanha (incluindo,

270

portanto, os estrangeiros). E totalmente gratuito      e no  
exigida qualquer quotizao.
Assim, o antigo Social Service State, reservado s categorias 
desfavorecidas, alargava-se,

por extenso, a todas as camadas da populao e a todos os riscos 
[... 1.
     Esta reforma, clebre, foi discutida apaixonadamente. Primeiro, 
no plano dos princpios. O
igualitarismo em que se inspira leva a que as pessoas que precisam 
verdadeiramente de aux-
lio no recebam mais do que as abastadas, e que estas ultimas recebam 
prestaes de que no
tm verdadeiramente necessidade.
     Mas sobretudo no plano prtico. O promotor da reforma, A. Bevan, 
julgara que os encar-
gos que ela iria impor ao Estado no ultrapassariam 140 milhes de 
libras por ano. No pri-
meiro ano atingiram 280 milhes; subindo de ano para ano, iriam 
ultrapassar 350 milhes em
1950.
     Finalmente, o futuro iria mostrar que a funcionarizao da 
medicina provocava uma
escassez de mdicos, por virtude da pequenez das remuneraes, do 
peso dos importos, do
bloqueio da clientela e da partida para o estrangeiro dos mais 
empreendedores, primeira
forma de um brain drain que iria generalizar-se.

                              Georges Dupeux, in P. Lon, vol. v, 
tomo ii.








               O RESPONSAVEL PELA *CAA AS BRUXAS+








                    isso








               J.






          McCartIly, IIuIJIas('s'@o do Senado, tietilt-aliza com as 
mos os dois inicro ,tones
                                enquanto escuta o seu adjunto


                                                            271
                                                                 Vz"


          SUSPEITA EM HOLL~00D                 O POLVO AMERICANO 
VISTO PELO
                         PARTIDO COMUNISTA FRANCES

                                        'V  -7771







               A           d









               o   ,alia

                     116






             TRABALHOS PRATICOS



     1.   Indique a designao usual da nova concepo de democracia 
que toma a seu
          cargo os cidados *desde o bero at ao tmulo+.

     2.   Explique em que consiste uma *econornia de mercado 
organizada+.

                    ,defi-

                    Os povos livres que procuram preservar a sua 
independncia e suas instituies
               democrticas e as liberdades humanas contra as resses 
totalitrias interiores
               p
               ou exteriores recebero com prioridade o auxlio 
americano.
                                                  Dean Acheson, 1947.

     1. Comente livremente as palavras de um alto funcionrio 
norte-americano (doc. i).


     Os conflitos armados num contexto de guerra fria internacional.

272

O BIPOLARISMO EM QUESTO

                 (1955-1973)

                   Aclime








                   -- 4@k






          De Galille, Ketinedv, KIii-lichichev, Adenatier

                     A F


A COEXISTENCIA PACFICA E O         ALARGAMENTO DAS TENSES



1.   O APAZIGUAMENTO ENTRE MOSCOVO E WASHINGTON OU A
     CONTENAO DE UM CONFLITO NUCLEAR

     A    questo do Suez
     A    crise de Cuba
     A    Guerra do Vietrame

2.   O SURTO DE CONTESTAO: A RECUSA DOS REFERENTES
     IDEOLGICOS E CULTURAIS IMPOSTOS PELAS DUAS GRANDES
     POTENCIAS

      O idealismo revolucionrio
      A revoluo juvenil








                                                              A
                     ,5

                      4








150 000 hippies nuinfiestival de pop music, em 1969, na ilha de 
Wight,
         que conta 98 000 habitantes

1.   O APAZIGUAMENTO ENTRE MOSCOVO E
     WASHINGTON OU A CONTENO DE UM
     CONFLITO NUCLEAR

     Em 1953, na altura da morte de Estaline, o
Mundo encontra-se na rnais profunda tenso. A
guerra fria atinge o seu ponto culminante e, at
ao fim dos anos 60, o dilogo entre a rea socia-
lista e a rea capitalista coloca-se ainda no qua-

dro diplomtico dela herdado. Cada superpo-
tncia pretende manter a tutela sobre a sua rea
de influncia e a outra respeita essa posio. Os
governos ocidentais no encorajam nem participam
nos acontecimentos de Berlim, de Budapeste, de
Praga e da Polnia, apesar de a respectiva opinio
pblica ter uma atitude condenatria. Do mesmo
modo, os Soviticos no intervm nos assuntos
dos pases do Ocidente europeu, apesar de conti-
nuarem a exercer neles a presso ideolgica pos-
svel e de optarem por meios extremos para evitar
qualquer *contaminao+ capitalista.
     Neste quadro, o episdio mais marcante, e na
sequncia da barreira erguida ao longo da Cortina de
Ferro, foi, em 1961, a materializaro dessa fronteira
poltica com a construo do *muro da vergonha+
em Berlim. (doe. 1). Motivo de escndalo por mais
de um quarto de sculo, a sua construo deixou o
mundo estupefacto pelo inesperado da medida.
     Com efeito, aps o desaparecimento do ditador
sovitico, e durante trs anos, a disputa pela chefia
suprema da URSS trava-se entre os seus herdeiros
polticos. Vitorioso em 1957, Khruchtchev ini-
cia a desestalinizao, reformas internas e um
perodo mais distendido nas relaes com o exte-
rior, se bem que a diviso entre as duas esferas
persista e que no se encontre soluo para o pro-
blema alemo (doe. 2).
     Pacto de Varsvia, de um lado, NATO, do outro,
no impedem todo o dilogo entre os dois blocos,
tanto mais que no plano tcnico-militar EUA e
URSS se aproximam cada vez mais.  um marcar
pontos conducente ao empate final: capacidades
nucleares pendendo para o lado sovitico (doe.
3), avano espacial do mesmo, mas recuperao do
atraso norte-americano com o lanamento do seu
primeiro satlite em 1958 (doe. 4), antecedendo a
conquista da Lua em 1969 (doe. 5), e com a sua
inegvel superioridade econmica (doe. 6).
     Perante este impasse e uma vez que nenhum
quer ceder nos seus domnios e direitos e que ambos

276

se temem no terreno militar, *equilbrio do terror+
(doe. 7), uma distenso  necessria. Chamou-se a
este degelo *coexistncia pacfica+. O primeiro
a formul-la foi Khruchtchev (doe. 8), aquando da
visita aos Estados Unidos em 1959 (doe. 9), tendo
sido posteriormente retomada por Kennedy e com-
pletada em 1973 com a visita de Brejnev a Nixon
na Casa Branca (does. 10-A e B). A conferncia de
Helsnquia em 1975  o ltimo passo.
     No h uma efectiva vontade de colaborao
das duas superpotncias mas uma dosagem cui-
dadosa do poder de cada uma para evitar uma
eventual guerra nuclear desastrosa para ambos
os contendores. Sob o ponto de vista ideolgico, os

limites da coexistncia pacfica so evidentes.
     No significando *coexistncia ideolgicas, os
dois blocos mantm-se activos: os Soviticos que-
rem continuar a alimentar a luta de classes e a
atrair proletrios e oprimidos do mundo inteiro; os
Americanos pretendem seduzir pelos atractivos da
sociedade de consumo toda a populao socialista.
     Sob o ponto de vista poltico-diplomtico, cri-
ses graves pontuam o clima de distenso: a questo
do Suez. a crise de Cuba, a Guerra do Vietriame.

     A questo do Suez

     A crise internacional que se desencadeo@i em
1956 no canal do Suez tem de ser integrada no
movimento geral de descolonizao que vere-
mos a seguir. Com efeito, os seus intervenientes,
Inglaterra, Frana, Israel e Egipto, foram forte-
mente abalados por todo esse processo.
     A Inglaterra, porque desde 1800 afirmava a
sua autoridade naquela rea, que considerava mais
ou menos como reserva britnica, e porque, desde
1882, ocupara o Egipto sobretudo para garantir
a segurana do canal, Apesar de em 1922 ter
reconhecido a sua independncia, manteve a um
grande poder efectivo e transformou a zona,
durante o perodo da Guerra, na base das ope-
raes que desenvolveu no Deserto Ocidental e no
Mediterrneo Oriental.
     A Frana, porque para abater a revolta arge-
lina precisava de irradicar a origem da sua fora,
supostamente sediada no Egipto. A Rdio Cairo,
*a Voz dos Arabes+, chegara a difundir que era
ela que chefiava e dirigia as operaes na
Arglia e o coronel Nasser reivindicava a lide-
rana do nascente pan-arabismo*.

     Israel, porque, independente desde 1948, ocu-
pava na rea uma posio desfavorvel, mais
periclitante ainda se se confirmasse o apoio sovi-
tico ao Egipto.                  1
     Finalmente, o Egipto, que, depois da derrota
dos Estados rabes e da dispora* dos Palestima-
nos (aps a primeira guerra israelo-rabe - 1948-
1949), aparecera como o campeo da causa rabe
na libertao do domnio britnico. Em 1952 um
movimento de coronis afastara o rei Faruk, pro-
clamara a repblica e, em 1954, j conduzido pelo
coronel Nasser, conseguira o afastamento das
ltimas tropas inglesas.
     Obtida a efectiva autodeterminao* do povo
egpcio, para o seu desenvolvimento econmico
era importante a dispendiosssima construo
da barragem de Assuo. Financiada inicialmente
pela Inglaterra, uma vez que os Estados Unidos,
ressentidos com a neutralidade egpcia, recusaram
participar, as relaes entre os dois pases manti-
nham-se tensas, particularmente quando o Egipto

comeou a apetrechar-se com armas soviticas.
Em meados de 1956, o Ocidente dessolidariza-se
da obra e, pouco depois, Nasser anuncia, com
grande prejuzo para as potncias scias, a nacio-
nalizao da Companhia do Canal do Suez (doc.
11). Ao mesmo tempo (26 de Julho) quer tambm
interditar o acesso do canal e do golfo de Aqaba
aos navios israelitas.
     Numa guerra relmpago, no Outono de 1956,
apesar da impreparao das foras areas, navais e
terrestres para actuar, iniciam-se as operaes
(doc.12). Tropas anglo-francesas, com o apoio de
Israel, tomam o controle do Sinai e da maior parte
do canal do Suez, enquanto o descontentamento
internacional se comea a fazer sentir. Temendo a
ameaa de a URSS intervir com os seus foguetes
atmicos, como protectora dos pases rabes, e as
presses monetrias dos EUA sobre a libra, as
Naes Unidas condenam os dois pases que se
vem forados a desocupar a sua linha da frente
em Dezembro (doc. 13), ao mesmo tempo que os
Israelitas evacuam o Sinai e capacetes-azuis se
entrepem entre estes e os Egpcios.
     Esta aventura humilhante serviu apenas para
mostrar a fraqueza da Frana e da Inglaterra,
pases relegados agora para a categoria de potn-
cias mdias, sem influncia numa zona que outro-
ra haviam dominado, apesar do estatuto de grandes
potncias de que gozavam como membros perma-

nentes das Naes Unidas e membros europeus
mais importantes da NATO.

              - A crise de Cuba

     A guerra fria ameaou degenerar num encontro
frontal entre os Estados Unidos e a Unio
Sovitica em 1962. Fidel Castro (que entre 1958
e 1959 tinha libertado Cuba de Fulgncio Batista,
ditador reaccionrio, corrupto e desptico, pr-
americano e instaurado na ilha um regime comu-
nista) permitiu aos Soviticos instalar no seu
pas msseis de longo alcance, demasiadamente
prximos do territrio americano.
     Acompanhado de Che Guevara* e outros
revolucionrios, iniciara um programa de refor-
mas econmico-sociais extremamente gravosas
para os interesses americanos na ilha, como foi a
nacionalizao das terras e das indstrias. Em
represlia, os Estados Unidos proclamaram o
embargo ao acar cubano.
     Este projecto de asfixia econmica teve como
efeito uma maior aproximao com os seus par-
ceiros ideolgicos, os marxistas-leninistas de
Moscovo. Perante o perigo de contgio revolucio-
nrio (doc. 14), os Estados Unidos de Kennedy,
em Abril de 1961, apoiam uma tentativa de
desembarque na baa dos Porcos de cubanos

anticastristas exilados na Florida. A expedio
falha estrondosamente mas induz Fidel Castro a
consentir na instalao de bases de msseis sovi-
ticos em solo cubano e a entrar para o Comecon.
     A resposta de Kennedy (doc. 15)  declarar o
bloqueio em volta de Cuba, para impedir o aces-
so dos navios soviticos, e exigir o desmantela-
mento das bases de msseis e das rampas de lan-
amento, destinadas a manter sob constante amea-
a o territrio dos Estados Unidos (doc. 16).
     O perigo de uma nova guerra parece vivissimo,
mas Khruchtchev  obrigado a recuar. Aceita a
mediao da ONU num acordo substancialmente
favorvel aos EUA, que, no entanto, so constran-
gidos ao desmantelamento dos msseis Jupiter que

possuem na Turquia. As relaes entre as duas                     ir
superpotncias parecem melhorar.


           A Guerra do Vietriarrie

     J estudmos como a Frana, que no quer per-
der a sua ii-nagem de grande potncia, se envolveu,

                                        277

@_@'.10LA&M&1M&EST495i@;973@

entre 1946 e 1954, num conflito na Indochina de
onde saiu derrotada. As negociaes de Genebra
terminam com a diviso da Indochina em duas
partes, ao longo do paralelo 17. Sancionam ao
mesmo tempo a independncia de uma colnia, a
perda da influncia francesa no Sudeste Asitico e
a ascenso das novas dominaes americana, chi-
nesa e sov ltica. Deste envolvimento americano
resultou, entre 1960-1975, a segunda guerra da
Indochina, que ps frente a frente, de um lado, o
exrcito americano e os seus aliados sul-vietna-
mitas e, do outro, os revolucionrios do
Vietcong* e os seus inspiradores norte-vietna-
mitas (doe. 17).
     A Guerra do Vietrame estende-se ao Laos e
ao Cambodja e  importante menos por razes
econmicas do que pela sua posio estratgica
de porta de toda a Asia de Sudeste. De acordo
com uma teoria muito difundida na poca, a teoria
dos domins, e que j servira para justificar outros
afrontamentos internacionais, quando um pas
(como um domin colocado verticalmente que cal
ao mais pequeno embate) passa para o outro bloco,
todos os outros membros se arriscam  mesma
sorte. Para o evitar h que intervir militarmente
para impedir o primeiro pas de cair.  para
conter a presso comunista, com o efeito de
arrastamento que o facto teria, que os Estados

Unidos se comprometem.

     Primeiro foi Kennedy, em 1961, a enviar con-
selheiros militares para instruo dos exrcitos
sul-vietnamitas; depois Johnson, que envia
500 000 homens e inmero material blico antes
de, em 1965, decidir bombardear o Vietrame do
Norte para o impedir de ajudar o Vietcong.

     Contra a expectativa, o mais forte exrcito do
Mundo  derrotado por tropas com tecnologia
muito inferior (does. 18-A e B). Incapaz de suster
a oposio da opinio pblica americana, inicial-
mente favorvel  interveno mas orientada
depois num sentido de contestao, em especial
estudantil e juvenil, Nixon compromete-se a reti-
rar o pas de uma guerra tornada muito impopu-
lar (doe. 19).
     Assinados os acordos de Paris em 1973, as
tropas norte-americanas partem enquanto o
Vietnarne do Sul, incapaz de resistir  fora con-
junta do Vietcong e do Vietrame do Norte, se
esboroa. Saigo capitula e o Vietnaine reunifi-
ca-se, em 1975, sob a tutela comunista.

278

                         . . . . . 
................................................. 
....................... . ..... .....................

2.   O SURTO DE CONTESTAO: A RECUSA
     DOS REFERENTES IDEOLGICOS
     E CULTURAIS IMPOSTOS PELAS
     DUAS GRANDES POTENCIAS

     Nas democracias europias, a passagem em
muito poucos anos da penria gerada pela guerra
a uma abundncia sem precedentes mod'f' i ica
muito rapidamente os problemas e as relaes
sociais, enquanto o ajustamento das anlises e dos
programas polticos e sindicais no se fazem to
depressa. De forma espectacular e duradoura,
assiste-se, entre 1945 e 1973, ao imprevisto desen-
volvimento dos pases ocidentais.  a hora dos
*milagres+ econmicas e da generalizao da
sociedade de consumo.
     Para os pases de antiga tradio democrtica
h, em grande parte deles, uma completa alterao
do espao poltico, com o abandono - ou ainda
s a luta armada - dos imprios coloniais e o
desenvolvimento de surtos de contestao interna.
Igual alterao dos quadros de referncia men-
tal e cultural, a partir do claro aumento do papel
dos media como quarto poder. Sobretudo com a
generalizao da rdio e da televiso pode falar-se
com propriedade de *Estado-espectculo+ e de
*poltica-espectculo+ para descrever a maneira

como tudo se torna objecto de debate para os
media. Alterao ainda da conjuntura econmi-
ca que permitiu uma modernizao acelerada dos
Estados e das sociedades no quadro de um cresci-
mento contnuo e regular. Crescimento mais evi-
dente ainda nas reas onde a ajuda internacional
foi mais forte e onde as destruies de guerra obri-
garam a comear de mais fundo.
     Quantificando: em 30 anos, o produto mun-
dial triplica e o crescimento econmico, que
parece duradouro,  em mdia de cerca de 5% ao
ano. O PIB - produto interno bruto (doe. 20-A)
e a produtividade (doe. 20-11) ultrapassam os
melhores anos do sculo XIX; as crises cclicas
desaparecem. O progresso tcnico difunde-se
ainda mais depressa do que no sculo passado
(doe. 21) e a mundializao das trocas atinge
nveis sem precedentes graas  renovao dos
meios de transporte e aos acordos concludos.
Consequncia desta imensa dinmica  a especta-
cular melhoria do nvel de vida e do conforto do
mundo ocidental, depois das restries da guerra e
da reconstruo.

entre 1946 e 1954, num conflito na Indochina de
onde saiu derrotada. As negociaes de Genebra
terminam com a diviso da Indochina em duas
partes, ao longo do paralelo 17. Sancionam ao
mesmo tempo a independncia de uma colnia, a
perda da influncia francesa no Sudeste Asitico e
a ascenso das novas dominaes americana, chi-
nesa e sovitica. Deste envolvimento americano
resultou, entre 1960-1975, a segunda guerra da
Indochina, que ps frente a frente, de um lado, o
exrcito americano e os seus aliados sul-vietna-
mitas e, do outro, os revolucionrios do
Vietcong* e os seus inspiradores norte-vietna-
mitas (doc. 17).
     A Guerra do Vietrame estende-se ao Laos e
ao Cambodja e  importante menos por razes
econmicas do que pela sua posio estratgica
de porta de toda a Asia de Sudeste. De acordo
com uma teoria muito difundida na poca, a teoria
dos domins, e que j servira para justificar outros
afrontamentos internacionais, quando um pas
(como um domin colocado verticalmente que cai
ao mais pequeno embate) passa para o outro bloco,
todos os outros membros se arriscam  mesma
sorte. Para o evitar h que intervir militarmente
para impedir o primeiro pas de cair.  para
conter a presso comunista, com o efeito de
arrastamento que o facto teria, que os Estados
Unidos se comprometem.
     Primeiro foi Kennedy, em 1961, a enviar con-
selheiros militares para instruo dos exrcitos
sul-vietramitas; depois Johnson, que envia
500 000 homens e inmero material blico antes
de, em 1965, decidir bombardear o Vietrame do

Norte para o impedir de ajudar o Vietcong-
     Contra a expectativa, o mais forte exrcito do
Mundo  derrotado por tropas com tecnologia
muito inferior (docs. 18-A e B). Incapaz de suster
a oposio da opinio pblica americana, inicial-
mente favorvel  interveno mas orientada
depois num sentido de contestao, em especial
estudantil e juvenil, Nixon compromete-se a reti-
rar o pas de uma guerra tornada muito impopu-
lar (doc. 19).
     Assinados os acordos de Paris em 1973, as
tropas norte-americanas partem enquanto o
Vietriame do Sul, incapaz de resistir  fora con-
junta do Vietcong e do Vietrame do Norte, se
esboroa. Saigo capitula e o Vietname reunifi-
ca-se, em 1975, sob a tutela comunista.

278

2.   O SURTO DE CONTESTAO: A RECUSA
     DOS REFERENTES IDEOLGICOS
     E CULTURAIS IMPOSTOS PELAS
     DUAS GRANDES POTENCIAS

     Nas democracias europias, a passagem em
muito poucos anos da penria gerada pela guerra
a uma abundncia sem precedentes modifica
muito rapidamente os problemas e as relaes
sociais, enquanto o ajustamento das anlises e dos
programas polticos e sindicais no se fazem to
depressa. De forma espectacular e duradoura,
assiste-se, entre 1945 e 1973, ao imprevisto desen-
volvimento dos pases ocidentais.  a hora dos
*milagres+ econmicas e da generalizao da
sociedade de consumo.
     Para os pases de antiga tradio democrtica
h, em grande parte deles, uma completa alterao
do espao poltico, com o abandono - ou ainda
s a luta armada - dos imprios coloniais e o
desenvolvimento de surtos de contestao interna.
Igual alterao dos quadros de referncia men-
tal e cultural, a partir do claro aumento do papel
dos media como quarto poder. Sobretudo com a
generalizao da rdio e da televiso pode falar-se
com propriedade de *Estado-espectculo+ e de
*poltica-espectculo+ para descrever a maneira
como tudo se torna objecto de debate para os
media. Alterao ainda da conjuntura econmi-
ca que permitiu uma modernizao acelerada dos
Estados e das sociedades no quadro de um cresci-
mento contnuo e regular. Crescimento mais evi-
dente ainda nas reas onde a ajuda internacional
foi mais forte e onde as destruies de guerra obri-
garam a comear de mais fundo.
     Quantificando: em 30 anos, o produto mun-
dial triplica e o crescimento econmico, que
parece duradouro,  em mdia de cerca de 5 % ao
ano. O PIB - produto interno bruto (doc. 20-A)

e a produtividade (doc. 20-B) ultrapassam os
melhores anos do sculo XIX; as crises cclicas
desaparecem. O progresso tcnico difunde-se
ainda mais depressa do que no sculo passado
(doc. 21) e a mundializao das trocas atinge
nveis sem precedentes graas  renovao dos
meios de transporte e aos acordos concludos.
Consequncia desta imensa dinmica  a especta-
cular melhoria do nvel de vida e do conforto do
mundo ocidental, depois das restries da guerra e
da reconstruo.

     Enunciando: a produtividade acrescida per~
mite um aumento substancial dos salrios e dos
lucros - em 10 anos, duplicao do poder mdio
de compra na Europa Ocidental -,o desenvolvi-
mento assegura um quase pleno emprego e o
recurso ao crdito generaliza-se. H uma euforia
consumiste, estimulada pela publicidade, que
transforma os hbitos de vida nomeadamente no
campo alimentar (doc. 22), mas, em especial, inte-
ressada na aquisio de bens de equipamento fami-
liar, como sejam electrodomsticos, automvel,
aparelhos de alta fidelidade, televiso, telefone
(doc. 23). Mesmo o acesso  propriedade indivi-
dual  facilitado a camadas cada vez mais largas.
     A procura de servios aumenta com a desco-
berta do turismo de massa (doc. 24), fenmeno
social novo, facilitado pela conquista das frias
pagas, que favorece em especial a classe mdia,
constituda essencialmente por quadros e assalaria-
dos. No entanto, se esta  o modelo de referncia
para a classe operria que perde a especificidade
do seu modo de vida, persistem desnveis de for-
tuna e de rendimentos que atingem com maior
gravidade alguns grupos marginais, como os emi-
grantes, as populaes de cor, os deficientes, os
idosos. Apesar disso, quer as previdncias gene-
ralizadas pelo Estado-providncia, quer o recurso
s prestaes sociais, sustentam o poder de compra
dos mais desfavorecidos.

     No Leste, a evoluo foi diferente da descrita.
A esperana depositada nas promessas de Nikita
Khruchtchev no se concretizara. Os anos 60
assistiram ao afrouxar do desenvolvimento eco-
nmico, ao endurecer do domnio sovitico e ao
cavar mais fundo do fosso que separava o nvel de
vida das populaes dos dois blocos. A sua subs-
tituio por Brejnev veio piorar a situao dos
que aspiravam a uma liberalizaro do regime e a
uma maior autonomia nacional (doc. 25).

     A desiluso social e econmica vai provocar
movimentos de resistncia, de que o mais forte,
desencadeado na Checoslovquia, em 1968, ficou
conhecido pelo nome de *Primavera de Praga+ (doc.
26). Pretendia, em resposta ao *regelo cultural+ de

Brejnev, construir um *socialismo de rosto huma-
no+ que durou apenas o tempo de uma estao. Em
Agosto, os tanques dos pases membros do Pacto de
Varsvia,  excepo da Rornnia, entram em Praga
acabando com qualquer veleidade de liberalizaro.

10 DAS TI-,     JES

     Esta agitao dos pases do Leste (depois da
Checoslovquia  a vez da Jugoslvia autogestio-
nria e, em 1970, da Polnia) acompanha igual
tenso no Ocidente. Aqui, nos finais dos anos
60, a juventude contesta, mais ou menos violen-
tamente, o modelo social da abundncia que
valorizava exclusivamente as satisfaes materiais
(doc. 27).

- O idealismo revolucionrio

     A prosperidade no faz desaparecer a luta
de classes, expressa agora na procura, atravs
quase sempre de grupos organizados de patres
ou de sindicatos operrios, de cada grupo aumentar
a sua parte na distribuio do rendimento global.
Tambm no faz desaparecer a pobreza e as pol-
ticas de assistncia s obtiveram resultados limi-
tados. Nem mesmo consegue manter, frente ao
individualismo, as solidariedades tradicionais
ou compatibilizar o conforto com formas imagi-
nativas de conviabilidade.
     Perante a desiluso, os movimentos contesta-
trios, um pouco por toda a parte, recusam os valo-
res da sociedade industrial, promovem um retor-
no  natureza e ao despojamento material, pro-
curam a felicidade no amor, na paz, na exaltaro da
vida em comunidade*, nas formas de comunicao
mais espontneas como  a msica (doc. 28).
     Um grupo particular da sociedade, a mulher,
tende a aproveitar a contestao das formas tra-
dicionais. Cada vez mais reivindica a igualdade de
certos direitos na poltica, no trabalho e na fam-
lia.  um processo lento. Em certos aspectos, como
o do direito de voto, a emancipao da tutela mari-
tal e o acesso ao divrcio (doc. 29) est quase con-
cludo no perodo que nos ocupa, noutros, ainda em
curso, como na legalizao do aborto (doc. 30) e na
entrada no mundo de trabalho (doc. 31).

     Tambm em curso, a valorizao do culto da
natureza, mais claramente expresso no movi-
mento ecologista (doc. 32), chama a ateno para
a renovao urbana, a desarborizao selvagem, o
respeito pelo ambiente, os riscos do progresso.

     A todas estas questes, as Igrejas, e particular-
mente a catlica, procuram apresentar uma pro-
posta. Para isso, ela prpria comea por um rea-
juste interno, que culminou na reunio, entre 1962-

1965, do Conclio Vaticano 11 (doc. 33). Da ini-
ciativa do papa Joo XX111 (doc. 34), termina

279

           1[;W 1 O (1955 1973--

no pontificado de Paulo VI, introduzindo altera-
es no campo disciplinar, no dilogo com as
outras religies, na abertura ao mundo moderno,
no papel dos leigos e da hierarquia, mas sem con-
seguir estancar significativamente a vaga de des-
cristianizao e de laicismo da sociedade.

     Mas todas estas tenses se exprimem de
forma mais consertada no chamado *fenmeno
esquerdistas. O esquerdismo, opondo-se aos
modelos tradicionais da esquerda, bebidos no mar-
xismo ortodoxo, contesta globalmente a socie-
dade de consumo e todos os seus conformismos
- a cultura e a universidade burguesas - e rejei-
ta a actividade revolucionria que, no sculo
XX, incluindo a russa de 1917, tem sido apelida-
da de socialista.
     Na Europa, o ponto mais alto de toda esta con-
testao atingiu-se em Frana, em Maio de 1968
(doc. 35).
     Como muitos outros movimentos do mesmo
perodo, comeou de forma muito modesta com
uma contestao estudantil na Universidade de
Nanterre. Em poucos dias, propaga-se 
Sorbonne e aos liceus de Paris; depois, s aca-
demias de provncia e, a partir da represso poli-
cial, a todos os meios, nomeadamente os oper-
rios, que protestam contra a represso e iniciam
um movimento de greves sem precedentes que
paralisa o pas.





O MURO
DAVERGONHA







A. Das fugas
(sem bagagem)
atravs dos rombos
na rede de arame
colocada
provisoriamente
                         Bulir!



280

     A revoluo juvenil

     A partir dos anos 60, os jovens desempenham
um papel cada vez mais importante devido ao
prprio boom natalista do ps-guerra e, principal-
mente, pela exploso universitria (doc. 36). A
*revolta dos jovens+ no  um fenmeno marginal
revelador do habitual conflito de geraes, mas
sim uma contestao com implicaes gerais.
     Desde 1964 que brota nas universidades uma
autntica subverso da ordem estabelecido (doc.
37), que inclui a recusa de valores como o da tica
do trabalho, a crtica da hierarquia e da desigual-
dade social, a defesa da revoluo sexual, do hedo-
nismo e do irracional ou, ento, a negao de uma
nova sociedade construda segundo os preceitos
marxistas-leninistas.
     A prosperidade econmica f-los pensar que
se podem entregar a todas as inovaes sociais.
Na realidade, a sua dependncia familiar, devido
a uma escolaridade prolongada e o atingir precoce
da maturidade biolgica e sexual, mas, devido ao
alongamento da vida humana, a sua dificuldade
de iniciar a vida activa e de mobilidade ascenden-
te, leva-os a reaes de impacincia que se mani-
festam, por exemplo, em Frana, nos aconteci-
mentos de Maio de 68, ou nos EUA, nas pertur-
baes contra a Guerra do Vietname ou na luta
pelos direitos cvicos dos negros.



                         DOCUME


     ",4,


     41








                         M

                                        ICA E

                    A CO         CIA PACIF



               B.   Ao muro de beto com pontas de ferro afiadas








ro,
                                                               Ao








                         C. As janelas cegas
                         para Berlim Ocidental








          n,5:








                                                                 M,

     D. As fugas pelas casas fronteiras
     antes de serem entaipadas





                                                            281

CRISES E DISTENSES

     O mundo parece ingressar           nos anos de 1953
e 1954, numafase de distenso. Os novos dirigentes
soviticos, que ainda no se distinguem bem na poca,

Bulganin e Khruchtchev, parecem desejosos de correr
mundo e reatar relaes. Praticam uma diplomacia
activamente itinerante. Em 1955, reatam relaes com
Tito. Em 1955 tambm se leva a bom termo o acordo
sobre a Austria, um dos raros xitos do entendimento
entre os dois blocos. Ainda em 1955, em Genebra, o
encontro de cpula: pela primeira vez, dialogam
Eisenhower pelos Estados Unidos, Bulganin e
Khruchtchev pela Unio Sovitica e os representantes
da Frana e da Gr-Bretanha. Nada de concreto sai
da conferncia, mas a sua realizao tem um alcance
simblico; no se teria podido pensar numa coisa
dessas enquanto Staline,fosse vivo. Estabelece-se um
novo estado das relaes; j no  exactamente a
guerra fria, ainda que as suas,f@)rmas subsistam.  o
que denomina a *coexistncia Pacfica+; os dois
Grandes resignam-se a viverjuntos,j que no podem
esperar suprimir-se; alis, to-pouco podem esperar
persuadir o outro a desposar as suas ideias. As relaes
internacionais conhecero, desde ento, uma alter-
nncia de crises e distenses em que prepondera a
vontade de ambos de no levar as coisas at ao fim.
     Os principais episdios dessa histria, desde a
Conferncia de Genebra em 1955, so, primeiro, o
revs da conferncia de cpula que deveria realizar-se
em Paris, em Maio de 1960: Khruchtchev vale-se do
pretexto de um avio espio, que se aventurara no
espao areo sovitico, para fazer malograr a confe-
rncia. Dois anos mais tarde, a crise de Cuba marca
o paroxismo da defrontaro; pouqussimas vezes os
dois adversrios chegaram to perto da ruptura.
Khruchtchev assumira o grave risco de instalar em
Cuba foguetes soviticos. O ultimato dos Estados
Unidos, o recuo da Unio Sovitica, a prova de que
ambos saram amigavelmente torna-os ainda mais
solidrios do que no passado. No Vero de 1963,
assi.na-se em Moscovo o acordo para prfim s expe-
rincias nucleares na terra, nos ares e nos mares,
que tem um interesse imediato e sobretudo um alcan-
ce simblico:  o sinal de que os dois Grandes, deten-
tores do raio atmico, no o usaro um contra o
outro e se consideram conjuntamente interessados
na manuteno da paz.

                                   R.   Rmond, ob. cit.

282

CAPACIDADES NUCLEARES




     SS-7 Sadd[e
          8

     megatonelade
       10 950 km

                     as
                      m


     SS-6 Sapw
          5
     megatonel

          8 050 km








                SS -5 Si
               1 megatoi

          or            3 700 1
     3

atoneladas
180 km

Polaris A-1
     0,5

egatoneladas
2 220 km -

baseado
     em      SS-4 Sandal
ubmarino 1 megatonelad
1 800 km








                      k

Estados Unidos           Unio Sovitica


Segundo Eric Morris

            STENCIA PA         CKE 0@@ALA                            
J
     X COEXI                  CF1


                                   SUCESSO ESPACIAL AMERICANO








Maquete do pr1nc1'ro,@ai11'1c

                              por Wernei- Comi Bi-aun, o alento
               responsvel pelo programa espacial alnericano






                                   1969      A CONQUISTA
                                             DA LUA COMEA

                                                            .








               -



                                   A.   *Saturno W,
                                        transportando
                                        o *Apoio Xi+,
                                         lanado de
                                        cabo Kennedy
                                        s 9.32 h,
                                        com menos
                                   de um segundo
                                   de atraso sobre
                                   a hora prevista



                                                            283

               A COEXISTENCIA PACIFICA E O ALA@GAMENto DAS@TENSOE



     A. Indstria mundial: quotas de produo entre 1825 e 1980

     100%

                              Resio do Mund:)

     80%
                                 Russia
E 60%





SD

                              Estaffis Unidos
o- 40%                                                     Japo

                     Alemanha

     20%

               Reino Unido       --------@@@@Alemanhaj

                                                       @Federal
                              i
     0% -
     1825    1850    1875     1900    1925     1950     1975    2000








B.   Quotas de participao no comrcio mundial entre 1720 e 1980

     100%



     80%
                           Resto do Mundo
E 60%





     40%

                                                             UR
                                   Estados Unidos-',\_,---'
                                                              Japo

                                   Alernanh

     20%

                              Reino Unido

                                                            ,Fjaderal

     0%
     1720    1760    1800     1840     1880    1920     1960    2000



                                                            285

                         SMO EM QUESTO


                                        BilieS de dlares no ano 
fiscal de 1984

AS DESPESAS MILITARES                                         400

A LESTE (1)
E A OCIDENTE

                                        300




                     200
               Estados Uni os

                    1)   Custos calculados
                         em milhes de dlares   No inclui c usto@ 
de, guerra do Vietname
                         para os pases                   100
                         do Pacto de Varsvia,               1965    
                1970 1975



A DOUTRINA DA COEXISTENCIA PACFICA - 1959

               Todos os povos se interessam pela manuteno e 
consolidao da paz, pela coexistncia
          pacfica. A guerra no oferece nenhuma vantagem, a paz  
vantajosa para todas as naes. Este
           o princpio fundamental que - pensamos - todos os homens 
de Estado deveriam aceitar
          como norma de conduta afim de realizar as aspiraes do seu 
povo.

               Ns chegamos  vossa casa com o corao aberto e cheio 
de boas intenes. O povo sovi-
          tico deseja viver em amizade com o povo americano. Nenhum 
obstculo nos impede de desejar
          que as relaes entre os nossos pases se desenrolem na 
base da boa vizinhana.
               O povo sovitico e o povo americano, como os demais, 
combateram juntos na Segunda
          Guerra Mundial contra o inimigo comum e atingiram-lhe o 
corao. Em condies de paz,
          temos ainda mais razes e maiores possibilidades de 
estabelecer a amizade e a cooperao
          entre os nossos dois pases.

                              Alocuo de N. Khruchtchev  chegada 
aos EUA.


O COMEO DO DESANUVIANIENTO








               ,,,i  1,@ Cii /10 Wei, miei 1 95 9 itij@i, i   i,@ i 
iu i u@@ iii o  ioi-que



286

                                                            v
                    --NCIA PACIFI                                    
    @S


                                   AS ETAPAS DE UM PROCESSO

                              A.   A doutrina Kennedy

                    . . . ... ......... ..............  
-,--.................. -.................. .. .. .. .. ..... . . .. 
...... ... .. ... ........................

     Nenhum governo, nenhum sistema social  to mau que o seu 
governo deva ser considerado
desprovido de virtude. Enquanto americanos, ns achamos o comunismo 
profundamente repug-
nante porque nega a liberdade e a dignidade pessoais. Mas ns 
podemos, no entanto, saudar os
russos pelos seus numerosos xitos - na cincia e no espao, no 
desenvolvimento econmico e
industrial, na cultura e nos actos de coragem.
     Entre os numerosos traos que os dois povos tm em comum, nenhum 
 maisforte do que a

averso mtua que temos pela guerra.  um facto quase nico entre 
grandes potncias mun-
diais o de nunca termos entrado em guerra um contra o outro. E 
nenhuma nao na histria das
batalhas sofreu mais do que a Unio Sovitica durante a Segunda 
Guerra Mundial [...    1.
     Hoje, se devesse desencadear-se novamente uma guerra total - 
pouco interessa como - os
nossos dois paires tornar-se-iam os primeiros alvos.  irnico mas  
exacto constatar que as
duas maiores potncias so as que esto mais ameaados de devastao. 
Tudo o que constru-
mos, tudo aquilo para que trabalhmos, seria destruido nas primeiras 
vinte e quatro horas.

                    Discurso de Kermedy na American University em 10 
de Junho de 1963.







                         B. Nixon e Brejnev em 1973








- - - ----------


               N








                                                            287

          A NACIONALIZAO
          DO CANAL DO SUEZ

     Ns vamos para afrente
para destruir de uma vez por
todas os traos da ocupao e
da explorao. Depois de cem
anos, cada um recupera os
seus direitos, e hoje constru-
mos o nosso edifcio demolin-
do um Estado que vivia no

interior do nosso Estado
Hoje sero egpcios como vs
que iro dirigir a Companhia
do Canal, tomar conta das
suas diferentes instalaes e
orientar a navegao no
canal, isto , na terra do
Egipto.

          Declarao de Nasser sobre a nacionalizao

                    do canal do Suez em 26 de Julho.







                      U
OS ANGLO-FRANCESES
ABANDONAM PORT SAID


                     AO








288

               . ............
       jK,       A CRISE DE 1956 NO MDIO ORIENTE:
     Aj& UMA GUERRA RELMPAGO
     100 km                                            IA
              MAR MEDITERRANEO
                  Tel Aviv
                                                            rusalm

                                             Gaza            MAR
                                                       MORTO
                                        El Arich `rj


       E17,Kantara    1SRAEL/'  <
                                Z
       Ismailia

       - -----------
       C..pa@h@. d.
       C-.1 d. S.---
Cairo

       juh            ntilia


                              L s,'


     EGIPTO                     Sinai

-0   Coluna israelita

,-7  Tropas paraque
                                            ARABIA
     Contra-ataque 1 gpcio                 SAUDITA
     Territrios consquistados
     por Israel a 5 Nov.
     Posies ocupadas
@W
     pelos Capacetes Azuis      Q      VEI

     em 1957-------








                    I- J%

          CUBA E A REVOLUO: 4 DE FEVEREIRO DE 1962

     Perante a acusao de que Cuba quer exportar a sua revoluo, 
respondemos: as revolues
no se exportam; fazem-nas os povos. O que Cuba pode dar aos povos,  
o seu exemplo.
     E que  que ensina a revoluo cubana? Que a revoluo  
possvel, que os povos podem
faz-la, que no mundo contemporneo no hforas capazes de impedir o 
movimento de liber-
tao dos povos.
     O nosso triunfo no teria sido possveljamais se a prpria 
revoluo no tivesse estado ine-
xoravelmente destinada a surgir nas condies existentes na nossa 
realidade econmico-social,
realidade que existe num grau ainda maior num bom nmero de pases da 
Amrica Latina.
     Ocorre inevitavelmente nas naes onde  mais forte o controle 
dos monoplios ianques,
mais desenfreada a explorao da oligarquia e mais insuportvel a 
situao das classes ope-
rrias e camponesas, onde o poder poltico se mostra mais duro, os 
estados de stio se tornam
habituais, onde se reprime pelafora qualquer manifestao de 
descontentamento das massas,
e o caminho democrtico se fecha por completo, revelando-se com maior 
clareza o carcter bru-

tal da ditadura das classes dominantes no poder.  ento inevitvel 
ouvir surgir o estampido
revolucionrio dos povos.

     Segunda Declarao de Havana, da Assembleia Geral Nacional do 
Povo de Cuba.


                              A CRISE DOS MiSSEIS EM CUBA

     Este governo tal como o prometeu, tem mantido a mais estreita 
vigilncia sobre o cresci-
mento do poderio militar sovitico na ilha de Cuba. Na semana 
passada, foi verificado com
inconfundveis e evidentes provas o facto de se estarem constituindo 
agora uma srie de insta-
laes de lanamento de projcteis dirigidos nesta ilha aprisionada. 
O propsito dessas bases
no pode ser outro seno estabelecer umas instalaes capazes de 
levar a cabo ataques nucleares
contra o hemisfrio ocidental.
     Vrias delas incluem projcteis dirigidos de alcance mdio, 
aptos a transportar cargas
nucleares at uma distncia de mais de 1000 milhas naticas. Para 
abreviar, cada um desses
projcteis  capaz de alcanar Washington, o canal do Panam, Cabo 
Carnaveral, a Cidade do
Mxico ou qualquer outra cidade do Sudeste dos Estados Unidos, 
Amrica Central ou zona do
Caribe
     Em consequncia, actuando em df@sa da nossa prpria segurana e 
de todo o hemisfrio
ocidental, investido da autoridade que me concede a Constituio, 
apoiado pelo Congresso,
determinei que sejam tomadas as seguintes medidas de quarentena para 
conter toda esta ofen-
siva:
     1.     Uma estreita vigilncia sobre todo o equipamento militar 
ofensivo que seja embarcado
para Cuba acaba de ser iniciada. [...  1
     3.     Qualquer lanamento de projctil nuclear partindo de Cuba 
contra qualquer nao do
hemisfrio ocidental ser poltica deste pas consider-lo como um 
ataque da Unio Sovitica
contra os Estados Unidos.
     7 e ltimo. Dirijo um apelo ao presidente Kruschev para que 
suspenda e elimine esta
clandestina e provocadora ameaa para a paz do mundo e para que 
estabelea umas relaes
estveis entre as nossas duas naes. Convido-o a que abandone esta 
corrida para o domnio
do mundo e que se una num histrico esforo para prfim a esta 
perigosa corrida aos arma-
mentos.

          Discurso de Kennedy anunciando o bloqueio a Cuba, 22 de 
Outubro de 1962.


                                                            289

A AMR1CA AO ALCANCE...


               o    500 km







                      A



                  ov orque

                     ton
                   ESTADOS
                    So               UNIDOS
                    Francisco

                   OCEANO
                  ATLANTICO
               I

                                                       Canaveral
                                                  Base americana

                                                  Bloqueio de Cuba
                                                  pelos EUA- Out. 
1962

                                                  Navios soviticos

               OCEANO PACFICO      MXICO      Golfo      porta 
msseis: Out 62

                                                            Bai;

                                                            dos      
G     nam         Base de msseis

                                                            Porcos 
1961








A    GUERRA DO VIETNAME:
    ENVOLVIMENTO AMERICANO

     l#L                  Os Estados Unidos apoiaram os Franceses na 
primeira guerra da Indochina por ditas
          razes. Perante o prolongamento por mais de dois anos das 
negoci                .          aes de Panmunjom,
          para pr termo  guerra da Coreia, e que redundaram num 
fracasso, o secretrio de Estado
          John Foster Dulles afirmou que os comunistas no podiam 
*empatar aqui para terem as mos
          livres l (na Indochina)+. Em segundo lugar, imediatamente 
aps a criao da NATO, a
          Frana era o nico pas europeu com um exrcito permanente. 
Porm, esse exrcito encontrava-
          -se disperso, em virtude dos seus compromissos 
ultramarinos; da que os Americanos tivessem
          decidido apoiar os Franceses. Esta deciso inseria-se 
tambm na poltica geral de preveno
          da agresso comunista [...              1 e de conteno da 
China. Por ltimo, os trs novos Estados
          recm-independentes, o Leios, o Cambodja e o Vietriame do 
Sul, embora no pertencessem 
          Organizao do Tratado do Sudeste Asitico (SEATO), estavam 
includos nas suas clasulas de
          defesa como *Estados do protocolos.

290

     Quando os Franceses se retiraram do Vieniame do Sul, depois de 
1954, os Americanos, ine-
vitvel e naturalmente, assumiram o papel de conselheiros e 
instrutores dasforas sul-vietna-
mitas, conforme autorizado pelos Acordos de Genebra. O presidente 
Dwight D. Eisenhower pro-
videnciou igualmente o necessrio auxlio econmico, quer para manter 
estas foras quer para
evitar o colapso do Vietname do Sul.

     Embora a hiptese tivesse sido debatida aquando da batalha de 
Dien-Bien-Phu, ni     .ngum
previa o envolvimento directo de unidades combatentes americanas [em 
19611, na altura em que
os combates se comeavam a intensificar Foi, no entanto, decidido 
conceder ao Vietname aux-
lio suplementar, aumentar o nmero de conselheiros e enviar 
helicpteros de transporte de rea-
bastecimento dos postos avanados remotos e isolados.
     Esta ruptura dos Acordos de Genebra foi justificado pela 
alegao de o Viemame j os ter
violado, o que em breve viria a ser provado pelo relatrio de 1962 da 
Comisso Internacional
de Controle. O presidente Kennedy clarificou ainda mais a sua 
poltica no Sudeste Asitico com
o envio, em 1962, de uma brigada de fuzileiros para o Nordeste da 
Tailndia.


     Os preparativos

     Quando, em 1963, aps o assassinato de Kennedy, Lyndon Johnson 
assumiu a presidn-
cia, a situao deteriorava-se rapidamente. No Vero de 1964 ocorreu 
o incidente do golfo
de Tonquim, durante o qual lanchas torpedeiros nor'te-vietnamitas 
atacaram contratorpe-
deiros americanos que navegavam em guas internacionais. A resoluo 
do Congresso
ento aprovada deu ao presidente plenos poderes e constituiu a base 
legal da poltica
americana ulterior [...  1
     A situao agravou-se       Alguns aquartelamentos 
americanosforam alvo de ataques viet-
congs.  Destes incidentes resultou a deciso de Fevereiro de 1965 de 
comear a bombardear o
Norte como *medida retaliatria+, a que se seguiu, em Maro, o 
desembarque defuzileiros
navais.
     Nesse Vero, o presidente declarou: *Se, no Vietname, formos 
expulsos do campo de bata-
lha, nenhuma nao poder ter a mesma confiana na proteco ou nas 
promessas americanas.
Permaneceremos no Vietname. + Esta declarao tornou o compromisso 
americano absoluto. No
decurso dos trs anos seguintes, o nmero de efectivos americanos 
elevou-se para pouco
menos de 550 000 homens, alm da ffira area estacionada no Extremo 
Oriente e de unidades
navaisfundeadas ao largo.
     Ofacto de cada soldado permanecer apenas um ano no Vietname 
implicava um programa de
recrutamento macio. As baixas elevavam-se a centenas por semana e o 
custo da guerra atin-
giu os 30 bilies de dlares anuais. Depois da Ofensiva Tet, da 
abertura das conversaes e da
eleio, em 1968, do presidente Nixon, o compromisso foi diminuindo 
gradualmente, at se tor-
nar, na prtica, numa aco de retaguarda. Apenas com o 
desencadeamento de actividade area
em 1972, aquando da invaso da Pscoa, levada a cabo pelo EVN.
     Depois do cessar-fogo de Janeiro de 73, o compromisso americano 
limitou-se ao envio de
equipamento militar, fiscalizado pelo adido para a Defesa na 
Embaixada de Saigo. Alm
deste, o nico compromisso relevante contido na carta enviada em 5 de 
Janeiro de 73 pelo pre-
sidente Nixon ao presidente Thieu era a promessa feita pelo 
presidente americano de empreen-
der uma aco retaliatria rpida e severa se o Viemame do Norte 
violasse o cessar-fogo.
Contudo, o Congresso, a Lei dos Poderes de Guerra, o caso Watergate e 
a demisso do pre-
sidente Nixon alteraram o estabelecido, e em 1975 as promessa dos 10 
anos anteriores redu-
ziram-se a nada.


                              R.   Thompson, *Vietname+ in A Guerra 
no Mundo de ois de 1945, Lisboa, 1983.

                                                                 p

                                                            291

               [o            @-'SMO EU.

          o ENVOLVIMENTO AMERICANO NO VIETNAME DO SUL
     MM,

                                   A.   Cronologia e extenso da 
guerra


Efectivos americanos  Incio de                                Incio 
da       Bombas lanadas
no Vietname           interveno directa                      
ietnarnizao`   (em toneladas)
(homens + mulheres)

500000                                                               
                  1600000





375000                                                               
                  1200000





250000                                                               
                   800000





125000                                                               
                   400000

                                           Bombardeamentos
                                           americanos sobre o

               Efectivos americanos            Vietname, Laos e 
Car@bodja

o                                                               o
1950    61     62     63   64     65    66    67    68    69   70 71 
2

               KENNEDY                 JOHNSON                     
NIXON

                                   Segundo Congress and the Nation 
111.


                         B.   Foras americanas no Vietname do Sul - 
1962-1972








                     C)



                              <           (o

                              1




 64 1965 1966 1967 1968 1969 1970 1971 1972








                                             Segundo R. Thompson.


292

                   -'AMEV-

                              A CLARIFICAO DOS EVENTOS

     Em 1965, os lderes da administrao Johnson haviam prometido 
*trazer  ptria os nossos
soldados pelo Natal+; em 1966, referiam-se a *dobrar a esquina+ no 
Vietname e verem *a luz
no extremo do tnel+. Mas as mobilizaes prosseguiam, as baixas 
continuavam a aumentar e
os combates arrastavam-se. Ao mesmo tempo, os relatos da imprensa 
acerca da actuao
aptica por parte do exrcito da Repblica do Vietname, bem como a 
corrupo descomedida

e os processos ditatoriais do regime de Nguyen Cao Ky, que ascendera 
ao poder em meados de
1965, foraram um nmero crescente de americanos a interrogar-se 
acerca da espcie de
governo por cuja preservao os seus soldados estavam a combater
     Por volta de 1967, o movimento americano contra a guerra havia 
atingido grandes pro-
pores em todo o pas. Ento, no comeo de 1968, a ltima esperana 
do presidente Johnson
de justificao da sua poltica foi definitivamente posta em dvida 
pelo acontecimento mais
sbito e espectacular da guerra: a Ofensiva Tet. Em 30 de Janeiro de 
1968 - o primeiro dos
trs dias do Tet, o Ano Novo Lunar -, o Vietcong e os 
Norte-Vietnameses lanaram um assal-
to macio e totalmente inesperado contra quase todas as cidades e 
vilas do Viemame do Sul. Nas
primeiras horas da campanha, o inimigo penetrou no centro do Saigo e 
ocupou por um breve
espao de tempo a Embaixada Americana. Por toda a parte acontecia o 
mesmo: 5 importantes
cidades, 36 capitais provinciais e 64 capitais de distrito foram 
ocupadas por perodos de
tempo variveis.
     Em meados de Maro, aps seis semanas de combates desesperados, 
a campanha terminou.
Embora a Ofensiva Tet no tivesse conseguido derrubar o Governo de 
Saigo, o seu impacto
sobre o pblico americano foi devastador [...  1
     Em face desta iminente tempestade poltica, o presidente cedeu 
finalmente. Em 31 de
Maro de 1968, apareceu numa emisso de televiso  escala nacional 
para anunciar uma nova
e importante iniciativa de paz: todos os bombardeamentos ao Vietname 
do Norte acima do para-
lelo 20 iriam ser imediatamente suspensos, na esperana de encorajar 
Hani a encetar as nego-
ciaes de paz. Depois, no final da sua comunicao, Johnson 
surpreendeu a nao ao anun-
ciar que no concorreria  reeleio para a presidncia. [... 1
     Durante a sua campanha, Nixon fizera refernciasfrequentes a um 
*plano secreto+ para pr
fim  guerra. Assim, quando assumiu as suas funes, em Janeiro de 
1969, foi grande o nme-
ro de americanos que previu uma rpida acelerao do esforo do 
restabelecimento da paz.

     *Paz com honra+

     [... 1 Em face da crescente impacincia do Congresso e dos 
renovados protestos contra a
guerra, o presidente Nixon fez uma importante comunicao pela 
televiso em Novembro de
1969, afim de explicar a sua poltica sobre a guerra. Descrevendo o 
seu objectivofinal como
*paz com honra+, anunciou um plano para a retirada gradual das tropas 
de combate ameri-

canas e uma simultnea *vietnamizao+ da guerra. Concluiu 
referindo-se  importncia
que assumia, para o prestgio americano, impedir um derrube do regime 
de Nguyen Van Thieu
(que substitura o regime de Ky em Setembro de 1967) e apelou para o 
apoio da *grande maioria
silenciosa dos seus concidados americanos+.
     As reaces a esta poltica dividiram-se nitidamente em 
Washington, mas uma maioria da
nao pareceu apoi-la e o programa de Nixon para vietnamzao 
entrou em execuo. No
final de 1969, o nmero de soldados americanosfoi reduzido de mais de 
540 000 para 479 000,
e um ano depois, para 339 000.
     Ao mesmo tempo, porm, o nvel geral da violncia mal baixava. 
Para compensar as reti-
radas de tropas, os bombardeamentos americanos foram intensificados 
at um grau sem pre-
cedentes.

                                                            293

               O ltimo captulo sangrento da participao americana 
na guerra teve incio a 30 de
          Maro de 1972, o primeiro dia de nova o nsiva 
norte-vietnamita importante.

                     ,fe
               Finalmente, em 30 de Dezembro, depois de Hani ter 
concordado em retomar as negociaes
          do cessar-fogo, Nixon anunciou que os ataques areos contra 
os centros populacionais do Norte
          seriam novamente suspensos. Uma semana depois, recomearam 
as negociaes em Paris, e em
          2 7 de Janeiro de 1973 foi assinado um acordo de 
cessar-fogo por representantes do E. U.A., do
          Viemame do Norte, do Governo de Saigo e da FLN.
               Na realidade, o acordo de cessar-fogo permitia aos E. 
U.A. salvar as aparncias. Saigo no
          tinha sido derrubada pelos comunistas, os prisioneiros 
regressavam  ptria, no morreriam
          mais americanos em combate. O presidente Nixon podia assim 
reivindicar ter atingido o seu
          objectivo de *paz com honra+. Mas no Vietname, tal como no 
Camboja e no Laos, as conver-
          saes de paz eram tristemente prematuras. [...            
1
               Em 21 de Abril, o presidente Thieu, depois de oito 
anos no poder, anunciou a sua demisso
          e, pouco depois, abandonava o pas para o exlio em Taiwan. 
Em 28 de Abril, o general
          Duong Van Miniz era nomeado seu sucessor; no dia seguinte, 
os ltimos soldados e oficiais ame-
          ricanos foram evacuados de Saigo, e na manh do dia 30 o 
presidente Minh anunciou a ren-
          dio incondicional do seu governo.

               Assim terminou a longa agonia de 10 anos, 8 meses e 23 
dias, depois da aprovao da
          Resoluo do Golfo de Tnquim. Os E. U.A. tinham 
participado e retirado do conflito - que cus-
          tou mais de 55 000 vidas americanas e mais de 1 milho de 
vidas asiticas -, mas a guerra
          havia continuado, movida pela sua prpria lgica e o seu 
impulso.

                    Os Grandes Acontecimentos do Sculo XX, Lisboa, 
1984.




                              A.   O crescimento do PIB (Produto 
Interno Bruto)


        E                 I~M~N~I M

Volume
           4,2  2    4,7  3,1        2,5
           8,7  8,6  10   11,2       4,6
           9,5  6,5  5    4,4        2,1
           4,2  5    5,8  5,4        4,8
           2,9  2,6  3,1  2,5        2,1
           5,9  5,5  5,2  6,2        2,4
           5    3,3  5,3  4,7        3,1




                                   B.   O Aumento da produtividade



                                  1,9  4,0  2,1
                                  0,7  5,6  4,9  8,3                 
              6,1  8.9  6@5
                                  0,3  4,5  4,2  4,9                 
              5,7  5,4  2,6
                                  0,3  3,1  2,8  4,7                 
              6,1  5,0  3,1
                                  1,3  9,8  8,4  5,6                 
              7,4  5,0  3,3
         WW

Produti,,idade g1.bal 1960-1973.                 Prodwi,idade 
po-ector 1953-197,.



294                                                             k

                                                                i

                  ISTENCIA

                         A ACELERAO DO PROGRESSO TCNICO

                                                                 A1,1

     Se a inovao se tornou ajorma moderna moderna da concorrncia, 
o esforo que uma

empresa consagra  pesquisa cientfica e ao desenvolvimento tcnico 
tem uma importncia deci-                       AL
siva [...  1.
     Estes esforos conseguiram no s aumentar indefinidamente o 
nmero de descobertas
cientficas, mas tambm aproximar cada vez mais a passagem da 
descoberta cientfica 
explorao industrial: este  o trao caracterstico da economia 
moderna. Para passar da
inveno cient(fica  explorao industrial,.foram precisos:


                              para afotograjia (1727-1839)
                              para o telefime (1820-1876)
                              para a rdio (1867-1902)
                              para o radar (1925-1940)
                              para a televiso (1922-1934)
                              para a bomba atmica (1939-1945)
                              para o transistor (1948-1953)
                              para o circuito integrado (1958-1961)

                                   J.   J. Servan-Schneiber, Le dfi 
amricain, 1967.




                                                  *SEMPRE MAIS+

                                   A publicidade e o crdito
                                   modificam profundamente
                                   a vida dos casais,
                                   que j no hesitam em
                                   equipar-se de aparelhos
                                   electrodomsticos.
                                   J no se trata defazer
                                   restries. O Europeu
                                   consome europeu
                                   e estrangeiro








                                                  O EMBARAO

N4 ]E                           E 1",           r]PI:I: DA ESCOLHA

          ... ... ...........................

                    A E G

                     LR
                         341

                         -                                   T119    
            IA

                                                  M1111      fl\ \I

               CpRunDi                         IET; E"'!c H
               U@M                  'PHILIPSIT-                      
        295

UM NOVO CULTO:
O CULTO DO SOL


A

                              A *DOUTRINA BREJNEV+








Miss Cannes (1949)
na Cte dAzur, a zona
de veraneio por excelncia
dos anos 50-60

     O PCUS sempre t7RRITIZu para que cada pas socia-
lista determine por si pi ;grio as formas concretas da
sua evoluo sobre a via prol socialismo, tendo em conta
as particularidades das      cpndies nacionais            E
quandoforas internas e
procuram orienta r a ev<,,, +.-(ternas hostis ao socialismo ffM,,o 
de um pas socialista e
levar ao restabelecimento   #M um estado capitalista, quan-
do surge, pois, um perigo r_'rio para a causa do socia-
lismo num pas, um perigo @gara a segurana de toda a
comunidade socialista - -tal facto torna-se ento no
somente um problema para o povo desse pas, mas tam-
bm um problema comum, ain objecto de preocupao de
todos os pases socialistas

Discurso pronunciado por Lonid Brejnev face ao V Congresso

do Partido Comunista Polaco, em 12 de Novembro de 1968.









A PRIMAVERA DE PRAGA
(1968)                           _M@


Mais uma vez, esto em causa
reformas que visam democratizar
um pas comunista satlite:
a Checoslovquia. A URSS
inquieta-se, a Polnia e a RDA
temem o contgio. Em Agosto
de 1968, as tropas do Pacto
de Varsvia invadem a repblica       ?:
checoslovaca. Os tanques esto
em Praga. O *socialismo               w V
democrticos  esmagado





296

                                                            ,ler



ALTERAES MORAIS E MENTAIS DAS SOCIEDADES OCIDENTAIS

     Instaura-se um mundo que o homem se torna incapaz de dominar, 
que lhe deixa apenas insa-
tisfao espiritual, inveja e m conscincia, e que pe a sociedade 
num estado de permanente
perturbao. Nas imensas metrpoles, onde vivem multides de 
desenraizados, os laosjami-
liares desagregam-se; as suas disciplinas, e tambm as suas alegrias, 
perdem-se, diante da *pre-
cocidade+, muitas vezes maisfi(sica do que intelectual e moral, de 
inmeros jovens que, a pre-
texto de *se afirmarem+, perdem o sentido das hierarquias e dos 
valores.
     Cria-se uma sociedade permissiva, que, ao sabor da promiscuidade 
dos grandes conuntos, de
todos os contactos e distraces que a vida urbana oferece, dasfrias 
de Inverno e de Vero e das
estadas no estrangeiro, favorece precoces relaes sexuais, numa 
juventude muitas vezes vtima

das suas experincias. A prpria existncia do casal pe problemas 
no menos graves [...           1.
     Num lar onde os dois cnjuges contribuem para a vida material da 
famlia a promoo femi-
nina  uma necessidade e os equilbrios antigos modificam-se, no sem 
obstculos. f...           1
     A violncia revela-se igualmente -uma libertao e, a partir de 
1968-1970, *desce+ do dom-
nio das relaes entre Estados para o das relaes entre indivduos e 
grupos. A violncia desor-
ganizada, fortuita, da estrada ou da rua, junta-se a do bando, dos 
rockers de Londres, dos provos
de Roterdo, dos hippies de Nova Iorque, enquanto, em todos os 
Estados do Ocidente, sobe, sinis-
tramente, a criminalidade, poltica ou no. O terrorismo traduz-se em 
inmeros atentados,
tomadas de refns, mltiplos desvios de avies, misturados com 
pedidos de resgate. As prises tor-
nam-se lugares de suicdios, de revoltas encarniadas, em que a 
destruio das instalaes 
acompanhada por viva resistncia sforas da ordem, diante dos olhos 
de uma opinio pblica
geralmente hostil aos delinquentes e aos criminosos, mas onde existem 
alguns elementos que
levam os poderes polticos a colocar questes angustiantes sobre os 
meios de atenuar os rigores
da deteno e defiacilitar a reinsero dos condenados numa sociedade 
a que se opem. O
racismo, vencido temporariamente sob a.f@)rma nazi, e que, durante os 
anos cinquenta e sessen-
ta, avanara subterraneamente, torna a levantar a cabea e mostra a 
sua face horrenda.
Estrutural contra os Negros nos Estados Unidos, suscita, por parte 
dos oprimidos, perante o semi-
fracasso da aco legal, o apelo s,fontes da negritude e um 
radicalismo que corresponde  fora
pelafora. Desde ofim dos anos sessenta, os Black Panthers invocam, 
simultaneamente, a cons-
cincia de raa e a conscincia de classe, lanam o siogan do Black 
Power e, praticando o culto
da violncia, opem ao racismo dos opressores o dos oprimidos. Na 
Europa, o mal reveste-se de
formas mais amaciadas, que no excluem vivas exploses e pesadas 
tenses; atinge os traba-
lhadores emigrantes, de cor ou brancos, inclusive na Gr-Bretanha 
*liberal+ e trabalhista, e, em
nome do anti-sionismo, desperta um anti-semitismo latente, quer nas 
elites quer nas massas. Por
outro lado, enquanto o aumento considervel da esperana de vida, no 
Ocidente, atenua o anta-
gonismo das geraes e a impacincia dosjovens, os con itossociais 
manifestam uma aspereza
maior Deste ponto de vista, como de muitos outros, Maio de 1968 
assinala uma profunda ruptura,
que no  prpria da Frana, mas de todo o Ocidente. [...      1 A 
violncia est por toda a parte, afir-
ma-se at nos estdios, onde o gosto da desordem e dosangue sacode 
imensas assistncias em

tomo dos ringues, dos desafios de,flitebol e de rubgy, assistncias 
cujas exigncias no deixam de
fazer lembrar as da Roma da decadncia, nos jogos mortais do circo.

     As reaces da ideologia - a contestao de finais dos anos 60

     Taisfenmenos traduzem-se em novas reaces de ideologia que, 
por vezes, prolongam as
correntes a cujo percurso assistimos ao longo dos dois ltimos 
decnios. [...        1
     A este respeito, a mensagem de Maio de 1968, a despeito 
dofracassofinal de um espasmo,
que ter representado a ltima revoluo romntica, assim como as 
contribuies de movi-
mentos similares que sacudiram globalmente o Ocidente, no devem ser 
minimizadas                      

                                                            297

               @;I0LARlSM0 EM QUEST(.,@'

          talvez, tambm, apesar dos seus erros e das suas 
infantilidades, apelo para uma sociedade ps-
          -industrial, recusa do imperativo da produo e das suas 
inevitveis disciplinas, retorno ao culto
          da natureza, sob todas as suas formas, mesmo excessivas, e 
negao de todas as exi                           .           
gncias,
          incluindo a do dinheiro; procura da felicidade, da paz, do 
calor da comunidade perante uma
          sociedade individualista e tantas vezes cruel.
               Logo, ela manifesta-se simultaneamente como ideologia 
e anti-ideologia, encontrando a sua
          expresso no fenmeno esquerdista. Nascido do *universo 
concentracionrio+ das grandes
          cidades e do desespero por elas segregado, fermenta, nos 
anos sessenta, nos meios intelectuais
          *radicais+, opondo-se ao marxismo ortodoxo pelo seu 
desprezo por uma explicao cientfica da
          evoluo social e de uma certa concepo da histria; o 
esquerdismo pretende exprimir o real
          e no Jormul-lo, libertar o indivduo de todas as 
exigncias que o estrangulam, familiares e
          sexuais, pedaggicas, polticas e sociais, substituir o 
homem unidimensional, oprimido, pelo
          homem pluridimensional, capaz de tirar partido, sem 
entraves, de todas as suas virtualidades.
               Acima das seitas mltiplas e dos grupsculos, que se 
opem violentamente no seu seio, o pro-
          jecto esquerdista  em primeiro lugar contestao global da 
sociedade de consumo e de todos
          os seus conformismos, da 'cultura tradicional e da 
*universidade burguesa+; repudia todas as
          revolues do sculo XX, incluindo a de 1917, negando-lhe a 
etiqueta de socialista, e assimila

          o comunismo  social-democracia. [...                   1 
Para os seus adeptos, a actividade revolucionria [...               
  1
          define-se como um conjunto de lutas autnomas, rejeita 
todas as directivas, pois a sociedade
          no pode ser livremente estabelecido.

                                   P.   Lon, ob. cit, vol. vi tomo 
ii.


                              A.   Woodstock ou a ideologia de 
substituio

                   NVI 1!



                     W,~
                     X-


                      J

                                                                 .







                      %

               A juventude procura mocietos ae suosTi[uiao na 
conrracuiiura. *r uz amua e rtuu ti gtit, i ti,           ti,tu-
          os hippies, adeptos da no-violncia e da liberdade.  Os 
grandes ajuntamentos musicais como Woodstock

               de 15 a 18 de Agosto de 1969 (400 000 pessoas, 40 
grupos musicais) oferecem-lhes a oportunidade
                              de uma grande celebrao comunitria



298

          B., Os Beatles, o grupo musical mais famoso da dcada de 60








        4k:.
--o _








CRONOLOGIA DA LEGISLAO SOBRE O DIREITO AO DIVRCIO


      -1938  1810-1871
1896
1938         1910-1967
1981         1857-1937-1969

                              1884-1975                         
1920-1973
                              1970

          CRONOLOGIA DA LEGISLAO SOBRE O ABORTO


1976   1978  A,,

             ARL
1990   1980  ARa-liW

1970   1984

1986   1968

1975   1974

       1985




                                                            299

                   9 7 12


          TAXA DE ACTIVIDADE
          DAS MULHERES

                                             OS ECOLOGISTAS





47  50,0  54,4
-   48,7  53.7

37  48,2  51,8
42     -  78,3
-   32,0  39,4
-   70,1  73,0

45  54,4  55,7
-   33,0  41,7
                                                                     
.1
-   36,3  37,6                                                       
 j
34  39,6  43,9
28  62,3  72,8
26  35,5  50,6                               Um movimento em 
crescendo.
-   57,0  59,1             Constituem partidos, organizam 
manifestaes
47  58,3  63,5  pacficas em defesa dos seus ideais e, 
esporadicamente,
                                                               
utilizam
39  74,1  80,1                                         formas 
violentas
42  51,1  57,9

    59,7  66,9
    54,9  58,4

                         Segundo B. R. Mitcheil.



                                             PAPA JOO XX111

VATICANO 11 NA BASLICA DE S. PEDRO EM ROMA








          O Conclio Vaticano II
          comea em Outubro
          de 1962 na presena

                                                                 k ,
          de 2500 participantes
          de todos os continentes




300

MAIO DE 1968 EM PARIS

                    E 0.





.... ...... ....... .









                          87,9  12,1
   23,9             38,8  93,0   7,0


E
   7,0              17,6  59,3  30,9

                          86,7  13,3
   4,8              14,8
                          72,9  27,1
   7,1              14,4  49,8  50,2

                          55,1  44,9
                    15,5

                          93,8   6,2


         Segundo Heffer.

O DESMANTELAMENTO DOS QUADROS TRADICIONAIS

     Que terreno maisfavorvel se poderia abrir a esta aco do que a 
universidade? Nesse meio
tradicionalmente liberal, onde todas as doutrinas eram cuidadosamente 
examinadas e rotula-
das, onde a coaco era muitofraca e as possibilidades de defesa 
quase nulas, o esquerdismo
iria, logo  primeira, encontrar o seu lugar de eleio e explorou 
afundo uma situao que no
criara. Com f@ito, durante os anos cinquenta e sessenta, o mundo 
ocidentaljora palco de uma
exploso escolar e universitria sem precedentes. [... 1
     Ora, enquanto os governos e os organismos privados 
multiplicavam, febrilmente, instituies
novas e edifcios, os sistemas educativos revelavam-se, em graus 
diversos, pouco adaptados s
necessidades prementes de todos aqueles que pediam  universidade no 
tanto uma cultura
como uma situao.  certo que os poderes pblicos, primeiro nos 
Estados Unidos, mas tambm

em diversos pases da Europa, tinham tomado conscincia deste 
*desfasamento+, e tinham sido
operadas reformas, muitas vezes prometedoras e at importantes, sem 
que, contudo, tenham sido
coroadas de xito total. Da resultara, do lado dos educadores, uma 
crise de conscincia pro-
funda, um mal-estar pedaggico a todos os nveis, uma grave 
desequilibrio do ensino e da inves-
tigao. Do lado dos estudantes, inquietos com um futuro que lhes 
parecia duvidosos e perce-
bendo mal afinalidade de estudos que tinham comeado com a esperana 
de terem uma pro-
fisso, o descontentamento transformara-se em clera. [...   1
     Para alm da recusa dos mtodos tradicionais, do contedo do 
ensino e dos exames - con-
siderados repressivos -, para alm da reivindicao de relaes novas 
entre docentes e dis-
centes, mais livres e em melhores condies de desenvolver a 
espontaneidade e a criatividade,
a revolta estudantil, rapidamente re rada por uma revolta de 
liceais, menos consciente,

                     fi9
punha em questo por toda a parte as estruturas sociais, apesar de 
remodeladas, e colocava jor-
temente os problemas da seleco social pelo saber, da introduo 
deliberada da poltica na
universidade, da democratizao, no apena do ensino, mas de toda a 
sociedade, com todo o
potencial revolucionrio que estas propostas provocavam.

                                   Pierre Lon, ob. cit, vol. vi - 
tomo ii.

A

A








301

          Do movimento estudantil  crise geral da sociedade

               Na realidade, a luta mudara-se para outros pontos. Se 
 verdade que em 1968-1970 o
          tema da unio dos estudantes e dos operrios, numa 
solidariedade proletria, fora em larga
          medida abordado, e at posto em prtica, a aliana 
permaneceu sobretudo verbal, embora, at
          aos nossos dias, grupos organizados de estudantes tenham 
militado no seio das centrais sin-
          dicais e nos partidos da extrema-esquerda. [...            
1

               Em contrapartida, a *semente+ esquerdista ou 
extremista ataca grandes *corpos+, nos
          quais alguns dos seus temas, mais ou menos adaptados, se 
revelam percucientes. A despeito dos
          progressos do ecumenismo, do xito do Conclio Vaticano II, 
em 1962-1965, do progresso do
          Conselho Ecumnico das Igrejas [...              1 a 
contestao introduzia-se no seio das prprias igrejas.
          Os padres operrios davam o exemplo da recusa do 
capitalismo e da sociedade burguesa, e at
          da hierarquia. Numerososfiis desejam *viver+ plenamente o 
seu cristianismo e no contentar-se
          com a prtica formal. Os graves problemas do compromisso 
poltico e social, o apoio dos fiis
          e dos seus pastores aos operrios em luta, seguiam de perto 
o aggiornamento da liturgia e o
          abandono do triunfalismo. Inversamente, a corrente 
integrista desenvolvia-se vigorosamente e
          recusava esse movimento de dessacralizao, em nome da 
autenticidade daf.
               A crise das igrejas  apenas uma das manifestaes 
mais graves da crise de conscincia das
          elites. A magistratura divide-se tambm; alguns juzes 
duvidam da sua misso e sonham com
          uma justia separada da ordem social tradicional: certos 
processos de grande repercusso reve-
          lam, naqueles que esto encarregados da temvelfuno de 
*dizer o Direito+, um desejo evi-
          dente de adaptao e de mudana. A contestao, a partir de 
1973-19774, invadiu os exrcitos,
          outro elemento essencial da manuteno das sociedades 
ocidentais.

                                        Pierre Leon, ob. cit., vol. 
vi - tomo ii.



-MUNE~


             TRABALHOS PRATICOS





1. Explique o contexto em que a frase
   *dissolver Marx em coca-cola+ tem sentido.

2. Indique o significado da palavra            Incio da guerra fria
   *desanuviamento,> e da expresso            Plano Marshali
   *Um socialismo de rosto humano+.
                                               Criaco do Comecon
3. Teste os seus conhecimentos e verifique     Incios da Guerra da 
Coreia

   se os acontecimentos referidos na barra     XX Congresso do PC 
Sovitico
   cronolgica tm sentido para si.
                                               Ciso URSS/China
                                               Crise dos msseis de 
Cuba
                                               Coexistncia pacfica
                                               Con'erncia de 
HeIsnquia



302

B, Aprofundamento de um tema: A contestao como forma de expresso e
numerosos grupos na sociedade:


               Palavras de ordem tais como * proibido proibiras, *a 
imaginao ao podei-+,
          *ni . ngum se apal . xona por uma taxa de crescimentos, ou 
*small is beautiful+ so a
          expresso de protesto contra uma sociedade tecnicizada e um 
apelo afavor de mais
          democracia e justia. O movimento contestatrio  apoiado 
por cantores compro-
          metidos, publicaes *alternativas+ e aces de provocao.


1.   Situe no tempo os acontecimentos a que o texto se refere e 
insira-os no seu contexto.



          200 000 negros
          marcham sobre
          Washington em 28
          de Agosto de
          1963, para se
          manifestarem frente
          ao monumento                                               
 'B 'w
          a Lincolii

2. Indique o significado desta     ela/
   manifestao






                                                                 4

          Em Novembro
          de 1969, grande
          manifestao no
          Capitlio
          em Washington

3.   Explique o problema que
     estava em causa.





                                        r N G

          Anlise de documentos


TAXA MDIA DE CRESCIMENTO ANUAL DO PIB  %


          1870-1913                     11,3 -12
          1913-1950
          1950-1960
                                        1 o

                              960-1970                         9,1

                                                  i, 970- 1980

                                                                 8

                                                                 6

                                                                 4,9
                                             4,3
                                                              4

                                             @, -6

2,9  2,8  3,1  3,0
  -  -              2,7

                                             2,2   4-,9- ---J@F1








                                                                 2



               Frana Alemanha Itlia      Reino    Estados Japo
                       Ferderal           Unido     Unidos

          1.   Tendo em conta o grfico (doc. 1) sobre a taxa de 
crescimento anual mdio do PIB das
               grandes potncias mundiais, explique a razo por que  
que aos anos que medeiam
               entre o fim da guerra e a crise petrolfera se chamou 
*os trinta gloriosos+.


                                     Em % do PNIB
                                   10

                                                            1948



                                   8

MIM


                                   4




                                   2

                                   o


Defesa    Cincia Educao  Sade  Segurana
nacional                           social

          2.   Explique o sentido da orientao oramental americana 
tendo em conta o documento 2.

                                                                 z
     304

        SEWlOR.- DEIXA4VIE,_ SONHIAR!


                    Senhor...

                    Sonho que chegar uni dia em que os homens
                    se elevaro acima de si mesmos
                    e compreendero que,foram,fito,@ para 
viverjuntos

                    em irmandade.

                    Sonho com aquela manh de Natal,
                    dia em que todos os negros deste pas,
                    todas as pessoas de cor do inundo
                    sero julgadas pelo contedo de sua 
personalidade,
                    e no pela cor de sua pele...

                    Tambm sonho hoje que chegar o dia

                    em que as indstrias paradas de Appalachia
                    sero postas em marcha
                    e serviro para encher os estmagos vazios do 
Mississipi,
                    e que a irmandade ser algo mais que algumas 
palavras
                    ditas nofinal de um sermo...
                    Sonho ainda que em todos os Ministrios
                    e em todas as Cmaras serao eleitos
                    os homens que agem coinjustia e misericrdia
                    segui                    .                    ndo 
teus passos, Senhor
                     Sonho ho' je que a gu erra acabar...

                    Chegado esse dia, nos ser revelada a glria do 
Senhor,
                    e a contemplaremos todos unidos.
9               Sonho tambm hoje que com essa,f seremos capazes

                    de transft)rinar os limites do desespero.
M

                    Com essaf poderemos antecipar
                    o dia da paz na terra
                    e de boa vontade para todos os homens.
                    Ser um dia glorioso:
                    os lu.-,eii-os da aurora estaro unidos

                    e teusfilhos, Senhor, exultaro de alegria.

                                             MARTIN LUTHER KING


          3.   Informe-se sobre o autor do poema e identifique os 
problemas que mais afligem Martin
               Luther King.




          1.   Continue a srie de biografias, agora sobre alguma das 
quatro personalidades da

               pgina 273, Kennedy, Khuchtchev, Adenauer e De Gaulle.

A POLITICA DE NAO-ALINHAMENTO, E A INDEPENDENCIA
        DOS PAISES DO TERCEIRO MUNDO



1.   OS MOVIMENTOS NACIONALISTAS: AS FORAS ANTICOLONIAIS
     DAS METROPOLES E AS VANGUARDAS LOCAIS

2.   ETAPAS E MODALIDADES DA DESCOLONIZAO
     - As conferncias terceiro-mundistas e o no-alnhamento

3.   OS BASTIES BRANCOS NA AFRICA AUSTRAL

4.   A POUTICA ULTRAMARINA PORTUGUESA

     A    guerra colonial








          N
                                                            n- --@







      Alguns lderes terceiro-mundistas

1.   OS MOVIMENTOS NACIONALISTAS:
     AS FORAS ANTICOLONIAIS DAS
     METRPOLES E AS VANGUARDAS
     LOCAIS

     Como vimos, o imediato ps-guerra foi domi-
nado por um movimento determinante para o con-
junto do perodo - o da fractura do Mundo em
dois blocos - e, por outro, de igual relevncia
- a descolonizao. Ao lado dos dois mundos
que se organizam e enfrentam - o capitalismo e o
socialismo -, nasce um terceiro mundo: o
Terceiro Mundo (doc. 1).
     A descolonizao  o movimento de conquis-
ta da independncia nacional, do reconheci-
mento internacional e da identidade dos povos
colonizados e dominados. A Europa arruinada de
1945 vai conhecer em menos de 24 anos a queda
dos seus imprios coloniais. Ao mesmo tempo, as
dezenas de pases que se emancipam - na Asia,

na Africa, na Amrica Latina, independente h
dois sculos mas onde agora despertam movi-
mentos nacionalistas - no pretendem sujeitar-se
a nenhum dos dois blocos e definem-se como
neutrais, *no alinhados+. A fora vem-lhes do
nmero e, em breve, pesaro enormemente nas
instituies internacionais por deterem nelas a
maioria dos lugares.
     O que une estes novos Estados independentes
africanos e asiticos e, com alguma reserva hist-
rica, os da Amrica Latina, so as caractersticas
negativas: a inexistncia ou a escassez de inds-
tria, o atraso dos mtodos de cultura, com a con-
sequente insuficincia de recursos alimentares, a
dependncia da *troca desigual+ - fundada na
exportao a baixo preo das matrias-primas dos
pases subdesenvolvidos para os pases industriali-
zados e na importao dos primeiros, a preos ele-
vados, do produto acabado nos segundos - e o
forte crescimento demogrfico que, mais rpido
que o econmico, tende a tornar estacionrios ou a
diminuir os rendimentos da grande massa.
     So condies herdadas do colonialismo que,
desde o sculo XVI, os manteve em situao equi-
valente. Nos incios do sculo XX, esta tende a
alterar~se.
     O Extremo Oriente fora palco de alguns con-
flitos menores durante a Primeira Grande
Guerra e as foras anticolonialistas, j em for-
mao nos anos 20, aproveitam-se desse facto.


308

Mas foi o papel determinante que a regio
desempenhou entre 1941 e 1945 - ali se jogou o
destino do Mundo tanto como na Europa - que
acelerou a descolonizao do Terceiro Mundo e
fez ruir imprios coloniais europeus edificados h
quatro sculos e que nunca tinham sido to prs-
peros como entre as duas guerras.
      um resultado que se prepara durante as hosti-
lidades - em que foram feitas promessas de
emancipar certos povos (ndia, alguns manda-
tos*) e em que, na Asia de Sudeste, os Japoneses
favoreceram movimentos de independncia - e
que se refora com o fim da guerra quando, para
as potncias colonizadoras, a prioridade  a recons-
truo e cada expedio para restabelecer a autori-
dade metropolitana  considerada um fardo pesado.
     Internamente, estes factos so aproveitados.
Os nacionalistas exploram a situao no interior
das colnias e a relao de foras no Mundo.
     Com efeito, o contexto internacional -lhes
favorvel. A descolonizaao no se reduz ao
enfrentamento colonizado-colonizador porque os
Estados Unidos, a Unio Sovitica e os jovens
Estados independentes desempenham um papel

anticolonialista fundamental.
     Os EUA lembrando o seu passado colonial,
so favorveis  emancipao dos povos (doc. 2)
e, a partir de 1945, dispem de poderosos meios de
presso sobre os seus aliados. A URSS , por dou-
trina, naturalmente anticolonialista (doc. 3) e
apoia com armas e subsdios os movimentos nacio-
nalistas, marxistas ou no. Dentro da guerra fria,
isso faz parte da sua estratgia antiocidental. Por
seu lado, a ONU, cuja Carta condena a sujeio
dos povos, tem uma maioria na Assembleia Geral
de grupos de Estados latino-americanos e arabo-
-asiticos que, com os pases socialistas, se opem
ao bloco colonial e conseguem produzir doutrina
sobre o direito dos povos disporem de si prprios
(doc. 4). Assim, apesar da guerra fria e de alguma
contemporizaro dos Estados Unidos, que receiam
que os nacionalistas pendam para o campo sovi-
tico, a luta anticolonialista internacional refora
as resistncias nacionais.
     Estas, inspiradas nos nacionalistas europeus do
sculo XIX querem afirmar a sua prpria identi-
dade, definida pelo passado - histria ou cul-
tura - para conseguir uma coeso que mobilize
largas massas a favor da emancipao e assumem
os ideais de 1789, que muitos deles aprenderam

nas universidades das metrpoles (doe. 5). No caso
de ex-colnias independentes h longos anos, como
na Amrica do Sul, a resistncia nacionalista 
penetrao estrangeira assume formas novas que
passam pelo nacionalismo econmico (doe. 6).
     Sociologicamente, os nacionalistas so elites
urbanas, advogados, mdicos, professores, oficiais,
padres e quadros populares, pequeno funciona-
lismo, antigos soldados, operrios e sindicalistas
(doe. 7). Estas vanguardas* formam partidos ou
frentes nacionais que ultrapassam as divises
tnicas e religiosas (doe. 8), tranquilizam o con-
junto da sociedade e contaram, neste emergir de
uma conscincia nacional, com o aparecimento de
lderes carismticos*, com os quais o povo se
podia identificar (doe. 9).
     Humilhados face aos dominadores ocidentais,
que impunham a sua lngua, cultura e tcnicas aos
povos colonizados, querem agora restabelecer a
dignidade das suas civilizaes (doe. 10) e obter
o reconhecimento da sua cultura (doe. 11) e da
sua religio. As populaes rurais mantm-se
ligadas s suas tradies tnicas e religiosas -
hindusmo, budismo e animismo. As populaes
urbanas, se muulmanas, desenvolvem movi-
mentos tradicionalistas que rejeitam o colonialis-
mo, se crists, desde antes da guerra que procura-
vam dissociar evangelizao e colonialismo,
desenvolver liturgias autctones, aumentar o clero
nativo e, particularmente as igrejas protestantes,
apoiarem a independncia das colnias.

     A ideologia preponderante associada ao nacio-
nalismo  o socialismo.  uma influncia desigual
mas indiscutvel mesmo nas regies onde os Estados
Unidos se substituram  Europa ou ao colonialismo
japons (doe. 12). O marxismo traz s novas naoes
em busca de identidade a condenao do imperia-
lismo modelos de desenvolvimento acelerado pela
reforma agrria, a industrializao e a independn-
cia econmica. Alm disso, afirma os novos valores
da igualdade e do progresso e prope uma estratgia
de alianas sociais e nacionais.

2.   ETAPAS E MODALIDADES
     DA DESCOLONIZAO

     De 1945 a 1962, a descolonizao fez-se em
duas etapas: a primeira abrange o Prximo e o
Mdio Oriente e a Asia do Sudeste (doe. 13); a
segunda, comea em 1955, diz sobretudo respeito

                  lzi* DO 9

 Africa (doe. 14). S entre 1956 e 1968 tornaram-
se independentes perto de 50 pases, dos quais
38 africanos, 6 asiticos e 4 americanos. Depois
dessa data so principalmente as colnias portu-
guesas, o Zimbabwe (antiga Rodsia) em 1980, a
Narnibia em 1990 e, recentemente, aps 30 anos de
luta contra a EtiOpia, a emancipao da Eritreia.
     Para l de cada caso particular, que no nos
interessa, no conjunto, a desigual maturidade
dos movimentos nacionais e a reaco das
potncias coloniais condicionaram as formas de
luta adaptadas.  assim que os processos da ndia,
Indonsia, Indochina, Norte de Africa ou da Africa
Negra so diferentes e tanto mais precoces quan-
to mais avanado  o seu nvel de civilizao
(doe. 15). Como diferente  tambm a emanci-
pao negociada das colnias inglesas que se asso-
ciam no Commonwealth*, os abandonos forado
da Indonsia pela Holanda ou o precipitado do
Congo pela Blgica, a trgica descolonizao em
dois tempos da Indochina/Vietname (doe. 16), para
j no falar da inflexibilidade de Portugal at
1974. As causas que explicam as maiores difi-
culdades no momento da descolonizao parecem
prender-se com o facto de serem colnias com
fortes minorias de colonos de origem europela.

     As conferncias terceiro-mundistas
     e o no-alinhamento

     O ano de 1955 marca uma viragem na histria
do  Mundo: nesse ano realiza-se a Conferncia
de Bandung, que visa acelerar e generalizar a des-
colonizao.  a primeira grande manifestao
pblica de uma corrente de opinio neutralista
que congrega vrios paises (doe. 17).

     Por iniciativa de Nehru, da Unio Indiana, e
um pouco de Sukarno, da Indonsia, e mais trs
outros pases do antigo Imprio Britnico,
Paquisto, Ceilo e Birmnia (grupo de
Colombo), convoca-se para Bandung (Java) uma
conferncia. Incluindo a China comunista, eram
30 pases, africanos (6) e asiticos (23), inde-
pendentes ou em vias de o ser. Apesar do neutra-
lismo apregoado, h uma forte propenso anti-
americana, potncia imperialista que consideram
mais perigosa do que a URSS.
     Em Bandung condenam o colonialismo *sob
todas as suas manifestaes+ - o que engloba o
colonialismo sovitico na Europa Oriental, a segre-

309

.........................

gao racial,e Israel - defendem a interdio
das armas nucleares e a resoluo pacfica de
todos os diferendos. Campees da coexistncia
pacfica (subscrevem os cinco princpios enuncia-
dos em 1954 por Zhou Eulei: 1.' respeito pela inte-
gridade territorial e soberania; 2.' no agresso;
3.' no ingerncia nos assuntos internos; 4.' igual-
dade de benefcios mtuos e 5' coexistncia pac-
fica) recusam-se a constituir um terceiro bloco,
embora no vejam nenhuma razo para se alistarem
sob a bandeira de qualquer dos outros.
     Este grupo numeroso, em 1960 h 141 pases
independentes dos quais s 25 fazem parte do
campo ocidental e 12 do socialista, manifesta a sua
presena na cena internacional atravs de confe-
rncias, cuja audincia no deixa de crescer.
     Em 1961, em Belgrado, com 25 participantes,
definem a poltica de no-alinhamento. Os seus
mentores, Tito, Nehru e Nasser (doc. 18), pre-
tendem dissolver os blocos existentes que consi-
deram negativos para a paz mundial. Depois, com
regularidade trienal, numerosos pases da Africa e
da Amrica Latina vo-se juntando. No Cairo, em
1964, so 46, em Lusaka, em 1970, so 54, em
Argel, 86 em 1973, depois Colombo, Havana, etc..
     Em 1979, a 6.' conferncia reafirma os princ-
pios de no-alinhamento (doc. 19), mas, como em
muitas das outras, para alm da retrica no sai
muito de concreto porque o Terceiro Mundo s
se entende sobre um pequeno nmero de ques-
tes. Esto demasiado divididos por clivagens
ideolgicas, interesses econmicas contraditrios
e conflitos fronteirios para poderem mudar ver-
dadeiramente o equilbrio entre os dois grandes.
     Mesmo entre os fundadores, Tito deseja uma
estrita neutralidade, Nasser explora ao mximo a
oposio entre os EUA e a URSS, Fidel Castro
quer fazer do campo socialista o aliado natural dos
no-alinhados e Nehru pugna por um pacifismo

herdado da atitude de no-violncia no combate
ao colonialismo defendida por Gandhi (doc. 20).
     Se a solidariedade foi difcil de manter durante
os anos de luta pela independncia, com o desa-
parecimento do colonialismo a unidade do
Terceiro Mundo no resistiu. Contudo, firme no
objectivo que passa para primeiro plano nas preo-
cupaes do movimento depois da Conferncia de
Argel (I 973), a luta por uma nova ordem econ-
mica mundial e pelo dilogo Norte-Sul, o movi-
mento dos no-alinhados preserva alguma unidade.

310

      que, se a descolonizao  um facto definiti-
vo e um progresso, o fim do colonialismo no
comportou o fim do imperialismo que, abusando
da sua superioridade econmica, tecnolgica, cien-
tfica e militar, inaugurou uma forma nova de
domnio, o neocolonialismo (doc. 21), assente
na mesma forma de explorao descrita - a troca
desigual (doc. 22).
     A falta de unidade e credibilidade do Terceiro
Mundo manifesta-se tambm na fragilidade de
numerosas organizaes regionais ou continentais
de solidariedade fundadas.  o caso da Liga Arabe,
dividida pela questo israelo-rabe, e  o caso da
Organizao da Unidade Africana (OUA), criada
no rescaldo da descolonizao (doc. 23).
     Com sede em Addis Abeba, conta hoje 50 pa-
ses. Procura garantir a integridade territorial dos
seus membros e desenvolver a cooperao entre
Estados africanos (doc. 24), mas a crise interna 
profunda com o boicote desencadeado por
Marrocos e outros pases rabes descontentes com
o problema Sarau.

3.   OS BASTIES BRANCOS NA AFRICA
     AUSTRAL

     Com o direito dos povos disporem de si mes-
mos, o colonialismo bateu em retirada deixando,
contudo, sequelas visveis no neocolonialismo e,
no Sul de Africa, no ltimo bastio de populao
branca, a institucionalizao de todo um conjun-
to de antigas prticas discriminatrias. Depois de
abatida a ideologia racista nazi, em meados dos
anos 40, o mais importante ncleo de segregao
racial, o apartheid*, manteve-se em vigor na
Africa austral por quase meio sculo (doc. 25).
     As populaes autctones de origem pr-his-
trica e outros grupos africanos que, como os
Boxmanos e os Hotentotes, se instalaram na regio
ao longo dos sculos, sobrepuseram-se, a partir do
sculo XVI, os Bantos (de que os mais conhecidos
so os Zulus), vindos da Africa Central. Tinham
comeado ento os Portugueses a visitar o litoral
(Bartolorneu Dias, 1488), mas sem ali se instala-

rem. O exemplo foi seguido, a partir de 1602, pelos
Holandeses da Companhia das ndias Orientais.
     Em 1652, os primeiros europeus a fixarem-se
na Africa do Sul so holandeses e fundam no Cabo
um primeiro estabelecimento permanente. Estes colo-
nos, os free burghers (ou beres*), agiram como

verdadeiros pioneiros, recusando  Companhia
qualquer autoridade. Repeliram para o norte ou redu-
ziram  escravido os autctones quase praticando
um genocdio e constituram uma minoria fechada
poltica, social e religiosamente. Em 1685, a revoga-
o, por Lus XIV, do dito de Nantes provocou
uma forte migrao de huguenotes franceses, que
veio reforar a colonizao holandesa.
     Colidindo com os interesses estratgicos dos
ingleses no Cabo, mais tarde tambm com os eco~
nmicos devido  descoberta de diamantes em
Kimberley e de ouro no Transval, holandeses e
britnicos envolvem-se em lutas violentas por
vrios perodos entre os primeiros anos do sculo
XIX e a vitria final sobre os beres em 1902.
Estes tinham-se, em 1835, acantonado principal-
mente no Transval e no Orange e, juntamente com
os ingleses do Natal e do Cabo, constituem, em
1910, a Unio Sul-Africana, membro da
Commonwealth, independente e com regime repu-
blicano em 193 1. Abandona a comunidade brit-
nica em 1961, devido  condenao do apartheid,
e toma a designao de Repblica da Africa do
Sul, consentindo no seu interior *bantostes+,
regies teoricamente autnomas e tendencialmen-
te independentes. Estes Estados bantos ocupavam,
no incio dos anos 60, 16% da rea total.
     Este passado teve reflexos na composio da
populao formada por quatro grupos bem dis-
tintos: os brancos, 17%; os negros, 70%; os mes-
tios, 10%; e os asiticos, 3% (doc. 26).
     Os ltimos esto ligados geralmente ao comrcio
e, com os mestios, formam uma categoria social
intermdio. Os negros das zonas rurais, que so
em grande parte mantidos em reservas, praticam
uma agricultura tradicional; e os das zonas urbanas,
formam um subproletariado com condies de
vida muito precrias em zonas industriais e minei-
ras. Quanto aos brancos, dominam a administrao
e a economia (doc. 27) e impem uma poltica de
segregao racial muito rigorosa (doc. 28).
     O apartheid (doc. 29) deveu-se, na sua origem,
menos a um racismo teorizado (doc. 30) do que a
uma concorrncia cada vez mais viva entre a
mo-de-obra branca e negra no seio do capita-
lismo mineiro. A ideologia no esconde os funda-
mentos econmicas de uma poltica que tende a
proteger a minoria branca da presso dernogrfica e
da crescente urbanizao negras e da formao de
uma burguesia concorrente, negra ou mestia.


     Sob o ponto de vista estritamente poltico,  o
Partido Nacional que, no poder depois de 1948,
vai regular meticulosamente a segregao: leis
sobre o casamento, o ensino, os transportes, a resi-
dncia, o trabalho e excluso cvica que, em 1964,
culmina num longussimo processo poltico com o
fundador e lder do ANC (African National
Congress), Nelson Mandela (doc. 31), detido numa
priso durante 26 anos.

4.   A POLITICA ULTRAMARINA
     PORTUGUESA

     Os problemas coloniais estiveram sempre no
cerne da poltica portuguesa. Monarquia e rep-
blica no se distinguem nesse particular e a segun-
da superlativiza mesmo essa ateno e interesse.
     O Estado Novo, regime nacionalista, nem
depois da sua admisso na ONU admitiu proceder 
descolonizao porque ser a terceira maior potncia
colonial justificava o orgulho de ser portugus.
Ainda no perodo da ditadura, aps o 28 de Maio,
generalizara-se a expresso *Imprio Colonial
Portugus+, consagrara-se a convico de que
*Portugal no  um pas pequeno+ e proclamavam-se,
num texto legal de grande significado histrico, o
Acto Colonial (1 930), (cf. p. 477, doc. 49, 1.0 vol.)
os grandes princpios da poltica e da adminis-
trao ultramarina portuguesas. A Constituio de
1933 afirmava como sendo da *essncia orgnica da
nao portuguesa a misso histrica de possuir e
colonizar territrios ultramarinos e de civilizar as
populaes indgenas neles compreendidas+.
     Em Salazar h uma genuna crena na misso
civlizadora de Portugal e na determinao da
necessidade do cumprimento desta vocao his-
trica (doc. 32), e a neutralidade de Portugal
durante a 11 Guerra Mundial obviou uma situao
que, como vimos, favoreceu a deciso das outras
potncias no manterem as colnias.
     Pela reviso constitucional de 1952, as colnias
portuguesas passaram a chamar-se provncias
ultramarinas, embora a maioria dos indgenas no
tivesse efectivos direitos de cidado. Para isso,
para que os naturais de um Estado dito pluriconti-
nental, os possussem teoricamente, isto , fossem
considerados *assimilados+, era exigido saber ler e
escrever o portugus, ser cristo, viver  europeia,
fazer prova de estabilidade econmica atravs do
pagamento de impostos e cumprir o servio militar.

311

     Eram os requisitos que Portugal julgava essen-
ciais para a assimilao do Africano que, desde
logo, poderia ento eleger, com os *no-indgenas+,
brancos e mestios, representantes  Assembleia
Nacional. Alm do direito de voto, podiam viajar

sem autorizao prvia. estavam isentos do trabalho
contratara] (sistema restritivo do trabalho que se
tinha adoptado com a abolio da escravatura em
1 878) e dispensados de trazer consigo carto de
livre-trnsito. Os *indgenas+ alm destas restries
estavam sujeitos aos direitos nativos.
     O analfabetismo era o maior obstculo  assi-
milao (em 1950, na Guin, a percentagem era de
98,8%, em Moambique de 97,8%, e 96,4% em
Angola) porquanto o bem-estar econmico se
acentuara com a procura de culturas de exportao,
como o caf e o algodo e, assim, no espanta que
os primeiros chefes dos grupos nacionalistas fos-
sem mestios ou assimilados.
     O tribalismo foi um factor importante na for-
mao dos agrupamentos nacionalistas e a aproxi-
mao de alguns destes ao bloco sovitico velo jus-
tificar a posteriori a tese salazarista de que a defesa
das colnias portuguesas se definia num quadro
estratgico mais vasto de defesa da prpria reta-
guarda da Europa face ao expansionismo russo.
     Esta posio valeu-lhe alguma simpatia inter-
nacional e o velado apoio da administrao
Eisenhower e do governo do presidente brasileiro
Kubitschek de Oliveira. Apoio mesmo quando a
ONU j se impacientava com a recusa de
Portugal em prestar informaes estatsticas
sobre os territrios no-autnomos que adminis-
trava com o pretexto de se tratar de uma inge-
rncia inaceitvel no ultramar portugus, conce-
bido como um todo, uno, pluricontinental e plu-
rirracial (doc. 33). Era esquecer os aspectos j
referidos da discriminao e deixar na sombra o
interesse econmico desses territrios que, efecti-
vamente, contribuam para a economia portuguesa.
Era o nico sector que registava com regularidade
um excedente comercial e que constitua uma fonte
de lucros e um mercado para uma populao
metropolitana pobre e sem competitividade.

     A guerra colonial

     A independncia da India perfila-se como a
primeira grande ameaa para a posio portu-

          Z@1
guesa. A Unio Indiana pretende integrar no seu

312

territrio o *Estado Portugus da ndia+ logo
no incio dos anos 50. Jogando com o prestgio
de que Nehru goza no selo do movimento afro-asi-
tico como lder da tendncia pacifista, o governo
de Salazar empurra-o para fora do terreno diplo-
mtico querendo obrig-lo a uma soluo militar
(doc. 34). Apela, alm disso, ao Tribunal
Internacional de Justia da Haia pedindo o reco-

nhecimento internacional do direito de passagem
para os enclaves de Dadr e Nagar Aveli, que,
com Goa, Damo e Diu, completavam o territrio
portugus. O Tribunal d razo a Portugal
cabendo  Unio Indiana regular o uso desse direi-
to, mas, com episdios vrios, em 1961, d-se a
invaso e a anexao dos territrios pela fora.
     Mas, alm desta, as *olto provncias portugue-
sas de alm-mar+ tambm mexiam. Tumultos nas
roas de S. Tom, agitao e greves entre os tra-
balhadores contratados do Norte de Angola, gre-
ves nos portos de Loureno Marques e de Bissau,
precedem os movimentos propriamente militares.

     Nos anos 50 tinham surgido as primeiras orga-
nizaes independentistas, UPA (Unio dos Povos
de Angola), FNLA (Frente Nacional de Libertao
de Angola), MPLA (Movimento Popular para a
Libertao de Angola); mais tarde, a UNITA (Unio
Nacional para a Independncia Total de Angola)', o
PAIGC (Partido Africano para a Independncia da
Guin e Cabo Verde) e a FRELIMO (Frente de
Libertao de Moambique); e formado os primei-
ros lderes de grande prestgio intelectual, Amlcar
Cabral (doc. 35), Eduardo MondIane (doc. 36),
Agostinho Neto, Padre Joaquim Pinto de Andrade,
Aquino de Bragana (doc. 37), que do um con-
tributo terico aprecivel para o movimento ter-
ceiro-mundista da descolonizao.
     Com os afro-asiticos majoritrios na ONU, e
Kennedy na Casa Branca (1960), simpatizante dos
*ventos de mudana+ em Africa, eclodem, em
Maro de 1961, os primeiros levantamentos
armados anticolonialistas no ultramar portugus.
No Uge, Norte de Angola, foram massacrados
algumas centenas de brancos e morreram 7000
africanos leais. Soldados portugueses na regio
no havia e, no conjunto da provncia, contavam-se
apenas 3000.
     Perante a desorientao geral e a surpresa,
foram feitas imediatamente concesses de natureza
econmico-social e de natureza poltica mas que

vinham tarde para deter o movimento guerrilheiro.
Em 1963,  o PAIGC que comea a guerrilha na
Guin e, em 64, a FRELIMO em Moambique.
     Militarmente, a superioridade tcnica portu-
guesa era enorme. Entre Agosto e Setembro de
1961, o exrcito fez cerca de 50 000 vtimas e
recorreu  experincia recente dos Estados Unidos
no Vietname quer para treino contra-insurreccional
quer dos prprios recursos blicos (bombas,
napalm, fora area para cortar as linhas de rea-
bastecimento dos guerrilheiros). Os principais
combates foram da responsabilidade de unidades
de elite, pra-quedistas, comandos e fuzileiros
navais que, como todas as outras tropas, incluam
negros (docs. 38-A e B).

     Quanto aos guerrilheiros rebeldes, inicial-
mente apenas armados de algumas espingardas,
catanas e armas improvisadas, depois melhor
armados e treinados (doc. 39), procuram tirar van-
tagens do terreno e das condies climticas, cir-
cunscrevem-se  guerrilha rural e aproveitam as
posies fronteirios (docs. 40-A e B). Da rece-


DocumENTOS
1wM

bern proteco, treino e refgio alm de funciona-
rem como base para os apoios de outras potncias
de qualquer dos blocos.
     Com uma guerra a eternizar-se exigindo um
enorme esforo econmico e humano da metrpole
(doc. 41), em 1974, a situao das trs colnias era
distinta. Perdida na Guin, num impasse em Angola
e Moambique, mas em todas elas exigindo a nego-
ciao poltica que o regime recusava (doc. 42).
     O progresso fora imenso: casas construdas,
escolas, hospitais, estradas em ritmo acelerado.
Os mortos militares, europeus e africanos, foram
calculados em 1 1 000 e os feridos em 30 000.
Quanto aos traumatismos e sofrimentos morais
no so contabilizveis.
     Mas uma coisa parece certa: de tal maneira se
identificou a questo do regime de Salazar e
Marcelo Caetano com a questo colonial que a
soluo desta no era compatvel com a manuten-
o daquela. S o derrube do regime permitiu solu-
cionar a questo e foi esta que determinou a sua
queda (doc. 43).



O NASCIMENTO DO TERCEIRO MUNDO

     Nasce principalmente atravs do poderoso movimento de 
descolonizao gerado pela toma-
da de conscincia do carcter insuportvel e no inelutvel da 
dominao colonial, pela vontade
de independncia (a maior parte das vezes sob a forma de 
independncia nacional), atravs da
guerra, do reforo, aqui de novas burguesias, e ali da inteligentsia. 
O enfraquecimento das metr-
poles europias, a ocupao japonesa na Asia, a participao de 
homens destes pases nas bata -
lhas das metrpoles europias, a influncia das anlises marxistas e 
das perspectivas abertas
pela revoluo sovitica, ou o reforo a partir duma especificidade 
nacional e religiosa dum
movimento de libertao, deixou transparecer que existia uma 
alternativa, sobJormas diferen-
tes e segundo mltiplos processos: que era possvel a libertao do 
domnio colonial, da admi-

nistrao colonial, da explorao colonial, do paternalismo, do 
racismo, dos vexames ou da
opresso... Independncias: Sria, Lbano, Filipinas, ndia, 
Paquisto, Birmnia; processo da
independncia indonsia recheado de ciladas; guerra da Indochna; 
revoltas e movimentos
populares na Africa do Norte e na Africa negra... Antes mesmo que a 
descolonzao poltica
tenha terminado em todo o mundo, os novos Estados independentes 
procuram reconquistar o
domnio das suas riquezas naturais (nacionalizao do petrleo 
iraniano em 1951) ou dos
seus trunfos econmicas (nacionalizao do canal do Suez pelo Egipto 
em 1956). Os chefes de
Estado do Terceiro Mundo renem-se e procuram constituir umafora que 
pese nos destinos do
planeta: e , em 1955, a conferncia afro-asitica de Bandung; uma 
trintena de pases, mas que
representam mais de metade da populao da terra e sobretudo que 
falam, com uma nova
fora, uma linguagem que a dominao ocidental tinha at aqui 
silenciado.

                                   M.   Beaud, HistOria do 
capitalismo, Lisboa, 1992.


313

               L'J ]

A POSIO AMERICANA

                    *No se podia lutar contra a servido fascista e 
ao mesmo tempo no libertar sobre toda a
               superfcie do globo os povos submetidos a uma poltica 
colonial retrgrada. + O secretrio de
               Estado Cordell Hull precisa a 20 de Novembro de 1942: 
*Eu disse que o presidente [Roosevelt]
               e eu e todo o governo, desejamos insistentemente a 
liberdade para todos os povos dependentes,
               o mais cedo possvel. +

                                   H.   Grimal, La Dcolonisation 
1919-1963.



A POSIO SOVITICA

                    A crise do sistema colonial,'acentuada com ofim 
da Segunda Guerra Mundial, manifesta-se
               pelo poderoso desenvolvimento do movimento de 
libertao nacional nas colnias e nos pases
               dependentes. Por a mesmo a retaguarda do sistem 
capitalista acha-se ameaada.
                    Os povos das colnias j no querem viver como no 
passado. As classes dominantes j no

               podem governar as colnias como dantes. As tentativas 
de esmagamento dos movimentos de
               libertao nacional enfrentam agora a crescente 
resistncia armada dos povos das colnias e
               conduzem a guerras coloniais de longa durao: a 
Holanda na Indonsia, a Frana no
               Vietname.
                                                            .... . 
.... ....... ...

                                   Relatrio Jdanov, 27 de Setembro 
de 1947.




A POSIAO DA ONU

                    o                
sEstadosmembrosdaOrganizaodeveiiireconhecerefavorecerarealiz ao, 
no que diz
               respeito s populaes dos territrios sob tutela da 
sua administrao, do direito dos povos dis-
               porem de si prprios e devem facilitar o exerccio 
deste direito aos povos dos seus territrios,
               tendo em conta os princpios e o esprito da carta das 
Naes Unidas no que respeita a cada ter-
               ritrio e de acordo com a vontade livremente expressa 
das populaes interessadas, sendo deter-
               minada a vontade da populao atravs de plebiscito ou 
qualquer outro meio democrtico, de
               preferncia sob a gide das Naes Unidas.
Resoluo sobre o direito dos povos disporem deles prprios, 16 de 
Dezembro de 1952.



  Heterogeneidade das aspiraes nacionais:
        os novos pases independentes
               Os povos submetidos  colonizao ou si               
 .          mplesmente abertos aos contactos com a Europa
          receberam no sculo XIX uma mensagem indirecta de 
emancipao. [...                          1 Com a Primeira
          Guerra Mundial, a ideologia marxista universalista 
propaga-se, nomeadamente na Asia,
          enquanto a afirmao da comunidade das naes rabes do 
Mdio Oriente prope um quadro
          que, tambm ele, escapa sfronteiras. Todavia, a 
reivindicao nacionalista do mundo colonial,
          e mais ainda a das naes emancipadas da Amrica Latina, , 
em primeiro lugar, a que a acul-
          turao ocidental europeia transmitiu: uma ideologia 
*tnico-nacional+ [...                   1. A afirmao do
          direito dos povos a disporem de si prprios no podia 
deixar de suscitar esperanas.
314
     As aspiraes nacionais do mundo dominado exprimiram-se por 
vezes atravs de revoltas

abertas ou mesmo de movimentos insurreccionais. Maisfrequentemente,  
aformao de par-
tidos polticos e o endurecimento das suas posies reivindicativas 
que permitem apreciar a
intensidade das presses nacionalistas. Mas a legitimidade do pacto 
colonial, pouco contestada
nas metrpoles, est ainda em larga medida estabelecido na Asia, e 
sobretudo na Africa. Os
deputados locais exigem reformas que tm por objecto integrar mais 
completamente as colnias
na economia das metrpoles. A reivindicao de autonomia passa ainda 
pela da integraro.
Esta aspirao encobre conflitos de poder e divergncias de 
interesses no seio do mundo
dominado. Trs tenses sucessivas as revelam. Primeiro, a luta contra 
a dominao estrangeira.
Depois, a oposio s classes dominantes. Finalmente, o nacionalismo 
impregna as instituies
e os regimes polticos.

                                   G.   Dupeux, in Pierre Lon, vol. 
v, tomo ii, ob. cit.


Os antigos Estados colonizados: a Amrica Latina

     A resistncia do nacionalismo  penetrao estrangeira no era 
um facto novo
     Todavia, durante o nosso perodo, so antes os *modelos+ 
autoritrios que parecem mais
tpicos. O *getulismo+ de Vargas, no Brasil, que dominara antes de 
1940 e se perpetua, no sem
eclipses, para alm de 1950, o *justicialismo+ de Juan e de Evita 
Pern, que se impe na
Argentina, a partir de 1953, inspiram-se indubitavelmente nos 
totalitarismos europeus. Como
estes, opem-se ao capitalismo, pelo menos em palavras, e propem-se, 
segundo a Constituio
argentina de 1949, realizar *o bem-estar do povo, no seio de uma 
ordem econmica conforme
aos princpios da justia social+. A estes objectivos esto 
estreitamente ligadas as suas ideias
sobre a independncia econmica nacional necessria, condio 
indispensvel da promoo das
massas rurais e urbanas.
     Requer isto um enorme esforo de produo e de re rmas 
estruturais, mas tambm - e

                    . f(
sobretudo - uma luta obstinada contra a *finana internacional+, isto 
, contra os grupos ian-
ques, cujos tentculos  preciso abrir A realizao da justia social 
e do bem-estar popular
passa, portanto, pelo nacionalismo econmico, pelo nacionalismo puro 
e simples.

                                   P.   Guillaume in P. Lon, vol. v, 
tomo ii, ob. cit.



                                   NACIONALISMO AFRICANO

     A seguir  Segunda Guerra Mundial era ainda possvel contrapor o 
mundo rural consue-
tudinrio, sujeito  autoridade dos chefes tradicionais, ao mundo 
*aculturado+ do sector
moderno e das cidades. Os primeiros dirigentes nacionalistas saram 
todos deste ltimo meio:
eles encarnavam as reivindicaes de uma classe nova, ligada a 
recentes processos de acu-
mulao, e constituam, assim, uma jovem elite que se sentia chamada 
a desempenhar um papel
predominante, quer como representantes da pequena burguesia dos 
negcios [...       1 ou da cama-
da dos plantadores abastados [...    1, quer como militantes 
sindicalistas [... 1. Na luta contra a
colonizao, a independncia foi o momento privilegiado da conjuno 
de interesses entre esta
elite e as classes populares: foi a fora de um homem como Nkrumah, o 
nico representante do
mundo do comrcio (era negociante de madeiras) no seio de uma oposi  
   .o conduzido pela elite
cultural (composta de juristas ou de professores primrios), mas 
apoiado pela massa dos
pequenos escriturrios e dos pequenos plantadores descontentes - isto 
, pela categoria
popular mais apta para a mobilidade social.

                         Denis-C. Lambert, in P, Lon, vol. v, tomo 
ii, ob. cit.

                                                            315

DA UNIDADE
DA LUTA PELA
INDEPENDENCIA
A CISO




                     J1






                              AS MIGRAOES

                              Consequncia da partilha
                              da Pennsula do Industo






.








                     @Af




                      A








316

-N







                    10 milhes
                     e  l@nos
                    para a India

                   7,5 milhes
Amritsar

                    de muulmanos
                    para o P aquisto


                    Delhi



                   Calcutt









          LIDERES CARISMATICOS

          DOS MOVIMENTOS

          DE LIBERTAO NACIONAL



Ho Chi Minh
(1890-1969)
Indochina








                              Ahmed Sukarno
                         (1901-1970) - Indonsia



                    Kwarne Nkrumah
                    (1909-1972) - Gana

                                                            VIM


                                        O DESPERTAR DE AFRICA

     A. Os fundamentos da *africanidade+                             


     Sobre osfundamentos culturais do nosso destino comum [...       
1 digo mais ou menos o seguin-
te: fundar uma organizao comum s sobre a base do anticolonialismo 
 dar-lhe uma base
muitofrgil. Porque no  o passado colonial que nos caracteriza 
enquanto africanos. Isso 
algo que temos em comum com todos os povos da Africa e da Amrica. 
Isso  o passado [...            1,
sobretudo quando se trata de construir o nosso,futuro. Esse futuro s 
pode repousar em valores
que sejam comuns a todos os africanos e que sejam, ao mesmo tempo, 
permanentes.  preci-
samente ao con unto destes valores que chamo *africanidade+.
      minha inteno tentar definir estes valores. So 
essencialmente, os valores culturais. Mas
estes esto condicionados pela geografia, pela histria e a 
etnografia, se no pela raa.
Sempre defini a *africanidade+ como a simbiose complementar dos 
valores do arabismo e dos
valores da negritude.
     [... 1 Farei um esforo para demonstrar que esta simbiose por 
mestiagem se realizou pri-

meiramente ao nvel da raa e dos etnos [...   1 e abordarei as 
convergncias que descobri nas cul-
turas rabes e negro-africanas.  esta a altura de distinguir trs 
termos que se confundem sem-
pre: a raa, que  uma comunidadefsica; o povo ou o etnos, que  uma 
comunidade cultural,
e a nao, que  uma comunidade poltica.

                         Lopold Senghor, Fundamentos de Ia 
africanidad, Madrid, 1972.


                         B. A consciencializao negra

     A Consciencializao Negra  uma atitude de esprito e uma forma 
de vida. A filosofia da
Consciencializao Negra exprime orgulho de grupo e a determinao de 
promover os negros
para que adquiram auto-conscincia... Na origem deste pensamento 
reside a ideia de levar os
negros a realizar que a mentalidade dos oprimidos  a arma mais 
poderosa na mo dos opres-
sores... Teremos de implementar os nossos prpri   .os 
esquemas,,formas e estratgias, segundo as
necessidades e situaes, conservando sempre em nossas mentes as 
nossas crenas e valores
fundamentais.

                                                       Steve Biko, 
1972.



                                   O PAPEL DA CULTURA NACIONAL

     O estudo da histria das lutas de libertao mostra que, em 
geral, elas so precedidas por
um aumento de manifestaes culturais, que se concretizam por uma 
tentativa, conseguido ou
no, de afirmao da personalidade cultural do povo dominado e como 
acto de negao da cul-
tura do opressor Quaisquer que sejam as condies de sujeio de um 
povo ao domnio
estrangeiro e a influncia dosfactores econmicas, poltico e 
sociais, , em geral, na cultura que
se situa o grmen da contestao, conduzindo  estruturao e ao 
desenvolvimento do movi-
mento de libertao... Um povo que se liberta noser culturalmente 
livre a no ser que, sem
complexos e sem subestimar a importncia dos contributos positivos da 
cultura do opressor e
de outras culturas, retome a via ascendente da sua prpria cultura, 
que se alimenta da realidade
viva do meio e nega tanto as influncias nocivas como qualquer 
espcie de sujeio s culturas
estrangeiras... A libertao nacional  necessariamente um acto de 
cultura.


                                             Amilcar Cabral, Unit et 
lutte.

                                                            317

          O BIPOLARISMO EM QUESTO (1955-1973)
                ....... .......... ... ... ... ..


O TERCEIRO MUNDO E AS CONDIES DO EXTREMO ORIENTE

                     certo que os Estados Unidos se substituram em 
grande medida  Europa, mas sem
               poderem opor-se  edificao de sociedades comunistas. 
O Extremo Oriente viu assim con-
               jiontarem-se imperialismos, afirmarem-se 
nacionalismos, edificarem-se novas estruturas eco-
               nmicas e sociais. Por vezes, os imperialismos 
encorajaram os nacionalismos. O nacionalismo
               conjugou-se frequentemente com o ideal socialista. Em 
1950, a Guerra da Coreia situa o
               Extremo Oriente como o teatro designado do confronto 
directo entre os mundos liberal e
               comunista. [...                1
                    Extremo Oriente e Sueste Asitico constituem um 
mundo do qual a Europa  assim pro-
               gressivamente excluda, mas onde se enfrentam as duas 
superpotncias, Estados Unidos e
               URSS, a partir de 1950. Uns e outra iriam sofrer ali 
muitos dissabores, enquanto os comunis-
               tas asiticos afirmavam a sua vontade de se libertarem 
de qualquer dependncia.

                                   P.   Gillaurne, in Pierre Lon, 
vol v, tomo ii, ob. cit.






               A DESCOLONIZAO NA ASIA






               UNIO SOVITICA




                         -12

                                                                 O

                                        REPBLICA POPULAR CHINESA

          TURQU


                    BUTO
                     AME
                    NORTE

     JORDANIA                                                     
C-ka
     1946                                                            
1 NG (b,.)
                                                   MACAU (p.,t.)
                     ND
                    1947,

                                                            U.S.A.
                                                                 vi
7                                                         Ma,ia-s
                                                   11)49/55

                  )CAMBODJA

                    eil.
                                             Maldiv

          AFRICA                                                     
 GUINE
                                                                  S

                                                   N 4 SIA

                                                            ,,,),1976





IM Estados independentes entre 1945 e 1959 Estados independentes 
depois de 1961

S esto assinaladas as datas mais significativas da independncia




318

               A DESCOLONIZAO EM AFRICA

                                                                 A.

                     IA

                    MALTA
                                   MARROCOS@1 '                      
   1964

                                             1956


                                                       ARGRIA

                                                       1962          
          UBIA

                                                              EGIP
          SAHA


                                  MAURITANIA
                    /S, ca,86.s

                    (SP.)

                    SENE@ @AL 1960                                   
            1960
                    GAMBIA 1965                                      
            SUD,

                    GUINE BISSAU
1974                                                            6 
DJIBU'

                                                            1977
                         GUINE 1958
                         SERRA LEOA                                  
               ETIPI
                            1961                                     
                 CENI

COSTA DO MARFIM GA                                         GANDA-
                                                      1962 KENYA

                                                            1963


BENIN             ZAIRE
                  1960   RUANDA -    Y,
                         BURUND1@
GUINE EQUATORIAL
                         1962

        1968                             Is. &-celle.
                         TANZANIA,,      1976

                                                            1964

                                                            ANGOLA

                                                                     
           l'. C-0,---
                                   1975                              
                              MALAWI                                 
           6C@,1975r\
                                   S.                                
        Hei,-,,.                                                     
                    ZAMBIA,                                          
 1964
                                   (b,)                              
                                                1964



                                                         MOAM6101  
Rodgues
                                                                    
(b,.)

                                         MIBIA  RODESIA
                                                         MA



                                                ANA      1975
                                         OTSW
Estados independentes entre 1945 e 1959  @9
                                         _@6                        
Rmio

Estados independentes em 1960
                                                         ILANDIA

Estados independentes depois de 1960     REP.            966

S esto assinaladas as mais significativas datas da independncia 
SYL AFR1CAN@/








AS VAGAS DE DESCOLONIZAO: CRONOLOGIA E GEOGRAFIA


     Mais de setenta pases, pertencentes na maioria ao Terceiro 
Mundo, conseguiram aceder 
independncia no espao de um quarto de sculo, em grandes vagas 
sucessivas (1945~1948; 1951-
1958; 1960; 1961-1964; 1964-1971), abalando profundamente a geografia 
poltica mun-1---.
     Este grande mpeto nacionalista teve trs grandes epicentros:

     - o foco asitico, em actividade desde a refraco das foras 
japonesas, e animado por
grandes lderes na China, Mao Ts-tung; na Indonsia, Achmed Sukarno; 
na ndia, Nehru; na
Indochina, Ho Chi Minh...

     - o foco arabo-islmico, que achou na sua oposio ao Estado de 
Israel (criado em
1948), um poderosofermento de unidade e se manifestou de diversas 
maneiras durante os anos
50: sucesso de Mossadegh no Iro (1951), motins no Iraque, golpes de 
Estado no Egipto
(Junho de 1952 e Novembro de 1954, em benefcio de Nasser), revoltas 
na Tunsia, em
Marrocos e na Arglia a partir de 1954.

     ofoco negro-africano, que no parou de se desenvolver depois de 
1957 (independncia
do Gana), desintegrando os imprios coloniaisfrancs, belga e 
britnico. Nosfinais dos anos
60, os territrios portugueses e a Africa do Sul constituam os 
nicos testemunhos importantes
da colonizao europeia.

                                             J.-F. Soulet, ob. cit.




                                                            3.

ESPECIFICIDADES DA DESCOLONIZAO

     A.           ntida a oposio entre a atitude dos Ingleses e 
dos Americanos, por um lado, e dos Holandeses
     e dos Franceses, por outro. Enquanto os primeiros admitem a 
ascenso dos nacionalismos, os segun-
     dos tentam restabelecer o seu domnio, mais ou menos disfarado 
porfrmulas de associao. [...                     1
     Os laos econmicas [...           1 sobrevivem a uma 
independncia que  de admirar no se ver mais
     celebrar como o primeiro grande gesto de descolonizao. [...   
             1
          Franceses e Holandeses, ao contrrio dos Anglo-Saxnicos, 
recusam-se a renunciar  sua
     soberania. As autoridades holandesas prometeram, durante a 
guerra, a criao de uma

     Commonwealth que reuniria a Holanda, a Indonsia e as Antilhas. 
Recusando-se a reconhecer a
     repblica proclamada por Sukarno, vo jogar com a diversidade do 
mundo indonsio, procurando
     constituir um Estado federal indonsio ligado  antiga 
metrpole. Depois de muitas peri . pci . as,  em
     aplicao destes esquemas que  proclamada, a 31 de Dezembro de 
1949, a soberania dos Estados
     Unidos da Indonsia, mas a 15 de Agosto seguinte Sukarno 
substitui-os por um regime unitrio, que
     nunca estar ligado organicamente  Holanda.
          Os Franceses jogaram idntica cartada, recusando-se a ver 
em Ho Cho Minh o representante de
     toda a Indochina. Procuraram, destinando sortes diferentes para 
as diversas componentes da
     Indochina, reservar para si um papel de rbitro. [...           
 1
          Tanto em Frana como na Holanda, a recusa a ceder perante 
os nacionalismos coloniais foi um
     reflexo quer de preocupaes econmicas, quer de reaces de 
patriotismos feridos pela derrota.
     Juntava-se-lhes uma f sincera numa vocao civilizadora, 
acompanhada, quando a democracia
     crist esteve no poder, num e noutro pas, de vocao 
missionrio.

                                   Pierre Guillaume, in P. Lon, v. 
ii, ob. cit.

A CONFERENCIA DE BANDUNG - 1955

               Comunicado oficial que resume os 10 princpios 
fundamentais sobre os quais
               haveria de basear-se a coexistncia entre os povos
                                                                 .... 
. .....
1)   Respeito dos direitos humanosfundamentais, conforme osfins e os 
princpios da Carta das Naes Unidas.
2)   Respeito pela soberania e integridade territorial de todas as 
naes.
3)   Reconhecimento da igualdade de todas as raas e da igualdade de 
todas as naes, grandes e pequenas.
4) No interveno e no ingerncia nos assuntos internos de outros 
pai    1ses.
5)   Respeito do direito de cada nao a defender-se individual ou 
colectivamente conforme foi estipulado na Carta
     das Naes Unidas.
6)   a) Recusa de todo o pacto de defesa colectiva destinado a servir 
os interesses das grandes potncias, seja quaisforem.
     b)   Recusa de toda a presso que uma potncia pretenda exercer, 
seja qualfor a potncia.
7)   Absteno de actos ou ameaas de agresso, ou de emprego da 
fora contra a integridade territorial ou a inde-
     pendncia poltica de um pas.
8)   Soluo de todos os conflitos por mtodos pacficos, tais como a 
negociao ou conciliao, arbitragem e acor-
     do perante tribunais, assim como pelo emprego de outros meios 
pacficos que os pases interessados podero

     escolher, conforme a Carta das Naes Unidas.
9)   Estmulo dos interesses mtuos e da cooperao.
1    0) Respeito  justia e s obrigaes internacionais.


                                              Pases participantes

Afeganisto     China (Repblica)  Etipia    Iro                  
Libria    Sudo                  Vietnarne (Repblica
Arbia Saudita  Popular            ilipinas   Japo                 
Lbia      Tailndia              do - Sul)
Birmnia        Costa de Ouro      India      Jordnia              
Nepal      Turquia                lmene
Camboja         (futuro Gana)      Indonsia  Laos                  
Paquisto  Vietriarne (Repblica
Ceilo          Egipto             Iraque     Lbano                
Sria      Democrtica - Norte)

                                                       .... . ... 
................

                    Colonialismo e neocolonialismo, Rio de Janeiro, 
1979.

320

                                                            i42. ik








                                                            A 
CONFERENCIA
                                                             DE 
BELGRADO



                                        A poltica de
                                   no -alinhamento
                                   nasceu em Belgrado
                                   em 1961. Os seus
                                   promotores so
                                   Tito, Nehru,Nasser






                    A POUTICA DE NO-ALINHAMENTO: 1979


     10   O Movimento dos Pases no Alinhados, que nasceu no meio 
dafalncia do sistema
colonial e da luta emancipadora dos povos da A                  

                    firica, Asia, Amrica Latina e outras regies do
mundo, e no apogeu da guerra fria, foi um factor essencial no 
processo de descolonizao que       19
conduziu ao alcanar da liberdade e da independncia por muitos 
pases e povos e  formao
de dezenas de novos Estados soberanos, e  preservao da paz 
mundial. O aparecimento de
novos pases independentes que optaram por um desenvolvimento 
poltico livre e recusaram com
deciso a polarizao em blocos, as polticas de blocos, os pactos ou 
alianas militares e as
polticas que tendem a dividir o mundo em esferas de influncia ou a 
impor qualquer outra
forma de domnio, deu um impulso histrico a esta luta pela 
emancipao total. A partir da sua
fundao, o Movimento dos Pases no Alinhados sustentou uma batalha 
constante para
garantir que os povos oprimidos pela ocupao e domnio estrangeiros 
possam exercer o seu
direito inalienvel  livre determinao e independncia; uniu as 
suasforas com ofim de esta-
belecer uma Nova Ordem Econmica internacional que permitir aos seus 
povos desfrutar das
suas riquezas e recursos naturais e lograr um nvel de vida mais alto 
e oferecer uma platafor-
ma geral para uma mudana bsica das relaes econmicas 
internacionais e a plena eman-
cipao econmica; e desempenhou um papel decisivo nos esfioros 
tendentes a manter a paz,
promover a distenso internacional e eliminar os,focos de agresso ou 
tenso em todo o
mundo, e a promoo de solues justas para os problemas 
internacionais. Contudo, existem
ainda situaes perigosas e srias que os obrigam a fiortalecera sua 
unidade, coeso e coo-
perao parafazerfrente aos perigos comuns e superar esses 
obstculos.

     11 - Tomando em conta os princpios em que se baseou o no 
alinhamento e a elaborao
ulterior desses princpios nas conferncias ao mais alto nvel de 
Belgrado, Cairo, Lusaka, Argel
e Colombo, a 6  . Conferncia reafirmou        a luta contra o 
imperialismo, o colonialismo, o
neocolonialismo, o apartheid, o racismo, incluindo o sionismo, e 
qualquerforma de agresso,
ocupao, dominao, ingerncia ou hegemonia estrangeiras, assim como 
a luta contra as pol-
ticas de grandes potncias ou de blocos. Por outras palavras, a 
recusa de qualquerforma de
subordinao, dependncia, ingerncia ou interveno directa ou 
indirecta, e de quaisquer pres-

ses, quer sejam econmicas, polticas, militares ou culturais, nas 
relaes internacionais.

                                        Acta final da Conferncia de 
Havana.

                                                            321

                      a

               O SIPOLARISMO EM QUESTO (19W1973)
                       -..............

O COMBATE AO COLONIANISMO

AO                                                 A. Gandhi e Nehru








     B. O despertar da Asia. A questo do uso da violncia

               Quando tenha que se escolher entre a cobardia e a 
violncia, aconselharia a violncia.
          Louvo e exalto a serena coragem de morrer sem matam: No 
entanto, desejo que aqueles que no
          tm esta coragem cultivem a arte de matar e de serem mortos 
em vez de evitarem abjectamen-
          te o perigo. Isto porque aquele que foge comete uma 
violncia mental, no tem a coragem de
          enfrentar a morte matando. Pre riria mil vezes a violncia 
 emasculao de toda uma raa.

                     fie
          Prefiro usar armas em defesa da honra a ser a vil 
testemunha da desonra.

Gandhi - Declarao sobre a questo do uso da violncia em defesa dos 
direitos. Guardian, 16-12-38.




                                             C. A no-violncia

                    A no-violncia  a maiorfora que a humanidade 
tem  sua disposio.  mais pode-
               rosa que a arma mais destrutiva que o homem alguma vez 
inventou. A resistncia passi                      .               va 


               uma espada com mltiplas virtudes. Sem fazer correr 
uma gota de sangue obtm resultados
               extraordinrios. [...                  1 A nossa 
no-cooperao no se dirige nem aos Ingleses nem ao
               Ocidente mas ao sistema que os Ingleses nos impuseram 
e  civilizao materialista que
               encoraja a cobia e a explorao dos maisfracos.

                                             Gandhi, Todos Somos 
Irmos.

322

            @"1M'1j17-I@.t. W;35


                                        O NEOCOLONIALISMO

     O neocolonialismo representa o imperialismo na sua etapafinal, 
qui a mais perigosa. No
passado foi possvel converter um pas ao qual se tivesse imposto um 
regime neocolonial - temos
um exemplo no Egipto do sculo XIX - num territrio colonial. Hoje 
este processo j no  pra-
ticvel. Se o colonialismo passou de moda, o que no quer dizer que 
esteja abolido,  todavia
um problema africano apesar de bater em retirada em todos os stios. 
Uma vez que um territrio
se converteu nominalmente em independente, j no  possvel, como no 
sculo passado,
inverter o processo. Alis, as colnias existentes subsistiro por 
muito tempo, mas no podero
criar-se novas colnias. Em lugar do colonialismo, como principal 
instrumento do imperialismo,
existe agora o neocolonialismo.
     A essncia do neocolonialismo  que o Estado que lhe est 
sujeito, , em teoria, independente
e tem todos os sinais exteriores da soberania internacional. Na 
realidade, o seu sistema eco-
nmico e, com ele, a sua poltica, so dirigidos defora.
     Os mtodos e a forma desta direco podem tomar aspectos 
diferentes. Por exemplo, num
caso extremo, as tropas do poder imperialista podem ocupar o 
territrio do Estado neocolonial
e controlar o seu governo. No entanto, o que acontece com 
maisfrequncia  que o controle neo-
colonialista  exercido atravs de medidas econmicas ou monetrias. 
O Estado neocolonial ser
obrigado a comprar os produtos manufacturados da potncia 
imperialista mediante a proibi-
o de i.mportar produtos competitivos de qualquer pas que seja. O 
controle sobre a poltica
governamental do Estado neocolonial ser assegurado pela nomeao 
defuncionrios civis que
ocupam postos a partir dos quais possam ditar as polticas e mediante 
o controlo monetrio
sobre o cmbio internacional atravs da imposio de um sistema 
bancrio controlado pelo

poder imperialista.
     Onde existe o neocolonialismo, o poder que exerce o controle  
quase sempre o estado que
antes governava o territrio em questo, mas nem sempre  assim. Por 
exemplo, no caso do
Vietname do Sul, o antigo poder imperial era a Frana, e o controle 
neocolonialista do Estado
tm-no agora os Estado Unidos.  possvel que o controle 
neocolonialista seja exercido por um
consrcio de interesses financeiros que no se podem identificar com 
nenhum Estado parti-
cular O controle do Congo por interesses de grandesfinanceiros 
internacionais  um caso.
     O resultado do neocolonialismo  que o capital estrangeiro se 
utiliza mais para a explorao do
que para o desenvolvimento das partes menos desenvolvidas do mundo. 
Sob o neocolonialismo a
distncia entre os pases ricos e os pases pobres do mundo, aumenta 
muito mais do que diminui.

                                   K.   Nkrumah, Neocolonialismo, 
ltima Etapa do Imperialismo, 1966.




                              Bauxite       Petrleo

      (alumnio) Petrleo bruto            DEPENDENCIA DOS PASES
Estanho 76%    75%    76%
-3%                                              INDUSTRIALIZADOS
                    Ferro             DOS PASES PRODUTORES
                    60%                     DE MATRIAS-PRIMAS

                                       NOS INICIOS DOS ANOS 70
                    %    40%

                                   36%      %



                   Consumo
                  Produo


                                                            323

A EVOLUO AFRICANA - A OUA

               Durante a dcada de sessenta, mais propriamente a 
partir de 1965, ano em que sefrustrou
          a Conferncia de Solidariedade Afro-Asitica de Argel, 
segunda *Bandung+, vai-se afirmando
          nas reunies da Assembleia Geral das Naes Unidas o peso 
crescente do grupo africano.

               Simultaneamente, descobre-se que a independncia no  
a panaceia dos males seculares do
          mundo negro, que continuam a existir problemas profundos, 
que em todos os pases africanos
          continua o subdesenvolvimento e a injustia social e que, 
na maioria deles, a independncia
          poltica nofoi acompanhada da independncia econmica: 
persiste ofenmeno do neocolo-
          nialismo. E, sobretudo, constata-se que, apesar de a 
poltica extracontinental dos novos
          Estados africanos ser monoliticamente homognea, continuam 
no seio do continente profundas
          contradies culturais (francfionos e anglfnos), 
econmicas, polticas, tnicas e pessoais
          entre os seus dirigentes.
               A necessidade de superar estas contradies, o desejo 
de consolidar a unidade africana e a
          aspirao a uma independncia completa levam  criao, em 
Dakar (Janeiro de 1962), da
          Confederao Sindical Africana, com um programa de 
libertao total do continente, de con-
          solidao da independncia e do estabelecimento da unidade 
africana, e incitam os Chefes de
          Estado e do Governo a assinar, em Addis Abeba (26 de Maio 
de 1963) a Carta da Organizao
          da Unidade Africana.

     Antnio Jos Fernandes, Organizaes Polticas Internacionais, 
Lisboa, 1980.



MOVIMENTO PARA A UNIDADE AFRICANA

                                   A.   Reunies pan-africanas


                                        R,

                                                                 CA
                                                                 1!

                                                            CARTUN
                                                            1978 o


F        Sede do Banco de          s

1        desenvolvimento Africano
                                   ADDIS
         ACRA


   1979  1965


         EVILLE                    KAMPALA  MOGADI

         1977                      1975     19
         o KINSHASA                DAR ES   SALAAM



         1967


   No mapa a seguir pode-se observar os locais e as datas reunies  
Sede do Comit
dos Chefes de Estado e de Governo, bem como onde esto situadas     
Coordenador dos
as sedes do Secretariado da OUA, do Banco de Desenvolvimento        
Movimentos de
Africano e do Comit Coordenador dos Movimentos de Libertao       
Libertao Africano
Africana.                                                            
                    LOUIS
                                                                     
                    *11 976




   Parte da Africa que no pertence  OUA



324

                                                                 1 M



                                                                 


                                   B.   A declarao de Arusha
                                                            .... . 
...........
Doutrina da Carta da Organizao da Unidade Africana

     A poltica da OUA  construir um Estado socialista. Os 
princpios do socialismo esto estabelecidos na
constituio da OUA Portanto, os principaisfins e propsitos da OUA 
sero os seguintes:
a)   Consolidar e manter a independncia do pas e a liberdade do seu 
povo;
b)   Salvaguardar a dignidade inerente ao indivduo de acordo com a 
Declarao Universal dos Direitos do
     Homem;
c)   Assegurar que o pais ser governado por um governo democrtico 
socialista;

d)   Cooperar com todos os partidos polticos de Africa comprometidos 
na libertao de toda a Africa;
e)   Procurar que o governo mobilize todos os recursos do pas para a 
eliminao da pobreza, da ignorncia
     e da enfermidade;
f)   Procurar que o governo colabore activamente na formao e na 
manuteno das organizaes coope-
     rativas;
g)   Procurar que onde seja possvel o prprio governo participe 
directamente no desenvolvimento econmico
     do pas;
h)   Procurar que o governo d oportunidades iguais a todos os homens 
e mulheres, sem distino de raa,
     religio ou situao;
i)   Procurar que o governo acabe com todas asforas de explorao, 
intimidao, discriminao, subornos
     e corrupo;
j)   Procurar que o governo exera um efectivo controle sobre os 
principais meios de produo e prossiga uma
     poltica que facilite o caminho em direco  propriedade 
colectiva dos recursos do pas;
k)   Procurar que o governo coopere com outros Estados de Africa a 
favor da unidade africana;
1)   Procurar que o governo trabalhe incansavelmente a,favor da paz e 
da segurana mundial atravs da ONU.

                                             Julius Nyerere, 1967.



                         O *APARTHEID+ SUL-AFRICANO








                     ?*

                                        No para os
                                   no-negros -
                                   S para no-europeus
                                   S para europeus -
                                   Vedado aos negros


                         U

                                                            325

                i (1955-197:
                   NAMM~.

                                   @& BASE ECONMICA

                                   Affi& DO *APARTHEID+

O PODER BRANCO, UM ANACRONISMO                                       
                                          Aumento do rendimento 
nacional
DEMOGRAFICO                                                          
                                por cabea dos no-brancos desde a 
guerra:


                       
1950...........................................................  
,28,7
2,0  2,6   3,7   4,8
6,6  8,5   15,0  23,0  
1960...........................................................   
27,0
0,7  1,1   2,0   2,8   
1961...........................................................   
27,6
0,3  0,4   0,6   0,9
                       
1962...........................................................   
28,3

9,6  12@6  21,3  31,5  
1963...........................................................  
29,95

          Segundo Official Yearbook of the Republic
of South America            Rendimento nacional por cabea - 1963

                                   Rendimento nacional lquido na 
Africa do Sul....... , 2535 m.
                                   Per capita (todas as 
raas)......................................                         
                      148,5 m.
                                   Rendimento nacional per capita 
para os brancos......                                                
          624 m.
                                   Rendimento nacional per capita 
para os no-brancos.....                                             
            36,7 m.


RAA E PODER

 Reduzido  suaJorma mais simples, o problema resume-se no seguinte: 
queremos conservar

               a Africa do Sul branca. Conserv-la branca s pode 
significar uma coisa: a dominao branca;
               no a *chefia+ ou orientao, mas o controle, 
supremacia.

                              Malan, presidente do Partido 
Nacionalista, , 1936.

DEFINIO DE *APARTHEID+

               Foi apenas no perodo imediato ao ps-guerra que a 
palavra apartheld - de lngua africnder com o
          significado de *separao+ ou *pr  parte+ - se tomou 
corrente na linguagem poltica sul-africana, pre-
          1-1-11do designar *desenvolvimento separado de cada raa, 
na rea geogrfica que lhe  determinada+.
               O termo apartheid tem sidofrequentemente usado deforma 
errada, confundindo-o com *segre-
          gao racial+ ou *discriminao racial+. Com efeito, a 
doutrina da separao tem-se revelado -
          pelo menos, na sua expresso prtica - como forma de 
reforar e aperfeioar um sistema de dis-
          criminao racial, baseado nos costumes, a partir do 
princpio do sculo dezoito com a teoria afri-
          cnder do basscap (1), e na lei, desde o sculo dezanove 
com as leis de salvo-conduto britnicas e
          do decreto relativo a patres e empregados.
               Entre 1910 e 1934, quando ainda no existia a 
nacionalidade sul-africana e os Ingleses ainda
          detinham direitos tericos sobre a poltica da Unio 
Sul-Africana, elaborou-se um corpo de legis-
          lao completo, baseado na pertena a um grupo racial, que 
determinava os direitos de propriedade,
          empregos e salrios, lugar e condio de residncia dos 
indivduos, liberdade de movimentos,
          direitos polticos, qualidade de educao, etc.
               Muito antes de 1948, afiscalizao policial eraj 
perfeita. Podia perseguir-se um africano por no
          usar o salvo-conduto, por quebrar um contrato de trabalho, 
por no pagar taxas ou arrendamento, por
          usar uma faca ou um pau para alm de certo comprimento, 
porfabricar ou vender cerveja, participar
          numa reunio com mais de doze pessoas ou, pura e 
simplesmente, por *ociosidade+_

               (1) Preponderncia branca.

326

     *Separao desigual, apenas baseada na      cor da pele+, 
parecia ser a melhor interpeta-o da
palavra apartheid, que agora foi oficialmente substituda pela 
expresso *desenvolvimento mul-
tinacional+.
      bem sabido que as caractersticas desiguais do apartheld se 
verificam do bero  sepultura e
em todos os aspectos da vida, poltica, econmica ou social.

Marianne Cornevin, Apartheid, Poder eFalsificao Histrica, Lisboa, 
1979.



BASES IDEOLGICAS DO *APARTHEID+


     As pedras angulares da ideologia do apartheid so a convico de 
uma superioridade
absoluta dos brancos e a necessidade de salvaguardar a sua supremacia 
poltica e econmica.
A superioridade dos brancos em relao aos negros  uma crena 
fundamente enraizado no sub-
consciente de todos os brancos sul-africanos.

     Embora fosse h muito que se tivesse feito a declarao pblica 
de que *o negro mais ele-
vado , por definio, inferior ao mais nfimo dos brancos+ e, embora 
at hoje se continue a
aplicar, por toda a parte, a regra, no escrita, de que um branco no 
pode ser colocado sob as
ordens de um negro, a verso oficial desta assero tornou-se um 
pouco menos virulenta. Em
South Affica 1977, por exemplo, lemos o seguinte: *A nao branca , 
do ponto vista cultural,
econmico e poltico, o grupo mais avanado do pas... Em 
contrapartida, as diversas naes
negras podem definir-se, de modo geral, como povos em 
desenvolvimentos. [...          1

     A ideologia racista do apartheid apresenta-se subtilmente 
disfarado por dois tpicos
pomposos: a) a diversidade dos povos, e b) a misso da raa branca de 
proporcionar assis-
tncia.

     Estas duas maneiras de camuflar o racismo est subjacente no 
sistema do apartheid, so lar-
gamente aceites, no s pelos sul-africanos brancos, mas tambm, 
torna-se necessrio diz-lo,
por uma maioria de brancos no mundo inteiro.

     Na Africa do Sul e noutros pases, os defensores do apartheid, 
ligam o tema da *diversida-
de dos povos+ ao da *inferioridade congnita da raa negra+, 
*comprovando,+ a *inferiori-
dade+, em centenas de publicaes, por razes supostamente 
cientficas. Argumentos baseados
nas medidas do crnio e na estrutura do crebro, tm agora menos 
impacto do que nosfins do
sculo dezanove. Mas no se abandonou completamente a 
antropologiafisica. [...            1

     Na Africa do Sul, este argumento pseudocientfico exerce um 
poderoso impacto em todos os
nveis da populao branca. Os sul-a icanos de lngua africnder (60% 
dos sul-africanos bran-





                     f,
cos) so, no entanto, ainda mais receptivos aos argumentos 
teolgicos, referentes  diversidade

dos povos e  misso da raa branca de ajudar os povos primitivos. 
Com efeito, 87% pertencem
a uma das trs Igrejas Reformadas Holandesas, que sempre defenderam o 
apartheid, baseando-se
na Sagrada Escritura [...    1.

     Trs ideias parecem estar estreitamnte ligadas  noo de povo 
escolhido. A primeira  a de
que esse povo escolhido foi confiada a misso de guiar e civilizar os 
povos africanos. H nos
Actos dos Apstolos e nas Epstolas de S. Paulo muitas passagens que 
podem ser usadas
nesse sentido.

     A segunda  a de que esse *povo escolhidos no deve procriar de 
mistura com outros
povos: da o dito sobre proibies sexuais (Lei sobre a Imoralidade 
de 1927, emendada em
1956).

     A terceira  a de que o direito desse *povo escolhidos  terra  
inalienvel, visto ser a *terra
prometidas, dada por Deus. Em captulos posteriores, estudar-se-o as 
consequnci       .as desta ide-
ologia do *povo escolhidos.

                                   M.   Cornevin, ob. cit.

J, k.








327

                    MO EM OUE'STO.(195.-


NELSON MANDELA, FUNDADOR E UDER DO ANC








O ESTADO PLURICONTINENTAL

 O ideal que inspirou os descobrimentos portuguesesfoi o de espalhar 
af e comunicar aos

          povos os princpios da civilizao. [...           1 Um 
nativo de Angola, embora com as limitaes da sua

          incultura, sabe que  portugus e afirma-o to 
conscientemente como um letrado de Goa sado
          de uma Universidade europeia. [...               1 O 
Portugus, por exigncia do seu modo de ser, previso
          poltica ou desgnio da Providncia, experimentou 
juntar-se, senofundir-se com os povos des-
          cobertos, e formar com eles elementos integrantes da mesma 
unidade ptria.  Assim nasceu uma
          Nao sem dvida estranha, complexa e dispersa pelas sete 
partidas do mundo; mas quando
          olhos que sabem ver observam atentamente essas fraces de 
Nao, verificam                        que ali 
          Portugal.

                                             Salazar, discurso de 30 
de Maio de 1956.





              MUITAS RACAS  >
O ESTADO                       MUITAS RACAS
                            o
              um SO POVO
MULTIRRACIAL                   um so -POVO





                                                            N@
                                     ri           P0MTUGAL
                   PC3PTUG

        Caixas defsforos dos anos 60



328

                  @ "w, nft


                    O FIM DO ESTADO PORTUGUES DA NDIA

     O primeiro problema que o Governo portugus teve de enfrentar 
foi um conflito com o
Governo da Unio Indiana [...   1 a respeito dos territrios que 
constituam o Estado Portugus
da ndia (Goa, Damo e Diu). Aps prolongadas diligncias, a que o 
Governo portugus
ops a maisformal negativa, os Indianos iniciaram afase das 
hostilidades com o incidente de
Dadr e Nagar-Avely. Eram dois pequenos enclaves dependentes de Damo 
e o seu acesso
dependia da passagem pelo territrio da Unio Indiana; em 1954, essa 
passagem foi impedida.

Portugal reagiu com energia e recorreu ao Tribunal Internacional de 
Justia, em Haia. A sen-
tena, dada em 1960, reconhecia o direito de passagem, mas no era 
concludente do ponto de
vista da consagrao do direito portugus. [...  1 Porfim, o Governo 
da Unio Indiana decidiu
recorrer ao uso da.fora e,  meia-noite de 18 de Dezembro de 1961, 
poderosos meios milita-
res entraram nos pequenos territrios portugueses. Um navio de guerra 
que estava no porto de
Goa e no acatou a ordem de rendio.fo'i a ndado. As tropas 
portuguesas tinham recebido a
,fu
ordem de resistir pelo menos durante oito dias' tempo considerado 
indispensvel para desen-
cadear os mecanismos internacionais que deviam paralisar a agresso 
militar; mas, perante a
superioridade esmagadora do adversrio, renderam-se sem chegar a 
haver luta. [...    1

                    Jos Hermano Saraiva, Histria de Portugal, 6, 
Lisboa, 1982.








                              A VIA DA NEGOCIAO PACFICA

     Durante os anos de 1950, 1953, 1954, 1955 e 1956 tentmos 
convencer o governo portugus
de que era necessrio alterar a situao. Nessa altura nem sequer 
pensvamos em indepen-
dncia [...1

     Queramos nessa altura, quando comemos a exigir os nossos 
direitos, passar da situao
de portugueses de segunda classe a portugueses como os portugueses 
[...    1.

     No queramos, de forma alguma, recorrer  violncia, mas 
apercebemo-nos de que a
dominao colonialista portuguesa era uma situao de violncia 
permanente. Respondiam sis-
tematicamente contra as nossas aspiraes com violncia, com crimes, 
e nesse momento deci-
dimos prepararmo-nos para lutar

     Nesse momento, como sabeis, a Africa comeou a tornar-se 
independente. O *vento da
mudana+ estava a soprar sobre a Africa. As outras potncias 
colonialistas decidiram desco-
lonizar Portugal assinou a Carta das Naes Unidas e mais tarde votou 
afavor da resoluo
do direito  independncia de todos os povos.


     Mas Portugal nunca aceitou aplicar esta deciso internacional. 
Portugal insistiu, o gover-
no portugus insistiu que ns ramos provinci . as portuguesas [... 1

     Vimos a Africa comear a ter Estados independentes e decidimos 
fazer todos os esforos
para consegui .rmos tambm o nosso direito  autodeterminao e  
independncia. Esta a razo
para 7 anos de luta.

Amlcar Cabral, secretrio-geral do PAIGC, 1970 in A. Bragana e 1. 
Wallerstein, Quem  o Inimigo?, Lisboa, 1978.


                                                            329

O NACIONALISMO

               O nacionalismo moambicano, como praticamente todo o 
nacionalismo africano, foi
          fruto directo do colonialismo portugus. A base mais 
caracterstica da unidade nacional
          moambicana  a experincia comum (em sofrer) do povo 
durante os ltimos cem anos de
          controle colonial portugus f...              1.
               [...           1 Por nacionalismo entendo * uma tomada 
de conscincia por parte de indivduos ou
          grupos de indivduos numa nao ou de um desejo de 
desenvolver a fora, a liberdade ou a
          prosperidade dessa nao+. Esta definio aplica-se ao 
nacionalismo em todas as cir-
          cunstncias ou fases de desenvolvimento de qualquer povo.

                    E. MondIane, presidente da FRELIMO, Dar es-Salam 
em 1964.
               Aquino Bragana e 1. Wallerstein, Quem  o Inimigo?, 
11, Lisboa, 1978.


A LUTA ARMADA

               O neocolonialismo representa sem dvida o principal 
obstculo que as massa africanas devem
          transpor para realizar as suas aspi          .          
raes de uma completa independncia. Embora Portugal seja
          um pas colonizador, a sua economia apresenta as 
caractersticas do subdesenvolvimento: uma
          agricultura dedicada essencialmente  satisfao das 
necessidades internas, uma indstria de
          transformao insignificante, um sector de consumo 
extremamente limitado e um volume de
          exportao de um importante nmero de produtos primrios 
manufacturados. [...                   1
               Foi a existncia do vasto domnio scio-econmico 
*portugus+ representado sobretudo

          pelas colnias, que permitiu que a burguesia portuguesa 
colmatasse as brechas do edifcio do
          Estado Novo, recorrendo a solues defuga para afrente. A 
emigrao macia das massas tra-
          balhadoras e pilhagem sistemtica das riquezas das 
colnias, que permitiram a estagnao da
          economia e sobrevivncia de uma burguesia parasitria, 
bloquearam a ecloso da revoluo
          industrial em Portugal.
               No entanto, as contradies internas do regime, 
posio retrgrada de Portugal e seu iso-
          lamento crescente no plano internacional, a ameaa 
representada pela corrente de emancipa-
          o dos povos do Terceiro Mundo e presses provenientes da 
finana internacional, constitu-
          ram, antes da deflagrao das guerras de libertao, sinais 
de alarme para determinados sec-
          tores da burguesia portuguesa.
               As alteraes que actualmente se podem observar nas 
estruturas polticas e econmicas de
          Portugal e se traduzem por conflitos no seio do regime, 
foram condicionadas pela ecloso das
          lutas de libertao nacional em Angola, Guin e Moambique. 
[...                 1
               Assiste-se, no seio da burguesia portuguesa, a uma 
diferenciao dos interesses econmicas
          e polticos. [...           1 Essa diferenciao 
concretiza-se por uma luta de influncia poltica no seio do
          aparelho que, at agora, servira de plataforma a um 
compromisso entre as diversas correntes
          da burguesia reformista, cujos representantes polticos so 
antigos colaboradores do regime fas-
          cista. Estes ltimos, exprimindo reservas sobre a 
possibilidade de Portugal se manter nas
          colnias pela via militar, necessitam de um perodo de 
transio para conquistar o poder
          poltico, reajustar asfrgeis estruturas econmicas 
efinanceiras no sentido europeu e implan-
          tar eventualmente o dispositivo neocolonialista nos nossos 
pases. 1...             1
               Todavia, o salazarismo, expresso da corrente da 
burguesia ultracolonialista, conseguiu, a
          curto prazo, protelar o desastre que a perda das colnias 
representar                  .          a para a burguesia
          portuguesa, evitando igualmente a ecloso do conflito 
crescente que ope as duas correntes das
          classes possuidores em Portugal. O equilbrio instvel da 
burguesia portuguesa repousa

330

                              wlam, 1 =w-

simultaneamente na intensificao da represso nas colnias e no 
recurso aos capi                     .tal.s estran-
geiros. Mas os encargos financeiros para manuteno dos exrcitos 
repressivos em trs frentes

de combate e de um enorme aparelho policial excedem as possibilidades 
econmicas de um pas
subdesenvolvido como Portugal. [...           1
     A corrente da burguesia ultracolonialista tropea perante uma 
impossibilidade histrica de
ordem poltica, econmica e at mental - a de conceber o movimento de 
libertao nacional
numa perspectiva inteligente e em confrmidade com o esprito novo do 
nosso tempo.
Acompanha a lgica engendrada por ela prpria: perecer com a runa 
do seu universo. A inde~
pendncia dos nossos pases provocar a sua destruio, pelo que ela 
no pode deixar de se
empenhar na guerra a todo o custo.

Documento apresentado  2.' Conferncia da CONCP`, Dar es-Salam 1965, 
A. Bragana, ob. cit.

     (1)  A CONCI? foi fundada em 1961 integrando vrios movimentos 
de libertao das colnias portuguesas.




                         TROPAS PORTUGUESAS EM AFRICA








                                                  Testando uma pea
                                                  de artilharia mdia








     Dc,@1o<-ando-se atravs daj1ore,@ia


                                                            331

GUERRILHEIROS NEGROS NOS ANOS 60








                    A.   Actividade e linhas de infiltrao dos 
guerrilheiros - Angola
                                   -- -------------              . 
........
                              CONG0,--- @@zavi11e
                                   .


                    ZAIRE





                    Luand                                            
   LUANDA
                   alanje
                   L ANDA
                                             MALAN                   
Henri
                                                            de Car




                              Lobil
                      M
          ndeira                   Serpa.                            
 MBIA



                    HULA
               CUANDO CUBANDO


                AFRICA DO SUL
                                   Principais activio;

                                         Linhas de infiltrao dos
                                        A Campos e bases dos 
guerrilheiros
                                   "H~ Caminhos de ferro


                                                            
..................

332

rei


     B, Campos e linhas de infiltrao dos guerrilheiros - Moambique

                  Bagamoyo
                Dar es Saiam

                                   IDares Saiam: Quartel-General da 
FRELIMO, lVibeya:
                                   reabastecimento das 
tropas.Bagarnoyo: escola secun-
                                   daria da FRELIMO. Nachingwea: 
centro de comando
                                   e logstica; campo de treino da 
FRELIMO. Tunduru:
                                   centro de educao da FRELIMO. 
Songea: governo
                                   civil distrital da FRELIMO. 
Mitomoni: proviso de rea-
               lVibeya                  'bastecimento e controle de 
infiltrao.

                                                            - - - - 
-------


                                       TANZANIA      Mitwara*
                                                     Nachingwea
                                       Songea        Mkunia


Lusaika: Quartel-General
                                       Tunduru
para a Libertao de Africa Kachalola  itomoni @,OJ
1 Chadiza 1 Sinde Missale 1                          Mik
Muanjawanthu: Proviso de
abastecimentos e controle das tropas                 CABO
de infiltrao.                                      DELGADO

                                       NIASS

            ZAMBIA

                                                 MOAMBIQUE
          Sinde M
               Muanjawhanti


           Lusa(
               beze Barragem e
                    Bassa



                         RODSIA




                                   Campos e bases de
                                   guerrilheiros

                                   Linhas de infiltrao
                                   de guerrilheiros

            Segundo lan Beckett.




                              FORAS PORTUGUESAS
                                                  EM AFRICA



             _K@ambique 60 000



                                   Angola 55 000






                                             Segundo lan Beckett.

                                                            
.................

                                                            333

               o alp,,)


BALANO DO PERODO DE GUERRA

               Na realidade, os resultados obtidos pelas guerrilhas 
foram predominantemente polticos.
A           Obtiveram apoios materiais e morais em muitos pases e i 
. nspi . raram uniforte movimento de opi-
nio contra Portugal. Do ponto de vista militar, as foras 
portuguesas mantiveram constante-
mente o domnio de todo o territrio, que esteve sempre sob o 
controle das autoridades portu-
guesas. A prpria vida econmica das regies sublevadas no chegou a 
ser profundamente afec-
tada. [ ... 1 S na Guin a situao ofereceu maior dificuldade, dada 
no s a proxi . midade das
bases de apoio exterior, mas tambm um maior grau de adeso das 
populaes ao movimento
de rebelio.

     Em Portugal, os efeitos da guerra levaram directamente  queda 
da II Repblica. O protesto
contra a guerra tornou-se o tema central dos ataques polticos ao 
regime. O crescimento das

despesas militares, exigido pela ampliao das operaes em trs 
frentes, traduziu-se num
abrandamento do ritmo previsto para o investimento no sector pblico 
e portanto num embarao
ao desenvolvimento global. Os sectores intelectuais, e em especial os 
estudantes universitrios,
tomam uma parte muito activa nesse movimento de protesto; o regime de 
mobilizaro e defor-
mao dos quadros de oficiais milicianos obriga muitos estudantes a 
interromper os seus
cursos ou a retardar, durante alguns anos, o incio das suas 
carreiras, mas, alm desses moti-
vos imediatos, hfortes hostilidades  guerra e ao militarismo. So 
muito numerosos os que
saem do Pas e estudam em escolas estrangeiras. Dentro do exrcito 
profissional instala-se uma
situao de fadiga perante uma guerra cujo fim no se v, porque a 
guerrilha passou a cons-
tituir uma situao permanente, que se reacende sempre que abranda a 
vigilncia militar

                    Jos Hermano Saraiva, Histria de Portugal, 6, 
Lisboa, 1982.




A OPOSIO A POLTICA COLONIAL NOS INICIOS DA DCADA DE 70

     A,L Dir-se-ia que nos primeiros anos da dcada de 70 sefoi 
generalizando a oposi . o  poltica

A                     colonial do regime, merc da confluncia 
daquilo a que, porventura grosseiramente, podera-
          mos designar por conscincia civil e conscincia militar
     Multiplicaram-se na sociedade portuguesa os indcios dessa 
oposio. As suas manifestaes
irrompiam defocos to diversos, que basta agora enunciar os mais 
importantes. No seu con-
junto, a chamada oposio democrtica, no obstante a sua hesitao 
em pisar o risco da estrei-
ta margem de legalidade consentido pela ditadura, foi explicitando 
progressivamente o seu anti-
colonialismo; o movimento estudantil, na onda de politizao - muitas 
vezes radical - que
percorria universidades e mesmo liceus, estava nas primeirasfilas da 
luta contra a guerra colo-
nial; os sectores cristos progressistas distinguiam-se em aces 
corajosas na denncia dos cri-
mes praticados e na afirmao do direito dos povos  independncia; 
os ncleos de exilados
tinham maior margem de manobra, incluindo a possibilidade de 
contactos directos com os pr-
prios movimentos de libertao das colnias; os desertares e 
refractrios constituam j uma
massa significativa, ampliando ofenmeno da recusa  guerra no 
interior dasforas armadas;

os objectares de conscincia estavam a dar os primeiros passos no 
caminho de uma deciso de
duras consequncias e preparavam-se mesmo os primeiros actos 
colectivos de objeco de cons-
cincia; os grupos de oposio armada escolhiam como alvo 
preferencial das aces de sabo-
tagem o aparelho militar colonial.

                                                                     
                                              ............
                                                                     
    ...................................... 
............................... ................... .......

334

                     4.1

     A firmeza destas manifestaes vinha a par da crescente 
hesitao quanto  poltica colonial
por parte de sectores influentes, afectos ao regime ou situados na 
sua franja, sectores predo-
minantemente tecnocrticos, desenvolvimentistas, europeistas, de 
tendncia liberalizadora, para
os quais eram incompatveis o esforo de guerra e as necessidades do 
desenvolvimento, a pol-
tica colonial e a modernizao da sociedade.
     O alastramento, por sectores to numerosos e to diversos da 
*sociedade civil+, da oposio
 poltica colonial veio a convergir com a conscincia dos militares 
quanto  eventualidade de
uma derrota no terreno ou, pelo menos, quanto  necessidade de uma 
soluo poltica dado o
impasse da soluo militar [... 1
     Como se iriam passar as coisas?
     Em tese geral, a descolonizao, entendida como queda dos 
imprios das potncias euro-
peias, foi um processo de transio em que prevaleceram ora os 
elementos de continuidade ora
os elementos de ruptura f... 1
     Um olhar retrospectivo sobre a descolonizao portuguesa 
comprova que nela prevaleceram
osfactores de ruptura. Foi extremamente reduzida a margem de manobra 
da potncia desco-
lonizadora para determinar ou condicionar o futuro dos novos

     Lus Moita, *Elementos para um balano da descolonizao 
portuguesa+, in Revista Crtica de Cincias Sociais,
                                                  n." 15/16/17 1985.








             TRABALHOS PRATICOS

     A.   Exerccios

     1.   Explique como  que a Assembleia Geral da ONU se torna uma 
fora militante da luta
          anticolonialista.

     2.   Justifique a expresso: * 1 960, ano da descolonizao. +

     3.   Considere como o declnio da Europa favoreceu o movimento 
nacionalista de descolo-
          nizao.

     4.   Explique porque se chamou *Internacional dos pobres+ e 
*Festival dos povos de cor+
           Conferncia de Bandung.

     B. Anlise de documentos

     1.   Comente a frase de Nehru: *A Asia quer ajudar a Africa.+

     2.   Fidel Castro e Che Guevara so dois heris para os grupos 
dissidentes sul-americanos.  
          A partir dos documentos 1 e 2 indique qual o seu 
posicionamento perante os dois blocos.








                         w,




     3. Relacione os documentos 3 e 4 e infira os pressupostos 
poltico-ideolgicos que os ligam.








                    O presidente Nasser  aclainado aps ter
               anunciado a nacionaliz-,a-o do (-,mal de Sue@,,

                     336


                                        Nasser inicia a tourne 
rabe.
                               Aqui com o rei Soud e o presidente 
srio.

                                                                 ET

4.   Comente a frase de Salazar em 1950. *A Rssia tinha comeado a 
deitar fogo  Africa.+

5.   Da correspondncia de dois opositores ao governo de Salazar 
retire os pontos de
     divergncia e procure as razes que suportam as vrias 
tendncias.


                    a, 7 de Novembro de 1967
                    .Senhor
                   Dr RUY LUIZ GOMES
               Universidade de Recife
               BRASIL

               Exmo. Sr Prof. Ruy Luiz Gomes:

               H muitos anos que no tenho o prazer de o ver embora 
sempre me hajam che-
          gado notcias da sua persistente actividade poltica nas 
terras estranhas para que
          o levou o exlio a que injustamente o condenaram.
               Como seu velho admirador muito me tenho regozijado com 
essa sua exemplar
          fidelidade aos princpios que adoptou e com a notvel 
dignidade com que prosse-
          gue no estrangeiro a campanha cvica iniciada h bastantes 
anos no nosso pas.
               H poucos dias, porem, foi-me enviado um manifesto 
assinado por si e por
          outro correlegionrio, em quese critica uma 
representao.feita, a 12 de Junho do
          corrente ano, pela Aco Deinocrato-Social                 
 de cujo Direclrio, com nutito orou-
          lho.ftio parte - ao Presidenie da Repblica.
               E coin         reli iqi< i que V L.v.' condenava ali 
a aco que
          aquele organisnio oposicionisia portugus est 
desenvolt,endo considerando-a
          sobreiudo, preJudicial  indispenstvel concentrao 
dasfi>ras oposicionistas
          nacionais.
               Merecein-lhe parilculares reparos e censuras as 
posi-es adopiadas pela
          Acco Deinocrato-Social em ( 1'ice do colonialistizo, do 
itnperialisino e da esiruiu-
          rao ,Ia econoiniasocial poriuguesa 1...                1.
               De qualquer modo, a i,erdade  que ti oposio 
portuguesa - no podendo de-

          .orar de reptidar a orientaro do GovernoSala,-,arista, 
que procura, apentis, inan-
          ler as antigas colnias sob iiina indispenstvel 
explortio tanibni
          lem de repelir a soluo evadiria (VIINisienle eni '       
    fiizei --se entrega iinediaia das
          pop1i1a@-'es braticas e negras do I.,!lIrainar s 
vicissiludes de uma independncia
          e cheia de perigos.
esia poltica prudente e larga, aberia, afilial. a lodw; os anseios - 
a que Veti?
                                             doseu Programa e

               E unia    desapaiXona(hi e objecffi@a dasituao no 
consente aos

deniocralas                 posio (11 versa  daquela.
    Ainda V Ex.'nos cenwira nosei que         peranie os impe-
rialismos alem<) e iiorie-ainericano. V       enlende que nos 
deveramos enipenhar
era na denionstrao, que consideraftcil,     de que o pas est a 
ser ocupado inili-  IL

          tarnienie e aser explorado econoinicainente pela Aleinanha 
e pela Ainrica.

          sendo                pela I. I.). S. conio ressalia
          (Ias                           a inaieria.

                    Ora,  parte o que possa haver nisto de exagero 
sectrio, ocorre-me perguntar-
               -lhe: em que planeta supe V Ex. que vivemos?
                    V                , . Ex. 'pensa que o Povo 
Portugus pode recuperar os seus direitos em luta aber-
               ta contra o seu Governo e ainda contra os pases em 
cujo sistema geogrfico-pol-
               tico se encontra integrado? Isso significa que V 
Ex.'perdeu a noo das mais ele-
               mentares realidades nacionais e j no est, apenas, 
no Brasil mas nas cecanias
               da prpria Lua...
                    A Oposio portuguesa ou conta com o apoio - ou 
pelo menos com a bene-
               volncia das potncias do Ocidente - ou condena-se 
irremediavelmente  mais
               dura estagnao.
                    Hostilizar oficialmente as Democracias atlnticas 
- seria multiplicar o nme-
               ro, j demasiado avultado, dasforas que enfrenta e 
isolar-se numa luta inglria
               e antecipadamente perdida.
                     isso que V Ex.'pretende?
                    Finalmente, reprova V Ex.' as crticas que 
fazemos  poltica econmica do
               Governo Salazarista - por entender que envolvem a 
aceitao da estrutura eco-
               nmico-social do Estado Novo.

                    V Ex.' aqui, comea por se esquecer de que na 
A.D.S. no existem, apenas,
               socialistas como eu, mas tambm liberais da mais pura 
cepa; e esquece, depois,
               que no combate que travamos so estes os que mais 
interessam, os que mais
               pesam e os que com mais eficcia podem, nas actuais 
circunstncias, agredir o
               regime poltico vigente.
                    Ora o que est provado  que todos somos poucos 
para atingir o objectivo que
               nos propomos

                                                       At.'e Obgd.'


                                        Nuno Rodri ues dos Santos

                                                                 9








     D. T      1 h

     1.   A descoloniza

     2.   A guerra colonial portuguesa.

          Debata previamente o tema integrando-o na conjuntura 
internacional e no princpio do
          direito histrico de ocupao que Portugal defendia.




338

                                   A              MIM

                    @'.v

       A AFIRMAO DE NOVAS POTENCIAS


1.   O RAPIDO CRESCIMENTO DO JAPO

2.   O AFASTAMENTO DA CHINA EM RELAAO AO BLOCO SOVIETICO

3.   FORMAO DA CEE: RECUPERAAO EUROPEIA E UNIDADE ECONMICA








    Smbolos do Japo, da China e da CEE

                   ST A C

1. O RAPIDO CRESCIMENTO DO JAPO

     Pela segunda vez no espao de um sculo, o
Japo d mostras de uma vitalidade que espantou
o Mundo. A primeira, na segunda metade do sculo
XIX com a reforma de Meiffi, trouxe para a ribal-
ta mundial um pas at a obscuro e misterioso.
Nessa fase, tratou-se da modernizao seguindo
o modelo europeu e, tambm como na Europa, o
desenvolvimento conduziu ao expansionismo.
Guerras vitoriosas com a China, a Rssia, anexa-
o da Manchria e da Coreia, mais tarde, a tenta-
tiva de liderar no Extremo Oriente os movimentos
de libertao das potncias ocidentais, o arrasta-
mento (ao lado do Eixo) para a guerra e, como
ponto final, o completo aniquilamento em 1945.
     80% da sua poderosa indstria foi destruido, a
monarquia aproximou-se do povo e renunciou aos
seus atributos divinos e durante seis anos sofreu a
humilhao da presena americana (doc. 1).
Renasceu das cinzas para o novo milagre dos anos
50-60 e, em 1970, ocupa o terceiro lugar entre as
grandes potncias econmicas do Mundo.

     O PNB cresceu significativamente de 1950 a 1970
entre 9,6% e 12,4% - e, nestes valores, o cresci-
mento industrial atinge uns 17% espectaculares.

     No mesmo perodo, graas  utilizao dos
mtodos mais avanados de produo, a automa-
o e a robotizao, a produo automvel tem
um crescimento de 250 000, em 1955, para mais de
3 milhes, e quatro das suas marcas - Toyota,
Nissan, Mitsubishi e Honda - ocupam lugares
muito honrosos entre as grandes empresas mundiais.
Sectores como o da construo naval, a electr-
nica, a siderurgia, a electricidade e as indstrias
qumicas, tm igual progresso (doc. 2) e permitem
que 97,5% das exportaes japonesas sejam pro-
dutos manufacturados.

     As grandes empresas adoptaram um tipo de
organizao paternalista onde os trabalhadores
encontram um emprego estvel para toda a vida,
salrios altos e uma proteco social tranquilizadora.
Em troca, aqueles identificam-se inteiramente com
os objectivos da empresa, com a qual criam relaes
quase familiares e a que se dedicam com devoo.


     So normalmente os mais capazes e com maior
grau de preparao que obtm estes lugares. Para
satisfazer a procura de uma imensa mo-de-obra
menos habilitada, inmeras pequenas e mdias
empresas, pagando salrios baixos, podem tornar-se

340

     competitivas. Mesmo esta mo-de-obra tem um
nvel de escolaridade muito elevado: no final de
70, o Japo no tem analfabetos, 75% da popula-
o completou o ensino secundrio e a frequncia
universitria  fortssima.

     Um crescimento assim acelerado (doc. 3) pro-
vocou inevitavelmente graves rupturas de equi-
lbrio no plano interno e externo (doc. 4) e eco-
nomistas e analistas socias tm procurado explic-lo
salientando quer o voluntarismo poltico quer a
qualidade humana dos seus agentes (doc. 5).

2.   O AFASTAMENTO DA CHINA
     EM RELAO AO BLOCO SOVITICO

     Uma precria solidariedade uniu nacionalistas e
comunistas para combater o invasor japons em
1937-1938, mas o fim da guerra afastou-os nova-
mente, Chiang Kai-Chek refugia-se na Formosa
(Taiwan) e Mo Ts-Tung, em 1949, proclama,
em Pequim, a Repblica Popular da China, ali-
nhada com Moscovo (doc. 6).  o tempo da pro-
paganda antiocidental (doc. 7) em que, com a
aliana e a ajuda da Unio Sovitica, a China
Popular procede a uma transformao radical
da prpria estrutura econmico-social e parece
apta a resolver o mais grave problema que a aflige,
a fome, cada vez mais ameaadora perante o rpi-
do crescimento demogrfico.

     Partido e economia progridem a par (doc. 8),
num pas em que quatro quintos da populao tra-
balham nos campos e em que a indstria ocupa
pouco mais de 1 milho, num total de 600 milhes
de habitantes.

     O primeiro cuidado foi o lanamento de uma
reforma agrria radical, com a expropriao bru-
tal da propriedade e a sua distribuio por todos os
camponeses, em 1952. No ano seguinte, lana-se,
com o apoio da Rssia, o 1.' Plano Quinquenal e
desencadeia-se um macio movimento coopera-
tivo com o objectivo de melhorar os mtodos de
cultivo dos campos. Em 1958, essas cooperativas
foram integradas em Comunas Populares muito
amplas. Tinham larga autonomia administrativa e
providenciavam a organizao do trabalho agr-
cola mas tambm da escola local, da assistncia
sanitria e da indstria perifrica complementar

da agricultura. As comunas tornaram-se a estru-
tura social e administrativa fundamental na
qual vivia a maior parte da populao.

     Entretanto, o plano quinquenal, que fomenta-
ra a colectivizao dos campos e desenvolvera um
complexo programa com base na criao de uma
indstria pesada e na distribuio da actividade
industrial por todo o pas, de modo a superar e
eliminar a ainda florescente indstria privada,
alcana pleno xito, embora a agricultura con-
tribusse insuficientemente para o financiamento
da industrializao.
     A China dependia militarmente da Rssia, da
sua ajuda tcnico-cientfica e econmica. Atritos
entre os dois tinham comeado a adensar-se em
1956, com Mo a considerar-se o herdeiro de
Lenine face aos *revisionistas+ soviticos.
     Modificando certas anlises leninistas, afasta-se
claramente do estalinismo, embora, por contradio,
em 1956, defenda a memria de Estaline contra
Khruchtchev, e entre em conflito com o Partido
Comunista Sovitico. Considera prioritrio o
campesinato na revoluo socialista; exalta o papel
das massas populares - as foras subjectivas de
ordem moral que podem modificar a realidade
objectiva - sobrepondo a mobilizaro poltica
para a transformao da sociedade aos conheci-
mentos dos especialistas e  competncia dos buro-
cratas; pensa que, mesmo depois da instaurao do
socialismo, permanecem contradies que obrigam,
at em regime comunista, a uma revoluo per-
manente; e, problema maior, com um nacionalis-
mo exacerbado, quer fazer da via chinesa para o
socialismo o guia da transformao do Mundo.
     Em 1958, Mao decide acelerar o ritmo de
desenvolvimento da China, dar o *grande salto
em frente+ (doc. 9). Para isso, era preciso mobi-
lizar toda a populao e todos os recursos fsicos
e morais, alm de exigir um rompimento com
tradies e mentalidades seculares. A criao
das comunas populares (26 000, logo no fim do
ano) insere-se j neste projecto.
     Em mdia, agrupam 5000 famlias e 4500 hec-
tares de terra, e tm funes mltiplas: econmi-
cas (mobilizaro da mo-de-obra masculina e femi-
nina para o trabalho e obras, organizao militar,
montagem de pequenas indstrias ligeiras), sociais
(a comunal unidade base, deve reduzir a diferena
entre campo e cidade, entre indstria e agricultura,
entre trabalho manual e intelectual; oferece todos os
servios mas faz desaparecer toda a vida privada),
educativas (substitui o Estado na responsabilidade
do ensino e adapta-o s suas necessidades), milita-

                      %
res (centro de instruo de milcias, est apta a
defender-se em tempo de guerra) e administrativas

(detm as competncias das antigas aldeias mas,
na verdade,  o Partido Comunista que as controla e
atravs dela toda a vida do pas).
     Nas cidades tambm se criam comunas, mas
sem dinamismo. A expanso urbana est blo-
queada.
      um falhano, como alis todo o programa, o
que teve como consequencia poltica maior o colo-
car em causa a autoridade de Mo Ts-Tung
(doc. 10). Os Soviticos tinham~no condenado por-
que o consideravam *aventureirista+ e a ciso
dera-se com a retirada dos seus 10 000 tcnicos
(doc. 11). Mao  obrigado a ceder parte do poder 
ala esquerda do PCC, que tambm se tinha oposto
ao *grande salto em frente+, mas reage com uma
nova ofensiva, a *Revoluo Cultural+ (1965).
     A campanha, que tinha antecedentes como o
*Movimento de Educao Socialista+, lanado em
1962 com a palavra de ordem *no esqueais a
luta de classes+, apoiasse ideologicamente no
Livro Vermelho de Mao Ts-Tung (doc. 12).
     A Revoluo Cultural, que sob o ponto de vista
material visa quatro modernizaes (da agricul-
tura, da indstria, da cincia e tecnologia e da
defesa nacional), pretende formar um homem
novo e que as massas, inspiradas no maosmo*,
tomem conscincia da sua superioridade sobre a
elite burocrtica e tecnocrtica no poder. Apoia-se
em grupos fanticos de jovens *guardas verme-
lhos+, especialmente citadinos, que, constitudos
em comits revolucionrios que representam a
tripla unio do exrcito, do povo e dos quadros
favorveis a Mo, subalternizam o partido e pem
o pas  beira da guerra civil em 1967.
     O traumatismo da Revoluo Cultural fez-se
sentir at  morte do *grande timoneiros. O seu
desaparecimento provoca uma redistribuio do
poder e muita perturbao, com tentativas de
abertura poltica, cortadas por momentos de vio-
lenta represso sem respeito pelos direitos do
homem, como aconteceu em Pequim, na Praa de
Tianamen, em 1989.
     Estes direitos tinham, no entanto, sido tacita-
mente aceites com a entrada da China Popular nas
Naes Unidas, em 197 1. No ano seguinte, a visita do
presidente norte-americano, Nixon, marca o incio do
relacionamento com o bloco ocidental. Em 1979,
Deng Xiao-Ping retribui em Washington (doc. 13).

341

               O 131POLA             1QUESTA(

3.   A FORMAO DA CEE: RECUPERAAO
     EUROPEIA E UNIDADE ECONMICA

     Depois de 1945, as economias, temendo os


resultados dos espaos isolados e fechados dos
anos 30, organizam-se em torno de plos de
desenvolvimento estruturantes de espaos trans-
nacionais (doc. 14). Tende-se para uma integraro
cada vez mais completa.

     A via  aberta pela conveno aduaneira entre
a Blgica, a Holanda e o Luxemburgo (Benelux),
assinada em 1944 e que previa a abolio, em 1948,
dos direitos alfandegrios entre os trs pases.

     Outras propostas de cooperao e integraro
aparecem entretanto, como a que Churchill cunha
em Zurique, em 1946, ao pedir o que chama de
Estados Unidos da Europa. So, contudo, outras
circunstncias que aceleram o processo. Por um
lado, a Cortina de Ferro e o expansionismo sovi-
tico criam nas naes da Europa Ocidental a
necessidade de se agruparem; por outro, o inte-
resse dos Estados Unidos negociarem a aplicao
do Plano Marshall com uma nica entidade e no
com mais de uma dzia de pases.

     Assim surge, em 1948, a OECE (Organizao
Europeia de Cooperao Econmica), encarregada
de repartir a ajuda americana. E a primeira insti-
tuio comum que obriga os Europeus a deixarem
de ser uma justaposio inorgnica de Estados
rivais e a passarem  coordenao.

     Os ventos da histria sopram, alis, neste sen-
tido. A outros nveis, h um movimento de opinio
favorvel  criao de uma federao curopeia.
Pesam razes polticas (necessidade de aproxi-
mar os Alemes Ocidentais das potncias do
Ocidente e de suster a ameaa sovitica) e razes
econmicas (o desejo de controlar indstrias for-
temente concentradas) e, entre 1949 e 1954, a
construo europeia encontra trs campos de
experincia. A cooperao poltica e cultural
apoiasse na criao do Conselho da Europa
(1949); a aco econmica tem por quadro a
CECA (Comunidade Europeia do Carvo e do
Ao), cuja organizao significa a passagem da
simples cooperao a uma integraro (I 95 1) (doc.
15); a defesa comum, que passa pela entrada dos
pases da Europa Ocidental na NATO, pela CED
(Comunidade Europela de Defesa), sem grande
xito, e pela UEO (Unio da Europa Ocidental)
que, em 1954, substitui a anterior e que promove


342

consultas recprocas dos estados-maiores nacio-
nais e a cooperao das indstrias de armamento.

     Neste conjunto, o mais importante foi a criao

da CECA.  um projecto com paternidade bem defi-
nida, Jean Monet e Robert Schuman (doc. 16), que
realiza com seis pases um mercado europeu do carvo
e do ao com vantagens particulares para a Alemanha
de Adenauer, que sal do isolamento poltico. A
Inglaterra no entra nesta organizao por razes que
se prendem com a sua presena na Commonwealth.

     Por iniciativa do Benelux, em 1954, resolvem os
pases da CECA ir mais longe na criao de uma
unio econmica geral. Aceite a proposta,  assina-
do entre os Seis (Benelux, Frana, Alemanha
Federal e Itlia) o Tratado dRoma (1957), que
institui uma Comunidade Econmica Europeia - o
Mercado Comum - (doc. 17), e uma Comunidade
Europeia da Energia Atmica - o Euraton.

     A nova unio, que entra em vigor em Janeiro de
1958,  ao mesmo tempo uma unio aduaneira,
um mercado comum e uma comunidade econ-
mica. A que obtm melhor resultado  a unio
aduaneira, com livre circulao de mercadorias
intracomunidade. O projecto de livre circulao
de homens e de capitais, previsto no Tratado de
Roma, caminha mais devagar.

     O fim ltimo da associao  a constituio de
uma comunidade econmica na qual as disparidades
devidas s diferenas de legislao nacional sero
suprimidas. Em 1973, as polticas comuns tinham rit-
mos de desenvolvimento muito diferentes. A poltica
agrcola era a mais conseguido; as polticas comuns
de energia, dos transportes, do ensino, da indstria,
estavam estagnadas e o Euraton foi um fracasso.
     O Reino Unido, que recusara tambm entrar
nesta unio continental - tinha fundado, em 1959,
com a Austria, Dinamarca, Noruega, Portugal,
Sucia e Sua, a EFTA (as iniciais do nome ingls
da Associao Europela para o Comrcio Livre) -
reconhece as dificuldades desta organizao con-
corrente e pretende ser admitido na CEE. Por presso
de De Gaulle, que teme a distoro da entrada dos
pases da Commonwealth (doc. 18), a entrada -lhe
vedada em 1961 e 1967. Em 1969, na Conferncia
de Haia, definem-se novas regras que prevem *o
alargamento, o aprofundamento e o acabamentos e
que permitem a entrada, em 1973, do Reino Unido,
da Dinamarca e da Irlanda.

     A Europa dos Nove em breve ser a Europa dos
Doze, em busca de complementaridade (doc. 19).

     .. ..... ...         .. ...... ....              . .. . 
......... . ........................ .. .... ... .. . ....

DocuMENTOS



                                       imperador Hirohito,
                                   o descendente da deusa Sol,
                                   visita em 27 de Setembro
                                   de 1945 o general americano
                                   Mac A rthur








                     B.






          A. O Japo industrializado                                 
    @P








                                             A
                                   A    seduo dos produtos
                                        da indstria japonesa



                                       SUCESSO JAPONES
                                                            
............

                    Anos


                 Regio industrial
                 Forte industrializao  9,6  6,2  1,3
OCEANO PACFICO                          3,7  9,6  1,9
                 Porto comercial         3,9  2,8  2,5


                                                            343

               O JAPO, TERCEIRO GRANDE
               DA ECONOMIA MUNDIAL

                    Internamente, o meio natural  ameaado e,
               a partir de 1968-1969, o problema da poluio

               reveste-se de uma gravidade e de uma urgnci          
      .                a
               excepcionais. Iro os objectivos e o estilo do
               crescimento ser postos em causa?
                    Por outro lado, a ascenso japonesa faz
               oscilar a harmonia das trocas internacionais.
               O antigo protegido dos Estados Unidos 
               agora um rival. A segunda potncia econmica
               do mundo ocidental saber, comofirmemente 
               convidada afazer, assumir as suas responsa-
               bilidades e impor a si prpria uma moderao
               indispensvel ao bom funcionamento de um
               sistema de que to bem soube aproveitar?
                    A partir do Outono de 1973, a crise              
        do
               petrleo agrava as dificuldades internas e
               externas. Ser o fim do crescimento * japo-
               nesa+, o ponto de partida para uma nova revo-
               luo industrial?

                              Marie Claire Bergre, in P. Lon,
                                        vol. vi, tomo i ob. cit.


A FORMAO DA CHINA COMUNISTA



                   RUSSIA



                                   _,J9@      MONGOLIA
                                        1-,


                    lty

                  Yan'an o

                    CHINA

                   Xi'an O




                 Chongquing



                         NDIA

                     DO
                  ,1 NORTE








344

                     7-

                    RAZOES DO CRESCIMENTO
                    JAPONES

          Motivao da populao
     Exito da planificao, iniciada em 1955 a
nvel puramente indicativo e que se tornou
mais intensa a partir de 1967 [...             1.
Capacidade de adaptao da economia japo-
nesa, que no hesita em abandonar os secto-
res desactivados ou em queda em favor dos
sectores comforte expanso. Eficcia do con-
trole da economia pelo Ministrio da
Indstria e Comrcio Exterior (MITI) e pelos
bancos, que desempenham um papel essen-
cial nofinanciamento das empresas.
     Seleco metdica das colocaes indus-
triais e comerciais no estrangeiro para asse-
gurar a maior segurana possvel dos abas-
tecimentos e das transferncias.
     Boas relaes comerciais com o conjunto
dos pases nas costas do Pacfico, incluindo a
URSS e a China.

                              J.   Rivoire, A Economia Mundial
                                   depois de 1945, Paris, 1980.







@MANC`HURI
          p.1. URS

d.        1945 . 1948,
P.1.      Chi- d.sd
     Ch.,g,
                      JAPO

                    M.kdE
                      o

                     pe





Loyang   Nanchino


o        o 1  Xangai

         Hangzhou
  Wuhan


               Tai-

                   Canto*



             T.,,it,i. -*.Iado

                                   Abh1 d, 1947

                                   Julh. d. 1948

                                   D.7.,,,b,. d. 1949

                                   1951

A ECONOMIA CHINESA


          (base 100  1950)
lindice-
500 -

400 -

300       01

200                         .....
100 -

1950 1 @55       1960 1965       1970
Produo industrial
Produo nacional
(D        -bruta por habitante
@)........   Produo de cereais
    Segundo M. Bruce e Mc Farlane
     Membros do PC chins
                         1 200 000
                         4 500 000
10 700 000

17 000 000
35 000 000

               A                                             
PROPAGANDA
                                             CHINESA
                                      ANTIOCIDENTAL
rol.,








............




     O FRACASSO DA ESTRATGIA MAOSTA: 1958-1962

     Encontrando-se numa posio pessoal delicada,
Mo, segundo o seu hbito, decidiufazerfrente  situao e
deslocar a luta para outro terreno. Parecia pua outiu
lado persuadido, nessa Primavera de 19581 que se
podiam corrigir todos os defeitos da planificao de
tipo sovitico, e transformar as relaes de produo

uni .camente pelo estmulo dofervor revolucionrio das
massas (superioridade do *vennelho+ sobre o *especialis-
ta+). Segundo ele, um *grande salto em frente+ da
economia era possvel utilizando todos os meios (pro-
paganda, violncia, ... ) para mobilizar o conjunto da
populao e lev-la afazer um esforo de trabalho
excepcional. Criaram-se logo novas estruturas de base
mais vastas (26 000 comunas populares agrupando
98% dasfamlias camponesas); multiplicaram-se nos
campos pequenos altos-fornos; elevaram-se a maior
parte dos objectivos de produo...
     Muito em breve, o balano revelou-se negativo,
mesmo catastrfico, mas a operao - ligeiramente
revista -foi no entanto mantida at ao Outono de
1960 quando, apesar da discrio dos dirigentes, se
mediram as dimenses do desastre:
     a economia encontrava-se num caos total: cinco
ou dez anos tinham-se perdido; a produo cerealfera

345
          baixara de 205 milhes de toneladas (1958), a 170 (1959) e 
a 150 (196Oy
          - uma.fome terrvel era responsvel pela morte de 16 a 30 
milhes de pessoas e um dficit
          de nascimentos de cerca de 30 milhes.
               Vrios.factores (de importncia desigual) explicam 
tamanho desastre:
               a inpcia de uma estratgia que [...                  
                                1 queria aplicar aos problemas 
complexo da edifi-
                                             cao de uma China 
moderna, as *velhas receitas de
                                             guerrilhas adaptadas no 
isolamento primitivo das pro-
                                             vncias interiores, 
receitas que anteriormente tinham

                                             assegurado a Mao as suas 
mais brilhantes vitrias!;
                    a passividade, depois a recusa de uma populao
               rural, cada vez mais indisposta pelo autoritarismo e
               os erros dos quadros;
                    a extrema gravidade das desordens climticas
               neste perodo (duas secas no Norte do pas em 1959 e
               1960 e inundaes no Sul ...

                              a d egradao contnua das relaes com 
a URSS,
                         ja evidente aquando das crises 
internacionais de 1958 e
                         1959 (Mdio Oriente, casos das ilhas 
Querinoy e Matsu,
                         J
               revolta tibetana, ... ) e tornada oficial em Julho de 
1960,
               quando os tcnicos soviticos deixaram subitamente a

                                                 China.
                    Mao Ise- I Uw,

                                   J.   -F. Soulet, ob. cit.


UM MARXISTA POUCO ORTODOXO AOS OLHOS DO,,GRANDE IRMO,> SOVITICO

 Estaline mostrou-se sempre bastante crtico nos seus Ju,--os sobre 
Mao Ts-Tung. Tinh-lhe

          posto uma alcunha que o descrevia com muita justeza em 
termos marxistas. Chamava-lhe *o
          marxista em margarinas. Quando o exrcito revolucionrio de 
Mao, na sua marcha vitorio-
          sa, chegou s portas de Xangai, ele f-lo parar e no 
deixou tomar a cidade. *Porque  que
          no ocupou Xangai?+, perguntou-lhe Estaline. *H seis 
milhes de habitantes em Xangai+,
          respondeu Mao. *Se tomarmos a cidade, teremos de alimentar 
todas essas pessoas; onde 
          que amos arranjar coisas para o fazer?+. Ora bem, eu 
pergunto-lhe,  assim que fala um
          marxista?
               Mao Ts-Tung apoiou-se sempre sobre os camponeses e 
no sobre o proletariado. Foi por
          isso que ele no tomou Xangai: no queria encarregar-se da 
manuteno dos trabalhadores.
          Estaline condenava justamente Mao por causa do seu 
desviacionismo. Mas o que  certo  que
          Mao, apoiando-se nos camponeses e no nos operrios, 
alcanou a vitria. Esta vitria no

          tinha nada de milagroso mas marcou uma nova deft)rinao da 
filosofia marxista, visto que foi
          obtida sem o proletariado. Em resumo, Mao W-Tung  um 
pequeno-burgus cujos interesses
          so estranhos - eforam-no sempre - aos trabalhadores [...  
                    1.
                um nacionalista e, pelo menos quando eu o conheci, 
ardia no terrvel desejo de ser o dono
          do Mundo. Na sua ideia, devia comear por dirigir a China, 
depois a Asia, depois... [...                         1.
          Pensava nofuturo. *Pensei nisto+, dizia. *Vs sois duzentos 
milhes e ns setecentos milhes. +
          Depois lanou-se num discurso sobre a originalidade 
chinesa: *O mundo inteiro emprega a pala-
          vra electricidades, disse orgulhosamente. * uma palavra 
tirada do ingls. Mas ns, chineses,
          temos a nossa prpria palavra!+ O seu chauvinismo e a sua 
arrogncia arrepi                    .          avam-me.

                                        Khruchtchev, Souvenirs, 
Paris, 1971.


346

                                        A REVOLUO CULTURAL








               ~lei

               J0veil,@                   ,-@ijiieiiio lotilia pj-a@a 
fie Pequim


                                   A APROXIMAO COM O OCIDENTE








Nixon visita Pequim em 197,
                              Deng Xiao-Ping retribui em  Washington 
em 1979

                                                            347

Mario

     ~=U __ ............... o

A UNIDADE EUROPEIA: PRECEDENTES

     O processo de unificao europeia  radicalmente novo na 
histria da Europa. A ideia, por
certo,  antiga e constitui um jogo para os historiadores do 
pensamento europeu evocar os pro-
jei, tos do Abade de Saint-Pierre ou de outros percursores. Mas esses 
projectos sempre perma-
neceram em estado de intuio, e os polticos nunca pensaram em 
dar-lhes consistncia. As ni-
cas realizaes foram ditadas pela ambio nacional e pela vontade de 
hegemonia: o grande
imprio de Napoleo, a Alemanha bismarckiana, a Europa 
nacional-socialista. A novidade,
depois da Segunda Guerra Mundial,  que a ideia toma corpo e a 
unificao sefaz na base de
uma rigorosa igualdade e da reciprocidade das trocas, e no da 
subordinao de pases a
outros. A Europa j conheceu coligaes e sistemas de aliana, mas 
estes nunca passaram de
combinaes militares ou diplomticas. Regidos pela preocupao do 
status quo que urgia pre-
servar, de uma reviso que cumpria obter ou do equilbrio que 
erajoroso manter, tais sistemas
foram sempre dirigidos contra adversrios.
     No se diga que esse tipo de preocupaes tenha estado 
totalmente ausente da constituio
da Europa unida: o medo do perigo sovitico foi um elemento 
determinante. A Europa viu-se
animada, no processo de unificao, pela presso positiva e amistosa 
dos Estados Unidos, que
representaram o outrofactor e a compeliram a agrupar-se: a diplomacia 
norte-americana ligou
a outorga dos crditos do Plano Marshall  unificao da Europa.

                                   R.   Rmond, ob. cit.






O TRINGULO DA CECA

ffima*~







M~M Pun





               Caricatura na New York Times de 1951
A Comunidade Europeia do Carvo e do
Ao, cara a Robert Schuman, toca em primeiro
lugar o tringulo Blgica, Sarre, Ruhr, Lorena,
regies de importantes bacias mineiras. Mas a
Itlia e os Pases Baixos no sero esquecidos
no crescimento da produtividade e na baixa dos
preos.


348

ROBERT SCHUMAN DIRIGE-SE
AO SECRETARIO DE ESTADO
AMERICANO DEAN ACHESON-1@50

..... ......... ... ..... ............................
     Depois de algumas palavras de boas
vindas e depois de ter exprimido a sua
satisfao por me ver em Paris, Schuman
comeou uma exposio sobre o que
seria posteriormente denominado o
*Plano Schuman+, um passo em frente
fascinante para a unificao da Europa
Ocidental, um dado difcil a integrar de
imediato. A totalidade da produofran-
co-alem de carvo e de ao seria colo-
cada sobre a alada de uma alta autori-
dade colectiva; este sistema deveria
levar a uma organizao aberta a outras
naoes europias.
     Enquanto falava, deixamo-nos con-
vencer pelo seu entusiasmo e pela gran-
deza da sua ideia: o renascimento da
Europa.

                   A AFIR


                                                 O TRATADO DE ROMA

     Determinados a estabelecer os fundamentos de uma unio cada vez 
mais estreita entre os 

povos europeus,
     Decididos a assegurar, atravs de uma aco comum, os processos 
econmicas e sociais dos
seus pases, eliminando as barreiras que dividem a Europa,
     Tendo como finalidade essencial para os seus e,@foros o 
melhoramento constante das con -
dies de vida e de emprego das suas populaes,
     Reconhecendo que a eliminao dos obstculos existentes apela 
para uma aco conserta-
da com vista a garantir a estabilidade na expanso, o equilbrio nas 
trocas e a lealdade na con-

corrncia,
     Preocupados com o reforo da unidade das suas economias e em 
assegurar o desenvolvi-
mento harmonioso reduzindo a diferena entre as diferentes regies e 
o atraso dos menos
favorecidos,
     Desejosos de contribuir, graas a uma poltica comercial comum, 
para a supresso pro-
gressiva das restries nas trocas internacionais,
     Querendo confirmar a solidariedade que liga a Europa e os pases 
do ultramar, e desejan-
do assegurar o desenvolvimento da sua prosperidade, em conformidade 
com o princpio da
Carta das Naes Unidas,
     Resolvidos afortalecer, atravs da constituio deste conjunto 
de recursos, a salvaguarda
da paz e da liberdade, e apelando para que os outros povos da Europa 
que partilham o seu ideal
e se associem ao seu es ro,

                         .fo
     Decidiram criar uma Comunidade Econmica Europeia.
     Art.' Lo - Pelo presente tratado, as altas partes contratantes 
instituem entre elas a
Comunidade Econmica Europeia.
     Art.' 2.' - A Comunidade tem por misso, mediante o 
estabelecimento de um mercado
comum e a proxmao progressiva das polticas econmicas dos Estados 
membros, promover
o desenvolvimento harmonioso das actividades econmicas no conjunto 
da Comunidade, a
expresso contnua e equilibrada, o aumento de estabilidade, a 
elevao acelerada do nvel de'
vida e relaes mais estreitas entre os Estados que a formam.
     A rt. ' 3.  Em relao aos fins enunciados no artigo precedente, 
a aco das Comunidades
comporta, nas condies e segundo os ritmos previstos no presente 
tratado:
     a)     A eliminao, entre os Estados membros dos direitos 
aduaneiros e das restries quan-
titativas  entrada e sada de mercadorias, assim como de quaisquer 
outras medidas de efeito
equivalente.
     b)     O estabelecimento de tarifas aduaneiras comuns e de uma 
poltica comercial comum com
terceiros Estados.
     c)     A abolio, entre os Estados membros, dos obstculos  
livre circulao de pessoas, de
servios e de capitais.
     d)   A instaurao de uma poltica agrria comum.
     e)   A instaurao de uma poltica de transportes comum.
     f)   A aplicao de procedimentos que permitam coordenar as 
polticas econmicas dos
Estados membros e compensar os desequilibrios das suas balanas de 
pagamentos.
     g)     A aproximao das legislaes nacionais na medida 
necessria para ofuncionamento do
mercado comum.

     h)     A criao de um Fundo Social Europeu com a finalidade de 
melhorar as possibilidades de
emprego dos trabalhadores e contribuir para a elevao do seu nvel 
de vida.
     i)     A instituio de um Banco Europeu de Investimentos, 
destinado afacilitar a expanso eco-
nmica da Comunidade mediante a criao de recursos novos.

                                   Tratado de Roma, 25 de Maro de 
1957.


                                                            349

                                                            . .... . 
........
                                   TRABALHOS. PRATICOS
                                                  .. .........       
                                           .                         
                         ... ..... ..... . ..........                
                                   . .........



1.   Comente a expresso "milagre japons".

2.   Explique porque se diz que o Toyota  o nico carro do Mundo que 
 montado por enge-
     nheros.

3.   Indique o que entende por *revoluo permanente,> na China de 
Mao-

4.   Encontre as razes que levaram De Gaulle a ver no pedido de 
adeso da Gr-Bretanha
      CEE o ,cavalo de Tria+ americano.





i.   Observe com ateno a caricatura, descrevas e indique o momento 
histrico que ela
     retrata.







                                                                 4








         Encontro Nixon-Mao Ts-Tung

2. Indique os objectivos do Tratado de Roma, pgina 349.

         O PROGRESSIVO APAZIGUAMENTO
           DOS ANOS 70 (1974-1980)








                                        Irei

                              . ...... ....... .

                                                                 d


         AS DIFICULDADES DOS ANOS 70



1.   OS ENTRAVES AO CRESCIMENTO ECONMICO NOS PASES
     INDUSTRIALIZADOS

2.   OS PROBLEMAS POLTICOS DO TERCEIRO MUNDO

     - Os movimentos revolucionrios e o reforo das ditaduras na 
Amrica
     Latina
     . O fundamentalsmo islmico e a proliferao de conflitos no 
mundo
      muulmano








                                                            ali
                    A captao de ondas rdio provenientes de um 
satlite

                     Ao

                 AZ1G@"EN-'


1.   OS ENTRAVES AO CRESCIMENTO
     ECONOMICO NOS PAISES
     INDUSTRIALIZADOS

     A depresso que perturba a economia mundial
desde 1974 no encontra explicao cabal. O
Ocidente assiste ao fim da energia barata e v
reduzida a sua parte do mercado mundial. No
Leste, as modificaes so mais tardias, mas a
URSS, com os seus parceiros europeus do COME-
CON, faz parte do mundo industrializado. A
estratgia de crescimento aplicada no sistema socia-
lista centrou o desenvolvimento na expanso
industrial. Os problemas com que estes pases se
confrontam so, genericamente, os das socieda-
des industriais mas procuram resolv-los recor-
rendo a solues especficas do sistema socialista.
     Constatando este facto, Deng Xiao Ping dis-
serta na Assembleia das Naes Unidas propondo
uma nova teoria dos trs mundos em que ao pri-
meiro pertenciam os EUA e a URSS (doc. 1).

     Por volta de 1968, as estruturas essenciais dos
pases industrializados comeam a ser minadas
por uma crise profunda, que provoca uma rup-
tura nas economias.
     Os factores explicativos que tm sido adiantados
so de natureza monetria, e remetem para o fim do
sistema definido pela conferncia de Bretton-Woods,
de 1944. Em Maio de 1971, um afluxo macio de
eurodlares, atrados  Alemanha por uma esperana
de revalorizao do marco, conduz a que, em Agosto,
o presidente Nixon decida desvalorizar o dlar e
abandonar a sua paridade em relao ao ouro. As
principais moedas flutuam, o comrcio mundial
desestabiliza-se e a desordem monetria instala-se.
     A esta desregulamentao do sistema monetrio
internacional juntam-se os dois choques petrol-
feros de 1973 e de 1979.
     A Europa, e at certo ponto os Estados Unidos,
tinham alicerado a sua poltica de energia no
petrleo, em substituio do carvo. O Ocidente
tornara-se um enorme consumidor que se abastecia
na Amrica Latina, na Indonsia e, principalmen-
te, no mundo muulmano, desde a Arglia  Arbia
Saudita e ao Iro (doc. 2).
     Em troca do combustvel, o ouro negro, que
compravam a baixo preo atravs de multinacionais
controladas pelo prprio Ocidente, este vendia aos
produtores de petrleo, muitas vezes tambm

356

                                                  ...... ... . ...
envolvendo multinacionais ligadas  produo, os
produtos fabricados, muito caros. Aproveitando o
pretexto do auxlio militar dos Estados Unidos a

Israel e as atitudes reservadas da Europa durante a
guerra de Kippur, no Mdio Oriente, a OPEP, a
organizao dos produtores rabes, comeou a fazer
subir os preos do barri     oc. As in ustrias e
base europias, obsoletas, no resistem.  A inflao
e o desemprego sobem assustadoramente (doc. 4).
     As actividades mais atingidas so a construo
automvel e o transporte areo, mas, com um defi-
cit comercial brutal (doc. 5), a recesso  acompa-
nhada pelo agravamento da inflao. A esta com-
binao, recesso limitada com uma certa infla-
o, chamou-se estagnao. As falncias e o
desemprego selectivo, sobretudo de 'ovens, mulhe-
res e trabalhadores imigrados, tornam-se um fla-
gelo. S na CEE, em 1983, h mais de doze milh-
es de desempregados, o que equivale a uma per-
centagem de 10% da populao activa.
     Outras razes podem ter agravado a crise que
teve reflexos na vida social e poltica.  o renascer
de ideologias de extrema direita, o reavivar do
radicalismo anticapitalista de extrema esquer-
da, as crises governamentais nas democracias
estveis, as revoltas das minorias, por exemplo na
Irlanda e no Pas Basco, e a queda das ditaduras
na Europa do Sul, Portugal, Grcia e Espanha,
     Essas razes prendem-se com a *usura+ do
sistema de produo estimulado nos decnios
anteriores. Consistia na associao de processos
tay11oristas, que elevavam sem cessar a produtivi-
dade, com uma poltica fordista dos salrios, que
assegurava a paz social e a prosperidade econ-
mica. O ciclo desenvolvia-se articuladamente:
lucros, produtividade, remuneraes satisfatrias,
consumo de massa.
     Mas desde finais dos anos 60 que este sistema
se vinha a deteriorar. O mundo do trabalho recu-
sa-se a *perder a sua vida a ganh-la+ e o aumento
excessivo dos salrios e dos encargos sociais,
combinado com algumas hesitaes nos aumentos
da produtividade (doc. 6), levam os empresrios a
preferir investimentos no estrangeiro e a mo-de-
obra mais barata dos pases pobres, em especial
asiticos, reconhecidos como mais dceis.
     So factores que tm repercusso no dom-
nio moral e social (doc. 7), i  de si perturbado por
uma depresso de longa durao. Esta  a ltima
explicao que tem sido dada para a crise, con-

fundida com uma crise cclica, habitual no capita-
lismo, mas que agora apresenta particularidades.
     Ao esquema clssico de krach bancrio ou bol-
sista, sobreproduo, queda de preos, falncias, con-
traco das trocas internacionais, desemprego, con-
trape-se agora uma subida de preos, um cresci-
mento apenas mais sopesado, ou melhor, com grandes
assimetrias, um krach bolsista muito retardado (15
anos depois), desemprego mas sem grande perda do
poder de compra, comrcio internacional muito din-

mico e tendncia para um neoliberalismo em lugar do
proteccionismo que se costumava desencadear.

     A situao de crise acompanhou o reforo da cons-
truo poltica europia - a institticionalizao de
um novo organismo comunitrio, o Conselho Europeu
dos chefes de Estado e de governos ( 1 974), a constitui-
o de um Parlamento Europeu eleito por sufrgio uni-
versal (1 976), o retomar do alargamento da CEE aos
pases do Sul da Europa (1 981 e 1986) -, mas afrou-
xou a construo econmica (moeda nica, polticas
sectoriais) e no permitiu alterar a relao de foras
entre a Europa e os pases seus concorrentes (doc. 8).
     Em meados da dcada de 90 novos alargamen-
tos se perfilam  Austria, Sucia e Finlndia.

2.   OS PROBLEMAS POUTICOS DO
     TERCEIRO MUNDO

     A guerra econmica pelo controle dos merca-
dos entre os pases industrializados tem reflexos
nos pases do Terceiro Mundo.
     Em 1975, a CEE assina os acordos de Lom, que
estabelecem uma relao mais equitativa entre a tran-
saco dos produtos europeus e os de 50 pases da
Africa, das Caraibas e do Pacfico (ACP) (doc. 9).
     Estes situam-se na rea em que a descoloniza-
o deixou marcas: desordens, crises, divises
tnicas e religiosas, lutas pelo poder, desigualdades
sociais e regionais, so o seu quotidiano.
     Aos bons propsitos de solidariedade anticolo-
mal (doc. 10), sucedem-se conflitos internos, afron-
tamentos entre jovens Estados e a proliferao de
regimes autoritrios, muitos deles ditatoriais.

- Totalitarismo e militarismo no continente
 africano

     A parte a Africa do Sul, em que o problema,
como vimos,  principalmente o regime de apar-

theid, a generalidade do continente africano res-
sente-se do subdesenvolvimento, do artificialis-
mo das suas fronteiras, da natureza antidemo-
crtica dos seus regimes e da rivalidade das
superpotncias que o escolheram como palco das
suas disputas (doc. 11).
     Com efeito, o subdesenvolvimento, grave pelas
insuficincias do desenvolvimento, torna-se dra-
mtico pelas diversas calamidades climticas que
fazem aumentar a misria e provocar a fome (doc.
12); as fronteiras, que no respeitam as estruturas
tribais ancestrais e foram traadas pelas potncias
coloniais, conduzem a reivindicaes e tenses
fronteirios muito frequentes; os regimes ditatoriais,
que mascaram sempre o domnio de uma etnia
sobre as outras, so quase sempre, alm de incom-
petentes, corruptos; e os Dois Grandes, que desco-

briram as virtualidades estratgicas da Africa,
controlam-na, a pretexto da ajuda financeira, eco-
nmica e tcnica (doc. 13), atravs do domnio
ideolgico ou da obteno de bases militares.
     Como explica um historiador, a Africa est
ainda a fazer-se (doc. 14).

     Os movimentos revolucionrios e o
     reforo das ditaduras na Amrica Latina

     A Amrica Latina, pobre no geral, foi intensa-
mente atingida pela crise mundial. Rica em pro-
dutos do subsolo (doc. 15) e nas imensas reas de
que dispe, as suas economias sucumbem sob o
peso da dvida externa e das medidas draconianas
que o FM1 impe  sua populao j miservel.
     Os investimentos americanos, na base do enri-
quecimento das multinacionais (doc. 16), e algu-
mas tentativas de reforma (doc. 17) no resolve-
ram os problemas econmicas nem contriburam
para melhorar o sistema social.
     Desigualdades sociais gritantes acompanham
o subdesenvolvimento. Grandes fortunas de
empresrios agrcolas ou industriais, uma misria
chocante de camponeses sem terra e de trabalha-
dores sem emprego e uma classe mdia pouco
desenvolvida (doc. 18). A urbanizao reflecte
estes mesmos vcios (doc. 19).
     As tenses sociais favorecem a violncia pol-
tica. Golpes de Estado, revolues, ditaduras, so
frequentes (doc. 20), por vezes com a conivncia
das superpotncias (Batista em Cuba, Somoza
na Nicargua, Noriega no Panam, apoiados pelos

357

Estados Unidos; Cuba de Fidel, Sandinistas da
Nicargua, pela Unio Sovitica).
     Os Estados Unidos legitimam-se pela pertena
comum  OEA (a que Fidel Castro chama o
*ministrio das colnias dos EIJA+) e preferem
normalmente, em vez da interveno militar, a
interveno financeira para manter o continente
longe da subverso comunista e ao seu servio.
     Contudo, uma rstea de esperana parece apon-
tar para um reforo das foras democrticas e a
substituio dos militares pela entrega do poder a
governos civilistas.
     Mesmo uma cooperao mais idnea e desin-
teressada entre a Amrica do Norte e os pases do
Sul (Mxico, Brasil, Uruguai e Argentina), o
Mercosur, esboo de mercado comum america-
no, parece prxima. Com a Europa da Pennsula
Ibrica, tambm as perspectivas de ligao so
prometedoras desde 1991, o que evitaria o blo-
queamento pelos Estados Unidos.

     O fundamentalsmo islmico e a

     proliferao de conflitos no mundo
     muulmano

     Depois do brilhantismo da sua civilizao na
Alta Idade Mdia, o mundo rabe tinha decli-
nado a partir do sculo XIII com as invases
mongol e otomana. Aps a 11 Guerra, funda-se
com dificuldade a Liga Arabe que contribui pode-
rosamente para a tomada de conscincia da
importncia do seu passado e das potencialida-
des do seu futuro.
     O mundo rabe, que se estende do Atlntico
ao golfo Prsico (doc. 21), tem como fundamen-
tos a religio, a lngua, uma histria comum e
um inimigo tambm comum.
     A religio  para 90% da populao o islamis-
mo, o que torna o muulmano membro de uma
comunidade temporal e simultaneamente espiri-
tual. O seu livro sagrado  o Coro, Meca o seu
lugar de culto mais sagrado e a profundidade da
sua crena alimenta-se com a expanso da sua f
em areas novas, como na Africa negra.
     A lngua, com variantes regionais,  funda-
mentalmente a lngua sagrada do Coro e  um
elemento de unio mais forte do que a prpria etnia.
     A histria  a lembrana de um passado pres-
tigioso e a mitificao das razes da sua deca-
dncia. Atribuem-na, com alguma falsidade, ao

358

                    (19--

imperialismo ocidental, e da retiram estmulo
para um despertar nacionalista. Desde fins do
sculo XIX que as massas populares, os intelectuais
e o mundo dos negcios se envolvem em projectos
nacionalistas de cariz laico ou religioso.
     O inimigo comum  o Estado de Israel. Desde
1948 que o conflito israelo-rabe perturba as rela-
es internacionais, enquanto a ONU se empenha
em exigir, ao abrigo dos princpios da Carta que
ambos os contendores assinaram, *o cessar de todas
as declaraes de beligerncia e o reconhecimento
da integridade territorial e da independncia de cada
Estado da zona, e do seu direito a viver em paz no
interior de fronteiras seguras e reconhecidas+.
     Esta aparente unidade tem tambm as suas frac-
turas: a religio  percorrida por cismas (sunitas,
xiitas, alaultas) que datam dos tempos medievais;
os vinte Estados rabes (na Africa do Norte e
Tropical, no Prximo e no Mdio Oriente) gozam
de estatutos jurdicos muito diferentes e as riva-
lidades entre si so frequentes; ideologicamen-
te, uns so progressistas e defendem um socialis-
mo islmico no alinhado, outros, os fundamenta-
listas, so tradicionalistas conservadores, defen-
sores de uma organizao da vida social  volta

dos preceitos islmicos e de um poder poltico de
origem divina e submetido ao Coro (doc. 22).
Sob o ponto de vista econmico, entre os pases
pobres sem petrleo e os pases membros da
OPEP (1960) a distncia  tambm abissal.
     Aos sonhos do pan-arabismo* opem-se os
conflitos entre conservadores e progressistas, ape-
sar dos esforos, entre 1953 e 1970, do seu grande
obreiro, Nasser. Como sucesso compensador ape-
nas a descolonizao e o recuo da influncia oci-
dental nesta grande rea. Mas a ausncia de
desenvolvimento continua a ser a grande marca
em muitos sectores: no regime demogrfico, na
avaliao do papel da mulher, no fenmeno emi-
gratrio, no nvel das despesas militares e sump-
turias, na dependncia de uma ou outra das super-
potncias que por l tecem as suas malhas estrat-
gicas de intriga, na apatia das massas populares.
     A guerra israelo-rabe do Kippur e a sua con-
sequncia, o embargo sobre o petrleo, trouxe-
ram para a ribalta internacional o mundo rabe
(doc. 23). Incapazes de aproveitar profundamente
a situao de superioridade criada, os Estados isl-
micos no conseguem passar a uma efectiva unio
poltica e econmica.

.. ... ..... ............................

     DocUMENTOS

                                                       A TEORi.

     O campo socialista que existiu um perodo depois da II Guerra 
Mundial, deixou de
o aparecimento do social-imperialismo. Sob o efeito da lei da 
desigualdade do desenvolvia.
capitalismo, o bloco imperialista ocidental desagregou-se igualmente.
     O nosso mundo comporta, com efeito, trs partes, trs mundos que 
so ao mesmo tempo c,
trrios e unidos entre si. Os Estados Unidos e a Unio Sovitica 
constituem o primeiro mundo, 0.
pases em vias de desenvolvimento da Asia, da Africa e da Amrica 
Latina o Terceiro Mundo, e os
pases desenvolvidos que se encontram entre os dois, o segundo mundo.
     As duas superpotncias [...  1 tentam em vo deter a hegemonia 
mundial. Procuram por diversos
meios colocar sob o seu controle os pases em vias de desenvolvimento 
[...  1 e, ao mesmo tempo, tra-
tam com dureza os pases desenvolvidos cujo potencial  inferior ao 
seu. As duas superpotncias, os
maiores exploradores e opressores internacionais da nossa poca, so 
umfoco de uma nova guer-
ra mundial. Ambas dispem de importantes quantidades de armas 
nucleares. Lanaram-se numa cor-

rida desenfreada aos armamentos, estacionam tropas com efectivos 
considerveisfora das suasfiron-
teiras e estabelecem por toda a parte bases militares ameaando assim 
a independncia e a segu-
rana de todos os outros pases. No cessam de submeter os outros 
pases ao embargo,  subverso,
 interveno e  agresso. No plano econmico entregam-se  
explorao das outras naes, 
pilhagem das suas riquezas e  espoliao dos seus recursos.
     Os pases desenvolvidos [...  1 apresentam situaes complexas. 
Alguns deles mantm, at hoje,
relaes de tipo colonial sob diversasformas com os pases do 
Terceiro Mundo [...      1.
     Os numerosos pases em vias de desenvolvimento fi)ram durante 
muito tempo vtimas da opres-
so e da explorao do colonialismo e do imperialismo. [...    1 
Entretanto, confrontam-se hoje, sem
excepo, com a tarefa histrica de liquidar asforas residuais do 
colonialismo, de desenvolver a
economia nacional [...   1. Nesta luta, testemunham um poder 
prodigioso, sem paralelo, e alcanam
continuamente vitrias clamorosas.

               Dang Xiao Ping, discurso na Assembleia Geral da ONU - 
1974.

,A L








               ABASTECIMENTO PETROLFERO EM 1973,

                                                                 A.

Alaska

Canad

os Ur                           0.ident.1
                                                              po






                 ca Ocident

                                                  Inci.nsia




                                                            strlia

_4Ce- Prin.ipais f1.xos petrolferos
          em milhes de toneladas
          (1 mm = 1 00 milhes de t-eladas)
          Volume total ..portado para a
           ona em milhes de tonelada,

          Auto-consurno
          Principais passagens estratgicas


359
MEXI'::

               O PREO DO PETRLEO BRUTO
               ENTRE 1970 E 1984


Produo em milhes     Prer em
de toneladas            d  lares
1750                    35

          >rcdu OiOPEP

1500                    30



               1250                                               25


                                                  001
               1000         120
                                        000 00, .     1@-


     Pred 9  foa ga OPE
     @
              @               1

750

     P re@o  petr@e@ but,)'




500                              1 o








250  - - -
                                 5

                                   Preo oficial do pet -leo
                                   4rabe light m, @d@re@ p@r

                                 rn'i (1 59
                                                       o
               o

               1970 1972  1974 1976 1978 1980 1982 1984



               EVOLUO DO COMRCIO MUNDIAL
               EM VOLUME (% por ano)

               14

               12 -
               10 -

               8
               6
               4
               2
               o
               -2 -
               -4
                    7374 76 78 80          82 84 86 88 90
               1963
               -1972




360

          INFLAO E DESEMPREGO
          DE 1970 A 1990
          NOS ESTADOS DA CEE


%

is                                           ta@ a

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                     10






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1970 1972 1974     1976  1978 1980    1982   1984
                                  1986  1988 1990








                      A

             EVOLUO DAS TAXAS
          DE MARGEM DAS EMPRESAS
          FRANCESAS


               30

               29 -

               28 -

               27 -

               26

               25

               24 -

               1965        1970         1975 1980 1983

                                               MIM
                         A5,',           DES

O ABALO SOCIAL E MORAL: A DEGRADAO DOS QUADROS DE VIDA

     Todas estas graves perturbaes no podiam deixar de exercer a 
sua aco no domnio
moral, social e mental. A partir do fim dos anos sessenta, o Ocidente 
 tomado por uma
*crise de civilizao+ que o atinge na sua vida de todos os dias.
     A sociedade industrial, com efeito, exprime-se pela desero dos 
campos e por uma explo-
so urbana sem precedentes. [...    1

      certo que comfrequncia se realizou um esforo de 
harmoniZao, na reconstruo das
grandes cidades destrudas pela Segunda Guerra Mundial [...       1. 
O desgnio  identico nas *cida-
des novas+, que oferecem, longe dos centros, moradias acolhedoras, 
estritamente individuais,
de uma calma aprecivel, no meio de uma natureza agradvel. [...     
   1
     Mas, maisfrequentemente, a megalpole oferece todo um outro meio 
ambiente. Prolifera de
forma catica, por uma srie de nodosidades que tornam os seus 
limites incertos e que, apesar
dos esforos de renovao, fazem coexistir sobrevivncias da horrvel 
cidade carbonifera,
domnio da velhice e da tristeza, com grandes conjuntos mais ou menos 
estticos. Nesta desor-
dem urbana as torres desmesuradas elevam-se, seguindo, com maior ou 
menorfelicidade, o
exemplo oferecido pelos arranha-cus de alm-Atlntico. [...       1 
Num quadro uniformizado, que
se pretende confortvel, mas que continua impessoal e mal 
insonorizado, nessas cidades-dor-
mitrios, em que o equipamento cultural  geralmente insuficiente, 
desenvolvendo-se a doen-
a dos grandes conjuntos, em que o grupo familiar se entrincheira 
ciosamente em si prprio e
em que o tdio segrega a delinquncia.
     Por outro lado, a cidade refora a segregao social.        A 
seleco pelo dinheiro  severa
e, para muitos, apesar das *facilidades+ concedidas, o acesso  
propriedade revela-se difcil. [... 1
O meio ambiente suscita uma srie de tenses, cujos efeitos mentais e 
sociais so incal-
culveis. [...  1 Fornecendo aos seus habitantes a iluso do poder, 
da riqueza, da felicidade, a
metrpole atenta cada vez mais contra o seu *ser+. [...      1 Os 
incmodos e as agresses multi-
plicam-se, gerando neuroses e srios desequilibrios nervosos, 
enquanto a promiscuidade 
acompanhada por uma profunda solido moral na multido, por uma 
servido temvel a
cadncias simultaneamente esgotantes e montonas. Assim se 
desumanizam a vida e a sociedade.
     Para alm, at, dos imensos espaos urbanos, a destruio do 
quadro natural continua a
passos largos, atacando o meio ecolgico e atingindo os equilbrios 
vitais, sob todas as suasfor-
mas, apesar de todas as *denncias+.

P. Lon, vol. vi, tomo ii, ob. cit.

A








OS TRES PARCEIROS ECONMICOS:
               EUA, JAPO E CEE





142 109                                           Poder de com ra
                                                             p
                                                de cada um inscrito
                    10                                           na 
base

Desenho de Bruno Congar, *Em p Europa+ in LExpansion, Novembro de 
1986.

361
                         ..,GRE@           PA Z 1 G U

                                                       :974-1980)



                   AFRICA

OS 50 PASES
DA ACP

                         Cabo Verde      Maurit

                     Sen
   Gambia-@                                                Suclo
Guin Bissau                          Nigria               ibuti
                              Serra L
                                   L brie            Togo




C(      ana
Marfim
        S. Torn                                      ia

        e Prncipe               uan                      Seychelles


        Guin Equatori           aire Burun Tanznia




                        Angol                             Comores

                        Narnbi                           Maurcias








                                   Estados signatrios               
                                              ica                    
                          Suazilndia
                                   da conveno de Lorn             
                                            dc Sul                   
                        Lesoto







                           CAFIMBAS               PACFICO


        j        13aarnas
                                                  Papusia           
     Kiribati



                           So Cristovo e Nevis  Nova          Ilhas 
de
                           Antgua e Barbuda
                                                                
Salomo

Belize  Jamaica            Dorninica              Guine              
     Tuvalo

                           Santa Lcia
                 So       Vicente,\  Barbados              00
                           Granada2@ @ @

                                                  q   Trindade

                                                                     
                     Samoa
                                   e Tobago

                                                       Ocidental
                                                       ,,,vanuatu

                                                                 Fiji


A 1 CONFERENCIA TRICONTINENTAL

                    A Comisso de organizao da I Conferncia de 
Solidariedade dos Povos da Africa,
               Asia e Amrica Latina aprovou a seguinte resoluo:

                    Considerando a extenso alcanado pelos 
movimentos revolucionrios nos trs conti-
               nentes: africano, asitico e latino-americano;

                    Conscientes da necessidade urgente de coordenar e 
de intensificar a solidariedade
               com a inteno de reforar esta luta empreendida pelos 
movimentos revolucionrios da
               Africa, Asia e Amrica Latina contra o imperialismo, o 
colonialismo e o neocolonialismo,
               decide como medida imediata o estabelecimento dos 
objectivos e das estruturas seguintes:



36  2

rentes movi     .mentos membros da Organizao.
     - Dar o mais enrgico apoio  luta contra o racismo e todas 
asformas de discriminao raci .

continentes.
Velar pela execuo das medidas adaptadas pela I Conferncia 
Tricontinental.

                              ---------------- ---------....... 
~....... ~........ -------
     Unir, coordenar e intensificar a luta dos povos da Asia, Africa 
e Amrica Latina contra o imperi                                    
.a-
lismo, o colonialismo e o neocolonialismo, e  suafrente o 
imperialismo americano.
     Dotar de apoio efectivo os movimentos de libertao nacional nos 
trs continentes utilizando todos
os mel   .os ao seu alcance.
     Sustentar a luta revolucionria como um direito inalienvel e 
imprescritvel dos povos perante o impe-
rialismo, o colonialismo e o neocolonialismo.
     Procurar dar um apoio solidrio e firme aos pases libertados 
dos trs continentes, os quais, como
consequncia do processo revolucionrio empreendido pelos povos, so 
vtimas de todas as formas de agres-
so imperialista.
Defender o direito dos povos a atrburem-se a si mesmos o governo e 
a lei que considerem conve-
ni.entes, assi  .m como o regi     . me econmico-social que a sua 
vontade soberana determinar sem interferncias
estrangeiras.

     - Cooperar com os povos j libertados dos nossos continentes 
para assegurar o desenvolvimento inde-
pendente e para deter as tentativas das potncias imperialistas que 
se orientam para a destruio da sua
liberdade poltica, econmica e cultural.
          Organizar a solidariedade dos povos dos trs continentes e 
servir de unio permanente entre os dife-

                                                     al nos trs



          Resoluo da Conferncia Tricontinental da Havana em 1966.

ZONAS DE INFLUENCIA EXTERNA E INSTABILIDADE EM AFRICA           A
                                   Estado ligado por um tratado de 
Amizade
                                                           URSS

                                         Ponto de apoio sovitico
ARGLIA

LIBIA         EGIP                               Soldados cubanos

     MAURITANIA
                         NIGER

                               TCHAD
          MALI                                   SUDAO Estado 
militarmente ajudado pelos E.U,A.

                                                       UTI ou

     @011'1
                     NIGERIA

REP                      Efl                      Base americana

SERRA                                   CENTRAFRICANA
LEOA                                      o

     LIBRI                            o                       QUNIA
                                  Conflitos e tenses fronteirios

                    C'
                            o

     COSTA DO                              ZAIRE


     MARFIM                                                     
OCEANO

                                             TA1N_@Z'@@         
INDICO
                                             Guerrilhas e revoltas 
tnicas

                              ANGOLA

          OCEANO                                            Motins 
recentes
                                       ZAMBIA',@_      MOAMBIQU

     ATLANTICO

                              Nambal
                                                  Passagem 
estratgica

                      A
                                              * Diagonal da fome>,




                                                            363

               -ROGRFO.


               VTIMAS DA FOME

               E DA GUERRA

               NA ETIPIA



               4 ol                                                  
MARROC`O@@


                                                  ARGLI
                                                               IA

DEPENDENCIA DA AFRICA








CABO                   MALI
VERDE             A A,                 NIGER

500 km








                    CHADE

                    SUDO
@'GAMBIA

GUIN                                                       IBUTI
                   BURKINM
                    GUINE
                    BISSA

                    SERRA
                    LEOA

          LIB                                                 UGANDA 
    IA


               DO         NA                             NDA

                                                          A",b,
          ~FIM

                                                            fX)EN!A

                                                        BURUNIA
          GUIN EQUATO


          SO      E                                           A
                     T M

          PRINNPEE                                            
SEYCHELLES

                                                            @,1ALAWI

                                                       C6MORES,@



                             MBIA     BIQUE
                                       M@'DAGA8CAR
                                       IJAZILANDIA
em milhes de dlares        FRICA DO

                             1 A SUL   LESOTO
                       1000


                   250500
30 100
                   o ooo

Ajuda pblica ao desenvolvimento
                em % do PN13


               superior a 50%
                      L

M de 30 a 50%                      de O a 20%

     de 20 a 30%                pases no includos




OS REGIMES MILITARES E O SOCIALISMO EMAFRICA
     Mas, hoje, a *elite+ j no  apenas composta por um punhado de 
homens mais *esclare-
cidos+ do que os outros. No  demais insistir no papel da 
escolarizao de massa na trans-
jormao dos dados sociais. Salvo nos Estados brancos, a 
alfabetizao generalizou-se. O ensi-
no secundrio, at a reduzido a algumas raras unidades [...         
            1, difundiu-se amplamente. As uni-
versidades, ainda excepcionais em algumas colnias britnicas, 
multiplicaram-se: depois da
Universidade de Dakar, criada apenas nos anos cinquenta, todos os 
EstadosfrancfOnos pos-
suem actualmente o seu centro universitrio.
     Logo, a todos hoje dizem respeito as aspiraes modernizantes, e 
toda a sociedade est liga-
da  economia de mercado pelas noes de salrio, de lucro, de nvel 
de vida e de modelo oci-
dental. Mas o drama  que, na medida do crescimento das necessidades, 
a desestruturao
rural e o desequilbrio urbano tornam simultaneamente as 
desigualdades sociais cada vez mais
acentuadas e cada vez mais intolerveis. Ora, os governos nascidos da 
descolonizao mostraram-se

364
incapazes de resolver os problemas econmicas e sociais da 
dependncia, devido  monopoli-
zao do poder, a coberto de instituies democrticas copiadas do 
ocidente, por uma burguesia

ou uma burocracia hbeis na manipulao dos reflexos tnicos ou 
neotradicionalistas da sua
clientela eleitoral. Portanto,  cada vez mais o exrcito que afirma 
a sua vocao renovadora
para salvar o pas da corrupo e da incapacidade dos civis.  
verdade que por vezes se apre-
senta, perante as disparidades tnicas, como um cadinho privilegiado 
da nao (como  o caso
do Congo ou do Daom) e, num pas imobilizado em estruturas 
scio-polticas particularmente
atrasadas, como um dos nicos focos intelectuais possveis ( o caso 
da Etipia). Mas o exr-
cito, tal como o partido nico que pretende substituir, afirma-se 
como emanao de todo o povo;
por outras palavras, nega a emergncia, no entanto sensvel  medida 
que se produz a inte-
grao no sistema capitalista ocidental, de classes sociais 
antagnicas, a coberto da frente
comum contra o nico inimigo - que se tornou um libi universal -, 
isto , o imperialismo e
o neocolonialismo. E o uso exclusivo do poder provoca os mesmos 
riscos defraude: os militares
que se tornaram *polticos+, cada vez menos inclinados a assegurarem 
eficazmente a defesa
nacional, caem por sua vez em todas as armadilhas da corrupo, 
quando no escorregam para
o regime personalizado em que o homem no poder gere o pas como seu 
patrimnio pessoal, no
tolerando oposio, nem crtica, nem palavreado ( o caso extremo do 
imperador Bokassa na
RCA ou de Idi Amin Dada, no Uganda). A instabilidade do regime e do 
pessoal poltico, reve-
ladora da rivalidade de cls antagnicos, oculta na realidade uma 
profunda instabilidade da
prpria poltica, externa e interna.
     A verdade  que, tambm, aos olhos das grandes potncias, a 
natureza do regime pouco
importa. Mesmo no caso de se proclamar *socialista +, quando os 
militares no poder pretendem
a revoluo das estruturas scio-econmicas do pas (Congo, Somlia, 
Etipia, Daom), a even-
tualidade de se *livrarem+ ainda no parece possvel: rodeados por 
vizinhos desconfiados ou
hostis, excessivamente pequenos ou excessivamente afastados para 
poderem contar com o
apoio operatrio do campo socialista, esses pases decretam medidas 
que se limitam a nacio-
nalizaes mais ou menos formais e geralmente pouco operatrias, e, 
com pequenas diferenas,
o recurso ao exterior no sofre alteraes. Os Estados muito ligados 
 antiga metrpole
navegam entre os emprstimos do Banco Mundial e os acordos concludos 
com diversos pases
da Europa Ocidental (Alemanha Ocidental e Itlia, designadamente) ou 
com o bloco socialis-
ta: a URSS e as democracias populares, e tambm, na sequncia de uma 
srie de viagens pre-
sidenciais, a China Popular; finalmente, as roturas em cadeia das 
relaes diplomticas com

Israel exprimem o desejo de aproximao com o mundo rabe. 
Finalmente, em matria de aux-
lio econmico, a quase totalidade dos pases afri . canos conti . 
nua, mais ou menos, condenada a
sujeitar~se  dependncia do Ocidente. Ofacto de o regime ser civil 
ou militar no altera gran-
de coisa; a clivagem fundamental d-se ao nvel da ideologia 
poltica. E froso reconhecer
que s os pases de vontade socialista, militares ou civis 
(Tanzna), atacaram, at ao presen-
te,, o problema estruturalfundamental: o da transformao radical das 
condies de vida do
campesinato, que continua a constituir 60% a 90% da sua populao: 
reforma agrria na
Etipia, sedentarizao dos nmadas desestruturados pela assustadora 
seca dos anos anterio-
res na Somlia, vulgarizao das prticas comunitrias e reformulao 
do ensino na Tanznia,
reorganizao das estruturas de tomada de deciso ao nvel das 
aldeias, subida dos preos dos
produtos alimentares e do salrio base no Daom, etc. Mas o futuro 
dir o que h a esperar de
resultados ainda limitados e muito duvidosos: a Africa Negra mal se 
libertou ainda das seque-
las da colonizao. Herdou delafronteiras polticas impostas, mas 
hoje reforadas ao nvel dos
Estados, se no ao dos povos, pelas divergncias polticas e pela 
distoro dos seus *dotes+ em
homens, em espao ou em produtos (nomeadamente o petrleo).
     Em suma, a Africa Negra est ainda afazer-se.

                                   Denis-Clair Lambert, in P. Lon, 
ob. cit.

                                                            365

                                                            "-,3 4 -


                                        INVESTIMENTOS
               PRODUO DE PETRLEO NA VENEZUELA                     
 AMERICANOS
                                   NA AMRICA DO SUL
               .. .. . .. .................. . .. 
.....................................................

                                                            1991

186    325   500   700  1041  1040   791   780   865
                              '-W-                                
1960
                                                            1943
1940  1945  1950  1955  1960  1979  1980  1990  1991  1929




     REFORMA AGRARIA
     NO MXICO

                                                  Famlias 
beneficiadas

                                                  (100 000)

                                                  Area de terra 
distribudas
                                                  (5 mi`lhes        
                                           de hectares)
                                                  (1 hectare         
                                           2 471 acres)






1916-34       1934-40       1940-45          1946-52      1952-58 
1958-63 1963-67


               CLASSES MDIAS





                    LICA
                    ICANA
               Cidad

                                   DURAS
                                   ARAGUA

COSTA RICA-                   a,acas                  URBANIZAO

                        PANAN          E
                                       NA FRANCESA

                                                    Urbanizao em 
1970: percentagem de populao
                        EQUAD                       que vive em 
cidades com mais de 1 00 000 habitantes

Populao total (1963)                              60-
% da classe mdia              BRASIL

            5%-20%                                  50-

                                                    40-
            20%- 30%                                o


                              30-                        E
                                                   ID             >

               30% - 40%                                             
  e Janeiro M
                                  20-                   Z
un      M








                                                            W      a,

               40% - 50%                          Sa,,ti             
        10- s; 'C5 c, a,

                                                            @5 '2

                                                        M .      2
                         o-        m o         w                o- CL
                                                  E                O
                                                           tevideo
               over 50%
                                                            Aires

               dados desconhecidos








366

     A A vida poltica e as campanhas de guerrilha na Amrica Latina 
4
                                                       NICARAGUA
                                                       1979 - 
Guerrilheiros urbanos provocam o
                                                       derrube do 
regime do general Anastcio
                                                       Som oza: 
governo ,sandinista,> marxista.

                                                       VENEZIJELA
                                                       1959 - Eleito 
o Governo democrtico de

                                                       Rm u lo 
Betanco u rt.
                                                       1960- 1962 - 
Actividade de guerrilha urba-

                                                       na envolvendo 
recontros armados com a
                                                       po            
                                           1                         
                              cia; esta investe contra os partidos 
de


    BELIZE                  esquerda; estudantes mortos em manifes-
                            taes nas universidades.
    ONDU"&
                            1963 - A FALN muito activa, especial-
                            mente em Caracas (roubos, raptos, sabo-
                            tagem), mas o boicote s eleies 
preconi-
SA                          zado por ela no foi acatado.
                as
    CO A                    1964 - Raul Leoni continua uma poltica
    RICA                    repressiva: a FALN  desmantelada
                            1965-1968 - A actividade revolucionria

            EZ              desloca-se para as reas rurais; envolvi-
                    maribo  dos ex-membros do exrcito, camponeses

o E                                        *Cayenne e estudantes.

                              1969 - O Partido Comunista denuncia a

COL'                                                      armada.


COLOMBIA
1964 - A *repblica independente,,
camponesa desmantelada pela polcia
1965 - O padre-guerrilheiro Camilo
Torres atrai vasta publicidade para
a causa revolucionria.
1968 - Torres  morto em combate;

ao longo da dcada a actividade da
guerrilha  centrada em Bogot; o
banditismo e a ilegalidade so endmicos
nas regies rurais.

PERU
Ao longo dos anos 60 h um amplo envol-
vimento de ndios na insurreio rural; fraca
agitao urbana.
1961,1963 - Grupos de camponeses revo-
lucionrios controlam alguns distritos mon-
tanhosos (a *invaso das terras,, inspirada
por Hugo Blanco); esmagados pelo exrcito.
1965 - O Movimento de Esquerda
Revolucionria (MIR), dirigido por Lus de Ia
Puente e Guillermo Lobaton, inicia a revol-
ta armada; derrotado pelo exrcito.

BOUVIA
1952 - Junta militar derrubada pela revo-
luo.
1964 - Os militares assumem o Poder.
1967 - Che Guevara morto.
Agitao constante nas minas.

URUGUAI
1965 - Comeo da insurreio pelo grupo
marxista dos Tupamaros.
1968 - Clmax de actividades dos
Tupamaros (raptos, roubos, manifestaes,
assassnios).
1972 - Os militares assumem o Poder; o
general Juan Maria Bordaberry suspende
as liberdades civis num esforo bem suce-
dido contra os Tupamaros.

CHILE
1971-1973 - Clmax dos combates nas cida-
des entre grupos de direita e de esquerda.
1973 -  morto o presidente marxista
Salvador Allende num golpe militar; ascen-
so ao Poder do general Augusto Pinochet.

PERU
                        B          R         A          $1






a Paz                                            O Braslia
     BC

                                        So Paulo 9        Rio de 
Janeiro



                           ao

                                    CUBA
                                    1956 - Incio das lutas de 
guerrilha por
                                    Fidel Castro.
                                    1959 - Revoluo de Cuba; Castro 
sobe
                                    ao Poder.

Santia  Buenos Aires                GUATEMALA

                           tevideu  Durante os anos 60, os grupos 
revolucio-
        A R G E N T 1 N A           nrios IVIR-1 3 (formados por 
Marco Antnio
                                    Yon Sosa) e FAR (dirigidos por 
Luis
                                    Augusto Turcios) so os 
principais agentes
                                    da actividade.
                                    1967 - Insurreio urbana 
esmagada pelo
                                    contraterrorismo de direita.
                                    1968 - O MR-13 e as FAR 
fundem-se.

                   BRASIL
                                                       1968-1969 - 
Apogeu da actividade de
                                                       guerrilha 
urbana centrada no Rio de
                                                       Janeiro e em 
So Paulo.
                                                       1969 - Morte 
de Carlos Marighela.

                  ARGENTINA
                                                       1975-1976 - 
Apogeu dos combates de
                                                       rua: fraca 
agitao rural.


Segundo H. P. Wilmott


367

         . .. ..... ........ .. . ..

         GUATEM@@@.,, ~IT@@RPUB@@C

                 @A I@.MINI@
                    CANA

                 Porto Rico

                    MAICA
               B. Focos                                              
        LIA

                     2-
                3ALVADOR/l--,

               revolucionrios                                    
COSTA RICA % 1 UIANA
               na Amrica do Sul                                     
   PANAMAJ a
                   , -'cc
                    QUA






                                        P                            
   BRASIL


                                                                 LIAI
                                                            CH E



                                                                 LIAI






                                                  Gue,,ilhas e 
principais
                                                    o'ir,,entos 
castristas
                                                     Amrica Latina





      A EXTENSO DO ISLAMISMO NO MUNDO

                    BLGICA
               R] EINO       \HOLANDA

               l_INIDO



                                                       KAZAIKISTA0

               FRA
                         LAVIA                                       
              AID


                     UIA
                     O

                                             H

                                                            IRO

                                                            CHINA


GLI                                                     BIRMAN1A
                   EGIPTO



                    SUDA
MAUI                                    GER CHA            NDIA

                                                            VIETNAME
                                                                 s
                                                                 C)

G,@                                  TAILANDIA
   G13                               CAMBOJA

  SEF                1)JIBOUTI  IKA
  LEC                MALIA

ILIB
        B
        MARFIM FA O

                    bRES
Percentagem de muulmanos
                                                                 f


Mais de 90%                                           B    BAI-1REIN

De 75 a 90%                              MADAGASCAR'  c    CATAR

                             MALAUI      C,           CH   CHIPRE
                                         MAURICIAS    G    GAMBIA
De 50 a 75%                  OAMBIQUE                G13  GUINE 
BISSALI

De 12 a 50%                                           1    ISRAEL

De 4 a 12%                   Nne d.                  J    JORDANIA
                             .,,,,Ihes               K    KUWIEIT

xiismo majoritrio           O                        L    LIBANO

minorias xiitas importantes                           S    SENEGAL
                             0" 2,5





368

     A revoluo d'al-Afghni
visava libertar os muulmanos
do domnio estrangeiro, pol-
tico, econmico e social; a de
Khomeiny, libertando o pas de
uma velada soberania estran-
geira nos domnios poltico,
econmico e social, rectificou
o desvio interno (inhiraf),
imposto pelos governantes isla-
mitas, s massas populares
muulmanas              A revoluo
do ayatola Khomeiny arrasta-
ra, por vontade divina, mudan-
as no nmero de pases que
proclamam na sua constituio
que o Islo  a religio do
Estado.

     Al-Asla, revista argelina, 1979,

               in J.-F. Soulet, ob. cit.

                    E----

O FENMENO DO FUNDAMENTALISMO



. .. . ...............








                     wr








                      k


Khomeiny aclamado porfiis








                    Orao na cidadewnia do li-o

. ............

369

O RENASCIMENTO DO MUNDO ISLAMICO

               Em menos de oito anos (I 973-1980), o mundo rabe 
passou da exaltaro ao abatimento, da
          confiana ao desencorajamento. A guerra do Kippur - com 
efeito, inaugura um breve mas
          CAltuordinrio perodo gratificante para a opinio rabe. 
Mesmo se no plano militar ela no
          representar seno uma *semivitria+, chegou para em poucas 
horas apagar a lembrana da
          derrota dolorosa infligida em 1967 pelos israelitas. [...  
         1
               Diplomaticamente, com @feito, a posio do mundo rabe 
viu-se muito reforada.

               A renovao do Islo

               Este aumento do capital de confiana obtido por 
ocasio da guerra do Kippur e das suas
          implicaes petrolferas, conjugou-se com a renovao do 
islo poltico. Perceptvel a partir dos
          anos 60, especialmente depois do desastre de 1967, que, no 
Egipto e na Sria, perturbou as
          conscincias e incitou as populaes a procurar no Islo as 
respostas s suas interrogaes,

          este regresso s razes religiosas nofoi s um acto dos 
radicais integristas que, tais como os
          Irmos muulmanos, desejavam construir uma *ordem social e 
poltica islmica+, mas tambm
          dos intelectuais progressistas e herdeiros do nasserismo, 
desejosos de ligar melhor o *socia-
          lismo rabe+ e o islo.
               Nos incios dos anos 70, os dirigentes egpcios, tanto 
como os lderes laicos do partido Baath
          na Sria, tiveram de levar em linha de conta estas novas 
aspiraes: a constituio egpcia, ela-
          borada em 1971, reconheceu o direito islmico como *uma 
dasfontes principais da legislao+;
           construo de mesquitas e de oratriosfoi retomada na 
Sria... Em Maio de 1971, reuniu-se
           primeira conferncia islmica, agrupando 46 Estados 
afro-asiticos. Trs anos mais tarde
          [ ...           1, em Lahore, por ocasi . o da segunda 
conferncia, o coronel Kadhafi, que parecia ento ter
          escolhido para o seu pas a via muulmana integrista, 
recebeu um acolhimento triunfal. Na rea-
          lidade, o pr totalmente em causa um Estado em nome do 
Islo no foi obra da Libia mas do
          Iro, quando a 2 de Dezembro de 1979, uma dezena de meses 
aps a queda do regime imperial
          do X - acusado de ter sacrificado os interesses do povo 
aos dos imperialistas estrangeiros, de
          ter recorrido ao terror policial, e sobretudo de ter 
renegado os valores do Islo procurando
          substitu-los pelos do Ocidente -,foi votada a constituio 
da nova *Repblica islmica+, que
          reconhecia a origem divina do poder e a submisso do povo 
ao Coro,  *Tradio+, aos
          Ulemas (doutores da lei) e ao im Khomeiny. Este surto de 
islamismo desconcertou o mundo
          exterior, e, muitas vezes, assustou-o. Alguns ocidentais 
tiveram, durante alguns anos, o senti-
          mento de assistir a uma verdadeira vaga arabo-islmica que, 
pelas armas, o petrleo e a
          religio, se preparava para submergir a terra inteira.

                                             Jean-Franois Soulet, 
ob. cit.








370

             TRABALHOS PRATICOS




1.   No contexto das alteraes dos quadros de vida na dcada de 70, 
explique o sentido da
     expresso *perder a sua vida a ganh-ia>,.

2.   Justifique a observao de Fidel Castro de que a OEA  o 
ministrio das colnias dos
     Estados Unidos.

3.   Adivinhe o que  uma companhia sob bandeira americana, 
fabricando produtos onde a
     mo-de-obra  mais barata e transferindo os lucros para um outro 
pas onde os impos-
     tos so o mais baixo possvel ou, o que  ainda melhor, 
inexistentes.

                    '01el-I plouiv ep oc@iuijep) 
lL-uoioeu41nwewn:elsodsed





1    Explique as resistncias que a
     proposta de uma moeda nica
     a partir e 19 9 e a e a ora-
     o de uma poltica de segu-
     rana e de efesa comuns
     despertam.



                                   Con rencia

                                   ,fe
                         de Maastricht, 1991






2.   A alterao dos dados geopo-
     lticos do Mdio Oriente aps
     a guerra do Golfo propiciaram
     a Conferncia de Madrid em
     1991 entre palestinianos e
     israelitas. A partir da imagem
     faa a retrospectiva do confli-
     to israelo-rabe.


                 Conferncia
                  de Madrid

3.   Observe o mapa e justifique a preocupao mundial com a evoluo 
da situao do
     Magrebe para a estabilidade da sub-regio do Mediterrneo.

Populao em 1990                                                    
                                               Bahrein
(em milhes)

                              Mais de 50

                                                                     
                    Lbano
                              De 20 a 50

                              De 5 a 20

                              Menos de 5

                                                  iria       Kuwait




                                                            Iraque

                                                       Jordnia
                    Algria                                  Egipto

                                                            Arbia

                                                            Lbia

                                                    dita
                                                  au                
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                                                            o
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                                                            ]e en    
      u

                    Suciao                                  (em 1990 
os

                              dois 1.rners
Dijibuti                 f.rdir.m-se)


A s densidades e@
altura, os volumes s(
aos efectivos de popu

                    A WW
4. Uma n ova ordem internacional, econmica e poltica,  uma 
aspirao das ltimas

     dcadas. Recorde os passos desse caminho, tendo em conta os 
documentos 4 e 5.


     @,)VA ORDEM ECONOfv11HICA INTERNACIONAI

     Ns, membros da ONU, reunidos em
sesso extraodinria da Assembleia
Geral para estudar pela primeira vez os
problemas relativos s matrias-primas
e ao desenvolvimento, dispostos a exa-
mi .nar os problemas econmicas mais
importantes que se colocam  comuni-
dade mundial, conscientes do esprito e
dosfins e princpios da Carta das
Naes Unidas, que so os defavorecer
o progresso econmi            .co e social de todos
os povos, proclamamos solenemente a
nossa determinao comum de traba-
lhar com urgncia para *a instaurao
de uma nova ordem econmica interna-

        Gorbatchev e Bush na cimeira
            de Helsnquia (1990).

cional fundada sobre a justia, a igualdade soberana, a 
interdependncia, o interesse
comum e a cooperao entre todos os Estados, independentemente do seu 
sistema eco-
nmico e social, que corrija as desigualdades e rectifique as 
injustias actuais, permita eli-
minar a diferena Crescente entre os pases desenvolvidos e os pases 
em vias de desen-
volvimento e assegure na paz e na justia s geraes futuras um 
desenvolvimento eco-
nmico e social que v aumentando.

                                   Declarao da Assembleia Geral da 
ONU, 1974.


372

C letodologia:A entrevista

     Recorde o que aprendeu (pginas 223 e 224) e analise a 
entrevista do realizador
egpcio Yussef Chaine a Romain Leick e Volkhard Windfuhr.

          YUSSEF CHANINE  o mais clebre reali-
     zador do mundo rabe.
          Agora, aos 69 anos de idade, Chanine trans-
     formou-se no alvo dos fundamentalistas islmi-
     cos. O seu ltimo filme, VEinigr, recria a his-

     tria de Jos do Egipto narrada na Bblia. Aps
     sete semanas em cartaz, o filme foi banido das
     i       telas. Pouco depois desta entrevista, a justia
     egpcia levantou a proibio de exibio.
          Spiegel - *VErnigr+ j no pode passar
     em nenhum local do mundo islmico por desa-
     gradar s autoridades religiosas, que vem
     nele uma ofensa ao Jos da Bblia. Est em
     perigo a cultura liberal do Egipto?
          Yussef Chanine - No existe a menor dvi-
     da sobre isso. O trabalho de artistas e intelectuais
     corre perigo. Inicialmente, a presso era exercida
     pelos rgos estatais, que ainda hoje controlam a
     quase totalidade dos meios de comunicao social,
     por muito que digam defender a economia de
     mercado.
          S - Mas as autoridades slmicas pro-
     curam agora a voz da maioria silenciosa.
          YC - O que eles querem  lavar o crebro
     ao povo. Nesse ponto, so muito semelhantes 
     autocracia que reina no Egipto.
          S - Como ir acabar essa luta pela con-
     quista da alma do povo?
          YC - As pessoas querem  viver. Orgulho-me
     de pertencer a um povo que gosta de viver, que
     que gosta de gozar as festas.
     tem sensi         1
     Ora o fundamentalsmo no serve o Egipto. Se
     olharmos para as festas religiosas, veremos que
     elas so ao mesmo tempo sagradas e pags. 
     -,,,-s a tradio que herdmos do Egipto dos
     faras. As pessoas tocam msica, danam, cantam
     e rezam. As festas religiosas so festas populares.
          S - O problema est em que no Egipto
     ja no h quase nada para festejar: a misria
     material  deprimente e os islamitas aprovei-
     tam-se desse fenmeno.
          YC - O humor e o riso so armas que comba-
     tem a opresso. A falta de casa e o desemprego so
     cada vez mais graves. Em quase todas as ruas vemos
     jovens com um diploma universitrio mas sem

emprego. E a pergunta  esta: iro eles perder a
pacincia ou continuaro com o sentido de humor?
     S - Tudo depende do grau de misria...
     YC - Claro. Se a crise aumentar, tambm
cresce a disponibilidade para a rebelio, sobre-
tudo quando o poder comete um erro grave: no
permite a verdadeira co-gesto. Ningum parti-
cipa em nada, a ningum se pergunta a opinio,
s se do ordens. Ora esta situao serve s mil
maravilhas aos fundamentalistas e aos fanticos.
     S - Pretendem os seus filmes ser uma
ajuda  juventude nas suas esperanas de um
futuro melhor?
     YC - Evidentemente. L'Emigr alcanou
tal objectivo. No pretendi filmar a histria bbli-
ca de Jos do Egipto. O melhor que o Egipto

tem para oferecer  o seu passado. Por isso 
que os meus filmes so sempre sobre o passado,
embora o tema de fundo seja o presente.
     S - Mas  isso que faz dos seus filmes ins-
trumentos de subverso.
     YC - No pretendo transmitir nenhuma men-
sagem, mas apenas divertir e entreter. Os jovens,
quando saem do cinema, vm a rir e trazem a alegria
estampada no rosto.  precisamente esse riso, marca
tpica do carcter egpcio, que procuro libertar.
     S - E os fundamentalistas?
     YC - Esses no querem nenhum cinema.
So contra a alegria de viver. E como a situao
poltica e econmica  desesperada, recorrem ao
velho truque: dizer s pessoas que a alegria e o
riso  s no outro mundo.
     S - Com o seu filme pretendeu provocar?
     YC - De modo nenhum. Nunca pretendi
estar na ribalta nem meter-me na poltica. Mas
tambm no posso alterar a minha ideologia. Sou
um alexandrino, no conheo fronteiras religiosas
ou racistas. Cresci no meio de pessoas com 15
nacionalidades distintas, que professavam 40 cre-
dos religiosos diferentes.  esta a tradio de
Alexandria - abertura ao mundo, liberalismo.
     S - O que, no fundo, est em jogo sera a
religio?
     YC -  a luta pelo Poder. A religio  um
mero meio de se conquistar o Poder.

Exclusivo DN - *Dei-Spiegel- 17-04-1995.

                     AO

A QUEDA DOS ULTIMOS REGIMES AUTORITARIOS NA EUROPA OCIDENTAL



          1.   PORTUGAL EM TEMPO DE MUDANA

               A instaurao da democracia em Portugal e a 
consolidao das novas
               instituies
               A descolonizao e o novo lugar de Portugal no Mundo
               O impacto da descolonizao portuguesa na Africa 
Austral

          2.   AS TRANSFORMAES DEMOCRATICAS NA GRCIA E NA ESPANHA









          Caricatura de Abel Manta.

1958 - Campanha presidencial do general Humberto Delgado.
       Amrico Toms  o presidente eleito.
     - Criao, em Portugal, na clandestinidade, da Junta de
       Libertao Nacional.
1962 - (26 Mar.) Crise acadmica.
     - (Dez.) Criao da Frente Patritica de Libertao
        Nacional (Argel).
1965 - (13 Fev) Humberto Delgado  assassinado.
1968 - (6 Set.) Na sequncia de uma queda, Salazar  afastado do
Governo. Marcelo Caetano  nomeado primeiro-ministro.
1969 - (26 Out.) Eleies para a Assembleia Nacional: formao
da ala liberal.
1974 - (22 Fev.) O general Spriola publica o livro
     Portugal e o Futuro.
     - (16 Mar.) Tentativa de golpe militar.
     -    (25 Abr.) Ocupao de pontos estratgicos considera-
          dos fundamentais pelo MFA.
     -    (26 Abr.) Apresentao da Junta de Salvao Nacional.
          O general Spnola  designado presidente da Repblica.
     -    (27 Abr.) Apresentao do Programa do Movimento das
          Foras Armadas.
     - (1 Mai.)  1Manifestaes do 1.' de Maio.
     - (8 Jul.) E criado o COI`CON - Comando Operacional do
        Continente, chefiado por Otelo Saraiva de Carvalho.
     - (18 Jul.) Tomada de posse do Il Governo Provisrio,
        presidido por Vasco Gonalves.
     - (28 Set.) So organizadas barricadas populares junto s
        sadas de Lisboa e um pouco por todo o Pas.
     - (30 Set.) Apresentao da demisso do presidente e
        nomeao do general Costa Gomes.
     - (27 Out.) Incio das Campanhas de Dinamizao Cultural.
1975 - (11 Mar.) Divises profundas entre oficiais do MFA.
     -    (12 Mar.) Criao do Conselho da Revoluo.  O Governo
          d incio  execuo de um grande plano de nacionaliza-
          es (banca, seguros, transportes, etc.).
     -    (I 1 Abr.) Plataforma de acordo MFA/Partidos.
     -    (8 Jul.) MFA divulga o documento *Aliana POVO/MFA
          para a construo da sociedade socialista em Portugal+
          O Governo anuncia a suspenso das suas actividades.
     -    (25 Nov., noite.) O PR decreta o estado de stio na regio
          de Lisboa. Militares afectos ao Governo controlam a
          situao.
1976 - (2 Abr.) Aprovao pela Assembleia Constituinte da
     Repblica de 1976.
- (27 Jun.) Eleies presidenciais. Antnio Rarrialho Eanes
 o primeiro presidente da Repblica.
1980 - (9 Abr.) Condenao de rus do julgamento dos mem-
bros do PR1` como culpados da autoria e cumplicidade
moral e encobrimento de assaltos a bancos e atentados

bombistas.
- (27 Jun.) Aprovao dos Estatutos de Autonomia dos
Aores e da Madeira.
1982 - (29 Out.) ltima reunio do Conselho da Revoluo.
     - (30 Out.) Tomada de posse do Conselho de Estado.
1984 - (12 Jun.) Assinatura do tratado de adeso de Portugal 
CEE.
- (12 Jul.) Dissolvio da AR e marcao de eleies
legislativas antecipadas.
- (6 Out.) Eleies para a AR.
- (6 Nov.) Posse do X Governo Constitucional presidido
por Cavaco Silva.
1986 - Mrio Soares  eleito presidente.
1992 - Acordo de Maastricht.

376

1960 - A ONU arova uma recomendao condenando o colonia-
lismo portugus. Portugal contesta afirmando que as suas
provncias ultramarinas no so colnias.
1961 - (4 Fev.) Ataque do MPLA  priso de Luanda. Incio da
guerra colonial.
     - (I 5 Mar.) A UPA desencadeia ataques no norte de Angola.
     - (10 Dez.) A Unio Indiana anexa Goa, Damo e Diu.
1963 - (Abr.) Incio da luta armada na Guin.
1964 - (25 Set.) Incio da luta armada em Moambique.
1969 - (3 Fev.) Assassnio de Eduardo MondIane, lder da FRE-
        LIMO.
4973 - (20 Jan.) Assassnio de Amlcar Cabral, lder do PAIGC.
     - (Abr.) Visita de Marcelo Caetano a Londres: a imprensa
     britnica denuncia os massacres do colonialismo portu-
     gus em Wiriyamu.
     -    (24 Set.)  proclamada unilateralmente a independncia
          do Estado da Guin-Bissau.
     -    (4 Mai.) Primeira manifestao de boicote ao embarque de
          soldados para as colnias.
     -    (25 Mai.) Incio das conversaes com o PAIGC.
     -    (27 Jul.) Spnola reconhece o direito  independncia
          das colnias africanas.
     -    (6 Set.) Acordos de Lusaka entre a FRELIMO e o
          Governo Portugus.
     -    (10 Set.) O Governo Portugus reconhece a Guin-Bissau
          como pas independente.
1975 - (15 Jan.) Acordos de Alvor entre o Governo Portugus e
os Movimentos de Libertao Angolanos.
- (6 Jun.) Primeira manifestao pblica da Frente de
Libertao dos Aores (FLA).
- (25 Jun.) Independncia de Moambique.
- (5 Jul.) Independncia de Cabo-Verde.
- (I 2 Jul.) Independncia de S. Torn e Prncipe.
- (7 Dez.) A Indonsia invade e ocupa o territrio de Timor.
1980 - (I O Out.) Na Assembleia greal da ONU, Governo Por-
tugus define posio para a soluo do caso de Tim9r.








     Segundo publicao do Centro de Documentao
25 de Abril, Coimbra, 1990, e Joo Morais e Lcio
Violante, Contribuio para Uma Cronologia
dos Factos Econmicos e Sociais.
                              Portugal 1992-1985, Lisboa, 1986.

1. PORTUGAL EM TEMPO DE MUDANA

     Como estudmos, Portugal, graas  hbil
posio de neutralidade assumida durante a guer-
ra, transformou-se num importante entreposto
comercial e num dos principais fornecedores dos
beligerantes. Ao mesmo tempo,  ponto de passa-
gem obrigatria para os refugiados que deman-
dam a Amrica e porto de abrigo seguro para os
que, de qualquer grupo social e pelas mais diversas
razes, so obrigados a abandonar a sua ptria e
no deixam a Europa. No final da guerra, com a
mesma habilidade, Salazar, que manifestara em
certos aspectos afinidades com os regimes do Eixo,
aproxima-se dos Aliados, podendo apresentar-se,
em 45, ao lado dos vencedores.
     Esta aproximao no significou, contudo, um
maior desejo de substituir um regime autoritrio
por um mais consentneo com as novas democra-
cias de preocupaes sociais.
     No ps-guerra, apesar das promessas feitas de
uma maior democratizao, que facilitaram a for-
mao de um movimento de oposio de unidade
democrtica (MUD) com finalidade eleitoral, as
liberdades polticas tardam. Ao contrrio, assis-
te-se  reorganizao da polcia poltica, agora
baptizada de PIDE (Polcia Internacional e de
Defesa do Estado), com poderes cada vez mais
alargados.
     As reaces oposicionistas no se fazem espe-
rar. Em 1946, revolta da Mealhada, onde os mili-
tares do Porto so impedidos de prosseguir marcha
em p de guerra para Lisboa; em 1947, com o apoio
do presidente Carmona, um golpe militar gorado, o
Movimento da Junta de Libertao Nacional;
e, mais tarde, o golpe da S e o de Beja alm de
aces mais publicitadas como o desvio do navio
Santa Maria (doc. 1) ou o assalto  agncia do
Banco de Portugal da Figueira da Foz.
     Se internacionalmente estas aces tm enorme
repercusso, para propaganda til no Pas as cam-
panhas eleitorais so escolhidas como momento
privilegiado de contestao. Em duas ocasies,
com os generais Norton de Matos (1949) e, prin-

cipalmente, Humberto Delgado (1958), as cam-
panhas presidenciais abalam o regime.
     Para evitar mais riscos, a eleio do presidente
da Repblica deixa de fazer-se por sufrgio directo
e  um colgio eleitoral alargado, com membros da
Assembleia Nacional e da Cmara Corporativa e

com representantes dos distritos metropolitanos e
das provncias ultramarinas, que o passam a eleger.
     Gorada a possibilidade de utilizar estes perodos,
a oposio concentra esforos nas legislativas. Em
1969 realiza o 11 Congresso Republicano de Aveiro
e, em 1973, o 111 Congresso da Oposio Demo-
crtica. Nesta mesma data, mostra a sua organiza-
o ao apresentar-se ao sufrgio com duas forma-
es: a CDE (Comisso Democrtica Eleitoral) e as
CEUD (Comisses Eleitorais de Unidade
Democrtica). O que no mostra  a sua unidade,
nem organizativa nem ideolgica. A primeira est
prxima do Partido Comunista; as segundas, quan-
do as h, correspondem aos adeptos de uma esquer-
da mais diversificado e menos radical.
     Mas tambm no interior do regime, a con-
cordncia no era geral. Conheciam-se os lderes
dessas tendncias (por vezes mais retrgradas do
que o prprio Salazar) que conspiravam nem sem-
pre com desconhecimento dos presidentes da
Repblica, como Carmona ou Craveiro Lopes. A
esquerda, a renovao interna mais interessante
faz-se precisamente em 1969 com a incluso nas
listas governamentais de alguns candidatos libe-
rais. S Carneiro, Pinto Balserno, Miller Guerra,
Pinto Leite, etc., constituem a chamada ala liberal,
que no se repete em 73.
     O regime, que internacionalmente estava iso-
lado (no aceitara a sua incluso no Plano
Marshall, no podia aspirar a entrar na CEE pelo
dfice democrtico da sua vida poltica, no con-
tava com a aprovao da ONU nem para a sua
poltica colonial nem para as suas instituies de
represso), no consegue internamente capitali-
zar trunfos que lhe devolvam a admirao e o
empenhamento nacional de que gozara no incio.
     Planos de Fomento, modernizao da inds-
tra, grandiosas obras pblicas, expanso do capi-
talismo financeiro (doc. 2), no deixavam esquecer
a desertificao do interior rural, o dfice da balan-
a comercial, os nmeros assustadores da emigra-
o (doc. 3).
     Entretanto, em Setembro de 1968, Salazar (doc.
4)  afastado por motivos de sade. O equilbrio de
foras no interior da 11 Repblica e o lugar mpar
que Salazar preenchera na histria contempor-
nea portuguesa, conduzem  fabulosa mistifica-
o de, durante dois anos, at  sua morte, ser
ocultado ao velho ditador que fora substitudo na
presidncia do Conselho de Ministros.


377

diri-& O PROGRESSIV(3

     A escolha recara sobre Marcelo Caetano, que
fora em tempos delfim de Salazar e que inicia em
alguns aspectos uma poca de desanuviamento: a
*primavera marcelista+. Alicia alguns jovens
prometedores, no s os citados da ala liberal mas
outros vindos da rea econmica, com a promessa
de *renovao na continuidades, pe fim aos pro-
cessos polticos mais gritantes - o do bispo do
Porto, D. Antnio Ferreira Gomes e o de Mrio
Soares -, atenua o estatuto privilegiado da polcia
poltica, liberaliza sectores da economia.
     So remdios brandos para uma situao que
no parece ter conserto (doe. 5). A contestao e a
condenao de quaisquer formas de colonialismo
estavam na ordem do dia e no iam deix-lo gover-
nar em paz e por muito tempo.

     A    instaurao da democracia em Portugal
         a consolidao das novas instituies

     A oposio de grandes figuras intelectuais, como
Jaime Corteso ou Antnio Srgio, tinha-se vindo
juntar a agitao estudantil que em duas vagas,
1962 e 1968-1969, provocara na opinio pblica
grande perturbao e levara o Governo a adoptar
medidas repressivas que no eram vistas com bons
olhos pela populao. So movimentos diferentes
na sua composio (doe. 6) e at, por ironia do des-
tino, na primeira fase os estudantes tm a seu lado o
reitor da Universidade, Marcelo Caetano, que se
demite, enquanto na segunda, a oposio  dirigida
ao presidente do Conselho, Marcelo Caetano.
     So graves em si, porque fazem parte da onda
de contestao estudantil internacional e porque
se vm juntar  aco desenvolvida no estrangeiro
pelos exilados,  agitao generalizada no mundo
do trabalho que comea a afirmar-se sindicalmente,
e  luta pela descolonizao que se iniciara em
1961 na ndia e, quase logo, no Norte de Angola.
     A prpria guerra colonial, que entre 1962 e
1968 no faz mais que generalizar-se e aprofundar-se,
pesa como uma ameaa sobre os estudantes
recalcitrantes que, alm de represlias acadmicas
- expulso ou transferncia de universidade, proi-
bio de prosseguimento de estudos - podem ser
mobilizados mais cedo e por mais tempo.
     Em termos de enquadramento, h dois grupos
que no esto disperses, o formado por estudantes
dos movimentos catlicos (doe. 7) e o dos que
vm do Partido Comunista.

378

     So os estudantes ou os recm-formados uni-

versitrios que,  medida que a guerra se prolonga,
vm suprir como oficiais milicianos a falta de ofi-
ciais do quadro regular para as operaes militares
em Africa. Entre os dois, milicianos e oficiais de
carreira, o mal-estar instala-se e estes ltimos
criam um movimento de defesa corporativa (doe.
8), por alguns transformado num movimento de
libertao nacional.
     Duas das mais fortes bases sociais de apoio do
Estado Novo, a Igreja e o Exrcito (doe. 9), tm
dentro de si, mesmo na mais alta hierarquia, des-
contentes profundos.
     Nos incios dos anos 70 os problemas econ-
mico-financeiros aumentam e uma fatia grossis-
sima do oramento  absorvida pela guerra. O iso-
lamento internacional  patente e a organizao
sindical refora-se nas fbricas. A oposio torna-
se mais violenta, com aces revolucionrias
(assaltos, sabotagens), e cada vez mais convencido
da necessidade de colaborao com o Exrcito.
     Deste, de uma das suas mais altas patentes, o
general Spnola, vem um sinal nesta direco.
Experimentado com uma permanncia na Guin,
bom observador da crise econmica mundial que se
aproxima e da sobrecarga insuportvel da continua-
o da guerra, hierarquicamente suportado pelo chefe
do estado-maior, general Costa Gomes, Spnola
publica o livro Portugal e o Futuro, onde defendia a
autodeterminao das colnias e a constituio de
uma federao de Estados autnomos.

     Demitido, torna-se referncia para os oficiais
do quadro que conspiravam na sombra. Em 16 de
Maro de 1974 h um pequeno rebate sem sucesso;
pouco mais de um ms depois,  meia-noite do dia
25 de Abril, inicia-se o derrube do regime atravs
de um movimento militar vitorioso (doe. 10).

     A rendio do Governo e do presidente da
Repblica, Amrico Toms, desarmamento da
Legio Portuguesa e da Polcia de Estado segue-se,
a 26, a apresentao ao Pas da Junta de
Salvao Nacional - totalmente constituda por
militares - e, a 27, a divulgao do Programa
das Foras Armadas, que se propunha democra-
tizar, descolonizar e desenvolver.

     Nos dias seguintes  a chegada dos exilados e
a abertura das cadeias aos presos polticos. A 1
de Maio, um desfile de 500 000 pessoas pelas
ruas de Lisboa confirma a adeso popular e san-
ciona o golpe militar (doe. 11).

     Dos elementos da Junta de Salvao Nacional
saiu o primeiro presidente da Repblica, o general
Antnio de Spnola, com a obrigao de nomear
um governo provisrio civil de personalidades que
se identificassem com o Programa. Este, um ano

depois, assim como a Junta, e depois de se ter pro-
cedido  eleio de uma Assembleia Constituinte,
por sufrgio universal, directo e secreto, deixariam
de dominar a vida poltica portuguesa.
     O Programa imputa ao governo provisrio a
responsabilidade de traar as grandes linhas de
uma nova poltica econmica e social, impon-
do-lhes um parmetro antimonopolista e a defesa
dos interesses das classes trabalhadoras. No que se
refere  poltica ultramarina, prope, como prin-
cpios, o reconhecimento de que a soluo das
guerras no ultramar  poltico e no militar e o
lanamento dos fundamentos de uma poltica ultra-
marina que conduza  paz. No domnio do exerc-
cio efectivo da liberdade poltica dos cidados,
assegura a liberdade de expresso, de pensamento,
de reunio, de associao (nomeadamente sindical)
e a independncia e dignificaro do poder i udicial.
     O programa do primeiro governo provisrio
retoma esta mesma orientao, declara o empe-
nho no estabelecimento de relaes diplomti-
cas e comerciais com todos os pases do Mundo e
prope-se mobilizar esforos para irradicar o anal-
fabetismo, promover a cultura e lanar uma refor-
ma educativa que desenvolva a liberdade de
expresso e a eficincia do trabalho.
     A vida poltica toma-se muito agitada. Criam-se
as mais variadas formaes partidrias (doc. 12) e
os governos provisrios sucedem-se numa cadn-
cia rapidssima (seis at Setembro de 1975) (doc.
13). A agitao social, com grandes conflitos labo-
rais, lutas de trabalhadores e movimento popular
de ocupaes de casas, prolonga-se por vrios
meses. Nos incios de 1975, trabalhadores rurais
ocupam terras em parte abandonadas. Legisla-se
sobre o direito  greve e institui-se definitivamen-
te o salrio mnimo nacional (doc. 14).
     Entre Maro e Novembro de 1975, uma crise
revolucionria pelo controle global do Estado (doc.
15) manifesta-se socialmente nas relaes entre o
movimento popular e o MFA (Aliana Povo-MFA)
(doc. 16). Em finais de 1974, exprime-se simboli-
camente nas Campanhas de Dinamizao
Cultural, a cargo da 5.' Diviso Militar, com treino
em aco psico-social adquirido na guerra colonial.

IW!W

     Pouco depois, institui-se o Servio Cvico
Estudantil (doc. 17) e inicia-se a Reforma Agrria.
     J depois de 11 de Maro, momento de ruptu-
ra evidenciando divises profundas entre oficiais
do NIFA e de que resultara a criao do Conselho
da Revoluo, executa-se um grande plano de
nacionalizaes em sectores vitais como os da
banca, dos seguros, dos transportes, etc. Ainda
antes das eleies para a Constituinte, consagran-
do o dia do primeiro aniversrio da Revoluo, o

MFA assinava com doze organizaes partid-
rias uma plataforma de acordo condicionante
das opes poltico-Ideolgicas a tomar e, um ms
depois, prope, para a institucionalizao da socie-
dade socialista porque pugna, um papel relevante
para as assemblias populares (doc. 18).
     O choque com a sociedade civil e entre faces
militares aparece cada vez mais previsvel. J
houvera afrontamentos a propsito da unicidade
sindical, outros pontuais entre militantes partid-
rios, o assalto  embaixada de Espanha, a explo-
so, por ordem do Conselho da Revoluo, dos
emissores da Rdio Renascena (doc. 19), a ocu-
pao do jornal Repblica, os violentos confron-
tos, na regio de Rio Maior, entre membros das
UCPs e cooperativas agrcolas da zona de inter-
veno da Reforma Agrria (doc. 20) e membros
da CAP (Confederao de Agricultores
Portugueses). Agora, em 25 de Novembro, com o
Governo auto-suspenso por falta de condies para
o exerccio das suas funes e o estado de stio
decretado na regio de Lisboa, confrontam-se
militares afectos ao Governo (doc. 21) com mli-
tares revoltosos, que saem derrotados. O estratega
do contragolpe, Ramalho Eanes, elevado a general
e chefe do estado-maior do Exrcito, vai ser, em
1976, o primeiro presidente da Repblica, consti-
tucionalmente eleito.
     A instabilidade poltica continua - de Julho
de 1976, 1 Governo Constitucional, chefiado por
Mrio Soares, a Novembro de 1984, X Governo
Constitucional, chefiado por Cavaco Silva - reflec-
tindo a instabilidade scio-econmica e as alte-
raes culturais e das mentalidades - legislao
sobre o divrcio e a despenalizao do aborto, leis
do trabalho e despedimentos, leis de base da
Reforma Agrria e do Servio Nacional de Sade,
lei das indemnizaes, negociao de emprsti-
mos internacionais com o FM1, julgamento de rus
de atentados bombistas, conflitos dentro do movi-

379

MI             o

mento sindical, surtos grevistas peridicos, denn-
cias de trabalho infantil e de salrios em atraso,
etc., etc. Simultaneamente, consolidava-se um sis-
tema poltico baseado no voto popular (doc. 22) e
assente numa economia em rpido processo de
dependentizao do exterior, particularmente da
rea europeia. A nova sociedade espelha-se nas
prioridades dos oramentos e das despesas pbli-
cas (doc. 23) e, nos anos 80, no reafirmar das
caractersticas tpicas da sociedade de consumo. Os
smbolos desse novo quotidiano so os centros
comerciais e os hipermercados que se espalham
por todo o pas (doc. 24).

     A descolonizao e o novo lugar de
     Portugal no Mundo

     A opo pela Europa  coisa quase nova e
filha das circunstncias. Portugal pertencia, sem
dvida, a organismos internacionais como a
NATO, a EFTA ou a ONU, alinhando pelo bloco
ocidental, mas a sua posio tinha~se vindo a debi-
litar  medida que a descolonizao mundial pros-
seguia e o Pas se reafirmava como potncia colo-
nialista (doc. 25). Marginal no concerto poltico
no o era, contudo, como fornecedora de fora de
trabalho, com mais de meio milho de emigrantes
nas democracias desenvolvidas da Europa. Era
inevitvel que em Portugal o debate sobre a inte-
grao europela, que j tinha surgido anterior-
mente (doc. 26), se desenvolvesse.
     Logo aps o 25 de Abril, com o despertar das
mais variadas tendncias ideolgicas, mesmo
havendo sectores muito crticos relativamente 
permanncia portuguesa na Aliana Militar
Atlntica,  o horizonte europeu que, cada vez
mais, se vai impondo como quadro natural.
     Entre os partidos polticos  o PS que mais se
empenha nesta integraro. Com Mrio Soares
como primeiro-ministro, Portugal torna-se, em
1976, o 19.' Estado membro do Conselho da
Europa e, em 1977, apresenta o pedido de adeso
s Comunidades Europeias. Em 1985, com
Mrio Soares tambm no mesmo lugar,  assinado
o Tratado de adeso  CEE (doc. 27) e, em 1992,
subscreve-se o Tratado de Maastricht.

     Na realidade, Portugal restringira-se ao seu
espao europeu e aos arquiplagos atlnticos.
Mesmo estes se entusiasmaram com a vaga de

380

declaraes de independncia dos territrios por-
tugueses, que ocorreram no Vero de 1975. Nos
Aores ocorre a 6 de Junho a primeira manifesta-
o pblica da Frente de Libertao dos Aores
(FLA), mas  na adopo de um estatuto auton-
mico que o futuro dos dois se joga.
     A aprovao pela Assembleia Constituinte da
Constituio da Repblica de 1976 (2 de Abril),
sucedem-se as eleies legislativas a 25, a apro-
vao do Estatuto Provisrio das Regies
Autnomas dos Aores e da Madeira a 30 e, a 27
de Junho, a primeira eleio presidencial dentro do
quadro constitucional (eleito Ramalho Eanes). Em
Setembro e Outubro d-se, respectivamente, a
abertura das Assembleias Regionais dos Aores e
da Madeira (doc. 28).
     O processo fica concludo em 1980, com a
aprovao dos Estatutos de Autonomia dos dois
arquiplagos (27 de Junho). J ento se conclura

tambm o processo de descolonizao, condicio-
nado e condicionante do agitado processo de
democratizao que acabmos de estudar.

     A questo colonial est efectivamente na ori-
gem do 25 de Abril. O desejo de acabar com a
guerra foi motor e objectivo do levantamento mili-
tar e mesmo o *movimento de capites+ tem a sua
primeira reunio clandestina em Bissau, no Vero
de 1973.
     Passemos  anlise do processo de indepen-
dncia sob o ponto de vista da metrpole descolo-
nizadora, deixando para mais tarde a perspectiva
dos povos africanos.
     Desde logo, em Abril, se confrontaram duas
estratgias, ambas assentes na procura de uma
soluo poltica para a guerra. Uma defendia a
descolonizao na continuidade possvel (doc.
29) e vinha na linha das preocupaes defendidas
na obra Portugal e o Futuro por Antnio de
Spnola, depositrio do poder abandonado por
Amrico Toms e Marcelo Caetano e primeiro
presidente da Repblica aps o golpe; a outra, que
era a que se desenhava no MFA, assumia a rup-
tura como inevitvel.
     Spnola, face  corrente que defendia o reco-
nhecimento imediato do direito  independncia e
a rpida passagem de poderes para os movimentos
de libertao (e que no terreno era apoiada pelas
tropas portuguesas de ocupao), desiste da solu-
o federalista e de uma autodeterminao legiti-

por consultas populares, consideradas como for-
mas de neocolonialismo. Acaba por promulgar a
lei constitucional que reconhece o direito  auto-
determinao dos povos das colnias com todas
as suas consequncias, incluindo a aceitao da
independncia (docs. 30 e 31).
Se militarmente foi fcil arrumar as armas
na metrpole assistia-se a manifestaes de
boicote ao embarque de soldados para as colnias
onde soldados e guerrilheiros confraternizavam
facilmente - o mesmo se no passou com a socie-
dade civil. Para Portugal foi o retorno de cente-
nas de milhares de colonos (doc. 32) que perde-
ram os seus bens, enquanto muitos outros perde-
ram a sua vida. Para os novos pases foi o des-
mantelamento dos aparelhos produtivo, comer-
cial e administrativo e a privao dos quadros
tcnicos europeus que asseguravam a adminis-
trao pblica e o funcionamento da estrutura
econmica.

     O impacto da descolonizao portuguesa
     na Africa Austral

     Sob o ponto de vista do colonizado, os movi-
mentos nacionalistas e a luta pela libertao,

iniciados no princpio da dcada de 60, tinham
agora o seu eplogo. Pelo caminho foram ganhan-
do credibilidade internacional e vendo surgir os
primeiros heris (alguns tambm mrtires), como
Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Amlcar
Cabral, os irmos Andrade e outros.
     Muitos deles, antigos universitrios resi-
dentes na Casa de Estudantes do Imprio, tm
laos profundos de amizade e de cultura com
a metrpole, noutros h uma visvel quebra
dos vnculos estruturais com Portugal. Tendo
sido formados nas universidades do comunismo
de Leste e tecido laos ao nvel econmico e
sobretudo militar, prenunciam novas opes
estratgicas em poltica externa e no sistema
de alianas.
     Aproveitando a intensa luta poltica interna em
Portugal, os dirigentes nacionalistas africanos
colocaram, como condio  abertura de negocia-
es com vista ao termo do conflito armado, o ine-
quvoco reconhecimento oficial, pelas autorida-
des portuguesas, do direito  independncia dos
povos que representavam (doc. 33). Foi esse direito
que o general Spnola proclamou solenemente a 27 de

Julho de 1974, iniciando-se a partir daqui os cami-
nhos individuais que levaram s independncias
de Moambque, Cabo Verde, So Tom e
Prncipe, Guin-Bissau e Angola. Timor que,
com Macau, no estava includo neste rol,  inva-
dido a 7 de Dezembro de 1975 pela Indonsia
(doc. 34). Quanto a Macau. ser integrado na
China em 1999.
     Infelizmente, os novos Estados independentes
no passaram a gozar da felicidade terrena. A
guerra entre tendncias diversas dos movimen-
tos de libertao e a pobreza em extensas regies
exigem esforos de mediao de vrias potncias e
a canalizao de recursos econmicas e auxlios
humanitrios elevados. Nos incios da dcada de
90, as alteraes no bloco de Leste e a impossi-
bilidade de os pases comunistas continuarem a
pretender ocupar uma posio em Africa, reflec-
tiram-se nas guerras civis que se continuavam a
travar em Angola e Moambique. Em pouco mais
de um ano, esquecidos os anos de presena cuba-
na e de outros aliados soviticos, a paz, ainda
que com precalos, parece prxima.
     MPLA e UNITA, por um lado, e (principal-
mente) FRELIMO e RENAMO, por outro, prepa-
ram-se para desbloquear os problemas que ainda as
dividem.

     Ao lado destes pases  tambm a Africa do
Sul que evolui. Negociaes partidrias entre o
governo branco de De Klerk e o ANC conseguiram
uma nova realidade multirracial. Apesar da vio-
lncia no seio da comunidade sul-africana, foram

possveis eleies livres e a reconciliao nacio-
nal. Por aco de Nelson Mandela, as sanes
pelo apartheid foram levantadas e a Africa do
Sul encorajada a prosseguir a poltica de reformas
encetada h um par de anos.

2.   AS TRANSFORMAOES DEMOCRATICAS
     NA GRCIA E NA ESPANHA

     O 25 de Abril representou uma viragem no
s para Portugal e as suas colnias africanas, como
tambm abriu um novo ciclo para a Europa, com a
transio democrtica em Espanha e o fim dos
coronis na Grcia.
     Com estas, Portugal tinha em comum serem socie-
dades semiperifricas (doc. 35) e terem institucio-
nalizados regimes autoritrios e conservadores.

381

     A Grcia, que fora ocupada durante a guerra
pelos Alemes, restabelecera a monarquia em
1946. O jovem rei Constantino, que entrara em
conflito com o governo liberal, deu o seu aval a um
golpe militar em 1967 que, contudo, depois se
negou a aceitar como governo. Exilado no final
desse mesmo ano, instaura-se uma ditadura mili-
tar que manteve teoricamente a monarquia. Em
1973, novo golpe militar substitui o governo de
Papadopoulos e proclama a repblica, envolven-
do-se em inesperadas aventuras em Chipre que
provocaram a interveno da Turquia. Este fra-
casso ps fim, em 1974, ao governo autoritrio
dos coronis, que foram forados a entregar o
poder a um gabinete presidido pelo democrata
Caramanfis. Vencedor das eleies nesse ano,
restaurou a democracia (doc. 36) e a economia,
o que lhe permitiu entrar na Comunidade Europeia
em 1981.
     Em Espanha, as Cortes, restabelecidos em
1942, confirmam o governo do caudillo Franco
que, em 1947, reafirma o princpio da monarquia e
estabelece a lei da sucesso. Continua, entretanto,
 frente do governo e, a partir de 1953, o pas come-








O NAVIO *SANTA MARIA+ REBAPTIZADO






                     Cru




                    SANTA

                     382

a a sair do seu isolamento graas a acordos com os
Estados Unidos e  entrada na UNESCO, na ONU
e na OECE. Nos anos 60 e 70, uma oposio
muito forte, pontuada por greves, tumultos, actos
de violncia do grupo guerrilheiro basco ETA, tor-
navam o fim da ditadura previsvel. Entretanto, em
1969, o filho do conde de Barcelona, Juan Carlos,
 designado sucessor de Franco, vindo em 1975 a
assumir efectivamente o poder.
     Juan Carlos 1 empreendeu desde logo o pro-
cesso de liberalizaro do regime (doc. 37). Os
partidos e os sindicatos so autorizados e exer-
cem intensa actividade e, atravs de um referendo
realizado em 1976, aprova-se um regime parla-
mentar de sistema bicamaral efectivo.
     Uma Constituio promulgada em 1978 (doc.
38) prometia a estabilidade poltica. Esta foi, no
entanto, quebrada, em 1981, por uma tentativa
de golpe de Estado militar que envolveu a ocu-
pao do Parlamento e, frequentemente, por agi-
tao e ataques bombistas, em especial nas regies
basca e catal.
     Com Portugal e a Grcia foi igualmente inte-
grada na Unio Europeia.





                         DocuMENTOS

                              O PERODO PR-REVOLUCIONARIO

     At  dcada de 60, o crescimento da economia portuguesa 
processa-se a um ritmo relati-
vamente lento, a abertura ao exterior  limitada (fora do espao 
colonial), a acumulao de
capital (alis, comparativamente reduzida) radica-se internamente, na 
explorao da agri-
cultura e na sobrexplorao do trabalho assalariado e, externamente, 
na relao colonial. Por
volta de 60, os nveis culturais e a estratificao social do Pas 
revelam um *atraso+ muito pro-
nunciado  escala europeia e mesmo comparativamente a pases 
latino-americanos.
     Com os anos 60 comea a manifestar-se agudamente a grande 
contradio da formao
social portuguesa que desemboca na brusca exploso de 1974175. Por um 
lado, subsiste um pro-

jecto de capitalismo nacional, imperialista efechado sobre si prprio 
(projecto mais conforme
 ideologia de Salazar). Por outro, solicitaes  abertura ao 
capitalismo internacional,  *inte-
grao econmica europeia+, a certa renovao na continuidade, como 
Caetano viria dizer mais
tarde. A segunda tendncia no  su cientementeforte e estruturada 
para descolonizar na medi-
da do seu prprio interesse.
     Um compromisso invivel permite em 1968173 breve expanso dum 
capitalismofinanceiro,
altamente concentrado e centralizado. De qualquerforma predominam os 
efeitos de arrasta-
mento sobre a economia portuguesa duma fase invulgarmente dinmica do 
capitalismo inter-
nacional designadamente europeu. Tais efeitos no so, porm, tambm 
aqui assumidos inter-
namente para que um crescimento auto-sustentado torne vivel a 
formao portuguesa, liqui-
dada a relao colonial.
     A crise estrutural que Portugal atravessa - com determinaes 
internas e externas com-
plexas - tem, porventura, a sua *explicao+ mais profunda a este 
nvel. Como restabelecer um
sistema econmico e social subdesenvolvido aparentementeforado a 
comprimir-se sobre si pr-
prio como nunca antes desde h cinco sculos, e com persistente 
incapacidade de superar as ra-
zes desse subdesenvolvimento - tal a grande questo que parece 
legtimoformular f ... 1
Parecem, porm, pacficas concluses como as seguintes.
     Os factores de mudana social que agiram eficazmente no Portugal 
desse perodo, at
1974, so exgenos  metrpole portuguesa e mesmo (em certo sentido) 
ao espao imperial.
     A engrenagem que desperta e estimula o crescimento da economia 
portuguesa nessa poca
- e principalmente a partir dos anos 60 -  alimentada defora para 
dentro, por mecanismos
conhecidos (expanso das exportaes, industrializao voltada 
parafora, emigrao, inves-
timento externo, etc.). [... 1 Mais do que o crescimento, todavia, 
pode dizer-se que  o potencial
de crescimento da economia que aumenta - designadamente, em termos de 
meios internos e
externos de financiamento que ou no so mobilizados ou so-no para 
fins improdutivos
(guerra colonial, acumulao estril de poupanas no sistema 
financeiro, incluindo a previ-
dncia social, actividades especulativas, etc.).
     O problema econmico do regime no tempo de Caetano poderia 
reduzir-se talvez, no essen-
cial, a esta questo: como liquidar a relao colonial sem sacrificar 
os detentores directos e
indirectos desse potencial de crescimento entretanto acumulado? 
Problema que, a posteriori, se
revelou afinal insolvel.


                    Mrio Murteira, Portugal nas vsperas e aps 
1974, Lisboa, 1979.








                                                            383

dIn[_16
                     0.1

MIGRAES DE TRABALHADORES ENTRE 1966 E 1972






                   183 OOQ

          da Irlanda
          para C) Reino
          471 000

                                             da

                                             out              I@E1

                   81 000
                     a

de outros pases   4@
1 348 000








                    a Ju

Portugal
000

          nha


a Turquia
82 000


                     C@

                         da Africa do Nor




                         701 000



O VELHO ABUTRE

O velho abutre  sbio e alisa as suas penas
A podrido lhe agrada e seus discursos
Tm o dom de tornar as almas mais pequenas

Sofia de Mello Breyner.

O GOVERNO DE MARCELO CAETANO

.                                          A. Por um opositor...
          Meu caro Amigo,
          Recebi a sua carta que me deixoufrancamente alarmado.
     Verifico, com natural desgosto, que se est criando entre ns 
uma situao profundamente
equvoca susceptvel de produzir perturbaes graves e de estabelecer 
uma tremenda confuso.
     Eu gostaria muito de partilhar das suas risonhas esperanas e de 
me associar s suas manifes-
taes de optimismo... A verdade, porm,  que - ao contrrio do meu 
querido Amigo e de quantos
o acompanham nessa doce iluso - eu penso que nada de essencial se 
modificou com a inutilizaro
do antigo Presidente do Conselho, Dr. Oliveira Salazar, e com a sua 
substituio pelo Dr. Marcelo
Caetano.
     Efectivamente, estou convencido de que, longe de se registar 
qualquer substancial melhoria -
tudo, afinal, se agravou, com esse recente episdio da nossa vida 
poltica.


384

      certo que sou dos que acreditam na sinceridade do Prof. 
Marcelo Caetano e o julgam mui            . to
capaz de cumprir as promessas insinuadas aquando do seu discurso de 
27 de Setembro ltimo, no
sentido de ir desenvolver uma aco tendente a restabelecer um mnimo 
de harmonia e de paz entre
todos os portugueses, mediante uma progressiva liberalizaro do 
regime.
     Simplesmente - repare que tudo isso  secundrio e no tem 
importncia de maior.

      claro que me agrada muito notar uma ampla atenuao dos 
rigores da Censura, que me entu-
siasma e perspectiva de ver a PIDE sujeita a uma reforma que a 
despoje dos poderes ilimitados de
que tem desfrutado e a reduza  funo puramente investigatria que 
lhe cabe, segundo processos
estritamente legais, que me alegra quanto se faa para desvincular a 
Poltica da Economia
Particular, libertando aquela das presses desta, etc. Tudo isso me 
assegura algum conforto fsico
e moral que no me , de modo nenhum, indiferente... Significa que 
vamos poder emitir, para ofutu-
ro, oralmente ou por escrito, as nossas opinies a respeito de 
quaisquer problemas nacionais; que
deixaremos de recear uma deteno arbitrria da polcia poltica a 
qualquer momento; que nos
podemos reunir quando o queiramosfazer; que as eleies em que 
interviermos tero um mnimo de
honestidade e deixaro de ser asfarsas em que algumas vezes nos 
dispusemos a colaborar; etc.
     Se assimfor - do que alis duvido muito - reconheo que isso me 
serfrancamente agradvel -
mas a verdade  que no toca no fundo da questo - a qual permanece a 
mesma... e agravada.
     O Prof. Marcelo Caetano Joifirme e peremptrio a esse respeito: 
ele prope-se ser, a, um con-
tinuador do Prof. Oliveira Salazar.
     No essencial, portanto, no se registaro quaisquer alteraes; 
o Estado continuar a apoiar-se
na organizao corporatva; a Assembleia Nacional - enquanto no for 
pura e simplesmente
suprimida - limitar-se-, durante trs meses de cada ano, a aplaudir 
servilmente a aco do
Governo; este, embora mais atento e solcito no cumprimento dos 
preceitos constitucionais - man-
ter o seu escandaloso predomnio sobre todos os outros Poderes, num 
permanente e irresistivel res-
valar para o despotismo mesmo que sinceramente no desejado; ns, 
cidados, talvez informados
por uma imprensa aparentemente mais livre e menos tolhidos pelo medo 
a uma polcia mais lega-
lista, permaneceremos despojados dos meios efectivos de intervir na 
administrao pblica e de
influir na aco governamental.
          Quer dizer: tanto no que respeita  organizao do Estado 
como no que se re re  orientao pol-
     ,fe
tica do Governo (nos domnios, por exemplo, das nossas relaes 
externas, da administrao ultrama-
rina, da estruturao da economia, etc. - para s invocarmos os mais 
vivos e mais prementes) tudo
seguir sem alteraes sensvei.s e com tendncia para se reforar e 
consolidar com o decorrer dos anos...
     Logo - tudo ameaa tornar-se, s por isso, muitssimo pior...
     Mas h mais - a carregar as cores negras do quadro esboado;  o 
que resulta das personali-
dades bem diferenciadas dos Professores Salazar e Caetano...

     Efectivamente V. no ignora, por certo, que o pri . mei . ro 
nuncafoi um poltico na verdadeira acepo
desta nobre palavra. Com todos os talentos que lhe queiram atribuir - 
e que alis no me constranjo
nada em reconhecer-lhe - a verdade  que sempre se mostrou um asceta 
insacivel, de uma austeridade
quase doentia, misgino e introvertdo, seco, duro, obstinado, pessoa 
dominada pela insacivel ambi-
o do mando mas descomprometido doutrinariamente -para usarmos uma 
expresso em voga
Ora, com o Prof. Marcelo Caetano - como V. muito bem sabe - no 
acontece o mesmo...
     Trata-se de um sujeito normal - um homem como todos os outros 
homens - com mulher, filhos
e netos em casa; com colegas e alunos na Universidade; com empregados 
e scios em Empresas e
Sociedades; que, levando uma vida relativamente austera, nem por isso 
deixa de ter afectos, paixes,
fraquezas, talvez at seus pequenos vcios.
     Isso torna-o, fatalmente, mais compreensivo e humano.
     Com sua ponta de vaidade embora - resultado de uma carreira 
profissional que se revelou bri-
lhante e fcil - no tem as pretenses do Prof. Sa         lazar nem 
se pode erigir num *ungido do
Senhor+, num *eleito do Destino+...
     No est acima de toda a crtica nem conta com o apoio,fantico 
e incondicional de ningum. Pelo con-
trrio - o seu feitio pessoal, um pouco distante mas socivel, o seu 
legalismo, o seu esprito de justia -
ho-de concitar-lhe a inimizade cega dos *ultras+ e o dio vesgo 
dosfavorecidos pelo seu antecessor.

385

                    Ida a

               A sua permanncia no Poder no poderia, portanto, 
assentar num terror que dificilmente teria
          meios de manter - e que, de resto, acredito que lhe repugne 
- mas na obra administrativa que rea-
          lize e, sobretudo, na solidez de que impregne a contextura 
do Estado que serve, ajudou a instituir e
          em cuja excelnciafirmemente acredita.
               Efectivamente, o Prof. Marcelo Caetano  
Corporativista convicto -permanecendo, a, fiel s
          suas velhas convices polticas.
               Pode ter deixado de ser um integralista militante 
quefoi na sua juventude, declarando-se indi-
          ferente e sem preferncias na questo, muito ultrapassada, 
do regime - mas mantm-se o corpo-
          rativista que sempre foi e que tudo faz crer que continue 
sendo.
               Como esperar deste homem - qualquer esforo no sentido 
de uma restaurao da Repblica
          Democrtica e Parlamentar? qualquer medida tendente  
socializao da Riqueza? qualquer gesto
          verdadeiramente favorvel  satisfao dos nossos anseios 
polticos e sociais?

               E como poderemos ns, ento - dar-lhe o pblico apoio 
que o meu Amigo, com manifesta pre-
          cipitao, preconiza?
                                                                     
 Nuno Rodrigues dos Santos
                                   Carta publicado na revista 
Expresso (1 994), por Pinto Balserno.

                                   B.   Por um colaborador...

               P.               - Voltando agora um pouco atrs, 
antes de prosseguir: qual era a sua relao com o poder
          vigente antes do 25 de Abril? Aceitou pertencer  Cmara 
Corporativa. O que  que isso implicava
          da sua parte?
               M.'Lurdes Pintasilgo - Implicou algumas coisas. Em 
primeiro lugar, uma sincera confiana na
          capacidade do dr. Marcello Caetano de mudar as coisas e 
abrir as portas... Havia ali duas questes:
          por um lado, as desigualdades sociais, verdadeiramente 
gritantes. Dou-lhe dois exemplos que me
          ocorrem agora: tinhamos na altura, no tecido industrial, 
mais de 60 por cento dos trabalhadores sem
          a instruo primria completa; e, quando introduzimos o 
salrio mnimo, ele veio atingir mais de 50
          por cento das pessoas! Por outro lado, dado o meu 
permanente contacto com gente l de fora e com
          outros continentes, cada dia sentia mais a preocupao 
relativamente  nossa posio internacio-
          nal: os movimentos de libertao ganhavam terreno: desde 
1957 que se processava a independen-
          cia de diversos pases, sobretudo dos africanos. Parecia-me 
que teria de haver, da nossa parte, o
          assumir desta situao, tanto mais que se estava j em 1969 
e havia oito anos que durava a guerra
          colonial.
               P.   - Aceitou, ento, colaborar com Marcello 
Caetano...
               R.   - Aceitei em parte: comecei por ser convidada 
para integrar a lista da Unio Nacional para
          a Assembleia, mas recusei. Se no concordava com um regime 
de partido nico, no podia participar
          na sua lista...
               P.   - Como  que ele reagiu?
               R.   - Penso que ter compreendido.  Masfoi uma 
excelente conversa, falmos de muitas coisas
          e, quando recusei este convite, o professor Marcelo Caetano 
perguntou-me ento da minha dispo-
          nibilidade para outro tipo de colaborao que no 
envolvesse os meus principies, os qual             .          s eu 
no
          queria por em causa.  E neste contexto que surge a Cmara 
Corporativa.  Entrei para a sua
          misso e Po tica Gera , on               me mantive at ao 
25 de Abril.
               P.   - Valeu a pena?
               R.   - Ali, foi extraordinariamente interessante! Pude 
aperceber-me, em contacto com diversos ex-

          -mi          .          nistros de Marcello Caetano que no 
pensavam de modo nenhum da mesma maneira -, do que
          era a poltica concreta, e pude observar, do interior, as 
suas estruturas, o seu modo de funciona-
          mento, os erros, etc. Havia discusses muito ricas entre 
todos, sobretudo entre alguns ex-ministros
          que manifestavamj uma sria revolta em relao ao estado 
das coisas e outros que nunca se ques-
          tionavam... Por outro lado, esta experincia foi-me 
impedindo de julgar as pessoas e as questes de
          forma maniquesta...

Maria de Lurdes Pintasilgo entrevistada por Maria Joo Avillez, 
Pblico Magazine, 314/1994.

386

     Pblico - O que distinguia fundamental-
mente a sua gerao (de 68) da gerao de 62,
que a precedeu?
     Jos Pacheco Pereira - Foi a primeira
gerao poltica estudantil que no passou
pelo Partido Comunista e que nunca teveface
a ele a relao de respeito reverencial que
teve a gerao de 62.
          R - E isso foi fundamental?
     R.     - Fundamental, porque fomos os pri-
meiros a no ter uma relao de culpa face
ao PCP
          P.          Relao de culpa?
     R.     Sim. Ns no tnhamos esse senti-
mento, a outra gerao tinha e, alis, ainda
hoje expia essa culpa... Muitos deles fizeram
parte do PCP e saram, muitos no chegaram
a entrar porque no tiveram coragem...
          R - Ou porque no o quiseram...
     R.     - Mas esse nmero foi bastante peque-
no.  E portanto expiaram.  No fundo no gos-
tavam do PC, mas acharam sempre que os
comunistas eram os antifascistas mais conse-
quentes, corajosos e dedicados. E por isso
expiaram. Ns acompanhmos de perto o
ciclo poltico europeu e mundial - muito
mais do que os de 62 -, vivemos em tempo
real, somos muito diferenciados na nossa
viso do mundo no que toca aos costumes,
ao entendimento das relaes familiares, 
vida sexual,  cultura.  a primeira gerao
portuguesa cuja cultura  mais anglo-saxni-
c do que francesa. E ps-existencialista,
interessa-se pela literatura anglo-saxnica,
a banda desenhada, a fico cientfica, os
meios audiovisuais. Se voc verificar o per-
curso posterior dessa mesma gerao - para
l dos que esto na poltica e que so mais
fceis de identificar -, encontra centenas deles
na rdio, na televiso, nos meios de comuni-
cao social, no cinema, etc. E trocmos a
Franoise Hardy e o Becaud pelos Beatles.

H a uma grande diferena cultural.
                                             ..........

   AS GERAES ESTUDANTIS DE 1962 E DE 1968 
E A SUA PARTICIPAO POUTICA PS 25 DE ABRIL                   lq

     P.     - De resto, a sua curiosidade, as suas
inquietaes comearam por ser culturais:
escreveu muito novo em jornais, frequentava
tertlias, era amigo pessoal de Eugnio de
Andrade, que inclusivamente marcou a sua for-
mao.
     R.     - Justamente, tratou-se de um trajecto
geracional. A revolta contra o sistema - no
apenas poltico, mas tambm cultural e ideo-
lgico - era uma revolta global: no gost-
vamos daquele modo de vida, achvamos que
havia uma hipocrisia instalada, tanto na situa-
o como na oposio. ramos simultanea-
mente contra o regime salazarista e caetanis-
ta e contra a oposio tradicional; sobretudo,
contra os comunistas, com quem tnhamos
grandes diferenas no plano da mentalidade e
da cultura. Este levantamento geracional -
que depois ir entroncar no maoismo e na
extrema-esquerda - comea por ser uma
revolta cultural por inteiro.  por isso surrea-
lzante e no neo-realista.
     P.     - At que se chega, o que  muito sig-
nificativo, a um processo de extrema politi-
zao?
     R.     - Exacto: era muito difcil, no contexto
dofinal dos anos 60, evitar isso, o quefoi sig-
nificativo. Acompanhmos o fluxo de lutas
sociais, o aparecimento de Caetano e fomos
rapidamente apanhados pelo impasse da libe-
ralizao caetanista. No incio de 70, d-se
uma represso sobre o movimento sindical, h
a restrio das liberdades pblicas, entrea-
bertas dois ou trs anos antes. E da o impasse..
no conseguamos,  medida que o sistema
poltico se fechava, exprimir a nossa revolta.
Portanto, politizmo-nos muito rapidamente
e, na altura e no caso portugus, essa politi-
zao passava pelo maoismo.
     P.     - Era mais *novo+, mais atractivo? A
revoluo cultural?
     R.     - Sim, devido ao impacto da revoluo
cultural, que era interpretada de modo mtico.


387

Era atractivo para os intelectuais radicais
e particularmente num pais com um regi . me
autoritrio - a ideia de uma revoluo pol-
tica que utilizava a palavra cultural e que

pretendia mudar o mundo todo... [sorriso].
     P.     - De algum modo, a forma importava
mais que o fundo...
     R.     - Sim, a substncia no era muito
importante em si. O que o maoismo dava era
uma linguagem radical. Uma das palavras de
ordem era colocar a poltica no posto de
comando, mudar a vida toda. Isto , o maoismo
correspondia aos desgnios de uma poltica
quase meta ica e no apenas a uma poltica

                    .fs
baseada no oportunismo das circunstncias,
como era notoriamente a poltica sovitica. E
conioj ningum acreditava nela, os chineses
surgiam-nos como *novos+. Tudo isto era
muito atractivo para ns...
     P.     - Embora hoje, quando se analisa tudo
isso, se insista mais nos aspectos meramente
polticos...
     R.     -- Sim, a dada altura tudo aquilo se
assumiu como essencialmente uma linguagem
de tipo poltico. Mas o que marcou a d@frena
foi a gnese da revolta contra a hipocrisia
daquela gente salazarista, a censura e a opo-
sio, que ns conhecamos  distncia... [sor- 1




14          AS OPOSIES NO COMUNISTAS
N

     P.     --- Para perceber alguns passos da hist-
ria do 25 de Abril temos de voltar atrs. A
histria da sua gerao, de que voc  um dos
emblemas, comea no fim dos anos 50. A pol-
tica comeou para si e para alguns dos seus
amigos pela Aco Catlica e pela JUC?
     J.     Bnard da Costa - Foi. A aninha famlia
era catlica eferrenhamente salazarista, com
excepo do meu pai, que era democrata e
tinha Churchill e a democracia inglesa por

riso]. Os do PC liam os mesmos livros, anda-
vam vestidos da mesma maneira, ns conhe-
camo-los. O maoisino trazia-nos um suple-
mento de entusiasmo. Tudo isto era ao mesmo
tempo muito entusiasmante e... profundamen-
te ilusrio...
     P.     - E voc  apanhado pela seduo dessa
vaga quando, exactamente?
     R.     - Em 1968-70,  medida que as lutas
estudantis se desenvolvem. E quando elas
comeam a decair e se inicia a politizao do
movimento, h milhares de pessoas envolvi-
das neste processo que so empurradas para
Jrmas de aco mai . s organi . zadas e, de um

certo ponto de vista, menos interessantes. Mas
h portanto um surto de organizaes polticas
no incio de 70, o MRPP, a OCMLP, o PCP
(M-L) desenvolvem-se nessa poca, so cons-
tituidas por estudantes e as diferenas so
pouco relevantes entre elas. Mas estas organi-
zaes consubstanciam j uma fase muito
menos interessante dessa gerao, canalizam o
mpeto e a energia iniciais para expresses
estereotipadas, abstractas, que chega ao seu
paroxismo com a linguagem do MRPP: *Fogo
sobre o quartel-general+, fogo sobre isto, fogo,
sobre aquilo... um mimetismo total da lingua-
gem chinesa, sem o menor sentido.
                                   1








modelo. Mas a minha primeira grande influ-
ncia veio de um cunhado meu, catlico, que
me tocou num ponto sensvel - uma certa
conscincia moral, a ideia de que era impos-
svel aos catlicos, que eu era, conviver com o
que chamvamos a *desordem estabelecida+:
um regime social injustssimo, em que os
pobre quase no tinham direitos, onde havia a
censura, a PIDE e a tortura e onde se perpe-
tuava o poder de uma minoria. Usando uma

Jos Pacheco Pereira entrevistado por M.' Joo Avillez, Pblico 
Magazine, 612/1994.








388

linguagem da altura, *um cristo no podia
aceitar aquilo+! Ningum Trazia nada para
alterar as coisas e quem fazia era preso ou
marginalizado. Cheguei assim  poltica por
razes religiosas e morais.
     P.     - Depois, a faculdade cimentou tudo
isso...
     R.     - Na universidade conheci gente cultu-
ral e politicamente inconformista e, sobretudo,
encontrei uma gerao a pensar colono eu, mais
precisamente na JUG em 56-57, quando come-
a o jornal *Encontro+, com um contedo

completamente diferente de outra qualquer
publicao catlica. Havia muitos no catli-
cos,  esquerda, que nos jlicitavam pelo jor-
nal. Entrei para a JUC no 2.'ano, como mili-
tante de base, e com surpresa minha sou con-
vidado pelo assistente, o cnego Antnio Reis
Rodrigues, para presidente-geral da organi-
zao. Tinha 21 anos, havia uma hierarquia,
eu no esperava aquilo. Resolvi transformar a
JUC, convicto de que - sendo ele embora mais
moderado do que eu - o conseguiria, porque
estava convicto de que a Igreja tambm estava
a mudar. Havia o bispo do Porto e as suas
homilias, havia a carta pastoral *A misria
imerecida do povo portugus+ e eu prprio
cheguei a defender o cardeal patriarca dizendo
que a sua viso era diferente da do Governo...
     P.     - Logo a seguir h as eleies de
Delgado, em 58...
     R.     - O padre Rodrigues falou-me, tia
altura, pedindo-me que me abstivesse publi-
camente de tomar posies polticas, que se
vivia um momento difcil para a Igreja, etc.
Surge ento um editorial no *Novidades+
onde se fazia a apologia ao voto em Amrico
Thomaz, mas ingenuamente pensmos quese
tratava apenas duma posio do director,
monsenhor Moreira das Neves, sem reper-
cusso na hierarquia. Escrevemos ento uma
carta - que foi o primeiro documento de
fundo poltico elaborado por catlicos -,
assinada por Joo Salgueiro, Xa vier Pintado,

Rogrio Martins, Pereira de Moura, entre
outros, pedindo que o *Novidades+ manti-
vesse a iseno que convinha  Igreja duran-
te uma campanha eleitoral. Essa carta assu-
miu uma clara contestao  hierarquia e o
padre Rodrigues lembra-me a minha pro-
messa de no tomar posies. Ao que res-
pondo que ela ia justamente no sentido de
pedir que no se fizesse poltica... em
nenhum dos lados. O desentendimento era
irreversvel, sa de presidente da JUC.
     P.     - O que os norteava nesse caminho
entre a Igreja, Dcjs e a poltica era j
Emi---nanuel Mounier?
     R.     - Nesse anos foi mais o * Ttnoignage
Chrtien+, um jornal catlico com um con-
tedo bastante  esquerda que gostvamos de
ler A *Esprit+ surge um pouco mais tarde,
maspi uma revista que me interessou de tal
modo que fiz a tese de licenciatura sobre o
personalismo e o pensamento de Mounier Foi
portanto a minha grande re rncia doutri-

                     .fe
nria e ideolgica.

     P.     - Era ai que eu queria chegar: Mounier
consubstanciava, para si, uma espcie de ter-
ceira via?
     R.     - Exacto, era a terceira via. Havia,
nesse tempo, o e.-,vistencialismo, por um lado, o
marxismo, por outro; ns no tnhamos nada a
ver nem com uns nem com os outros. Aquela
terceira via afirmava uma srie de valores
cristos, baseados no primado da pessoa, ao
mesmo tempo que afirmava valores hostis ao
regime.
     P.     Quem estava consigo nessa altura?
     R.     Muita gente... Era um grupo muito
amigo e muito slido. Identificvamo-nos
numa linha que era simultaneamente poltica
- nessa afirmao do personalismo contra o
regime - e cultural - na recusa da literatura
conformista do regime, mas tambm do neo-
realismo defendido pelos comunistas e mar-
xistas e que era o movimento literrio vigente
na esquerda portuguesa.

.... ... .. . .....
Joo Bnard da Costa entrevistado por M.' Joo Avillez, Pblit,0 
Magazine, 30/1i111994.

389

          CIRCULAR DO MOVIMENTO


                 Camaradas:

               O prestgio do Exrcito Portugus est muito por 
baixo.  uma realidade incontroversa, e no
          sabemos mesmo se  possvel descer ainda mais, na escala 
social, do que cada um dos seus mem-
          bros (oficial, sargento ou praa) j desceu. Todos ns 
sentimos bem, no fundo do nosso ntimo, o
          que se passa nesse campo, e, se necessriofosse indicar um 
exemplo, bastava verificar quantos
          militares *ousam+ enfrentar normalmente o dia a dia, fora 
do servio, envergando a respectiva
          farda! (Para nofalar dos locais onde nem sequer afarda  
usada!...              )
               A situao tem vindo a agravar-se, dia a dia, ano aps 
ano, e... onde iremos parar?
                chegada a hora de terminar com este estado de 
coisas, pr termo a esta situao, poi             .          s se
          a mesma nofor resolvida urgentemente, corre-se o risco de 
nunca mais se conseguir uma solu-
          o satisfatria e digna. Felizmente que, ultimamente, a 
consciencializao da maioria de ns
          em relao ao problema focado, tem aumentado gradualmente, 
e as tomadas de posio se tm
          verificado em conformidade. Todos ns, capites e 
subalternos, sentimos imensa pena de, na

          classe de oficiais, nos vermos acompanhados quase s de 
majores (os oficiais acima deste posto,
          que tm tomado posio, s servem para confirmar a regra), 
num problema que, sendo de todos,
          pela sua gravidade, exigia a tomada de posio, em PRIMEIRO 
LUGAR, dos mais represen-
          tativos membros do Exrcito. Estamos confiantes em que a 
nossa coragem em enfrentar o
          problemafaa acordar todos aqueles que TEM OBRIGAO em nos 
imitar, pois outra coisa
          nofaro que defender a SUA POSIO DE MILITAR.
               Embora, como  lgico e humano, tenhamos iniciado a 
luta do prestgio pela resoluo dos
          problemas inerentes  nossa classe de oficiais, j fizemos 
saber, oficial e publicamente, que
          tambm os problemas das outras classes nos interessa 
resolver, pois estamos dispostos a
          LUTAR PELO PRESTIGIO DE TODO O EXRCITO, e no s pelo 
prestgio de uma das suas
          classes. O assunto estava em estudo e discusso, e eis que 
aparece tambm agora (felizmente)
          a classe de SARGENTOS a lutar pela melhoria da sua situao 
e, concomi                   .          tantemente, pelo
          PRESTGIO DO EXRCITO.
               Pois bem, camaradas,  urgente no os trair nas suas 
crenas!  urgente demonstrar-lhes
          cabalmente que estamos com eles, para a resoluo dos seus 
problemas e, acima de tudo, para
          a luta pelo PRESTIGIO DAS FORAS ARMADAS, no s 
moralmente, mas tambm material-
          mente. Torna-se, pois, urgente que continuemos a nossa 
luta, tal como eles, sem indisciplina
          mas com lealdade e muita firmeza, pelo PRESTIGIO DO 
EXRCITO NO SEIO DA NAO
          PORTUGUESA.
               No entanto,  necessrio tambm que, tal como estamos 
j a lutar pelos problemas mais
          directamente inerentes  nossa classe, e tambm  classe de 
sargentos, comecemosfrancamente
          a olhar para os problemas de duas outras classes, que so a 
dos CABOS MILICIANOS e das
          PRAAS propriamente ditas.
               Muito h afazer, pois infelizmente a situao  
deveras catica, mas, unidos como j esta-
          mos, conscientes do nosso dever para com o Exrcito e a 
Nao (a quem s PODE INTE-
          RESSAR UM EXRCITO VERAMENTE PRESTIGIADO), tudo 
conseguiremosfazer. Para isso
           necessrio mentalizar todos os militares da luta a 
travar.

S UNIDOS VENCEREMOS E OBTEREMOS UM EXRCITO
DIGNO QUE SIRVA, ACIMA DE TUDO, A NAO PORTUGUESA.

               A BEM DO EXERCITO E DA NAAO.



Circular s/d (Vero de 1973) publicado por Avelino Rodrigues, O 
Movimento dos Capites, Lisboa, 1974.

390

A BASE SOCIAL DE APOIO DO ESTADO NOVO 








                                             OPERAES MILITARES 25 
DE ABRIL DE 1974

A.





                    Porto

                              '@@-.,-ILamego




                                     iseu
                    Av.W,






                         Figueira da Foz



   "Agru  nto Norte`

Peniche   Tanc.-1 13 Santa Margarida  Unidades de conduo auto
          SanW                        Unidade de artilharia
          40Chams.a/G.leg
                                      Unidade de caadores
          EslremOz E1@@a
Mafr      o Alto                      Unidade de infantaria

                                      Unidade de cavalaria
          Montemor-o-N   4o


          ~.         k                ~ N rodovirio
          "@1vora

                                      Unidade de tropas especiais

                                      Unidade de lanceiros


          Beja                        Priso de Peniche
                                      Centro emissor

                                      Unidades de engenharia


                         @Fia



                                                            "a,@

          Segundo 25 deAbril - 20 Anos, Exposio, Biblioteca - Museu 
da Repblica e da Resistncia, 1994.


                                                            391

                         B.

                    Mafra                                  Tancos

Estratgia de
Otelo Saraiva                  o
de Carvalho:
ocupar o Terreiro
do Pao, guardar
o Banco de
Portugal
e controlar        Pontinha*A

o aeroporto,                   LISBOA
a rdio
e a televiso


     Posto de comando do MFA

     Posto de c mando
     das foras ogovernamentais
     Aeroporto da Portela
Ow EPAM
     Fragata Gago Coutinho

     Estudios radiofnocos

     Estudios da RTP

Ba@



Segundo 25 de Abril 20 Anos, Exposio no Ministrios das Finanas, 
1994.


o 1.2 DE MAIO EM LISBOA








                      J
     ,da





392
                                                                t
------- -- -------                                            rN@

LUTA INSTITUCIONAL E REGIME POUTICO: OS PARTIDOS DA REVOLUO

     As classes sociais em Portugal encontravam-se ainda  procura 
dos seus melhores instru-
mentos de interveno poltica e no seria para admirar que assim 
fosse, dado que o regime da
ditadura no havia permitido o desenvolvimento autnomo dos grupos 
sociais, espartilhatio-os
na ordem corporativa estatal e legislando no cerceamento do direito 
de associ          .ao. Desta
maneira, partidos polticos, sindicatos, comisses de trabalhadores, 
cooperativas, grupos de
presso, assim como organizaes tais as igrejas, as lojas manicas, 
as universidades, e at os
grandes corpos de Estado, s puderam desenvolver-se naturalmente aps 
a queda da ditadura,
 que veio tornar extremamente aguda a luta entre essas diferentes 
instituies para afirmarem
 seu poder e influncia no s nas reas respectivas como tambm, 
para muitas, na tentativa
de alcanarem a hegemonia do poder poltico em Portugal. Assim, a 
construo do Estado este-
ve dependente do apuramentofinal das instituies ordenadoras e 
transmissores da vontade
popular e dos interesses sociais.
     Esse discurso propriamente institucionalfoi mais importante e 
determinante de um ponto de
vista da construo do regime poltico do que, por exemplo, a luta de 
classes que tambm se tra-
vou nessa altura.

     O Movimento das Foras Armadas compreendeu imediatamente aps o 
25 de Abril que
necessitava dos partidos polticos para racionalizar a interveno 
das populaes no proces-
so revolucionrio. Todavia, os partidos polticos tinham em Portugal, 
antes dos 25 de Abril, uma
influncia reduzida. E nem uma grande tradio de resistncia e 
organizao do Partido
Comunista Portugus impediu que, numa perspectiva institucional, s 
com o 25 de Abril os par-
tidos polticos tenham adquirido uma dimenso nacional. Num pas 
desarticulado, sem orga-
nizaes intermdios, s aparelhos com a elasticidade dos partidos 
poderiam ento ser agen-
tes simultneos da expresso concreta de interesses particulares e 
tambm aparelhos neces-
srios  coordenao da vontade popular
     Os partidos polticos surgiram, assim, como os instrumentos mais 
apropriados  conduo
do processo poltico em Portugal e constituram, com o decorrer do 
tempo, as maiores criaes
institucionais da Revoluo. De um ponto de vista da estratgia das 
Foras Armadas havia tam-
bm todo o interesse em permitir aos partidos polticos pleno 
desenvolvimento para que a
Revoluo tivesse no s uma soluo constitucional como poltica. 
Neste captulo, alguns res-
ponsveis do MFA filiam-se na tradio da estratgia poltica 
concebida por chefes militares
desde Napoleo, em Itlia, at Mac Arthur no Japo.
      certo que, ao nvel do domnio institucional, surgiram muitos 
atritos, e alguns fortes, entre o
MFA e os partidos polticos, em termos de concepo do tipo de regime 
poltico a estabelecer em
Portugal. O triunfo do PCP ou de certas tendncias dentro do MFA 
teriam dado origem a um regi-
me poltico de caractersticas bem diferentes das instituies de 
democracia poltica vigentes na
Europa Ocidental. J a preponderncia eleitoral do Partido 
Socialista, a partir das eleies da
Assembleia Constituinte, veio determinar o estabelecimento de um 
regime pluralista de democracia
poltica, ainda que posto em causa at 25 de Novembro de 1975. A 
partir dessa data, as tendncias
autoritrias de direita seriam domesticadas e marginalizadas pelos 
sucessivos responsveis pela
estratgia poltica das Foras Armadas. A partir dessa data tambm, 
ficou claro, dum ponto de vista
institucional, que s um pacto entre partidos polticos e as Foras 
Armadas poderia resolver estru-
turalmente a questo poltica portuguesa. E de um ponto de vista 
histrico, o trnsito efectuado
pelas Foras Armadas Portuguesas entre o regime da ditadura derrubado 
a 25 de Abril de 1974 e
a promulgao da Constituio a 25 de Abril de 1976 , sem dvida, 
notvel e sem exemplo na his-
tria das passagens de regimes ditatoriais a regimes de democracia 
poltica.

     Jos Medeiros Ferreira, Ensaio Histrico sobre a Revoluo do 25 
de Abril.
                              O Perodo Pr-constitucional, Lisboa, 
1990.

                                                            393

                      



  UMA EXPERIENCIA NO 11 GOVERNO PROVISRIO


     P.     H, normalmente, uma m ideia quanto
a esses governos: surgem-nos na memria como
desligados, trabalhando muito e mal, etc.
     M.'Lurdes Pintasilgo - Mas justamente repa-
re que vivamos uma poca curiosa: tnhamos as
tarefas governativas mas, como no havia ainda
Parlamento, cabia-nos redigir a lei dos partidos
polticos, a lei eleitoral, preparar eleies, etc. A
nossa tarefa era gigantesca e pioneira ao mesmo
tempo... devido a este acumular de tar@fas em
simultneo... Os Conselhos de Ministros tinham
aspectos aliciantes: era necessrio no s pre-
servar o equilbrio, j de sifirgil, do Executivo -
com o PS, o PSD, o PCP, os militares e os cha-
mados independentes - como manter vivo o com-
promisso assumido entre o MFA e os partidos.
Isto tornava o consenso muito mais d@fcil - as
reunies chegavam a durar oito horas e, por
vezes, doze! -, tudo se passava dentro daquelas
quatro paredes, era como que uma cmara de
eco da revoluo que ocorria na rua... Sublinho
que havia ainda um outro fenmeno perante o
qual um ministro no podia ficar insensvel ou,
pelo menos, desatento: era o de tentar compre- ,

ender a presso que, durante dcadas, se exerce-
r sobre um povo que agora se inebriava com a
possibilidade de dizer as coisas deforma aberta e
audvel... Ora isso desaguou naquele tremendo
desejo de tomar a palavra, de gritar...
     P.     - No olha, ento, para esses governos
com o olhar pessimista ou impiedoso com que
ainda hoje so recordados...
     R.     - No, repito: tnhamos que organizar
os aspectos polticos que normalmente caberiam
a um Parlamento; cumprir a gesto corrente e
gerir a revoluo na rua... e em cada um dos
nossos ministrios. Era preciso, da nossa parte,
ter su ciente pacincia para conduzir este pro-
cesso de talforma que todos tivessemjustia e
sentissem solidariedade.
     Para lhe dar um exemplo, surgido no meu
prprio Ministrio: apareceu-me uma lista

com 500 pessoas para sanear! Devolvi a lista
com diversas interrogaes consoante as pes-
soas e casos: porqu este saneamento, quem
deve substituir esta pessoa, por quem, etc.
resultado: ningum foi saneado, todos foram
recolocados.

Maria de Lurdes Pintasilgo, Ministra dos Assuntos Sociais, entrevista 
citada.



A MUTAO ECONMICO-SOCIAL
     A Revoluo de Abril veio encontrar um pas economi       
.camente depauperado e atravessado por
enormes desigualdades sociais. Despoletou, por isso, e 
compreensivelmente, largos anseios de
A      L rpido crescimento econmico e justia social. A irrupo 
pela mesma altura da crise econmica
internacional, em consequncia do brutal aumento do preo do petrleo 
imposto pelos pases da
OPEP, veio, porm, introduzir graves condicionalismos a uma cabal 
satisfao de tais anseios.
 possvel distinguir, assim, trs perodos na poltica econmica dos 
Governos Provisrios:
durante os primeiros trs Governos ensaia-se com relativo xito uma 
poltica de redistribuio
dos rendimentos no quadro de um clima social marcado por 
reivindicaes incontroladas;
seguidamente, aps as medidas revolucionrias do 11 de Maro de 1975, 
assiste-se  tentativa
falhada dos IV e V Governos Provisrios (ou de alguns dos seus 
ministros em concertaro com
dirigentes militares do MFA) de uma *poltica econmica de transio 
para o socialismos; por
ltimo, o VI Governo Provisrio v-se a braos com a necessidade de 
gerir a crise num quadro
de inflao galopante e agravamento da dependncia do exterior
     O estabelecimento de um salrio mnimo nacional, o 
reconhecimento e garantia do direito
 greve e o aumento e alargamento dos benefcios da previdncia 
social contam-se entre as prin-
cipais medidas da responsabilidade dos trs primeiros Governos 
Provisrios. Faltava, porm,

394

um plano coerente capaz de enquadrar as medidas de fundo ou pontuais 
a tomar O programa
de poltica econmica e social do III Governo Provisrio, elaborado 
sob a responsabilidade
directa de Melo Antunes, procurava preencher essa lacuna. Nele se 
preconizava uma orienta-
o socializante moderada e algumas medidas de curto prazo com a 
instituio do subsdio de
desemprego. Os acontecimentos do 11 de Maro puseram de parte este 
plano moderado e rea-

lista, ao criarem um quadro institucional de natureza bastante 
diferente, em consequncia das
nacionalizaes operadas em sectores bsicos da economia e da 
subalternizao a que 
votada a iniciativa privada, doravante olhada com desconfiana. Se  
certo que o Estado se v
assim dotado com instrumentos poderoso de controlo e planeamento da 
economia, por outro
lado, a dinmica do poder popular ento desencadeado, com o 
alargamento do controlo de
numerosas empresas pelas respectivas comisses de trabalhadores e o 
lanamento de algumas
experincias autogestionrias, bem como o rpido processo de ocupao 
dos latifndios,
criam uma situao pouco propcia ao investimento privado. A taxa de 
crescimento da produ-
o acaba por ser significativamente negativa (-5%) ao longo do ano 
de 1975. A perda dos mer-
cados das antigas colnias e o afluxo de centenas de milhares de 
retomados so outrosfacto-
res de agravamento da crise. O desemprego atinge 9% da populao 
activa. Apenas em relao
 taxa de inflao se registam progressos, em consequncia de uma 
poltica de controlo admi-
nistrativo dos preos: de 25% em 1974 passa para 15% em 1975.
     O VI Governo Provisrio v-se assim obrigado a tomar as 
primeiras medidas de austeri-
dade: desvalorizao deslizante do escudo, agravamento dos impostos 
directos e indirectos, con-
gelamento das negociaes colectivas de trabalho at Maro de 1976. 
Ao mesmo tempo,
lana as bases da reorganizao do sector pblico empresarial, e 
adopta algumas medidas com
vista  recuperao de um clima de confiana dos agentes econmicas, 
deforma a permitir o
relanamento do investimento privado. A dinmica revolucionria do 
poder popular entra,
entretanto, em refluxo em consequncia do desfecho do 25 de Novembro, 
enquanto se assiste 
reemergncia dos valores pluralistas na comunicao social, na 
educao e na vida cultural,
subalternizados ao longo do perodo mais agitado da Revoluo, 
nomeadamente entre o 11 de
Maro e o 25 de Novembro de 1975.
     Quando a nova Constituio entra em vigor e o novo sistema de 
rgos de soberania nela
previsto entra em funcionamento, Portugal  um pas diferente no 
apenas no plano poltico,
mas tambm no plano econmico e sobretudo social e cultural. A 
experincia da liberdade
reconquistada invade todos os domnios e penetra profundamente nas 
mentalidades. Um novo
esprito participativo, crtico, criativo e reivindicativo povoa os 
locais de trabalho e de cultu-
ra, as instituies e os organismos associativos. Um clima de 
tolerncia comea a impor-se na
vida pblica.
Antnio Reis, *A revoluo do 25 de Abril de 1974+ in Histria de 
Portugal, 6, Lisboa, 1985.



          DO GOLPE DE ESTADO A CRISE REVOLUCIONARIA

     O colapso do regime em 25 de Abril de 1974 no implicou o 
colapso generalizado do                  At
Estado. A ruptura deu-se ao nvel das caracteristicasfascistas do 
velho regime: o partido nico,
a polcia poltica, as milcias paramilitares, o tribunal plenrio 
(para julgamento dos crimes
polticos), os presos polticos, a represso da liberdade de 
expresso e de associao. Para alm
disso, o processo de reconstruo normativa e institucionalfoi 
relativamente lento e muito desi-
gual. O sistema administrativo manteve-se intacto em suas estruturas 
de deciso e o *sanea-
mento+ a que se procedeu limitou-se ao afastamento de pessoas (que 
no de processos) e fez-se
muitas vezes segundo critrios eivados de oportunismo e sectarismo; 
asforas policiais e mili-
tarizadas, depois de aderirem ao novo regime, mantiveram as suas 
estruturas, o mesmo acon-

O PROGRESSIVO APAZIGUAMENTO DOS AN0S7*1974@1980'j

          tecendo com a administrao da justia e o sistema 
penitencirio; as polticas de segurana
          social no so           fre ram grandes alteraes; um dos 
mais importantes pilares ideolgicos do
          Estado Novo, a Igreja Catlica, foi poupada  contestao 
social e resguardou-se de qualquer
          processo de transformao interna.
               Apesar disto, a ruptura do 25 de Abril de 1974 
transformou o perfil da crise que se vivia
          desde 1969. Esta transformao consistiu na criao, ou 
melhor, na exploso do movimento
          social popular que se seguiu imediatamente ao golpe de 
Estado. Foi sem dvida o movimento
          social mais am lo e profundo da histria europeia do 
ps-guerra. Com uma composi                .          o de cls-
          p
          se complexa em que dominaram o operariado urbano (sobretudo 
da cintura industrial de
          Lisboa), a pequena burguesia assalariada nas grandes e 
mdias cidades e o operariado rural
          do Alentejo, este movimento popular atingiu as mais 
diversas reas da vida social: a adminis-
          trao local, a habitao urbana, a gesto de empresas, a 
educao, a cultura e os novos modos
          de vida, a reforma agrria, as relaes de dominao e 
subordinao nos campos, etc., etc.
               Foi este movimento social que impediu que a crise de 
hegemonia iniciada em 1969 se
          resolvesse definitivamente a favor da burguesia 
industrial-financeira. Foi na antecipao da
          resoluo da crise a seu favor que esta fraco da 
burguesia apoiou o golpe de Estado e so

          conhecidos os planos que elaborou para a consolidar durante 
o Vero de 1974. Ao reforar o
          poder dos militares do MFA menos identificados com os 
interesses monopolistas, o movimento
          social popular contribuiu decisivamente para que falhassem 
esses planos de reconstruo da
          hegemonia. A partir definais de Setembro de 1974, com a 
renncia do general Spnola, a bur-
          guesiajoi, no seu conjunto, colocada na defensiva e, com a 
agudizao das lutas sociais que se
          seguiu, a prpria fraco industrial-financeira acabou por 
perder a sua base de acumulao.
          Assim sucedeu em 11 de Maro de 1975 com a nacionalizao 
da banca e dos seguros e das
          empresas dos grupos monopolistas. A partir de ento, o 
Estado passou a ser uma plataforma
          mltipla de lutas sociais e polticas e, mais do que isso, 
a questo global da natureza de clas-
          se da dominao estatal passou a ser parte integrante da 
luta poltica, seno mesmo o objecto
          privilegiado da luta de classes.  A crise do Estado 
transformou-se numa crise revolucionria, a
          qual durou at 25 de Novembro de 1975.
               Quais as causas do movimento social popular entre 
Abril de 1974 e Novembro de 1975?
          Como foi possvel que se aprofundasse em constante desafio 
aos contornos polticos do novo
          regime, forando-os a sucessivas redefinies e superaes? 
Qualfoi, em suma, a natureza e o
          contedo do poder poltico neste perodo?
                ainda cedo para dar resposta cabal a estas questes.

Boaventura Sousa Santos, O Estado e a Sociedade em Portugal 
(1974-1988), Porto, 1990.








                                                  A fi,'V,7LU@O
396                                                  FM MAIRCHIA,

          tecendo com a administrao da justia e o sistema 
penitencirio; as polticas de segurana
          social no sofreram grandes alteraes; um dos mais 
importantes pilares ideolgicos do
          Estado Novo, a Igreja Catlica, foi poupada  contestao 
social e resguardou-se de qualquer
          processo de transformao interna.
               Apesar disto, a ruptura do 25 de Abril de 1974 
transformou o perfil da crise que se vivia

          desde 1969. Esta transformao consistiu na criao, ou 
melhor, na exploso do movimento
          social popular que se seguiu imediatamente ao golpe de 
Estado. Foi sem dvida o movimento
          social mais amplo e profundo da histria europeia do 
ps-guerra. Com uma composio de clas-
          se complexa em que dominaram o operariado urbano (sobretudo 
da cintura industrial de
          Lisboa), a pequena burguesia assalariada nas grandes e 
mdias cidades e o operariado rural
          do Alentejo, este movimento popular atingiu as mais 
diversas reas da vida social: a adminis-
          trao local, a habitao urbana, a gesto de empresas, a 
educao, a cultura e os novos modos
          de vida, a reforma agrria, as relaes de dominao e 
subordinao nos campos, etc., etc.
               Foi este movimento social que impediu que a crise de 
hegemonia iniciada em 1969 se
          resolvesse definitivamente a.favor da burguesia 
industrial-financeira. Foi na antecipao da
          resoluo da crise a seu favor que estafraco da burguesia 
apoiou o golpe de Estado e so
          conhecidos os planos que elaborou para a consolidar durante 
o Vero de 1974. Ao reforar o
          poder dos militares do MFA menos identificados com os 
interesses monopolistas, o movimento
          social popular contribuiu decisivamente para que,falhassem 
esses planos de reconstruo da
          hegemonia. A partir de finais de Setembro de 1974, com a 
renncia do general Spnola, a bur-
          guesiajoi, no seu conjunto, colocada na defensiva e, com a 
agudizao das lutas sociais que se
          seguiu, a prpria fraco industrial-financeira acabou por 
perder a sua base de acumulao.
          Assim sucedeu em 11 de Maro de 1975 com a nacionalizao 
da banca e dos seguros e das
          empresas dos grupos monopolistas. A partir de ento, o 
Estado passou a ser uma plataforma
          mltipla de lutas sociais e polticas e, mais do que isso, 
a questo global da natureza de clas-
          se da dominao estatal passou a ser parte integrante da 
luta poltica, seno mesmo o objecto
          privilegiado da luta de classes.  A crise do Estado 
transformou-se numa crise revolucionria, a
          qual durou at 25 de Novembro de 1975.

               Quais as causas do movimento social popular entre 
Abril de 1974 e Novembro de 1975?
          Como foi possvel que se aprqfundasse em constante desafio 
aos contornos polticos do novo
          regime, forando-os a sucessivas redefinies e superaes? 
Qualfoi, em suma, a natureza e o
          contedo do poder poltico neste perodo?
           ainda cedo para dar resposta cabal a estas questes.

     Boaventura Sousa Santos, O Estado e a Sociedade em Portugal 
(1974-1988), Porto, 1990.








                      A
                 rM MARCH,11

396

.. ..... .....................................................



                              O SERVIO CVICO ESTUDANTIL

     Em 25 de Abril de 1974, foi a Revoluo.

     No Outono de 1974, no regresso s aulas, a situao dos jovens 
que tinham terminado os
estudos secundrios no ano anterior estava por definir O seu percurso 
escolar no iria ser
aquele que, na maioria dos casos, era normal. Parecia que nesse ano 
lectivo no ia abrir o 1.'
ano nas vrias Universidades do pas. Havia, ento, cerca de 28 000 
candidatos ao L'ano cujo
destino naquele ano lectivo estava por df@nir E estes 28 000 jovens 
eram o dobro dos alunos
do L'ano das Faculdades no ano lectivo anterior Assim, havia aquilo 
que, para a poca, era
uma grande contingente de jovens com um vazio de um ano pela frente.
     Como se tinha chegado a esta situao?
     Por um lado, nos ltimos anos, verificara-se unia expanso da 
escolarizao agravada pelo
aumento da faixa etria dos 15-19 anos. Tinham sido criadas tambm 
novas articulaes
entre o liceu e a escola tcnica que permitiam a mais jovens aceder  
Universidade. Estavam,
assim, a chegar  Universidade as ondas de alunos que tinham enchido 
as salas de aula do ensi-
no secundrio nos anos anteriores.
     Por outro lado, ofinal do ano lectivo anteriorfora conturbado. 
Acontecido o 25 de Abril no
terceiro perodo escolar, houvera profundas modificaes na vida das 
escolas secundrias e,
neste contexto, verificou-se um abrandamento da avaliao de 
conhecimentos.
     Finalmente, no houvera, nessefinal de ano lectivo, exames de 
aptido s Faculdades.
     Por seu turno, as Universidades - que j se debatiam 
frequentemente com carncias de ins-
talaes - viviam ento uma vida muito agitada, marcada por grandes 
modificaes na sua
forma de gesto, na organizao curricular, nasformas de avaliao e, 
essencial, na recom-
posio do pessoal docente.

     A situao era, pois, difcil. E, neste contexto de profundas 
alteraes nas escolas secun-
drias e superiores, quefazer?
     No Outono, o Ministrio da Educao no conseguiu impor exames 
de aptido s
Faculdades, esbarrando a tentativa de ofazer com inmeras oposies, 
nomeadamente estu-
dantis. Entretanto muitasfaculdades afirmavam repetidamente no ter 
qualquer possibilidade
de integrar a avalancha de potenciais candidatos.
     Nessa altura, pelo pas, havia uma multido de iniciativas 
culturais, particularmente em
meios populares. Os estudantes j tinham realizado Campanhas de 
Alfabetizao e Educao
Sanitria no Vero de 1974. O MFA estava a lanar as Campanhas de 
Dinamizao Cultural e
Aco Cvica. A ida ao encontro do povo estava no ar
     Para alguns dos intervenientes na educao (responsveis do 
MEIC, professores, estu-
dantes), as experincias de alfabetizao pelo mtodo Paulo Freire em 
vrios pases dos
Terceiro Mundo eram referncias essenciais. Cuba, com a sua grande 
campanha de alfabeti-
zao em 1961, era o grande modelo para boa parte dos sectores de 
esquerda. Mas Cuba no
era a nica referncia possvel. O chamado grupo dos cristos 
progressistas e o Graalj tinham
efectuado campanhas de alfabetizao e desenvolvimento comunitrio. A 
ideia tambm no
desagradava a homens de tradio liberal-republicana laica, naquelas 
dcadas e em anterio-
res, bem preocupados com aformao cvica dos estudantes, com a 
consciencializao da sua
funo na sociedade, e com a educao popular, abrindo nomeadamente 
cursos e Universidade
Livres e Populares. A correntes e sensibilidades diversi cadas, um 
servio cvico ou social apa-
recia, pois, como uma soluo possvel.
     E agora mais concretamente vejam-se as actividades desenvolvidas 
no quadro do SCE
rumo ao Socialismo. Os jovens *servidores cvicos+ (como eram 
chamados nos documentos ofi-
ciais) ocuparam-se em campanhas de alfabetizao, educao para a 
sade, animao des-
portiva, aces no mbito da Segurana Social, actividades culturais, 
inquritos scio-eco-
nmicos, apoio a cooperativas, etc. Geralmente organizados em grupos, 
muitofrequentemen~

                                                            397

                   4-100)

          te conhecidos como brigadas, os jovens acabaram por 
trabalhar sobretudo no Vero de 1975.
          Parte deles, nomeadamente os rapazes, foram deslocados das 
suas residncias habituais. Foi

          noutros ambientes e por vezes em locais bem distantes que 
tiveram de viver e tecer outras socia-
          bilidades.
               O SCE  uma realizao educativa de iniciativa estatal 
em boa parte paralela  criao da
          nova disciplina de *Educao Cvica e Politcnica+ no 
Ensino Secundrio, ao surgimento das
          *Actividades de Contacto+ nas Escolas do Magistrio 
Primrio.
               Outras iniciativas semelhantes, lanadas sob a forma 
de campanhas, foram dinamizadas por
          organizaes laicas e religiosas, do movimento associativo, 
partidrio ou do MFA.
               Era indiscutivelmente um tempo em que, quer por 
iniciativa do Estado quer da sociedade
          civil quer da Igreja, a escola pretendia sair para fora dos 
muros, para a rua, em que se dis-
          cutiam as relaes entre cultura erudita e cultura popular, 
entre cultura e revoluo.

               Jorge Freitas Branco, Lusa Tiago de Oliveira, A 
Misso, Oeiras, Celta Editora, 1994,



A RADICALIZAO DA REVOLUO

A

                                        Coa~ im?"       C3

                                             cooperativa agrcola-

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                                                  L1@ i    R








               'k








O SILENCIAMENTO
DA RADIO RENASCENA








                      5



                     398

                GEOGRAFIA
     DA REFORMA AGRARIA



N


VIANA
CASTEL

                         RE






                      o
                         ARDA




                   COIMBRA








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                    VORA





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                      o

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                      o



                    FARO

                                   Zona de interveno
                                   da reforma agrria

                              Segundo Afonso de Barros.

OS MENTORES DO 25 DE NOVEMBRO








     O EXEMPLO DA REVOLUO
               PORTUGUESA

     Mrio Soares - Felizmente soubemos resis-
tir, com a ajuda preciosa de Willy Brandt,
Callaghan, Olof Palm, Miterrand e de Kreisky...
                                                  P.   - Nenhum 
desses amigos socialistas lhe
                                             disse     para se ir 
embora?
R.        - No, pelo contrrio. Apoiaram a
nossa luta. Se no tenho ficado, no se teria
conseguido o que se seguiu. Andr Malraux
disse ento que os socialistas portugueses
demonstraram ao mundo, pela primeira vez
na histria, que *os mencheviques tambm
podiam vencer os bolcheviques+.  um grande
titulo de glria! Com a nossa Revoluo demo-
crtica e pluralista fomos pioneiros, anteci-
pmos aquilo que aconteceu, em 1989, nas
democracias populares e na Rssia.
     Alis, h um livro de um historiador ame-
ricano, chamado Huntington, que defende que
a *terceira vaga+ das revolues democrticas
comeou em Portugal, em 1974: condicionou
positivamente o processo de transio em
Espanha, deu origem s revolues democr-
ticas em toda a Amrica Latina, comunicou-se
ao Paquisto e s Filipinas e chegou,final-
mente, a Moscovo em 1989. No  brinquedo!



Mrio Soares entrevistado por Maria Joo Avillez, Pblico Magazine, 
24-4-1994


                                                       399

DESPESAS DE CONSUMO PUBLICO EM PORTUGAL (% do PIB)

                                   W. W.,    W. W1, W0 - 1, 54- 1 
@I0.'.


3,8   3,2   3,1   3,7   5,2   5,54
6,7   7,2   6,5   4,4   2,5   2,8
1,3   1,3   1,7   3,0   3,4   3,7
0,7   1,3   1,9   2,9   2,9   3,0
0,3   0,4   0,4   0,6   0,8   0,7

12,7  13,4  13,6  14,7  14,7  15,8

          Segundo dados da Contabilidade Nacional de l'urtugal e das 
Contas do Estado.




O COMPLEXO DAS AMOREIRAS, EX-LBRIS DE LISBOA

                                                       4      IM








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                                                       1  H








O PROGRESSIVO ISOLAMENTO DIPLOMATICO

               A primeira dcada do ps-guerra foi assinalada, no 
panorama internacional, pelo acesso 

          independncia de grandes naes do Extremo Oriente 
(Paquisto, ndia, Indonsia, Laos,
          Cambodja, Vietname do Norte e do Sul) e no Norte de Africa 
(Lbia, Egipto, Sudo, Marrocos,
          Tnisia), e culminaria em 1955 com ajormao, por esses 
novos pases, do Movimento dos No
          Alinhados na Conferncia de Bandung. Esse movimento 
independentista alastrou pelo conti-
          nente africano nos comeos da dcada de 60. As grandes 
potncias coloniais compreenderam
          a inexorabilidade histrica dessa tendncia, e procuram 
criar um novo quadro de relaes inter-
          nacionais com esses novos pases recm-chegados  
independncia. A comunidade britnica e
          francfona, por um lado, e a Aliana para o Progresso do 
presidente Kennedy, por outro, tra-
          duziam esse novo posicionamento das velhas metrpoles 
perante antigos territrios dependentes

400

ou subordinados. Como coroamento deste reconhecimento, a prpria 
Assembleia Geral das
Naes Unidas fez aprovar em 1960 a conhecida Declarao sobre a 
concesso da indepen-
dncia aos pases e povos colonizados.
     Salazar, em Lisboa, porm, decidia colocar-se  margem, e at 
mesmo contra, esse proces-
so histrico ento desencadeado, rejeitando toda e qualquer transio 
gradual e pacfica dos
territrios ultramarinos para a i .ndependncia, desprezando 
iniciativas quer das Naes
Unidas quer dos pases aliados para encontrar a tempo solues para 
os problemas cuja
gravidade se ia adensando no horizonte.
     O primeiro aviso veio da ndia, onde os propsitos de anexao 
dos territrios sob admi-
nistrao portuguesa comeavam a ser manifestos desde comeos da 
dcada de 50.
Identificando liminarmente presena com soberania portuguesa. Salazar 
recusa peremptoria-
mente qualquer negociao que admita a transferncia da segunda. 
Sobrevalorizando a capa-
cidade prpria de enfrentar os movimentos da histria, parte para um 
radical confronto que
ameaar seriamente a primeira.
     Osfactos so conhecidos. Em 1954 regista-se a ocupao dos 
enclaves de Dadr e Nagar
Aveli. Salazar prefere o recurso a expedientes jurdicos onde havia 
que prever, antecipamente,
com solues polticas. A publicao do novo Estatuto do Estado da 
ndia em 1955, e o poste-
rior recurso ao Tribunal Internacional da Haia para garantir o 
direito de passagem para os
enclaves, ocultam, sob a capa do legalismo, a ausncia de vontade 
poltica em procurar qual-
querfutura real autonomia, preservando desse modo a continuidade de 
uma presena secular
portuguesa no Oriente e no Ultramar em geral.

     A sistemtica recusa em negociar ou prevenir atempadamente 
situaes conflituais que
pusessem em perigo os interesses portugueses no mundo, do os seus 
trgicos resultados a par-
tir de 1961, com a ecloso em Fevereiro da revolta em Angola, dando 
origem s guerras de
libertao, com a ocupao simblica em finais de Julho do Forte de 
S. Joo Baptista de Ajud
no Dahom, e com a invaso militar em Dezembro de Goa, Damo e Diu.
     A partir de ento crescem as presses internacionais sobre o 
governo de Lisboa para que
altere a sua poltica ultramarina, e  medida que esta se mantm 
inflexvel, crescem tambm as
reprovaes pela sua impenitncia e rigidez, e sobretudo pela opo 
de opor  razo histrica
dos povos a fora das armas.
     Nas Naes Unidas multiplicam-se as iniciativas para convencer o 
governo de Salazar e
enveredar pela descolonizao, pri . mei . ro atravs de convites de 
colaborao e de medidas de
persuaso, mais tarde, perante a ausncia de esprito colaborante, 
por meio de medidasfron-
talmente hostis e agressivas. Das comisses de estudo e das 
conversaes dos primeiros anos
da dcada de 60, passa-se progressivamente, a partir de meados da 
dcada,  aprovao de san-
es contra o nosso pas (Junho de 66, etc.),  preconizaro do corte 
de relaes diplomticas
com Lisboa (Dezembro de 66),  expulso ou abandono forado de vrios 
organismos inter-
nacionais (Conferncia Mundial do Turismo em 1963, Conferncia 
Internacional da Instruo
Pblica em 1964, Conferncia Tcnica da UNESCO em 1965, a prpria 
UNESCO em 1971), ao
apoio directo aos Movimentos de Libertao (Agosto de 1970),  sua 
admisso como obser-
vadores em comisses (Setembro de 1972) e como membros em organismos, 
uma vez procla-
mada unilateralmente a independncia (como foi o caso da admisso da 
Guin-Bissau na
FAO em Novembro de 1973).
     Os governos aliados procuraram igualmente convidar o de Lisboa a 
colaborar com as
Naes Unidas para uma autodeterminao no violenta e controlada, 
nomeadamente a admi-
nistrao norte-americana e brasileira dos recm-eleitos presidentes 
Kennedy e Janios
Quadros. Mas em vo. Como ainda recentemente o reconheceu o ento 
Ministro Franco
Nogueira, *Portugal passou a ser um estorvo para os seus prprios 
aliados; por no os
seguir, mas mantendo-se como aliado prejudicava a imagem daqueles 
junto do terceiro mundo;
e a ordem poltica e constitucional portuguesa era havida por desafio 
e violao das normas em

lir!w








401

                                                                 80)

          que os novos imprios procuravam assentar o seu poderio e 
que pretendiam impor a todos. Alm
          do bloco sovitico, estavam contra Portugal, por razes 
diferentes mas paralelas, o bloco lati-
          no-americano, os Estados Unidos (e o bloco afro-asitico - 
acrescentmos ns). Nisto consistiu
          o *isolamento portugus+.
                certo que por inflexo interna ocorrida nesses 
pases, a posi          .          o das principais potncias
          ocidentais se foi alterando ao longo da dcada em relao  
questo colonial, variando porm
          nos anos 70 com as alteraes do governo nalgumas delas, 
nomeadamente na Alemanha e na
          Inglaterra. Em todo o caso, o apoio que deram  poltica 
ultramarinafoi muito maisfeito pela
          negativa (isto , para evitar males maiores) do que pela 
afirmativa (concordncia de objectivos
          e mtodos), no conseguindo desse modo evitar o crescente 
isolamento que o corte de relaes
          diplomticas encetado em 1963 pelos pases da OUA 
desencadeou.
               Sintoma desta desagregao de solidariedades 
internacionais do-nos de um modo parti-
          cularmente elucidativo as relaes com o Vaticano. Toldadas 
ainda na dcada de 50 com o
          conflito surdo com a Propaganda Fidei, a propsito do 
Padroado do Oriente, e agravadas com a
          vista do Papa  ndia em 1964 - considerada pelo Ministro 
dos Estrangeiros como um *agravo
          injusto e intil+ - atingiram o seu ponto crtico com a 
audincia do Papa aos dirigentes dos
          Movimentos de Libertao em Junho de 1970, sem esquecer o 
subsequente agravamento de que
          so testemunhas os ataques ao *colonialismo portugus+ no 
Snodo dos Bispos em 1971, a expul-
          so de Moambique dos missionrios Pobres Brancos em 1971, 
de alguns padres em 1972 e do
          prprio Bispo de Nampula em 1974. Delibitara-se desse modo 
um dos grandes apoios morais da
          presena ultramarina portuguesa, com efeitos no s 
internacionais mas tambm internos.

               A poltica de guerra que se persistia em manter 
encontrava assim, para alm da insatisfao

          popular e do cansao militar, falta de apoios polticos e 
morais internacionais.

                                   M.   Braga de Cruz, *A questo 
colonial, a poltica externa e o 25 de Abril+

                         in Seminrio, 25 de Abril 10 anos depois, 
Lisboa, 1984.





INTEGRAO ULTRAMARINA *VERSUS>, INTEGRAO EUROPEIA

     A.   A defesa de uma poltica ultramarina integracionista 
obrigou logicamente o governo de
          Salazar  adopo crescente de consequentes medidas de 
poltica econmico-social que, alte-
          rando o antigo relacionamento colonial, estabeleciam a 
necessidade de unificao econmico-
          -social do ento chamado *espao portugus+, isto  da 
metrpole e do ultramar.
          Por outro lado, o desencadear do processo de unificao 
europeia, com a assinatura do
          Tratado de Roma em 1957, exercia sobre Portww1 um efeito de 
atraco que se revelava de dif-
          cil, seno impossvel, compatibilidade com o proj    . 
ecto, apresentado em 1961 pelo Ministro
          Correia de Oliveira, de criao de um Mercado Comum 
Portugus.
               Com efeito, nesse mesmo anofulcral de 1961 
intensificou-se os apelos internos  prepara-
          o para a unificao europeia, como por exemplo o que 
Ferreira Dias dirigiu nesse sentido aos
          industriais portugueses. Admite-se ento (?ficialmente 
uma,futura adeso  CEE, mas desde que
          essa adeso atendesse, na expresso do mesmo Ministro 
Correia de Oliveira,  estrutura
          poltica interna do regime,  posio do Ultramar, e s 
necessidades do desenvolvimento eco-
          nmico. Assim, o regime poltico vigente, a sua poltica 
ultramarina e o atraso econmico eram
          oficialmente reconhecidos como obstculos ou problemas na 
perspectiva de uma futura inte-
          grao que ningum ousava ento repudiar abertamente. As 
negociaes com a CEEjoram por
          isso at solicitadas pelo governo portugus logo em 1962.

               O governo de Salazar pretendia us*fruir das vantagens 
da integraro europeia sem perder a
          exclusividade dos benefcios da dominao ultramarina. 
*Assim como temos um particular inte-
          resse ao mercado europeu - dizia Correia de Oliveira em 
Outubro de 1967 - tambm amanh nos


402

                    A

poder convir a participao em arranjos comerciais ou de cooperao 
econmica em Africa+,
sendo 
ormparaoMinistro*inevitvelumasoluoquenospropusesseolevantamentode
fron-
teiras aduaneiras (no caso em exame, a pauta exterior comum da 
comunidade) entre o territrio
europeu e os demais territrios portugueses+. Por outro lado, o 
governo pretendia que a inte-
grao na CEE no fosse apenas da metrpole mas de todo o territrio 
sob administrao de
Lisboa. *No podemos sujeitar-nos a uma organizao supranacional que 
tenha uma concepo
fsica da nao europeia, limitando esta qualificao queles pases 
cujo territrio nacional se
situa exclusivamente na Europa: no podemos aceitar uma participao 
no mercado europeu
dizia a concluir Correia de Oliveira - que no abranja todos os 
territrios nacionais+.
     Este dilema *ou integraro europeia ou integraro ultramarinas 
resolveu-se ao longo
dos anos 60 por um congelamento da primeira, que a participao na 
EFTA no deixaria de ir
pespectivando, e por uma acelerada realizao da segunda.
     Com a liberalizaro poltica e econmica do marcelismo a questo 
ganhou porm nova acui~
dade, a modernizao tecnogrfica ento encetada punha na primeira 
ordem de prioridades a
aproximao do mercado comum, sacrificando ou relegando para segundo 
plano problemas que
a haviam refreado na dcada anterior A opo surge ento ligada  
opo liberalizante no ter-
reno poltico e econmico, segundo seu porta-voz, por excelncia, na 
renovada Assembleia
Nacional, o jovem deputado liberal Pinto Leite. Em contrapartida, a 
opo ultramarina surge
ligada s posies polticas mais irredutveis de continuao da 
poltica ultramarina de Salazar
que encontravam no deputado Franco Nogueira a sua mais autorizada e 
intransigente de s.

                                                                 ,fe
     *No temos na Europa, enquanto Metrpole - disse na Assembleia 
Nacional em Abril de 1970
o ex-Ministro dos Estrangeiros da dcada de 60 - suficiente 
individualidade e tipicidade para
sobreviver a um conflito de que sassemos derrotados. [...     1 a 
nossa,fora de resistncia apenas
podemos ir busc-la fora e alm da Europa, e esta considerao 
conduz-nos hoje e nofituro,
como sempre nos conduziu no passado, ao * Ultramar+. Criticando, por 
isso, os que *do prio-
ridade  opo europeia sobre a opo ultramarinas, e os que 
entendiam que se deveria alterar

a poltica ultramarina para se ser europeu, acusa frontalmente que *a 
integraro econmica da
Europa  um mito; como  um mito a sua unidade poltica+. Alm disso, 
*nunca a Europa teve em
conta os interesses puramente portugueses+, e hoje *continuamos a no 
ter na Europa nenhum
interesse vital a protegeras. Por isso, *no temos que ser europeus 
ou anti-europeus: temos de pen-
sar em termos portugueses acima e alm de tudo+. Com uma integraro 
europei           .a - conclua
Franco Nogueira - *passaramos a ser colonizados pela Europa, e 
depois a Europa colonizaria
o ultramar portugus: podemos estar certos que a Europa no vai 
cuidar da nossa prosperidades.
     A rplica dos europeistas liberais no sefaria esperar Dias 
depois, o deputado Pinto Leite
reafirmava que *fundamental que o pas tome conscincia do que o 
movimento centripeto ini-
ciado pelo Mercado Comum  irreversvel e que Portugal, embora de 
vocao ultramarina, 
tambm europeu, e no deve nem pode,fugir-lhe. Mai tarde ou mais cedo 
teremos de entrar em
qualquer tipo de relao ntima com a CEE. Bom  que no se espere 
pelo ltimo momento, para
se ter de procurar precipitadamente uma soluo que poder ser a 
menos convenientes. E
lembrando que a epopeia ultramarina de quinhentos * i preparada e 
continuada dentro do con-
texto europeu, e no fora ou contra ele+, e que *a decadncia se 
inicia justamente quando
Portugal se comea a isolar da Europa+, Pinto Leite contesta que a 
integraro europeia seja um
mito mas antes uma realidade bem patente e que *a longo e a mdio 
prazo, no subsistiremos
como individualidade nacional se nos ensimesmarmos no esplndido 
isolamento do espao
portugus+. Indo mais longe, o deputado liberal acusou os *grupos de 
presso+ que se opunham
 aproximao do Mercado Comum de serem os mesmos que se opunham  
liberalizaro do con-
dicionamento industrial, que contribura para ofortalecimento das 
estruturas monopolistas e oli-
gopolistas e para retardar o progresso tcnico da indstria, grupos 
de presso esses - lembrou
a termi .nar - que existiam e actuavam no sentido de desviar o poder 
poltico a favor dos seus
prprios interesses, quer directa quer indirectamente, atravs da 
opinio pblica.

403

               O PR0@E5S              GUAMENT

               Efectivamente, a dualidade de perspectiva 
integracionistas parecia corresponder a con-
          trastantes interesses no s polticos mas tambm 
econmico-sociais. O prolongamento da guer-
          ra e da poltica ultramarina integracionista bloqueava a 
aproximao da Europa, a moderni-

          zao tecnolgica, a liberalizaro econmica, que, por sua 
vez, se afiguravam pouco ou nada
          compatveis com aquelas. Foi este dilaceramento de 
perspectivas de integraro que acabou por
          minar a unidade do bloco social em que o regime se apoiava 
por excelncia, e por provocar o
          enfraquecimento interno que havia de consentir o seu fim.

                                   M.   Braga da Cruz, ob. cit.




          A INTEGRAO DE PORTUGAL NA CEE






                     01








                     ..N



@'sinatm-ti do Tratado de Adeso nos.feriffinos, em Julho de 1985.




          ASSEMBLEIAS REGIONAIS DOS AORES E DA MADEIRA








                                                                 iam








           Os rgos regionais no so orgos municipais, nem so 
rgos ditos de soberania.
                                   Esto num ponto intermdio. +
                                                  Alvaro Monjardino.


404

...... .... . ...... . . ....



UM TESTEMUNHO SOBRE A DESCOLONIZAO PORTUGUESA


     P.     - Para resumir, que papel foi o seu na des-
colonizao? Para tornar isto claro, de uma vez
portodas.
     Mrio Soares - O meu papel tia descoloniwo
foi, em primeiro lugar, ter dado o pontap de sada
em direco  paz e ter tentado - e conseguido -
estabelecer contactos directos e ao mais alto nvel
com os trs movimentos que nos faliam a guerra:
com Arstides Pereira e Pedro Pires relativamente
ao PAIGQ com Samora Machel e Chissano, para
Moambique; e com os trs movimentos naciona-
listas que existiam no terreno em Angola - o
MPLA, dirigido por Agostinho Neto, ti FNLA, por
Holden Ribeiro, e a UNITA, por Savnibi. Assisti,
ainda como ministro dos Negcios Estrangeiros,
mas numa posio secundria,  Confirncia de
Alvor, em Janeiro de 1975, num adiamento de imen-
s perturbao nacional. Com tudo o resto que se
passou a se-uir, tive pouco a ver.
     Nunca pensei, por exemplo, na independncia
de Cabo Verde; nunca tive qualquer interferncia
relevante na questo de So Tom. Tanto assim que
recusei o convite para ir  independncia de So
Tom. Quem l esteve foi o Rosa Coutinho, salvo
erro, que assinou a independncia; e, pelo Ministrio
dos Negcios EstrangeirosJi Jorge Campinos, que
era secretrio de Estado. No quis ir, achei que as
coisas andaram depressa de mais, sem suficientes
garantias, ultrapassando aquilo que idealizara.
     O meu esquema inicial, relativamente  desco-
lonizao, era muito mais gradual e longo. Queria
assegurar - como assegurei - uma viragem radi-
cal, em relao a Portugal, nas Naes Unidas. A
ONU apenas queria que aceitssemos o princpio
da autodeterminao. Estava disposta a auxiliar-
nos, a fundo, numa transferncia gradual, bem
negociada e supercontrolada para as independn-
cas. E os pases africanos, nas Naes Unidas,
tambm: eram os primeiros a compreender uma
tal metodologia. At o ministro Malik, da Indonsia,

me disse: *Nada de descolonizao em Timor.+
Repeti-o na Comisso para a Descolonizao, que
nessa altura se reunia sob a gide do Presidente
Costa Gomes. O ministro dos Negcios
Estrangeiros chins, que eu encontrei nas Naes
Unidas, tambm me disse: *Nada de descoloniza-
o em Macau, porque Macau no  colnia. +

                                             Iq      1

Nunca ningum me oliviu.falar, nessa poca, nesses
dois territrios - nem em Macau, nem em Timor.
     P.   - Cabo Verde?
     R.   - Sinceramente, sempre estive convencido
de que Cabo Verde tinha mais a ganhar sendo uma
regio largamente autnoma, mas associada a
Portugal, no Atlntico, do que como est, um pas
inde endente a icano. Cabo Verde no  bem
p            fr
Africa, trata-se de um arquiplago aberto ao cru-
zamento das culturas africana, europeia e ameri      . -
cana no Atlntico Sul. -!@ relativamente a So Tom
e Prncipe pensava que, por se tratar de ilhas mins-
culas, tinham mais vantagem em se manter ligadas a
Portugal - embora, obviamente, com uma larga
margem de independncia e governo prprio.
     P.   - Tinha tambm uma ideia para Angola?
     R.   - Pensei sempre num esquema diferente.
Sonhei numa associao ntima ao Brasil e a
Portugal, como pases independentes, claro, como
talvez um dia venha ainda a ser possvel. Uma
comunidade afro-lusa-brasileira, de lngua, de afec-
to, de cultura, com uma base econmica e unia
cooperao poltica. Falei nisso com o meu amigo
Barradas de Carvalho, o historiador, noites segui    . -
das, quando estvamos no exlio, em Fratia. Mas,
para isso, era preciso que tivesse havido paz mai . s
cedo - ou que nunca tivesse havido guerra ---, que
tivesse havido dilogo e uma evoluo preparada
em estreita cooperao com as elites africanas - o
que infelizmente no pudemosfazer a tempo, dada
a intransi . gnci . a da ditadura. O que fez a Igreja,
por exemplo, com a formao de padres e bispos de
grande categoria - angolanos, inoambicanos,
qfficanos de diferentes etnias e de grande prestgio
- ligados estruturalmente  Igreja portuguesa e at
a Portugal, fialando portugus, pensando portu-
gus. So eles que, em tempos difceis, mais tm
contribudo para manter as estruturas da socieda-
de civil em Angola e em Moambique.
     O Estado portugus, infelizmente, no,fez nada de
comparvel. As elites africanas ou passaram pela
Casa de Estudantes do Imprio, quejoi ainda a nossa
maior *universidade para africanos+ - prestemos
essa homenagem  Casa de Estudantes do Imprio -,             e 1
ou ento,f@)rani,formadas tias universidades estran-
geiras, da Unio Sovitica, da Alemanha Oriental, da

Checoslovquia, escolas do comunismo mundial.
                         . ... . ......

Mrio Soares, entrevista citada

405

.. .. ...........

          7C        4-19~



UM JUZO SOBRE A DESCOLONIZAO

     Seja comofor, poderia afirmar-se que, naqueles anos de 74-
75, o reconhecimento da independncia das colnias portugue-
sas aparecia como historicamente necessrio, eticamente impe-
rioso, obrigatrio  luz do direito da comunidade internacional,
militarmente aconselhvel, conjunturalmente inadivel. Da as
consequentes decises polticas.
     Tais decises visavam determinados objectivos,  maneira de
critrios que banzavam um caminho onde abundavam as con-
tradies. Objectivos e critrios que se poderiam formular
assim: transferir a soberania dos futuros Estados independentes
paraforas polticas dotadas de reconhecida legitimidade, quer
uma legitimidade conquistada pela prtica de luta armada,
quer uma legitimidade assegurada pelo voto popular; realizar
um processo de transio pacfica, evitando sobretudo qual-
quer internacionalizaro dos conflitos; garantir a possvel sal-
vaguarda dos interesses portugueses; e, como vimos, lanar as
bases de uma futura poltica de cooperao.

                              Lus Moita, in Seminrio.... ob. cit.

com 05 Povos
DAS           c osbH IAS

K,-








              A opinio pblica
           favorvel  acelerao
        do processo de independncia



A POPULAO RETORNADA




                                                                     
 77
Retomados, segundo a colnia  Percentagem de retomados               
  7
de residncia em 31-12-1973   na populao residente por  R  1 1 1 1
                              distrito (1981)









                           O - populao total
                           1 - com curso profissional
                           2 - com curso mdio
                           3 - com curso superior

                           - FT_n
                           O 1 2 3


   >A.  menos de 4,0%  A.  15'1 1:@

                           109

                           "1 H
        4,0 a 5,9%

<  >
        mais de 7,0%   M.  Com mais de 30 anos

O nmero total de retomados segundo o INE, em 1981, ultrapassava em 
pouco o meio milho (505 078),
dos quais 61 % eram provenientes de Angola, 33% de Moambique e 
apenas 6% das restantes colnias.

                                   Segundo R. Pena Pires e outros.


406

              O FIM DO IMPRIO







                      a








Marinheiro beija a bandeira portuguesa tia hora
   da retirada (Maputo, 25.hinho de 1975)

    Montimentos aos Descobridores apeados
             em S. Toin (1 975)





                                   A DESCOLONIZAO PASSO A PASSO

     Fica assim aberto o caminho da paz e de uma descolonizao 
efectiva e completa. A 5 de
Agosto  publicado o acordo entre as Naes Unidas e Portugal, no 
qual se reconhece o
direito  independncia dos povos das colnias. Em Agosto, tambm, 
iniciam-se as negociaes
luso-moambicanas [...    1: a independncia de Moambique sob a 
gide da FRELIMO  marcada
para 25 de Junho de 1975. Em Argel, a 26 de Agosto, Portugal 
reconhece o Estado da Guin-
-Bissau [... 1. Em Angola, o problema  mais complexo, dada a 
existncia de trs movimentos
nacionalistas rivais e a forte percentagem de populao branca, que 
procura organizar os seus
prprios movimentos. O 28 de Setembro, porm, deita por terra as 
ltimas veleidades de
Spnola para inflectir o sentido do processo de descolonizao na 
maior das colnias portu-
guesas. Com Costa Gomes [...      1  possvel abrir as negociaes 
oficiais em Outubro de 1974,
que culminam no acordo de Alvor, em 15 de Janeiro de 1975: a data da 
independncia de
Angola  marcada para 11 de Novembro do mesmo ano e fica definido o 
processo de transfe-
rncia de poderes para o MPLA, a FNLA e a UNITA, reconhecidos como 
*os nicos e legtimos
representantes do povo angolano+. Mas em breve o acordo de Alvor  
objecto de mltiplas e
repetidas violaes. [...   1 A medida que se aproxima a data de 
independncia, crescem os
esforos do MPLA e da FNLA para se apossarem do controlo total do 
territrio, o primeiro com
o apoio sovitico-cubano, a segunda com o apoio americano. Portugal 
mostra -se impotente para
impor o cumprimento do acordo de Alvor             O MPLA, com maior 
apoio popular, acaba por

sair vencedor da luta travada e  para ele que as autoridades 
portuguesas transferem os seus
                                                                     
                     a inde-
pendncia de Moambique [...      1 era proclamada pacificamente na 
data prevista, o mesmo acon-
tecendo com Cabo Verde e So Tom e Prncipe, a 5 e 12 de Julho 
respectivamente. Em Timor-
-Leste, porm, onde no houvera luta de libertao, a descolonizao 
conheceria o episdio mais
trgico da sua histria. Incrustado no arquiplago indonsio, o 
pequeno territrio dificilmente
poderia escapar  cobia e  influncia determinante do seu poderoso 
vizinho. A rivalidade entre

                                                            407

ltimos poderes, reconhecendo pouco depois o novo Estado.
Ao mesmo tempo que decorria o atribulado processo da independncia de 
Angola

          os trs movimentos que reivindicavam a representatividade 
do povo timorense - a APODETI,
          favorvel a uma integraro na Indonsia, a UDT, partidria 
de uma autodeterminao pro-
          gressi          .          va, e a FRETILIN, e orientao 
pre ominantemente maosta, empen ada numa in -
          pendncia imediata -, aliada  incapacidade das autoridades 
portuguesas para assegurarem um
          processo gradual e pacfico de descolonizao, acabaram por 
facilitar a interveno da
          Indonsia, obtida que foi por esta, alis, a cobertura do 
Governo americano, receoso de um novo
          foco marxista em zona estratgica do Oriente. A tomada do 
poder pela FRETILIN em Setembro
          de 1975 foi a gota que fez transbordar o vaso e precipitou 
a invaso da Indonsia em Dezembro
          de 1975. Um autntico genocdio.foi ento perpetrado em 
terras timorenses: cerca de 200 000
          habitantes tero sido massacrados, perante a passividade da 
comunidade internacional. E
          ainda hoje esto por cumprir as sucessivas recomendaes 
das Naes Unidasfavorveis ao in-
          cio de conversaes com vista a assegurarem o direito de 
Timor-Leste  autodeterminao. O
          ci .          clo da descolonizao encerrava-se, assim, 
com aferida aberta de Timor

                                             Antnio Reis, ob. cit.








                                                                 Uk



                     1A






Pedro Pires aps a assinatura do reconhecimento
     da Guin-Bissau (Setembro de 1974)








                 .. ... ....




               Missa da independncia de S. Tom e Prncipe
                         (12 de Julho de 1975)


                     408

 Manifestao de apoio  chegada da primeira
      delegao'da Unita - Luanda, 1974








Julho de 1975, data da independncia que leiloa
           Samora Machel ao poder

               AS SOCIEDADES SEMIPERIFRICAS EUROPEIAS

     Uma sociedade semiperifrica no contexto europeu 
desempenhafunes de ntermediao
muito diferentes, caucionadas por processos histricos muito 
distintos dos da sua congnere no
contexto americano. No surpreende que essas sociedades, enquanto 
formaes sociais,
tenham pouco em comum.
     No que se segue, a teorizao do conceito de semiper@/ria 
restringe-se ao contexto europeu,

aquele em que Portugal se encontra inserido. Esta teorizao assenta 
numa anlise detalhada
da formao social portuguesa e na sua comparao implcita com as 
formaes sociais
espanhola, grega e irlandesa. [...  1
     As sociedades semiperifricas no contexto europeu 
caracterizam-se por uma descoinci-
dncia articulada entre as relaes de produo capitalista e as 
relaes de reproduo social.
Esta descoincidncia consiste no atraso das relaes de produo 
capitalista, ou seja, das rela-
es entre o capital e o trabalho na esfera de produo, em confronto 
com as relaes de repro-
duo social, ou seja, as relaes sociais que presidem aos modelos e 
s prticas dominantes
do consumo. Esta descoincidncia  articulada emfuno de 
doisfactores: primeiro, uma estru-
tura de classes em que se salientam deferentes classes de suporte que 
amortecem os conflitos
entre o capital e o trabalho e asseguram o avano relativo das 
prticas de reproduo social;
segundo, a centralidade do Estado na regulao da economia.
     As sociedades semiperifricas garantem a satisfao 
relativamente adequada dos interesses
imediatos de amplos sectores da populao (e nomeadamente do 
operariado, numericamente
importante na estrutura social da populao)  luz dos modelos de 
consumo dominantes. Tal,
porm, no se deve a nveis altos de produtividade do trabalho nem  
grande institucionaliza-
oformal da relao capital/trabalho semelhante  que existe nos 
pases centrais. Resulta, em
geral, de um complexo tecido social em que esta ltima relao se 
desenrola, o qual, por seu
lado, cria mecanismos informais compensatrios do atraso das relaes 
de produo e, por
outro lado, pulveriza os conflitos entre o capital e o trabalho. Esta 
atenuao dos conflitos no
se liga assim  forte presena de classes mdias (intermdios entre a 
burguesia e o operariado),
tal como sucede nos pases centrais, mas antes  presena de estratos 
sociais efraces de clas-
ses localizados ao lado ou abaixo do operariado efuncionando como 
suportes sociais deste. Os
mecanismos compensatrios informais e a relativa pulverizao dos 
conflitos entre o capital e
o trabalho so a base material dos regimes democrticos nestas 
sociedades.
     Ofuncionamento destes mecanismos pressupe complexos processos 
de arbitragem social
que, no podendo caber nem ao capital nem ao trabalho,, nem a ambos 
conjuntamente, dada a
relativa descentrao das relaes entre eles na estrutura social e o 
baixo nvel da corporati~
vizao dos seus interesses (em geral  mais baixo o nvel de 
corporativizao dos interesses do
operariado), so cometidos ao Estado, que, assim, tende a assumir um 
papel central na regu-

lao social. Os Estados semiperifricos, so, em geral, bastante 
autnomos na definio das
polticas (ainda que no necessariamente nas aces polticas que 
delas decorrem) e tendem a
ser internamente fortes, sem que, no entanto, a fora do Estado se 
converta facilmente em legi-
tmao do Estado (como sucede, em geral, nos pases centrais), 
independentemente da legiti-
midade dos regimes democrticos do momento, assentes sempre em 
equilbrios precrios.

                                        Boaventura Sousa Santos, ob. 
cit.







                                                            409

A EVOLUO NA GRCIA

               Neste pas, abalado por crises governamental          
     .          s, um grupo de coronis chefiado por G.
          Papadopoulos levou a efeito, em 21 de Abril de 1967, um 
golpe de Estado, suspendeu as
          garantias constitucionais, proibiu a existncia de todos os 
partidos, cujos dirigentes foram pre-
          sos, e instituiu processos polticos. O terror prosseguia, 
quando, em 1973, o presidente
          Papadopoulosfoi substitudo pelo general Gizikis. Mas o 
regime militar s soobrou quando os
          coronis tentaram tambm aplicar os seus mtodos de dureza 
 poltica externa, organizando
          um golpe de Estado dirigido contra o presidente cipriota 
Makarios, iniciativa que provocou a
          interveno militar da Turquia. Aps ofracasso deste golpe, 
Gizikis, em 24 de Julho de 1974,
          nomeou como primeiro-ministro o democrata conservador 
Konstantin Karamanlis, abrindo o
          caminho para o restabelecimento da democracia. Nas eleies 
parlamentares de 17 de
          Novembro, o partido de Karamanlis, designado por Nova 
Democracia, conseguiu obter a
          maioria absoluta. Aps um plebiscito, a Grcia tornou-se 
definitivamente uma repblica. Em
          Junho de 1975, entrou em vigor uma nova Constituio e 
pouco tempo depoisforainjulgados
          os responsveis pela ditadura militar Em Novembro de 1974, 
a Grcia foi de novo aceite no
          Conselho da Europa, e em Junho de 1975 requereu a sua 
adeso  CEE como membro de pleno
          direito, pretenso que foi aceite.
               As eleies realizadas em 1981 deram a vitria ao 
Partido Socialista. O novo regime,

          liderado por Andreas Papandreu, no cortou os laos com a 
NATO e manteve as bases milita-
          res norte-americanas; procurou solucionar a situao 
econmica, repondo o poder da moeda,
          desvalorizada em dois teros desde 1974. Em Junho de 1981, 
foi descoberta uma conspirao
          de oficiais na reserva, mas o Governo no persegui         
    .          u os infractores.

                         Os Grandes Acontecimentos do Sculo XX, 
Lisboa, 1984.






A NOVA MONARQUIA ESPANHOLA: 22 DE NOVEMBRO DE 1975

               Nesta hora carregada de emoo e esperana, cheia de 
dor pelos acontecimentos que aca-
          bamos de viver, assumo a coroa do reino com pleno sentido 
da minha responsabilidade peran-
          te o povo espanhol e da honrosa obrigao que para mim 
implica o cumprimento das leis e o
          respeito de uma tradio centenria que agora coincidem no 
trono.
               [...            1 Umafigura excepcional entra na 
histria. [...           1 Com respeito e gratido quero recordar
          afigura [Francisco Franco] de quem durante tantos anos 
assumiu a pesada responsabilidade
          de conduzir a governaro do Estado. A sua recordao 
constituir para mim uma exigncia de
          comportamento e de lealdade para com as,funes que assumo 
ao servio da Ptria.  prprio
          de povos grandes e nobres o saber recordar os que dedicaram 
a sua vida ao servio de um                ideal.
          A Espanha nunca poder esquecer quem como soldado e como 
estadista consagrou toda a exis-
          tncia ao seu servio.
               [...            1 Comea hoje uma nova etapa da 
histria de Espanha. Esta etapa, que temos de per-
          correrjuntos, inicia-se na paz, no trabalho e na 
prosperidade, fruto do esforo comum e da deci-
          dida vontade colectiva. A monarquia ser afiel guardi 
desta herana e procurar a todo o
          momento manter a mais estreita relao com o povo.
               A instituio que personifico integra todos os 
espanhis, e hoje, nesta hora to transcen-
          dente, convoco-vos porque a todos ns incumbe por igual o 
dever de servir a Espanha. Que
          todos entendam com generosidade e largueza de vistas que o 
nossofuturo se basear num efec-
          tivo consenso de concrdia nacional.

410


     O rei  o primeiro espanhol obrigado a cumprir com o seu dever e 
com estes propsitos.
Neste momento decisivo da minha vida afirmo solenemente que todo o 
meu tempo e todos os
meus actos estaro orientados para o cumprimento do meu dever
     Peo a Deus a sua ajuda para acertar sempre nas difceis 
decises que, sem dvida, o des-
tino nos deparar, com a sua graa e com o exemplo de tantos 
antepassados que unificaram,
pacificaram e engrandeceram a todos os povos de Espanha, desejo ser 
capaz de actuar como
moderador, como guardio do sistema constitucional e como promotor da 
justia. Que ningum
receie que a sua causa seja esquecida; que ningum espere uma 
vantagem ou um privilgio. [...  1
Estou plenamente consciente de que um grande povo como o nosso, em 
pleno perodo de
desenvolvimento cultural, de mudana geracional e de crescimento 
material pede aperfeioa-
mentos profundos. Escutar, canalizar e estimular as suas aspiraes  
para mim um dever que
aceito com deciso.
     A ptria  uma empresa colectiva que a todos incumbe. A sua 
fora e a sua grandeza
devem apoiar-se na vontade manifesta de quantos a integramos. Mas as 
naes mai . ores e mai . s
prsperas, em que a ordem, a liberdade e a justia melhor 
resplandecem, so aquelas que mais
profundamente souberam respeitar a sua prpria histria. A justia  
o suporte para a liberdade
com dignidade, com prosperidade e com grandeza. Insistamos na 
construo de uma ordem
justa, uma ordem onde tanto a actividade pblica como a privada se 
encontram sob a salva-
guarda jurisdicional. Uma ordem justa, igual para todos, permite 
reconhecer na unidade do
reino e do Estado peculiaridades regionais, como expresso da 
diversidade de povos que
constituem a sagrada realidade de Espanha. O rei quer s-lo de todos 
ao mesmo tempo e de
cada um na sua cultura, na sua histria e na sua tradio.

     Mensagem de Juan Carlos 1, in M.' V. Lopez Cordn, Anlisis y 
comentrio de textos histricos, Madrid, 1990.








                    PREAMBULO DA CONSTITUIAO DE 1978

     A nao espanhola, desejando estabelecer a justia, a liberdade 
e a segurana e pro-
mover o bem de quantos a integram, no uso da sua soberania, proclama 
a sua vontade de:

     Garantir a convivncia democrtica dentro da Constituio e das 
leis de acordo com
uma ordem econmica e socialjusta.
     Consolidar um Estado de Direito que assegure o imprio da lei 
como expresso da von-
tade popular
     Proteger a todos os espanhis e povos de Espanha no exerccio 
dos direitos humanos, as
suas culturas e tradies, lnguas e instituies.
     Promover o progresso da cultura e da economia para assegurar a 
todos uma digna qua-
lidade de vida.
     Estabelecer uma sociedade democrtica avanada, e colaborar 
nofortalecimento das
relaes pacficas e da cooperao eficaz entre todos os povos da 
terra.
     Em consequncia, as Cortes aprovam e o povo espanhol ratifica a 
Constituio.

Aprovada pelas Cortes em 3 1 de Outubro, ratificado por referendo 
nacional a 6 de Dezembro

                         e sancionada pelo rei em 27 de Dezembro de 
1978.



                                                            411

     A Anlb4 e@ le documf,

     1.   Observe as imagens e, conforme os casos, identifique os 
projectos polticos, os mentores
          ideolgicos, as situaes concretas implcitas, as 
mensagens transmitidas.


                                   r- 9 o q-  M- a
                         Iene 6ro s a noite T A"-," ISTA
Ih








                                                            at n
                    POVO








                    . ......








412

UM SERVI-o Cvico:

TODO

                                                       ,,;






                                                       o
                                                  REMUCENA
     011AMOM         A UBMOME GUIANDO O POVO                     AT 
A RIA
                                                       Fil

CONGRESSO
     DETODOSOS
SINDICATOS








               NA
               AUT~A



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                                                       L-


                 ,%Adonis -

                   POR UM

                   AMANHA
                 A CONSTRUIR








     2.   Identifique as organizaes partidrias.

               1                                                     
          3




     p FLW:U



                                                            Ppm

                    7                                              
........ ..... ...






414

3.   Leia os depoimentos de missionrios, combatentes e pol icos, 
intelectuais e apoiantes publi-
     cados no Pblico em 28 de Abril de 1995. Identifique os 
problemas e os progressos dos
     novos Estados independentes em Africa, 20 anos depois do fim das 
guerras de libertao.

VINTE ANOS DEPOIS, OLHANDO A REALIDADE DE HOJE,
QUE SENTIMENTO TEM EM RELAO A LUTA PELA
INDEPENDENCIA: VALEU A PENA OU FICOU LONGE
DOS SEUS MELHORES SONHOS?

QUAL  PARA Si O MELHOR E O PIOR DESTES 20 ANOS NO
QUE SE REFERE AOS PALOP E EM PARTICULAR AO PAIS
A QUE SE SENTE MAIS LIGADO?

EURICODIASNOGUEIRA*

Valeu, apesar de tudo, porque desembocou frutos trazidos, porpouco 
escorreitos, no lhes
na independncia poltica desses povos, como
era seu objectivo. Aquela constitui um direito
fundamental de qualquer comunidade humana,

com as caractersticas internacionalmente exi-
gidas e em condies de a gerir.
     Melhorfora que no tivesse sido necessria
a guerra dita colonial. Assim sucederia se o
nosso pais, em vez de se agarrar aos pergami
nhos da Histria, ou a interesses menos nobres,
compreendesse os *ventos+ daquela e apren-
desse as lies, provindas da A ica e Asia, aps
a Segunda Guerra Mundial, e assumisse cora-
josamente, ele pr<)prio, a preparao e condu-
ao do processo emancipalista.
     Porque tal no aconteceu em devido tempo,
surgiu a revoluo de Abril-74, com muitas
esperanas, a q ue logo se seguiram muitas mais
desiluses. Os novos governantes - uns autores
e outros *filhotes+ daquela - ficaram muito
Ei      aqum das altas tarefas que se propuseram. Da
a nova e escusada tragdia do ex-Ultramar; e
tambm a quase-tragdia de Portugal.
     De positivoficou o nascimento de cinco novos
Estados africanos de lngua oficial portuguesa,
bem como a instaurao de um regime mais
democrtico no nosso pas. Embora qualquer
destas conquistas acabasse por chegar, mais ano
menos dia, mesmo sem revoluo, esta apressou
a sua vinda, desfazendo sonhos irrealizveis.
     Por isso, e s por isso, valeu a pena, tanto a
luta pela independncia no Ultramar, como a
revoluo em Portugal. Receio, porm, que os

permitam ocupar lugar muito honroso na
Histria de Portugal, quando desaparecerem
os seusfautores e directos beneficiros.
EJ Dada a natureza da minha misso em Africa,
vou situar a resposta na rea da Igreja Catlica.
     Em 1975, por ocasio das independncias
dos novos pases de expresso portuguesa, a
Igreja estava razoavelmente implantada e bem
organizada em todos eles, com destaque em
Moambique e Angola. Os seus efectivos, em
agentes de pastoral - clero, religiosas e cate-
quistas - e populao catlica, eram numero-
sos, atingindo esta 20 por cento e 50 por cento,
respectivamente. Grande parte daqueles j era
de extraco local.
     A ndole ferozmente marxista dos movimen-
tos que se apoderaram dos governos, com o
apoio dos revolucionrios portugueses, desen-
cadeou de imediato a perseguio religiosa.
Esta atingiu especialmente, embora no em
exclusividade, a Igreja Catlica, por ser a mais
bem organizada e eficiente de todas as institui-
es religiosas ali existentes.
     Ela soube resistir, para bem das populaes;
e cresceu em prestgio.
     Sucedeu assim graas  boa preparao
das cristandades locais para assumirem novas
responsabilidades. Nos pases em causa h

hoje 31 prelados, sendo seis arcebispos -
entre estes, dois cardeais - e os restantes bis-
pos. So todos africanos, excepto cinco portu-
gueses e dois italianos.

     A independncia apressou, eliminando eta-
pas, a autonomia religiosa que a Igreja vinha
preparando, havia muito. Como geralmente
sucede, ela ji mais clarividente e corajosa do
que os detentores do poder poltico.

*Natural de Dornelas do Z@,ere (1923); ordenado sacerdote
em Coimbra (1945); bispo de Vila Cabral - Moambique
(1964); bispo de S da Bandeira - Angola (1972); arce-
bispo de Braga - Portugal (1977)

     PEDRO DE PEZARAT CORREIA*

H A luta pela independncia de um povo colo-
nizado ou, por qualquerforma, privado da sua
soberania vale sempre a pena. E se essa luta
culminou na conquista da independncia,  bvio
que os objectivos,foram atingidos. Os sacrifcios
e cus tos que a luta imps, mesmo se, comoforam
alguns casos, demasiado excessivos e muitas
vezes injustificveis, constituem um preo, que
adiou a traduo desses objectivos em benefcios
concretos mas que nunca pode pr em causa o
significado e o valor dos objectivos em si.
     O melhor: o prprio nascimento dos novos
pai 1 ses soberanos e a influncia que, directa-
mente, exerceram na radical transformao do
quadro geopoltico da Africa Austral, com a
independncia do Zimbabwe e da Nainbia e o
termo do *apartheid+ na ica do Sul.
     O pior: as prolongadas guerras civis e o
sofrimento dos povos de Timor-Leste,
Moambique e Angola, produto de contradies
endgenas mas, principalmente, de interven-
es externas, traduzidos em puras e clssicas
1 . nvases militares, ou em apoio s partes envol-
vidas nas guerras civis, visando a sobrevivncia
do *apartheid+ (caso da Africa do Sul), ambi-
ces expansionistas (caso da Indonsia), ou a
conquista de zonas de influncia geopoltica
(caso das duas superpotncias EUA e URSS, em
aces directas ou `guerras por delegao",
atravs do Zaire e Cuba). Foi s e sempre onde
houve intervenes armadas externas que afase
da transferncia do poder e as seguintes do pro-
cesso de descolonizao das colnias portu-
guesas ati . ngi . ram um patamar dramtico, que

no correspondeu forma comoforam negoci-
(idos os acessos s independncias c0171


416

Portugal, e que uma diferente atitude dos prin-
cipais actores da cena internacional podia ter
evitado.

*Brigadeiro, re rmado, 62 anos, 13 dos quais passados
          fi
na ndia, Moambique, Guin e Angola, onde se encontrava
no 25 de Abril de 1974. Integrou a delegao portuguesa
aos Acordos do Alvor, foi comandante da Regio Militar Sul
e membro do Conselho da Revoluo. Dedica-se  investi-
gao e divulgao de temas relacionados com o 25 de
Abril e a descoloni--aio.

     EDUARDO SOUSA FERREIRA*

     O facto de a independncia significar que
os povos podem passar a decidir - se bem que,
como os outros povos, com os limites que a pol-
tica e economia mundiais impem - da sua
maneira de viver e do seufuturo  suficiente para
achar que valeu a pena a luta de libertao.
     Sempre abordei a questo poltica do colo-
nialismo pela perspectiva da economia, o que
no dava azo a grandes sonhos. Menos sonha-
dor fiquei quando, com Magalhes Colao,
Jorge Sampaio e Miguel Galvo Teles, pre-
parei para o Governo portugus o parecer
para a independncia de Angola e me aperce-
bi deforma mais detalhada e imediata das con-
dicionantes externas, mas principalmente das
internas.
     As coisas no valem apenas s quando cor-
respondem a sonhos.
O Penso que o pior que sefez nestes vinte anos
foi ignorar que Portugal tinha implantado -
se bem que deforma iniciante - as estruturas
de economia de mercado nas suas co nias e
que tal inviabilizava o implantar e economias
de planeamento centralizado. A incompatibili-
dade das estruturas dos dois tipos de economia
conduziu quilo a que se tem vindo a assistir.
Teriam sido necessrias precaues que no
foram tomadas em ateno.
     O melhor: foi o facto de as independncias
terem sido um dos vectores decisivos para o
abolir do *apartheid+ na ica Austral.

*Prqfessor catedrtico de economia internacional no Instituto
Superior de Economia e Gesto (ISEG). Tem 59 anos. Na
a Itura das independncias, estava na Alemanha, onde era
investigador na Universidade de Heidelberg e presidente do
Bureau de              para a Affica Alistral (RFA).



WWffi MM MI~%gE

     8@ Fic@           itura- Os retomados

     Leia o texto e cruze com os dados dos mapas das pgs. 41 O e 
426.

          Ningum sabe ao certo quantos so. Alguns referem 
oitocentos mil, outros um milho e meio.
     Vieram por barcos e por avies, golfados em caudais 
interminveis de desespero e desamparo.
     Imobilizaram-se ao frio, ao pudor, ao cansao. O eco do seu 
xodo, sem bblia nem israel, condoeu
     ento o mundo. O velho imprio portugus retomava cabisbaixo, 
naufragado, s praias de onde, cinco
     sculos atrs, partira para uma epopeia de faanhas 
imorredoiras.

          R4@fitos os bocados de cada um, ergueram-se e atiraram-se 
para a frente. Chegaram, em peque-
     nos grupos, a todo o pas; e em pequenas ocupaes, a todos os 
sectores. Como novos bandeirantes,
     colonos uma vez mais,,forajii para o interior carregando cleras 
e pnicos, vinganas e ousadias.
          A sua ralvafoi a sua.fora; a anti-ff-los mover 
montanhas, dominar medos, vencer a loucura
     e o desamor. E dar provas espantosas de coragem, de 
persistncia, de engenho de inveno.
          Com ajudas de instituies, de subsdios, de emprstimos, 
de amigos, comearam afixar-se e a
     transformar os locais onde se detiveram.
          A emigrao e o exlio tinham despovoado meio pas. Aldeias 
inteiras apenas albergavam
     velhos e crianas, povoaes havia que no tinham sequer um 
habitante. Era um pas de deseres
     e decrepitudes a viver das mesadas dos emigrantes e dos 
militares, e das contas dos turistas; um pais
     onde estava (est) tudo porfia ",er, por merecer; como estavam 
(esto) os sertes da memria africana.
          Ento repetiram aqui o que h decnios.faziam l. Mas l 
tudo era grande, fcil, farto, acessvel:
     mo- de-obra, crditos, comrcios, terrenos, colheitas, gados, 
mquinas, solidariedades. Havia terra,
     terra, e espao e, como no oeste ameri     .     cano, sonho. Um 
homem tinha, se quisesse, a dimenso de um deus.
          H centenas de anos que desembarcamos de idas e retornos, a 
diferena nunca foi muita, que
     pegamos em proles, haveres, iluses e,fridas, e partimos para 
dentro, oceanos e continentes, em
     peregrinaes interiores defi, cobia e trapaa.
          Com a mesma convico que inicimos mares e i . mpri . os 
desistimos deles, renuncimos a eles.
     Deixamos tudo a meio, talvez por sermos, sem o saber, 
suficientemente sbios para isso.
          *No foi a riqueza, nem a terra que Vasco a ama uscou nos 
Lusiadas. oi+,                      z-nos o pro-
     fessor Agostinho da Silva, *a Ilha dos Arnores+.
     Como a no encontroulencontrmos, suspendemo-nos, 
incompletamo-nos - que e uma manei-
U      ra  de nos completar. Da que o fado seja a nossa realidade e 
o sebastianismo a nossa igreja.

Estamos sempre a partir e a chegar, somos retomados de ns proprios. 
Expulsos h dez anos de
E      Africa queremos partir de novo para Africa - outra. Samora 
Machel  reverso de Vasco da Gama.
          A maiorparte dos que vieram ir, porm, perecer aqui. No 
sobreviver  morte da sua Angola, do seu
     Moambique, -Ia sua Guin. Que tenta reconstruir em Moncorvo, em 
Viseu, em Lisboa, em Sagres, em ...
          Do mesmo que tentou reconstruir Moncorvo, Viseu, Lisboa, 
Sagres, em Angola, em Moambque,
     na Guin, em Cabo Verde, em S. Tom, na ndia, no Brasil.
          Africa.foi portugalizada em Affica iio,@ ltimos sculos; 
Portugal est a ser africanizado em
     Portugal nos ltimos decnios. Os musseques do Prenda irrompem 
no Alto do Dafundo; as marre-
     bentas agitam os bailes dos domingos suburbanos; as 
churrasqueirasflorescem nas estradas beirs;
     o caril, a cerveja, o,fmo, os fumos, sobeni aos planaltos 
nortenhos; o imaginrio dilata-se; as his-
     trias de caa, de aventuras, de magia, de abundncia, perpassam 
os cabeos de granito e giesta.
          Um sopro quente perturba a pele dos queficaram, dos que na 
histria s vem partir, soldados,
     missionrios, mercadores, emigrantes, exilados, e vem voltar: 
deslumbrantes de riqueza uns, pas-
     mados de vazios outros.
          Vai fazer agora dez anos que o princpio do fim se deu. O 
que aconteceu, entretanto, a essas
     populaes escolhidas para expiar a culpa do nosso colonialismo?

          Portugal est reduzido  sua origem, est devolvido a ele 
prprio - de vez.
          A exausto apazigua asferidas, dissolve a angstia, enevoa 
a memria, gera ofuturo. Novos pa-
     ses surgem aqui . , em Angola, em Moambique, na Guin, em Ca o 
Ve , uni os na mesma ingua
     e no mesmo afecto.
          De senhores em Luanda, Loureno Marques e Bissau, passamos 
a criados em Paris, Bona e
     Bruxelas. Regressados de uma condio e de outra, encontramo-nos 
no ponto de partida. E o
     pequeno bero range ao peso dos que se lhe alinham, ora cansados 
e submissos, ora esbracejantes
     e colricos.
          Portugal est a ser reconstruido pela raiva dos retomados. 
E a raiva d muita fora. *Em breve
     vamos sentir que estamos a ser colonizados por eles+, 
especifica-nos o professor Agostinho da SI Iva.
     *eles vo lanar mo a tudo... agarrar-se  terra, usar com as 
pessoas de c os mesmos mtodos que
     usaram com as de l. Para eles o aldeo  o preto, o nosso 
campons comea j a dizer: patro retor-
     nado  bruto!+.
          *C os retomados olham e dizem: vamos aqui fazer a nossa 
vida como fazamos em Africa, que
     no deu certo por culpa destes tipos, porque o Exrcito no se 
portou bem, nem os polticos+.

          *Eles acham que tm que melhorar Portugal como os 
brasileiros de Camilo... dentro de alguns
     anos o Pas vai reconhecer que a fora fecundadora lhe foi dada 
por eles. So por natureza construtores
     de imprios, no so navegadores. No Brasil fundaram fazendas, 
em Africa abriram lojinhas+.
          *Para aqui no trazem divisas, como os emigrantes, 
constroem  coisas. E quando os emigrantes
     voltarem vo cair sob o seu domnio. Eles dominaro quando as 
reservas de oiro se acabarem e quan-
     do as remessas dos emigrantes cessarem. Nessa altura tambm o 
FM1 ter desaparecidos.
          Apontada como um fenmeno mpar de absoro social, s 
possvel em povos de grande gene-
     rosidade, a integraro dos retomados tornou-se, escassos anos 
aps a sua chegada, um caso sur-

      preendente.
          A desconfiana inicial, por vezes hostilidade, com queforam 
recebidos, sucedeu a convivncia
     a amenidade. A prpria palavra *retornado+ (rapidamente 
popularizada apesar de nem sempre
     exacta ou justa) quase que no se ouve j.
          O exemplo que deram de trabalho, de iniciativa, de 
interajuda, de preseverana granjear-lhe-iam
     depressa respeito e a          irao. E temor.
          Desde ministros poderosos, no Governo Central (Almeida 
Santos) a vogais humildes nas autar-
     quias interiores (das 12 cmaras do distrito de Bragana, por 
exemplo, oito so retomados);
     desde industriais prsperos a indigentes asilados, desde o gran 
e ote eiro e A i ira  empre-
     gada de copa de Castro Daire, desde o avirio modelo de Peges  
queimaria tosca da Estrela, esto
     em toda a parte, bispos, militares, juizes, contrabandistas, 
artistas, jornalistas, cientistas, cozi-
     nheiros, pro ' ssores, polcias, prostitutas, chulos, 
desportistas, funcionrios, esto em toda a parte
     fe
     trans rmando o meio, matizando o tecido social, alterando os 
espectros polticos, religiosos,
     fi)
     morais, ideolgicos.
          De subvalorizados passar a sobrevalorizados. Vivendo em 
crculos concntricos assumem-se em
     certas zonas como castas de poderio crescente. Alguns tornam-se 
os novos donos da terra. *Mais de
     50 por cento vive melhor aqui do que l+, repetem-nos.
          Hoje controlam vrios sectores, so a sua classe dirigente 
e exigente; formam uma rede por todo
                      aniza, alarga, fortalece, interpenetra.
     o pais que s    rg
          Mais do que o dinheiro, porm; ou a riqueza em si,  o 
triunfo, o xito, o domnio que lhes inte-
     ressa. *Se em vez de nos terem disperso pelo pas nos tivessem 
dado uma provncia s para ns, era-

mos agora uma potncia, os de fora tinham de nos pedir batatinhas!+ 
afiana-nos Custdio Antunes,

IM,

          no Cartaxo, antigo camionista no Norte de Angola.
                i

          Fo jogando nessa mentalidade que surgiram, por exemplo, 
candidatos prprios  presidncia da
     Repblica, como Pomplio da Cruz, e candidatos seus 
representantes privilegiados como Galvo de Melo.

     418

          Os grandes partidos polticos depressa passaram a 
alici-los e a receb-los nas suas estruturas
     internas de onde os injectaram na administrao pblica.
     *Eles  que fizeram pender a balana no sentido da 
contra-revoluo!+ comenta o antigo depu-
tado Jos Manuel Jara, nico retomado no grupo parlamentar do PCP.
     A sua insero provoca em muitos observadores surpresa. A Frana 
(com retomados da
Indochina, da Tunsia, de Marrocos, da Arglia), a Itlia (da Libia e 
da Abissnia), a Blgica (do
Congo) ainda sofrem internamente as sequelas na sua descolonizao.

          Aparentemente Portugal dirigiu-a.
     Aparentemente todos se ajeitaram. *Foi como se tivssemos de 
entrar num estdio cheio, abana
daqui, acotovela dali, fomos avanando. + A frase de Joo Meira,  
expressiva. *A grande ajuda ao
retomado foi ele prprio que a deu. Somos um povo com uma capacidade 
de integraro maravilhosa,
e em todas as circunstncias. Fomos o nico povo da Europa que se 
adaptou a viver no serto, que se
casou com pretas. Mas a nossa adaptao tem sido feita  custa de 
muito esforo, de muito sacrifcio,
de multas vtimas. Sofremos de uma doena muito grande: o saudosismos 
Para Joo Cabral, oriun-
2      do do Lobito, actualmente director do Apoio Cristo 
Internacional, *o xito da integraro  muito rela-
tivo. Foi a poltica seguida pelos governos que calou os retomados. 
Separaram-nos, polvilharam-nos
pelo pas, tiraram-nos a fora. E eles resignaram-se. Em Frana, no, 
os argelinos foram existentes, o
mesmo aconteceu noutros pases, por isso se ouve ainda falar dos seus 
retomados. Aqui amocharam!+.
     Diversos organismos surgiram em sua defesa e apoio. Organismos 
religiosos, polticos, assis-
tenciais, culturais, educativos. Oficias, como o IARN,- 
internacionais, como o Apoio Cristo e a Cruz
Vermelha; filantrpicos, como a Associao de Apoio aos Angolanos; 
reivindicativos, como a
ANERM - Associao dos Naturais e Ex~Residentes de Moambique, e a 
FRAUL - Movimento
Nacional de Fraternidade Ultramarina (que pretendem indemnizaes do 
Estado); recreativos, como

*Os Inseparveis de Lubango+ (cerca de sete mil no ltimo piquenique 
realizado no Buaco).
     Os mais crentes tm uma Santa sua, a Nossa Senhora dos 
Retornados, a quem dedicaram h
pouco, em Oliveira do Bairro, grandes,festividades.
     Dispem tambm de uma imprensa prpria (como o jornal *O 
Retornado+, o boletim *A Voz do
Cid+) e, muito prxima (casos do *Dia+ e do *Diabo+).
     Aps a sua chegada a Lisboa, onde eram acolhidos pela Cruz 
Vermelha e pelo IARN, recebiam
alimentao e assistncia; uma parte beneficiou de crditos, 
subsdios e emprstimos que permiti-
ram a alguns, dado o seu juro bonificado, reorganizar-se e lanar-se 
em diversas actividades.
     Por quase todo o pas surgiram, assim, empresas comerciais 
(cafs, restaurantes, supermerca-
dos), industriais (avirios, fbricas transformadores, servios de 
frio), agrcolas, transportadoras,
piscatrias, etc.
     Osfuncionrios pblicos passaram por sua vez a ser integrados no 
Quadro Geral de Adidos com
60 por cento do ordenado.
     Educao, Sade, Agricultura, Administrao Interna (PSP), 
Finanas e Administrao
Autrquica so os ministrios onde se encontram majoritariamente.
     Mal concedidos, ou no concedidos, seriam os crditos para 
compra de habitao prpria
(572 mil contos), depressa bloqueados pela burocracia e pela falta de 
vontade poltica.
     As especulaes, os desvios defundos, a corrupo, o compadrio, 
o oportunismo, o roubo, difi-
cultaram e desacreditaram no entanto (as irregularidades ascendem a 
mais de meio milho de con-
tos)parte do esforo desenvolvido. Osprocessosjudiciais levantados 
(1800porfiraude, no valorde
130 000 contos) continuaro a correr depois da extino da Comisso 
Liquidatria do ]ARN.
          *O povo portugus no  colonialista+, repete, i . nsuspel 
. to e surpreendente, Samora Machel.
     Muitos dos que voltaram de Africa tambm no. Foram mais 
colonizados do que colonizadores,
deram mais do que receberam, deixaram mais do que trouxeram.

          Os que, deles, colonizaram, exploraram, no esto entre 
eles                  arraia mida espalha a e
     norte a sul, de oeste a este, a trabalhar com as suas proles e 
as suas frias, noites dentro, sem
     horrios, sem fins-de-semana, na nsia de um aturdimento 
devorador e final.
          Os anos passaram. Os frutos surgiram. O sopro de renovao 
que desencadearam transformou ja
     a face portuguesa. A que preo.
          Um pas rnarginal surge paralelo ao oficial. E 
sobrepe-se-lhe por vezes em vitalidade, em pro-
     vocao, em ousa ia.
          E o pas anibguo e secreto das especulaes, dos trficos, 
dos subornos, das cumplicidades; o

     pas que evita alfndegas, escamoteiafiscos, submerge ticas; o 
pas que desconhece balanas de
     pagamento e imposies do FMI.
          O portugus sempre j@)i sbio nesse saber escapar-se s 
normas da legalidade -poltica, econ-
     mi     .     ca, religiosa, militar. Da que uma parte discreta 
de retomados se lhe tenha introduzido, clere.
          O submundo das cidades, os negcios penmbreos, as 
especulaes vertiginosas, foram roleta
     em que apostaram e ganharam.
          Os *bas- o

               ,f' nds+ da capital, as *bo@tes+ da provncia, as 
transaces secretas (diamantes, auto-
     mveis, electrodomsticos, favores a poderosos) passaram a 
passar por eles na determinao de
     reconquistarem aqui privilgios e nveis de vida perdidos .
          Desinseridos da luta que os trabalhadores portugueses 
desenvolvem h anos, curto-circuitaram-na
I@     em diversos sectores porflta de tradio (dela) e por nsia 
de carem nas boas graas (e nos bons
lugares) do sistenia emergido.

          Vindos de terras de nienor exigncia mas de maior abertura 
acabaram or modificar-se ao
     modificar o meio. Sobretudo os inaisiovens, detentores de 
estatutos de outra liberdade, sem os tabus
     aqui solidi icados nem as normas aqui secularizadas.
          
Asrelaesqiteestabelecerai,@icomosqueencontrarampen-nitiram~lhesalte
rarcompotiamentos;idn~
     ticofennieno deu-se, alis, com os.filhos dos emigrantes 
em.frias. Entre os que vieram de Africa e os que
     vem da Europa, o velho portugus abre-se, tambm ele, a novas 
convivncias, a novasfrontalidades.
          Os turistas estrangeiros e as telenovelas brasileiras 
ajudaram ao cerco que os tempos ps-moder-
     nos nos estendem  volta. Os.Jovens que enchem hoje os cqfs e 
as discotecas da provncia so j
     produto dessa tofascinante como curiosa miscigenao cultural.
          As dificuldades, asfaltas de perspectivas, os desalentos 
so os mesmos para todos eles, pretos,
     e brancos, e mulatos, e mestios, e amarelos, e loiros, e 
ciganos; os que retomaram                  ica, os que
     nasceram ca, os que ho-de vir da Europa, os que no podero j 
partir porque j no h Africa,
     nem Europas para desbravar e servir. O ciclo estjchado.
          Expulsos do paraso por pecados originais no assumidos, 
vivem agora assombrados na fixidez
     da memria. Passar horas entre si  recuar no tempo. As suas 
casas esto cheias dele, de objectos,
     de_l@>tos e de smbolos, o *naperon+, a estatueta de madeira, o 
carro, o tapete, a msica, a balalaica,
     o espeto do churrasco, a pele de cobra.
          A volta da mesa bebe-se o clice do reencontro. A 
solidariedade -lhes uma religio quase pat-

     tica, feita de rituais, de perguntas, de ternuras, de silncios, 
de imprecaes. Baptil-ados pelo
     mesmofogo, conheceram o mesmo pnico, o mesmo desamparo, o mesmo 
Golgota, a mesma humi-
     lhao; uni, pacto de suor uniu-os para sempre.
     No podem por isso aceitar o que se passou. Morreriam se o 
fizessem. Dizem-se, sentem-se enga-
nados pelos polticos que os *iludiram deliberadamente+; dizem-se, 
sentem-se trados pelas Foras
W       Armadas que os deixarani, sem intervir, se golpeados; 
dizem-se, sentem-se vtimas e inocentes; s
assim conseguiro salvar-se perante si mesmos.
          Da o seu apoio aos grupos de direita e extrema-direita aos 
que, por ironia, foram os primeiros
     grandes responsveis pela *tragdia da descolonl'zaao+.

420

     No proceder como procedeu era, porm, admitir a sua 
cumplicidade, o seu desconhecimento,
o no sentido, afinal, da sua vida - l.
     C, ele contribuiu para o desandar da Revoluo. Esta, que o 
saiba (na 5.' Diviso ouve
quem preconizasse o seu abandono para o seu massacre), trouxe-o, no 
entanto, de regresso numa
ponte area de incomensurvel dimenso.
     A maior parte deles, porm, veio com a roupa do corpo, com 
escassos haveres em caixotes e
notas inteis nos bolsos. Alguns tentaram permanecer em Africa. 
Amavam-na, serviam-na, era a sua
terra. Nada tendo a esconder nada tinham, pensavam, a recear. Os 
governantes diziam-lhes, pela
imprensa e pelos comcios, isso mesmo.
          Caso a caso, histria a histria, as suas vidasjzem-se 
mitos. As A icas distanciani-se lia mem-
     ,fr
ria, ficam nvoa que se dispersa pelo pas, arco-ris em horizontes 
queimados defuturo.
Alentejo, Algarve, Beiras, Trs-os-Montes, em todo o lado encontrmos 
as mesmasfaces, os mes-
mos olhares, as mesmas acusaes, o mesmo aturdimento. Como exrcitos 
de inocentes depois da der-
rota, estendem-nos as palavras e abrem-nas ao sol: No tm 
arrependimento porque no tm culpa.
     A todos, e foram centenas, repetimos a pergunta: nunca pensaram 
que lhes podei-ia acontecer o
que aconteceu? As respostas so unnimes: nunca! No tinham 
informao do que se passava, os
jornais e a rdio nada diziam, ou diziam que estava tudo resolvido.
     Apenas ouviremos, num terceiro andar de Benfica, uma excepo: 
*Os que tinham conscincia da
situao sabiam. Alis, depois da independncia da Arglia e da 
independncia do Congo, era pre-
visvel. Receava at que fosse pior.+ Ex-deputado do PCP, o dr. Jos 
Manuel Jara acrescenta: *A
camada progressista e intelectual de Angola era, porm, uma minoria. 
Em 600 mil brancos devia haver

mil que tinham conscincia do que se passava. Os outros quiseram 
viver a iluso colonial at ao fim.
No conseguem agora suportar esse fim. Vieram de um niundo grande 
onde criaram coisas grandes.
Aqui tentam fazer o mesmo, construir tambm coisas grandes. O pior  
que aqui tudo  pequeno!+
     Nos extremos sociais que ocupam, os retomados habitam as casas 
mais modernas das aldeias e
os tugrios mais deprimentes das cidades. As grandes vivendas que 
irrompem pela provncia so, na
verdade, deles e dos emigrantes; os bairros mais degradados tambm, 
como os de pr-fabricados
vindos da Holanda e da Noruega, e de outros pases caritativos. 
Desfazem-se aofrio, ao vento, ao
tempo, em Braga, em Vila Real, em Viseu, em Moncorvo, em Montalegre, 
em Miraflores.
     Construir casa e montar negciofoi o seu grande projecto l e 
c. A primeira coisa (nica?) que
o portugusfez em Africa e no BrasilJo o levantar abrigo, abrir 
balco, arranjar mulher, semear
prole; a sua melhor alfaia.foi, continua aser, a revenda.
     Da o ele s saber organizar-se economicamente e adiologicamente 
(sem ideologia). Os povos de
que descendeldescendeinos, judeus, romanos, fencios, cartagineses, 
vieram, alis, pelo mesmo cor-
redor, o do Mediterrneo, e tinham todos caractersticas comerciais, 
no agrrias.

     As perspectivas de intensificar agora o comrcio (legal) so, 
porm, difusas. O boorn que se ver-
ficou nele, e por ele, na construo civil, nas exploraes 
hoteleiras, industriais e pecurias (pos-
svel devido aos emprstimos do ]ARN) entrou em declnio.
     Os economistas do FMI esto a desempenhar hoje aqui o mesnio 
papel que os polticos de
Salazar desempenharam ontem em A ica.

                     fr
     Teremos defazer outra, e depois outra, e outra descolonizao; 
de voltarmos a ser nufragos e
retomados porque s atravs dos regressos e das partidas nos 
reencontraremos.
     *Assistimos j+, diz o escritor Rui Nunes (os criadores 
pressentem estes fenmenos antes dos tc-
nicos e dos polticos) *a um retorno a Africa+, visivel, por 
exeniplo, *no fascnio pela sua literatura;
voltamo-nos para Sul, abandonamos a Europa+.

Fernando Dacosta, *Os retomados mudaram Portugal+, Seminrio 25 de 
Abril 10 Anos depois, Lisboa 1985.


Retornados por distrito      Retornados com menos de           
Emigrao legal, 1960-1973,
de naturalidade (em % do     40 anos, por distrito de natura-  por 
distrito de origem (em % da
total de retomados nascidos  lidade (em % da populao         
popuao residente em 1960)
em Portugal)                 residente em 1960)









    menos de 4%   menos de 1,4%         menos de 8%

    4 a 6%        1,4% a 1,9%           8 a 14%

    7 a 9%

    mais de 20%   2,0 a 2,9%            15 a 19%


13  mais de 1 0%  mais de 3,0%          mais de 20%




                                        Outros cursos
                  Cursos predominantes
                                        com representatividade



     DISTRIBUIAO
     DOS RETORNAD,
     COM CURSO
     SUPERIOR.
     POR DISTRITO

                                   r, tecnologia-engenharia
                                   letras e cienc. humanas
                                   cienc. agro pecurias
M                                                cincias mdicas
          tecnologia e engenharia
                                               cincias sociais
          cienc. agro pecurias

                                            ed. fsica e militar
          tecnol. eng./ e. agro pecuria

               0 tecnol. eng./c. mdicas                            
direito


422

ontinue a sua galeria de biografias. Identifique e elabore a 
biografia de um dos retratados.



                                             Ar,RiA Ac
                              Z5 PE    API,@ 1-,

desordem econmica (doc. 7) e duas chagas
importantes do Ocidente, a inflao e o aumento
do desemprego, trazem tambm preocupaes e
complicam a admisso, como muitos desejam, das
repblicas de Leste na Unio Europeia.

3.   O MOVIMENTO PACIFISTA E AS
     NEGOCIAES PARA O DESARMAMENTO

     A brutalidade da 11 Grande Guerra s podia ter
fortalecido o sentimento pacifista que desde finais do
sculo XIX surgira na civilizao ocidental. Pensava-
-se em paz sob o ponto de vista militar, mas tambm
na criao de um mundo em que as naes pudessem
cooperar pacificamente para a produo e em que
as tenses sociais e culturais se amortecessem.
Nesse sentido se foram criando diversas organiza-
es ligadas  prpria instituio da cooperao
universal - a ONU -, como sejam a UNESCO e a
UNICEF, e se fundaram diversas organizaes
polticas regionais que visavam a defesa de inte-
resses comuns num quadro de unidade (doc. 8).
     Esta tendncia no obteve xito absoluto e fon-
tes de agressividade permaneceram entre 1945 e os
nossos dias (doc. 9). Outras organizaes inter-
nacionais houve, e i  as estudmos, que se criaram
mas com fins militares.
     Coexistindo com um esprito verdadeiro de
desanuviamento e de dilogo, o medo foi um argu-
mento til para os governos procurarem com
maior af solues pacficas para a resoluo dos
seus problemas e cederem na necessidade de limi-
tao dos armamentos nucleares.
     Primeiro, foram as aproximaes pessoais e
directas entre os dirigentes das duas superpotncias,
com a instalao, em 1963, do *telefone verme-
lho+ que ligava Moscovo a Washington. No mesmo
ano concordam em suspender as exploses nuclea-
res experimentais na atmosfera e, em 1968, com
mais sessenta pases, assinam o tratado de no pro-
liferao nuclear. Depois  a vez de o Kremlin e de
a Casa Branca se empenharem nas SALT (Strategic
Arms Limitation Talks), visando limitar o seu stock
de msseis estratgicos e de ogivas nucleares - 1972.
     Outros acordos polticos, que no dizem direc-
tamente respeito aos dois grandes, so igualmente
importantes. A Ostpolitik (poltica a leste) de
Willy Brandt que reconheceu, em 1972, a marca-
o da fronteira alem na zona Oder-Neisse e per-
mitiu, dois anos depois, a Conferncia sobre
Segurana e Cooperao na Europa (CSCE).

                                                  ... ..... . ......


428

                                                  ---- ------
      esta que abre as portas  assinatura, em 1975,
dos acordos de HeIsnquia (doc. 10), que reco-
nhecem as fronteiras dos Estados europeus, o res-
peito pelos direitos do homem e a livre circulao
de ideias e pessoas.

     Ao lado da adopo desta poltica - com dila-
es graves, como a dificuldade em assinar os acor-
dos SALT 11 ou o reforo do arsenal nuclear e con-
vencional divulgados em 1983 por Reagan - h
um movimento generalizado da opinio pblica.
     Se h quem duvide da sua espontaneidade e
aponte o dedo  Unio Sovitica que teria assim
um lobby no terreno do inimigo que a protegia,
desde 1968 que grandes grupos de cidados rom-
pem com o doginatismo e tomam posio a favor
do ambiente, da ecologia e do pacifismo (doc. 11).
     Tambm aqui h obstculos  realizao deste
objectivo. Terrorismo, intolerncia tnica ou
social, tenses religiosas (doc. 12), fazem esque-
cer os esforos pela paz (doc. 13) e actos concretos
de entreajuda (doc. 14).
     Ao nvel governamental, o ano de 1987  um
novo marco. Os progressos realizados pelos EUA
e a URSS em matria de desarmamento, com a
assinatura de um tratado sobre foras nucleares
de mdio alcance, so notveis e abrem caminho a
outras iniciativas (doc. 15), como as acordadas
em HeIsnquia em 1990.
     Se o pacifismo, como sistema ou movimento
com implicaes poltico-Ideolgicas que defende
a paz como bem supremo, tem vindo a desenvol-
ver-se (quer no sentido mais restrito, como recusa
do uso de meios violentos dirigidos contra a esp-
cie humana ou contra toda a criao - caso dos
ecologistas -, quer no mais amplo, que designa as
correntes adeptas da conciliao internacional que
esto na base de organizaes e de polticas, como
a ONU, a SDN, a Ostpolitik ou o desanuviamento),
o optimismo excessivo no se justifica.
     Ao lado do aprofundamento da integraro
regional e do reforo da cooperao e da concreti-
zao do conceito de complementaridade de aco
das organizaes internacionais, ressurgiram vio-
lentas afirmaes de nacionalismo e violaes
dos direitos humanos. As mais graves neste
momento so as que se desencadearam na
ex-Jugoslvia, na Europa, e no Ruanda-Burundi,
na Africa negra. Para Portugal, intrinsecamente
ligada ao processo de paz,  a situao dos direitos
humanos em Timor-Leste.

TRANSFORMAES IDEOLGICAS E LINHAS ESTRATGICAS DOS ANOS 80



          1.   O PRAGMATISMO POLTICO: O FIM DO ESTADO-PROVIDENCIA E 
A
               AFIRMAO DO NEOLIBERALISMO

          2.   O RECUO DO MARXISMO

          3.   O MOVIMENTO PACIFISTA E AS NEGOCIAOES PARA
               O DESARMAMENTO








                OCEANO ATLAIV

                     7/C
                      o



                      E

                     OZ4



                    o     1992

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                     op@

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                                                                 O



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                  Zelndia



                     us


       A destruio da camada de ozono



                                                                 J

i.   O PRAGMATISMO POUTICO: O FIM DO
     ESTADO-PROVIDENCIA E A AFIRMAO
     DO NEOLIBERALISMO

     Entre as explicaes que os economistas ten-
taram encontrar para a depresso que perturba a
economia mundial a partir de 1973, surgiu uma
corrente, partidria de um regresso ao liberalis-
mo, que a atribui  interveno excessiva do
Estado. Radicando nos princpios pregados por
Keynes desde o fim da guerra, os governos, espe-
cialmente os dos pases do Norte da Europa, usa-
ram uma poltica intervencionista (economia
social de mercado) que conseguiu manter um clima
de prosperidade, assegurando o pleno emprego, e
que, pela elaborao de um sistema de organizao
da economia, evitou um crescimento excessivo,
gerador de inflao e de dfice comercial.
     Este sistema, com o tempo, teve efeitos desas-
trosos e tornou-se paralisante do prprio desen-
volvimento.
     Para os neoliberais, o aumento constante dos
impostos desencorajou a iniciativa e o livre esp-
rito de empresa, ao mesmo tempo que reduziu os
lucros e os investimentos. Por outro lado, o dfi-
ce pblico (doc. 1), corolrio da assumpo de
encargos pelo Estado, ou  suportado por emprs-
timos pblicos e pela elevao das taxas de juros e
prejudica os empresrios, ou  financiado por
novas emisses de moeda e gera inflao.
     A prpria regulamentao e intervencionismo,
impostos pelo Estado para manter em actividade
empresas que no so rentveis, falseiam o merca-
do e obtm maus resultados porque o Estado 
menos eficaz e menos dotado para certas tarefas do
que o sector privado. Ao substituir as polticas dis-
tributivas do incio por polticas produtivas (o
Estado produz educao, sade, energia, habitao,
infra-estruturas) perdeu os critrios de racionali-
dade que tinham dominado a sua actuao anterior.
     Para alm dos inconvenientes em si do acumular
de responsabilidades pelo Estado, nomeadamente no
plano social, os neoliberais denunciam os efeitos
perversos do Estado-providncia para os prprios
beneficirios, que desenvolvem uma mentalidade
de assistidos e se transformam em parasitas (doc.
2). Em lugar de se sustentarem pelo seu trabalho,
entregam-se aos cuidados da sociedade.
     Os encargos sociais financiados pelos empregos
existentes tornam o custo do salrio insuportvel
para as empresas, que procuram aqueles pases em

426

que a mo-de-obra  mais barata ou substituem o

homem pela mquina. De qualquer modo, o desem-
prego cresce, o que desdiz as promessas iniciais.
     Mas as novas despesas do capital social, em
investimento e em consumo sociais, significam
no s dispndio de dinheiro como tambm a
criao de novos organismos estatais, uma expan-
so brutal da administrao pblica e, portanto,
do corpo dos funcionrios pblicos, c 'os inte-
ui
resses no se confundem com o interesse geral.
Por outro lado, como o critrio de mobilizaro de
recursos  a luta poltica, os diferentes interesses
sectoriais so contemplados segundo o seu peso
poltico e o Estado tende a fazer despesas acima
dos seus recursos (doc. 3).
     At meados dos anos 70, o custo considervel
desta frmula social mantinha-se no domnio do
suportvel. Quando o oramento social dos pases
comeou a ultrapassar o oramento clssico, ento a
gesto do Estado-providncia tornou-se um problema
poltico grave. Restava aos governos, para evitar a sua
falncia, aumentar os descontos ao ponto de tomar
impossvel a poupana e o investimento ou, como
desejavam os neoliberais que inspiraram Reagan e
Margaret Thatcher, regressar  lgica do mercado.
     Os resultados destas polticas no foram con-
clusivos e, perante as deficincias do Estado e a
ineficcia dos servios pblicos, as dcadas de
80-90 assistiram ao dinamismo das solidariedades
privadas, expressas no proliferar das ONG
(Organizaes No Governamentais). Alm destas
instituies sociais, tornaram-se comuns as soli-
dariedades familiares sobretudo para ajudar a
superar as dificuldades dos jovens em aceder ao
mercado de trabalho.
     A consequncia desta dependncia  o patente
atenuar do conflito de geraes neste final de
sculo.

2. O RECUO DO MARXISMO

     A teoria marxista e o comunismo como sistema
poltico tiveram o seu perodo ureo at meados da
dcada de 70, embora houvesse sinais anteriores
de que esse esplendor se encontrava j ameaado.
     A crtica social dos anos 60 prefigura os movi-
mentos contestatrios de 1968, em que o dogina-
tismo ideolgico  fortemente abalado. A desesta-
linizao da URSS, as invases de Budapeste e
depois de Praga, o que se comeou a saber sobre a
China, Cuba ou a Bolvia e a publicao, em 1974,

do Arquiplago do Goulag, de SoIjenitsyne, per-
turbam as convices e revelam ao mundo os
excessos do mundo comunista. No Ocidente, inte-
lectuais (como os novos filsofos Andr Gluksmann
ou Bernard-Henri Levy) lanam apelos a favor da
dissidncia comunista.

     Mas  na Europa de Leste que o destino do
comunismo se joga e     a o sistema s comea a
vacilar de forma irreparvel no incio dos anos
80. At ento, resta aos cidados a resignao e aos
descontentes a dissidncia, com os riscos inerentes:
fixao de domiclio, internamente em hospital
psiquitrico, perda de direitos cvicos e, nos casos
limite, o exlio. Destes casos limite, os mais cle-
bres foram o escritor Alexandre SoIjenistsyne e o
prmio Nobel da fsica Andrei Sakharov (doc. 4).
     A explicao para esta sociedade sem liber-
dade era o atraso econmico e a necessidade de
consagrar todas as energias ao desenvolvimento
da indstria pesada, mesmo se isso significasse
penria para a populao.
     No momento em que o Ocidente mergulha na
estagflao, a crise no atinge o Leste que no 
alcanado pela crise monetria visto o rublo no
gravitar na rbita do dlar. Ao contrrio, o desem-
prego no  ameaa e a riqueza energtica (pri-
meiro produtor mundial de petrleo em 1974 e,
em 198 1, de gs natural) torna a URSS num expor-
tador exigente que no poupa sequer os pases da
sua rea de influncia deficitrios em energia.
     Mas a euforia  de curta durao. Os preos
do petrleo baixam e os outros produtos no so
competitivos no mercado ocidental.
     No princpio da dcada de 80, a estagnao do
crescimento  preocupante e a produtividade
fraca, minada pelo absentismo e pela mediocri-
dade dos equipamentos.
     A URSS e s democracias populares colocam-se
ento opes difceis: como conciliar o oramen-
to militar com as aspiraes de consumo da popu-
lao, como reformar o sistema econmico sem
fazer tremer a estrutura da sociedade ou como
democratizar o partido nico sem abalar os funda-
mentos do sistema poltico?
     Preocupaes que se cruzam com os movi-
mentos de rejeio da sociedade comumista,
cada vez mais activos: movimento de protesto da
elite intelectual da Checoslovquia, a *Carta 77+
do *Frum Dernocrtico+ na Hungria, um outro
na RDA e, mais amplo, o da Polnia, que con-
grega intelectuais, operrios e camponeses no pro-

           @@ATG1tA`@@ '>US ANOS

jecto *Solidariedade+ e se refora com o prestgio
da Igreja polaca, agora mais forte com a eleio do
arcebispo de Cracvia, Carol Woytila, como papa
Joo Paulo 11.
     Na URSS propriamente dita, depois da morte de
Brejnev, em 1982, e da crise governamental com a
corrida  sua sucesso entre um corpo poltico em
que o imobilismo, o envelhecimento e a esclerose
campeavam,  eleito, em 1985, secretrio-geral
do PC sovitico Mikhail Gorbatchev (doc. 5).

     Muito mais novo e descomprometido, pretende
um retorno  legalidade socialista e apela a uma
reforma econmica radical. Para levar a cabo
este projecto no se pode desperdiar capital
humano e, assim, logo no ano seguinte liberta
Sakharov e outros 200 dissidentes.
     A renovao do socialismo faz-se atravs de
uma reestruturao, perestroika, que implica
uma revoluo das mentalidades, das estruturas
econmicas e administrativas e uma democrati-
zao da sociedade que destrua os privilgios e
recompense o mrito.
     A perestroika utiliza o mtodo do glasnot
(transparncia) em toda esta reforma interna e
mobiliza para a economia civil as enormes
somas que a poltica externa absorvia. Em conse-
quncia, os territrios em Africa (Angola,
Moambique, Etlpia), na Amrica Central
(Nicargua), na Asia (Vietname, l_aos, Cambodja),
que desde Brejnev gravitavam na rbita sovitica,
e os que pertenciam  herana estalinista dos ps-
-guerra, so deixados mais  sua sorte.
     A esar dos golpes e contragolpes que, em
1991, levam  demisso de Gorbatchev, o *refor-
mador+, a favor de Boris leltsin, o *revolucion-
rio+, o poder central tem de ceder perante o
poderoso movimento das nacionalidades.
     O ano de 1989, o Outono dos Povos, destruiu no
espao de alguns meses quarenta anos de comunis-
mo. Com uma transio democrtica, reorganizam-
-se a Hungria, a Polnia, a Alemanha de Leste e a
Checoslovquia. A Albnia, a Bulgria, a Rornnia
e a Jugoslvia tm processos mais complicados.
     O smbolo desta vaga de libertaes e das
potencialidades que traziam em si, foi a reunifi-
cao alem, em 1990. Precedeu-a a queda do
Muro da Vergonha, um ano antes, abrindo as fron-
teiras entre os dois lados de Berlim (doc. 6).
     A estes sinais de esperana, outros mais sorn-
brios se juntaram de que o mais negro  a guerra
civil nos antigos territrios da Jugoslvia. Mas a

427

MARCHA A FAVOR DA PAZ E DA LIBERDADE








        Agosto de 1983, em Washington


          PRATICAS E TENSES RELIGIOSAS



IRLAND
         A DO NORTE       JUGOSILAVIA
       confrontos         re]g1os@,
protestantes e catlicos



                          confrontos
                          er s, Armnios:





               AlVIZI.---.  confrontos entre
                            si kh s e hindus  TIBETE
                            no Pendjab        lutas religiosas



     conflitos r o
   Proximoo
  en -Ivendo
muulmanos

                   INDIAI
                Lutas hindus
                e muulmanas



                    SUDO
                  guerrilha
              crist e animista

                                                                 V


                h        dista
                         nos
   NIGRIA      e rnui  a
   confrontos
entre cristos
e muulmanos




religio catlica

religio protestante

religio ortodo.-.-,
copta, armnia, etc

religio judaica




436

religo muulmana

religio hindu

religio budista

outras religies (em
particular animismo)

propaganda oficial
anti religiosa

principais conflitos de
raiz religiosa


                   2000 km


                                 30,5  30,2     EVOLUO DAS RECEITAS
               icas              31,6  34,4  E  DAS DESPESAS PBLICAS

Receitas Pblicas                39,8  41,3     A
Despesas Pblicas                34,7  39,2

Receitas Pblicas                38,4  42,6
Despesas Pblicas                32,6  43,3

Receitas Pblicas                40,2  40,1
Despesas Pblicas                32,1  39,6

Receitas Pblicas                30,3  31,2
Despesas Pblicas                31,7  38,3

jOs mesmos + o Japo e o Canad
Receitas Pblicas                31,4  32,5
Despesas Pblicas                29,1  34,2

              SC,11Undo a OCDE



     AS INTERROGAES SOBRE O ESTADO-PROVIDENCIA

     Segurana em todas as circunstncias, acima de tudo. Aspirao 
generalizada no mundo oci-
dental. [...   1
     No entanto, o welfare state no tarda a suscitar as reservas, e 
logo as crticas, de toda uma
escola de pensamento que se recusa a tratar os problemas de uma 
sociedade em marcha para

a abundncia no esprito de inquietao do tempo da Grande Crise. 
*Continuar a aplicar o
plano Beveridge em 1960  tomar o remdio aps a cura da doena+, 
dir-se- na Gr-
-Bretanha. Remdio contestvel, alis. No Afaz ele pesar o encargo 
da manuteno da comu-
nidade sobre os mais ovens? No penaliza, na sua tentativa de 
redistribuio quase clandes-
tina dos rendimentos, os mais activos, os mais competentes, os mais 
inventivas, os mais din-
micos? Pelos encargos que faz pesar sobre a economia nacional, no 
ser ele um freio da
melhoria geral das condies de vida? Pela acentuao posta na 
distribuio, e no na pro-
duo das riquezas, no  ele a expresso de um igualitarismo 
ingnuo, de inspirao mal-
thusiana? Sobretudo, por virtude do prprio princpio do 
Estado-providncia, no encoraja ele
a irresponsabilidade, a improvidncia, a demisso moral, quando o 
crescimento deveria permitir
que cada um satisfizesse quase todas as suas necessidades por meio do 
mercado? O welfare
state no deveria ser, na cobertura dos riscos, apenas marginal, 
visto que o aumento da pro-
dutividade, a subida do nvel de vida do  quase totalidade da 
populao a possibilidade de
assumir o custo do seguro individual? Considerando as suas 
implicaes econmicas, sociais,
morais, houve quem acabasse por se interrogar se o welfare state no 
mereceria ser conside-
rado, para os pases desenvolvidos, como uma forma lenta de suicdio 
nacional.
     Assim, a generalizao do welfare state faz estalar a ltima das 
trs contradies, ou
antes, das trs alternativas que nos parecem caracterizar 
profundamente os meados do sculo:
universality ou selectivity, isto , segurana colectiva na 
mediocridade ou cobertura individual
dos riscos, que exige a restaurao do sentido da responsabilidade; 
economia de mercado ou
dirigismo baseado na omnipotncia e na omnicompetncia do Estado; 
sociedade de consumo e
de prazer ou sociedade de poupana e de medida.

                                   G.   Dupeux, in Pierre Lon, vol. 
v, tomo ii, ob. cit.


                                                            429

               O PROGRESSIVO APAZIGUAMENTO D@-.11@.

FRAGILIDADE E CRISE DO ESTADO PROVIDENCIA

               O facto de o Estado Providncia ser uma forma poltica 
muito complexa e contraditria no

          significa s por si que tivesse que entrar em crise. Uma 
situao contraditria no produz uma
          crise se puder continuar a reproduzir-se como contradio. 
E assim teria sido se ofundamen-
          to em que assenta o Estado Providncia no tivesse, a certa 
altura, dado sinais de grandefra-
          gilidade. [...          1
               Assim se passou, de facto, durante o perodo (anos 
cinquenta e sessenta) de rpido cresci-
          mento econmico. Masj nofim desteperodo se comeou a 
notar que ojogo entre acumula-
          o e legitimaro no era um jogo de soma positiva (em que 
ambos os contendores podem
          ganhar) mas um jogo de soma zero (quando um ganha o outro 
perde). Como se sabe as despe-
          sas do capital social foram tornadas possveis com o 
excedente produzido na economia e, de
          resto, com o objectivo de o fazer aumentar a prazo. Sucede, 
porm, que sendo a luta poltica a
          lgica da expanso do Estado sobretudo no domnio das 
polticas sociais, o Estado tendeu a
          crescer mais e mais  medida que se democratizou a luta 
poltica e, sobretudo, tendeu a crescer
          independentemente da conjuntura econmica. E isto por trs 
razes principais.
               Em primeiro lugar, porque os direitos sociais, uma vez 
concedidos ou conquistados, so rgi-
          dos, e no recprocos, isto , constituem um interesse 
egostico, incondicional, a que no 'se
          renuncia porque simplesmente a ele se tem direito. Ao 
transformar condies econmicas
          factualmente favorveis em direitos, o Estado assume um 
compromisso de no alterar o
          padro distribucional uma vez estabelecido. [...           
  1 Em segundo lugar, a concesso de direitos
          tende a criar necessidades que suscitam a exigncia de 
novos direitos. A procura de bem-estar
          no tem limites e aquela que pode ser satisfeita pelo 
Estado depende teoricamente to-s do
          poder poltico dos grupos sociais interessados nela. [...  
          1 Em terceiro lugar, dado o carcter
          geral e abstracto dos direitos sociais, os 
dispndiosfinanceiros tendem a aumentar em pero-
          dos de inflao e de desemprego (mais subsdios de 
desemprego), ou seja, nos perodos em que
          a conjuntura econmica se deteriora. [...            1
               A crise do Estado Providncia deriva assim, antes de 
mais, de as despesas do Estado,
          apesar de dependerem dos recursos tornados disponveis pela 
acumulao, tenderem a des-
          vincular-se dos limites por ela impostos. Por outras 
palavras, o Estado tende afazer despesas
          acima dos seus recursos. Nisto consiste a crisefinanceira 
do Estado. [...            1
               Mas a crise do Estado Providncia tem ainda outros 
aspectos para alm dos estritamente
          financeiros. [...           1 Como bem salientou Weber, o 
tipo de nacionalidade (conjunto de regrasfor-

          mais de deciso) que subjaz ao Estado moderno  a 
nacionalidade burocrtica. A burocracia
          actua com base nas normas legais que a regem e mede a 
qualidade do seu desempenho pela
          obedincia estrita a essas normas, pouco curando do impacto 
real desse desempenho.
               O ltimo aspecto da crise do Estado Providncia  
sociolgico e cultural

               As despesas pblicas

               A crise do Estado Providncia , pois, umfenmeno 
muito complexo, to complexo e con-
          traditrio como o prprio Estado Providncia. As suas 
manifestaes so variadas e ambguas,
          pois o *grau da crise+ que pretendem significar  difcil 
de determinar Nos ltimos anos ins-
          talou-se em todos os pases capitalistas avanados o 
discurso da conteno das despesas
          pblicas.
               [...           1 A este nvel, identificamos duas 
causas principais de moderao da reduo efectiva das
          despesas pblicas.
               A primeira causa tem a ver com os j mencionados 
custos polticos para os governos que
          empreenderam redues drsticas nas despesas pblicas. 
Correm o risco de no sobreviverem
          s prximas eleies.

430

     A segunda causa da moderao das despesas pblicas diz respeito 
 composio interna das
despesas. Perante a reaco negativa do capital ao aumento das 
despesas improdutivas (que
beneficiam a populao no activa) ou indirectamente produtivas (que 
promovem a produti-
vidade ou a conteno dos salrios directos), sempre que esse 
aumento, como  sua tendncia,
exceda o que  requerido pela expanso da mais-valia, o Estado tem 
vindo a alterar progres-
sivamente o contedo do seu oramento de capital social de modo a 
compatibiliz-lo com as exi-
gncias de capital. So duas as alteraes principais. Por um lado, o 
Estado tende a privilegiar
o investimento social em detrimento do consumo social. O 
desenvolvimento das altas tecnolo-
gias e a mundializao dos processos de produo tornam elevadssimos 
os custos dos aumen -
tos de produtividade. Ao aumentar as suas despesas em investimento 
social o Estado socializa
parte destes custos e com isso cria condies para a rentabilizao 
dos investimentos privados.
     Por outro lado, mesmo as despesas de consumo social, isto , as 
despesas com as polticas
sociais em sentido restrito, tm vindo a sofrer alteraes na sua 
composio interna.

Confrontado com a crise financeira e impossibilitado de produzir 
cortes radicais nas Polticas
sociais, o Estado tem vindo a procurar que a produo de bens e 
servios de consumo colecti-
vo (educao, sade, habitao, etc.) se torne mais atractiva para o 
capital privado. Nessa
medida, o Estado retira-se sempre que pode da produo directa desses 
bens e servios e
subcontrata a sua produo com empresas privadas ou, sempre que tal 
no seja possvel,
subsidia esta mesma produo. Em vez de produzir hospitais 
subcontrata a sua produo ao
capital privado (as Misericrdias, entre ns). Em vez de construir e 
administrar prises, sub-
contrata a execuo de penas a empresas privadas. Em vez de produzir 
habitao social cria
incentivos  sua produo por parte do capital privado. Em vez de 
ampliara segurana social
estimula a criao de seguros privados para riscos especficos.
     Ao dar condies de rentabilidade ao capital nestas reas, o 
Estado cria novas oportuni-
dades de investimento. As condies sero tanto melhores quanto mais 
capital-intensivajor a
pro - duo dos bens e servios.
     A crise do Estado Providncia  assim umfenmeno complexo e 
cheio de ambiguidades.

                                        Boaventura Sousa Santos, ob. 
cit.






                                   DOIS DISSIDENTES CLEBRES








                     10

               Alexandre Soljenitsyne



                                                            431

IS a






                                        A&,








             Mikhail Gorbatchei,



          A QUEDA DO MURO DE BERLIM








No Vero de 1989, depois de milhare,y de alemes de Leste 
teremfgido, para a RFA por todos os meios,
        o muro cai em 10 de Novembro


432

     A.   O endividamento dos pases de Leste em 1989


                  Estados membros
                  do COMECON
Dir               Estados socialistas
                  autnomos                    AS ECONOMIAS

                  or Esta                      DA EUROPA



             (20  Dvida global p          do
                  em 1989                      DE LESTE
                  (em bilies de dlares)

                                               A
     OLNIA  LI   R S S








R F. A.



          STRIA



                   ROMNIA


                  AR NEGRO


     <





                      0
                     CIA



      B.  Produo e taxa de desemprego
15 -
10 -                                          C"
5 -
  o       n                              r71
  5


- 10
                                                  Taxa de desemprego
                                                  (em % no final de 
1990)
- 15

                                                  Produo agrcola
- 20  Variao em %
      entre 1989 e 199
                           O                      Produo industrial

- 25
                                                  no disponvel

- 30                                              Segundo a ONU




                                                            433

PRINCIPAIS ORGANIZAES POLTICAS REGIONAIS

  A







                                                                 G7,

                         Cnc





                                                       Addis-Abeb
Equador





               Trpico`de @apricr








                    Sede das organizaes

                              Conselho da Europa

                              Associao das Naes da
                              Asia de Sudeste (A8EAN)


Organisao dos Estados            Organizao da Unidade
americanos (OEA)                   africana (OUA)

Cuba  membro da OEA mas o seu     Liga dos Estados Arabes
governo foi excludo dela em 1962  (mais a OLP)





LOCALIZAO DAS ZONAS DE FRICO DE 1945 AOS NOSSOS DIAS







                                                            F1 0-j

                              F3
                                                  F3                F


                     F1

                                                                 F

                                             F2                      
F2

                     F4

                     F4
                    4 000 km


               F1 - Frente separando a Africa Central negra e a 
Africa do Norte islmica.  F6 - Linha de frico Este-Oeste
               F2 - Frente anti-apartheid                            
                         F7 - Frente de contacto Norte-Sul e 
Este-Oeste
               F3 - Frente separando os yankees desenvolvidos da 
Amrica Central              F8 - Cortina de ferro e hoje zona de 
afrontamentos entre minorias
               F4 - Frente latino-americana dominada por crises 
internas e por contesta- F9 - Questo irlandesa
               es de fronteiras entre Estados                      
                    F1 O - Frico entre poderes centrais e 
movimentos autonomistas
               F5 - Frente de contacto entre a China e os seus 
vizinhos





434

                    ..........................................

                     0..

               A CONFERENCIA DE HELSNQUIA.- 11975

          OS ESTADOS PARTICIPANTES NA CONFERENCIA SOBRE A SEGURANA
          E COOPERA A O NA EUROPA:

          Reafirmando o seu objectivo de promover melhores relaes 
entre eles e conseguir

     condies para que os seus povos possam viver numa paz autntica 
e verdadeira, livre de
     qualquer ameaa ou atentado contra a sua segurana;
          Convencidos da necessidade de realizar esforos para 
conseguir que a distenso seja um
     processo contnuo e cada vez mais vivel e geral, de dimenso 
universal, e de que a apli-
     cao dos resultados da Conferncia            constituir uma 
contribuio fundamental a este
     processo;
          Considerando que a solidariedade entre os povos, assim como 
o objectivo comum dos
     Estados participantes [...      1 devem conduzir a melhores e 
mais estreitas relaes entre eles
     em todos os campos, e deste modo superar a confrontao 
resultante do carcter das suas
     relaes passadas, e desenvolver um melhor entendimento mtuo;
          Conscientes da sua histria comum e reconhecendo que a 
existncia de elementos
     comuns nas suas tradies e valores podem ajud-los a estreitar 
as suas relaes, e dese-
     josos de encontrar meios, tendo plena conscincia da 
individualidade e da diversidade das
     suas posies e opinies, para unir os seus esforos com vista a 
superar a desconfiana e
     aumentar a confiana, resolvendo os problemas que os separam e 
cooperando no interes-
     se da humanidade; [...       1
          Reconhecendo a estreita relao que existe entre a paz e a 
segurana na Europa e em
     todo o mundo, e consci      .     entes da necessidade de que 
cada um deles contribua para o forta-
     lecimento para a paz e a segurana mundiais, assim como o 
fomento dos direitos funda-
     mentais, do progresso econmico e social e do bem-estar de todos 
os povos; [...       1
          Declaram cada um deles a sua determinao de respeitar e 
pr em prtica nas suas rela-
     es com os outros Estados participantes, independentemente dos 
seus sistemas polticos,
     econmicas ou sociais, assim como a sua dimenso, situao 
geogrfica ou nvel de
     desenvolvimento, os princpios seguintes, todos eles de primeira 
importncia e que regem
     as suas relaes mtuas:

          I - Igualdade soberana e respeito pelos direitos inerentes 
da soberania.
          II - Absteno do recurso  ameaa ou ao uso da fora.
          III - Inviolabilidade dasfronteiras.
          IV - Integridade territorial dos Estados.
          V - Resoluo dos conflitos por meios pacficos.
          VI - No interveno nos assuntos internos.
          VII -Respeito pelos direitos humanos e as liberdades 
fundamentais, incluindo
          a liberdade de pensamento, conscincia, religio ou 
crenas.

          VIII - Igualdade de direitos e livre determinao dos 
povos.
          IX - Cooperao entre os Estados.
          X    - Cumprimento de boa f das obrigaes contradas 
segundo o direito
               internacional.

                                        .. . . ...................

. . ........

               Acta final da Conferncia sobre Segurana e Cooperao 
na Europa, HeIsnquia, 1 de Agosto de 1975.



                                                            435

                         NA PERSPECTIVA DO 3.9 MILNIO








                                                            Lk

                                                            #Vr








                                                                 lia

               4
                                                              j 1
          Encontro de orao pela paz de lderes religiosos - Assis, 
1986

A. Campo de refugiados em 1991       SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL,





                                   Ajuda humanitria  Etipia

                                             N




(-uros najronteira do Iraque





                 . .........
                                                            437
A MARCHA PARA UM MUNDO MAIS PACFICO

               A. A poltica externa da URSS e o desarmamento

               Um dos xitos mais espectaculares de Mikhail 
Gorbatchev foi ter conseguido, em poucos
          anos, fazer perder  URSS a sua imagem belicosa. Com 
certeza, que j os seus antecessores no
          deixaram de nos seus discursos invocar a paz. O mrito - ou 
a habilidade - do novo secre-
          trio-geralfoi ter convencido defiacto da sua vontade de 
passar das palavras aos actos ao dar,
          rapidamente, provas concretas da sua boaf em quatro 
direces: ,
               1.' A renovao ou o melhoramento do dilogo com 
numerosos Estados (China, Israel,
          Amrica Latina, Europa, e, bem entendido, os Estados Unidos 
... );
               2.'A assinatura (em Dezembro de 1987) de um tratado 
com os Estados Unidos sobre a eli-
          minao dos msseis nucleares intermdios (FNI), assim como 
a insistncia sobre os E. U. e os
          pases europeus para chegarem a um desarmamento geral;
               3.' A retirada progressiva, a contar de 15 de Maio de 
1988, das tropas soviticas do
          Afeganisto;
               4.' O anncio (7 de Dezembro de 1988) de uma reduo 
de 1 0% das foras militares da
          URSS.
               Trata-se, no tenhamos dvidas, de realizaes 
limitadas                 mas prticas. Elas sugerem,
          se no uma nova poltica externa, pelo menos um novo estilo 
de poltica estrangeira fundada no
          realismo e no dilogo.

                                             L-F. Soulet, ob. cit., 
p. 139.






                         B. O comeo do fim do pesadelo nuclear








                         M. Gorbatchev e R. Reagan assinam em 
Washington,

     em 1987, o tratado para a eliminao de alguns tipos de msseis 
nucleares



438

"tANSFORMAES IDEOLIOGICAS, E UNHAS ESTRATGICAS DOS ANOS 80

     O tratado de no proliferao nuclear





                                                                 36








                                                  29            44


                                                            9    so







                                                                 2




                                   Pacto de varsvia      OTAN


                                                       Implantao e 
nome de:
                 Implantao

               e nome deSS-20
               12                                  de cruzeiro








                                   1    Pershing + Mssil


Implantao  de:      18          20
                      Fora de ataque francesa
A SS-4       O SS-12  SS BS S-3



* SS-5       a SS-23

O inventrio dasforas em presena com vista 'destruio de muitas - 
1987



          D. As centrais nucleares em 1980

centrais nucleares cuja abertura
 anterior a 1980
centrais nucleares (desde 1980,
ou abertas durante os anos 80),
com um ou vrios reactores
complementares








                                                       part da 
.1.cffi@jdad.
                                                        
d..,ig,@m,,,d.ar
                                                        @a prd,, Ma
                                                        da


                                                                 80%





                                                                 50

                                                                 40%


                         Z,                             30%
                                                       20%

                                                       10%




                                                            439

                         TRABALHOS PRATI COE
                                             ......... .
     A.
     1 .  Comente a afirmao: o conflito de geraes surge 
claramente como um luxo que s
          puderam usufruir as geraes dos 30 (anos) gloriosos.

     2.   Justifique a denominao aplicada ao ano de 1989 de *Outono 
dos Povos+ e tente
          recor ar-se e uma outra usada para re er r o ano e 1848.

     3.   Indique as dificuldades que se colocam  efectivaro da 
ideia defendida por Gorbatchev
          da *casa comum dos Urais ao Atlntico+.

     4.   Interprete o sentido dos fluxos da droga (doc. 1)


COMERCIO INTERNACIONAL DAS DROGAS ILICITAS EM 10,90








               Equade
                120 t

                 Pe,                                                 
         c,
               138 300








                                                  Comrcio da cocana

                                                  M+ Comrcio do pio

                                                  64 400 t Quantidade 
produzida
                                                       em toneladas


     B.   Trf^@!ho, de sntes@-@ Que futuro para o Planeta?

          Tenha em conta o texto sobre a ideia de progresso e os 
seguintes tpicos:

                   Dilogo e cooperao entre regies com vista ao 
desenvolvimento.
                   Integraro econmica e associaes polticas 
internacionais.
                   Instituies democrticas.
                   Direitos humanos.
                   Preservao dos recursos naturais, manuteno do 
equilbrio ambientam.
                   Salvaguarda do patrimnio construido e natural.


440

          UM DEBATE NORTE-SUL: O QUE  O PROGRESSO?

A                                        UM MITO OCIDENTA1,
     A iluso reside na confuso entre duas ordens de temporalidade: 
o tempo cumulativo do
*desenvolvimento cientfico e tcnico+, marcado por uma evoluo 
linear de inovao per-
manente; e o tempo repetitivo do universo poltico-simblico. No 
primeiro caso, aparecem solu-
es sucessivas e cada vez mais performantes para problemas 
quantificveis; no outro caso, em
cada gerao se descobre e se esquece que existem problemas 
definitivamente sem soluo.
     Tem acontecido que haja grupos humanos capazes de adoptar uma 
lngua menos malevel
ou uma religio menos elaborada, ou de trocar um Estado democrtico 
por uma ditadura - mas
nunca se viu trocar mquinas agrcolas ou meios de transporte 
tecnologicamente mais satis~
fatrios por alfaias ou transportes antigos. No h regresso das 
linhas da vida (as combina-

es genticas vo no sentido do mais complexo) e tambm no h 
regresso tcnica, a mdio
ou a longo prazo. Os objectos encaminham-se para a sua perfeio: a 
dinmica dos utenslios,
como a do saber, vai melhorando constantemente.  uma tendncia 
universal, que atravessa a
Histria e a Geografia independentemente das determinaes tnicas: a 
relao do homem com
as coisas rege-se por uma lgica previsvel - embora aberta e no 
programvel -, que  a
lgica do progresso.
     Por contraste,  evidente que as relaes dos homens uns com os 
outros tm a ver com outras
leis e a diferena entre *selvagens+ e *civilizados+, que tem um 
sentido detestvel na histria tc-
nica, no tem sentido na histria da arte, das religies, das lnguas 
ou dasformas de autoridade.
O domnio da energia progrediu por um factor 1 000 desde o princpio 
da nossa era, mas Luther
King no  uma personalidade moral 1 000 vezes superiora Jesus 
Cristo. O computador  um pro-
gresso em relao ao baco, mas Andy Warhol no o  em relao a 
Ticiano, nem, Husserl  um
filsofo mais *profundo+ do que Plato. A noo de progresso no tem 
nenhum sentido na ordem
simblica, intelectual, afectiva ou psicolgica. Seria fcil 
demonstrar que tambm no o tem na
ordem poltica (as guerras do sculo XX so mais selvagens e 
mortferas que as do XIX, e estas que
as do XVIII, etc.). Na aparelhagem tcnica e cientfica, no domnio 
das coisas (ou do homem
enquanto coisa na Medicina), h um antes e um depois objectivos e 
verificveis; nas formas de
dominao do homem pelo homem no h antes e depois seno subjectivos 
e reversveis.

     Globalmente positivo

     O mito do progresso continua operativo - no Norte, de maneira 
latente ou residual; no Sul,
de maneira motora e propulsora. Uma ideia mais ou menos mistificada, 
mas a que todos ade~
rem, torna-se um facto social objectivo, que deve ser tratado como 
tal. Tanto mais que o seu
papel no Terceiro Mundo pode ser encarado como *globalmente 
positivo+. O desprezo do
dinheiro  privilgio dos ricos; assim tambm o cepticismo face ao 
progresso  apangio dos
que, historicamente, j beneficiaram dele. A redeno poltica pelo 
progresso tcnico  uma
ideia falsa, mas da qual os pobres e oprimidos tm verdadeiramente 
necessidade para afrontar
a modernidade e o espectculo terrvel de injustias que o acompanha, 
sem carem no desespero
ou na delinquncia.
     O problema  que o Ocidente rico j no acredita muito nos seus 
ideais e nos seus mitos
redentores. Depois da quebra do socialismo, no esperamos do futuro 
fracturas decisivas

que possam modificar o nosso destino. No vemos mais rupturas para 
consumar, mas melho-
ramentos ao quadro da democracia tradicional. Chamamos-lhe *gerir+. 
Na casa-me, a espe-
rana morreu. Mas esta morte deve ser mundializada?

          Para isso,      era preciso que no tivssemos respeito 
pelo sofrimento humano. Duplicar, no
     espao de um sculo, a esperana mdia de vida, triunfar sobre 
micrbios e vrus, afastar os
     limites do analfabetismo, aumentar a energia que cada um pode 
consumir, so objectivos
     atraentes e legtimos em si mesmos. No trazem a chave da 
felicidade, nem a sociedade sem
     classes, mas tero o imenso mrito de encher ofosso entre os 
dois hemisfrios.
          Para j,  obvio que o Norte e o Sul cultivam 
instintivamente duas atitudes opostas diante da
     Histria e, portanto, do progresso. Orfo do presente, o Sul no 
se quer refugiar num passado
     sinnimo          pior, e volta a ol ar para o,futuro, que seria 
sinnimo         melhor O Norte, ao con-
     trrio, est  rfo dofuturo e vai-se recentrando -  luz da 
utopia - no passado, de que exal-
     ta todas as virtu s cvicas, e na memria.  A Europa acumu a 
apaixona mente arquivos, apro-
     veita tudo para registos, coleces e museus, embebeda-se de 
comemoraes e aniversarias.
     Uma viso retrospectiva ou antiquria da Histria, de que j no 
se  sujeito activo, mas espec-
     tador nostlgico e enternecido, e que sucedeu s vises 
prospecti        .     vas e messi     .     ni     .     cas.
          Dantes, a Natureza era um valor conservador, oposto  
Histria. Ora a ecologia, nico movi-
     mento poltico ascendente ou novo, fez dela um mito mobilizador. 
(...              ) Mesmo a ideia de
     Repblica [...       1 se pode interpretar como uma forma de 
volta ao antigo, face s derivas da Unio
     Europeia e ao modelo mercantil anglo-saxnico de democracia, 
actualmente dominantes e por-
     tadoras de grandes estragos. * Conservar+ , de novo, um termo 
positivo, at chique, at pro-
     gressista...
          Tudosepassacomoseafnofuturosetivesserefugiadoentreosmais 
obresdoPlaneta;
     os ricos vo-se habituando a ver no progresso no a procura do 
melhor,            mas *o anncio do
     pi     .     or+, como diz Kundera. O perigo passa a ser a 
margem deixada ao niilismo e ao cinismo. Se
     o progresso est morto, tudo  permitido. Ganha um presente 
reduzido a si mesmo, juntando
     rapidamente dinheiro por todos os meios.
          Como sair disto? Com certeza que no pela inveno de outra 
utopia (a *utopia n+) ou de
     um novo messianismo secular Talvez por uma srie de lutas, 
pontuais e obstinadas, de funda-

     mentao tica, se no pelo melhor ideal, pelo menos contra o 
pior real. Parece-nos pssi         .     mo o
     dilema em que o decorrer dos acontecimentos tende afechar-nos: 
ou, em nome da modernidade,
     trans rmar o Planeta num supermercado e tratar toda a actividade 
humana, pblica e priva-
     Ifo
     da, como uma lei de oferta e procura; ou, em nome da identidade, 
encerrar-se nosfantasmas
     vingadores da pureza perdida, na excluso dos outros, na 
integridade ideolgica, comunitria
     ou confessional.
          Passar da iluso tecnocrtica, segundo a qual o progresso 
tcnico basta para resolver os
     problemas polticos e culturais, para o furor ideocrtico, para 
o qual uma bela norma moral
     pode substituir solues econmicas e tcnicas... seria passar 
de uma caricatura do Norte a
     uma caricatura do Sul. Entre a poltica do dlar e as polticas 
de Deus, poderamos inventar
     uma outra espcie de espao pblico, digno do Iluminismo, mas 
sem as suas iluses, que jun -
     tasse ao pessi     .      mi     .     smo da inteligncia o 
optimismo da vontade. Resumindo,  preciso desacredi-
     tar os que pensam que toda a crtica do mito do progresso  
necessariamente reaccionria.

     Rgis Debray, Viragem, in revista do *Metanoia+, n' 17-18, 
Junho-Dezembro 1994.







442

LXICO
                         A
Algenos - Povos estrangeiros.
Apartheid - Literalmente, desenvolvimento separado das
raas.

Autodeterminao - Direito dos povos escolherem o seu
destino poltico. No caso das colnias o direito de esco-
lherem a independncia ou manterem a ligao com a
metrpole.

                         B

Boers - Termo holands que significa *camponeses+.

                      C

Carismtico - O poder que tem um chefe poltico de encar-
nar aos olhos das massas o interesse supremo da nao.

Tornado um gula, goza da venerao dos seus concidados
que esperam dele benefcios.  uma analogia com os dons
do Esprito Santo concedidos a fiis para o bem geral da
Igreja.

Commo~alth - Definida em 1949 como um conjunto
multi-tnico e multi-lingustico, no qual o soberano brit-
nico permanece como chefe simblico, privado de poder
efectivo. Reagrupa hoje 48 pases.

Comunidade - Tipo de organizao social onde os homens,
muitas vezes desde a nascena, so encerrados num tecido
de relaes estreitas concebidas como uma ordem natural.
Contrape-se a sociedade ou associao onde os homens
estabelecem entre si contactos, com uma finalidade limi-
tada. A vida urbana priviligia este ltimo tipo.
Containment - Conteno, condicionamento.


Dispora - Disperso de povos por motivos polticos ou
reli josos, em virtude de perseguio de grupos domina-
dores intolerantes.

                      F

Fundamentalismo - Corrente de           religio islmica que con-
dena a modernizao e pretende restabelecer a pureza da
doutrina do Coro, se necessrios, recorrendo  guerra santa.

                         G

Giap - General vietriamita membro do partido comunista,
estratega da luta contra a Frana, o governo de Salgo e as
tropas dos EUA.

Guevara, Che - Poltico e guerrilheiro marxista que nasceu
na Argentina em 1928 e morreu na Bolvia em 1967.
Participou em movimentos revolucionrios na Guaternala,
no Mxico, em Cuba e na Bolvia.


Hippies - Movimento comunitrio e libertrio que defendia a
paz, o amor livre e a igualdade entre o homem e a mulher.


444

Lnder - Regies; Estados regionais.


                     @M

Macartismo - Poltica anti-comunista seguida nos Estados
Unidos no perodo da guerra fria. Inspirada pelo senador
Me Carthy.

Mandato - Administrao de um territrio (em virtude de

uma deciso de uma instncia internacional) por uma
potncia estrangeira admnistrante com vista a progressi-
vamente conduzir o primeiro  autonomia.

Maoismo - Regime marxista de feio rural instaurado na
China por Mao Ts tung.  igualitrio, voluntarista e anti-
tecnocrtico.

Mosca e Paretto - Pensadores polticos italianos autores de
crticas  democracia parlamentar.


                      p

Pan-americanismo - Poltica tendente  melhoria e desen-
volvimento das relaes entre as rpublicas das amricas.

Pan-arabismo - Equivalente a pan-americanismo mas refe-
rente s naes rabes.


                      s

Sionismo - Movimento poltico e tnico que apontou como
objectivo fundamental a organizao de um estado judai-
co no territrio da Palestina.


                      T

Teoria cintica dos gases - Esta teoria foi inventada por
Boluman no sculo passado e explica as propriedades
dos gases, nomeadamente as leis que regulam as variaes
da sua presso e da sua temperatura, atravs de movimen-
tos muito rpidos e desordenados em relao s inmeras
molculas que os constituem. Estes movimentos produ-
zem-se ao acaso, mas em grande nmero, o que permite
prever o seu resultado global atravs da lei dos grandes
nmeros. Deste modo, e segundo a teoria cintica, as leis
fsicas respeitantes aos gases so leis estatsticas.
Torpedo - Modelo de automvel da poca.

                     IV

Vietcong - Membros da Frente Nacional de Libertao do
Vietriame do Sul. De Viet-nam (vietnamita) e cong-san
(comunista).

     `SDGr-_@,'TES BIBL10GRA            FICAS*

1. OBRAS DE CARACTER GERAI,

ARES, Philippe, e DUBY, Georges (dir.), Histria da Vida Privada, 4.' 
e 5.' vols. Afrontamento/Crculo de
Leitores, Lisboa, 1989-1990.
CHATELET, Franois (dir.), Histria da Filosofia, Ideias, Doutrinas, 
D. Quixote, Lisboa, 1974-1978.

CHATELET, Franois e outros, Histria das Ideias Polticas, Rio de 
Janeiro, Zahar Ed. 1983.
CHATELET, Albert, e GROSLIER, Bernard Philippe, Histria da Arte, 3.' 
vol., LAROUSSE/Crculo de Leitores,
1990.
DELOUCHE, Frdric e outros, Histria da Europa, Lisboa, Minerva, 
1992.
DUROSELLE, J.-B., Histria da Europa, Lisboa, D. Quixote, 1990.
PIJOAN, J., Histria da Arte, 9.' e 10.' volumes, Lisboa, Publ. Alfa, 
1972.
LON, Pierre (dir.), Histria Econmica e Social do Mundo, 4.', 5.' e 
6.' vols., 1, tomos 1 e 11, S da Costa, Lisboa,
1981-1984.
MARQUES, A. H. de Oliveira, Histria de Portugal, 2.' vol., Palas, 
1981-1983.
MATTOSO, Jos (dir.), Histria de Portugal, 5.', 6.', 7.' e 8.' 
vols., Crculo de Leitores, Lisboa, 1992-1993.
PRADA, Valentin Vasquez de, Histria Econmica Mundial, 2 vols., Liv. 
Civilizao, Ed., Porto, 1987.
SARAIVA, J. Hermano (dir.), Histria de Portugal, 3.' vol., Publ. 
Alfa, Lisboa, 1983-1986.
SERRO, Joel (dir.), Dicionrio de Histria de Portugal, 4 vols., 
Iniciativas Editoriais, 1963-197 1.
VIDAL-NAQUET (dir.), Atlas Histrico - Da Pr-Histria aos Nossos 
Dias, Lisboa, Crculo de Leitores, 1990.

2. OBRAS DE CARACTER ESPECFICO

TEMA 11

COSTA, Alves da, Breve Histria do Cinema Portugus (1896-1962), 
Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, s.d.
DROZ, B. e ROWLEY, A., Histria do Sculo xx, 2 vols., Lisboa, 
Publicaes Dom Quixote, 1988.
FRANA, Jos Augusto, A Arte em Portugal no Sculo xx (1911-1961), 
Lisboa, Bertrand, 19884.
IDEM, A Arte e a Sociedade Portuguesa no Sculo xx, Lisboa, Livros 
Horizonte, 1985.
IDEM, O Modernismo na Arte Portuguesa, Lisboa, Icalp, 199 1.
JOLL, James, A Europa desde 1870, Lisboa, Publicaes Dom Quixote, 
1982.
JDICE, Nuno, A Era do *Orfeu+, Lisboa, Teorema, 1986.
MARQUES, A.H. de Oliveira, (direco de), Portugal - Da Monarquia 
para a Repblica, Lisboa, Estampa, 1991.
MNICA, Maria Filomena, Educao e Sociedade no Portugal de Salazar 
(A Escola Primria salazarista, 1926~1939),
Lisboa, Presena, 1978.
Panorama das Ideias Contemporneas, Lisboa, 1968.
QUADROS, Antnio, O Primeiro Modernismo Portugus, Lisboa, 
Europa-Amrica, 1989.
RM0NI), Ren, Introduo  Histria do Nosso Tempo - Do Antigo 
Regime aos Nossos Dias, Lisboa, Gradiva, 1994.
ROSAS, Fernando, Portugal e o Estado Novo, Lisboa, Estampa, 1992. **
THIBAULT, Pierre, O Perodo das Ditaduras (1918-1947), Lisboa, D. 
Quixote, 198 1.
TORRE, Guillermo de, Histria das Literaturas de Vanguarda, 6 vols., 
Lisboa, Presena, s.d.

TEMA 12

AVILLEZ, M.a joo@ Do Fundo da Revoluo, Lisboa, Ed. Pblico 1994.
DROZ, Bernard, e R^LEY, Anthony, Histria do Sculo xx, 2.'vol., 
Lisboa, Dom Quxote, 1988-1990.
DUROSELLE, J. B., A Europa de 1815 aos Nossos Dias, So Paulo, 
Pioneira, 1989.
FERREIRA, J. Medeiros, Ensaio Histrico Sobre a Revoluo do 25 de 
Abril. O Perodo Pr-Constitucional, Lisboa,
   Imprensa Naconal-Casa da Moeda, 1983.
     Grandes (Os) Acontecimentos do Sculo xx, Lisboa, Seleces do 
Readers Digest, 1984.
KENNEDY, Paul, Ascenso e Queda das Grandes Potncias, 2 vols., 
Lisboa, Europa Amrica, 1990.
*Portugal 1974- 1984: dez anos de transformao social+, actas do 
colquio, Revista Crtica de Cincias Sociais, ri.' 15 a
20, 1985-1986.
RM0NI), Ren, Introduo  Histria do Nosso Tempo. Do Antigo Regime 
aos Nossos Dias, Lisboa, Gradiva, 1994.
REIS, Antnio (dir.), Histria de Portugal Contemporneo, Lisboa, 
Alta.
SARAIVA, Jos Hermano *dir. edio portuguesa), Histria Universal, 
vols. ix e x, Lisboa, Alfa, 1987.
*Seminrio 25 de Abril - 10 Anos Depois+, Lisboa, Associao 25 de 
Abril, 1985.
THOMPSON, R, A Guerra no Mundo Depois de 1945, Lisboa, Verbo, 1983.



Aconselham-se exclusivamente obras em lngua portuguesa que no 
esgotam, obviamente, a bibliografia publicado sobre cada Tema
 Obra j aconselhada para os Temas anteriores.

                                                            445

     I~O E 01@RAL

APRESENTAO 14

          DA NIV'\] \LIDA M`I V1 l)IX (-1-1,Tt @RA DEsDE O COMEO

]Alam
A'n-'NIII.XIX)',,@1)()'-@1('t,'1,(,)XX-.-\('R[S 
TRADICIONALS^11YFURAS
          V NA ARTI-A 1 RRADIAkO DA CULTURA l)I-1 NIASSAS


CRONOLOGIA         7                           3. As concepes 
psicanalticas e o seu impacto na
                                               cultura e nos 
comportamentos: a libertao dos
          ATITtIDES E PADRES (.1.'LTURAIS DA  constrangimentos 
sociais / 69

        IM SOCIEDADE RURGUESA NO IXUlAR DO     DOCUMENTOS / 70
          SCULO 1 1 1
          , - 1                                TRABALHOS PRATICOS / 
83

     O PRESTGIO DA                  F-, A CRENA NO
V PR(-)CjRFSSOCIVII-IZACI(,)NAI,,
     A W                   RACIONALIS---FA 1 13 AS 1NOVA0L@> 
l@,@@'(,)1,(-'CIONARIAS
                    V, ,\(-RIAAOLI-I-F-R,\Rlj\EARTIS-I'ICAISS
1. O cientismo      14


2. O positivismo                               14   1.  A 
proliferao e diversidade de inovaes formais;

DOCUMENTOS                                     15       as 
experincias de vanguarda / 86

TRABALHOS PRATICOS / 19                             2.  A construo 
de um novo universo plstico:
                                                        a exaltaro 
da cor; o desmantelamento da perspectiva
                                                        e a viso 
intelectualista do espao / 87
        CO?,li-IA--,,A NOS VALORES.N,10RAIS,
                                                    3.  A dimenso 
social da literatura e da arte / 89
1w BURGt_1,SES / 21

                                   4.   Da descoberta da 
anterioridade  explorao do

1. O imprio da famlia: respeito pelas convenes      inconsciente; 
a revoluo surrealista / 95
   religiosas e sociais / 22                        5.  O movimento 
modernista em Portugal:
DOCUMENTOS / 23                                         uma sntese 
de tendncias / 96


TRABALHOS PRATICOS          28                                  
DOCUMENTOS / 97

                                                                
TRABALHOS PRATICOS / 137


          A ('R ISF DOS    LOR Ir",) Ir, V,@ f . R  1

          RtIVII                                     \W111,129  1 R 
l@ @\ 1) 1 A O DA CULTURA



                                                     DOS        DENI 
\1@,SAS'/ 143
        o RW1111,11ii-`,_i  IOS                      11

1w VAt-ORl-@ FRADICIf       3 1
                                                                
"OM(ft1(@11,'@ VIZAA0 E ESTANDARDIZAAO


1.   O choque da guerra e a crise de conscincia da        1w DOS( 
1),\1 1,ORTAMENTOS E PADRFS
     civilizao ocidental / 32                            CU 1,1 t @ 
k A  S 11 145
2.   A massificao da vida urbana: desagregao das
     solidariedades e desenrazamento individual.          1. A 
cultura ao servio dos estados / 146
     A alienao do trabalho industrial e burocrtico.     2. A 
generalizao do ensino, como instrumento de
     A anomia social / 33                                  inculcaro 
de valores e de imposio de uma nova
3.   A emancipao da mulher e as alteraes da estrutura  disciplina 
social / 147
     familiar / 34                                         3. O papel 
dos media / 148
4.   Inquietao e instabilidade nos comportamentos        DOCUMENTOS 
/ 150
     sociais: a acelerao da mobilidade espacial          TRABALHOS 
PRATICOS               175
     e do ritmo de vida / 35

DOCUMENTOS / 37

TRABALHOS PRATICOS             63                          P1'@ 1 1 
AN11-1`S_FAU(M
                                   DACI 11@ I@ "I >1 M\!,,,,AS/177
     A       J@
                     107


                                                            1. O 
desejo de evaso e o imaginrio mtico       178
1. A reaco antipositivista: o intuicionismo     68        2. Os 
grandes entretenimentos colectivos / 179
2. As incertezas da cincia: o acaso e a indeterminao; a  
DOCUMENTOS / 180
   revoluo desencadeado pela teoria da relatividade / 68  TRABALHOS 
PRATICOS / 194
1111 1 1 11 1 11 111                                                 
        1

          ...... ....
NDICE GERAL

TENSOES POLITICAS E EQUILIBRIOS GEOESTRATGICOS, DA SECUNDA
GUIERRA MUNDIAI, AOS NOSSOS DIAS / 199

CRONOLOGIA / 200

O AFRONTAMENTO BIPOLAR DO PS-
-GUERRA (1945-1,954)/203


     O FIM DA GUERRA E AS PROMESSAS
1w DE PAZ / 205

1 . A era do dilogo impossvel / 206
2.   1945 - ano zero da Europa: da conferncia de Ialta
     aos acordos de Potsdam / 206
3.   A partilha de zonas de influncia e o novo traado
     da Europa / 207
4.   A organizao das Naes Unidas: a democracia
     estendida s relaes internacionais / 208
DOCUMENTOS / 209
TRABALHOS PRATICOS / 223

      A DEFINICO DAS AREAS GEOPOLITICAS / 225
1;w@
1.   A inverso das alianas e o incio da guerra fria / 226
2.   O expansionismo do bloco sovitico / 228
3.   A resposta americana / 230
4.   A irradiao da guerra fria / 232
DOCUMENTOS / 234
TRABALHOS PRATICOS / 262

     REPERCUSSO DAS TENSl-,S
     INTERNACIONAIS NA POL'I'ICA INTERNA
     DOS ESTADOS UNIDOS / 265

1.   A ascenso dos partidos de esquerda na Europa
     do ps-guerra / 266
2.   As reformas sociais e o Welfare State / 266
3.   A reaco conservadora e o anticomunismo / 267
DOCUMENTOS / 268
TRABALHOS PRATICOS / 272

O BIPOLARISIMO EN1,1 QU'FSTO
(1955-1973) 1273

     A COEXISTENCIA PACFICA f, O
1w AI.ARGA,\,IENTO DAS TENS1'-IS / 275

1.   O apaziguamento entre Moscovo e Washington ou
     a conteno de um conflito nuclear / 276
2.   O surto de contestao: a recusa dos referentes
     ideolgicos e culturais impostos pelas duas
     grandes potncias / 278
DOCUMENTOS / 280
TRABALHOS PRATICOS / 302

A POLTICA DE NO ALINHAMENTO E A
INDEPENDENCIA DOS PASES DO
TERCEIRO MUNDO / 307

1.   Os movimentos nacionalistas: as foras anti-coloniais
     das metrpoles e as vanguardas locais / 308
2.   Etapas e modalidades da descolonizao / 309
3.   Os basties brancos na Africa Austral / 310
4.   A poltica ultramarina portuguesa / 311
DOCUMENTOS / 313
TRABALHOS PRATICOS / 335


V,      AFIRMAO DAS NOVAS POTENCIAS                   339

1.   O rpido crescimento do Japo / 340
2.   O afastamento da China em relao
     ao bloco sovitico / 340
3.   Formao da CEE: recuperao europeia
     e unidade econmica / 342
DOCUMENTOS / 343
TRABALHOS PRATICOS / 351
          O PROGRESSIVO APAZIGUAMENTO
          DOS ANOS 70 (1974-1980) / 353

     AS DIFICULDADES DOS ANOS 70 / 355
                     1w
1.   Os entraves ao crescimento econmico
     nos pases industrializados / 356

2.   Os problemas polticos do Terceiro Mundo /357

DOCUMENTOS / 359
TRABALHOS PRATICOS / 371

      A QUEDA DOS LTIINdOS R[,-'(.',IMES AUTO-
V, RITARIOS NA EURO11A OCI DI-1'NTAL / 375

1.   Portugal em tempo de mudana / 377
2.   As transformaes democrticas na Grcia
     e na Espanha 381
DOCUMENTOS           382
TRABALHOS PRATICOS / 412
                     1@@

x~ I'RANSI'ORMACl-",S IDEOLGICAS E
V l.INHASI-@',S-I'RA'I'I-,C)ICASDOSANOS80/425

1.   O pragmatismo poltico: o fim do Estado-Providncia
     e a afirmao do neo-liberalismo / 426
2.   O recuo do marxismo / 426
3.   O movimento pacifista e as negociaes para
     o desarmamento / 428
DOCUMENTOS / 429
TRABALHOS PRATICOS / 440
LXICO / 443
SUGESTES BIBLIOGRAFICAS / 445

Fontes iconogrficas: as obras citadas ou referidas nas sugestes 
bibliogrficas bem como fotografias das autoras.
Os documentos e textos extrados das fontes estrangeiras citadas so 
traduo das autoras.
